Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Toda maneira de amar

Isso era pra ser um comentário no blog do meu amigo Bruno Ribeiro, mas ficou tão grande que virou um post aqui no meu blog. Sendo assim, sugiro que, antes de continuar, dê uma olhada em seu texto da amizade de homens e mulheres pra depois voltar.

A princípio, sou meio avesso às generalizações, do tipo; todo argentino é assim, todo alemão é assado. Ou então, de frases que começam assim: O problema é que o brasileiro é.... São frases proferidas por brasileiros, que, evidentemente, nunca se incluem no problema, superiores que se enxergam. Da mesma maneira, tendo a rejeitar generalizações discriminatórias a respeito de pretos, de veados, de nordestinos, de ricos, seja a discriminação negativa ou positiva.

No caso de homens e mulheres, entretanto, sou obrigado a concordar que existem características claras que nos diferenciem, embora insista em identificar a individualidade de cada um, seja homem, mulher, criança.

Mas indo direto ao texto, achei um tanto simplista a análise do meu amigo. Acho que as mulheres são mais bem resolvidas que nós, os homens, apesar de todas as aparências. As mulheres são mais maduras e menos covardes que nós, que tendemos a só mostrar valentia quando ela pode ser exercida fisicamente. As mulheres tendem a ser mais honestas e transparentes e por isso, essa sensação de que são menos fiéis às amigas do que os homens entre eles.

Os homens que têm vontade de cantar a mulher do amigo, se não fazem isso é por covardia e não por lealdade. É por terem, mais arraigada a idéia de dominação e posse da mulher amada do que as mulheres. E o fato de parecer que haja mais mulheres “roubando” namorado das amigas do que o inverso é porque elas tendem mais à transparência. Minha sensação é que a balança está bem equilibrada nesta questão. Os homens, quando fazem isso (e fazem), são mais cuidadosos. Têm mais facilidade em escamotear.

Mas a questão que eu quero abordar é outra. Acho que toda esta conversa acaba revelando o quanto lidamos com o amor de forma possessiva. E isso vale pra homens e mulheres. Penso de outra forma. E minha forma de pensar, sei bem disso, quase não encontra eco. Quase ninguém concorda comigo. Felizmente, quem mais me interessa, pensa de forma similar. Pois eu acho que o amor não deve ser possessivo e não o sendo, não é exclusivista. Acredito, sinceramente, que assim como se pode amar mais de um filho, mais de um irmão, amar vários amigos, é possível amar mais de um homem, mais de uma mulher, ou ambos. Amar de formas diferentes, com intensidades diversas, enfim, simplesmente amar, sem condicionamentos.

Não estou falando só de sexo não. Restringir essa conversa a sexo é empobrecer o assunto. Estou falando de amar, mesmo. Gostar de estar com várias pessoas diferentes, não necessariamente ao mesmo tempo, querer compartilhar as sensações, sentir e matar as saudades, e, claro, fazer sexo. Amar uma pessoa é gostar de vê-la feliz, e, talvez, naquele momento, estar feliz não signifique estar ao nosso lado.

Sei, evidentemente, que essa forma de pensar não encontra adeptos tão facilmente e sei também, que não é uma coisa fácil de colocar em prática. Afinal, aprendemos, desde cedo, a amar de forma condicional. Amar sendo dono. Mas há tanta coisa em que a gente acredita e que não consegue ver colocada em prática. Tanta utopia. Esta é apenas mais uma. Pelo menos, a minha.
Aliás, existe um filme francês, muito legal, abordando este assunto. Marie-Jo e seus dois amores. Vale a pena assistir, mesmo discordando de mim.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

FÉ x VERDADE

Ateu que sou, mas tendo sido criado numa família católica, com direito a alguns dos sacramentos, sempre tive muita curiosidade na figura de Jesus, o Cristo. Mas não o Jesus teológico e sim o Jesus histórico. Interesso-me pelo personagem, assim como me interessa conhecer a história de quem quer que tenha influído na maneira que o mundo é. Sempre tive dificuldade de encontrar textos que tivessem este foco. Finalmente, consegui. Trata-se do livro Jesus – Esse grande desconhecido, do jornalista espanhol Juan Arias.

O livro é muito bem compartimentado e o primeiro capítulo nos convida a refletir como seria o mundo de hoje se não existisse o cristianismo. É interessante refletir a este respeito. Mas não era isso que me interessava. O segundo capítulo, entretanto, vai direto ao ponto. O título já parece uma provocação: Jesus de Nazaré realmente existiu ou é apenas um mito? E é com muita tranqüilidade que o autor, grande estudioso e pesquisador de assuntos bíblicos, nos mostra que, do ponto de vista rigorosamente histórico, não há evidências claras de que este personagem tenha, de fato, existido. À falta de documentos, junta-se o fato de que os grandes historiadores da época, fossem romanos, fossem judeus, tendo deixado farta documentação a respeito de personagens e acontecimentos contemporâneos, não citam a existência do profeta de Nazaré. A única exceção é Flávio Josefo, historiador judeu, muito pouco respeitado nos meios acadêmicos, até porque, na documentação deixada por ele, encontra-se enorme quantidade de incoerências e dados conflitantes.

Na falta de documentação mais confiável, Arias decide utilizar-se dos evangelhos, não só os canônicos, mas também os apócrifos, apesar da enorme quantidade de incongruências encontradas, quando comparados entre si. Analisa cada um dos quatro textos reconhecidos pela igreja, tenta desvendar a identidade de seus autores e parte deles para identificar fatos que possam garantir a existência histórica do messias.

Ressalvando-se que os critérios de investigação e documentação histórica de hoje são absolutamente diferentes dos daquela época e considerando que a igreja católica não se preocupa com a questão do Cristo histórico, mas do Cristo teológico, Juan Arias decide seguir em frente, com as poucas informações que existem. Sua maior argumentação, aliás, é que, numa época em que pululavam centenas de profetas e pretendentes a messias, um personagem cujo discurso tenha sobrevivido e influenciado tão fortemente o mundo, durante 2 mil anos, dificilmente pode ter sido apenas um mito.

A partir daí, baseado nas informações dos evangelhos, o autor faz uma análise muito transparente de como alguns temas como a política, o amor, a paz, a relação com as mulheres e o sexo são abordados por Jesus. E, principalmente, e aí reside o ponto alto do livro, Arias nos mostra o quanto a igreja, já no século II, passa a defender valores e a se comportar de maneira absolutamente contrária ao que pregava Jesus de Nazaré.

O livro mostra, nitidamente, o quanto era clara a opção de Jesus em favor dos pobres e perseguidos e o quanto sua posição era contrária aos interesses dos ricos e poderosos. A postura de Jesus, segundo os parcos documentos existentes, é, claramente, no sentido de defender os desvalidos, os doentes, os mais fracos, as crianças e mulheres, inclusive as prostitutas. A igreja, por sua vez, aproximou-se do poder, tendo sido facilmente seduzida pelo império romano e, ao longo desses 20 séculos, sempre tem se colocado ao lado dos abastados, apesar de eventuais correntes minoritárias, eventualmente, buscarem uma reaproximação com o discurso original. O Vaticano, porém, sempre tem sido muito rigoroso em relação a este comportamento, a exemplo da repressão que faz aos defensores da Teologia da Libertação.

No fim, absolutamente adepto do discurso original de Jesus, o jornalista mostra o quanto os cristãos de hoje estão distantes deste discurso. O quanto as pessoas são pouco solidárias. O quanto elas privilegiam o indivíduo em detrimento do coletivo.

Enfim, é um livro magnífico, que deveria ser lido por todos os cristãos, pelos crentes de todas as religiões e até pelos que, como eu, não acreditam na existência de deus.

Sofisticado

Villa-Lobos, Pixinguinha e Tom Jobim talvez sejam nossos autores mais geniais. Mas acho que o mais sofisticado é Edu Lobo. E não uso o termo sofisticado como sinônimo de falsificado ou artificial ou afetado ou falsamente refinado, como o Aurélio qualifica este verbete. Digo sofisticado como refinado ao extremo, aprimorado, recorrendo ao mesmo Aurélio.

Edu Lobo é assim. Sempre foi. Desde suas primeiras composições. Suas primeiras melodias. Muitos compositores brasileiros têm refinamento e sofisticação. Mas nenhum deles sempre foi assim. Chico Buarque, por exemplo, foi capaz de cometer melodias paupérrimas no começo da carreira, embora quase sempre acompanhadas de letras ricas. Edu Lobo não. Desde o começo, desde antes dos festivais, suas melodias sempre foram de um refinamento deslumbrante. Coisa de dar orgulho na gente.

Pois acaba de sair um CD do grande flautista e saxofonista Mauro Senise, tocando só Edu Lobo. O disco chama-se Casa Forte. Mauro Senise freqüenta, há muitos anos, as fichas técnicas dos meus velhos vinis. Está em discos de Milton Nascimento, do tempo do Clube da Esquina, nos melhores LPs do Egberto Gismonti, já tocou com o Hermeto e, fuçando nos antigos discos da Gal, Elis, Nana Caymmi, Gonzaguinha, é sempre possível encontrar seu nome em algumas faixas, tocando flauta ou sax.

Neste CD, ele se acompanha da bateria de Ivan Conti e do baixo de Paulo Russo, seus velhos companheiros dos festivais de jazz. E nos arranjos e piano, tem Gilson Peranzzetta. Eu sempre tive certa má vontade com Gilson Peranzzetta, responsável pelos arranjos dos melhores discos de Ivan Lins, na década de 1970. Neste disco, pra minha feliz surpresa, seu piano está magnífico e os arranjos são absolutamente cool. Típico de quarteto de jazz dos velhos night clubs.

Enfim, não é um CD pra se ouvir na festa. É um CD pra se ouvir ao lado de um bom livro e de uma pessoa que seja especial. E isto, por si só, já é uma festa.

domingo, 26 de novembro de 2006

Sabores antigos

A primeira vez que comi um hambúrguer, tinha menos de 9 anos. Sei disso, pois ainda morava no bairro do Ipiranga. Meu pai trouxe a novidade de uma lanchonete, ao lado da igreja do Sião. Até então, meus sanduíches haviam se resumido a cachorro quente e misto frio. Fiquei abalado com aquele sabor. Me chamaram a atenção a maciez do pão e o gosto da maionese. Não sei bem porque, mas meu pai nunca mais trouxe aquilo pra casa. E, quase quarenta anos depois, nunca mais consegui comer um hambúrguer que tivesse aquele gosto.

Há muitos sabores da infância que desapareceram. Ou porque não existem mais, ou porque mudaram. Vai aí uma lista deles:

Guaraná Antártica
Só havia a garrafa de 290 ml e a caçulinha, um pouco menor. Seu sabor era mais azedinho e muito mais borbulhante. Tanto que no rótulo, vinha escrito Guaraná Champagne. Hoje tem gosto de xarope.


Sonho de Valsa
A casquinha era mais crocante e o recheio tinha sabor de paçoca, desmanchando na boca. Hoje, tem gosto de pasta de amendoim.

Diamante Negro
A Clélia acha que seu sabor mudou. Não tenho tão clara essa sensação. Só me lembro que era o chocolate preferido de minha mãe.

Biju
Em qualquer bairro de São Paulo havia um vendedor de biju. Eles carregavam uma lata imensa nas costas e chamavam a atenção da criançada com um dispositivo de madeira com um arame grosso que fazia um ruído característico. Isso desapareceu da cidade. Os que existem, industrializados, não têm nada a ver. Quando viemos morar em Valinhos, há 5 anos, encontramos um vendedor de biju autêntico. A Clélia nunca tinha comido. Nos esbaldamos por muito tempo. Depois disso, ele arrumou um emprego público e parou de fazer aquela delícia.

Churros
O verdadeiro churro espanhol, feito em rodelas e frito num tacho de óleo, era fácil de encontrar em São Paulo, principalmente nas feiras livres. Tinha a massa lisa e não eram doces. Depois, vieram esses detestáveis churros sextavados, feitos em máquinas e adocicados. Hoje, só é possível comer o churro tradicional em um endereço da Mooca, na rua Ana Néri, nas madrugadas e manhãs de sextas, sábados e domingos. E não sei por quanto tempo. Vida longa ao Toninho!

sábado, 25 de novembro de 2006

De novo, Almodóvar.

Como imaginara, gostei do novo filme de Pedro Almodóvar, Volver. Eu estava, há algum tempo, insatisfeito com seus filmes, como se ele tivesse perdido a mão. Os dois anteriores, Má educação e Fale com ela não me agradaram. Não fizeram com que eu saísse do cinema encantado, como ocorreu com Ata-me ou Mulheres à beira de um ataque de nervos, meus preferidos.

Um pouco deste encantamento voltou a me acometer ontem, quando saia do cinema quase vazio (que delícia!). Achei o filme emocionante e poético, à moda de Almodóvar, evidentemente. Gosto de seu jeito afetado de dirigir e da maneira com que enfoca as coisas, sempre de um ponto de vista feminino. Acho que neste aspecto, sou um pouco como ele. Tento ver o mundo de um ponto de vista feminino. Não sendo mulher, uso as mulheres que habitam minha vida para enxergar.

Penélope Cruz está lindíssima, embora com uma bunda e um par de peitos forçadamente não naturais. Não precisava. Mas quem rouba a cena, quem manda no filme, é mesmo Carmen Maura, a atriz espanhola de quem mais gosto.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Uma picada inevitável?

O que o título do livro A Mosca Azul, de Frei Betto, nos promete é uma análise de como o poder seduz as pessoas, a ponto de fazê-las esquecer seus dogmas e ideais. Promete e cumpre. De fato, neste livro, o autor descreve de que maneira o PT, estando no poder, deixou-se contaminar por todos os vícios que criticara, quando oposição.

Frei Betto acompanhou todo o processo de criação do PT, desde as reuniões preliminares à sua fundação até o momento que o partido ganhou a eleição presidencial. Sem nunca ter sido filiado, sempre participou da vida do partido, chegando a ocupar um cargo nos primeiros momentos do governo Lula. Claramente contrário aos rumos que o partido tomou, afastou-se.

O livro, entretanto, nos oferece muito mais que isto. Com certa erudição, mas sem arrogância, ele cita diversos filósofos para explicar fenômenos como as mazelas do poder, a diferença entre governo e estado, e, sobretudo, sua visão socialista das realidades brasileira e mundial.

Fundamentalmente, Frei Betto possui duas crenças. A fé religiosa e a fé no socialismo. Sem perder a perspectiva histórica, ele crê, com sinceridade, nesta forma de estado como solução para os problemas sociais. E apesar de ter a consciência das necessidades individuais do ser humano, persiste em sua crença na possibilidade de uma sociedade que sobreponha os interesses coletivos aos pessoais.

É aí que, a meu ver, reside o maior conflito desta história. Pessimista que sou, não creio que o caráter essencial do ser humano seja o do solidário, mas sim, o do egoísta. De uma espécie capaz de sentimentos como inveja e rancor, e de atitudes como a tortura e a escravização do semelhante, não se deve esperar muita coisa.

Na parte final do livro, ele faz uma excelente defesa da comunhão entre religião e política. A igreja, ao longo da história, sempre pregou que religião e política devem estar dissociadas. Apesar disto, a igreja, sobretudo a católica, sempre se colocou ao lado dos poderosos. O que Frei Betto sustenta é que a religião deve andar sempre ao lado da política e que o papel do religioso é o de dar apoio aos mais pobres e oprimidos pela sociedade. Defende, assim, a atuação das comunidades eclesiais de base e o discurso da Teologia da Libertação.

Mais uma vez, meu ceticismo vai de encontro a esta tese. Ateu que sou, não enxergo as pessoas, apesar de se declararem religiosas, seguindo radicalmente os preceitos de suas crenças. Insisto que, do meu ponto de vista, vejo muito mais gente preocupada consigo mesma do que com o próximo. E isso não é uma crítica. É a essência do ser humano.

Cristão que é, Frei Betto identifica no discurso e atitudes de Jesus, a proximidade com o discurso socialista. É como na ótima letra de Tiro de misericórdia, de Aldir Blanc, que o coloca ao lado de outros contestadores:

(...) – irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
Em cada cruz?

– irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus (...)

Um jeito de fazer samba


Pode até ter nascido na Bahia, mas foi no Rio de Janeiro que o samba atingiu seu esplendor. O samba carioca tem um gingado diferente, bem malandro, com raízes nos morros, tendo gerado nomes como Ismael Silva, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Mano Décio, Cartola, Nelson Cavaquinho, enfim, uma lista tão grande que qualquer que seja sua extensão, sempre será injusta e pecará por esquecimento. Depois de influenciar a bossa nova, recebeu influência desta e uma nova safra surgiu e vem surgindo, a cada ano, em cada canto do Rio de Janeiro.

Existem outras maneiras de fazer samba. E os maneirismos são regionais. O de São Paulo tem uma característica mais quebrada, mais dura. E tem o sotaque italianado. Apesar de ser urbano, tem forte influência rural. Adoniran Barbosa foi o mais famoso compositor deste tipo de samba, e seu maior intérprete foi o conjunto Demônios da Garoa. Germano Mathias, entretanto, é o sambista mais emblemático deste estilo. Sambas como, Guarde a sandália dela, Minha nega na janela e Senhor Delegado, grandes sucessos do final da década de 1950, são exemplos típicos desta maneira de cantar. Não devemos nos esquecer ainda de Paulo Vanzolini e Geraldo Filme.

São dois estilos distintos e ambos deliciosos. E, hoje em dia, há muito intercâmbio entre estas duas escolas, muitos artistas transitando livremente entre estas duas cidades, com influências mútuas, sem que cada uma perca sua identidade. Há, entretanto, um artista paulistano que inaugurou, há mais de 30 anos, essa ponte aérea. Trata-se de Eduardo Gudin.

Em suas parcerias com Paulo César Pinheiro, Gudin sempre produziu um samba da mais alta qualidade, em que se podem perceber os aromas carioca e paulistano, convivendo harmoniosamente. Sem nunca ter ocupado espaço na grande mídia, Gudin, ao longo dos anos, nunca deixou de estar presente nas cenas musicais mais importantes do Brasil. Seja como compositor, seja como arranjador ou mesmo produzindo shows e discos alheios, ele sempre deixa muito clara a sua marca. Não sendo um cantor de muitos recursos, em seus discos, ele sempre lança jovens cantores que, depois, muitas vezes, seguem vôo com as próprias asas. Foi o caso de Mônica Salmaso e Renato Brás.

E agora, acabou de sair mais um CD, em que mostra sambas com parceiros diferentes como Paulinho da Viola, Francis Hime, Luiz Tatit, e uma parceria póstuma com Nelson Cavaquinho. Não podia faltar, evidentemente, um samba com Paulo César Pinheiro. O CD é muito bom e mostra sua tão qualificada maneira de fazer música. E o título do disco não podia ser mais feliz: Um Jeito de Fazer Samba.

domingo, 19 de novembro de 2006

Família & Tradição

Quando o Ademar e o Paulinho chegavam em casa, em horário pouco provável, todos sabíamos o que tinha acontecido. Alguém da família havia morrido. E vinham buscar o meu pai, que, com eles, formava o triunvirato funéreo. Sua incumbência era fazer com que o enterro acontecesse de forma apropriada. Eram tarefas singelas, como colocar a roupa no defunto, arrecadar dinheiro pra comprar um caixão, descobrir se alguém na família tinha um lugar pra enterrar o dito cujo, estas coisas. Mas a tarefa mais importante do grupo era garantir que o bar mais próximo do velório ficasse aberto a noite toda.

Os enterros da minha família seguiam um roteiro padrão. Os homens ficavam no bar, contando piadas e enaltecendo as qualidades (nem sempre elogiáveis) do defunto. As mulheres ficavam velando o corpo, em conversas sussurradas, falando mal de alguém que não estivesse presente, ou estivesse mais longe, do lado de dentro do caixão, por exemplo. E o tititi corria solto, até que alguma desmancha-prazeres, mais desavisada, tivesse a infeliz idéia de puxar um terço. Aí, não tinha saída. O segredo era ser bem rápida com as palavras pra terminar logo as contas e retomar as conversas.

Os meninos ficavam com um grupo ou com o outro, dependendo da faixa etária. Lembro-me da minha felicidade, no enterro do meu avô, dia em que mudei de grupo, livrando-me das rezadeiras e passando a ouvir as piadas que eu não entendia a metade. Mudei do chá pro guaraná, outra vantagem.

Há histórias hilariantes sobre enterros, a maioria delas não presenciadas por mim, apenas ouvi contar, possibilitando muita mentira, portanto.

O enterro do tio Zé foi no cú do mundo. O cara morava num casebre, praticamente, e o bar mais próximo era a léguas de distância. O jeito foi trazer a bebida para o velório, solução radical e só utilizada em casos extremos. Aquele era um caso extremo. Apesar disso, o velório transcorreu sem nenhum imprevisto. Problema foi mesmo na hora de seguir pro cemitério. A porta do casebre era mais estreita do que a largura do caixão, que entrara na casa vazio e de lado. Agora, evidentemente, ele estava cheio e não havia como passar. Nem pela porta, nem pela janela. Ninguém teve dúvida. Quebrou-se a parede e o féretro seguiu incontinente pro seu destino. A parede quebrada ficou de herança pra viúva.

O que nunca falta em um velório é gente disposta a ter chiliques. E uma tia minha, useira nesse comportamento, era a viúva num dado velório. Previa-se um chilique especial e a previsão confirmou-se. À beira do caixão, os soluços viraram gritos e, num momento de êxtase, ela pediu pro defunto levá-la junto com ele. A coisa tendia a fugir do controle quando o tio André (sempre ele) aproximou-se da viúva e sussurrando, sem ninguém mais ouvir, informou-a que o dito cujo tinha morrido numa cama, ao lado da outra, num momento mais que sublime. Como por encanto, os gritos calaram. O enterro seguiu tranqüilamente, mas ninguém entendeu porque as lágrimas secaram no rosto da viúva.

Houve uma ocasião em que surgiu um problema, aparentemente, insolúvel. O enterro seria num cemitério bem longe, pra onde não havia ônibus. Ninguém na família tinha carro. O tio André, então, contratou vários carros de praça (antigo nome dos táxis) pra levar a família toda pro cemitério. E assim foi resolvida a questão do transporte. Aquele foi o único enterro ao qual o tio André não compareceu. E até hoje, ninguém me contou quem pagou os táxis.

No velório da minha mãe ninguém conseguiu garantir um bar aberto a noite toda. Certamente, contribuiu pra isso, o fato do meu pai não estar com a cabeça voltada pra este problema prático. Não notei nenhum movimento estranho e não percebi se havia ação para trazer bebida pro local. O corpo iria ser velado a noite toda e eu estava meio cabreiro porque tentei convencer o povo a ir pra casa, voltando no dia seguinte, pela manhã. Afinal, aquele caixão não iria sair dali. Ninguém me ouviu. Eu fui dormir e convenci meu pai e minha irmã a fazerem o mesmo. E, na rebeldia dos meus vinte anos, avisei que se alguém desse chilique seria botado pra fora do local. No comecinho da manhã, um tio, completamente bêbado, esboçou algo parecido com um fricote e recebeu o devido cartão vermelho. Este incidente, pelo menos, me fez perceber que não houve falta de bebida naquela noite. Fiquei mais tranqüilo. Afinal, pra que serve uma família se não consegue manter suas tradições?

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Coisa perfeita

Não tenho nada contra poesia. Mas eu gosto mesmo é de letra de música. Meus letristas preferidos são Aldir Blanc e Paulo César Pinheiro. Absolutamente empatados. Por isso, o supra-sumo do prazer, pra mim, é ouvir o samba Saudades da Guanabara, com letra dos dois sobre melodia do Moacyr Luz. A história desta música é ótima. Quem a contou foi o próprio Moacyr, num programa de televisão:

O samba tinha outra letra quando Moacyr mostrou pra Beth Carvalho, na esperança dela gravar. Beth gostou da melodia mas não gostou da letra. Ele, então, chamou Aldir e Paulinho Pinheiro em sua casa e cantou o samba. Falou que precisava de uma letra nova.

Acabou a cerveja. Como Aldir mora no mesmo prédio do Moacyr, foi em sua casa buscar mais. Quando voltou com as geladas na sacola, trouxe junto a primeira parte do samba na cabeça. Paulinho, então, escreveu, na hora, a segunda parte, seguindo a mesma estrutura métrica e repetindo as rimas. Ficou assim:
.
Saudades da Guanabara
.
Eu sei
Que meu peito é uma lona armada
Nostalgia não paga entrada
Circo vive é de ilusão (eu sei...)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Refulgindo de estrelas claras
Longe dessa devastação (... e então)
Armei
Pic-nic na Mesa do Imperador
E na Vista Chinesa solucei de dor
Pelos crimes que rolam contra a liberdade
Reguei
O Salgueiro pra muda pegar novo alento
E plantei novos brotos no Engenho de Dentro
Pra alma não se atrofiar (Brasil...)
Brasil, tua cara ainda é o Rio de Janeiro
Três por quatro da foto e o teu corpo inteiro
Precisa se regenerar

Eu sei
Que a cidade hoje está mudada
Santa Cruz, Zona Sul, Baixada
Vala negra no coração (chorei...)
Chorei
Com saudades da Guanabara
Da Lagoa de águas claras
Fui tomado de compaixão (... e então)
Passei
Pelas praias da Ilha do Governador
E subi São Conrado até o Redentor
Lá no morro Encantado eu pedi piedade
Plantei
Ramos de Laranjeiras foi meu juramento
No Flamengo, Catete, na Lapa e no Centro
Pois é pra gente respirar (Brasil...)
Brasil, tira as flechas do peito do meu Padroeiro
Que São Sebastião do Rio de Janeiro
Ainda pode se salvar
.
Pode existir coisa mais perfeita?
Como é que a Beth Carvalho iria recusar?
Não recusou. Gravou.

Pra que entender as mulheres?

Conhecer as mulheres é o nosso grande desafio. Conhecer e entendê-las. Vencer este desafio já é o prêmio, em si. Mas é um desafio inatingível. Portanto, delicioso.

Apesar do título, o livro O homem que conhecia as mulheres, de Marcelo Rubens Paiva, não nos ensina nada. Ainda bem. Essas coisas, a gente tem que aprender sozinho. Pra ter sabor. E o livro tem muito sabor. É uma infinidade de perfis, dos mais variados exemplares de mulheres. Quase todas apaixonantes. Aliás, toda mulher é apaixonante. Depende de uma série de fatores intrincados e nebulosos. Não posso dizer o mesmo sobre os homens. Acho homem um bicho meio pobre, meio sem recursos. A mulher não. A mulher é sempre rica. Na diversidade de sensações, nas variações de humor, na sensibilidade, na inteligência e emoção.

Mas eu estou aqui pra falar do livro. Ou do autor. Devo confessar que sou dos poucos da minha geração que não leu Feliz ano velho. Por isso, não conhecia a escrita do Marcelo Paiva. E este livro novo me surpreendeu. O cara escreve bem pra cacete. Seu rosário de mulheres desfila pelas páginas de maneira natural e fácil. São personagens estanques, às vezes conectadas umas com as outras, às vezes não. Algumas vão e voltam, outras só vão. É um desfile delicioso. Tem charme, tem sensualidade, tem humor, tudo numa dose tão perfeita que atinge um equilíbrio raro. Como deve ser a mulher que habita os nossos sonhos. Uma mulher com tantos matizes, mas tão equilibrados, que ela parece sempre a mesma, sendo diferente todos os dias.

Além dos perfis, há algumas boas historinhas. Minha preferida é a de Dora. Mas não vou contar nada sobre ela. Quem quiser, que leia o livro.