Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Honduras. Honduras?

Sou, por princípio, contra qualquer golpe de estado, seja ele proveniente da direita ou da esquerda. Embora reconheça as imperfeições dos regimes democráticos, tenho a convicção de que nenhuma outra forma de governo apresenta alguma vantagem sobre a democracia. Sobre as formas de estado, a história tem demonstrado, ao longo do tempo, que nenhuma das que foram experimentadas conseguiu promover bem-estar e justiça social para a maioria da população.

Voltando aos golpes de estado, devido a este meu princípio, encarei com orgulho a posição firme do governo do presidente Lula de repudiar, sem nenhuma tolerância, a tomada de poder em Honduras, absolutamente ilegal. Lembrei-me da época em que os golpes de estado pipocavam na América Latina, época que não traz nenhum resquício de saudade.

Não nutro nenhuma simpatia pela figura do presidente deposto, Manuel Zelaya, assim como sua figura, tampouco, me inspira antipatia. Humildemente, confesso que nunca tinha ouvido falar nesta pessoa. Confesso, ainda, que seu jeito meio fanfarrão, com bigode e chapéu, não me motivaria a convidá-lo para uma feijoada em minha casa, mas isso não quer dizer nada, já que são pouquíssimas as pessoas a quem me animo a enviar este convite. O não quer dizer que a figura do presidente golpista, Roberto Micheletti, com seu terno e sua gravata, me inspire mais simpatia, muito pelo contrário. Tenho certa má vontade com quem usa, constantemente, este tipo de roupa, em cidades de clima tropical ou equatoriano, seja político, empresário ou treinador de time de futebol. Acho isso um pouco jeca.

De toda forma, meu conhecimento sobre Honduras, ou qualquer outro país da América Central, é nulo e, mais uma vez confesso, desta vez envergonhado, que não tenho nenhuma curiosidade em aumentá-lo. Sugiro, para quem tenha uma ânsia maior que a minha por detalhes sobre este episódio, que leia este texto do Bruno Ribeiro, com o qual eu concordo, como concordo, em boa parte das vezes.

Faço esta sugestão movido pela convicção de que os nossos jornais e revistas não estão dando o tratamento adequado ao caso. Muito menos os canais de televisão. E se a situação em Honduras não move meu ânimo, a maneira com que nossos mais tradicionais órgãos de comunicação se comportam, isso sim, me tira do sério. Eles conseguiram, por exemplo, inventar (ou apropriar-se) de termos capciosos para qualificar o regime instaurado ilegalmente. Chamaram-no “governo de fato” ou “governo interino”, coisas que ele não é. É um governo golpista, simples assim. Agora, aparentemente, os jornais começam a economizar estas expressões (será vergonha?) e a utilizar o verdadeiro nome do regime, mas não fazem isso de maneira sistemática. Usam uma expressão na manchete e outra no corpo da matéria, quem sabe para criar uma mensagem subliminar no leitor. A TV, entretanto, continua firme em sua qualificação errada do governo ilegal.

O acerto do nosso governo ao repudiar o golpe de estado e oferecer abrigo (ou asilo) ao presidente deposto não está sendo repetido, em minha opinião, na maneira com que está conduzindo a situação. O Itamarati, pelo que tudo indica, perdeu o controle, por não ter adotado um plano para conduzir uma crise absolutamente previsível, desde que resolveu dar abrigo ao bigodudo. Com isso, corre o risco de perder o respeito que conquistou no primeiro momento da crise. Seria uma pena.

domingo, 27 de setembro de 2009

Emoção e Arrepio

Não sei o que é que me emociona mais ao ouvir este samba. Se é ouvir o nome de tantos bambas ou se é identificar quem está cantando cada verso. Devem ser as duas coisas. Só sei que me arrepia.
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O samba bate outra vez
(Maurício Tapajós & Paulo Cesar Pinheiro)


Odete, Aracy, Dona Ivone
SíIvia Teles, Claudette, Simone
Clara, Beth, Elizeth, Alcione
Dolores Duran, Clementina
Carmem Costa, Miúcha e Cristina
Gal, Bethânia e Elis Regina
Nora Ney, Nana, Linda e Dircinha
Dóris, Elza, Marlene, Emilinha
- O samba bate!

O samba bate outra vez
Bate outra vez, não pára
Bate no Estácio, na mídia
No estúdio, no pódio, no estádio
Num gol do Mengão campeão
E nos programas de televisão
Jornal e rádio

O samba bate outra vez
Bate outra vez e invade
Bate no bar, na boate
Nos palcos de toda cidade
Que bom que já bate esse som,
Que é do Brasil,
Dentro do coração da mocidade!

O samba bate outra vez
O toque de reunir
O samba é que leva emoção
Ninguém pode impedir
O samba é que é revolução
É preciso que se convençam
Por isso hoje o samba saiu
Saiu de novo pra quem não ouviu
E vem do compositor do Brasil
Com sua benção!

Pixinga, Vinícius e Baden
Caymmi e Chico Buarque
Vanzolini e Mauro Duarte
Manacéa e Waiter Alfaiate
Wilson Moreira e Nei Lopes
Bide, Brancura e Baiaco
Marçal, Ismael, Nilton Bastos
Casquinha, Candeia e Monarco
O samba bate!

(O samba bate outra vez...)

Mijinha, Anescar, Aniceto
Assis Valente, Ataulfo, Herivelto
Ary Barroso, Jobim, João Gilberto
Haroldo Lobo e Janet de Almeida
Wilson Batista e Geraldo Pereira
Mano Décio e Silas de Oliveira
Vadico, Sinhô, Noel Rosa
Luis Reis e Haroldo Barbosa

Donga e João da Baiana
Monsueto e Luis Soberano
Claudionor e Pedro Caetano
Cartola e Nelson Cavaquinho
Elton Medeiros, Zé Kéti e Paulinho
Mirabeau, Zé-com-Fome, Valzinho
Lyra, Menescal e Bôscoli
Donato, Aldir, João Bosco

Miltinho, Aquiles, Rui, Magro
(A moçada do MPB-4)
Dick, Lúcio, Emílio Santiago
Vassourinha e Ciro Monteiro
Jamelão, Dilermando Pinheiro
Roberto Silva e Roberto Ribeiro
Mário Reis, Jorge Veiga, Moreira
Zimbo Trio, Jair, João Nogueira
O samba bate!

(O samba bate outra vez...)

sábado, 26 de setembro de 2009

O pior pecado

A cena se repete todos os dias, invariavelmente. Pode mudar o cenário, com nuvens ou com céu aberto, mas os personagens são os mesmos, ainda que mudem. Eu, sozinho no carro, sou como tantos outros, a maioria sozinhos, indo em seus carros, manhã bem cedo, rumo ao trabalho. Há os que andam nas calçadas, determinados, ambos os lados, um rumo parecido. Descem dos ônibus ou se dirigem ao ponto. Rostos diferentes, roupas diferentes, o mesmo semblante. O cenho fechado, grave, obscuro, como o que exibimos nós, de dentro dos carros.

E no meio desta cena, eis que um personagem me chama a atenção. É um rapazote no mesmo cenário que todos, também anda sozinho, determinado, indo pro trabalho ou pra escola, quem sabe. É de manhã cedo, como é pra todos. O mesmo céu, o mesmo chão. O que difere é um inexplicável sorriso em seu rosto.

Não há uma imagem engraçada em seu campo de visão e nenhuma mulher especialmente bonita anda à sua frente e nem vem ao seu encontro. Não é um riso largo, nem um riso de ironia. Também não é um sorriso idiota. Não é dirigido a ninguém que se possa notar. É um sorriso só dele, que não precisa ser explicado e que, talvez, nem ele mesmo perceba. Nem é um sorriso especialmente bonito, mas é um sorriso, só isso.

Vendo aquilo, pequei o pecado que eu mais abomino. Vendo aquilo, senti uma curtíssima e imensa ponta de inveja.

Samba e piano

Ivan Lins não está entre meus ídolos. Na verdade, eu não gosto dessa idéia de idolatrar ninguém, mas há artistas por quem tenho extrema admiração. Artistas que me comovem, fazendo músicas que me emocionam. Músicos que me seduzem com canções que fazem minha vida ser mais feliz. Enfim, Ivan Lins não está entre eles.

Não estou dizendo que desgosto deste artista. Muito pelo contrário. Acho que sou capaz de relacionar dez ou até vinte músicas dele que acho excelentes. Gosto muito da maneira que ele lida com a harmonia e percebo sua assinatura em muitas composições, em geral, gostando dela. Me incomoda, entretanto, sua voz um tanto metálica e sua maneira de executar o piano, de forma martelada. Gosto bastante, enfim, de algumas de suas músicas, preferencialmente cantadas por outros artistas. E, da mesma forma, nunca me interesso quando ele canta músicas de outros compositores.

Foi por tudo isso que não me interessei em ouvir o disco em que Ivan Lins canta Noel Rosa, há doze anos, quando foi lançado. Afinal, se Ivan Lins figura entre os artistas que eu apenas admiro, Noel está naquela outra categoria, a de quase idolatria. Fiquei imaginando seu martelo assassinando as clássicas obras de um gênio, e sua voz metálica profanando algumas letras magistrais do poeta da Vila Isabel. Além do mais, tenho tremenda má vontade com a mistura de samba e piano. O disco saiu e eu deixei passar.

Por esses dias, por puro acaso, este CD começou a tocar no meu carro (Acaso, aliás, é uma das canções de Ivan Lins que muito me agradam). Fui tomado de grande surpresa. Surpresa, aliás, é o que mais existe neste trabalho, lançado, inicialmente, em 2 volumes e depois relançado em formato de box, com a adição de um terceiro. Já na primeira faixa, numa grande sacada, o samba De Babado de Noel e João Mina é transformado em um partido alto em que Ivan versa ao lado de Nelson Sargento, Nei Lopes e Zeca Pagodinho, partideiros notórios. Outra surpresa agradabilíssima é que o piano foi deixado a cargo de duas feras do instrumento: Cristóvão Bastos e Leandro Braga. Desse jeito, um piano se encaixa bem até em bateria de escola de samba. Entre os músicos, executando o samba mais autêntico que a nossa gente é capaz de produzir, tem gente da lavra de Armando Marçal, Cláudio Jorge e Marcos Suzano. Fica difícil não acertar.
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De Babado (Noel Rosa & João Mina)

Como se isso tudo já não fosse suficiente, há participações especiais de uma turma do primeiro time da nossa música como Chico Buarque, Caetano Veloso, MPB4, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Zé Renato e Guinga, entre outros do mesmo quilate. O som fica quase perfeito. O que destoa é o que eu já previa: a voz metálica de Ivan Lins. Mesmo isso não consegue estragar este excelente trabalho. Ainda bem.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Avidez

Faz muito tempo que eu não lia um livro com tanta avidez. Elogiado por Elio Gaspari em sua trilogia da ditadura brasileira como o mais importante documento sobre a conspiração dos militares, Visões do Golpe - A memória militar de 1964 foi lançado em 1994 pela Relume-Dumará e relançado, 10 anos depois, pela Ediouro. Organizado por Maria Celina D’Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, o livro traz depoimentos de 12 militares que participaram ativamente da conspiração que derrubou o presidente João Goulart em 1964. Todos oficiais de média patente, nenhum deles teve ação decisiva na eclosão do movimento, levado a cabo por generais, mas ao curso do tempo, foram sendo promovidos ao generalato e conduziram o regime ao longo de 20 anos com a morte ou reforma daqueles que deflagraram o golpe. O golpe, aliás, presente no título, é tratado pelos entrevistados por revolução, como se ela tivesse se originado do seio e dos anseios da população. Defendem o golpe com muita altivez.

Deixando claro que têm, muito firmemente, suas próprias convicções, os organizadores decidem eximir-se de mostrá-las para oferecer aos leitores o pensamento dos militares entrevistados. Sendo assim, o livro acaba não cometendo o maior pecado que cometeu Elio Gaspari ao não conseguir disfarçar sua clara admiração por Geisel e Golbery em sua trilogia. Esta é a diferença entre livros de história quando são escritos por jornalistas e quando são escritos por cientistas políticos, sociólogos ou historiadores.

O que fica patente, no livro, além do fato de todos os entrevistados defenderem o golpe, é a clara existência, na época, de dois grupos distintos dentro das forças armadas. Os Castelistas e os Costistas, uns defendendo a legalidade e outros, a chamada Linha Dura. Todos eles reconhecem que Castelo Branco tinha por objetivo devolver o poder a um civil depois de seu mandato. Segundo eles, esta disposição foi atropelada pelo grupo da linha dura que teria, aliás, levado Costa e Silva a apoiar esta direção. A maioria admite que Costa e Silva queria o poder, desde a deflagração do golpe, o que não significa que quisesse a presidência. Isto, pra mim, é mais do que suficiente para caracterizar o regime como uma ditadura.

Independentemente das questões históricas, o relato dos entrevistados serve para deixar muito clara a maneira como pensam os militares, como eles se consideram em relação aos civis e como é importante, mais do que tudo, a questão da hierarquia dentro das corporações. Tanto que, todos eles não hesitam em apontar como causa da deflagração do golpe o apoio que Jango deu aos sargentos e marinheiros nos momentos em que se sublevaram ou questionaram a ordem estabelecida dentro das casernas. Muitos deles não titubearam em declarar que sem este apoio, provavelmente, os militares não teriam se unido a ponto de desferirem o golpe no estado. Afirmam, sobretudo, que Castelo Branco não o faria.

E esta afirmação me leva, sempre, a fazer pequenas digressões condicionais. Como seria o nosso futuro se Jango não tivesse sido deposto? E se Jânio não tivesse renunciado? Aliás, o que teria acontecido se Lott não tivesse garantido a posse de Juscelino? O que teria sido de nosso país se Getúlio não tivesse dado um tiro no peito? Nada disso, porém, serve pra alguma coisa. A história não admite o uso da conjunção condicional.

O livro trata apenas do período que vai da tomada do poder até a posse de Costa e Silva, como segundo presidente militar. Engloba, portanto, o tempo anterior ao recrudescimento do regime, com sua onda de repressão e tortura, marcas registradas dos governos de Costa e Silva e Médici. Mas, como na obra de Gaspari, este livro faz parte de uma trilogia. Sendo assim, já tenho em minhas mãos o segundo volume, cujo título é Os anos de chumbo. Este, sim, é um período que me interessa ver como os militares vão encarar.