Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

domingo, 28 de setembro de 2014

Voto

Desde a morte de Eduardo Campos, a decisão do meu voto foi definida, em favor de Dilma Rousseff. Isso não quer dizer que eu iria votar no candidato do PSB, mas, até aquele momento, eu estava sinceramente indeciso. Com sua saída da disputa, fiquei sem outra alternativa.

Nas últimas eleições presidenciais, o debate foi pautado pelo eleitorado mais conservador e, infelizmente, a discussão ficou centrada em questões como a legalização do aborto, descriminalização do consumo de maconha ou casamento gay. Isso, em minha opinião, empobreceu o debate que poderia ter tomado um rumo mais ideológico.

Desta vez, novamente, encontrou-se uma via que evita a discussão mais profunda do que a sociedade brasileira quer como diretriz do novo governo. Escolheu-se, aliás, um tema antigo e desbotado, já utilizado desde a redemocratização do Brasil, pós-Segunda Guerra, nas eleições de 1945. O surrado tema da corrupção foi utilizado na eleição de Dutra, de Juscelino e de Jânio, sempre com arautos da moralidade, entre os quais, o mais eloquente, à época, foi Carlos Lacerda.

Hoje, na falta de alguém com a verve que tinha Lacerda, a mídia une-se e investe-se do dever cívico de delatar os desmandos do governo federal, tomando o cuidado de não deixar claras as responsabilidades estaduais e municipais.

Se não fosse uma questão de má fé, poderia, até, passar por ingenuidade o embarque nesse discurso a respeito da corrupção, como se fosse ferramenta exclusiva de um só grupo ou partido. É hipocrisia falar do mensalão e se calar sobre a compra de votos que possibilitou a reeleição do presidente Fernando Henrique, assim como noticiar as estripulias em torno da Petrobras e se calar sobre o escândalo no metrô de São Paulo. Uma coisa não justifica a outra, mas não é honesto abrir espaço apenas para um dos lados do espectro político.

O critério da minha escolha não é por um determinado nome e nem mesmo por um partido, mas, numa convicção muito pessoal, pelo modelo que eu acredito para o desenvolvimento do Brasil. Na minha forma de ver, o crescimento da economia do país não pode ocorrer em detrimento da distribuição mais justa de renda. A diminuição da desigualdade social é mais urgente que o crescimento econômico e uma coisa não garante a outra, todos sabemos. Esta é a questão que deveria estar em discussão, pois é a clara diferença entre as propostas dos dois grupos que vêm disputando o poder nos últimos 20 anos.

Deixando a ingenuidade de lado, é imperativo reconhecer que ambas as posições são legítimas e expressam, cada uma, a maneira de pensar de uma parcela da nossa sociedade. Há os que acreditam na necessidade de um estado que garanta igualdade de oportunidades para todos e há aqueles que não têm esta preocupação, ou seja, que acreditam que cada um tem que buscar o seu caminho, se virar. Há quem se incomode com a presença de crianças pedindo esmolas nos semáforos e há os que só enxergam o interior de seus carros quando estão parados num semáforo. Há quem tolere posições e formas diferentes de pensar e há aqueles que só conseguem se comunicar com quem pensa de forma semelhante. Enfim, há essa imensa divisão em nossa sociedade e é natural que cada pessoa escolha quem representa seu posicionamento.

Entre as alternativas que eu elenquei, no parágrafo acima, eu me posiciono sempre na primeira, em cada frase. Por isso é que eu defini meu voto na continuidade de Dilma Rousseff na presidência da república. Entendo que, dentre as possibilidades com alguma chance de vitória, ela é a única que pode, minimamente, conduzir a sociedade na direção que eu enxergo como correta. Acho absolutamente natural, entretanto, que aqueles que pensam diferente de mim, ou seja, que optem pelas outras alternativas, escolham o candidato Tucano.

Minha escolha, entretanto, não impede que eu reconheça falhas, erros e até crimes na condução do governo. É por isso que, mesmo que eu vote numa pessoa ou num partido, não me eximo de criticá-lo, quando acho isso necessário. Acredito na discussão política, com este viés ideológico, como a melhor maneira de cada um se posicionar.  O que dá pena é que, em lugar de travar esta discussão de maneira aberta, prefira-se escamotear as reais motivações da definição do voto.


domingo, 21 de setembro de 2014

O samba emblemático de São Paulo

São Paulo ostenta um título, cuja autoria é atribuída a Vinícius de Moraes, o de “Túmulo do Samba”. Seja verdadeira ou não a sua autoria, tenha sido gerada por convicção ou por brincadeira, o que importa é que o título é injusto.

Reconheço, claramente, as diferenças entre o samba praticado, hoje, em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. Digo hoje, pois talvez estas diferenças não fossem assim no passado. Ou fossem diferenças diferentes.

Sempre gostei mais da forma com que o samba é praticado no Rio, mas acredito que o samba de São Paulo, hoje em dia (e quando digo isso, refiro-me aos últimos 20 anos), guarda mais proximidade com o samba carioca autêntico do que o próprio. Com o samba da Bahia, que involuiu do prato e faca para o axé, não tenho nenhuma paciência.

Um bom exemplo do melhor samba de São Paulo é o CD Carlinhos Vergueiro interpreta Paulo Poeta Compositor Cientista Boêmio Vanzolini.

Menos incensado que Adoniran Barbosa, como símbolo do samba de São Paulo, considero Paulo Vanzolini o representante mais emblemático (e mais importante) do samba na terra da garoa. Cientista internacionalmente reconhecido, falecido há pouco mais de um ano, ele sempre se intrigava com o fato de ser, no Brasil, mais famoso por alguns de seus sambas do que pelo seu amplo trabalho científico e acadêmico. Uma prova inequívoca da sabedoria popular, que soube dar a verdadeira importância a alguns clássicos de sua obra como Ronda ou Volta por Cima. Embora não sejam tão famosos, os sambas de minha preferência são Praça Clóvis e Mente, este composto em parceria com Eduardo Gudin. Uma das virtudes do CD foi mesclar alguns clássicos do autor com obras bem menos conhecidas.

Embora tenha composto muitas canções, o que mais me atrai em Carlinhos Vergueiro é sua voz grave e sua forma, absolutamente paulista, de cantar. É muito bom, de vez em quando, ouvir um samba sem o chiado nos esses e a rascância dos erres.


Maria que ninguém queria (Paulo Vanzolini) – Carlinhos Vergueiro