Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Como todos nós

A coleção Perfis Brasileiros, editada pela Companhia das Letras, traz uma proposta que me agrada muito. A idéia é oferecer biografias de personagens da nossa história, escritas por estudiosos e que contenham boa base de interpretação pessoal. Isso faz com que estes perfis tenham alguma informação ou visão diferentes do que nos acostumamos a receber dos livros escolares.

Esta coleção me fez lembrar outra, editada pelo circulo do livro, mais de 20 anos atrás, chamada A vida cotidiana. Nela, era descrita a vida mundana de determinada época, na efervescência de algum acontecimento histórico importante. Lembro-me de ter lido Berlim no tempo de Hitler, de Jean Marabini, que, assim como os livros da coleção Perfis Brasileiros, falava da vida cotidiana com a história ao largo, usada como pano de fundo.

Eu já tinha lido o perfil de Dom Pedro II, de José Murilo de Carvalho, sobre o qual, inclusive, escrevi um texto aqui. E, agora, terminei de ler D. Pedro I: um Herói Sem Nenhum Caráter, de Isabel Lustosa. Ler os perfis dos dois Pedros, com tão pouca diferença de tempo, provoca uma inevitável comparação entre os personagens.

Sempre tive uma clara preferência pelo Pedro I, por mais que sempre tenha sabido que o segundo era muito mais admirável. Enquanto este era ligado às ciências e à arte, avesso à pompa, equilibrado e culto, o primeiro era desregrado, fanfarrão, mulherengo e inculto. Enfim, tinha um caráter absolutamente duvidoso. E é justamente por isso que minha preferência acaba recaindo sobre ele. Não é que eu prefira gente má a gente boa. Claro que não. É que eu tenho certa má vontade com os “bonzinhos”. Prefiro os humanos. Além do mais, alguém ser o tempo todo bom ou o tempo todo mau é coisa de telenovela.

O personagem Dom Pedro I, com seus arroubos, explosões, impulsividade, sua generosidade, alegria, lascívia, mas, sobretudo, seu amor ao Brasil, se identifica muito mais com o povo brasileiro do que o outro. E é essa mistura de qualidades, as boas e as más, que me fazem amar o nosso povo, um amor narcisista, já que me incluo, sem ressalvas, integrante dele. Sou absolutamente obcecado pelo nosso povo e gosto de tudo que provenha dele, do churrasco ao samba, do vatapá ao repente.

Enfim, gostei muito deste livro e, assim que terminar Mandrake, do Rubem Fonseca, me dedico a mais um perfil, desta vez, o de Getúlio Vargas, outro herói com algumas falhas de caráter. Como todos nós.