Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

domingo, 29 de junho de 2014

A campanha eleitoral

À beira do momento ápice da campanha eleitoral, percebo que, infelizmente, não evoluímos na forma de conduzir o debate político que pudesse servir para facilitar a escolha do eleitorado. Eu me arrisco a dizer que, muito pelo contrário, corremos o risco de termos um debate piorado se comparado aos que tivemos nas eleições passadas.

Como já ocorreu nas últimas campanhas eleitorais para presidente, podemos identificar, entre o eleitorado, três grandes grupos: os petistas, os antipetistas e um terceiro que eu chamaria de independentes. Cada um dos dois primeiros pode ser dividido em duas fatias. O terceiro grupo é mais multifacetado.

Entre os petistas há aqueles que se posicionam desta forma por uma questão ideológica, de esquerda. Nada mais legítimo, já que a posição de esquerda é clássica como uma maneira de enxergar a política e está presente em todas as sociedades. A esta fatia eu chamaria de autênticos. Há uma outra fatia, entretanto, que não tem uma compreensão clara do que os petistas defendem como bandeira e identificam nas ações do governo apenas um componente clientelista, enxergando cada ideia como dogma e cada ação como salvação da pátria. Esta parcela da militância petista é a que costuma enxergar um risco de golpe em cada esquina e tem grande dificuldade em tolerar qualquer pensamento divergente. A esta parcela eu chamaria de ignorantes.

Entre os antipetistas, aqueles que se posicionam assim por uma questão ideológica de direita também representam uma posição absolutamente legítima, até porque, a posição de direita é, também, historicamente, clássica como uma maneira de enxergar a política e, da mesma forma, presente em todas as sociedades. Quem defende esta posição ideológica também poderia ser chamado de autêntico. A outra fatia dentro deste grupo é aquela que adota esta posição baseada em preconceito e todo preconceito é demonstração de ignorância, já que não se vale de informação verdadeira para conceber seu pensamento. Esta parcela, em geral, teve acesso a uma evolução social, mas não apresenta a contrapartida de uma evolução cultural. São pessoas com algum poder econômico, mas com pouca capacidade intelectual. Enxergam em toda ação do atual governo um perigo iminente de revolução comunista. Por este motivo, esta parcela de antipetistas é muito parecida com a parcela ignorante dos petistas.

O terceiro grupo, aquele que eu chamei de independentes é o mais complexo na hora de distinguir as facções. Há uma parcela guiada pela ideologia e que não identifica em nenhum dos dois grupos uma clara representação de seus conceitos. Esta parcela do eleitorado, normalmente identificada como “indecisos”, na verdade, vai migrar para uma das posições anteriores no momento do voto. Curiosamente, neste caso, acabam se misturando, neste balaio, pessoas de centro, de extrema esquerda e de extrema direita que, apesar de discordarem entre si na concepção política do mundo, unem-se na crítica ao discurso ou à prática de um dos grupos anteriores (ou a ambos). Nesta massa de eleitores, incluem-se, também as pessoas sem interesse nenhum por política, outrora chamados alienados (termo meio fora de moda) e, finalmente, uma quantidade imensa de pessoas que não consegue interpretar claramente as propostas de qualquer grupo (ou candidato) que esteja na disputa. Novamente aí, uma grande quantidade de pessoas ignorantes.

Quando uso o termo ignorante, não o faço com a conotação pejorativa, às vezes ofensiva, que ele tem. Ser ignorante é não ter conhecimento. É uma coisa natural. Afinal, todos somos ignorantes em algum tema (ou em muitos).

Não é tão preocupante que haja tanta gente ignorante em termos de política. Preocupante é perceber que os grupos que estão na disputa, ao identificarem o enorme contingente de eleitores nesta situação, foque seu discurso exatamente neste extrato, não para esclarecer suas propostas, mas, sim, para alimentar ainda mais a falta de entendimento destas pessoas e, com isto, conquistar seus votos, já que o voto das pessoas esclarecidas, tanto à direita quanto à esquerda, já está garantido. Para isso, as campanhas eleitorais utilizam de todo tipo de estratégia para confundir, enganar, mentir, alimentando o preconceito e fomentando o ódio na sociedade, ódio este que serve de combustível para incendiar as militâncias.

Em geral, passada a eleição, este clima esmaece, as coisas se acomodam e os grupos que disputam o poder negociam entre si, como é normal (e desejável) em política.

O grande perigo em insistir na utilização desta estratégia é que poderá acontecer, um dia, deste ódio fomentado sair do controle, passar do ponto e a sociedade ficar dividida de uma forma que não haja saída para contornar as arestas. Aí será a barbárie. Será a vitória da ignorância sobre o bom senso.