Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Pitaco eleitoral - Candidatos


Jair Bolsonaro

A última pesquisa Datafolha apresenta Jair Bolsonaro com 28% de intenção de voto e 43% de índice de rejeição.

Bolsonaro é um político bastante conhecido, elegeu-se vereador há 30 anos e há 28 ocupa uma cadeira na câmara dos deputados, em Brasília. Ao longo do tempo, foi construindo uma imagem, através da mídia, muito sólida, mirando o voto do eleitor mais extremamente conservador. Nunca fez questão de esconder suas posições racistas, homofóbicas e misóginas, muito pelo contrário. Afinal, foram estas posições que garantiram os votos de uma parcela da sociedade identificada com estes valores e que sempre foram suficientes para lhe assegurar a manutenção do mandato.  Sua popularidade foi crescendo, ao longo destes 30 anos, tendo sido o 11° deputado federal mais votado do estado do Rio de Janeiro em 2010 e, em 2014, foi o 1° neste que é o terceiro maior colégio eleitoral do país.

É evidente que não se pode afirmar que 28% dos eleitores brasileiros sejam racistas, homofóbicos ou misóginos. O que parece fácil garantir é que aqueles que são racistas,  homofóbicos ou misóginos, votam em Bolsonaro. Não sei quanta gente é assim na nossa sociedade. Isso pode representar 1 ou 20%, pouco importa. Mais relevante, para mim, é a taxa de rejeição.

Se 43% da nossa sociedade rejeita Bolsonaro, significa que 57% dela não o rejeita (embora só a metade, neste momento, parece disposta a lhe dar seu voto). Ou seja, baseados nestes índices, poderíamos considerar que mais da metade de nossa população não se importa com o racismo e nem com a extrema violência que existe, no país, contra mulheres e homossexuais. Isso, para mim, é que é o mais assustador!

Fernando Haddad

Podemos dizer que a estratégia utilizada pelo PT para lançar Fernando Haddad como candidato obteve sucesso. A decisão de manter Lula, o preferido da maioria dos eleitores, como candidato, até o último instante que os xerifes do judiciário permitiram, foi acertada. Ao menos sob um ponto de vista estratégico.

Há chances de Haddad ir ao Segundo Turno. A pesquisa Datafolha indica que, caso isso ocorra, a disputa será acirrada. A militância do partido é aguerrida e os eleitores de perfil progressista que não votam no PT, de forma sistemática, tendem a se alinhar à sua candidatura, caso ele avance depois de 7 de outubro. O que me incomoda é que Haddad não é Lula. Não tem o mesmo carisma, nem a mesma capacidade de articulação política e, muito menos, a mesma representatividade que o líder encarcerado.

Amigos petistas argumentam que esta foi a alternativa possível, já que, tanto o impeachment de Dilma quanto a prisão de Lula foram ações ilegítimas, com o que tendo a concordar (por favor, não se confunda legitimidade com legalidade – acho que já passamos desta fase!).

De qualquer maneira, me desagrada a forma enviesada através da qual a candidatura foi construída.

Ciro Gomes

Ciro ocuparia o mesmo espaço ideológico do PT, situado numa posição de centro-esquerda. A dificuldade de composição entre ele e o partido de Lula obrigou-o a uma pequena movimentação em direção à direita. Está buscando se situar nesta posição de centro, que ficou, de repente, vaga com a corrida desesperada de Alckmin em direção à extrema-direita.

Ciro tem, a seu favor, ótimas avaliações como prefeito de Fortaleza e governador do Ceará, teve preponderante atuação como Ministro de Itamar Franco. Tem formação acadêmica sólida e, aquilo que é a menina dos olhos do eleitorado mais ingênuo, não tem processos consistentes por corrupção.

Contra si, Ciro tem uma personalidade irascível, sua marca registrada. É intrépido, de forma exagerada, e, nem tão eventualmente, costuma explodir quando a melhor estratégia, talvez, fosse a busca pela conciliação.

Geraldo Alckmin

O PSDB está despedaçado. Seus membros, artífices principais da tramoia que tirou Dilma do poder e impediu Lula de concorrer, envolveram-se em uma luta fratricida no interior do partido, o que deixou o ninho tucano em frangalhos. Alckmin lutou em duas batalhas, a primeira delas, iniciada, sorrateiramente, já em 2014, contra Aécio Neves, para conquistar a indicação de seu nome como candidato em 2018 e a outra contra Fernando Henrique para emplacar João Dória (aquele que ostenta um sorriso nos lábios e o ódio no olhar) como candidato à prefeitura de São Paulo e que, depois de eleito, tentou lhe passar a perna. Venceu as duas batalhas, mas, aparentemente, estas lutas exauriram sua energia (além disso, não encontra apoio entre os principais caciques do partido).

Sua campanha chega a ser patética. Atrapalha-se entre bombardear Bolsonaro, que lhe surrupiou parte generosa do eleitorado conservador e espinafrar o PT, tomando o cuidado de não criticar muito a figura de Lula. Sem rumo, escorrega na direção da extrema direita, tentando usurpar o discurso do concorrente milico, enquanto deixa a retaguarda desguarnecida e um espaço vago na região central do espectro ideológico, que Ciro está tratando de ocupar.

Ao fim das lutas, tende a ver o butim das batalhas vencidas lhe escapar das mãos.

Marina Silva

Temos, de novo, a Marina de sempre. Personagem com alto potencial eleitoral, porém virtual, fictício. Inicia toda e qualquer eleição com expressivos 20% nas pesquisas de intenção de votos que vai perdendo conforme tem que se expor, que se expressar publicamente. Nos períodos entre eleições, é uma figura política que se esconde. Furta-se a assumir uma posição nos momentos mais emblemáticos, para ressurgir na hora de um novo pleito com uma expectativa de apoio inflado e que acaba murchando, ao longo da peleja, devido ao seu seu discurso vazio.

Os nanicos

Entre os concorrentes que já começaram com nenhuma chance de vitória, há 3 que se animam a abrir um pouco as asas, sem chance alguma de levantar voo.

Henrique Meirelles ostenta uma cara de pau sem tamanho ao tentar se descolar da figura de Temer com a maior desfaçatez, como se nunca tivesse sido seu ministro da fazenda. Ao mesmo tempo, conduz a campanha eleitoral insistindo em colar seu nome e sua imagem à figura de Lula.

João Amoêdo, o queridinho das dondocas, apresenta-se ao eleitorado com duas falácias. Uma delas, a de que não é político e sim gestor. Plagia esta ideia estapafúrdia de Dória, mostrando que nenhum dos dois leu Aristóteles, que nos ensinou, há mais de 2300 anos, que “o homem é um animal político”. A outra falácia é a de apresentar seu partido como “novo”, como se, para isso, bastasse pintar um partido neoliberal qualquer, trocando o cinza para cor de abóbora. Algum dia, todas as pessoas vão entender que, se fosse possível fazer política sem políticos, ao time do Vasco da Gama bastaria tirar os jogadores de campo e substituí-los por “não jogadores”, para ser campeão.

Sobre Álvaro Dias, ele não tem nada a perder, pois retoma sua cadeira no Senado, seja qual for o resultado da eleição. Foge, entretanto, à minha compreensão o motivo de 3% do eleitorado ter intenção de votar nesta figura.

De toda forma, minha escolha já está feita. Nada, porém, impede que eu mude, na última hora, para um voto, digamos, um pouco mais útil.



Pitaco eleitoral - Pesquisas


Foi publicada, ontem, mais uma pesquisa do Datafolha de intenção de votos para presidente. Os gráficos mostram a evolução de cada um dos candidatos em pesquisa estimulada e espontânea, além da evolução do índice de rejeição dos mesmos, nas últimas 4 pesquisas (22/8, 10/9, 14/9, 20/9 – um mês, portanto).

   


Bolsonaro manteve um ritmo de crescimento praticamente constante (1% por semana) e, depois do atentado sofrido, que aumentou significativamente seu tempo de exposição no noticiário da TV, sua taxa de crescimento dobrou na pesquisa estimulada. Nas respostas espontâneas, entretanto, o gráfico mostra que o evento não teve tanta influência.

A maior taxa de crescimento percebida foi a de Fernando Haddad (3% por semana) tanto na pesquisa estimulada quanto na espontânea. Já Ciro Gomes é o que apresenta mais discrepância de crescimento quando comparados os dois métodos de pesquisa. Interessante perceber que as posições de Haddad e de Ciro se invertem, dependendo do método utilizado na pesquisa. (A pesquisa do IBOPE, menos detalhada, apresenta valores bem maiores para Haddad)

Alckmin patina num patamar constante. Não cai, mas não consegue crescer nem um mísero ponto percentual. Continua na mesma, após 20 dias de campanha no horário eleitoral, apesar de ser detentor de 44% do tempo total disponível de propaganda no rádio e TV.

Quem cai, ou melhor, despenca nas pesquisas, é Marina Silva que, a manter este ritmo, deve chegar no dia da eleição empatada com os candidatos chamados “nanicos”.

Por falar em nanicos, os 3, dentre eles, mais bem posicionados nas pesquisas, Álvaro Dias, João Amoedo e Henrique Meirelles, apresentam comportamento constante ao longo do mês, gravitando em torno de 3%, em situação de empate técnico. Na pesquisa espontânea, aliás, levando em conta a margem de erro, os três beiram o patamar de 0%.



  
O nível de rejeição a Bolsonaro, que crescia mais que o índice de intenção de votos, estacionou depois da facada. É difícil, porém, estabelecer se o evento teve influência neste fenômeno ou se atingiu a saturação. Os índices de rejeição a Marina e Haddad também são crescentes, enquanto se mantêm constantes (e baixos) os de Alckmin e Ciro Gomes.



A pesquisa mostra, ainda, que no segundo turno, apenas Ciro Gomes venceria Bolsonaro. Todos os outros cenários mostram um empate técnico.




Se eleição fosse uma coisa puramente aritmética, poderíamos fazer suposições baseadas nas pesquisas e levando em conta as intenções de voto em cada candidato pelo seu perfil. Assim, teríamos uma vantagem de 45% para o candidato conservador contra 35% para um candidato progressista. Por outro lado, a soma dos índices de rejeição aos candidatos conservadores é de 150% contra 135% referente aos progressistas. (Os valores acima de 100% se explicam pelo fato de que, quando um entrevistado responde em quem pretende votar, ele escolhe apenas um candidato, enquanto que, ao ser perguntado em quem não votaria em hipótese nenhuma, ele pode escolher mais de um).

Eleição, entretanto, não é uma coisa puramente aritmética. Além do mais, a soma dos percentuais dos indecisos, com os que pretendem votar em branco ou nulo é de 17% na pesquisa estimulada e de 41% na espontânea.

O que parece certo, de qualquer forma, é que, para o segundo turno, teremos um embate, mais uma vez, entre candidatos com perfil e discurso antagônicos. É bom que seja assim. Estimula uma reflexão mais ideológica, por mais que alguns queiram fugir desta discussão.

É muito melhor do que aquilo que, provavelmente, irá ocorrer em São Paulo, onde teremos 2 candidatos que representam o que há de mais obscuro no pensamento conservador de nossa sociedade. Será a oportunidade para que eu, pela primeira vez na vida, pratique o voto nulo.



quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Maturidade


No programa Fim de Expediente, que acontece às sextas-feiras, na rádio CBN, quase sempre com um convidado, o apresentador costumava fazer uma rodada de perguntas em que o entrevistado tinha que optar entre duas alternativas: Beatles ou Stones? Grande Otelo ou Oscarito? Bill Gates ou Steve Jobs? Spielberg ou Scorsese? E por aí vai.

Uma das perguntas, invariavelmente, era: Chico ou Caetano?

Sempre achei errada esta pergunta. Em minha opinião, ela deveria ser: Chico ou Gil?

De qualquer forma, tenho convicção de que estes três artistas são a real representação da geração mais criativa que a nossa música já teve. Muita gente boa veio depois, mas nenhuma chegou perto deles. E antes, também, tivemos artistas de altíssimo calibre, dos quais eles souberam beber da fonte.

Rondando os 75 anos, todos eles, há algum tempo não me empolgam seus discos com músicas inéditas. Não está embutida aqui uma crítica e sim uma percepção. Beirando os 60, eu compreendo, absolutamente, que, aos 75 anos, uma pessoa não esteja mais em seu ápice de criatividade.

De Caetano, o último disco que me empolgou foi Livro, e aí já se vão 20 anos. Depois disso, nos 4 álbuns que apresentaram composições inéditas, Noites do Norte, , Zii e Zie e, por fim, Abraçaço, ele foi caminhando por uma trilha que privilegiava a estética da música eletrônica e o ritmo sintetizado, coisa que não me agrada. Questão de gosto, reconheço.

Já faz 20 anos, também, o lançamento de As Cidades, o último disco de inéditas de Chico Buarque a me empolgar. Em seus 3 discos seguintes, Carioca, Chico e Caravanas, o compositor foi se aproximando, cada vez mais, de harmonias complexas, intrincadas, exageradas nas dissonâncias. Apesar de desagradar meus mal treinados (ou cansados) ouvidos, não posso deixar de reconhecer que em cada um destes discos, há, ao menos uma obra-prima: Dura na Queda, Sinhá e As Caravanas, respectivamente.

De Gil, diferentemente dos outros dois ícones da MPB, não se pode dizer que tenha enveredado por caminhos heterodoxos na prática de compor canções. Por outro lado, este artista não lançava um álbum com músicas inéditas (Fé na festa) desde 2010. Pois eis que, mês passado, acabou de sair OK OK OK, pela Biscoito Fino.

Possivelmente, seja o disco mais emotivo que Gil já tenha lançado. Cheio de referências ao seu momento pessoal, suas composições discorrem sobre atuação política, velhice, doenças e família. Recheado com canções dedicadas aos netos e à bisneta, estas configuram a parte menos interessante do CD. Há, entretanto, algumas obras-primas no disco, mostrando que, mesmo num momento mais intimista e emotivo, o compositor baiano não perdeu a verve poética. Muito pelo contrário.

Vale muito a pena prestar atenção em Jacintho, em que ele usa a figura de linguagem da aliteração com rara maestria. Em Yamandu, ele homenageia este genial violonista (Com seu violão ligeiro, parece que é pressa, mas é só suingue à beça e bossa e vibração no corpo inteiro. Só quem segue o Yamandu, é o frisson do pandeiro). Afogamento é de um lirismo comovente, que ele divide com a voz de Roberta Sá. Mais do que todas estas, entretanto, OK OK OK é a que nos convida para a mais pura reflexão, nestes tempos em que o ódio, definitivamente, está vencendo a tolerância no comportamento de nossa sociedade.

Uma dica: concomitantemente ao lançamento do disco novo, o Canal Brasil passa a exibir, semanalmente, o programa Amigos, Sons e Palavras, em que Gil, ao violão, dialoga com personagens expressivos da cena brasileira, como Caetano, Drauzio Varella, Juca Kfouri, entre outros.






A Volta


Em conflito entre a saudade do hábito de escrever sobre os temas que mais me seduzem (livros, música, cinema, gastronomia e política - não necessariamente nesta ordem) e a desativação da conta do Facebook, por puro enfado com o que circula naquela rede social, acabei chegando a uma solução que, talvez, me agrade.

As coisas que mais me afastaram do Facebook foram o exagerado exibicionismo e a desbragada exposição pessoal que imperam naquela casa do demo, fenômenos aos quais eu estava, também, sucumbindo. Afinal, eu, que nunca nutri qualquer curiosidade a respeito de onde as pessoas estão passeando ou o que estão comendo, sejam elas, amigos ou desconhecidos, me peguei, incauto, postando fotos de minhas viagens e dos pratos de comida colocados à minha frente, enquanto eles esfriavam. Ou seja, caí na armadilha.

Por outro lado, desativar a conta do FB me fez sentir falta da esperança de conseguir travar um debate construtivo sobre o mundo (e sobretudo o Brasil), no que diz respeito ao comportamento da sociedade e de expor a minha visão do que poderia ser construído para que tenhamos um planeta (e sobretudo um país) melhor. A bem da verdade, pouquíssimas vezes consegui participar de algum debate com um mínimo de respeito e elegância, já que a maioria das postagens do FB estão infestadas de fake news (por que não usar o termo mentiras, logo de vez?) e argumentações pobres de conhecimento, seja histórico ou filosófico. Nesta outra armadilha eu não caí, mas a tentação sempre foi grande. Reagi a tempo, felizmente.

Pesando tudo isso, cheguei à conclusão de que o melhor caminho que dirime meu conflito entre a sede de escrever e a ojeriza que nutro pela exposição e ostentação exacerbadas, será reativar meu velho blog Baú deTranqueiras (agora repaginado) e utilizar o FB apenas para veicular os textos que eu publicar.

Eu sei que blog parece uma coisa ultrapassada e que muitas pessoas têm preguiça de ler textos que contenham mais que um ou dois parágrafos. Mas aí já não é um problema meu. Cada um que lide como quiser com a própria preguiça.

Aproveito, também, para fazer um convite a visitar meu novo blog, Enfoque Racional, no qual irei postar textos sobre temas corporativos.















(foto retirada de LP de Nelson Gonçalves de 1967)

domingo, 21 de agosto de 2016

A Pior dor

O jornalista Edney Silvestre é um dos mais competentes que eu conheço. Como correspondente internacional da Rede Globo, cobriu, de maneira muito eficiente, o atentado às torres gêmeas do World Trade Center, em 2001. Além disso, fez reportagens especiais sobre o Iraque, antes da queda de Sadam Husein, em 2013, que tiveram grande repercussão. Suas entrevistas, entretanto, são sua faceta jornalística que eu mais admiro. Já tive oportunidade de escrever, aqui, sobre seu livro de entrevistas Contestadores. Ele apresenta, na TV por assinatura, o programa Globo News Literatura, uma vez por semana, em que entrevista pessoas ligadas aos livros, assunto sobre o qual demonstra muita intimidade.

Talvez por isso, por esta intimidade, revela-se, também, um escritor de ficção bastante respeitado, faceta, a qual, só agora eu tive oportunidade de conhecer. Seu primeiro romance, Se eu fechar os olhos agora, arrebatou, nada menos, que o Jabuti, o mais importante prêmio literário brasileiro, em 2010. Mas foi através de outro livro, Vidas provisórias, que vim a conhecer Edney Silvestre como escritor.

Com muita habilidade, ele mostra, neste livro, a vida de dois exilados brasileiros. Um deles, nos anos de chumbo, início da década de 1970, exilado pela ditadura militar, depois de sofrer fortes sessões de tortura nas masmorras do regime. O outro, já com o país politicamente democratizado, no início dos anos 1990, fugindo da situação econômica cruel a que foi submetida a classe média baixa no nosso país.

Com estas duas narrativas acontecendo de forma paralela, apesar da distância no tempo, Edney insere outros personagens típicos daquelas duas épocas do Brasil, cada um lidando com suas próprias ferramentas para afugentar seus fantasmas e suportar suas agruras. Apesar de se tratar de épocas diferentes e de dramas distintos, Edney consegue mostrar que os martírios das pessoas não são passíveis de comparação. A pior dor é a que sentimos agora.

Gostei tanto do livro que, ao terminar de lê-lo, corri para comprar seu romance de estreia. E ele já está na imensa fila entre os próximos que pretendo ler.



domingo, 17 de julho de 2016

Mais do que técnica, talento

Aprendi com um amigo jornalista que o fato dele escrever bem devia-se muito menos por talento e muito mais por treino. Na verdade, segundo ele, o jornalista aprende a escrever, na escola, para que consiga produzir textos claros, simples e objetivos. Desta forma, é uma habilidade como a de qualquer profissional de outra área, seja um neurocirurgião que consegue abrir um crânio e fazer incisões com precisão milimétrica, um pianista que executa com perícia uma obra-prima de qualquer compositor erudito ou um engenheiro que calcula, com acurácia, as proporções dos materiais utilizados na construção de uma ponte. Há os que erram, em todas as profissões, mas são casos de exceção, não regra.

Se, no caso dos jornalistas, escrever bem quando estão fazendo reportagens é uma técnica aprendida, o mesmo não ocorre quando se arriscam na ficção. Tão difícil quanto um competente pianista compor uma obra com qualidade é um jornalista escrever um bom romance. Aí, já estamos entrando no domínio da arte e, mais do que perícia, treino e dedicação, é necessário, ainda, um ingrediente fundamental: o talento.

Justamente por isso, é pra se comemorar quando um jornalista se arrisca a escrever ficção e obtém um bom resultado. E este foi o caso de Fernando Scheller e seu primeiro romance O amor segundo Buenos Aires. Trabalhando, atualmente, como repórter do Estadão, ele já foi jornalista da Gazeta do Povo, da TV Globo e da Deutsche Welle, na Alemanha. Escreveu um livro reportagem sobre o Paquistão, mas esta é sua primeira incursão na ficção.

Nas raríssimas vezes que eu me aventurei a escrever alguma ficção, só consegui fazê-lo na primeira pessoa. Não sei se isso é mais fácil para qualquer um ou se é uma deficiência minha, mas esta é uma técnica que traz duas dificuldades fundamentais. A primeira, é que o leitor tende a ficar com a convicção de que se trata de um texto autobiográfico e a segunda, está no fato de que, escrevendo assim, fica mais difícil expor o que se passa na cabeça das outras personagens da história.

Scheller conseguiu se livrar destas dificuldades de maneira muito criativa. Em cada capítulo, assume a pessoa de uma das personagens, falando a respeito de uma outra. Com isso, consegue que o leitor compreenda o que se passa na mente de cada uma delas e, também, logra estabelecer as relações interpessoais, sem precisar se utilizar do expediente do diálogo.

O que achei mais interessante, na utilização desta técnica, é que, partindo da voz de cada uma das personagens, ele consegue contar a história sem tecer nenhum juízo de valor. Na trama não há mocinhos nem bandidos. Todos têm uma motivação para fazer o que fazem. E cada um tenta lidar com seus medos e fantasmas da maneira que consegue.

A história fala, sobretudo de amor (e de desamor). Trata, aliás, de tipos de amor e mostra que toda a forma é lícita e possível. E, enquanto eu lia o livro, ia me lembrando da canção Paula e Bebeto, de Caetano Veloso e Milton Nascimento, em que é cantada, repetidamente, a frase que talvez pudesse resumir este livro: “qualquer maneira de amor vale a pena”.

sábado, 2 de julho de 2016

Perspectiva histórica, sempre

O livro Lava Jato, de Vladimir Netto, acaba de ser lançado e já é candidato a um dos mais vendidos do ano. Eu não costumo me seduzir pelo fato de algum livro figurar em listas de mais vendidos (muito pelo contrário), mas não é por este motivo que não pretendo lê-lo. Nem mesmo o fato de, possivelmente, apresentar um texto exageradamente simpático a Sérgio Moro, o juiz pavão. Não, este não é o motivo que me deixará longe do volume. Nem mesmo o seu tamanho, já que 400 páginas é uma quantidade que está longe de me assustar (muito menos afugentar). O que me impede de me interessar pelo livro é a falta de perspectiva histórica, já que considero que este fenômeno vai ser muito melhor entendido quando historiadores, ou até mesmo jornalistas, se debruçarem sobre ele, daqui a 20 ou 30 anos, quando, provavelmente, já não estarei por aqui.

Só a perspectiva histórica pode nos proporcionar uma visão mais ampla e mais correta de todos os elementos que necessitamos para compreender um fenômeno como este. Somente daqui a 40 ou 50 anos é que se poderá entender o que foi que, realmente, motivou o processo pelo qual estamos passando hoje (e que, possivelmente, está longe de acabar). Talvez, daqui a 100 anos, se consiga saber se Sérgio Moro foi um juiz tecnicamente preparado para liderar o processo da Lava Jato ou se ele foi uma pessoa eticamente irrepreensível. Dificilmente será lembrado por estas duas virtudes ao mesmo tempo, a se basear nos atalhos jurídicos que andou tomando pelo caminho. Enfim, isso tudo, só a história dirá.

Por tudo isto que eu disse, estou muito mais excitado para começar a ler o quinto (e último) volume da coleção sobre a ditadura, escrito pelo jornalista Elio Gaspari.

O primeiro volume, lançado em 2002, trinta e oito anos após o início da ditadura, foi chamado A ditadura Envergonhada. Logo em seguida, vieram mais três: A ditadura Escancarada, A Ditadura Derrotada e A Ditadura Encurralada, que vai até a demissão do General Sylvio Frota do cargo de Ministro do Exército, fato que pavimentou a instalação do processo de abertura política, aquela que foi descrita como “lenta, gradual e segura”.

Este quarto volume foi lançado em 2004 e, na ocasião, Elio Gaspari declarou que não haveria um quinto livro, pois não tinha interesse na figura de João Batista Figueiredo. Na verdade, Elio Gaspari, pelo que me lembro, disse que desprezava este personagem.

Mas eis que, agora, 12 anos depois de publicar o quarto volume, sai o quinto, chamado A Ditadura Acabada, em que é narrado o final do regime. Não li absolutamente nada sobre o livro, mas isso não diminui, de forma alguma, a minha excitação para começar a lê-lo. Graças à perspectiva histórica.


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Política e fé

Frei Betto é um escritor que acredita em deus e no socialismo. Eu não acredito numa coisa nem noutra. Isso não quer dizer que eu discorde dele. Não é necessário compartilhar das mesmas crenças para ter os mesmos valores e, neste sentido, coincidimos.

Minha relação com a religiosidade se dá a partir de 3 óticas. A primeira delas é a fé. Gosto muito de uma frase da escritora Rachel de Queiroz, ateia como eu, que costumava dizer o seguinte: “Eu não tenho fé, porque deus não me deu”. É mais ou menos o que se passa comigo. Simplesmente não tenho. Quando sabem que não acredito em deus, aliás, a reação das pessoas é sempre a mesma, ou seja, perguntam-me: “então, quer dizer que você não acredita em nada?”. É claro que acredito. Acredito no amor, na generosidade e na solidariedade, como forma de melhorar o mundo, por exemplo.

Aprendi, com o passar dos anos, a entender e respeitar a fé que as pessoas sentem por deus. Por qualquer deus. E neste sentido, respeito os que sentem fé em Cristo, sejam eles católicos ou evangélicos e os que têm fé em Buda. Respeito a fé judaica e a fé islâmica, assim como os que professam sua fé nos orixás e os índios que adoravam Tupã. Respeito esta fé pois vejo que ela é sincera, na maior parte dos casos. E percebo, sobretudo, que ela pode fazer bem às pessoas. Grande parte delas, aliás, agarra-se na fé como uma forma de suportar as agruras da vida.

A segunda ótica através da qual eu enxergo a religiosidade é a religião em si. Neste caso, meu respeito está restrito a alguns valores que algumas religiões procuram propagar. Nem todos, entretanto. E reconheço que grande parte das pessoas de fé sente-se mais confortável em poder seguir um caminho, um roteiro, uma receita, um rol de ensinamentos, seja na Bíblia, no Alcorão ou na Torá. Percebo, também, que, apesar da fé sincera que sentem, muitas pessoas têm dificuldade de seguir a maior parte dos ensinamentos.

A terceira ótica é a igreja. Aí, deste ponto de vista, minha resistência é enorme. Na maior parte dos casos, o que consigo enxergar é a igreja manipulando a fé das pessoas através de uma interpretação da religião que atenda a interesses espúrios. Seja a igreja católica com a inquisição, com as cruzadas, com a catequização dos índios na América, seja a igreja islâmica cooptando jovens muçulmanos a vestirem casacos recheados de explosivos, seja o pastor vendendo o encontro com deus e facilitando o pagamento em cheque, cartão ou boleto, e até mesmo o pajé amedrontando os índios e enfraquecendo o poder do cacique.

Toda esta longa explanação foi pra falar sobre o livro Paraíso perdido: viagens ao mundo socialista, de Frei Betto, no qual o escritor narra suas viagens a diversos países, ao longo de sua vida, no qual interagiu com agentes dos governos e das igrejas locais. Questionador como ele só, Frei Betto, em cada viagem, cobrava, de cada representante de estado socialista, a falta de liberdade para as pessoas professarem sua fé e dos líderes das igrejas locais, a falta de compromisso com os pobres.

Adepto da Teologia da Libertação, Frei Betto é um crítico ácido daquela igreja que se alia aos poderosos. Para isto, ele se guia pelo discurso de Cristo. A partir dos evangelhos, tanto os canônicos quanto os apócrifos, ele sempre pregou o acolhimento dos menos favorecidos. E é com este tom crítico e questionador, ora sobre a igreja, ora sobre os governantes socialistas, que a narrativa do livro se desenvolve.

Apesar disso, o escritor acredita na ideia do socialismo. Acredita na possibilidade de um mundo em que as pessoas tenham as mesmas oportunidades e os mesmos direitos. Num mundo em que um homem não escravize e nem explore seu semelhante.

Eu, infelizmente, não acredito que um mundo assim seja possível.

Minha falta de fé no socialismo não se dá pelo fato dele não ter sido implantado em nenhum país com sucesso (até mesmo, porque o capitalismo também não foi). Eu descreio do socialismo, pois ele me parece um sistema muito perfeito para ser implementado pelo ser humano e suas infinitas imperfeições.

Para acreditar no socialismo, eu teria que acreditar que a humanidade, em sua maioria, fosse mais capaz de ser solidária do que de ser egoísta. Eu teria que acreditar que o homem consegue amar o próximo sobre todas as coisas. Eu teria que acreditar que ele foi criado à imagem e semelhança de algum ser onipotente, onipresente, onisciente e justo. Enfim, para acreditar no socialismo, eu teria que acreditar em deus.

domingo, 5 de junho de 2016

História e ficção

Leonardo Padura é um escritor cubano, internacionalmente reconhecido como um dos maiores autores do gênero policial. Confesso que este não é o meu tipo de literatura preferido. Já li, na juventude, uma ou outra coisa de Arthur Conan Doyle ou Agatha Christie, autores britânicos, considerados os papas deste tipo de história.

O típico romance policial, normalmente, envolve um misterioso crime que só é desvendado no final, no último capítulo, quando o leitor descobre a identidade do criminoso e os motivos que o levaram a cometê-lo.

O Homem que amava os Cachorros, de Padura, o primeiro que li deste escritor, é um romance policial em que, tanto o autor quanto os motivos do crime, são conhecidos antes mesmo de se começar a ler o livro. Mesmo assim, a narrativa é eletrizante e, tivesse eu todo o tempo do mundo, teria lido suas quase 600 páginas, de uma vez só.

Misturando ficção com realidade, o texto trata de um famoso assassinato e se alterna em 3 ambientes, o da vítima, o do assassino e o do narrador da trama, esta terceira parcela, a ficcional. O crime é o assassinato do líder político soviético Leon Trotsky pelo militante comunista catalão Ramon Mercader, na cidade de Coyoacán, no México, em 1940.

Qualquer pessoa interessada em história geral conhece, ao menos superficialmente, os fatos mais emblemáticos deste assassinato. O que seduz, no livro, entretanto, é a riqueza dos detalhes que levaram ao seu desfecho, partindo-se da realidade, tanto do assassino quanto da vítima, até chegar no ápice, com o golpe de machado, fatal, na cabeça do velho revolucionário ucraniano.

A partir de um trabalho excepcionalmente meticuloso de pesquisa, o autor nos dá uma mostra bastante clara do ambiente político na União Soviética anterior à segunda Guerra, a rivalidade entre Trotsky e Stalin e a sede com que o ditador soviético perseguiu o criador do conceito da Revolução Permanente, até aniquilá-lo. Mostra como Stalin, após a morte de Lenin, empreendeu esforços para assumir a liderança da União Soviética e implantar uma política de perseguição aos rivais que ficou conhecida como “O Grande Expurgo”. Mostra como esta política atingiu, inclusive antigos aliados e, também, como a perseguição a Trotsky foi incansável, impingindo ao intelectual marxista um périplo extenuante por vários países da Europa até terminar no México, onde foi acolhido pelo artista plástico Diego Rivera e sua esposa Frida Kahlo (com quem chegou a ter um envolvimento amoroso).

O segundo ambiente retratado no livro, mostra as conexões de Ramon Mercader com outros agentes espanhóis cooptados pelo serviço secreto soviético (NKDV) como Caridad Mercader (sua mãe) e Africa de las Heras. Revela sua atuação na Guerra Civil espanhola, o que o credenciou a ser preparado pelas autoridades soviéticas para executar o inimigo mais importante do regime stalinista, e demonstra o quanto a disputa pelo poder, entre os aliados republicanos que lutaram contra Franco, foi fundamental para que a vitória fosse impossível (esta disputa, aliás, é narrada no ótimo livro Lutando na Espanha, de George Orwell, sobre o qual já escrevi aqui).

Na parcela ficcional do texto, narrado em primeira pessoa, Padura aproveita para mostrar o ambiente na União Soviética após a morte de Stalin, sua imagem desmascarada pelo governo de Khrushchov e a posterior tentativa de reabilitação sob o governo de Brejnev, no período ápice da Guerra Fria.

É esta oportunidade, também, que o autor utiliza para fazer suas críticas ao regime cubano, principalmente no que diz respeito à falta de liberdade política. Apesar destas críticas, seu livro foi publicado na ilha sem nenhum tipo de censura.

Enfim, O homem que amava os cachorros, título que é uma referência tanto à vítima, quanto ao assassino (e, também ao narrador) é um livro delicioso para quem gosta de conhecer a história com mais profundidade de detalhes, mesmo sabendo, superficialmente, tudo que é narrado nele. E para aqueles que não têm este conhecimento, nem mesmo superficial (ou não têm este interesse), pode, ainda, ser lido como um ótimo romance policial.

sábado, 14 de maio de 2016

PRIVATIZAÇÃO x PRIVATARIA

Conceitualmente, não sou contra a ideia de privatizações. O que me preocupa é a privataria. Explico.

Imaginemos a seguinte situação:

Uma família bem convencional: pai, mãe, filhos, netos, irmãos, cunhados, genros, noras, primos, todos vivendo numa mesma casa. Uma casa suficientemente grande pra acomodar tão numerosa família. Alguns com bons empregos, alguns com empregos nem tanto, outros procurando emprego. Convivência, ora pacífica, ora turbulenta. Conversas, por vezes, serenas, outras vezes intempestivas. Tudo dentro da normalidade de uma família como qualquer outra.

Tempos de crise econômica, o pessoal se virando, tentando se equilibrar. Apesar da felicidade de ter a boa casa, herdada do bisavô, que acolhe a todos, a vida está dura, está difícil. Todo mundo tentando ajudar, como pode, nos gastos da casa. Até que alguém se lembra do carro.

Sim, há um carro na garagem. Um carro potente, bonito, vistoso. Um carro importado, caro, custoso. Um carro que ninguém utiliza, gasta muito combustível. Difícil de pagar o imposto, o seguro, a manutenção. Melhor deixar na garagem, dizem uns. Não, melhor seria vender, dizem outros. As opiniões divergem, as discussões se acaloram. Argumentos pululam:

- O carro era o xodó do nono, diz uma tia.
- Ele está ocupando muito espaço na casa, pontua um genro.
- A cor é horrível, protesta a sobrinha, contribuindo para a discussão.

Um ou outro sopapo é desferido. A turma do “deixa disso” apazigua os ânimos.

Melhor votar. Afinal, a escolha da maioria ainda é o menos pior entre os critérios quando se sabe que o consenso nunca vai ser alcançado. Votação apertada, a decisão de vender o carro vence. Alguns protestam, querem refazer a votação. Voto de cunhado não vale. Enfim, passado o momento de exaltação, concluem, vencedores e vencidos, que é melhor assim. O dinheiro vai ajudar na manutenção da casa.

Alguém tem que assumir esta tarefa. Escolhem um primo:

- Ele é bom de lábia, salienta uma irmã.
- Pena que não a usa pra arrumar um emprego, alfineta a sobrinha.
- Vi numa tabela que vale muito.
- Tem que anunciar na Internet.
- Podíamos pintar de rosa, pra valorizar.

O primo agradece as contribuições e declara: - deixa comigo!

Encontrar um comprador acaba por se mostrar tarefa fácil. De fato, o carro é valioso. Bastante gente mostra interesse. Valor bem maior do que todos esperavam. Faz a escolha pela melhor oferta e pronto. 'bora fechar o negócio.

Na hora de selar o acordo, vem a ideia mirabolante na cabeça do diligente primo:

- Eu te dou um desconto de 5% se você topar colocar, no recibo, a metade do valor.
- Como assim? E o resto?
- A outra metade você paga pra mim, por fora.
- Isso está errado. Assim eu não topo.
- Então não tem negócio.

Procura um outro interessado, que havia feito a segunda melhor oferta. O sujeito também não aceita. O terceiro topa. Fecham o negócio.

O primo volta pra casa com o cheque visado pelo banco. Ar de vitorioso. O valor é um pouco menor do que todos esperavam. Fazer o que? É a crise.



.