Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

domingo, 31 de janeiro de 2016

Relato Emocionante

Quando penso em adoção de crianças, no Brasil, a primeira coisa que me vem à cabeça é a dificuldade que nossas autoridades impõem às famílias que tentam efetivar esta intenção. Quando penso em crianças adotadas, na Argentina, o que me invade a mente são as imagens das avós de maio, na praça em frente à Casa Rosada. São duas realidades dramáticas e incomparáveis, como são incomparáveis todas as formas de dor e miséria.

No caso brasileiro, as nossas autoridades acreditam que viver amontoadas num orfanato ou em lares adotivos comunitários sejam soluções melhores, para as crianças, do que crescer no lar de uma família imperfeita. Como se a perfeição grassasse no seio de cada uma das famílias brasileiras. Assim, causam tanta dificuldade burocrática, fazem tantas exigências inatingíveis, que a criança vai crescendo nestes lares, diminuindo, a cada ano, sua chance de ser adotada. Tudo isso impele as famílias brasileiras para a solução de uma adoção ilegal. O périplo se inicia, quase sempre, na procura de alguma mulher que, num misto de realismo e desespero, decidiu, de antemão, que não quer (ou não consegue) assumir a responsabilidade de criar seu filho.

No caso da Argentina, a crudelíssima ditadura militar, ao sequestrar e fazer desaparecer milhares de pessoas, arrastou neste rol uma quantidade enorme de mulheres grávidas e a quase totalidade destes bebês foram arrancados de suas mães antes que elas desaparecessem. O destino destas crianças foi a adoção, na grande maioria dos casos, por parte de famílias que compactuavam com o regime, na Argentina e no exterior. O filme A História Oficial, de 1985, com a ótima atriz argentina Norma Aleandro, foi o primeiro a mostrar esta realidade bárbara. Fez com que esta negra face da história latino-americana se escancarasse ao mundo, já que a fita foi a vencedora do Oscar de melhor filme estrangeiro daquele ano. Este mesmo tema foi objeto, muito mais tarde, em 2011, do ótimo filme alemão, O dia em que eu não nasci, de Florian Micoud Cossen.

As duas realidades, a brasileira e a argentina, estão misturadas em A Resistência, de Julián Fuks. Narrado em primeiríssima pessoa, o livro apresenta uma carga tão emocional que me fez pensar se a história era autobiográfica ou ficção. Interrompi rapidamente a leitura pra pesquisar mais sobre o autor, curioso pra saber se era uma coisa ou outra. Logo após descobrir que ele é brasileiro, filho de pais argentinos, o que coincide com o personagem do livro, não consegui saber mais nada, até perceber, por mim mesmo, que isso pouco importa. De fato, não importa se uma história é real ou inventada, até mesmo porque a nossa história real é a gente mesmo que inventa. O que interessa, isso sim, num livro, é a forma com que esta história é contada e, neste caso, a maneira com que o autor a escreve é absolutamente emocionante.

Com apenas 140 páginas, com capítulos bem curtos, é livro pra se ler numa só pegada, caso se tenha disponibilidade, coisa cada vez mais rara nos nossos dias. Sobre o enredo, falo pouco pra não entregar a trama e muito menos o desfecho. Adianto, apenas, que o penúltimo capítulo apresenta uma ideia muito original, na forma.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mais do mesmo

Pessimista que sou, fui instado a pesquisar, por certa expectativa que percebi, em dois grandes amigos, a respeito do Partido Novo e do Partido Raiz. Mais do que por esperança, o que me moveu foi a convicção de que estes amigos, apesar de militarem em campos distintos, do ponto de vista ideológico, são, ambos, pessoas de boa fé e, mais do que isso, absolutamente abertos ao debate lúcido com as opiniões divergentes.

Antes de qualquer coisa, tenho que confessar que não conhecia nenhuma das duas propostas e, por isso, fui diretamente às suas páginas oficiais, para conhecê-las. Apesar de, rapidamente, perceber em cada uma delas a posição no espectro ideológico que os orienta (o Novo à direita e o Raiz à esquerda) o que identifiquei de mais importante foram as similaridades entre os dois e não as divergências. E estas similaridades, infelizmente, não representam virtudes, sob o meu ponto de vista.




A primeira similaridade é o primarismo da mensagem. Ambos se apresentam como um movimento quase apolítico (como se isso fosse possível) e como se fossem detentores de ideias novas e inéditas.

O Novo, basicamente, defende o individualismo como agente de mudanças políticas e o mercado como agente regulador da economia.  Nenhuma diferença entre o que propõe o DEM e o que defendia o PFL ou o PDS, seus antecessores. Uma investigação mais minuciosa nos valores expostos no site, entretanto, revela uma profusão de propostas pueris, dignas de um TCC. Frases como “acreditamos no valor fundamental das liberdades individuais, incluindo direitos e deveres” são evidências do que estou dizendo. Ressalta o vigor com que defende a igualdade perante a lei, mas não dedica nenhuma palavra sobre algum instrumento que garanta igualdade de oportunidades a todos.

O Raiz, basicamente, propõe o rompimento com o individualismo e defende uma política que privilegie os interesses coletivos. Sua orientação é guiada por um documento chamado Carta Cidadanista, cujo teor, apesar de recheado de nobres intenções, não apresenta nada que já não esteja contido nos documentos originais do PT ou dos partidos oriundos das dissidências petistas mais autênticas, como o PSOL. Faz uso de um discurso ambientalista que não difere do utilizado pela REDE de Marina Silva, numa clara intenção de “roubar-lhe” um espaço neste mercado, em moda. E, quando explicita o método de decisão interno, cita um tal de consenso progressivo que nos faz imaginar aquelas incansáveis discussões de centros acadêmicos universitários onde a vaidade tem muito mais valor do que qualquer resultado prático.

A maior similaridade entre os dois, entretanto, reside na insistência em se apresentar como um movimento e não um partido político, o que, em si só, já representa uma tentativa de embuste da opinião pública. São (ou serão) 2 partidos políticos e, com eles, teremos 34, no total. Isso me parece um exagero. O discurso dos dois é que se tratam de movimentos (eu chamaria de agremiações) de pessoas cansadas dos políticos corruptos e desonestos que existem nos outros 32 partidos, como se o discurso fosse, por si só, garantia de que nestes dois novos (novos?) não haverá nenhuma pessoa corrupta ou desonesta.

Não precisamos de 34 partidos políticos, até porque não existem 34 formas diferentes de enxergar o país (nem mesmo o mundo). O que precisamos é de partidos mais programáticos e menos personalistas. De partidos mais ideológicos, dentro dos quais, quem estiver em desacordo com a direção, lute, com argumentos, para derrotar as posições contrárias, em lugar de sair (ou seria fugir?) e fundar uma nova agremiação. Quando isso ocorrer, teremos, talvez, no máximo, 5 partidos, o que cobrirá todo o espectro político ideológico, com intersecções. E, neste caso, que cada partido aprimore suas ferramentas internas para extirpar o que houver de mal dentro dele. Se a solução continuar sendo a fundação de novos partidos, logo teremos 70.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Lidando com os monstros

Na sede de ler livros de história e política, acabo, displicentemente, lendo menos livros de ficção e literatura do que eu deveria. Se com os livros de história e política eu obtenho informação, fundamental para eu entender melhor o mundo, é a literatura que me provoca as reflexões necessárias para que eu possa entender a mim mesmo.

Após terminar de ler 1822, o segundo da trilogia do Laurentino Gomes, resolvi ler ficção e fui procurar algo na estante. Eu poderia optar por algum do Moacyr Scliar ou do Cony, apostando, portanto, que iria me satisfazer. Queria, entretanto, alguma coisa nova pra mim, um autor que eu não conhecesse, queria assumir algum risco. Escolhi A Suavidade do Vento, de Cristóvão Tezza.

Diferentemente do Moacyr Scliar ou do Cony, em que os primeiros parágrafos já costumam me enfeitiçar, o texto de Cristóvão Tezza demorou para engrenar e me conquistar. O lado positivo desta característica, porém, é que a conquista foi acontecendo aos poucos e, no ápice, me ganhou por completo.

O livro trata, sobretudo, de como temos, todos nós, que lidar, diariamente com nossos monstros, bichos criados por nós mesmos e o quanto é importante, mais do que tentar matá-los (tarefa impossível), aprender a conviver com eles.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Mais um pedaço da história

O livro 1822, diferentemente da obra anterior de Laurentino Gomes, não conduz a história pela via temporal. Em lugar disso, trata a independência do Brasil a partir das principais personagens e das passagens mais pitorescas que envolveram o evento. Nem por isso é inferior ou menos delicioso de ler que o antecessor. Muito pelo contrário, esta forma distinta de conduzir a narrativa traz um sabor todo especial para quem tem interesse nesta importante etapa da construção do nosso país.

O maior mérito do livro é o de desfazer alguns mitos, começando com as condições e o ambiente em que ocorreu a proclamação da independência. A primeira informação é a de que no fatídico dia 7 de setembro, a situação intestinal do futuro imperador era absolutamente desconfortável, o que o obrigava a interromper, sistematicamente, a viagem de Santos a São Paulo, para aliviar-se no denso matagal que cobria as margens da estrada. Além disso, por uma questão de conforto, D. Pedro montava uma mula, nem de longe parecida com o exuberante cavalo que Pedro Américo pintou no famoso quadro Independência ou morte, 50 anos depois.


Outro mito desfeito pelo livro é o de que a independência foi um movimento pacífico. Na verdade, o que Laurentino mostra é que muita gente morreu, tanto do lado português quanto do brasileiro, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde algumas batalhas bastante sangrentas foram travadas.

Apesar da personagem principal, evidentemente, ser o imperador, o livro dedica capítulos a outras importantes figuras como a princesa Leopoldina, José Bonifácio, o Chalaça e a Marquesa de Santos. E trata de questões emblemáticas como a questão do Dia do Fico, da constituinte e da influência da maçonaria na independência.

Por fim, mostra como o imperador, apesar de um homem iletrado, quase bronco, teve habilidade política para conseguir apoios, principalmente no Nordeste, onde dominavam os poderosos senhores de engenho de açúcar, comprometendo-se com eles de que não iria acabar com a escravidão, apesar de ser, tanto ele quanto Bonifácio, convictos abolicionistas.

Apesar de não ser historiador, Laurentino Gomes trata a história com muita honestidade, pesquisando incansavelmente os dados, que, aliada à qualidade do texto, proporciona aos aficionados por história, como eu, uma leitura sempre prazerosa.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Grupo vocal com graça

Quem acompanha o que eu escrevo no blog sabe que eu gosto de conjuntos vocais. Sabe que prefiro os conjuntos masculinos e minhas referências são, nesta ordem, o MPB4 (de antes da saída do Ruy), Os Cariocas e o Boca Livre. Não sou muito fã de grupos vocais femininos, mas apreciei os grupos mistos como o Céu da Boca ou o Garganta Profunda.

Fazia tempo que não surgia um grupo vocal novo que me chamasse a atenção e eis que, este ano, tomei conhecimento do Ordinarius, do Rio de Janeiro. Seu som tem pouca intrusão instrumental e, quando tem, é quase sempre apenas percussiva.

O que traz de novidade, entretanto, é que, aliada a uma excelente qualidade vocal, eles capricham bastante nuns vídeos postados em sua homepage. São sempre graciosas as apresentações.

Seu primeiro CD, lançado em 2012, traz um repertório bastante diversificado, e de muita qualidade. Agora, saiu um novo CD, chamado Rio de Choro, bem interessante, também. Prefiro, entretanto, o primeiro.


Enfim, pra quem aprecia a música vocal bem executada e, também, a música brasileira de primeira qualidade, ouvir o grupo Ordinarius é garantia de ter as duas coisas reunidas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A arte de entrevistar alguém

Rolava o ano de 1974. A ditadura militar e sua companheira inseparável, a censura, dominavam os cenários político e cultural do Brasil. Um ano antes, o compositor Chico Buarque escrevera, com Ruy Guerra, a peça Calabar, o elogio da traição, cuja montagem foi proibida, como foi proibida a menção do nome do personagem principal em qualquer veículo. Com isso, o disco Chico canta Calabar, com as canções da peça, teve que ser lançado com o título Chico Canta, com a maioria das letras mutiladas.

O cerco se fechava em torno do autor e foi ficando claro que mesmo se ele colocasse melodia na poesia batatinha quando nasce, seria censurado. A única saída, portanto, foi lançar um disco em que cantava músicas de outros autores, intitulado Sinal Fechado, mesmo nome de um samba de Paulinho da Viola, última faixa do LP (quem não souber o que isso significa, pergunte ao pai ou ao avô).

Entre canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim e outros nomes consagrados da música popular brasileira, figurava um samba de dois autores desconhecidos, Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. O samba chamava-se Acorda Amor. O disco foi liberado sem maiores problemas, já que a censura não descobriu que a dupla, na verdade, fora inventada por Chico e que o samba era, na realidade, de sua autoria. Apesar de toda a truculência da época, a criatividade do artista encontrou espaço para este tipo de molecagem com os gorilas. Maior molecagem que esta, entretanto, foi a ideia do escritor Mario Prata, em meio ao sucesso do disco (e do samba), de entrevistar Julinho da Adelaide e publicá-la, no jornal Última Hora, em plena edição de 7 de setembro, dia da pátria. Pra quem vivia nos subterrâneos do país e sabia o que estava acontecendo, a entrevista foi hilária.

Lembrei-me desta história e da habilidade do escritor em entrevistar personagens fictícios quando comecei a ler seu mais novo livro, Mario Prata entrevista uns Brasileiros. São 22 entrevistas que vão de Pedro Álvares Cabral a Rui Barbosa, passando por Dom João VI, Dom Pedro I, Tiradentes, Xica da Silva, entre outros. Todos já mortos, há décadas.

Como criatividade pouca é bobagem, uma das melhores entrevistas é a que ele faz com Bentinho, personagem do livro de Machado de Assis, Dom Casmurro, talvez o único entrevistado vivo, já que uma personagem de tal importância na nossa literatura, não morre nunca. Há anos que a grande discussão acadêmica nos meios literários é a de saber se Capitu deu pra Escobar ou não. Na entrevista, esta questão não é nem sequer abordada. Através de trechos cirurgicamente pinçados do livro, o entrevistador consegue mostrar que o ciúme que Bentinho sentia, talvez não fosse de Capitu e sim de Escobar, o que faz o entrevistado ficar numa situação de saia justa.

São textos rápidos, inteligentes e cheios de picardia, como é típico de tudo que escreve Mario Prata. E como se não bastasse, em meio a toda graça das entrevistas, ainda é possível aprender um pouquinho de história.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Prazer na leitura

Todo texto linear, bem ordenado, com princípio, meio e fim, oferece muito conforto para qualquer leitor, até mesmo os menos treinados neste hábito. Características assim são muito boas de se encontrar em textos jornalísticos, livros didáticos ou bulas de remédio. Em literatura, porém, alguma dose de inovação, um pouco de divagação, enfim, qualquer coisa que desafie o leitor a sair da linha reta e force a mente a pensar fora da caixa é sempre bem-vinda.

Lembro-me do desconforto que senti ao ler meu primeiro Saramago. Acho que foi O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Aquela forma de utilizar as vírgulas e as letras maiúsculas, em lugar do travessão, para indicar os diálogos, causaram-me algum susto, mas, depois, aquilo passou a parecer normal, minha mente se acostumou e o prazer com a leitura se instalou em mim.

Pois foi exatamente esta mesma sensação que experimentei ao ler Mamma, son tanto Felice, de Luiz Ruffato, o primeiro dos 5 volumes que compõem a coleção Inferno Provisório.

Lançado em 2005, este primeiro livro não foi fácil de ser encontrado, já que estava esgotado em todas as livrarias que procurei (reais e virtuais). Já havia adquirido os demais volumes e para iniciar a leitura pelo começo apelei para um site de livros usados, a Estante Virtual. O dono anterior, ao que parece, não se interessou nem mesmo por folheá-lo, já que o livro chegou em estado impecável. Talvez tenha ganhado de presente do amigo secreto da firma. Talvez preferisse ter ganho um livro de autoajuda. Enfim, pude colocá-lo à frente dos outros quatro na minha estante.

O pouco que conhecia do texto de Luiz Ruffato eram suas colunas no jornal El País Brasil. Gosto de lê-las e, a partir de uma entrevista no rádio, interessei-me pelo projeto Inferno Provisório, cujo objetivo é falar da formação e evolução do proletariado brasileiro, desde os anos 50 até o início do século 21, por meio da saga de uma comunidade de imigrantes italianos e seus descendentes, no interior de Minas Gerais e na cidade de São Paulo, conforme li numa reportagem sobre o escritor.

Este primeiro volume presta-se a mostrar a formação desta comunidade e a forma que o autor encontrou para evidenciar a disparidade entre os personagens foi apresentá-los de maneira destacada de uma narrativa linear e encadeada. Reside aí a razão do desconforto inicial com a leitura. A história de cada personagem é quebrada para dar início à narrativa de uma outra, repetidamente.

Aos poucos, porém, esta sucessão de quebras deixa de incomodar e, em lugar disso, colabora para que se construa uma crescente curiosidade a respeito do que virá nos próximos volumes.


domingo, 18 de outubro de 2015

Lusofonia

“O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa.
– Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver.
 – Vais fazê-la à minha frente – repetia.
Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos. Vais fazê-la.”

Este é o primeiro trecho do livro Aprender a rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares. Encontrei-o numa livraria de Lisboa, procurando título de outro Tavares, o Miguel Sousa, e peguei-o por erro. Bastou ler este primeiro trecho para decidir comprá-lo.

Os portugueses são muito ciosos de seus escritores e tecem loas aos mais clássicos e famosos, como Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago. Há nas estantes de suas livrarias, entretanto, espaço para muitos outros escritores de língua lusófona, inclusive brasileiros, diferentemente das lojas daqui. Com isso, é possível encontrar nas livrarias da capital portuguesa obras de escritores de Angola, como Gonçalo.   

Escrito em três partes, Força, Doença e Morte, mostra o protagonista, Lenz Buchmann em dois momentos, primeiro como o médico mais competente da cidade e, depois, como um político poderoso e influente. Cada parte do livro é dividida em vários capítulos e cada capítulo, também, subdividido em outros. Isso torna a leitura ágil e dinâmica, sem tirar-lhe a intensidade.

Ao longo de toda a narrativa, ou seja, em qualquer das três partes e em qualquer dos dois momentos, o traço mais marcante do caráter do personagem manteve-se intacta: sua arrogância. Por isso, nem quando ele estava salvando vidas com sua perícia cirúrgica e nem quando estava enfraquecido, à beira da morte, o leitor é levado a ter qualquer sentimento de simpatia ou piedade por ele.

Não só no Brasil, a literatura feita em língua portuguesa mostra-se pungente. Nada como viajar para descobrir isso e, assim, abrir-se para uma viagem mais poderosa que é a leitura.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sentir, mais que entender

Certa vez comentei com um amigo que era impossível viver com uma mulher que não gostasse de João Gilberto. Nem me lembro se ele concordou comigo, mas isso pouco importa. O que importa é que eu realmente acreditava nisso naquela época e, talvez, ainda acredite hoje.

Sei que há pessoas que não gostam de João Gilberto e há, aliás, quem o odeie. Tenho muita dificuldade em entender isso, assim como tenho a mesma dificuldade em entender como alguém possa gostar destas duplas modernas de música sertaneja ou da chamada música techno. Esta minha dificuldade deve-se, muito provavelmente, à escolha errada do verbo. Em lugar de entender, eu estou pensando em sentir.

O maior defeito que as pessoas apontam em João Gilberto é que suas gravações, assim como as apresentações ao vivo, são muito longas e que ele repete as músicas muitas vezes, o que torna a audição enfadonha. Não sinto assim. Consigo perceber, em cada repetição, alterações sutis na harmonia, enriquecendo a execução de cada canção. Minha convicção, aliás, é que cada alteração, se não é planejada, surge de uma busca do novo, da perfeição.

João Gilberto tem hoje 84 anos, vive recluso num apartamento no Rio de Janeiro, esquecido por todos, até por mim, talvez. O que me fez lembrar dele foi o livro Ho-ba-la-lá, do jornalista alemão Marc Fischer, que juntou algumas economias e viajou ao Brasil com a intenção de encontrar-se pessoalmente com João Gilberto, mesmo sabendo que esta empreitada é inglória. Nesta tentativa, acabou se encontrando com vários personagens que gravitam ou gravitaram em torno do cantor, o que ia enriquecendo o rol de informações que tinha do artista, seu ídolo. 

Com isso, no livro, vão se desvendando facetas, algumas conhecidas, outras inéditas de João, numa narrativa que instiga a curiosidade do leitor pra saber se ele irá, ou não, atingir seu intento.

Se ele conseguiu, não sou eu quem vai contar. Não sou estraga prazeres.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A história e o tempo

“A violência é a parteira da história” é um dos aforismos mais citados de Karl Marx e, possivelmente, o mais mal interpretado. Por estar presente justamente no capítulo de O Capital, que fala sobre a acumulação primitiva, esta frase, muitas vezes, é interpretada como uma incitação à violência, cujo intuito seria disseminar o ódio de classe para mover a luta pelo poder. Mais do que uma incitação à violência, esta é nada mais que uma constatação de como as sociedades têm se transformado ao longo da história.

Pois é exatamente à clarificação desta constatação que se presta o livro A história do mundo para quem tem pressa, da historiadora britânica Emma Marriott. Nem mesmo um historiador imbecil ou irresponsável (o que não é o caso), imaginaria ser possível resumir 5 mil anos de história em 200 páginas. Apesar do que está grifado como subtítulo em sua capa, esta tarefa é tão obviamente impossível que ninguém pode acusar a editora de propaganda enganosa.

O maior (se não o único) mérito do livro é expor a história da civilização e suas transformações através de uma linha do tempo, pontuando seus principais acontecimentos com causas e consequências, sem a preocupação de se deter em detalhes ou análises mais elaboradas. Com isso, não tece nenhum juízo de valor e, portanto, consegue o distanciamento perfeito que toda análise histórica deveria ter.

O livro tem início nos anos 3.500 antes da era cristã, discorrendo sobre os antigos impérios, em todos os continentes. Passeia pela evolução dos primeiros impérios europeus, os novos impérios, a era dos descobrimentos e termina às portas da eclosão da segunda guerra mundial. Não passa deste período, justamente para preservar o distanciamento já citado.

Nesta exposição, fica muito claro que todas as transformações pelas quais passou a organização da espécie humana, nos quatro cantos do mundo, tiveram como instrumento a violência, o que acaba por corroborar a afirmação de Marx.

Nas poucas páginas do livro, só há duas passagens em que a autora cita o Brasil. Uma delas é a respeito dos efeitos que a grande depressão da década de 1930 provocou no país, citando Getúlio Vargas, que ela define como alguém que “embora governasse como um ditador, modernizou o Brasil, com reformas fiscais, educacionais e agrárias, melhorando assim as condições de vida dos pobres”. A outra passagem é para informar o vergonhoso fato de termos sido a última nação do ocidente a abolir a escravidão.

Enfim, um livro leve e que se consegue ler rapidamente, mas sem pressa.