Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A arte de entrevistar alguém

Rolava o ano de 1974. A ditadura militar e sua companheira inseparável, a censura, dominavam os cenários político e cultural do Brasil. Um ano antes, o compositor Chico Buarque escrevera, com Ruy Guerra, a peça Calabar, o elogio da traição, cuja montagem foi proibida, como foi proibida a menção do nome do personagem principal em qualquer veículo. Com isso, o disco Chico canta Calabar, com as canções da peça, teve que ser lançado com o título Chico Canta, com a maioria das letras mutiladas.

O cerco se fechava em torno do autor e foi ficando claro que mesmo se ele colocasse melodia na poesia batatinha quando nasce, seria censurado. A única saída, portanto, foi lançar um disco em que cantava músicas de outros autores, intitulado Sinal Fechado, mesmo nome de um samba de Paulinho da Viola, última faixa do LP (quem não souber o que isso significa, pergunte ao pai ou ao avô).

Entre canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim e outros nomes consagrados da música popular brasileira, figurava um samba de dois autores desconhecidos, Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. O samba chamava-se Acorda Amor. O disco foi liberado sem maiores problemas, já que a censura não descobriu que a dupla, na verdade, fora inventada por Chico e que o samba era, na realidade, de sua autoria. Apesar de toda a truculência da época, a criatividade do artista encontrou espaço para este tipo de molecagem com os gorilas. Maior molecagem que esta, entretanto, foi a ideia do escritor Mario Prata, em meio ao sucesso do disco (e do samba), de entrevistar Julinho da Adelaide e publicá-la, no jornal Última Hora, em plena edição de 7 de setembro, dia da pátria. Pra quem vivia nos subterrâneos do país e sabia o que estava acontecendo, a entrevista foi hilária.

Lembrei-me desta história e da habilidade do escritor em entrevistar personagens fictícios quando comecei a ler seu mais novo livro, Mario Prata entrevista uns Brasileiros. São 22 entrevistas que vão de Pedro Álvares Cabral a Rui Barbosa, passando por Dom João VI, Dom Pedro I, Tiradentes, Xica da Silva, entre outros. Todos já mortos, há décadas.

Como criatividade pouca é bobagem, uma das melhores entrevistas é a que ele faz com Bentinho, personagem do livro de Machado de Assis, Dom Casmurro, talvez o único entrevistado vivo, já que uma personagem de tal importância na nossa literatura, não morre nunca. Há anos que a grande discussão acadêmica nos meios literários é a de saber se Capitu deu pra Escobar ou não. Na entrevista, esta questão não é nem sequer abordada. Através de trechos cirurgicamente pinçados do livro, o entrevistador consegue mostrar que o ciúme que Bentinho sentia, talvez não fosse de Capitu e sim de Escobar, o que faz o entrevistado ficar numa situação de saia justa.

São textos rápidos, inteligentes e cheios de picardia, como é típico de tudo que escreve Mario Prata. E como se não bastasse, em meio a toda graça das entrevistas, ainda é possível aprender um pouquinho de história.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Prazer na leitura

Todo texto linear, bem ordenado, com princípio, meio e fim, oferece muito conforto para qualquer leitor, até mesmo os menos treinados neste hábito. Características assim são muito boas de se encontrar em textos jornalísticos, livros didáticos ou bulas de remédio. Em literatura, porém, alguma dose de inovação, um pouco de divagação, enfim, qualquer coisa que desafie o leitor a sair da linha reta e force a mente a pensar fora da caixa é sempre bem-vinda.

Lembro-me do desconforto que senti ao ler meu primeiro Saramago. Acho que foi O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Aquela forma de utilizar as vírgulas e as letras maiúsculas, em lugar do travessão, para indicar os diálogos, causaram-me algum susto, mas, depois, aquilo passou a parecer normal, minha mente se acostumou e o prazer com a leitura se instalou em mim.

Pois foi exatamente esta mesma sensação que experimentei ao ler Mamma, son tanto Felice, de Luiz Ruffato, o primeiro dos 5 volumes que compõem a coleção Inferno Provisório.

Lançado em 2005, este primeiro livro não foi fácil de ser encontrado, já que estava esgotado em todas as livrarias que procurei (reais e virtuais). Já havia adquirido os demais volumes e para iniciar a leitura pelo começo apelei para um site de livros usados, a Estante Virtual. O dono anterior, ao que parece, não se interessou nem mesmo por folheá-lo, já que o livro chegou em estado impecável. Talvez tenha ganhado de presente do amigo secreto da firma. Talvez preferisse ter ganho um livro de autoajuda. Enfim, pude colocá-lo à frente dos outros quatro na minha estante.

O pouco que conhecia do texto de Luiz Ruffato eram suas colunas no jornal El País Brasil. Gosto de lê-las e, a partir de uma entrevista no rádio, interessei-me pelo projeto Inferno Provisório, cujo objetivo é falar da formação e evolução do proletariado brasileiro, desde os anos 50 até o início do século 21, por meio da saga de uma comunidade de imigrantes italianos e seus descendentes, no interior de Minas Gerais e na cidade de São Paulo, conforme li numa reportagem sobre o escritor.

Este primeiro volume presta-se a mostrar a formação desta comunidade e a forma que o autor encontrou para evidenciar a disparidade entre os personagens foi apresentá-los de maneira destacada de uma narrativa linear e encadeada. Reside aí a razão do desconforto inicial com a leitura. A história de cada personagem é quebrada para dar início à narrativa de uma outra, repetidamente.

Aos poucos, porém, esta sucessão de quebras deixa de incomodar e, em lugar disso, colabora para que se construa uma crescente curiosidade a respeito do que virá nos próximos volumes.


domingo, 18 de outubro de 2015

Lusofonia

“O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa.
– Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver.
 – Vais fazê-la à minha frente – repetia.
Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos. Vais fazê-la.”

Este é o primeiro trecho do livro Aprender a rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares. Encontrei-o numa livraria de Lisboa, procurando título de outro Tavares, o Miguel Sousa, e peguei-o por erro. Bastou ler este primeiro trecho para decidir comprá-lo.

Os portugueses são muito ciosos de seus escritores e tecem loas aos mais clássicos e famosos, como Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago. Há nas estantes de suas livrarias, entretanto, espaço para muitos outros escritores de língua lusófona, inclusive brasileiros, diferentemente das lojas daqui. Com isso, é possível encontrar nas livrarias da capital portuguesa obras de escritores de Angola, como Gonçalo.   

Escrito em três partes, Força, Doença e Morte, mostra o protagonista, Lenz Buchmann em dois momentos, primeiro como o médico mais competente da cidade e, depois, como um político poderoso e influente. Cada parte do livro é dividida em vários capítulos e cada capítulo, também, subdividido em outros. Isso torna a leitura ágil e dinâmica, sem tirar-lhe a intensidade.

Ao longo de toda a narrativa, ou seja, em qualquer das três partes e em qualquer dos dois momentos, o traço mais marcante do caráter do personagem manteve-se intacta: sua arrogância. Por isso, nem quando ele estava salvando vidas com sua perícia cirúrgica e nem quando estava enfraquecido, à beira da morte, o leitor é levado a ter qualquer sentimento de simpatia ou piedade por ele.

Não só no Brasil, a literatura feita em língua portuguesa mostra-se pungente. Nada como viajar para descobrir isso e, assim, abrir-se para uma viagem mais poderosa que é a leitura.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sentir, mais que entender

Certa vez comentei com um amigo que era impossível viver com uma mulher que não gostasse de João Gilberto. Nem me lembro se ele concordou comigo, mas isso pouco importa. O que importa é que eu realmente acreditava nisso naquela época e, talvez, ainda acredite hoje.

Sei que há pessoas que não gostam de João Gilberto e há, aliás, quem o odeie. Tenho muita dificuldade em entender isso, assim como tenho a mesma dificuldade em entender como alguém possa gostar destas duplas modernas de música sertaneja ou da chamada música techno. Esta minha dificuldade deve-se, muito provavelmente, à escolha errada do verbo. Em lugar de entender, eu estou pensando em sentir.

O maior defeito que as pessoas apontam em João Gilberto é que suas gravações, assim como as apresentações ao vivo, são muito longas e que ele repete as músicas muitas vezes, o que torna a audição enfadonha. Não sinto assim. Consigo perceber, em cada repetição, alterações sutis na harmonia, enriquecendo a execução de cada canção. Minha convicção, aliás, é que cada alteração, se não é planejada, surge de uma busca do novo, da perfeição.

João Gilberto tem hoje 84 anos, vive recluso num apartamento no Rio de Janeiro, esquecido por todos, até por mim, talvez. O que me fez lembrar dele foi o livro Ho-ba-la-lá, do jornalista alemão Marc Fischer, que juntou algumas economias e viajou ao Brasil com a intenção de encontrar-se pessoalmente com João Gilberto, mesmo sabendo que esta empreitada é inglória. Nesta tentativa, acabou se encontrando com vários personagens que gravitam ou gravitaram em torno do cantor, o que ia enriquecendo o rol de informações que tinha do artista, seu ídolo. 

Com isso, no livro, vão se desvendando facetas, algumas conhecidas, outras inéditas de João, numa narrativa que instiga a curiosidade do leitor pra saber se ele irá, ou não, atingir seu intento.

Se ele conseguiu, não sou eu quem vai contar. Não sou estraga prazeres.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A história e o tempo

“A violência é a parteira da história” é um dos aforismos mais citados de Karl Marx e, possivelmente, o mais mal interpretado. Por estar presente justamente no capítulo de O Capital, que fala sobre a acumulação primitiva, esta frase, muitas vezes, é interpretada como uma incitação à violência, cujo intuito seria disseminar o ódio de classe para mover a luta pelo poder. Mais do que uma incitação à violência, esta é nada mais que uma constatação de como as sociedades têm se transformado ao longo da história.

Pois é exatamente à clarificação desta constatação que se presta o livro A história do mundo para quem tem pressa, da historiadora britânica Emma Marriott. Nem mesmo um historiador imbecil ou irresponsável (o que não é o caso), imaginaria ser possível resumir 5 mil anos de história em 200 páginas. Apesar do que está grifado como subtítulo em sua capa, esta tarefa é tão obviamente impossível que ninguém pode acusar a editora de propaganda enganosa.

O maior (se não o único) mérito do livro é expor a história da civilização e suas transformações através de uma linha do tempo, pontuando seus principais acontecimentos com causas e consequências, sem a preocupação de se deter em detalhes ou análises mais elaboradas. Com isso, não tece nenhum juízo de valor e, portanto, consegue o distanciamento perfeito que toda análise histórica deveria ter.

O livro tem início nos anos 3.500 antes da era cristã, discorrendo sobre os antigos impérios, em todos os continentes. Passeia pela evolução dos primeiros impérios europeus, os novos impérios, a era dos descobrimentos e termina às portas da eclosão da segunda guerra mundial. Não passa deste período, justamente para preservar o distanciamento já citado.

Nesta exposição, fica muito claro que todas as transformações pelas quais passou a organização da espécie humana, nos quatro cantos do mundo, tiveram como instrumento a violência, o que acaba por corroborar a afirmação de Marx.

Nas poucas páginas do livro, só há duas passagens em que a autora cita o Brasil. Uma delas é a respeito dos efeitos que a grande depressão da década de 1930 provocou no país, citando Getúlio Vargas, que ela define como alguém que “embora governasse como um ditador, modernizou o Brasil, com reformas fiscais, educacionais e agrárias, melhorando assim as condições de vida dos pobres”. A outra passagem é para informar o vergonhoso fato de termos sido a última nação do ocidente a abolir a escravidão.

Enfim, um livro leve e que se consegue ler rapidamente, mas sem pressa.


sábado, 1 de agosto de 2015

Minha cantora preferida

Tenho lido por aí que Leny Andrade é a maior e melhor cantora de jazz do Brasil. Nunca a ouvi por este viés. Na verdade, sempre a considerei a melhor cantora do Brasil. Ao menos, é a cantora que eu mais gosto de ouvir. Sempre. Hoje, acho que esta minha preferência é dividida com Mônica Salmaso. E nem acho possível classificá-la como uma cantora de jazz. Leny canta samba e canta boleros divinamente. Na verdade, Leny canta bem o que quer que seja. Nenhuma cantora que eu conheço tem o domínio de ritmo e divisão que ela tem. E canta qualquer gênero musical. Sua única imposição é só cantar música boa, como gosta de repetir.

Acaba de lançar o CD Iluminados, só com músicas de Ivan Lins e Vitor Martins, acompanhada de músicos do primeiro time. Um amigo gostava de dizer, ainda na época do vinil, que eu tinha mais discos de Leny Andrade do que ela própria. Não sei se eram mais, mas com certeza não eram menos, já que tinha todos.

Ela surgiu no início da década de 1960, cantando num trio de Sérgio Mendes em boates do emblemático Beco das Garrafas, época da efervescência da Bossa Nova. Era um tempo em que o Brasil parecia que iria decolar e que o golpe militar conseguiu abater.  

A primeira vez que a vi ao vivo foi no início dos anos 1990, na cidade de Tübingen, na Alemanha. Seu show antecedia uma apresentação de Gal Costa. A maioria absoluta do público estava ali, maciçamente, para ver a cantora baiana, muito mais famosa. Mas o que me demoveu a viajar os 45 Km que separavam esta cidade de Stuttgart, onde eu trabalhava na época, foi a presença de Leny no show.

A segunda vez que a vi ao vivo foi 25 anos depois, no mês passado, aqui em Campinas, no Almanaque Café. Voz já cansada, aos 72 anos, mantém o mesmo pique.

É sempre um prazer ouvir uma grande cantora. Minha preferida. Sempre.

(Ivan Lins e Vitor Martins) – Leny Andrade

sábado, 11 de julho de 2015

Erotismo com elegância e ardência

Mario Vargas Llosa é um escritor peruano muito profícuo, que também se aventurou pela política. No campo político tem um pensamento bastante conservador, o que pode ser percebido através da leitura de sua coluna no jornal espanhol El País. É como contador de histórias, entretanto, que se expressa de forma mais proveitosa.

Uma das características que mais me encantam em sua prosa é a capacidade de dosar o erotismo com elegância e ardência, ao mesmo tempo. Tive meu primeiro contato com isso há mais de 40 anos, lendo Pantaleón e as visitadoras e com Travessuras da menina má, há menos de 10 anos. Em ambos, o erotismo era um ingrediente utilizado com sabedoria. Exatamente entre estas duas obras, escreveu Elogio da madrasta, que eu só vim a ler agora.

Neste livro minúsculo, em lugar do erotismo ser um ingrediente da história, é, na verdade, seu único e principal tema. Apesar disso, consegue trabalhá-lo com diversos enfoques, utilizando a técnica de alternar a narrativa da trama central, bem simples, aliás, com interpretações criativas de quadros de Francis Bacon e Fra Angelico, entre outros. Como a edição que li era um livro de bolso, não pude apreciar, de forma apropriada, as obras de arte, mas isso não teve importância graças ao velho amigo Google, que me salvou. Nesta página é possível degustar, em boa resolução e em cores, as obras utilizadas no livro.

Quando digo que a trama é bem simples, isso não quer dizer que a narrativa não seja soberba. Na verdade, até mesmo um capítulo que ele dedica a temas escatológicos é escrito com graça e engenhosidade.


Isso é Mario Vargas Llosa. Quem dera todos os pensadores conservadores tivessem tanta perícia ao escrever ficção.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Vozes que se calam

Já escrevi, num post de 2007, o quanto eu gosto de conjunto vocais. Falei da minha simpatia pelos Cariocas e pelo Boca Livre, mas ressaltei que minha preferência sempre foi o MPB4. No texto de 8 anos atrás, eu falava do quanto me desagradou a saída do Ruy, substituído por Dalmo Medeiros, o que descaracterizou a sonoridade do grupo.

A sonoridade do MPB4, aliás, foi o que sempre me seduziu. Enquanto eu achava que Os Cariocas abusavam do uso de falsete, o som do Boca Livre me parecia, às vezes, um tanto meloso, sem falar do repertório, com o qual tinha um pé atrás. No caso do MPB4, o repertório me parecia irrepreensível.

Voltando à sonoridade do grupo, a principal razão da minha preferência eram os arranjos vocais, quase sempre a cargo do Magro. E agora, desde 2012, com sua morte, este som, definitivamente, não tem mais chance de voltar a soar. Por mais contraditório que isso possa parecer, o que me agradava em seus arranjos era a incidência dos trechos em uníssono que ele utilizava nas canções. Em geral, os arranjadores vocais fazem exatamente o contrário, ou seja, harmonizam cada nota da melodia com um acorde, de forma que, em grande parte das vezes, o resultado fica pesado. O que o Magro fazia era justamente usar o canto em uníssono para ressaltar belos acordes, quando, realmente, eles pudessem ter um efeito especial.

Este tipo de detalhe sempre me interessou e, por isso, foi com grande entusiasmo que comprei o livro Vozes do Magro, lançado ano passado. Nele, o maestro comenta detalhes dos arranjos de cada faixa dos primeiros 14 discos do grupo, ou seja, a primeira metade de sua discografia. Felizmente, os meus discos prediletos (Cicatrizes, Palhaços e Reis, 10 anos depois e Canto dos Homens) encontram-se nesta relação, até porque, minha preferência recai justamente nesta fase do quarteto.

Entremeando dados técnicos musicais e detalhes das gravações com “causos”, alguns pitorescos, o autor não se furta em reconhecer deslizes, revelando os arranjos que, em sua opinião, não ficaram tão bons, seja por falta de competência, seja por preguiça. Esta sinceridade acaba por enriquecer mais ainda os comentários. Entre um disco e outro, entre uma faixa e outra, o livro vem recheado de depoimentos de artistas que privaram da convivência com o Magro e o MPB4.

No fim do livro há, ainda, uma série de partituras com os arranjos do maestro com alguns dos sucessos do grupo que, por mais de 40 anos, embalaram meus sentidos e o de muita gente de minha geração.

Resistindo, pra não perecer, o MPB4 convidou Paulinho Malaguti para substituir Magro no grupo e assumir a responsabilidade pelos arranjos. Malaguti fez um trabalho competente como arranjador dos grupos Céu da Boca e Arranco de Varsóvia, mas, como eu já disse em meu texto de 2007, nunca me interessei por conjuntos vocais mistos. Se já era difícil eu me interessar pelo som do MPB4 sem o Ruy, imagine agora, sem os arranjos do Magro. Definitivamente, as vozes do MPB4, para mim, se calaram. Fica, enfim, a consolação de poder ouvir os seus discos antigos.

(João Bosco e Aldir Blanc) - MPB4

sábado, 2 de maio de 2015

O jazz e o pop

Quem acompanha este blog sabe que minhas preferências musicais recaem, principalmente, sobre a música brasileira, sobretudo o samba. Isso não quer dizer que eu seja refratário a outros gêneros musicais. Na verdade, tenho muito apreço pelo jazz e pela música norte-americana que foi produzida nas décadas de 40 e 50, do século passado. Me encantam os standards escritos por compositores como os irmãos Gershwin, Irving Berlin, Jerome Kern, Richard Rodgers e Cole Porter, meu preferido. Todos eles produziram canções inesquecíveis que me seduziram (e ainda seduzem), interpretadas pelas vozes de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Carmen McRae, entre tantos outros. E, dentre tantos, tenho clara predileção por Tony Bennett.

A música americana mais moderna me interessa muito pouco. Com o rock flertei na mocidade e o resquício de interesse ficou restrito a alguma produção nacional. Já em relação à música pop americana, meu interesse é zero. Não me instigam os artistas e, muito menos, a forma com que este produto cultural (ou seria subproduto?) é trabalhado pelo mercado.

E foi por isso, justamente, por esta quase implicância com a música pop, que me surpreendi com meu interesse e, mais que isso, minha satisfação com o resultado de um disco de Lady Gaga. Devo confessar que nunca havia ouvido nada que esta moça tenha gravado e nem mesmo seu rosto era familiar pra mim. O que suscitou minha curiosidade foi o fato do disco em questão ter sido gravado com Tony Bennett, um trabalho cujo repertório é composto por standards de jazz, a maioria em dueto com o meu cantor americano preferido. E não é que a voz da moça é boa? Ela tem um timbre forte e uma boa noção de divisão musical, característica imprescindível para interpretar este tipo de música.

Com acompanhamento irrepreensível, o disco é muito agradável de se ouvir. Não sinto muita propensão em ouvir outras coisas gravadas por ela, mas, ao menos, agora, sei que se trata de uma cantora vigorosa, ou seja, não é só mais um rostinho feio no mercado da música pop. 

Cheek to Cheek (Irving Berlin) – Tony Bennett & Lady Gaga

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Lusitanos

Gosto dos livros da coleção Povos & Civilizações da Editora Contexto. A proposta é analisar a característica de uma determinada sociedade, utilizando a história de seu povo como o fio condutor desta análise. Já li Os Americanos, Os Espanhóis e Os Argentinos, nessa ordem. Agora, terminei de ler Os Portugueses, da professora Ana Silvia Scott, que segue a mesma proposta dos anteriores.

O que notei, entretanto, é que, neste caso, a utilização da história foi bem mais apurada do que os que li anteriormente. Isso, aliás, foi o que mais me seduziu no livro, já que sei muito pouco sobre a história de Portugal. Como a própria autora ressalta, parece que a historiografia brasileira desinteressou-se dos lusitanos, depois da partida da família real de volta à Europa. Só voltamos a nos interessar por eles a partir da Revolução dos Cravos.

Desta maneira, foi muito interessante saber mais sobre o período sob Salazar, por exemplo. Sempre identifiquei este regime com o de Francisco Franco, na Espanha ou Benito Mussolini, na Itália, mas, pude perceber que houve uma série de características únicas na ditadura portuguesa, que durou mais de 40 anos, já que não terminou com a morte de seu criador, tendo sobrevivido, ainda, mais seis anos pelas mãos de Marcelo Caetano.

Como não podia deixar de ser, o livro trata da relação entre brasileiros e portugueses, tanto aqui quanto lá. Mostra, principalmente, como esta relação, por parte dos portugueses, sofreu, ao longo dos anos, alterações constantes, indo da mais profunda admiração até o sentimento de desprezo, não chegando a atingir, entretanto, o patamar de intolerância que é dispensada aos imigrantes africanos.

Outra característica que é salientada no texto é a capacidade de adaptação deste povo a novas culturas. Sendo uma gente que emigra muito, herança do tempo das grandes navegações, os portugueses conseguem a façanha de, ao mesmo tempo, manter vivas as tradições lusitanas e adaptar-se ao modo de vida das sociedades pra onde migram.

Enfim, é um livro valioso pra quem, como eu, interessa-se em entender, ao menos um pouco, como pensam todos os outros povos.