Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

domingo, 29 de abril de 2007

Um deleite

Chet Baker é um dos músicos americanos que eu mais gosto. Com um estilo minimalista de tocar seu trompete, consegue efeitos super sensíveis com as notas longas que extrai de seu instrumento. Quando surgiu no cenário musical, logo alcançou notoriedade, no começo dos anos 1950. Uma queda para a vida marginal o deixou numa espécie de ostracismo durante algum tempo. Retornou com um toque mais preciso e minimalista, mais sensível do que antes.

Apesar de adorar sua maneira de tocar, é seu canto que me comove. Dizem que influenciou João Gilberto e a Bossa Nova. Há, entretanto, os que dizem o contrário. Isso pouco importa. Seu som é inigualável.

É difícil encontrar discos dele editados no Brasil. Há os importados, bastante caros. Uma opção é comprar pela Internet, através do site da Amazon, torcendo para o pacote ir direto pra seu endereço sem que seja cobrada a taxa de importação. Isso, às vezes, dá certo.

Tenho alguns CDs dele, comprado em minhas viagens. Gosto de quase tudo, mas o que há de mais emblemático é sua gravação de My Fanny Valentine, na minha opinião, a melhor que já foi feita desta música.

Sua vocação para a tragédia era histórica e ele morreu na Holanda ao despencar da janela de um hotel. Até hoje há controvérsias sobre a razão da queda, suicídio ou acidente.

O que importa é que sua música está viva. Viva e comovente.

Questão de gosto

O filme tem uma fotografia viva. Um som vibrante, uma cadência ágil, uma sensualidade autêntica. Tem uma temática interessante e uma direção criativa e eficaz. E apesar de tudo isso eu não gostei. A Clélia e a Cecília gostaram, mas eu não gostei.

Trata-se de Ó Paí, Ó, de Monique Gardenberg. Os atores principais, muito bons, a maioria. Lázaro Ramos, ótimo como sempre. Stênio Garcia, ótimo como sempre. Dira Paes, ótima como sempre. Wagner Moura nem tanto. Emanuelle Araújo gostosíssima e isso basta. Achei os atores coadjuvantes muito fracos, falando suas falas de modo bem decorado. Parecia jogral.

O filme perde a chance de mostrar, com profundidade, três grandes problemas que ocorrem na Bahia. Passa por eles de maneira tênue, quase subliminar.

O primeiro é a questão do racismo em Salvador, uma das cidades mais negras do Brasil e onde o racismo é um dos mais truculentos. O segundo problema é a agressividade com que o candomblé tem sido tratado pelas igrejas evangélicas. Depois de séculos convivendo de maneira harmoniosa com a igreja católica, os orixás têm sido vítimas de uma campanha bastante violenta das novas igrejas cristãs.

O terceiro problema é a polícia baiana, considerada, de longe, a mais violenta do Brasil. Uma polícia que mata antes de perguntar e que, proporcionalmente, produz mais presuntos do que em São Paulo ou Rio de Janeiro. E tudo isto está presente no filme, mas de uma forma branda e macia. Há assuntos que não podem ser tratados de maneira tão singela.


Mas o que mais me incomodou no filme, e este é o motivo da minha chateação, foi a música. Toda a música, durante todo o tempo, é aquele axé de Araketu, Margareth Menezes, Daniela Mercury, Olodum e companhia. Não tenho nada contra. Só não gosto. Na verdade, odeio.

Viagens

Primeira etapa:

Foi num vôo de São Paulo a Fortaleza. Em escala no Rio de Janeiro, entra o Alemão, do Big Brother. Assim que o avião pousou em terras cearenses, uma enxurrada de pessoas se dirigiu à sua poltrona. Eram mulh
eres, em sua maioria, pedindo autógrafo, tirando fotos ao seu lado. Mas houve rapazes, também, que foram lá cumprimentá-lo, dizer que tinham torcido por ele, coisa e tal. Acho meio babaca esta coisa de ficar pedindo autógrafo, mas até compreendo o que move uma pessoa a fazer isso com algum artista ou jogador de futebol que admire. Alguns até idolatram tais pessoas. Mas esse sujeito, pelo pouco que sei, não canta, nem escreve e nem é capaz de fazer um gol de letra. Ele só é famoso. Só apareceu na televisão. Até aí, o cara que manteve uma família presa em casa por mais de 2 dias também ficou famoso e também apareceu na TV! É inacreditável que tanta gente se encante com alguém que não teve mérito algum a não ser conseguir que sua imagem tenha sido exposta, exageradamente, na televisão. Está faltando referência pra essa gente.

Segunda etapa:

Depois de passar a tarde trabalhando em Fortaleza, voei pro Recife. Apesar do meu sangue parcialmente pernambucano (as outras partes são a espanhola e o álcool), nunca achei graça na cidade de Recife, principalmente quando a comparo com Fortaleza ou Salvador. Mas há uma coisa em Recife que me seduz. É o
restaurante Entre Amigos, mais conhecido como O Bode. Mais que um restaurante, o Entre Amigos é uma espécie de botecão, onde é possível comer a melhor carne de sol do mundo (com queijo de coalho) além de uma excelente picanha de bode. E se alguém não gostar de carne de bode ou carne de sol (tem gente enjoada nesse mundo!), há uma variedade grande de carnes, massas ou frutos do mar. Vale a pena ir a Recife por isso. Aliás, acho que só por isto.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Os melhores caminhos

Cecília faz 20 anos hoje.

Meu narcisismo faz com que a primeira coisa que este fato me lembre é o quanto estou ficando velho. Mas não é isso, evidentemente, o que mais importa. O que é importante, nesta data, é constatar a beleza do processo da maturidade que está em curso. E no caso da Cecília, é muito bom que esse processo aconteça sem que se perca a ternura, a mesma ternura que ela carrega dentro de si desde muito cedo.

O que é mais encantador numa relação entre pai e filho não é o que podemos ensinar a eles durante o crescimento e sim o que aprendemos com eles. Sim. O que torna esse tipo de relação especial é a possibilidade que temos, todos os dias, de aprender com os filhos, desde que eles nascem. E no meu caso com a Cecília, este processo foi mais que especial.

O que eu tenho aprendido com ela, ao longo destes 20 anos, me transformam numa pessoa melhor do que eu seria, caso não tivesse tido esta professora tão querida. E ainda hoje, neste processo contínuo, é ela que me mostra muito claramente os melhores caminhos.

segunda-feira, 23 de abril de 2007

Texto sensível

Há muito tempo eu deixei de ter a ilusão de uma imprensa imparcial. Aliás, nem acho que ela deva ser assim. Reconheço que seja legítimo, a qualquer órgão de imprensa, manifestar claramente uma posição política. O que me incomoda é quando isto é feito de maneira escamoteada. Quando há uma pose de imparcialidade e, ao mesmo tempo, uma tentativa de induzir o público a uma determinada conclusão. É muito negativo quando este público acredita que está recebendo informação, quando, na verdade, está recebendo opinião. Uma opinião pasteurizada, pré-concebida. E é isso que tem acontecido com a maioria dos grandes órgãos de imprensa.

Não sou ingênuo a ponto de não perceber que qualquer empresa de comunicação, seja ela um jornal ou um canal de televisão, é antes de mais nada uma empresa. E, como tal, ela tem interesses econômicos muito claros, tendo o lucro como principal objetivo. Uma empresa cuja receita vem dos anunciantes, o que faz com que o rigor investigativo de suas reportagens esteja sempre atrelado aos interesses destes.

A revista Veja, por exemplo, há muito tempo, transformou-se num Programa Fantástico feito de papel. Suas reportagens, cada vez menos profundas, zelam pela superficialidade e pelo cuidado em não ferir susceptibilidades de quem a mantém. Sua ideologia é mascarada, é escondida atrás de uma couraça de imparcialidade que não se sustenta à mais rala análise.

É por isso que eu prefiro ler a revista Carta Capital. Embora tenha uma clara postura favorável ao governo Lula, é essa clareza que me tranqüiliza. Mesmo que eu discorde de alguns dos pontos defendidos pela revista, é alentador que eu não perceba nenhuma tentativa de esconder essa defesa.

Há publicações, entretanto, que têm compromisso com a ideologia e não com os fatos. É o caso da revista Caros Amigos. A convicção de seus articulistas é tão sólida que os cega, tornando-os absolutamente incapazes de um mínimo de auto-questionamento. Apesar de toda esta carga de auto-suficiência, me agradam as entrevistas especiais (que eles gostam de chamar de explosivas), sempre estampadas na capa da publicação.

E desta revista, uma coluna que sempre me dá muito prazer ler, é a escrita por Ana Miranda. São sempre textos saborosos, recheados de um lirismo que não tem nada de meloso.

Pois uma grande parcela destas colunas está publicada no livro Deus-dará, editado pela Casa Amarela, a mesma editora da revista. Os textos são densos e verdadeiros, mostrando, ao mesmo tempo, preocupação social e realismo histórico. Autora de diversos romances, sua obra mais conhecida, Boca do inferno, é livro obrigatório pra qualquer amante das letras. Como este Deus-dará.

domingo, 22 de abril de 2007

Jorge Matheus

Conhecemos Jorge Matheus assim que chegamos em Campinas, quando ele cantava junto com o pessoal do QCV. Naquele tempo, o Chiquinho do Pandeiro também tocava com eles. À primeira vista, parecia que o Jorge tinha uma função coadjuvante, tocando seu tamborim discreto, ajudando no vocal. Pois era exatamente esta discrição que me chamava a atenção. E durante as apresentações do grupo, depois de um dos intermináveis intervalos, ele pegava um violão e começava a tocar e cantar, timidamente, uns dois sambas do Jorge Ben, justamente aqueles mais conhecidos. Eu ficava encafifado. Esse cara só sabe essas duas músicas!!!

Muito tempo depois, começamos a encontrar o Jorge cantando sozinho, nos bares e botecos de Campinas. E o que descobrimos foi avassalador. O cara sabe tudo e sabe todas. Sabe aquelas músicas bem Lado B (parafraseando a Tatiana), que achei que só eu sabia. E canta sem afetação, sem preconceito, sem aquela preocupação de cantar o que é correto ou bem aceito. Ele canta o que o seu coração manda ele cantar. Canta sozinho, canta pra ele, de olhos fechados. E tem o hábito de emendar uma música na outra, sem pausa, fazendo com que suas apresentações não tenham espaço pros aplausos. Outra sensação interessante é a de percebê-lo emendando as canções baseado na intuição do momento, o último acorde de uma, misturando com o primeiro acorde da próxima.

Ontem, fomos ver o Jorge Matheus no Deck. Quando chegamos, o bar estava vazio, do jeito que a gente gosta. O Elder que me perdoe, mas é assim mesmo que eu gosto do Deck. Quando podemos ouvir a música com tranqüilidade e quando ele não fatura. Paciência. Pra compensar, tem as tardes de domingo, com o som festivo do Doca Furtado. Cada macaco no seu galho.

Mas voltando à noite de ontem, ele começou a cantar às oito e meia e só parou 3 horas depois. Sem nenhum intervalo, sem nenhuma pausa entre as músicas. E nós lá, na frente dele, fazendo pedidos. Foi delicioso.

O Jorge Matheus tem um disco ótimo. Chama-se Violão acústico voz. É possível comprá-lo entrando no seu site, acessando o link Loja Virtual. E, pra quem quiser ter uma amostra do seu som, basta dar um clique abaixo:

segunda-feira, 16 de abril de 2007

Fim de semana

Diferentemente da Vivien, que adora a segunda-feira, eu gosto mesmo é dos fins de semana. É claro que eu sei que não tenho a exclusividade nessa preferência, mas eu fico em verdadeiro estado de graça, já na sexta-feira. Na verdade, faço sempre o possível para que a noite da sexta já faça parte deste período. Nem sempre consigo. Ultimamente, aliás, eu tenho chegado tão morto, todos os dias, que na sexta-feira eu desabo na cama muito cedo, sucumbindo ao estresse acumulado na semana. Isso, entretanto, me ajuda a recarregar as baterias.

Este final de semana foi especialmente proveitoso.

SÁBADO

Manjar

Não é que eu queira me exibir (na verdade eu quero sim), mas cometi uma verdadeira obra de arte no almoço de sábado. Juntando coisinhas frugais como um pacote de espaguete italiano, uma lata de tomate pelado, camarões e lulas, produzi um prato que encheu meu ego de orgulho e meu paladar de prazer. Acho que nunca acertei tanto no ponto de cozimento dos bichinhos aquáticos. O resultado foi esplendoroso!

Samba

À noite, fomos pro Tonico’s. Não há nenhum lugar em Campinas em que a gente poderia assistir a um show do Moacyr Luz. Só o Paulo Henrique tem o bom gosto e a ousadia de trazer gente deste naipe pra cantar no seu boteco. Lá no Tonico’s já vimos Guilherme de Brito, Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Nei Lopes, Luis Carlos da Vila e Monarco. O Moacyr, já é a segunda vez que encontramos lá, mas ele já deve ter ido umas 4 vezes.

Infelizmente, o público do Tonico’s é um dos mais mal educados da cidade. O barulho que as pessoas fazem durante o show é uma coisa insuportável. E não adianta aumentar o volume do som ou o artista empostar mais a voz. Quanto mais se faz isso, mais alto o pessoal fala, numa competição desumana. O pior é que tem gente que pede uma mesa bem próximo dos músicos e fica tagarelando em altos brados, sem prestar atenção ao show.

De toda essa gente que eu falei, o Nei Lopes foi o único que chiou. Lembro-me que ele parou de cantar no meio da música e perguntou pro pessoal se ele estava atrapalhando a conversa. A turma nem ligou.

Apesar disso, o show foi excelente. Moacyr cantou algumas músicas que gravou em seu último CD, o Sem compromisso, além de muitas outras, de discos mais antigos e até coisas que, claramente, não estavam previstas no roteiro. Aliás, aparentemente, não tinha roteiro nenhum. É assim que eu gosto.

Ele foi acompanhado pelo QCV (Quarteto de Cordas Vocais) com uma formação que eu nunca tinha visto, embora seja raro ver o QCV mais de uma vez com a mesma formação. Mas enfim, achei que desta vez eles apresentaram um trabalho vocal bem caprichado, de muita qualidade.

Enfim, samba de primeira, chope bem tirado e comida boa. Tudo isso para um público mal educado. Paciência. O mundo não é perfeito.

DOMINGO

Pra compensar a frustração da semana passada, fomos logo cedo pro mercadão, no domingo. Apesar de algumas lojas estarem fechadas, nas que estavam abertas pudemos comprar ótimos queijos, salsichas especiais, um kassler do outro mundo e um bacalhau de dar água na boca. Tudo de excelente qualidade e com preços muito mais baixos do que eu pagaria em qualquer outro lugar. Só não atendi a expectativa do Diego de que eu comesse o enorme sanduba de mortadela que eu tanto sugiro pra ele. Queria guardar meu apetite.

Fomos almoçar num dos restaurantes mais tradicionais de São Paulo, o Moraes – o rei do filé. Encravado na praça Júlio de Mesquita, beirando a avenida São João, no centro velho da cidade, este restaurante foi fundado em 1929 e seu cardápio, com 16 tipos de filé, é o mesmo desde o dia da fundação. Conta-se que, antigamente, quando o cliente perguntava se poderia comer um filé bem passado, o velho Moraes respondia que sim, bastando que ele fosse a outro restaurante. Hoje os tempos são outros e já é possível cometer esta insanidade.

Entre todos os acompanhamentos, o mais famoso e o que mais me seduz é o que é servido ao alho e óleo e com brócolis. A batata frita também é pedida obrigatória. Os pratos são servidos em porções de 430 ou 230 gramas. Normalmente, o filé de 430 dá pra 3 comerem bem. Consegui, entretanto, convencer a Clélia e a Cecília que deveríamos pedir um grande e um pequeno. É claro que sobrou comida. Ou melhor, sobraria se eu não fosse um troglodita comedor de carne. Mandei tudo.

Sambista maior

Fomos ao cinema assistir ao filme Cartola – Música para os olhos, de Lírio Ferreira e Hilton Lacerda. Um filme todo entrecortado, com imagens bem antigas e em péssimo estado. Gravações defeituosas, algumas quase inaudíveis. Tinha tudo pra ser um filme péssimo. Talvez tenha sido pra todas as outras pessoas. Pra mim foi belíssimo.

Tenho uma relação de quase idolatria com o Cartola. Ele é, de longe, minha maior referência musical. O compositor que eu mais admiro. O que eu mais gosto. Mais do que Chico Buarque, mais do que Tom Jobim ou João Gilberto, mais do que Noel Rosa, mais do que Paulo César Pinheiro ou Aldir Blanc. E todos estes estão entra meus compositores e letristas preferidos. Mas Cartola é um caso à parte. Perto dele, todos me parecem pequenos. Várias vezes, durante o filme, quase fui às lágrimas. Me segurei, entretanto. Afinal, não tinha ao meu lado, nem a Clélia e nem a Cecília, pois tivemos que nos sentar separadamente, já que chegamos atrasados pra sessão. Não quis dar vexame.

Enfim, um filme que deve desagradar até às mais nobres almas. Eu assistiria mil vezes.

Última parada

Leila Pinheiro nunca me emocionou. Sempre a achei afinadíssima, super técnica, precisa, perfeita. E apesar de tudo isso, ou talvez, por causa disso tudo, ela nunca me comoveu. Pois fomos ao teatro da Fecap (que belo teatro. Puta acústica!) no bairro da Liberdade ver Leila Pinheiro e Eduardo Gudin.

Se Cartola é a minha referência musical, Eduardo Gudin faz o samba mais refinado que pode existir. Um samba elegante. Nobre. O show era só com músicas compostas por ele e pela sua bela profusão de parceiros. Um show super bem cuidado, bem ensaiado, como uma orquestra. Um time de músicos de primeiríssima linha. Basta dizer que o baixo era de Zeca Assunção e os sopros de Teco Cardoso. Ficou muito mais fácil entender aquele papo de: “Dize-me com quem andas e te direi quem és”. E Gudin não é apenas o maior sambista de São Paulo. É um dos maiores do Brasil.

Saímos do show felizes. E eu, com aquela sensação boa de que o fim de semana tinha sido muito proveitoso. Assim é muito mais fácil encarar a semana.

Em tempo: Leila Pinheiro continua afinadíssima, super técnica, precisa, perfeita. Só isso.

terça-feira, 10 de abril de 2007

Lucidez

Minha avó vai fazer 94 anos no mês que vem. Talvez não faça. Fui visitá-la, hoje, no hospital. Toda semana ela vai parar no hospital, cada vez por um motivo diferente. A máquina está enguiçando. Toda hora tem que consertar alguma peça.

Ela está super magra, super sensível, super carente. Ela está sem habilidade nos movimentos. E ela está absolutamente lúcida.

A minha vida inteira eu a ouvi dizer que eu era seu neto preferido. Falava isso pra todo mundo. Falava isso na frente dos outros netos. Minha avó sempre foi muito sincera.

Cheguei lá de surpresa. Ela emocionou-se. Tinha mais gente no quarto visitando-a, querida que ela é por todos. Quando ficamos sozinhos conversamos mais à vontade. Conversamos sobre a morte.

É estranho conversar sobre a morte. Uma coisa é falar sobre a morte de uma forma filosófica. Outra coisa é conversar com uma pessoa sobre a sua morte. Não foi uma conversa mórbida e nem foi uma conversa cheia de clichês. Nem eu e nem ela somos dados a clichês. Foi uma conversa serena, mas uma conversa triste. Pra mim e pra ela.

Faz muito tempo que minha avó está doente. Faz muito tempo que ela está magra e com os movimentos limitados. Mas apesar disso, a única imagem que eu guardo dela é a daquela avó gorduchinha, esperta, ativa. Aquela avó que enfrentou o trabalho a vida inteira pra garantir uma vida digna aos filhos. Aquela avó que me defendia, estando eu certo ou errado. E é esta a imagem que, felizmente, eu vou guardar dela para sempre.

domingo, 8 de abril de 2007

Programa em 3 atos

As saudades de tudo que São Paulo oferece é tão grande que, sempre que vamos pra lá, queremos aproveitar de forma exagerada. E desta vez, o programa só não foi em quatro atos porque a planejada ida ao mercadão foi frustrada pelo trânsito inesperado (ingenuidade?) naquela região. Simplesmente não consegui estacionar o carro. Nem na rua, nem nos estacionamentos extorsivamente caros.

Mas vamos ao programa:

1° ato:

Fomos ao cinema, assistir O cheiro do ralo, de Heitor Dhalia. A primeira boa surpresa foi a ótima atuação de Selton Mello. Enquanto o seu Chicó em O Auto da Compadecida tinha ficado em segundo plano frente ao João Grilo de Matheus Natchergaele, aqui, neste filme, seu personagem é absoluto, como se fosse o dono do mundo. Aliás, este filme é uma grande alegoria do mundo. Nele, a posse do dinheiro gera uma sensação de poder absoluto, dando ao seu detentor a convicção de que tudo pode, até sobre os mais naturais dos fenômenos.

A vasta galeria de seres absolutamente surrealistas que desfilam frente à sua mesa é a maior comprovação de que o filme é o nosso mundo. Apesar de deprimentes, em sua maioria, alguns são hilariantes, o que garante ao filme um humor que seria inadmissível, fôssemos mais rigorosos com o mundo.

Enfim, um filme prazeroso de se assistir. Para vermos a nós mesmos.

2° ato:

O motivo “oficial” para irmos pra São Paulo foi assistir ao show de Danilo Caymmi e o grupo Arranco de Varsóvia, no SESC Pompéia. Confesso que fomos, muito mais motivados pelo Arranco do que pelo Danilo Caymmi, temendo, inclusive, que ele cantasse Andança, o que acabou acontecendo. Isto, felizmente, não tirou o brilho do show, baseado num repertório quase todo de canções de Dorival Caymmi, meio caminho andado pra que a coisa desse certo. E deu.

O que mais me encantou no grupo Arranco de Varsóvia, do qual eu tenho dois CDs (não sei se há outros), foi constatar uma coisa incomum em conjuntos vocais. É que a voz de cada um dos integrantes, sobretudo as vozes femininas, tem, por si só, muita qualidade. Isto é realmente raro na maior parte dos grupos vocais, mesmo os mais bem reconhecidos.

Fiquei com vontade, ao final do show, de pedir para eles cantarem Hum a zero do Pixinguinha e Benedito Lacerda, com letra magistral do Nelson Ângelo. Não o fiz por dois motivos: Isto ficaria meio fora do espírito do show e, principalmente, por eu não ser dado a estes arroubos em público.

No final, ainda fomos cumprimentar a cantora Andréa Dutra, blogueira de primeira linha, com a qual já tricotei um pouco nessa nossa blogosfera.

Um grupo muito bom de ver e ouvir.

3° ato:

Como seria um pecado ir pra São Paulo sem aproveitar a infinita oferta de prazeres gastronômicos que a cidade oferece, fomos à nossa cantina preferida, o Jardim di Napoli, onde pedimos, como sempre, seu prato principal (deveria ser o único – ninguém iria notar), o Polpettone. Indescritível aquele sabor. Nada mais a comentar.

sexta-feira, 6 de abril de 2007

Feliz inconfidência?

Eu devo estar ficando maluco ou é essa coisa da idade avançada que está afetando minha memória. Mas eu posso jurar que esse fenômeno só começou a acontecer no ano passado.

Fui criado em uma família católica, mas a páscoa nunca me imprimiu uma marca que ficasse na memória. A páscoa, pro eu criança, sempre esteve associada apenas aos ovos de chocolate que eu ganhava, cuja característica principal era a de sempre ser menores que aqueles que eu via nas lojas pra vender.

Mais do que a páscoa, a sexta-feira santa tinha um significado muito mais marcante. Nesse dia, minha mãe negava-se a trabalhar. Não aceitava sequer varrer a casa, alegando que isso era pecado. Eu, que sempre interpretei essa sua atitude, muito mais como malandragem, do que espírito cristão, preferia ficar na minha. Afinal, minha mãe era fogo. Não valia a pena entrar num conflito com ela por uma causa tão pouco importante. E além do mais, o que me preocupava mesmo, muito mais do que o pó no chão da sala, era aquela proibição de comer carne. Carnívoro inveterado que sempre fui, era com muita má vontade que eu encarava aqueles mirrados filés de pescadinha à milanesa.

Lembro-me ainda, de grandes discussões com minha avó, sobre a motivação dessa horrenda proibição. Ela dizia que a sexta-feira santa era um dia de privações e sacrifícios. Eu, na minha fúria juvenil, contestava que não via sacrifício nenhum em trocar os nacos de carne por suculentos pedaços de bacalhau, que era o que a maioria das pessoas fazia, nessa data.

Lembro-me ainda, que uma das minhas primeiras demonstrações de liberdade e ousadia, foi quando, já adolescente, comi uma lata inteira de salsichas e contei pra todo mundo. Confesso que fiquei morrendo de medo de passar mal (a salsicha era muito ruim) ou até de morrer (por castigo de deus). Como nenhuma dessas coisas aconteceu, o restinho de fé religiosa que, porventura me restasse, se esvaiu por completo. Passei a declarar-me ateu enquanto minha mãe dizia que, na verdade, eu era um à toa.

Hoje em dia, não discuto com ninguém por causa de bobagens como essa e troco fácil, um entrecôte argentino por um bacalhau grelhado com batatas ao murro.

Mas voltando ao assombro que me fez iniciar este relato, o que tem me deixado encafifado é um fenômeno que eu só percebi no ano passado.

Estou habituado, há muitos anos a ouvir os desejos de feliz natal e feliz ano novo no final de cada dezembro. Isso acontece no escritório, no último dia de trabalho, nas lojas, enfim, em todos os lugares em que haja contato humano. E apesar de achar isso um pouco forçado, estou absolutamente acostumado com essa prática e lido muito bem com ela. Só que agora começou essa coisa de desejar feliz páscoa. Devo estar ficando realmente maluco ou então muito esquecido. Mas não me lembro, sinceramente, de que isso fosse um costume. E acho que isso só começou a acontecer no ano passado, pois foi quando percebi o fenômeno. E assim, começo a ouvir esses cumprimentos em todo lugar. Pago a conta no supermercado e a caixa me deseja feliz páscoa. O porteiro do estacionamento me deseja feliz páscoa. Ontem, no trabalho, ao se despedir, muitos colegas me desejaram feliz páscoa.

Estou atordoado. Temo que no próximo dia 20, ao se despedir de mim, alguém me deseje “Feliz inconfidência”!

quarta-feira, 4 de abril de 2007

Estranho, eu?

Talvez por causa do discurso da ministra, na semana passada surgiram, em diversos blogs, alguns textos sobre racismo. No blog do Sean, do Idelber, da e da Lulu. Em alguns deles eu até deixei comentários.

E pensando em racismo eu me lembrei de uma coisa mais branda, a intolerância. Ou mais branda ainda, a estranheza. Sim, pois embora seja infinitamente menos marcante do que sofrer uma atitude de racismo ou discriminação, a estranheza é uma coisa que incomoda também. É aquela sensação que faz com que você pareça um ET, um cara completamente fora de sintonia, um estranho.

E eu sou uma grande vítima da estranheza. Muita gente acha estranhas algumas escolhas que eu faço.

Pra começar, tem o fato de eu ser ateu. As pessoas, a princípio, não acreditam nisso: “Como assim, ateu? Você não acredita em nada?” E aí sigo eu, explicando que acredito em muitas coisas, como a solidariedade, a amizade, o amor. Que acredito na necessidade de um mundo mais fraterno, que as pessoas estão necessitando ter mais tolerância. Nada disso adianta. O fato de eu não rezar, não freqüentar uma igreja ou um terreiro de macumba, causa muita estranheza nas pessoas, em geral.

A segunda coisa é o fato de eu morar numa casa alugada. Uma casa que não é minha! Como se fosse minha uma casa que faltassem 20 anos pra eu pagar. Não importa eu mostrar que moro na casa que eu gosto, no bairro que eu quero, na cidade que me apraz. Não. Nada disso importa. O que importa é não pagar aluguel. Mesmo morando num cubículo, num bairro odiável, numa cidade sombria.

Também estranham essa minha mania de escrever. De escrever e ler. Afinal, eu sou um engenheiro. E independentemente de gostarem, ou não, dos meus textos, há pessoas que estranham o fato de eu ser engenheiro. E o pior é que eu acredito piamente que quanto mais eu ler e quanto mais eu tentar escrever, mais eu tenho chance de ser um engenheiro melhor. Aliás, eu acredito que isso também valeria caso eu fosse médico, advogado ou jornalista.

E ainda sou estranho às pessoas por muitas outras coisas. Por minhas opiniões a respeito do casamento e da fidelidade. Pela minha mania de gostar mais de ver um jogo de futebol bonito do que torcer pra que o meu time ganhe. Por eu não gostar de assistir o Big Brother, o Fantástico e as novelas da TV. De eu preferir dormir a assistir uma corrida de fórmula 1. De eu preferir viajar pra Buenos Aires do que ir pra praia nas férias de verão. De gostar mais das gordinhas, de gastar tanto dinheiro com livros e CDs.

É. Acho que sou mesmo um cara estranho. Mas acho, também, que as pessoas deveriam cuidar mais de suas vidas.

Influência no jazz

No começo eu ouvia rock e pop. Tudo aquilo que tocava no rádio. AM, bem entendido. Naquele tempo, o rádio só tocava música americana. Da pior qualidade. E era daquilo que eu gostava. Daquilo e da jovem guarda. Tanto que, meu primeiro disco foi um compacto duplo com o Roberto Carlos de um lado e Wanderléa do outro.

Mais tarde, fui me distanciando desta música americana. Do pop e do rock. Só os Beatles me seduziam e continuaram seduzindo, pra sempre.

Mas o que indicou o caminho do meu gosto musical foi a Bossa Nova. Descoberta tardia, foi com ela que eu me entendi musicalmente. E foi por causa dela que eu fui gostar de Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, toda essa gente. Foi ouvindo o tipo de bossa nova que eles faziam, foi ouvindo Sem Fantasia, Coração Vagabundo ou Luzia Luluza que eu descobri a MPB.

Foi através da Bossa Nova que eu descobri e amei o samba. Foi ouvindo Nara Leão, musa da Bossa Nova, cantando Zé Ketti que eu fui descobrir Cartola e Nelson Cavaquinho.

E foi através da Bossa Nova que eu descobri Cole Porter, George Gershwin e Irving Berlin. Por causa de um álbum duplo do Frank Sinatra cantando músicas do Tom Jobim. Neste álbum, produzido por Roberto Quartin, havia algumas canções destes tradicionais compositores americanos. Hoje é esta a única música americana que eu gosto de ouvir. Muita gente diz que a bossa nova sofreu influência do jazz. Pois no meu caso, ela causou influência no jazz.

Pois nesta semana, o Canal Brasil exibiu um filme do ano passado, que me passou despercebido no cinema. Trata-se de Coisa mais linda – Histórias e casos da Bossa Nova, de Paulo Thiago. Pra quem não gosta desse tipo de música, o filme deve ter sido bem chato, já que não tem nenhuma ação. É um painel histórico deste movimento, com depoimentos de seus maiores protagonistas, principalmente Roberto Menescal. Só isso.

Para quem, como eu, tem verdadeira adoração por esta música, o filme foi delicioso. Com enxertos de números musicais e fotos da época, foi um passeio por um Rio de Janeiro, e, porque não dizer, um Brasil que acreditava que tinha um futuro dourado. Dividido por blocos, o filme falou de cada um dos integrantes do movimento, numa ordem crescente de importância, terminando, naturalmente, com Tom, Vinícius e João Gilberto. Tudo isso.

Foi muito prazeroso ouvir de novo alguns sons e rever algumas imagens tão conhecidas e gravadas na minha memória. Fotos em branco e preto, capas de discos. Um deles, aliás, que não foi tão importante no movimento, mas que, pra mim, é o mais emblemático daquela época. Trata-se de Wanda Vagamente, da cantora Wanda Sá. Passei mais de 30 anos querendo ter este disco e só fui comprá-lo, há dois anos, numa edição em CD. Não sei explicar porque é que nunca comprei um disco que sempre desejei e não sei explicar por que é que desejei tanto este disco, já que apenas uma música me seduzia.

Mas a Bossa Nova é assim. A gente gosta e nem sabe por que é que gosta.

Dica: Para saber mais sobre a Bossa Nova, o caminho mais fácil e prazeroso é ler o livro do Ruy Castro Chega de Saudade: a História e as Histórias da Bossa Nova.