Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Vozes que se calam

Já escrevi, num post de 2007, o quanto eu gosto de conjunto vocais. Falei da minha simpatia pelos Cariocas e pelo Boca Livre, mas ressaltei que minha preferência sempre foi o MPB4. No texto de 8 anos atrás, eu falava do quanto me desagradou a saída do Ruy, substituído por Dalmo Medeiros, o que descaracterizou a sonoridade do grupo.

A sonoridade do MPB4, aliás, foi o que sempre me seduziu. Enquanto eu achava que Os Cariocas abusavam do uso de falsete, o som do Boca Livre me parecia, às vezes, um tanto meloso, sem falar do repertório, com o qual tinha um pé atrás. No caso do MPB4, o repertório me parecia irrepreensível.

Voltando à sonoridade do grupo, a principal razão da minha preferência eram os arranjos vocais, quase sempre a cargo do Magro. E agora, desde 2012, com sua morte, este som, definitivamente, não tem mais chance de voltar a soar. Por mais contraditório que isso possa parecer, o que me agradava em seus arranjos era a incidência dos trechos em uníssono que ele utilizava nas canções. Em geral, os arranjadores vocais fazem exatamente o contrário, ou seja, harmonizam cada nota da melodia com um acorde, de forma que, em grande parte das vezes, o resultado fica pesado. O que o Magro fazia era justamente usar o canto em uníssono para ressaltar belos acordes, quando, realmente, eles pudessem ter um efeito especial.

Este tipo de detalhe sempre me interessou e, por isso, foi com grande entusiasmo que comprei o livro Vozes do Magro, lançado ano passado. Nele, o maestro comenta detalhes dos arranjos de cada faixa dos primeiros 14 discos do grupo, ou seja, a primeira metade de sua discografia. Felizmente, os meus discos prediletos (Cicatrizes, Palhaços e Reis, 10 anos depois e Canto dos Homens) encontram-se nesta relação, até porque, minha preferência recai justamente nesta fase do quarteto.

Entremeando dados técnicos musicais e detalhes das gravações com “causos”, alguns pitorescos, o autor não se furta em reconhecer deslizes, revelando os arranjos que, em sua opinião, não ficaram tão bons, seja por falta de competência, seja por preguiça. Esta sinceridade acaba por enriquecer mais ainda os comentários. Entre um disco e outro, entre uma faixa e outra, o livro vem recheado de depoimentos de artistas que privaram da convivência com o Magro e o MPB4.

No fim do livro há, ainda, uma série de partituras com os arranjos do maestro com alguns dos sucessos do grupo que, por mais de 40 anos, embalaram meus sentidos e o de muita gente de minha geração.

Resistindo, pra não perecer, o MPB4 convidou Paulinho Malaguti para substituir Magro no grupo e assumir a responsabilidade pelos arranjos. Malaguti fez um trabalho competente como arranjador dos grupos Céu da Boca e Arranco de Varsóvia, mas, como eu já disse em meu texto de 2007, nunca me interessei por conjuntos vocais mistos. Se já era difícil eu me interessar pelo som do MPB4 sem o Ruy, imagine agora, sem os arranjos do Magro. Definitivamente, as vozes do MPB4, para mim, se calaram. Fica, enfim, a consolação de poder ouvir os seus discos antigos.

(João Bosco e Aldir Blanc) - MPB4