Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Fazendo as contas (ou fazendo de conta)

Terminado o Pan, todos os jornais, TVs e revistas estampam a tabela com o quadro de medalhas final. O Brasil conquistou 54 medalhas de ouro. E, pela primeira vez, ficou em terceiro lugar, sua melhor posição em jogos Panamericanos. Foi o pior resultado de Cuba, desde os jogos de 1975 em Cidade do México. E os Estados Unidos mantiveram a tendência de queda, que vem ocorrendo desde as duas edições anteriores dos jogos, num patamar bem abaixo dos números que obteve nas décadas de 1980 e 1990.

Este resultado provocou grande euforia na torcida e o típico ufanismo nos brazucas de plantão, com nosso país num lugar de destaque entre as 10 primeiras posições.
Os números, entretanto, às vezes enganam. Pelo menos, se eles forem vistos de maneira simplista.

.
Proponho um jeito diferente de olhar.

Quero considerar, inicialmente, que qualquer pessoa pode obter uma medalha de ouro. Basta que ela tenha acesso aos meios para treinar e que tenha algum talento. Se a gente considerar que nenhum país é privilegiado pela natureza, em termos de quantidade de talentos, podemos dizer que, proporcionalmente, todos os países teriam chances iguais de ganhar as medalhas. Se, além disso, todos os países dessem ao seu povo as mesmas chances de acesso aos meios para treinar e praticar esportes, essa proporção seria mantida. Assim, um país como o Canadá, que tem o dobro da população do Chile, obteria o dobro de medalhas de ouro. Usando este raciocínio, poderíamos medir, não o número absoluto de medalhas que o país alcançou e sim o índice de medalhas por milhão de habitantes que cada país obteve. E teríamos um valor que mediria, de certa forma, a capacidade que cada país tem de garantir o acesso de seus atletas aos meios para treinar e praticar esporte.

Fazendo este exercício, só por brincadeira, o quadro de medalhas do Pan 2007 ficaria assim:
Eu sei que isso não vale nada. É só uma forma diferente de ver as coisas (outras há, certamente). E é só uma questão de fazer conta. Embora tenha gente que prefira fazer de conta.

domingo, 29 de julho de 2007

Fim do Pan

Não sou muito fanático por esporte. Na verdade, só gosto mesmo é de futebol. Mas com essa coisa do Pan 2007 no Rio de Janeiro, fomos bombardeados com notícias e transmissões de jogos e competições das mais diversas (algumas, estapafúrdias) modalidades. Acabei vendo alguma coisa.

O que eu mais gosto de assistir são os jogos de Volei. Volei feminino, já que é nesse esporte que se exibem as meninas mais engraçadinhas. Volei masculino, eu não tenho muito saco de ver, além do que, acho muita viadagem aquela coisa de ficar dando abracinhos a cada ponto conquistado.

Enfim, confesso que o que mais me interessa no Pan (ou numa olimpíada) é mesmo ver a beleza de algumas atletas. Sendo assim, elegi algumas musas que eu vi competindo na tela. A ordem é a alfabética:

Bia e Branca - Nado Sincronizado


Danielli Barbosa - Judô


Fabiana Beltrame - Remo

Fabiana Murer - Atletismo

Flávia Delaroli - Natação



Joana Costa - Atletismo



Juliana Veloso - Saltos ornamentais



Larissa - Volei de praia



Marta - Futebol (não é nenhuma beldade, mas bate um bolão)



Maurren Maggi - Atletismo



Monique Ferreira - Natação



Nayara Ribeiro - Natação



Patrícia Castro - Vela



Paula Pequeno - Volei (esta é a minha preferida)

sábado, 28 de julho de 2007

Oxalá, a perenidade

Imagine uma ótima cantora brasileira, bastante conhecida, acompanhada de um excelente violonista, cantando músicas de um de nossos mais importantes compositores. Gravam um disco e este disco só é lançado no Japão. Só a indústria fonográfica pode explicar uma coisa dessas. E mesmo que explique, não vamos conseguir entender. O importante é que agora foi lançado, pela gravadora Biscoito Fino, 12 anos depois de sair no Japão, o CD Sem você, em que a cantora Joyce, acompanhada de Toninho Horta, canta músicas de Tom Jobim.


A única coisa que me incomoda, um pouco, na Joyce, é a mania que ela tem de alterar algumas notas da melodia. Faz isso com a intenção de pôr um tempero na canção. Elis Regina fazia isso com a divisão, João Gilberto faz isso com a tonalidade, ambos de maneira magistral. Alterar a melodia, entretanto, é uma coisa que não me agrada. Como não me agrada o fato de Gal Costa, às vezes, alterar algumas palavras nas letras das canções. Tirando isso, acho Joyce uma ótima cantora e uma compositora de primeira.

Toninho Horta é proveniente da turma do Clube da Esquina. Virtuoso, tanto à guitarra quanto ao violão, é daqueles artistas incensados no exterior e pouco reconhecidos no Brasil, onde sobra espaço pros grupos de pseudo pagode e pras duplas sertanejas (música de corno!). É autor, junto com Fernando Brant, de Céu de Brasília, uma das canções mais bonitas que eu conheço.

A nossa indústria fonográfica, há tempos, tem fechado, sistematicamente, as portas aos artistas que não lhe garantam vendagens de discos esmagadoras. Àqueles que não se deixam dobrar pelo esquema do jabá. Àqueles que não se curvam aos “selecionadores” de repertório. A Biscoito Fino é uma exceção neste mercado, abrindo portas e janelas a quem não tem espaço na mídia.

Torcemos para que esta gravadora seja perene.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Pra não dizer que eu não falei


Escrevi um post, há uma semana, sobre o acidente com o avião da Tam. Na verdade, não escrevi sobre o acidente. Escrevi sobre o meu sentimento em relação à notícia. Nos dias subseqüentes, muita coisa saiu nos blogs que eu leio freqüentemente e também naqueles que eu leio raramente. Fiquei na dúvida se queria escrever sobre isso e, agora, passada uma semana, tenho uma percepção muito particular de como é que cada agente político está cumprindo o seu papel, em relação a este tema.

O Papel da oposição

A oposição, capitaneada pelo PSDB, aproveitou-se da tragédia pra sair atirando no governo. Não fosse isso, seria qualquer outra coisa. Afinal, tudo de ruim que acontecer é preciso capitalizar. Não estou dizendo que isto está certo. Mas é assim que as coisas funcionam, em política. O PT, aliás, quando era oposição, fazia a mesma coisa. Estão no papel deles.

O Papel da Mídia

A grande mídia, no Brasil, está pautada pela classe dominante. Mesmo porque os proprietários dos grandes jornais fazem parte dela. Aliás, um grande jornal ou uma rede de TV, fundamentalmente, é uma empresa que busca o lucro. Vive dos anúncios veiculados e, portanto, atende, muito claramente, aos interesses destes anunciantes. Ou alguém vai me dizer que já viu, num grande jornal ou na TV Globo, alguma notícia negativa a respeito do dono das Casas Bahia? Não viu e nunca vai ver. De novo, não estou dizendo que isto está certo. Mas é assim que as coisas funcionam quando a economia de mercado é exageradamente valorizada. E justamente por isso, no primeiro momento, trataram de colocar a culpa no presidente Lula (não em algum órgão do governo, mas no presidente) sem que houvesse nenhum subsídio para esta ação.

A cobertura da imprensa, aliás, em minha opinião, foi péssima. E quanto maior o órgão de imprensa, pior a abordagem. Eu, como sou meio desavisado, fiquei sabendo tarde sobre o acidente. Vi na Internet uma chamada na página da UOL e fui correndo ligar a TV. A TV Cultura e a Band News estavam ao vivo, tentando buscar e dar informações aos telespectadores. Mudei pra Globo e estava passando Casseta & Planeta. Achei meio macabro. Parece que eles foram os primeiros a noticiar, deram furo, essas coisas. Mas num momento em que muita gente estava ansiosa por informações, eles passavam um programa humorístico.

Depois, quando já havia mais informações disponíveis, descambaram para o sensacionalismo, provocando comoção e informando pouco. Acabou sendo um agente muito eficaz na tarefa de gerar revolta e indignação na opinião pública. Mas, informação, necas. E o ponto alto foi o vídeo com o gesto do Marco Aurélio Garcia e o seu subseqüente pedido de desculpas. Nenhuma utilidade tiveram estas matérias, a não ser mostrar que o cara é arrogante, coisa que todo mundo sabe.

Enfim, é como se o papel da mídia, mais do que informar, fosse formar. Conduzir.

O papel do governo

Me incomoda muito que sempre que alguém tenta defender o governo o faz comparando-o com o governo passado. Eu não tenho nenhuma dúvida que o governo Lula é melhor do que os governos FHC. E esta constatação não é só ideológica. Os indicadores econômicos e sociais mostram isto. Mas não basta. Aliás, ser melhor do que alguma coisa muito ruim não é lá um grande mérito. Mesmo porque, os governos FHC foram melhores do que o de Collor e a eleição de Collor foi um grande avanço em relação aos governos militares, até pelo fato dele ter sido eleito diretamente. E eu sou o primeiro a defender o presidente Lula quando percebo que as críticas ou as tentativas de desestabilizar seu governo são baseadas no preconceito. E isso é ideológico.

Mas a ideologia não pode nos cegar nem, muito menos, soterrar nosso senso crítico. O que ocorre é que o governo e, mais especificamente, o presidente Lula, reagiram muito mal à notícia do acidente. Ele demorou pra se posicionar, se escondendo mesmo, talvez traumatizado pela vaia do Maracanã. Vaia, aliás, que eu achei injusta. Eu não vaiaria. Aliás, não vaiaria mesmo que o presidente fosse o Alckmin. Não era oportuno.

O que acontece é que este governo tem uma grande dificuldade em gerenciar. A eleição de Lula foi uma grande vitória do PT e um acontecimento histórico numa sociedade com tão forte ranço reacionário. Foi uma vitória obtida graças a uma grande capacidade de articulação política, especialidade que Lula tem, desde os tempos do movimento sindical. O problema é que governar é metade política e metade gerenciar. E, aí, o que o governo vem fazendo é justamente manter o modelo que 8 anos de peessedebismo implantaram no Brasil, como uma chaga.

E não é admissível que, pra que alguma ação seja tomada, seja necessário que mais de 350 pessoas morram em acidentes com aviões em menos de um ano. Mesmo porque, em um ano, muito mais do que 350 pessoas morrem em acidentes com automóveis e ônibus nas esburacadas estradas brasileiras. E a única ação relevante, até agora, foi a substituição de Waldir Pires por Nelson Jobim no ministério da defesa, ocasião em que o presidente fez um dos discursos mais sofríveis de que ele já foi capaz. Um discurso em que eu me preocupei, pessoalmente, ao ouvi-lo dizer que quando entra num avião entrega a vida a deus. Preocupei-me, pois esta é uma prerrogativa que eu não tenho.

O governo Lula tem que assumir seu papel.

domingo, 22 de julho de 2007

Final de férias





Amanhã volto ao trabalho. É dura a realidade. Mas foi muito bom, enquanto durou. Agora, é esperar uma nova oportunidade.


E pra fechar com chave de ouro, nada melhor que uma comidinha boa. Nos fartamos os três, num almoço que saiu às 5 da tarde...




sábado, 21 de julho de 2007

Delícias de uma quinta-feira

O advento da internet, através das salas de bate papo, do Orkut e dos blogs, inventou um novo tipo de relacionamento: o relacionamento virtual. A tenuidade deste tipo de relacionamento sempre me incomodou. O que une as pessoas é uma rede da qual não se conhece, exatamente, as características físicas (se é que elas existem). E é assustador que a dependência tecnológica para que a relação sobreviva seja tão exagerada. Afinal, se, num determinado momento, você ficar desprovido de computador, ou o seu servidor cair, ou acabar a energia, seu elo com a outra pessoa se perde. E, por outro lado, se aquela pessoa nunca mais aparecer na sua tela, se ela não responder seus e-mails, enfim, se ela sumir do mapa, você não vai, nunca mais, saber se ela morreu, se ela decidiu te deletar da vida dela, se ela, na verdade, nem existia. Seria um nome inventado? Seria só um nick engraçado? Seria uma personagem?

Por isso, fiquei muito feliz, nesta quinta-feira, em ir almoçar em São Paulo e conhecer a Lulu. Fomos, Clélia Cecília e eu, mais uma vez, saborear o delicioso polpetone do Jardim di Napoli. Mas, deliciosa mesmo é a Lulu. Falante, inteligente, engraçada, enfim, cheia de energia e vivacidade que me encantaram. Aliás, ficamos, os três, encantados com ela. Foi uma sensação deliciosa, ver ali, em carne e osso, alguém com quem já vinha sentindo tanta empatia, através dos comentários mútuos, nos respectivos blogs. E ainda por cima, como se não bastasse tanto prazer, ela nos presenteou com a indicação de um filme excelente, que fomos ver, assim que saímos do restaurante.

Um lugar na platéia é um filme francês delicioso, cuja protagonista é a deliciosa atriz Cécile de France, que eu já conhecia de O Albergue Espanhol. O filme, pra mim, trata da liberdade. Trata da libertação de quem se sente oprimido. Não a opressão de uma pessoa por outra, talvez a mais comum e mais cruel, mas de uma opressão, também muito cruel, que é aquela exercida pelas pessoas sobre elas mesmas. A opressão provocada pelo medo de contrariar as regras, as opiniões alheias, as normas estabelecidas.

O filme mostra como esta libertação pode ser conduzida ou catalisada pela juventude. Aquela juventude que a gente, muitas vezes, perde, confundindo com o avanço da idade. A juventude representada pela protagonista do filme. A juventude que eu encontrei na Lulu.

Intimidade

Desde que comecei a escrever no blog, já se vão mais de seis meses, me assaltou também o hábito de ficar xeretando em blogs alheios. E tem de tudo nesse mundo. Desde os mais intimistas, aqueles com cunho claramente confessional, até os mais impessoais, transmitindo apenas coisas escritas por outras pessoas ou retiradas dos mais diversos órgãos da mídia. Muita coisa boa e muita porcaria, como tudo na vida. Há aqueles que me tocam mais, que me dão prazer em ler freqüentemente e que são aqueles que aparecem na coluna à sua direita.

Sem saber identificar um estilo no meu blog, percebo que tenho muito mais facilidade em escrever sobre minhas impressões sobre tudo o que vejo, ouço e leio, do que sobre o que sinto. Na verdade, tenho uma clara dificuldade em abordar aspectos muito pessoais da minha vida. Esta dificuldade, aliás, eu a tenho, também, por exemplo, no relacionamento profissional, com os colegas de trabalho. Vejo muita gente, entre meus colegas, abrir-se com muita facilidade, contar sobre seus problemas pessoais, como se colega de trabalho fosse, necessariamente, um amigo. Não sou assim. É claro que tenho alguns amigos entre os colegas do trabalho, mas não consigo abordar minha vida pessoal com tanta facilidade. Sou assim e não acho que isso seja um defeito ou uma virtude. Apenas é uma característica.

Fiquei pensando nestas coisas enquanto lia o livro O Texto, ou: A Vida, de Moacyr Scliar. O livro é uma autobiografia. Só que nela, não se comenta nada sobre a vida pessoal do escritor. Sabe-se, muito levemente, que ele é casado e que tem, pelo menos, um filho. Mais nada. Não há nenhuma informação sobre sua vida amorosa, sua relação com a mulher ou o filho, seus problemas com dinheiro ou outra façanha qualquer. O livro é absolutamente literário. O autor narra toda a sua história, desde os primeiros textos que escreveu, o que sentiu ao fazê-lo, como lidava com as críticas ou com o sucesso. E, ao longo da narrativa, vai nos brindando com fragmentos destes textos, como a ilustrar aquilo que estava dizendo.

Fiquei absolutamente encantado com isso. Primeiro, por que Moacyr Scliar é um dos escritores brasileiros que eu mais admiro. Já tive, aliás, oportunidade de falar sobre isso aqui. O que mais me encantou, porém, foi perceber que é possível acompanhar e entender uma vida, sem necessariamente ficar sabendo das intimidades de uma pessoa. Não conheço Moacyr Scliar pessoalmente, mas o que eu conheço me basta para admirá-lo. O que me interessa, a respeito dele, são seus textos, a maneira como ele escreve, o conteúdo que depreendo daquilo que ele publica. Não me interessam as fofocas, nem sobre ele e nem sobre qualquer outro artista. Aliás, os detalhes da vida, a intimidade das pessoas, nada disso me interessa. A não ser daquelas pessoas a quem eu amo.

quarta-feira, 18 de julho de 2007

Angústia e egoísmo

Uma notícia como esta, do acidente do avião da TAM, de Porto Alegre a São Paulo, me causa muita angústia. Mas é uma angústia diferente. Uma angústia egoísta. A mesma angústia que me causou a notícia do acidente do avião da Gol, de Manaus a Brasília, dez meses atrás.

Naquela ocasião, eu estava na Alemanha e fiquei sabendo do acidente pela internet. Fiquei chocado pois, para fazer aquela curta viagem à Europa, eu tinha cancelado uma viagem a Manaus. E aí, começa a rolar na minha cabeça, que a chance de eu ter estado naquele vôo fora muito grande. E desta vez, passou-se a mesma coisa. Sempre que vou a Porto Alegre, é neste vôo, o JJ 3054 que eu volto. Não viajo tanto assim pra Porto Alegre. No máximo 3 ou 4 vezes por ano. Mas a proximidade desta ocorrência com a minha realidade, me faz ter pensamentos tenebrosos.

E cada vez que eu vejo alguma reportagem, mostrando a aflição dos parentes das vítimas, não consigo deixar de imaginar a aflição da Clélia, da Cecília, enfim, de todas as pessoas que eu amo, caso uma coisa dessas aconteça comigo. Eu sei que, estatisticamente, eu corro muito mais riscos por dirigir 100 quilômetros numa rodovia, todos os dias, pra ir e voltar do trabalho. Mas eu quero que se danem as estatísticas. Nessa hora, minha cabeça de engenheiro dá lugar à cabeça de alguém que redescobre toda a fragilidade que é a vida.

E é assim, de maneira absolutamente egoísta, bem pequeno burguesa, que eu sofro com o sofrimento de tanta gente que perdeu quem ama, neste acidente pavoroso.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Torcer, torcer

Sei que sou meio diferente, neste aspecto, mas não me ligo muito nessa coisa de torcer. Nem mesmo no caso do futebol, que eu adoro, apesar de ter meu time de preferência, gosto muito mais do jogo, em si, do que do fato de meu time ganhar ou perder. E não vejo muito sentido em torcer para que o principal adversário do meu time perca ou esteja numa posição ruim no campeonato. Quero justamente o contrário. Quero que ele esteja forte para que meu time, quando competir com ele, ganhe. Bater em galinha morta é covardia. Vencer quem está forte é que é prazeroso.

Foi por isso que torci pela Argentina contra o México. Queria que eles fossem pra final contra o Brasil. E queria que eles fossem pra final, jogando o futebol bonito que estavam jogando. Pois aí sim, ganhar de um time desses é que é glorioso. E foi justamente isso o que aconteceu no domingo.

Torcer, pra mim, sempre é a favor. Não consigo torcer contra. E foi por isso que me senti um pouco envergonhado quando assisti à competição de ginástica artística na categoria individual geral feminino, hoje à tarde.

Uma das atletas brasileiras, a Jade Barbosa de apenas 16 anos, estava em primeiro lugar, apesar de já ter cometido alguns erros nas três primeiras provas do circuito. Ao fazer a quarta prova, errou feio e caiu de uma das barras assimétricas. Isso fez com que a sua nota despencasse, evidentemente. E aí, a “torcida” entrou em ação. Começou a vaiar sistematicamente as concorrentes, na esperança de atrapalhar-lhes a concentração, provocando, com isso, um erro que compensasse o erro da nossa atleta e devolvesse a ela alguma chance de ganhar uma medalha.

Felizmente essa estratégia não deu certo e a Jade não subiu ao pódio. Não subiu porque errou, porque não conseguiu ser melhor que as competidoras. É assim que funciona. É assim que deve funcionar. Ela é muito jovem, tem muito o que aprender e tem tudo pra melhorar e se tornar uma excelente atleta, nos enchendo de orgulho. Quanto à torcida, nessa eu não tenho esperanças. Essa não tem mais jeito.

domingo, 15 de julho de 2007

Brasil 3 x 0 Argentina

O Brasil foi arrasador!

Apesar da CBF. Apesar do Dunga.

Pra servir de consolo:

A Argentina venceu o Brasil no hóquei feminino por 21 a zero, no Pan. Eles que comemorem isso!

sábado, 14 de julho de 2007

Gasolina bem gasta

Se ficar na casa da gente é bom, ficar na cidade em que a gente se sente bem é prazeroso, sair por aí, andar uns bons quilômetros sem nenhum motivo extraordinário, pode ser, também, uma delícia. Será que vale a pena pegar o carro e viajar 100 Km só pra almoçar num lugar gostoso, comer uma comida boa e voltar? Pra mim vale. E gostamos de fazer isso. Fizemos isso na sexta e no sábado.

Sexta feira, saindo de casa, pegamos a Anhanguera, rumo ao interior. Fomos pra Piracicaba comer peixe à beira do rio. Comer peixe de rio. Comer peixe do Norte.

Ao ar livre, mais de uma dezena de restaurantes simples, bem rústicos, se espalham preguiçosamente à beira do Rio Piracicaba. Sem saber qual deles escolher, fui no palpite de um colega nativo que me recomendou o Dezoito’s, ou Dezoitinho, como alguns o chamam. Me dei bem. Era, de longe, o mais disputado. Estava lotado, mas deu pra pegar uma última mesa. Fosse um sábado ou domingo, tenho certeza que teria que esperar. Comemos costela de tambaqui frita, melhor do que eu havia comido em Manaus. Pedimos também um cuscuz de camarão que chegou à mesa quente, o que me causou surpresa e desconfiança. Estava delicioso. E, como prato principal, uma bela posta de filhote assado. Como é praxe naqueles restaurantes, você é que escolhe o pedaço de peixe que vai querer. Estão todos lá, à disposição da visitação pública, já pré-assados. Escolha feita, ele é pesado e vai pra grelha terminar de ser assado no carvão. Sobrou metade, que trouxemos pra casa, junto com o pirão. Deve estar no freezer.

No dia seguinte, pela mesma estrada, pegamos o rumo contrário. Fomos em direção à capital. Antes de chegar em São Paulo, porém, entramos no rodoanel e depois de cruzar a Castelo Branco e a Raposo Tavares, entramos na Régis Bittencourt e, logo depois, em Embu das Artes. Após uma passeadinha básica pela feira de artesanato & antigüidades & bugigangas, fomos para o restaurante Bar Buenos Aires que de bar não tem nada. O que tem é uma ótima comida argentina. Tocado por Hugo Ibarzabal, fundador do Martin Fierro e do San Telmo (mais conhecido como Rei das Empanadas), ambos na Vila Madalena, o Bar Buenos Aires tem uma comida acima da média dos restaurantes argentinos da cidade, apesar de hoje serem tantos. A empanada é um caso à parte. Nem em Buenos Aires, apesar de intensa busca, comemos melhor. Uma experiência especial é ser atendido por sua mulher, Alejandra, uma Salteña que já virou brasileña. Até gíria ela fala, com muita propriedade.

Enfim, dois lugares que merecem o gasto de alguns litros de gasolina.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

E$porte

Aconteceu o que todo mundo esperava. A final da Copa América 2007 será entre Brasil e Argentina. Por um desses caprichos da tabela do campeonato, a partida entre os dois melhores times aconteceu na quarta feira. Sim, porque México e Argentina, sem nenhuma dúvida foram os melhores times da competição. E o México até que resistiu no primeiro tempo, fechando bem a sua defesa e ainda metendo duas bolas na trave dos argentinos. No finalzinho, entretanto, tomou um gol e teve que voltar mais aberto pra segunda etapa da partida. Aí não teve jeito. A Argentina desfilou seu talento e o México, aquele mesmo que ganhou de 2 x 0 do Brasil na estréia da Copa, acabou sucumbindo.

E agora, no domingo, vão se enfrentar Argentina e Brasil. Ninguém sabe o que vai ser. Mas dá pra imaginar.

Se dependesse só do retrospecto, a Argentina já estaria com a mão na taça. Afinal, venceu, com folga, todos os jogos que disputou. O Brasil, pelo contrário, além da derrota para o México, venceu os outros jogos com alguma dificuldade. Ganhou do Equador com um gol de pênalti discutível e, empatando com o Uruguai, levou a decisão da semifinal para os pênaltis, quando o goleiro Doni, como observou José Simão, inventou a cobrança de pênaltis com barreira.

Se dependesse da qualidade dos jogadores, aí então, nem precisaria haver o jogo. As defesas até que se equivalem. Se no Brasil, Juan tem que jogar por ele e por Alex, na Argentina, Ayala é que tem que carregar Milito nas costas.

Pode ser que Robinho seja melhor que Teves ou até que Messi (duvido), mas a nossa seleção não tem uma dupla como essa no ataque. Qualquer que seja o companheiro de Robinho.

Mas é justamente no meio de campo que o Brasil perde de lavada. Mascherano, Verón, Cambiasso e Riquelme são, sem nenhuma dúvida, melhores que Mineiro, Gilberto Silva, Josué e Júlio Baptista. E eles ainda se dão ao luxo de ter Gago e Aimar no banco de reservas. Qualquer combinação entre esses 6 jogadores daria um quarteto melhor que o nosso.

Gilberto Silva não vai poder jogar. Isso até poderia dar a esperança de que Dunga fosse obrigado a mudar (e, portanto, melhorar) o meio de campo, colocando Diego, Anderson ou até mesmo Cléber, inprovisado. Mas tenho uma forte convicção de que ele vai colocar mesmo é o Fernando. Afinal, se pudesse jogar com 15 atletas, ele colocaria 8 volantes em campo. É o estilo Dunga!

Com essa minha mania besta de gostar mais de futebol do que de torcer, eu bem que deveria desejar a vitória da Argentina. Nem que fosse para o Dunga cair em desgraça. Nem que fosse pra reforçar minha tese de que o time que joga bonito é o que deve ganhar. Nem que fosse pelo amor à arte.

Não tem jeito. Sei que, na hora, vou é torcer mesmo para o Brasil. Quando o assunto é futebol, a emoção ganha sempre da razão.

Em tempo:

Começa agora o Pan 2007. Por mais que se tenha falado das falcatruas e desmandos que envolveram a gastança de dinheiro nesse empreendimento, por mais que ninguém tenha explicado como é que o orçamento pulou dos 720 milhões de reais para 3 bilhões, por mais que as obras de infra-estrutura, prometidas para melhorar a vida do povo carioca, não tenham sido realizadas, mesmo assim, o ufanismo da mídia, capitaneada pela rede Globo, vai tentar escamotear tudo isso.

Se você não quiser ser contaminado por este ufanismo brazuca, visite o site A verdade do Pan, onde muitas notícias realistas sobre este evento estão sendo veiculadas. Só pra que a gente não fique totalmente cego.

terça-feira, 10 de julho de 2007

Férias

Estou em férias. Finalmente. Poucos dias, mas bastantes para um necessário descanso.

E a primeira coisa que as pessoas me perguntam, quando digo que vou sair em férias é: Vai viajar pra onde? E quando respondo que não vou viajar, que ficarei em casa, noto uma expressão de perplexidade na cara de cada um dos inquisidores. Além do mais, a Clélia está meio aleijadinha, se recuperando da cirurgia, sentindo, ainda, muita dor. Não daria mesmo pra viajar.

Pois bem. Estou em férias, ficarei em casa e isto me excita!

Anseio por uns dias em casa. O que mais faço, no meu trabalho é viajar. Só pra se ter uma idéia, nos primeiros 30 dias deste ano, eu fiz 32 pousos e decolagens! Não agüento mais sala de embarque (ou seria sala de espera?), quarto de hotel, táxi, desfazer malas (sim, porque quem as faz é a Clélia), enfim, tudo o que anseio é dormir na minha cama, ler meus livros, ouvir música, namorar, ir ao cinema, cozinhar.

E falando em cozinhar, neste primeiro dia das férias, resolvi preparar algo bem básico, mas ficou delicioso. Coisa simples. Umas postas de badejo, alguns camarões médios, brócolis e alho. Só isso. Um Valpolicella pra embalar e o almoço cumpriu sua função. Depois disso; cama, que ninguém é de ferro.

domingo, 8 de julho de 2007

O problema maior

O maior problema não é enfrentar uma viagem a Carajás a bordo de um turbo-hélice, com uma escala na cidade de Araguaína, no estado de Tocantins, cuja pista do aeroporto faz o avião tremer mais do que a intensa turbulência tão freqüente na região.

O maior problema não é visitar a mina de Carajás, da Companhia Vale do Rio Doce, e sair de lá com terra até no orifício mais bem protegido do corpo.

O maior problema não é dormir no melhor hotel da cidade de Parauapebas e sentir saudades do chão duro dos acampamentos da adolescência.

O maior problema não é viajar de Parauapebas pra pegar um vôo em Marabá, passando pelas cidades de Curionópolis e Eldorado dos Carajás, num carro alugado, ouvindo no rádio Fábio Jr., KLB ou Fernando Mendes. Nem o fato da estrada não ter acostamento. Este não é o maior problema, mesmo que no final da viagem, quase chegando em Marabá, tenha que enfrentar uma imensa boiada ocupando a estrada inteira, vindo na direção contrária e não saber o que fazer. Mesmo porque, rapidamente (e na marra), você percebe que não precisa fazer nada, a não ser ficar bem quieto, andando pra frente, bem devagar, vendo a boiada passando a um palmo do seu nariz, te olhando com aquele olhar conformado que só os bois sabem olhar.

Não. Nada disso.

O problema maior é perceber que uma empresa tão lucrativa como a Companhia Vale do Rio Doce não consegue formar mão de obra qualificada e nem promover o desenvolvimento social de uma população que a ajuda a gerar tanta renda.

O problema maior é assistir à programação local, na televisão, e constatar que, no Pará, notícias sobre denúncias de trabalho escravo são notícias corriqueiras.

O problema maior é perceber, ao longo da viagem, a quantidade imensa de terra disponível, sem nenhuma utilização. Isso numa região em que a disputa por terras já produziu uma chacina vergonhosa, recentemente.

O problema maior é que exista uma cidade chamada Curionópolis em homenagem a Sebastião Curió, um dos mais sinistros e sanguinários personagens do regime militar.

O problema maior é passar, em Eldorado dos Carajás, pelo acampamento do MST e verificar o estado de extrema miséria em que vive aquela gente e se lembrar que, aqui no sul, tem gente que os classifica como um bando de vagabundos, desordeiros e desocupados.

O problema maior, o nosso grande problema, é essa desigualdade social ultrajante, essa distribuição de renda vergonhosa, essa miséria que já não sensibiliza ninguém. Como se não houvesse problema. Que não sensibiliza nem mesmo os miseráveis, que nos olham com o mesmo olhar conformado dos bois.

Beleza e poder

Por conta das agruras que o sistema de transporte aéreo brasileiro tem imposto aos usuários, meu vôo saiu com duas horas de atraso de São Paulo e eu perdi minha conexão para Carajás, no sul do Pará. Como só há um vôo diário para lá, tive que dormir em Brasília, cidade que eu não conhecia. Nunca a tinha visitado.

Estar em Brasília causa duas sensações antagônicas. A primeira, muito positiva, é perceber que arquitetura pode ser instrumento de arte, ferramenta capaz de produzir muita beleza. É encantador ver, em todo canto da cidade, o traço típico de Oscar Niemeyer, privilegiando as curvas em detrimento da linha reta. É bom olhar as obras, entendendo o que ele pensou ao fazer os projetos, principalmente quando sabemos o que ele pensa sobre o mundo e sobre a vida. Da torre da TV tem-se uma visão magnífica da cidade, que ajuda a entender a simetria idealizada por Lúcio Costa. Enfim, uma beleza de encher os olhos.

A beleza externa da catedral metropolitana só é suplantada pela sensação que se tem ao entrarmos na igreja, onde o mármore foi usado com abundância, mas sem exagero e muito menos ostentação. Pena que os belíssimos vitrais estejam necessitando de manutenção.

A segunda sensação que se tem na cidade, esta bem negativa, é a proximidade com o poder. O poder que seduz e que atropela a ética e a solidariedade. O poder que se percebe ao passar pela esplanada dos ministérios, cujos prédios, sem arte, como se fossem retos caixotes, contrastam com os traços curvilíneos de Oscar Niemeyer, pai também destas crianças feias. Não me é difícil imaginar que o mestre tenha feito isso de forma proposital, sabedor do quanto pode ser pernicioso chegar tão perto do poder.

Uma coisa que me surpreendeu e encantou foi constatar que o sotaque de Brasília é o sotaque nordestino. 65% dos moradores de Brasília são de origem do Nordeste do Brasil. Quem tem mais de 45 anos não nasceu lá. Foram os candangos que vieram, sobretudo do Norte e Nordeste, pra construir a cidade de Juscelino. E hoje estão, eles e seus descendentes, trabalhando no comércio, nas recepções dos hotéis, nas cozinhas das casas do Lago Sul, dirigindo táxis. Foi um motorista de táxi, aliás, quando eu perguntei onde é que morava a gente pobre, que me disse que era nas cidades satélites, onde ele também mora. Cruzeiro, Guará, Taguatinga, Ceilândia, entre muitas outras. É nestas cidades que moram as empregadas domésticas, os choferes, os vigias de banco, os comerciários, enfim, essa gente que descende dos candangos, que vive muito perto do poder e que nunca vai morar numa mansão do Lago Sul.

E esta gente tem muito orgulho da cidade. Tem muito orgulho de morar lá. Esta gente que nasceu em Brasília e que a construiu. Uma gente que fica entristecida quando alguém associa Brasília a roubo e corrupção. Eles têm a resposta na ponta da língua: Essa turma da maracutaia vem de fora, de todos os pontos do país, e a gente é quem leva a fama.

sábado, 7 de julho de 2007

Dupla personalidade

Depois de fundar a Mangueira e de compor sambas importantes, o compositor Cartola sumiu do mapa. Ficou desaparecido, por quase dez anos, até que o escritor e jornalista Sérgio Porto o encontrou trabalhando como lavador de carros e tratou de resgatá-lo, trazendo-o de volta, exclusivamente, ao mundo do samba.

Só por isso, Sérgio Porto já mereceria um lugar de destaque na história da cultura brasileira. Mas Sérgio Porto foi muito mais do que isso. E foi muito mais sendo mais que um. Foi Sérgio Porto e foi Stanislaw Ponte Preta, um pseudônimo que inventou pra si, inspirado no personagem Serafim Ponte Grande, de Oswald de Andrade.

Li muito o Stanislaw quando era jovem. Tia Zulmira e eu me encantou por seu humor ferino. Mas foi com o Febeapá – Festival de besteiras que assolam o país, livro lançado em plena vigência da ditadura, que eu mais vibrei, por mostrar-se tão corajoso e crítico, sem deixar de ser divertido.

Apesar de ter gostado de ler Stanislaw Ponte Preta, nunca tinha lido Sérgio Porto. Falando assim, até parece que eram duas pessoas. É que, sendo um só, ambos foram tão importantes, que parece até natural tratar a coisa assim.

Pois acaba de ser relançado o livro As Cariocas, cuja edição original é de 1967. São pequenas histórias abordando seis personagens femininas e seus respectivos bairros cariocas. Em seu auto-retrato ele definiu a mulher como sua maior motivação. E sendo carioca até as últimas conseqüências, retratar a mullher do Rio de Janeiro foi, pra ele, uma confortável tarefa. E é falando sobre A Grã-Fina de Copacabana, A Noiva do Catete, A Donzela da Televisão, A Currada de Madureira, A Desquitada da Tijuca e A Desinibida do Grajaú que ele destila humor, crítica e sensualidade até dizer chega.

Apesar de terem 40 anos, temos a impressão que estamos lendo histórias do Rio de Janeiro de agora. A malandragem, o gingado feminino, a truculência da polícia. Tudo igual aos dias de hoje.

A nova edição traz um prefácio de Aldir Blanc, mas traz, também, o prefácio da primeira edição, de Jorge Amado. Só por isso, já valeria o investimento. Mas é na leitura das 6 histórias que a gente se esvai em prazer. Puro prazer.