Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Contrariando a própria convicção

Tenho, cada vez mais forte, a convicção de que não sou mais capaz de assimilar novidades no que diz respeito à música. Eu me pego à procura das mesmas coisas de sempre quando percorro com o olhar as prateleiras das lojas de discos. Aliás, acho que sou o único a chamar os CDs de discos, mas, enquanto seu formato redondo e achatado me permitir esta atitude, resistirei bravamente.
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Mas, voltando às prateleiras, o que meus olhos treinados buscam é sempre a mesma coisa, seja jazz, MPB, Bossa Nova ou o samba autêntico, enfim, o tipo de música que verdadeiramente me emociona. Conscientemente, minha atenção passa ao largo das duplas sertanejas, dos grupos de pagode, do pop, do rap e do rock, seja da música americana, seja da brasileira. Minha visão seletiva me proteje dos discos da Paula Fernandes, do Péricles, do Nx Zero ou da Vanesa da Mata.
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Estou certo, entretanto, que esta autoproteção me impede de descobrir coisas novas que poderiam me agradar e, principalmente, enriquecer meu conhecimento musical e aumentar meu prazer. Afinal, cada vez menos eu consigo encontrar alguma gravação nova quando procuro pelas músicas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Gershwin ou Cole Porter. Além do mais, mesmo os artistas que eu admiro e que ainda estão na ativa, diminuiram, e muito, a produção, o que é compreensível, visto se tratar de sexagenários, no mínimo. Desta forma, é cada vez mais raro o lançamento de um novo disco de João Bosco ou Paulinho da Viola, de Renato Teixeira ou Almir Sater, com, realmente, alguma novidade. Talvez as exceções sejam Caetano Veloso e Chico Buarque que têm apresentado incursões por novos caminhos, embora isso, em ambos os casos, me causem estranheza. No caso de Caetano Veloso, principalmente nos CDs e Zii e Zie, eu identifico uma guinada a certo primitivismo melódico e harmônico que, a princípio, não me agrada. O último disco, Abraçaço, ainda preciso digerir melhor antes de saber o que achei. De qualquer forma, minha relação com a música de Caetano Veloso sempre foi assim. Sempre levei certo tempo para digerir seus discos e, de alguns deles, acabei aprendendo a extrair um grande prazer.
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Chico Buarque segue numa direção oposta à de Caetano e me causa a mesma estranheza. Em seus útimos discos Carioca (2006) e Chico (2011) ele se aventurou em dissonâncias intrincadas que incomodam meus ouvidos mais convencionais. Este incômodo, entretanto, me seduz, já que mostra uma busca por experimentar, realmente, algo novo.
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Falei tudo isso, ou seja, gastei 4 parágrafos e abusei da paciência de quem está lendo este texto para comentar o álbum Indivisível de Zé Miguel Wisnik. Contrariando minha própria convicção, a de que eu não seja capaz de assimilar novidades, este é um autor que me seduziu desde o primeiro momento que ouvi suas músicas. É na interpretação de grandes cantoras como Maria Bethânia, Gal Costa, Zizi Possi, Mônica Salmaso ou Vânia Bastos que seu talento se revela. Embora pareça contraditório, sua música é minimalista e complexa, dois atributos que me agradam muito. Neste novo áalbum, ele nos apresenta 2 CDs, o primeiro em que se acompanha do próprio piano com o suporte das teclas de Marcelo Jeneci. No segundo, é o violão de Arthur Nestrovski que dá o tom. Nos dois casos, a simplicidade dos arranjos e sua voz desprovida de recursos é que permitem perceber a riqueza e a complexidade de suas composições.
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Wisnik é versátil. Faz tanto melodia quanto letra e é capaz de musicar poemas de Fernando Pessoa, Gregório de Mattos e Drumond ou se atrever a colocar letra numa música de Schubert, além de apresentar uma versão para uma bela canção de Henri Salvador. Compõe sozinho e em parceria com Luiz Tatit, Guinga ou Chico Buarque, entre outros. Além de tudo, o álbum tem um projeto gráfico muito criativo.
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 Enfim, um disco e um artista capazes de me fazer acreditar que ainda tenho salvação.
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Se meu mundo cair (Zé Miguel Wisnik)
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Embebedado (Zé Miguel Wisnik e Chico Buarque)

sábado, 21 de dezembro de 2013

Negando o passado

Foi impossível sair do cinema, após assistir Lore, de Cate Shortland sem me lembrar de outro filme alemão, A Cidade sem Passado, de 1990, que mostrava o quanto uma cidade alemã, 25 anos depois do fim da Segunda Guerra, fazia questão de se esquecer do que ocorrera no país durante o Holocausto Nazista. Era como se nada tivesse acontecido, como se ninguém soubesse, à época, o que se passava no país. E este filme de 2013 mostra, exatamente, o início deste processo de negação por parte da população da Alemanha.
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Com a ocupação das cidades alemãs pelos exércitos aliados, começam a surgir as fotos dos campos de concentração e a reação geral é de incredulidade, de alegada surpresa, como se fosse propaganda do inimigo conquistador, como se os corpos amontoados fossem de atores magérrimos, contratados para posar como modelos.
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O filme é muito tenso, do início ao fim, e mostra o quanto a espécie humana pode ser egoísta quando se trata de livrar a própria pele. E como o mesmo indivíduo que não se importou com o que se passava com o vizinho judeu, diferente dele, não se importa com o que se passa com um alemão próximo a ele, igual a ele, seja homem, mulher, velho ou criança.
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O filme difere das centenas de histórias de guerra já produzidas pelo cinema (principalmente o americano) no fato de que as vítimas, agora, não são os judeus (ou os homosexuais ou os comunistas) perseguidos pelos nazistas e sim um grupo de crianças alemãs, filhos de nazistas fugitivos, que sofrem as agruras no país destruído. E, com isso, mostra que a capacidade do ser humano de impingir a dor e o sofrimento a um semelhante seu, como ocorreu com os nazistas aos judeus e com os judeus aos palestinos, não é característica de uma parcela da espécie, mas dela como um todo.
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Apesar de provocar muita reflexão, o filme é extremamente deprimente, assim como a realidade. Dá vontade até de negar o passado.
 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sexo tratado com beleza e elegância

Para minha surpresa, no fim de semana passado, havia mais de 5 filmes em exibição em Campinas que me interessavam assistir. Escolhemos um para o sábado e outro para o domingo. O critério da escolha obedeceu, exclusivamente, à questão do horário, mas, outra surpresa, resultou em 2 filmes com muitas coisas em comum. Ambos eram falados em francês, os dois tratavam de experimentações da adolescência, tinham atrizes belíssimas e, principalmente, a temática central era o sexo. Mais do que isso, nos dois casos, tratavam de sexo não convencional, ao menos na visão da maioria das pessoas.
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Jovem e bela é um filme de François Ozon cuja personagem se inicia na prostituição aos 17 anos. Sua motivação não é a necessidade de dinheiro, que ela acumula sem gastar um centavo. Tampouco é a libido que lhe motiva, já que o que a impele é menos a expectativa do prazer que possa experimentar com cada cliente e mais a ansiedade provocada pelo desconhecido, previamente, a cada encontro. Apesar da nudez da atriz Marine Vacth, de 23 anos, de extrema beleza, o que mais me seduziu no filme não foram as cenas de sexo e sim o comportamento da personagem, principalmente no que se refere ao seu relacionamento com as outras pessoas. A personagem era tão inexpressiva que fica a grande dúvida se esta é uma característica própria da atriz ou se ela é tão competente em seu ofício, que sua capacidade de convencimento seja extrema. Seja qual for a razão, a escolha de Marine Vacth foi muito acertada.
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O filme do domingo foi Azul é a cor mais quente, dirigido por Abdellatif Kechiche, que trata da relação entre uma adolescente e uma estudante de artes plásticas, alguns anos mais velha. Vencedor da Palma de Ouro deste ano, o filme foi lançado no Brasil na esteira de algumas polêmicas, entre as quais, a acusação de tirania, imputada ao diretor, devido ao seu nível de exigência nas filmagens. Outros dois aspectos, muito comentados na mídia, são a duração de 3 horas, bastante acima do convencional, e uma cena de sexo entre as duas, de mais de 7 minutos, feita com extremo realismo. Reconheço que a cena é, realmente, de tirar o fôlego, muito menos pela excitação que possa causar no expectador e mais devivo a um certo desconforto que a cena realmente provoca. O filme, entretanto, longe de ser uma obra erótica ou pornográfica, trata do quanto é complicado lidar com a questão das relações amorosas nesta época da vida de qualquer um. Desta forma, o fato desta relação acontecer entre pessoas do mesmo sexo acaba tendo uma importância secundária. Outro ponto a se ressaltar é a estonteante beleza da atriz Adèle Exarchopoulos, de 19 anos, que nos é insessantemente mostrada na tela, o tempo todo. É, realmente, uma overdose de beleza.
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A conclusão do fim de semana é que é possível fazer filmes sobre sexo (e não de sexo), com beleza e elegância e, ainda, nos provocar reflexões profundas.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Filho de peixe

Sou obrigado a confessar que sempre tive má vontade para ler o que escrevia Antonio Prata. O principal motivo era o fato de ele escrever na revista Capricho para um público adolescente, na época em que a Cecília fazia parte deste público. A outra razão é o fato dele ser filho de Mário Prata, um escritor de quem eu gosto muito de ler as crônicas. E, nesse caso, aliado à má vontade, há o preconceito de pensar que a carreira do filho possa estar atrelada ao reconhecimento que tem o pai e, com isso, as portas das editoras se abrirem mais facilmente.
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Por felicidade, tenho a consiência de que todo e qualquer preconceito é fruto de ignorância e, embora isso não possa evitar que os tenha (como todos nós), essa consciência foi capaz de permitir que eu folheasse o livro Meio Intelectual, Meio de Esquerda, certa tarde de um sábado em que eu estava à toa na livraria da Vila em Campinas. Comecei a ler as crônicas e fui tomado de assalto ao perceber como seu texto é ágil, divertido e inteligente.  Não posso negar que fui seduzido, também, pelo título do livro, expressão tirada de um dos textos, chamado Bar ruim é lindo, bicho.
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A maior parte do livro é composta de textos publicados no Estadão entre 2004 e 2010. Li, praticamente, num dia, numa viagem entre Campinas e Belo Horizonte, metade na ida, metade na volta. Cada texto me fazia querer ler mais e, conforme o livro terminava, ia sentindo certa angústia de perceber que iria acabar e por saber que eu não tenho a menor intenção de começar a ler o Estadão, onde nem mesmo sei se ele ainda escreve. Esta sensação arrefeceu, um pouco, quando cheguei em casa e ao comentar sobre isso, a Clélia me mostrou que temos outros 3 livros dele, comprados por ela, o que eu nem sabia. Deu pra respirar aliviado por dois motivos: vou poder ler mais coisas de Antonio Prata e fica reforçada a minha convicção de que todo preconceito é sinônimo de burrice.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A Pausa do Tempo

Este meu blog já foi muito mais ativo. Comecei a escrever há 7 anos e, naquela época, postava quase um texto por dia. Era uma febre, uma compulsão, vício movido por desejo, nunca por obrigação. Aos poucos a frequência foi diminuindo, revelando queda na ansiedade, mas mantendo um ritmo muito alto, ainda. Era uma época em que eu tinha a paixão por escrever, quase todo dia.
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Sem que eu percebesse, a frequência foi baixando e, de repente, sem que nenhuma decisão fosse tomada neste sentido, o blog ficou inativo por mais de 2 anos. Foi um período em que senti muito mais necessidade de ler do que de escrever. Tenho voltado, agora, lentamente, com pouco mais de 2 textos em cada mês e quando releio os antigos, reconheço neles a carga de paixão que não percebo nos atuais.
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Das épocas remotas, também, eu frequentava diversos outros blogs, de onde me alimentava. Percebi o mesmo fenômeno na maioria deles, coincidindo, inclusive, as épocas de maior atividade e de diminuição de fôlego. Alguns já nem existem mais.
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Um dos blogs cuja visita me dava mais prazer era A Pausa do Tempo, da jornalista e agente literária Valéria Martins. O que sempre me seduziu em seu texto é a leveza com que ela lida com as palavras, como se estivesse conversando com o leitor e como se nesta conversa sempre houvesse uma pitada de poesia. Sua principal característica é a generosidade com que nos oferece suas palavras. A coincidência de interesse por alguns temas como o amor e a literatura, sempre me fez buscar, neste blog, o incentivo para escrever mais.  
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Foi  por tudo isso que fiquei muito animado ao saber do lançamento do livro A Pausa doTempo, com textos selecionados do blog homônimo, pela editora Jaguatirica. Assim que consegui comprar meu exemplar, mergulhei de cabeça na leitura e, embora reconhecesse alguns dos textos, relê-los não me provocou sensação de estar lendo algo de novo e, sim, a sensação de estar lendo algo novo. Comprar o livro, aqui em Campinas, não foi uma tarefa muito fácil, já que a Jaguatirica é uma editora pequena e, como a própria Valéria me explicou, as grandes livrarias não dão a mínima para as pequenas editoras. De qualquer forma, depois de procurar na Saraiva e na Livraria da Vila (na FNAC eu nem procurei, pois aquilo virou uma loja de eletrodomésticos!), consegui encomendá-lo na Livraria Cultura.
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Enfim, ler o livro, me deu o mesmo prazer que eu tinha quando acompanhava o blog com frequência e confirmou o que eu já sentia naquela época, ou seja, Valéria Martins escreve do jeito que eu gostaria de saber escrever.

domingo, 1 de dezembro de 2013

The Voice Brazil

Antigamente, no Brasil, os programas de calouros eram a forma mais comum de um cantor aparecer e se tornar conhecido. Era, praticamente, a única maneira de um artista ter a chance de gravar um disco. Estávamos na era do rádio e cada estação tinha o seu, sendo os mais famosos o Programa César de Alencar e Calouros em Desfile, de Ary Barroso. Nos primeiros anos da televisão, tudo que passava na tela era o que já existia no rádio, adaptado ao novo veículo e a fórmula dos shows de calouros foi, também, exportada, sendo a Buzina do Chacrinha, seu melhor exemplo. Isso, aliás, multiplicou em muito a popularidade de seu apresentador quando passou para o tubo de raios catódicos. E como ele dizia que em televisão nada se cria, tudo se copia, rapidamente vieram outros, de muito sucesso como o de Silvio Santos e de Flávio Cavalcante e outros com sucesso mediano, como o do Bolinha ou Raul Gil. E este, pelo que sei, continua na tela de LED até hoje.
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Mas hoje, mesmo, o que temos de mais parecido com aquilo talvez seja o programa The Voice Brasil, produzido pela Rede Globo. Confirmando a frase do Velho Guerreiro, é uma cópia do homônimo produzido nos Estados Unidos. Pode ser parecido com os velhos programas de calouro, mas não é a mesma coisa.
 
Nos de antigamente, o candidato tinha o seu sucesso (ou seu fracasso), dependente apenas de sua voz. Vinha com uma roupinha simples, era acompanhado por um conjunto de música bem básico, quase chinfrim, sem nenhum arranjo rebuscado e tinha que cantar, ali, parado, à frente do microfone.
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No The voice, o que mais conta é a perfumaria. É a roupa moderninha, é o arranjo rebuscado, é o berro e a firula. Sim, porque, contrariando o título do programa, usa-se muito mais o grito do que a voz. Chega a ser irritante. Parece um concurso pra se saber quem berra mais. Berra-se com afinação, berra-se com ritmo, mas berra-se. Parece ser este o principal critério de escolha dos jurados (que agora chamam-se técnicos).
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Assistindo ao programa, fiquei pensando que, se tivesse sido sempre assim, ou seja, se somente os cantores que berram fossem selecionados, vozes como a de João Gilberto nunca teriam tido chance. Roberto Carlos não passaria pelo crivo dos técnicos. Nem Mônica Salmaso, nem Renato Braz, nem Emílio Santiago. Tivesse sido sempre assim, não teríamos conhecido a voz de Beth Carvalho, nem de Clara Nunes, nem tampouco de Milton Nascimento.
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Se dependêssemos dos critérios utilizados no The Voice, onde o grito e a firula são mais importantes que o canto, só conheceríamos vozes como a de Ana Carolina ou Paula Fernandes. E nunca teríamos ouvido Elizeth Cardozo. Ainda bem que não tenha sido sempre assim. A vida seria muito triste.

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Deixa (Vinicius de Moraes & Baden Powell) - Elizeth Cardoso

sábado, 30 de novembro de 2013

Sessão dupla de cinema e Martha Medeiros

No fim de semana prolongado pelo feriado da Proclamação da República, fizemos, em São Paulo, uma sessão dupla de cinema, hábito que há tempos não repetíamos. Assistimos ao filme francês Os Belos dias e também ao último de Woody Allen, Blue Jasmine.

A motivação para escolher o francês foi a presença de Fanny Ardant. Sempre vou considerar sua presença em qualquer filme, motivo suficiente para vê-lo, mesmo que depois ele me desagrade. Já assisti vários filmes com ela, como Sabrina, O jantar, Elizabeth, Sem notícias de deus, 8 mulheres, entre outros, alguns aproveitáveis, alguns descartáveis. Não importa. A figura de Fanny Ardant sempre justificou cada ida ao cinema.
Fui seduzido por esta atriz quando vi A mulher do lado, seu primeiro filme de François Trufault, com quem foi casada durante algum tempo. Na exuberância de seus 30 anos, contracenava com Gerard Depardieu e sua beleza me deixou perplexo. Consigo lembrar-me, até hoje, da expressão de seu rosto em algumas cenas. Talvez tenha sido o primeiro que vi com ela, mas ficou claro, pra mim, naquele momento, que qualquer outro trabalho que fizesse, seria suficiente motivo para eu me interessar em vê-la. Em Os Belos dias, filme do ano passado, aos 63 anos, exibe uma beleza que ainda me cativa.
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Já a motivação para assistir ao novo filme de Woody Allen é o próprio Woody Allen. Sempre me sinto impelido a assistir seus filmes e isto ocorre mesmo que o anterior não tenha me agradado. Na verdade, acho que vou ao cinema em busca de reviver a sensação que tive quando assisti a alguns de seus filmes em minha juventude como Um assaltante bem trapalhão, Bananas, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo e, principalmente, Manhattan, meu preferido, sem dúvida. O fato de eu não ter me empolgado com seus trabalhos mais recentes, tem me levado a imaginar que ele esteja perdendo a mão, mas, talvez, não tenha mudado ele, tenha mudado eu. Afinal, andei revendo alguns filmes que me cativaram no passado e não tive nem a sombra da sensação de outrora.  Mesmo Annie Hall, um filme que deixei de assistir, não sei bem por que motivo, mas que, tenho certeza, me cativaria naquela época, não me provocou nenhuma emoção especial quando o vi, finalmente, neste ano. Entre os recentes, só mesmo Meia Noite em Paris me causou algum impacto. Senti enfado ao assistir Para Roma com amor e, felizmente, Blue Jasmine, me provocou alguma satisfação, sobretudo a performance de Cate Blanchet, uma atriz que nunca tinha chamado minha atenção. 

Por mais que estes dois filmes pareçam não ter nada em comum, consegui perceber um elo entre eles, já que ao fim da tarde, me veio à mente um texto antigo de Martha Medeiros, do qual eu gosto muito e que fala sobre traição. Neste texto, chamado Traição e Semântica, a escritora fala daquilo que ela considera, realmente, uma traição e a forma com que, em geral, as pessoas aplicam esta expressão. Pois, nos dois filmes, ou melhor, em cada um deles, as formas de traição são mostradas das duas maneiras que ela trata no texto. E, vê-los no mesmo dia, me fez concordar, novamente, com ela.




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Passado Interrompido

Desde que surgiu este dilema das biografias autorizadas, me senti meio que em cima do muro, posição que, em geral, me incomoda. Confesso que mantive esta posição um pouco por preguiça e, por isso, não me sentia motivado a ler mais sobre o que estava se passando, já que, embora seja um grande admirador da obra de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e, até mesmo, de algumas canções do Roberto Carlos, tenho muito pouco interesse pelas opiniões deles a respeito de assuntos gerais e, muito menos, de detalhes sobre suas vidas privadas. Aliás, a vida privada das pessoas me interessa quase nada. Por outro lado, a biografia chapa branca sempre me deixa bastante desconfiado, com a sensação de estar sendo ludibriado. Acabei vencendo a preguiça e escolhi uma posição que, neste momento, pouco importa, visto que este assunto já esfriou.
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De qualquer forma, tenho de confessar que gosto de ler biografias, principalmente aquelas em que o foco principal seja a obra (ou o pensamento) do biografado e não tanto a sua vida privada. E gosto muito de ler entrevistas, também. Aliás, acho que gosto mais de ler entrevistas, já que esta fica no meio do caminho entre a biografia não autorizada e a de chapa branca. O problema é que entrevista, em geral, é uma coisa datada, que reflete a opinião do entrevistado naquele momento, e que pode mudar em pouco tempo, em função de alguma reflexão mais profunda ou de algum acontecimento inesperado. Por isso mesmo, é sempre muito estranho ler entrevistas antigas.
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O que dizer, portanto, de ler uma entrevista feita há mais de 30 anos?  Faz algum sentido? Pode até fazer, principalmente se o entrevistado, logo depois dela, não tiver tido a chance de refletir ou ver as voltas que o mundo deu. E foi exatamente o que me motivou a ler A última entrevista de John Lennon e Yoko Ono, conduzida por David Sheff, à época, jornalista escalado pela revista Playboy para esta tarefa, transformada em livro. A entrevista aconteceu em algumas sessões na casa do ex-Beatle, em seu escritório e no estúdio em que estava sendo gravado o último álbum lançado por ele, Double Fantasy. Poucos meses depois, Lennon seria baleado em frente à sua casa.
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Apesar de datadas, algumas de suas posições a respeito de política e, principalmente, sobre a paz, parecem atuais. Fica uma sensação de que nenhuma reflexão ou acontecimento histórico teria mudado sua maneira de pensar e enxergar o mundo, não que isso fosse ruim, muito pelo contrário, mas sua argumentação era tão consistente que poderia ser utilizada mesmo hoje em dia, com mais de 70 anos, caso estivesse vivo. Os detalhes de seu relacionamento com os outros Beatles, assim como com Yoko Ono, longe de serem tratados como fofoca, servem como pano de fundo fundamental para entender sua obra e sua forma de pensar.
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É a respeito de sua obra, aliás, que o conteúdo da entrevista mais me seduziu, justamente na parte em que, a convite do jornalista, ele comenta cada uma das mais importantes canções produzidas durante a carreira solo ou juntamente com os Beatles. Para quem foi um beatlemaníaco extemporâneo, como eu, foi absolutamente delicioso conhecer os detalhes das composições daquele que sempre foi meu Beatle preferido.

domingo, 13 de outubro de 2013

Desconforto

Inferno foi o primeiro livro de Patrícia Melo que eu li. Gostei muito e soube, mais tarde, que ela ganhou um importante prêmio por ele. E foi por isso que comprei, há algum tempo, Acqua Toffana, sem saber que ele foi seu primeiro livro publicado.
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Fazia um bom tempo que ele estava na estante e, semana passada, resolvi pegá-lo pra ler. Confesso que fiquei um tanto decepcionado, não que ele seja ruim, mas, provavelmente, por eu estar com uma expectativa exagerada devido ao outro.
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O que mais me incomodou, ao começar a leitura, foi a forma não linear da narração que me causou certo desconforto. Isso não é incomum e, nem necessariamente, negativo. Lembro-me de ter sentido o mesmo desconforto quando li, pela primeiravez, um livro de José Saramago. Era O Evangelho Segundo Jesus Cristo e sua forma de escrever os diálogos, sem utilizar o sistema convencional de pontuação, com travessão, me perturbou um pouco. Esta sensação, entretanto, passou rapidamente e logo eu estava absorto na leitura que terminei quase perdendo fôlego. Quando fiz minha segunda incursão na obra deste autor, Ensaio Sobre a Cegueira, eu estava absolutamente confortável para encarar aquela leitura que também me arrebatou.
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No livro inicial de Patrícia Melo, o desconforto não me abandonou um só instante. Ele foi, aliás, agravado pelo fato de eu tê-lo indicado no blog, antes de começar a ler, como, aliás, faço com todos os livros que indico.
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Caso minha memória não esteja me traindo (e nem minha preguiça de checar), acho que é a primeira vez que faço um comentário que não seja elogioso de uma indicação do blog. De qualquer forma, preferi escrever, mesmo assim, até porque o maior desconforto que o livro me causou foi o fato de eu não saber, até agora, se gostei dele ou não.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resposta ao tempo

Se, por brincadeira, alguém pedir pra eu escolher um, apenas um, dentre os meus letristas de música preferidos, este inquiridor ficará sem resposta. Julgo-me absolutamente incapaz de sacar apenas um nome de uma relação que tem Noel Rosa, Orestes Barbosa, Chico Buarque, Fernando Brant, Vitor Martins, Cacaso, e muitos, muitos outros mais.
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Se a coisa não fosse brincadeira, se eu tivesse, mesmo, que escolher um nome, sob ameaça contra a vida, até por instinto, teria que abdicar de certos pudores e reduzir a lista até chegar a um nome. E este nome único seriam dois: Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. Isso mesmo. Ambos são meu letrista preferido na música brasileira, por mais que a sintaxe desta frase soe errada. Nunca tive qualquer dúvida a este respeito e isso acabou de ser reforçado após ler o livro Aldir Blanc, Resposta ao tempo – Vida eletras, do jornalista Luiz Fernando Vianna.
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Sem se preocupar estritamente com dados precisos e dando maior valor aos acontecimentos sob o ponto de vista da lembrança de pessoas entrevistadas, mesmo que apresentem falhas, o que valeu, mesmo, foi alinhavar os fatos às sensações do poeta e perceber como elas foram, no decorrer de sua vida, construindo sua poesia. Servindo-se de alguns versos de suas inúmeras obras-primas, o livro vai encadeando os períodos do tempo, formando uma biografia do letrista na qual a própria história da nossa música vai se construindo, numa quase confusão em que conter e estar contido se misturam, como acontece na vida real.  Aldir Blanc, aliás, é o mais competente cronista da nossa música atual, como já fora, no passado, Noel Rosa, por coincidência (ou não), também oriundo de Vila Isabel.
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Aldir é um sujeito recluso, não é dado a manifestações de estrelismo, não é uma celebridade. Por isso é esquecido pela mídia, até mesmo por que não compactua com seu jogo. Por esse motivo, o livro trata até dos momentos difíceis de sua vida sem a dramaticidade que, certamente, venderia mais livros. Mesmo o episódio do afastamento entre Aldir e João Bosco é tratado de maneira natural e sem alarde, como eles mesmos, os protagonistas, preferem tratar. Este assunto é o que mais me interessava quando comecei a ler a biografia, não por gostar de fofocas, mas pelo fato de que este afastamento provocou em mim uma sensação de orfandade, já que me privou de continuar recebendo, através dos discos, o tipo de música que mais me fascinava naqueles tempos.
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O fim da parceria entre Aldir Blanc e João Bosco me causou, num primeiro momento, a sensação de que nenhum dos dois, compondo com outros parceiros, conseguiria arrebatar minha emoção no mesmo nível que o fizeram quando compunham juntos. Esta sensação perdura até hoje em relação a João Bosco, mas Aldir Blanc conseguiu continuar a me surpreender e me encantar com letras feitas com outros parceiros, sobretudo Guinga e Moacyr Luz.
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Não importa que sua música não venda tanto quanto as bobagens que habitam a nossa mídia. Para mim, ele continua sendo o primeiro de todos, mesmo que empatado com outro.
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Notas musicais:
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1 - Na contracapa do livro, Guinga diz: “Aldir não escreve, presta depoimento”. Acredito que este samba, feito em parceria com João Bosco, seja bastante emblemático desta forma de fazer letra que tanto me encanta.


Siri Recheado e o cacete (João Bosco e Aldir Blanc) – João Bosco
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2 – Ao lado de um grande senso de humor e picardia, Aldir é, também, hábil com as palavras ao desvendar as amarguras do ser humano, como nesta belíssima canção, composta em parceria com Guinga.


Catavento e Girasol (Guinga e Aldir Blanc) - Guinga
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3 – Com Moacyr Luz, Aldir conseguiu atingir o mesmo grau de perfeição ao compor sambas, como este.


Pra que pedir perdão? (Moacyr Luz e Aldir Blanc) - Moacyr Luz e Aldir Blanc