Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

domingo, 29 de março de 2015

Educação

Embora Cid Gomes só tenha falado verdades absolutas quando foi à Câmara dos Deputados, talvez por isso mesmo, teve que deixar o cargo de ministro da Educação. Desde o início, achei um erro da presidente ter feito o convite para Cid ocupar esta pasta. Não digo isso por achar que um político não possa assumir um ministério, qualquer que seja. Aliás, quem pensa assim deve ter achado errado o fato de José Serra, que é político e não médico, ter sido ministro da Saúde ou Fernando Henrique, que também é político e não economista, ter sido ministro da Fazenda.

Dilma, em minha opinião, depois de ter batizado o seu segundo mandato com o lema “Brasil, pátria educadora”, deveria ter colocado um educador para comandar a pasta. O erro, agora, foi corrigido.

Confesso que, entre os cotados, minha escolha teria sido na direção do professor Mário Sérgio Cortella. Ele mesmo, entretanto, declarou que teria recusado, caso fosse convidado, por considerar que o que o Brasil precisa fazer como política para a Educação é uma coisa que ele não tem condições de capitanear.

O que mais me agrada em Mário Sérgio Cortella, que é filósofo, é o fato de que comunica o conhecimento com extrema simplicidade e, com isso, consegue fazer a mensagem chegar a todos, democratizando, desta forma, a informação. Além disso, tem bom humor. Fanático por etimologia, utiliza a origem das palavras para explicar as ideias e desfazer as confusões mais comuns.  

Apesar de, evidentemente, eu reconhecer a importância de se ensinar matemática, gramática e ciências, o que falta na escola, em minha opinião, é estimular o pensamento. É mostrar que as ideias devem brotar de nossa própria reflexão, provocadas pela leitura, pelo conhecimento. É ensinar que as informações não devem ser consumidas e sim digeridas, questionadas. É isso que prega a filosofia. Copiando o professor Cortella, faço uso da etimologia pra dizer que a palavra filosofia vem do grego philos ou philia que quer dizer amor ou amizade; e sophia, que significa sabedoria; ou seja, literalmente, significa amor ou amizade pela sabedoria.

Quem assumiu a pasta da Educação é outro filósofo, o professor Renato Janine Ribeiro. Me parece uma escolha acertada. Para quem quiser conhecer um pouco do pensamento de ambos, sugiro a leitura do livro Política: Para não ser idiota, escrito em 2012, fruto de um instigante diálogo entre os dois. Como não poderia deixar de ser, o livro começa com a definição da palavra idiota que vem do grego idiótes e significa aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política.

A partir daí, inicia-se uma discussão extremamente proveitosa, que passa por temas que vão do engajamento político das pessoas e desemboca na ecologia, passando pelos conceitos de democracia, ética e poder. É um livro pequeno, pouco mais de cem páginas, que se consome (ou digere) com avidez.

Outra dica é acessar o site da CBN para ouvir a divertida entrevista do Professor Cortella no programa Fim de Expediente, na última sexta-feira.
 http://cbn.globoradio.globo.com/programas/fim-de-expediente/FIM-DE-EXPEDIENTE.htm

sábado, 14 de março de 2015

House of Cards

Estou absolutamente empolgado com a série House of Cards, produzida e veiculada pelo Netflix. Sei que estou atrasado, já que acaba de estrear a terceira temporada e eu estou finalizando a primeira, ainda. Mas sou assim mesmo, meio lerdinho.

O enredo trata das tramoias e negociatas que envolvem um figurão do poder legislativo americano, do partido Democrata. Poderia ser do Republicano, isso pouco importa. Como o modelo presidencialista americano guarda fortes semelhanças com o nosso, é instigante assistir aos jogos nos bastidores do poder e fazer associações com o que ocorre por aqui.

Quem acompanha o blog lê, nos textos sobre cinema, o quanto eu aprecio, num filme, duas coisas: uma boa interpretação e mulheres bonitas. House of Cards tem ambas. Tem o protagonismo do excelente ator Kevin Spacey, brilhante em Seven – Os sete crimes capitais, Os suspeitos, A negociação, Beleza americana, A corrente do bem, entre outros. Tem, ainda, a beleza madura de Robin Wright e a jovialidade de Kate Mara, mostrando que gostosura não tem idade.


sábado, 7 de março de 2015

Pensamento de esquerda e socialismo

O atual momento político que vive o Brasil não é muito diferente de outros pelos quais o país já passou. São os mesmos ingredientes, quais sejam um governo que descontenta a classe dominante que, por sua vez, domina os canais de comunicação hegemônicos e, estes, com seu poderio, manipulam a repercussão das notícias, tanto as falsas quanto as verdadeiras, de acordo com seus interesses, controlando o foco, a intensidade e o grau de dramaticidade com que as veicula. Foi assim em 45, em 54, em 64, em 84 e em 89, ao final dos dois governos de Getúlio, na deposição de Jango por um golpe militar, na campanha das diretas já e na eleição de Collor, respectivamente. Nada de novo.

Ou quase nada. O que há de novo são as tais redes sociais. Este fenômeno, que não existia antes, tem servido de veículo pra classe média expressar sua revolta (tanto a autêntica quanto a manipulada), mas tem servido, também, para demonstrar a falta de capacidade da nossa sociedade em interpretar com clareza os fatos. Além disso, estas redes, principalmente o facebook, tem escancarado a absoluta falta de cuidado em se informar, antes de sair teclando.

O que mais tem me chamado a atenção (afora a intolerância com a opinião alheia) é a confusão que se faz entre pensamento de esquerda e socialismo. Mistura-se temas e assuntos extremamente díspares e, às vezes, até contraditórios. Joga-se num mesmo balaio, os regimes da antiga União Soviética, Venezuela e Cuba, a eleição de Dilma, o PT, o regime democrático e até o fascismo de Benito Mussolini. Mistura-se, chacoalha-se, e, como num estômago preguiçoso, vomita-se um resultado que pareceria até engraçado, não cheirasse tão mal.

Parte-se do princípio de que ser de esquerda é ser socialista. Nada mais primário. Para começar, é necessário entender que, mais importante que saber se alguém (ou algum grupo) é de esquerda, é entender se esta pessoa (ou grupo) está à direita ou à esquerda e de quem. Por exemplo, nos Estados Unidos, o partido Democrata está à esquerda do partido Republicano e, evidentemente, isso não quer dizer que Barak Obama ou Hilary Clinton, sejam socialistas.

A definição de esquerda e direita já sofreu inúmeras mudanças de interpretação, desde que foi utilizada pela primeira vez, durante a Revolução Francesa, quando designava a posição política dos grupos que compunham a Assembleia Nacional daquele país, em função da posição em que se sentavam. Por muito tempo, caracterizou-se o pensamento de esquerda como aquele que defende o total controle do estado sobre a economia de um país. Esta definição, há tempos, já caiu em desuso e há os que defendem a ideia de que esta dicotomia já não faz mais sentido nos dias de hoje, posição com a qual não concordo.

A conceituação que mais me agrada é a que foi utilizada pelo pensador italiano Norberto Bobbio em seu livro Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política, de 1994 e sobre qual já escrevi aqui. Segundo este conceito, o que diferencia o pensamento de esquerda do de direita é a defesa de um modelo em que o estado garanta a igualdade de oportunidades para todas as pessoas em contraponto a uma ideologia que defende a regulação das desigualdades pela ação “natural” do mercado.

Entre as várias propostas teóricas de forma de governo, seja capitalista ou socialista, democrática ou autoritária, a que mais me parece capaz de proporcionar um estado de bem-estar aos cidadãos é a Social Democracia. Sou fervoroso fã deste modelo de governo e cito exemplos de aplicação desta política que promoveram avanços econômicos e sociais em seus países: Willy Brandt na Alemanha de 1969 a 1974, Felipe Gonzales na Espanha de 1982 a 1996 e Mário Soares em Portugal de 1986 a 1996, sendo que os dois últimos eram líderes de partidos socialistas e todos sabemos que nem Espanha e nem Portugal são países socialistas. O que ocorreu, em todos estes casos, foi um claro desenvolvimento socioeconômico após um período longo e dramático sob regimes autoritários.

Nestes três casos, foi um pensamento de esquerda (na concepção definida por Bobbio) que impulsionou estes países para o crescimento, sem transformá-los em regimes fechados.


domingo, 1 de março de 2015

Gostar de samba

Todos que acompanham o que escrevo neste blog, há bastante tempo, sabem que, dentre vários gêneros de música que eu aprecio, o samba é o que mais me comove. Gosto de samba desde que gosto de música e, cada vez mais, é a ele que eu recorro quando quero me extasiar. Aprecio muito a Bossa Nova e o que se convencionou chamar de MPB, mas gosto da simplificação que o grande Wilson das Neves faz sobre isso: é tudo samba!

Contudo, nunca me empolguei muito com desfiles de escola de samba, principalmente por um motivo: muito raramente os sambas-enredo são bons. Notem que não utilizei a palavra nunca, já que há, ao longo da história, casos de sambas belíssimos utilizados pelas escolas para os desfiles, mas são casos raros. Eu estaria sendo leviano se não citasse Aquarela Brasileira (Império Serrano, 1964); Yayá do cais dourado (Vila Isabel, 1969); Onde o Brasil aprendeu a Liberdade (Vila Isabel, 1972); Os Sertões (Em cima da hora, 1976); 100 anos de liberdade, realidade ou ilusão (Mangueira, 1988); Kizomba, festa da raça (Vila Isabel, 1988) e Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós (Imperatriz Leopoldinense, 1989). Existem outros, certamente, mas estes são meus preferidos. São poucos, entretanto. Muito poucos.

Fico, por isso, intrigado. Por que é que a grande maioria dos sambas utilizados pelas escolas para o desfile do carnaval são tão ruins? Se a maioria dos nossos mais geniais sambistas são intimamente ligados às escolas? Por que instituições que têm, ou tiveram, entre seus componentes, gente como Cartola, Nelson Cavaquinho, Monarco, Ivone Lara, Carlos Cachaça, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, não conseguem apresentar, todos os anos, sambas geniais para mostrar na avenida? Talvez seja porque quem comanda as escolas de samba, na verdade, não goste muito de samba.

Assim, fiquei surpreso quando vi que a escola Viradouro, este ano, utilizou uma junção de dois ótimos sambas de Luiz Carlos da Vila, Nas veias do Brasil e Por um dia de graça, num enredo. Morto devido a um câncer, em 2008, recebeu esta justa homenagem.

Luiz Carlos da Vila teve este apelido por fazer parte da escola de samba de Vila Isabel ou por ter sido morador da Vila da Penha, ou por ambas as razões, o que motivou o compositor Nei Lopes a chamá-lo de Luiz Carlos das Vilas. Foi um compositor muito criativo, que ficou mais conhecido do grande público, após ter sido um dos autores do samba enredo Kizomba, festa da raça. Apesar de ótimos, não são seus sambas-enredo que me encantam. Ele é capaz de uma poesia de primeira linha, aliada a criações melódicas e harmônicas como poucos.

Em foto ao lado de Wilson Moreira, Aldir Blanc e Moacyr Luz

Vi que a Viradouro ficou em último lugar no desfile e caiu para a segunda divisão. Não sei o motivo e nem tenho muita curiosidade a este respeito. Só sei que, dificilmente, uma outra escola tenha apresentado um samba tão bom como o da Viradouro. Pode ter caído por algum problema com fantasia, porta-bandeira ou carro alegórico. Ou então, caiu porque os julgadores destes desfiles não gostam muito de samba.

Além da Razão (Luiz Carlos da Vila, Sombra e Sombrinha)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Criatividade e Ousadia

Há sete anos escrevi este post comemorando o surgimento de um novo sambista. Naquela ocasião do lançamento de seu primeiro CD, o que mais me chamava a atenção era o repertório, extraído da lavra de gente como Paulinho da Viola, Ivone Lara, Paulo César Pinheiro e Luiz Carlos da Vila. Naquele primeiro disco, as composições de sua autoria representavam apenas um terço do disco. Esta participação, como autor, foi aumentando e, no segundo CD, os sambas de sua autoria já significavam mais da metade e, no terceiro, eram a totalidade do disco, sempre em parceria com gente de primeira linha como Moacyr Luz ou Zé Renato.

Mais uma vez, Moyseis Marques vem inovar, com um quarto CD, Casual Solo, em que se acompanha de um instrumental bem minimalista. E a inovação vem no fato de que expande seus horizontes ao pôr os pés bem fora do terreno do samba, sem abandoná-lo. Incursiona na área do jazz e do reggae com a delicadeza que só quem sabe como pisa no terreiro alheio pode fazer.

Não se limita ao gênero musical a sua inventividade, já que combina, numa mesma faixa, um samba de Luiz Carlos da Vila com a música mineira de Toninho Horta e Fernando Brant. A combinação resulta perfeita, mostrando que criatividade é uma coisa poderosa quando acompanhada de ousadia.

Horizonte Melhor/ Aqui, ó (Luiz Carlos da Vila e Adilson Victor/ Toninho Horta e Fernando Brant)

domingo, 18 de janeiro de 2015

Setenta anos

Já escrevi no blog, neste post e também neste outro, que me incomoda a ideia de idolatrar alguém. Sendo assim, o que mais se aproximaria de ídolo, pra mim, são algumas figuras que construíram meu gosto musical. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Paulinho da Viola estão todos com mais de 70 anos, mas são suas canções as que mais me emocionam, ainda. Embora estejam em plena atividade, fazendo shows, gravando discos ou escrevendo, noto que suas criações mais recentes perderam o viço dos tempos áureos. Isso não é uma reclamação. Com 15 anos a menos que eles, já sei muito bem o quanto o tempo é cruel com a nossa vitalidade. A obra que produziram é muito mais que suficiente para que sejam lembrados para sempre.

E foi por ter esta compreensão que fiquei positivamente surpreso com o lançamento do CD Setenta Anos, de Dori Caymmi, em que ele comemora a efeméride, com 13 músicas novas, todas com letra de Paulo César Pinheiro, um de seus parceiros mais constantes.

O disco tem, ainda, uma característica que muito me encanta: é um disco de voz e violão, simples, limpo, minimalista, como só conseguem ser aqueles que reproduzem música de primeira linha.

A música de Dori é e sempre foi de primeira linha, assim como a poesia de Paulo César Pinheiro. Ambos têm nos encantado há 50 anos com suas criações e é um verdadeiro alento perceber que continuam criando maravilhosamente.

À toa (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro) - Dori Caymmi


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Início de um novo ano, início de um novo governo

Sei que há quem vai estrilar com o título deste post, inaugural, do blog em 2015. Já me explico: após o anúncio do novo ministério de Dilma, não consigo manter o ânimo e nem reconheço continuidade no modelo de governo que ela tentou imprimir no primeiro mandato. Se nesta primeira tentativa os avanços sociais já foram tímidos, a configuração do ministério atual mostra uma inclinação mais acentuada para o lado direito do espectro político, o que dificulta mais ainda estes avanços. Desta forma, a razão da minha crítica vai na direção contrária à de quem votou no projeto tucano, nas eleições do ano passado.

Estas últimas eleições, aliás, me causaram mais descrença na raça humana do que as anteriores. A participação do eleitorado, via redes sociais, mostrou o quanto a veiculação (e multiplicação) de dados falsos se sobrepôs à desejável discussão conceitual do que cada um entende como mais apropriado pra nossa sociedade. A enxurrada de manifestações de intolerância com as opiniões adversas beirou os limites do intolerável, com o perdão do trocadilho infeliz.

O que ficou evidente, de lado a lado, foi o claro posicionamento dos eleitores do lado direito e esquerdo do pensamento político. Mais do que as próprias candidaturas, imbuídas do pragmatismo típico das campanhas, as manifestações dos eleitores foram bastante reveladoras da posição de cada um, nem sempre de maneira respeitosa.

Passado o ápice, com a revelação do resultado das urnas e, talvez devido à estreiteza da diferença de votos, restou, entre os eleitores, um ranço de rancor de difícil digestão. De minha parte, encaminhei minhas reflexões para o tema da dicotomia esquerda-direita e para auxiliar-me, recorri ao pensador Italiano Norberto Bobbio e seu livro Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política. Escrito há 20 anos, durante a campanha eleitoral italiana de 1994, este pequeno livro, como o próprio autor se refere a ele, é absolutamente atual e aderente à realidade brasileira de hoje.

A primeira metade da obra dedica-se à tarefa de justificar a continuidade do uso da díade direita-esquerda na política, em resposta às inúmeras tentativas de desacreditar esta divisão. Após comprovar a pertinência de seu uso, trata de definir o que caracteriza cada um dos pensamentos na segunda e mais instigante parte do livro. Nela, o pensador italiano demonstra que o que caracteriza o pensamento de direita e o de esquerda não é a questão da presença maior ou menor do estado na economia e, portanto, na vida das pessoas e nem a questão da democracia ou autoritarismo de um estado.

A conclusão a que o livro chega é muitíssimo parecida com a minha concepção, ou seja, o que define um pensamento de direita ou de esquerda é o que se refere à questão da igualdade entre as pessoas. Faz uso, para isso, de uma eficiente comparação entre os pensamentos de Rousseau e Nietzsche no que diz respeito à distinta postura que um e outro assumem perante a naturalidade e a artificialidade da igualdade e da desigualdade. Com isso, acaba por mostrar que ambas as posições, direita e esquerda, são lícitas, expressando a ideologia de cada um.

O livro toma o cuidado de demonstrar como as posições extremas, tanto de um lado quanto de outro, têm similaridades. Faz isso aproximando a díade direita-esquerda de outra, qual seja, a que contrapõe liberdade e autoridade.

Concluo, assim, que a concepção moderna de um pensamento democrático de esquerda é a que defende um estado que garanta um mesmo grau de oportunidades e que, para isso, conte com uma oferta de educação, saúde e segurança igual para todos. Arrisco-me, ainda, a concluir que, na prática, o que mais se aproxima deste conceito é a Social Democracia.

Pensando em tudo isso, após a leitura de suas poucas 130 páginas, eu fico a imaginar o quão difícil é encontrar, dentro do balaio de partidos políticos que temos no Brasil, alguma proposta que seja, verdadeiramente, de esquerda e democrática.

Entre os partidos mais hegemônicos, temos o PSDB que é Social Democrata apenas no nome, mas, na realidade, defende um modelo liberal. Temos o PT que tem um discurso Social Democrata, mas não se assume como tal. Temos o PMDB que representa o que há de mais fisiológico e arcaico na forma de fazer política e os partidos nanicos, à esquerda e à direita que, mais que qualquer outra coisa, servem para emprestar suas legendas aos partidos maiores nas épocas de eleições.

Enfim, não há nada no horizonte que consiga me animar.

sábado, 8 de novembro de 2014

Combinações felizes

Vez ou outra, me repito neste espaço, principalmente quando falo de música. Talvez isso ocorra por eu estar ficando, cada vez mais, refratário com as novidades, fico tecendo loas àqueles cantores, músicos e letristas que mais admiro.

Já falei aqui que a cantora que mais tem me dado prazer em ouvir é Mônica Salmaso. Seu timbre me encanta e, talvez, eu só encontre paralelo, em questão de alumbramento, quando ouço Leny Andrade. Já fiz posts falando de Guinga, o compositor que mais me arrebatou depois de João Bosco. E entre os letristas, quem segue este blog, principalmente desde os tempos mais longínquos, sabe de minha predileção por Paulo César Pinheiro, ameaçada apenas pela admiração por Aldir Blanc.

Pois mais uma vez, estou aqui, me repetindo, mas para falar de um disco que reúne estes 3 artistas ao mesmo tempo. Trata-se de Corpo de Baile, o novo CD em que ela canta, exclusivamente, músicas feitas em parceria pelos dois.

Uma das coisas que mais me seduziram, no disco, foi a presença de algumas canções que eu ainda não conhecia. Apesar da minha má vontade em relação a novos artistas, tenho muita ânsia em conhecer obras novas daqueles que eu admiro. É este o caminho que me permito para degustar o novo.

Como sói acontecer nos discos desta cantora, as faixas contam com um naipe de instrumentistas de primeiríssima qualidade, suportados, na maioria delas, pelo piano de Nelson Ayres e os sopros de Teco Cardoso, o que, por si só, já é garantia de bom gosto e refinamento.

A faixa Curimã, uma das minhas preferidas, conta, ainda, com as participações luxuosas de Marlui Miranda numa fala incidental em língua indígena e da percussão do insuperável Robertinho Silva.

Só não dá pra falar que é o melhor disco de Mônica Salmaso, pois não se sabe o que virá no próximo. Só se sabe que será algo ainda melhor.

Curimã (Guinga & Paulo César Pinheiro) – Mônica Salmaso

domingo, 2 de novembro de 2014

Beatles ou Stones?

Gosto de ouvir o programa Fim de expediente, na rádio CBN, toda sexta-feira, às seis da tarde, quando volto do trabalho. Apresentado pelo ator Dan Stulbach, ao lado do escritor José Godoy e do economista Luiz Gustavo Medina, o programa é leve e divertido, embora, às vezes, aproxime-se do limiar de um ponto de vista conservador, numa expressão do pensamento da sociedade coxinha.


O programa é sempre mais interessante quando é ao vivo e recebe algum convidado e, nestas ocasiões, promove o quadro Boxe a três, em que são apresentadas algumas opções para a escolha da plateia, do convidado e dos próprios apresentadores. As opções variam segundo o tema do programa, mas, invariavelmente, há duas delas sempre presentes: Chico ou Caetano? e Beatles ou Stones?

À primeira pergunta eu fico, sinceramente, em cima do muro, já que tenho convicção de que minha vida teria sido muito menos feliz sem a música dos dois. Já em relação à segunda pergunta, não hesito em escolher os Beatles.

Embora eu considere que George Harrison, o melhor guitarrista dos Beatles, não seja tão bom quanto Keith Richards e que Charlie Watts seja muito melhor que Ringo Star, eu declaro a minha preferência pelo quarteto de Liverpool, mesmo achando que Mick Jagger seja um vocalista melhor que Lennon ou McCartney.

Minha escolha, na verdade, se dá devido a dois fatores. O primeiro está relacionado à qualidade das canções produzidas que, em minha opinião, apresentam melodia e letra superiores às dos Stones. O outro fator diz respeito à variedade de estilos e ao experimentalismo que os Beatles imprimiram ao seu trabalho ao longo da evolução de sua carreira enquanto os Roling Stones se fixaram na produção de um estilo de Rock um tanto imutável, abandonando a influência do blues do início da carreira.

E antes que alguém estranhe um post misturando Chico, Caetano, Beatles e Stones, eu mostro esta canção, uma das minhas preferidas, dos Beatles, lançada no álbum Revolver de 1966 e gravada no disco Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, 1975.

For No One (Lennon & McCartney) – Caetano Veloso

As mulheres dos sonhos de cada um

 Quem vê a capa e olha os nomes no índice de O livro das mulheres extraordinárias de Xico Sá não consegue evitar que a lembrança nos remeta à época das revistas Ele Ela e Status, anos 70, na qual nossas solitárias sessões masturbatórias eram inspiradas em coxas, bundas e um solitário peito, sem o mamilo. Sim, naqueles primeiros tempos, só se podia mostrar um seio, nunca o par e sempre sem o mamilo. Mais tarde, o mamilo foi liberado e, muito mais tarde, os pelos pubianos. Era uma época em que a excitação era produzida por nossa imaginação, estimulada pelas imagens permitidas na censura do regime militar. Por mais que quisessem nos domar, as mulheres estavam em nossas cabeças.

Pois o livro de Xico Sá aborda tudo isso, mas não só isso. Ao lado de um justificado saudosismo dos peitos como vieram ao mundo e da revolta pelo fim dos pelos pubianos, a ode que o mais famoso exemplar do macho jurubeba faz a 127 mulheres em mais de 250 páginas trata de peitos, de bundas e de outras partes do corpo feminino como as cordas vocais e o cérebro. Xico sabe que, se a beleza e a gostosura de uma mulher nos embevecem, quando aliadas ao talento e à inteligência, podem nos levar à loucura. Sempre achei isso: beleza com inteligência é uma combinação explosiva.

Em cada uma das crônicas, ele tece loas às beldades através de referências musicais, literárias, cinematográficas e, principalmente, televisivas. Não deixa escapar as lolitas de hoje, mas faz reverência às musas que, embora o tempo já tenha lançado ao ostracismo, ainda habitam nossa lembrança e nossa imaginação.

Há nomes famosos e outros nem tanto, principalmente para quem, como eu, ando distante da TV e, por isso mesmo, desatualizado a respeito das belezas e do talento das meninas de hoje em dia. Por isso mesmo, a sugestão é ler o livro ao lado de qualquer equipamento que possa fornecer um acesso ao Google para ligar o texto à pessoa.

Por mim, faltam, ainda, alguns nomes, como o de Zezé Motta ou Denise Dumont. Mas este tipo de lista é absolutamente pessoal, assim como os sonhos são de cada um.