Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

sábado, 20 de março de 2010

Amor e posse

Perder alguma coisa material tem a sua dor. É uma dor amena, ao menos pra mim. Já passei por isso algumas vezes. Certa vez, esqueci um livro numa sala de espera de dentista. A dor foi mais pelo que deixei de ler e pela ruptura da continuidade do prazer que já experimentara, do que pelo valor do livro, propriamente dito. Curiosamente, vim a comprar um outro exemplar dele, algum tempo depois, mas nunca retomei sua leitura. Ficou, mesmo, como uma perda.

Certa vez, emprestei um disco a um amigo e não mais o reouve devido a uma dupla amnésia, a do amigo que deve tê-lo colocado em sua estante por descuido e a minha, que não me lembrei qual foi o amigo contemplado pelo empréstimo sem volta. A dor, neste caso, foi amenizada pela certeza que o bom amigo passou a regozijar-se com boa música, já que, assim como só tenho bons amigos, sempre só tive bons discos.

A dor maior, a mais pungente, é a perda de algo que nos falte ao sentimento, algo pelo que sintamos carinho, algo pelo qual sintamos amor. Algo que tenha uma história, construida ao longo de muitos anos. Aí, a sensação é maior do que a de perda. A sensação é a de vazio, um vazio que parece que nunca mais vai ser ocupado novamente. Talvez o tempo amenize essa dor.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Rio e o choro

Nada pior do que viver mal informado. E confesso, ultimamente, ando com tanta preguiça que pouco interesse tenho tido nos assuntos que pululam nos nossos dias. Mas eis que, de repente, sou tomado de assalto por essa pendenga a respeito dos royalties do pré-sal, envolvendo os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todo mundo falando, manifestações nas ruas do Rio, o governador Sérgio Cabral ora chorando ora indignado. Podia tentar me informar, ler como um louco a respeito do assunto, mas a preguiça me cria barreiras, ata minhas pernas, embota meus olhos. E aí, quando não se tem informação suficiente, só há duas ferramentas pra encarar a questão. Uma é usar a intuição e a segunda é dar uma olhada em quais são as pessoas que estão defendendo um lado e outro.
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A primeira opção é a mais perigosa, já que a intuição pode trair a gente, danada que ela é. Além do mais, a intuição sempre funciona melhor quando está acompanhada de fortes convicções a respeito de todas as coisas. E nesse aspecto, admito, ando meio fraquinho. Se ainda fosse no tempo dos meus 30 anos, quando eu tinha as certezas mais absolutas a respeito de tudo, mas hoje, beirando os 50, não tenho certeza de nada. Virei, de novo, aprendiz. Só que aprendiz preguiçoso, que é o pior tipo que pode existir.
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De qualquer maneira, meu sentimento vai na direção de achar que não é pelo fato de uma riqueza ser produzida numa determinada região que as pessoas das outras partes do país não devam usufruir dela. Tenho essa mania meio antiquada de crer que a riqueza deve ser dividida com todo mundo. Mania fora de moda, reconheço. Mas se for só pela intuição e pelo sentimento, absolutamente desprovido de informação e sem nenhum saco de pensar muito no assunto, minha tendência é a de achar que os lucros da exploração do petróleo não devem ficar concentrados somente nas regiões produtoras.
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Sei que isso é pouco pra segurar qualquer discussão, embora não esteja nos meus planos discutir esse assunto com ninguém. Estou, sinceramente, pouco me lixando pra o tema. Mas, mesmo assim, reconheço que meus argumentos são fracos.
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Resta, portanto, a segunda opção. Resolvo, então, prestar atenção em quem é que está esbravejando contra a emenda do Ibsen Pinheiro e vejo, de cara, o Arnaldo Jabor e o Reinaldo Azevedo. Isso não deveria bastar, mas acabou bastando.
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Assim sendo, munido do que consegui formular utilizando estas duas precárias ferramentas, tendo a concluir que a riqueza deva ser distribuída de maneira mais igualitária entre todos, preservando o direito das regiões produtoras de terem seus custos cobertos. É uma conclusão bem simplista, simplória até, bem sei. Mas, como já deixei claro, não tenho nenhuma intenção de descer tão profundamente nesta questão quanto as profundezas do pré-sal. É só intuição. Intuição e faro.

terça-feira, 16 de março de 2010

Bar do Cação

Continuando a singela participação no Comida Di Buteco em Campinas, antes que o evento acabe, fomos ao bar do Cação comer o camarão empanado. Talvez por excesso de expectativa, acabei ficando um tanto decepcionado com a iguaria. O camarão é enorme, não há como negar, mas, talvez, até por isso mesmo, não é nenhum espetáculo. Mas também não é ruim, levou uma nota 8. Mais que o 6 que eu dei pra coxinha e menos do que o 9 que o joelho de porco mereceu.

Espetéculo, mesmo é o chopp Brahma, meu preferido, de longe. Estava no ponto ideal, temperatura perfeita, cremosidade criminosa. Um néctar.
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O bar me pareceu bem honesto e o cardápio bastante instigante. Tem muita coisa interessante. Só não tem cação.
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Devemos voltar lá pra provar algum dos escondidinhos.

domingo, 14 de março de 2010

Lá do Paraná

São Paulo e Rio de Janeiro nos impõem uma hegemonia cruel na área da música popular. Embora a Bahia tenha gerado tantos talentos, de João Gilberto aos Novos Baianos, passando pelos antigos, os Doces Bárbaros, esses talentos, todos, só foram mostrados ao Brasil depois que migraram para o eixo Rio-São Paulo. E isso se repete, ali e acolá, com artistas de todos os cantos. Essa hegemonia, forçada pelo poder econômico, acaba nos impedindo de ver, ouvir e conhecer muita gente boa, de talento, que não tem oportunidade de se mostrar ou não tem assim tanta fome de fama.

Por tudo isso, me encho de alegria quando descubro algum artista novo ou, ao menos, que eu não conhecia. Foi o caso de Rogéria Holtz que, apesar de paulista, radicou-se no Paraná e lá, vem tentando firmar uma carreira. E em seu segundo disco, No país de Alice, resolveu cantar parte da obra de Alice Ruiz, outra paranaense de quem, aliás, já falei aqui no blog.

Há, no disco, parcerias de Alice Ruiz com Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zeca Baleiro, Zé Miguel Wisnik e Alzira Espíndola, entre outros. Este amplo espectro de compositores possibilita percebermos que a cantora detém considerável versatilidade. O acompanhamento prima pelo básico, guitarra, baixo e bateria, eventualmente um teclado, sem invencionices.

A voz de Rogéria Holtz é grave, lembrando, às vezes, a de Zélia Duncan, de quem também me agrada muito o timbre. E como Alice tem esta fauna diversa de parceiros, o disco é também bastante diversificado, embora ao longo das faixas o que impera são as baladas de levada bem pop, umas mais leves, outras mais ligeiras. Não é, definitivamente, meu tipo predileto de música, mas não posso negar que causa certo prazer ficar a ouvi-lo. Não há uma faixa espetacular, mas, no todo, o disco encaixa muito bem.



Virtual (Alice Ruiz – Zé Miguel Wisnik)

sábado, 6 de março de 2010

Comida di buteco em Campinas

Iniciou ontem o Comida di Buteco em Campinas. Este evento, originado em Belo Horizonte, onde acontece há dez anos, começou com uma idéia simples, a de eleger a melhor comida servida entre os incontáveis botecos da capital mineira. A idéia fez sucesso, virou evento e acabou sendo exportada para outras cidades. Ganhou site, organização e regras. Tenho um certo pé atrás quando se colocam muitas regras em manifestações naturais e como boteco é um assunto muito sério, fico,então, com os dois pés atrás. Tenho medo quando as coisas viram moda e boteco, definitivamemte, não combina com modismos. Boteco é lugar pra encontrar os amigos de verdade ou pra ir sozinho curtir dor de cotovelo. É lugar pra apreciar mulher bonita e pra falar mal do governo. É, enfim, lugar pra lamber os beiços e encher a cara, sem ter que se preocupar se está fazendo bonito ou feio. Boteco é o último reduto do homem livre.

De qualquer maneira, o concurso, em Campinas, já começou e vai durar 2 semanas. 20 botecos participam e eu não sei qual foi o critério para a seleção, mas me parece inacreditável que o City Bar, meu preferido, não esteja na lista. A relação deles, com os petiscos concorrentes, pode ser encontrada no site do evento.

Como não preciso de um motivo pra ir a um boteco, com motivo foi mais fácil ainda. Provavelmente, não irei a todos, nestes quinze dias, mas já fui em dois deles, um ontem e outro hoje. Não conhecia, ainda, nenhum dos dois.

Por estar bem perto de casa, fomos, ontem, ao Bar da Coxinha. O lugar me decepcionou. Ostentando este nome, o mínimo que eu esperava era que o acepipe principal da casa fosse irrepreensível. Achei abaixo da média e nem acho que uma coxinha mediana precise ser espetacular. O recheio estava bom, mas a massa era molenga e a fritura encharcada. Quem é do ramo saberia como trazer esta iguaria bem sequinha à nossa mesa. Um lugar aprazível, bem boteco de bairro, onde as pessoas podem ir a pé tomar uma cerveja honesta, mas deveria, obrigatoriamente, oferecer uma coxinha de primeira, ou mudar o nome.

Hoje, fomos ao Rei do Joelho. Ao chegar, já simpatizei com a casa: é a minha cara. Abrindo o cardápio, um texto do amigo Bruno Ribeiro, tecendo loas ao local, me deixou ainda mais animado. Pedimos o joelho à pururuca. O que comemos foi bem melhor do que imaginava. Já comi muito joelho de porco, nas nossas terras e em terras alheias. Arrisco-me a dizer que este seja o melhor entre os que já digeri. A salada de batata que o acompanha é fundamental. A mostarda utilizada mostra que o responsável pela cozinha sabe bem o que está fazendo. Até o azeite que a Clélia, a mais crédula das crédulas, pediu era bom, soterrando, mais uma vez, minha falta de fé na raça humana. Saímos de lá satisfeitos e felizes. Para aqueles que cultuam a comida leve, sugiro que fujam com a mesma tenacidade com que eu fujo de um prato de alface. É comida pra iniciados.

Modismos à parte, o evento, pelo menos, acabou servindo pra me dar assunto pro blog.