Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O poder da argumentação


Devido ao meu apego às eleições, do qual já falei anteriormente, neste período de campanha política eu me sinto muito estimulado a debater e isso acontece desde sempre. Desde quando ainda não havia redes sociais (sim, garotos, já houve um tempo em que não existiam redes sociais como as de hoje). Em outras épocas se debatia nos bares, na universidade, na fábrica e, em todos estes ambientes, gostei, sempre, de debater e expor meu ponto de vista.

Debater nestes ambientes, aliás, sempre me pareceu mais saudável do que o que acontece agora. A primeira diferença é que os debates eram preponderantemente baseados em argumentos. Hoje, você coloca um argumento na rede e, recebe, de volta a expressão: “não concordo!”. Aí, fica esperando a próxima mensagem, com o contra-argumento, mas ele não chega.

Pode receber, de volta, o desenho de uma bonequinha dançando de havaiana ou a sigla e o número de algum candidato. Quando muito, recebe, do interlocutor, uma mensagem absolutamente desconectada do tema que foi proposto. Acho que está ocorrendo uma dislexia generalizada nas pessoas. Elas não estão conseguindo concatenar as ideias ou formular frases minimamente relacionadas a um tema específico, sem falar da estupidez que é a utilização da agressividade como ferramenta de argumentação.

Como sempre faço em épocas de eleição, eu estava preparado para debater, utilizando, como base, meus estudos, valores e reflexões, ou seja, tudo aquilo que constrói as nossas convicções e embasam nossos argumentos.

Estava preparado para debater com os petistas, não utilizando aqueles argumentos de que só o PT praticou corrupção, que em seu governo a corrupção foi maior do que nunca, de que no regime militar isso não ocorria e outras tolices, pois, nesta esparrela só caem os muito ingênuos ou os mal-intencionados (aliás, terei, eternamente, a dúvida de qual destas duas categorias é mais nociva para o mundo). Meu debate com os petistas tem sido em outra direção. Tem sido na cobrança do partido ter adotado, ao chegar ao poder, os mesmos procedimentos que sempre foram a marca registrada daqueles que estavam à sua direita. No fato de, no poder, Lula ter transigido tanto e atendido, tão fortemente, às demandas da camada da população que, desde sempre, tem sido a mais favorecida. Por que é que os inegáveis avanços sociais implementados foram tão tímidos?

Estava preparado para debater com os tucanos e cobrar, deste partido, o distanciamento monstruoso que foi promovido, em relação à sua ideia original. A continuidade do uso da Social Democracia no nome desta agremiação que, hoje, é mais liberal que o próprio DEM (ou PFL, ou PDS ou ARENA, tanto faz). Por traírem os ideais de tucanos históricos como Mário Covas, Euclides Scalco ou José Richa (este, aliás, foi traído pelo próprio filho).

Estava preparado para debater com eleitores de Marina e mostrar que seu discurso é sempre vazio e inconsistente. Este debate, aliás, nem seria necessário pois, como sempre, esta candidata acaba se transformando no próprio argumento contra si.

Estava preparado, até, para explicar para os eleitores de João Amoedo e de seu partido (que de novo só tem o nome) que só quem nunca leu Aristóteles pode se apresentar ao eleitorado como um “não político”. Afinal, o grande filósofo já ensinou, há mais de 2.300 anos, que o homem é um animal político.

O que eu não estava esperando é que teria que debater com as pessoas e afirmar (e reafirmar) que sou contra a tortura, contra o racismo, contra a homofobia, contra a misoginia, enfim, contra toda forma de violência que se possa praticar a um ser humano.

Nunca imaginei que teria que mostrar para as pessoas que não acho admissível um candidato falar em eliminar (ao invés de vencer) um adversário.

Nunca passou pela minha cabeça que eu teria que explicar que a democracia foi um bem conquistado pela nossa sociedade à custa de derramamento de sangue, assassinatos e desaparecimento de pessoas que tinham opiniões distintas de quem detinha o poder no regime militar.

Enfim, julguei (talvez ingenuamente), que estas coisas eram tão básicas, tão óbvias, tão absurdamente evidentes, que não careciam de qualquer tipo de argumentação para serem defendidas.

Esta etapa da eleição, que se avizinha, deixou de ter um caráter apenas ideológico. Não é, como deveria, matéria de qualquer tipo de argumentação. Nesta eleição, o que está em jogo é uma escolha escandalosamente simples. É a escolha entre a civilidade e a barbárie. E é assustador que ainda haja, na nossa sociedade, uma dúvida como esta.



Porque me importam as eleições


Sou de outro tempo. Do tempo em que não havia eleições para todos os cargos, no Brasil. A primeira eleição de que participei foi para senador (votei em Fernando Henrique Cardoso, que entrou como suplente), mas, naquela época, não era permitido votar para presidente, governador e nem prefeitos de capitais. Aliás, as eleições para prefeito também eram proibidas nos municípios em “área de segurança nacional” e nas estâncias hidrominerais. Nesta última categoria, aliás, nunca entendi o motivo da proibição, mas quem souber a razão, não precisa me contar. Naquela época, havia tanta coisa que não fazia sentido que esta era uma preocupação menor.

Por todo este histórico, me são caras as eleições. Gosto muito delas e as encaro como uma conquista do povo brasileiro, depois de 21 anos sob um regime militar em que, não só os direitos básicos foram surrupiados, mas, também, a dignidade e, em muitos casos, a vida.

Por tudo isso, também, sempre resisti a praticar o voto nulo ou em branco e, confesso, tive medo de ser obrigado a fazer isso nestas eleições, caso a disputa para governador de São Paulo ficasse restrita à escolha entre Dória (aquele que tem um sorriso nos lábios e ódio no olhar) e Scaf. Felizmente, fui salvo pelo gongo e poderei depositar meu voto em Márcio França, como já havia feito no 1° turno.

Outra conquista que tivemos foi a instauração do 2° turno nas eleições para os cargos executivos. Sem ele, com a quantidade insana de partidos políticos que temos no Brasil, estaríamos ameaçados, a cada eleição, a ver eleito um candidato que tivesse menos que 15% dos votos totais. Só na eleição deste ano, tivemos 13 candidatos!

Assim como o 1° turno serve para que cada um escolha o candidato que considere o mais apropriado, o 2° é feito para que se escolha o menos ruim. O 2° turno é, também, a oportunidade de se formar alianças políticas, instrumento muito importante para equalizar programas e, com isso, buscar a ampliação do eleitorado. Há quem confunda aliança política com conchavo, mas são coisas completamente diferentes. Conchavo, normalmente, é feito no subterrâneo, no escuro, com o propósito de satisfazer interesses escusos. Alianças, normalmente, devem ser feitas à superfície, às claras. A boa política é a arte de saber dialogar e negociar para se chegar a uma agenda comum que atenda as expectativas de uma camada maior de eleitores.

A importância maior, entretanto, do 2° turno, é a possibilidade de embate entre os dois candidatos, com mesmo espaço de tempo para expor suas ideias e seus programas. É nesta oportunidade, efetivamente, que as diferenças de proposta de governo podem ser avaliadas pelos eleitores, através das argumentações e contra-argumentações que este evento propicia.

Nas eleições deste ano, esta oportunidade não está sendo propiciada ao eleitor devido à fuga do candidato Bolsonaro, o que demonstra, claramente, seu desapego à democracia (além da covardia, é claro). Além disso, parte dos eleitores fizeram uso do chamado “voto útil” no 1° turno e abandonaram os candidatos que consideravam a melhor opção para tentar forçar a não realização do 2°. Este é um erro, politicamente, grosseiro, e explico o motivo.

Ao esvaziar a sacola de votos do candidato que considera a melhor opção, o eleitor esvazia, também, o capital político dele, no momento de se fazer as alianças para a segunda rodada da eleição. Com isso, as ideias e os pontos do programa que motivaram o eleitor a preferir tal candidato, acabam não tendo chance de ser incorporados ao programa daquele que, efetivamente, recebeu seu voto. Assim, o eleitor vai para o 2° turno depositando voto em um candidato que não tem, em sua plataforma de campanha, os pontos que eram contemplados por seu candidato inicial e que, portanto, ele julga importantes.

A maioria dos eleitores que preferiam Alckmin, Amoedo, Meirelles e Marina, mudaram, no último momento, para Bolsonaro. Com isso, deixaram seus candidatos preferidos sem capital político para negociar a inserção de suas propostas na campanha do capitão do exército, numa eventual aliança política. Desta forma, este eleitor acabou perdendo dos dois lados. Nem evitou o segundo turno nem conseguiu ver as ideias nas quais, realmente, acreditava, inseridas no programa do candidato em que votou.

Votei em Ciro Gomes no 1° turno e votarei em Fernando Haddad no próximo dia 28. Por valorizar tanto as eleições, eu nunca questiono a decisão dos eleitores. Isso, pra mim, é sagrado. Por isso, como eleitor, vou acatar a decisão da maioria, mesmo que a considere equivocada. Sou, acima de tudo, um democrata.

E por ter esta preferência pelos regimes democráticos, votaria em qualquer outro candidato que não fosse o capitão do mato, pois, como eu disse no início do texto, sou de outro tempo. Aquele em que a democracia era inexistente no nosso país e sei muito bem como é viver num ambiente destes.

domingo, 14 de outubro de 2018

Atypical


O cinema e a TV, em sua dramaturgia, têm, historicamente, duas formas de tratar pessoas com necessidades especiais. Aliás, nem sei se este é o termo mais adequado, mais politicamente correto. Aqui, neste site, tem uma receita de bolo, mas já deve estar desatualizada, já que é de 2014. Confesso que não dou conta desta evolução semântica.

Mas, voltando ao que interessa, no cinema e na TV estas pessoas são retratadas, tradicionalmente, ou de forma caricata e debochada ou, então, de forma melodramática e piegas.

Uma exceção a esta regra é a série Atypical, exibida pelo Netflix, já em sua segunda temporada.



Ao retratar a família e os colegas do protagonista, um adolescente com autismo (não sei, ao certo, precisar o grau), mostra estas duas formas erradas de se relacionar com ele, a debochada e a piegas, pelos colegas da escola e pela família, respectivamente.

As exceções a esta dualidade estão representadas pelas personagens de sua irmã e de seu colega de trabalho que procuram tratá-lo, no limite do possível, como uma pessoa absolutamente normal.

A série mostra o cotidiano do protagonista e de seu entorno com bastante leveza, sem deixar de mostrar as dificuldades e os dissabores de todos que gravitam ao seu redor.

Enfim, é uma série que eu recomento fortemente.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Reflexões sobre a eleição presidencial no primeiro turno


Passado um dia da divulgação do resultado das eleições, neste primeiro turno e, depois de acompanhar as análises feitas pelos “especialistas” na TV, escrevo aqui algumas conclusões a que cheguei a partir de minhas reflexões. Acho importante, aliás, que cada um consiga formular suas próprias conclusões em lugar de aceitar apenas e, passivamente, as conclusões oriundas da análise de jornalistas das grandes empresas de mídia, das declarações de políticos profissionais (de qualquer que seja o partido), de seu chefe ou do pastor de sua igreja. A única forma de criar um legítimo senso crítico é conseguir criar um pensamento político baseado em suas próprias reflexões. É claro que todos temos nossas influências e é natural nos apoiarmos nelas, mas, as formas de influência que citei acima (TV, partidos políticos, o empregador e a igreja) são as piores que podem haver. Cada um deve buscar as suas fontes de influência. Eu sugiro os livros. Dá um pouco de trabalho, mas é a única, entre as que eu conheço, que estimula a própria reflexão.
Se 49 milhões de eleitores votaram em Bolsonaro, outros 58 milhões preferiram escolher outro candidato. Houve, além disso, mais de 10 milhões de eleitores que foram às urnas e preferiram não dar seu voto para nenhuma das 13 opções apresentadas e mais 30 milhões que sequer compareceram aos locais de votação. Desta forma, do total de eleitores cadastrados nas zonas eleitorais do Brasil e, também, no exterior, 33% deles votaram no Capitão e 66% preferiram não lhe presentear com o voto.

O Fenômeno Bolsonaro
Jair Bolsonaro começou sua atuação política no fim da década de 1980, defendendo o aumento do soldo de oficiais de baixa patente do exército. Foi uma atuação sindical, portanto. Como para esta classe trabalhadora não há sindicatos, ele utilizou a estratégia de organizar manifestações das esposas de militares, já que os procedimentos fechados desta entidade proíbem seus membros de se expressar livremente. Elegeu-se vereador na cidade do Rio de Janeiro baseado nos votos deste segmento. Evidentemente, sua luta por melhoria nos salários não incluía os direitos de suboficiais, sargentos, cabos e soldados. Apesar disso, a classe toda engajou-se na tarefa de elegê-lo. A alta oficialidade sempre teve muitas reservas ao seu comportamento, e, em documentos internos do Exército Brasileiro, da década de 1980, ele já era avaliado por seus superiores como um oficial deficiente na tarefa de liderar por sua “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. Na verdade, é uma pessoa tosca, iletrada e inculta.
Após este início, foi pavimentando sua carreira política, elegendo-se, dois anos depois, como deputado federal e, a partir daí, captando a sensação (legítima) de insegurança da população carioca, foi vendo crescer sua popularidade e seu volume de votos, sempre com um discurso pautado pela extrema violência e baseado em manifestações de intolerância a diversos grupos que encontraram eco em segmentos da nossa sociedade. Nestes 30 anos de carreira política, esteve filiado a 8 partidos diferentes.
Na eleição de ontem, este candidato obteve uma quantidade expressiva de votos e é importante, portanto, tentar identificar as características de quem depositou seu voto num candidato tão tosco. Eu consegui formular algumas (mas deve haver outras):
1 – O bolsonarista típico
É aquele que concorda e apoia os valores mais autênticos deste personagem, ou seja, o racismo, a homofobia, a misoginia, a tortura e a convicção de que a violência é um caminho aceitável para se atingir os fins. Minha convicção é que, felizmente, esta parcela é relativamente pequena, comparando-se com a quantidade de votos que ele recebeu.
2 – O eleitor insatisfeito
Este grupo, que me parece ser um dos maiores, entre seus eleitores do dia de ontem, é aquele que não está satisfeito com o que o estado tem oferecido em termos de serviços públicos, sobretudo no combate e prevenção da violência. Embora o candidato, durante a campanha, não tenha apresentado nenhuma proposta concreta de combate a este mal que assola, principalmente, as médias e grandes cidades brasileiras, suas bravatas encontram eco na parcela da população que vê, todos os dias, as polícias estaduais atuarem muito mais na defesa do patrimônio da classe média e alta, do que na proteção da vida de quem mora na periferia e, principalmente, nas favelas. A perspectiva do surgimento de um “salvador da pátria”, que consiga mudar esta realidade, prometendo segurança, ocorre como alento na mente desta população, que acaba relevando o fato destas promessas não estarem rigorosamente atreladas ao cumprimento estrito da lei ou ao respeito aos direitos humanos. Neste ponto, é interessante perceber que esta falta de apego ao cumprimento estrito da lei e o desrespeito sistemático aos direitos humanos são justamente as principais características da atuação das polícias estaduais, que, hoje, produzem esta insatisfação, sobretudo nas áreas da população menos favorecida.
3 – O eleitor eminentemente conservador
É o mais ideológico, entre todos. Convencido do discurso liberal, de que o estado deve interferir pouco na economia (os mais radicais, dizem nada), é o eleitor que não votaria, naturalmente, em Bolsonaro, mas admite relevar as características fascistas que o candidato manifesta publicamente, em troca de um “bem maior” (em sua visão), ou seja a “eliminação do pensamento de esquerda”. A simples utilização deste verbo (“eliminar”), por si só, já revela que o caráter fascista não está presente somente no discurso do candidato.
É o grupo que mais tem consciência de que qualquer avanço em políticas sociais, com foco na redistribuição de renda e na diminuição da concentração da riqueza do país, enfim, tudo que mire da direção da redução da desigualdade, irá comprometer seus próprios interesses. É a parcela da sociedade que luta, com todas as forças, para, do ponto de vista econômico, conservar as coisas como estão (o termo conservador não vem do nada, afinal). Como é economicamente conservador, o é, também, em relação aos costumes e, por isso, questões como a violência contra os negros, os índios, as mulheres e os homossexuais não lhe comovem.
Não que ele pratique ou estimule este comportamento, muito pelo contrário. Apenas não se importa com isto.
*Cabe aqui um esclarecimento: Quero apenas deixar claro que não considero que ser conservador seja um defeito. É apenas uma característica, absolutamente legítima. O problema é quando o conservador, no natural afã de conservar o status quo, torna-se reacionário. Quando adquire esta característica, perde a capacidade de dialogar com respeito com um oponente e é neste ponto que começa a proferir considerações semelhantes ao do bolsonarista típico. É quando passa a utilizar verbos como varrer, limpar, metralhar e, o mais emblemático, eliminar, ao se referir a adversários.
4 – O eleitor antipetista
Aqui, é muito importante não confundir com o eleitor conservador. O conservador não é antipetista, pois nunca votou e nunca irá votar no PT. O conservador é aquele que será “anti” qualquer partido que apresente propostas na direção de redução da desigualdade, como foi explicado no item anterior. 
O eleitor antipetista é muito menos esclarecido que o conservador, até por que, é o eleitor que se deixa pautar pela opinião da mídia, do mercado, da igreja e de outras instâncias influenciadoras. Tem, portanto, comportamento circunstancial. Se estas instâncias, amanhã, elegerem os carnívoros como a causa de todos os males que assolam o mundo, passarão a ser anticarnívoros e, adotarão discurso e atos que tenham o objetivo de eliminar (de novo, este maldito verbo), da face da terra, os indivíduos que tenham o hábito de comer carne. O mesmo fenômeno aconteceu com os judeus na Alemanha, durante o regime nazista. A falácia de que a corrupção foi inventada pelo PT, ou foi maior em seus governos, ou que na ditadura não existia corrupção é tão simplória que somente os extremamente ingênuos, que são muitos, embarcam nesta onda. Esta é a falácia que pegou. É a falácia do momento.
O antipetista é o eleitor mais manipulável e mais fácil de enganar. É o mais inculto, o que não significa que não tenha recebido alguma educação formal. Consegue combinar letras e sílabas e reproduzir o som das palavras que estas combinações geram, mas quando as associações ocorrem entre as palavras, costuma se atrapalhar, principalmente se elas forem expressas através da escrita. Devido a isto, prefere se informar pela TV do que pelos jornais. Utiliza, também, as notícias veiculadas pelas redes sociais e as compartilham indiscriminadamente, sem checar sua veracidade e, também, sem questionar se fazem sentido. Não é o único tipo de eleitor que compartilha as fake News, mas é o único que acredita nelas.
É um grupo tão grande quanto o dos insatisfeitos, sendo que muitos indivíduos podem ser categorizados dentro de ambos.
5 – O eleitor evangélico
Na minha visão, foi o responsável pela abrupta e leve elevação dos votos em Bolsonaro, comparados aos dados nas pesquisas do sábado. Esta elevação quase liquidou o pleito no primeiro turno, o que seria uma pena.
*Outro esclarecimento: sou um fervoroso defensor do sistema em dois turnos, para o executivo, por dois motivos: ele impede que um candidato com apenas 10 ou 15% dos votos totais se eleja e, principalmente, porque é no segundo turno, normalmente, que surge espaço para um real debate de ideias e conceitos. Num segundo turno, em geral, nenhum candidato consegue fugir à responsabilidade de apresentar seus planos e projetos.
Voltando ao perfil do eleitor evangélico, é o que tenho mais dificuldade em interpretar, por ser muito complexo. Identifico, neste tipo de eleitor, traços característicos, tanto do eminentemente conservador quanto do antipetista.
O conservadorismo desta parcela da sociedade, diferentemente do conservador liberal, é muito mais focado nos costumes do que na economia. Neste aspecto, o que acaba pegando mais fundo em sua consciência são as questões da luta contra a homofobia e a descriminalização do aborto, presentes, firmemente, no discurso dos eleitores progressistas.
Existe aí, a meu ver, uma dificuldade de interpretação por parte dos evangélicos: criticar a homofobia é criticar a violência contra os homossexuais (que, em última análise, se insere na crítica à violência contra qualquer ser humano). Não há, na luta contra a homofobia, nenhuma intenção de “estímulo” ao homossexualismo, até porque, não se trata de uma escolha (e muito menos de um defeito ou doença) e sim de uma orientação íntima e pessoal. Esta dificuldade de interpretação é ampliada por bobagens como o “kit gay” (uma coisa que nunca existiu) e outras coisas do gênero.
Na questão do aborto, outra confusão. Descriminalizar não significa estimular alguém a fazer um aborto. Ninguém faz um aborto por que quer.  Cada mulher deve ter o direito de fazer o que achar mais apropriado com seu corpo (como fazem os homens). É uma decisão individual. O estado não deve se meter neste assunto (nesta questão, sou mais liberal que os ultraliberais). Além do mais, se as igrejas evangélicas querem desaconselhar seus seguidores a fazer aborto, que o façam, mas o que acontece com as pessoas de fora de suas congregações não é assunto onde devam se meter.
Já o seu antipetismo é ainda mais circunstancial do que o antipetismo clássico, descrito no item anterior. Para adotar esta posição, subitamente, pode bastar uma orientação do pastor que, na maioria das vezes, é dada a poucas horas do dia da eleição. Desta vez, decidiram votar em Bolsonaro, mas em outras eleições o voto foi pro PT, seguindo a mesma fórmula.
*Mais um esclarecimento se faz necessário: Tenho muitos amigos evangélicos e eles sabem o quanto respeito sua fé (na mesma medida em que respeitam a ausência dela, em mim). Eles sabem, também, que apesar de respeitar qualquer tipo de fé (cristãos, judeus, adeptos da umbanda e candomblé, crentes no deus Tupã ou em Thor), tenho pouquíssimo respeito pela instituição da maioria das igrejas que exploram esta fé.
É muito provável que a maioria dos eleitores de Bolsonaro se encaixe em mais de uma destas categorias, até porque, o ser humano é a espécie do reino animal mais complexa e controversa que existe no planeta.

O fenômeno #ELENÃO#
A composição do eleitorado que não quis depositar seu voto no capitão talvez seja mais heterodoxa do que o grupo que votou a favor. Há, inclusive, nesta composição, por mais contraditório que pareça, integrantes de alguns dos mesmos grupos que lhe presentearam com o voto.
A característica dos que não quiseram depositar sua confiança no capitão é o que vou tentar destrinçar agora:
1 – O eleitor progressista
Tão ideológico quanto o conservador, é aquele que acredita e defende um estado que garanta as mesmas oportunidades para todo o conjunto da sociedade, além de ter a convicção de que é dele o dever de prover serviços essenciais como saúde, segurança e educação à população. Está consciente de que, para isso, é necessária uma política fiscal mais justa e proporcionalmente mais igualitária e, assim, defende uma tributação amena para quem tem baixa renda e robusta para quem tenha maior renda.
De forma geral, não está filiado a qualquer partido e é pautado menos por eles e mais por uma ideologia do tipo social democrata, tendo a preocupação de identificar, em cada momento particular da história, quais partidos ou candidatos apresentam um discurso que coincida com este ideal de governança. Este eleitor tem, por característica intrínseca e ideológica, um histórico de defesa de direitos humanos e luta contra a violência e o preconceito, sofridos pelas mulheres, negros, índios e membros da comunidade LGBT.
Esta categoria de eleitor foi migrando sua preferência por partidos, no Brasil, conforme estes iam mudando sua posição no espectro ideológico. A grande maioria dos eleitores com este perfil foi entusiasta do PSDB, em sua origem, e, conforme este partido foi mudando sua  identidade em direção à direita, o eleitor foi fazendo outras escolhas, dentre elas, o PT de Lula ou o PDT de Brizola e Darcy Ribeiro.
É um eleitor preocupado com a corrupção, mas tem consciência que este é um problema crônico e endêmico da sociedade brasileira e a firme convicção de que ela não está atrelada a apenas um partido político. Por isso, defende, mais do que uma política de caça às bruxas seletivo e pautado por interesses escusos, a adoção de medidas, por parte do estado, de um modelo que não estimule o financiamento privado de campanhas políticas.
Tem, acima de qualquer preferência partidária, um compromisso com a democracia e se engaja fortemente contra os movimentos de cunho fascista que a ameacem.
*Insistindo: Ser progressista ou ser conservador não significa, em minha concepção, estar do lado certo ou do lado errado, ser do bem ou ser do mal. Significa ter valores e visões de mundo diferentes. A própria escolha entre ser solidário ou individualista é uma escolha íntima e pessoal, ambas legítimas. A convivência pacífica e a interlocução respeitosa entre pessoas com estas diferentes concepções ideológicas só reforçam a democracia. Quando um sentimento de ódio e um desejo de eliminação do oponente começa a vigorar, aí a democracia é colocada em risco.
2 – O eleitor petista
Sem ser, necessariamente, filiado ao PT, é aquele que vota sistematicamente em seus candidatos. Exerce uma militância forte, nos períodos de campanha eleitoral, mas não participa do dia a dia do partido nem toma parte de suas deliberações. Tem, em geral, atitude aguerrida na militância, mas sua energia oscila, de acordo com o momento histórico no Brasil.
3 – O petista de carteirinha
É aquele eleitor que, mais do que militante, é filiado ao PT e, com isso, segue suas diretrizes, sejam elas quais forem, já que participa de suas deliberações e, mesmo quando suas posições particulares são derrotadas, dentro do partido, age com disciplina. Esta é uma característica comum em partidos fortemente estruturados e está presente neste tipo de agremiação, no mundo todo.
A quantidade de eleitores petistas e de petistas de carteirinha representa um número muito menor do que se supõe. Acostumou-se, entretanto, nestes últimos anos, a classificar todo aquele que defende políticas de inclusão social como petistas ou petralhas, como preferem aqueles que cultivam o uso do verbo “eliminar” na referência aos antagonistas.
4 – O eleitor de esquerda

Predominantemente oriundo do grupo de ex-eleitores petistas, está à esquerda do PT e considera que a solução para os problemas sociais que o Brasil enfrenta, há séculos, pode ser obtida através de um modelo em que o estado venha a gerir o maior número de atividades possível. São eleitores que votaram nos candidatos do PSOL, PSTU e PPL. Neste primeiro turno teve pouquíssima participação na contagem de votos.

5 – O conservador órfão

É aquele eleitor que se manteve fiel à sua convicção, confirmando seu voto no candidato em que, de fato, acreditava. Eleitor de Alckmin, Amoedo, Daciolo, Meirelles, Álvaro Dias e Eymael, totalizou um volume de votos menor que a de votos nulos, quantidade esta que, naturalmente, tende a migrar para Bolsonaro, no segundo turno.

6 – O eleitor de Marina Silva

Este eleitor, assim como a própria candidata, são os exemplos mais complexos para se analisar, mas vou arriscar.

Dona de mais de 22 milhões de votos, em 2014, viu seu balaio encolher para pouco mais de 1 milhão, no final do dia de ontem. Ao longo da campanha, foi vendo as previsões de intenção de votos em seu nome diminuírem, continuamente, devido ao parco significado de seu discurso.

O eleitor típico de Marina se divide, historicamente, entre 2 grupos. O primeiro é o de perfil culto e educado, preocupado com a proteção do meio ambiente e com o bem-estar das pessoas, de forma geral. O segundo grupo pertence ao dos eleitores evangélicos.

Eu arriscaria o palpite de que a queda paulatina ocorrida no decorrer da campanha seja devida à migração da intenção de votos das pessoas do primeiro grupo, em favor de Ciro e Haddad e a queda abrupta, ocorrida nos últimos 2 ou 3 dias da campanha, deveu-se à migração dos evangélicos em favor de Bolsonaro.

Saber para onde vai este milhão de votos que ela conquistou é um exercício de adivinhação tão difícil quanto inútil.


E daí?

E daí, nada. Adivinhação não é minha praia.

O resultado, para o segundo turno, apresenta um favorito claro, que é Bolsonaro.

Do ponto de vista matemático, as previsões mais óbvias são as de que os votos em Ciro e os dos eleitores do PSOL, PSTU e PPL migrem para Haddad, assim como os dos conservadores órfãos (que votaram em Alckmin, Amoedo, Daciolo, Meirelles, Álvaro Dias e Eymael) se dirijam para Bolsonaro. Dos eleitores de Marina Silva, nem mesmo o velho Oswald de Souza, conseguiria prever.

Há, ainda, os 40 milhões de eleitores que votaram em branco, nulo ou não compareceram às zonas eleitorais e que podem, a seu bel-prazer, alterar esta estatística (para cima ou para baixo).

Deixando a matemática de lado e pensando em campanha eleitoral, acredito que haja um volume de votos que pode ser conquistado por Haddad (ou deve preservado por Bolsonaro) que é o dos grupos maiores, ou seja, os que eu chamei de eleitor insatisfeito e eleitor antipetista.

O desafio de Haddad, evidentemente, é maior, mas Bolsonaro não poderá continuar fugindo dos debates e terá, em algum momento, que apresentar algum plano de governo. A partir de agora, ele terá muito mais tempo no rádio e na TV para aparecer e se pronunciar. Resta saber se ele conseguirá usar este tempo em seu benefício ou se é isso que pode levá-lo à lona. Afinal, há pessoas que, ao receberem uma corda, laçam um cavalo e o domam. Há outras que só o que conseguem fazer é se enforcar.

domingo, 7 de outubro de 2018

Conhecer e refletir sobre a história


Acabei de assistir, e recomendo, o filme Operação Final, que estreou esta semana no Netflix e mostra a estratégia utilizada para raptar, em Buenos Aires, e levar para Israel, em 1960, o criminoso de guerra Adolf Eichmann, arquiteto da Solução Final, plano de execução em massa de judeus capturados nas regiões ocupadas pelo regime nazista.

A Argentina foi o país da América que mais recebeu oficiais nazistas fugidos da justiça ao fim da segunda guerra e, com isso, manteve, durante muito tempo, com a conivência do governo local, uma enorme comunidade que cultivou e ampliou o alcance das ideias de Hitler naquele país, àquela época.

O filme é muito bem conduzido, por Chris Weitz, que tem a façanha de manter, o tempo todo, um clima de suspense, mesmo numa trama que todos, com alguma curiosidade pela história da segunda guerra, já sabem o final.

No papel do carrasco nazista, o ótimo ator Ben Kingsley, perfeitamente caracterizado e em exuberante interpretação.



Para quem tiver mais interesse pelo assunto, recomendo (disponível na Net NOW) o filme Hannah Arendt – Ideias que chocaram o mundo, com a atriz Barbara Sukowa no papel protagonista. Trata do episódio na vida desta filósofa alemã e judia quando foi, a convite da revista The New Yorker, cobrir o julgamento de Eichmann.

O resultado de suas observações teve um grande impacto na comunidade judaica mundial, predominantemente contrário a ela, já que, em lugar da esperada caracterização do personagem como um facínora monstruoso e anormal, ela identificou um homem medíocre, como qualquer outro, bastante banal, atrelado a uma burocracia de estado da qual nem mesmo pensou em questionar.



Estes escritos, misto de reportagem jornalística com reflexão filosófica, deram origem ao livro Eichmann em Jerusalém. Um Relato Sobre a Banalidade do Mal.

Sua importância para o pensamento filosófico sobre o totalitarismo é mostrar que, mais perigoso do que o surgimento de um personagem, na história, capaz de conduzir uma imensa multidão para um caminho de violência e destruição (como foi o caso de Hitler) é o fato desta manada se deixar conduzir sem questionar, sem criticar, sem reagir.

Discutir estes temas é muito importante, pois eles podem suscitar uma reflexão profunda da sociedade mundial e, sobretudo no Brasil, já que estamos, neste momento, no olho de um furacão conservador de amplitude extremada.

História repetida


Embora haja quem ainda creia que, ao estudar história, aprendemos com os erros, este ditado está, cada vez mais, desacreditado, já que vimos, sempre e sempre, os erros cometidos serem repetidos. Ou, então, estamos estudando pouco.

Hitler subiu ao poder através do voto, numa eleição democrática, a partir de um discurso baseado na intolerância e que prometia uma “reconstrução”. O discurso seduziu as massas. Assim que assumiu, empreendeu uma sistemática perseguição a determinados seguimentos da população que, de início, foram sendo segregados em guetos e, num momento posterior, foram enviados a campos de concentração, para serem eliminados. A esta estratégia se chamou de “solução final”.

Os maiores segmentos da população atingidos pela perseguição nazista foram os judeus, os esquerdistas (comunistas, socialistas, anarquistas e social-democratas) e os homossexuais. Os indivíduos de cada um destes grupos segregados eram obrigados, para andar nas ruas, a costurar, em suas roupas, um triângulo colorido que os identificava. Os judeus tinham que andar com a cor amarela, os partidários de ideias de esquerda com a cor vermelha e os homossexuais com a cor rosa. Caso algum indivíduo tivesse dois destes “defeitos”, deveria pregar triângulos com cores diferentes, o que resultava numa estrela bicolor.


Grande parte da sociedade alemã, da época, não se sensibilizou com isso, já que não fazia parte dos segmentos segregados. Hoje, todos sabemos como esta coisa terminou.

Bolsonaro adquiriu popularidade com um discurso que incita à violência, direcionada a três grupos de pessoas: os negros, os esquerdistas e os homossexuais. Aos esquerdistas, aliás, ele já propôs, mais de uma vez, o fuzilamento como solução (seria, talvez, a sua “solução final”?)

Hoje, ele concorre à presidência da república num processo eleitoral democrático, prometendo, também, uma reconstrução. Há uma chance real dele vencer a eleição.

Grande parte da sociedade brasileira, de hoje, não se sensibiliza com a violência contra os negros, contra os homossexuais e contra os que têm ideias de esquerda. Afinal, boa parte da nossa sociedade não se enquadra em nenhuma destas “categorias”.

Enfim, como já está provado que não aprendemos com os erros, é enorme a chance que a história se repita, mais uma vez.

quarta-feira, 3 de outubro de 2018

Extremismo assimétrico


Pululam na imprensa (e, por conseguinte, na internet) editoriais, artigos e textos esparsos com o discurso de que a disputa que se avizinha, após o próximo domingo, será entre a extrema-direita e a extrema-esquerda. Até mesmo Ciro Gomes está pegando carona nesta conversa, menos por convicção, mais por oportunismo (coisas de estratégia política mesclada com desespero). Nada, porém, é mais falso do que este discurso. 

Posicionada à esquerda do PT, encontramos uma enorme diversidade de agremiações (partidárias ou não) e, mesmo dentro do partido, há um balaio com divisões e subdivisões que abrangem um espectro inimaginável, de tão diverso. Há quem defenda que nem mesmo de esquerda o PT pode ser classificado, mas, aí, já reside certo exagero.

À direita de Bolsonaro, não há nada nem ninguém.

Para quem prefere os desenhos às palavras, basta imaginar um segmento de reta, na horizontal, e visualizar o PT e uma enxurrada de outros agrupamentos como PSOL, PC do B, PSTU, MST, MTST, entre outros, alguns próximos e outros mais distantes, mas todos à sua esquerda. É possível enxergar, no outro extremo, um Bolsonaro solitário, bem longe das outras agremiações conservadoras e sem ninguém, nem nada, à sua direita. 

A visualização desta imagem mental é mais do que suficiente para perceber o quanto este discurso do embate entre extrema-direita e extrema-esquerda é fantasioso (a quem tiver dificuldade em visualizar figuras imaginárias, sugiro que desenhe).

Na minha juventude eu me entediava com as intermináveis discussões nos centros acadêmicos entre stalinistas e trotskistas, evocando figuras emblemáticas do pensamento de esquerda com discursos repetitivos e desconectados da nossa realidade. Eram discussões inúteis, mas ficava muito clara a posição de cada grupo na tal linha imaginária. Chegava a ser divertido (muito menos divertido, entretanto, era o que se passava nos porões do regime).

O pessoal mais jovem não vivenciou essa realidade, e, talvez por isso, este discurso desproporcional ganhe adeptos. É compreensível. Vejo, entretanto, muita gente da minha idade comprando esta ideia da simetria entre os dois extremismos o que, aparentemente, mostra que àquela época, não tomava conhecimento do que se passava à sua volta, que dirá no país inteiro (seja na superfície, seja no subterrâneo).

Fico imaginando o que é que essas pessoas ficavam fazendo na faculdade e, antes que alguém diga que ficava estudando, devo esclarecer que, nessa idade, sempre tive energia para estar antenado com o que ocorria à minha volta e, ao mesmo tempo, aprender a utilizar as transformadas de Laplace (saudade daquela vitalidade!!!).

Não há nada de ilegítimo em se situar à esquerda ou à direita. São posicionamentos absolutamente pessoais, que eu respeito. A pessoa pode ser progressista ou conservadora, solidária ou individualista. Pode acreditar num modelo de estado que atue para garantir as mesmas oportunidades para todos ou num modelo em que o mercado ajuste as discrepâncias sociais aos seus interesses. Tudo isso, repito, são posições legítimas e pessoais. Depende dos valores de cada um.

As posições extremistas, entretanto, mesmo as legalmente admissíveis (a escravidão, há 131 anos era legal, no Brasil), podem ser ilegítimas e não têm meu respeito.

Na realidade de hoje, o extremismo está fortalecido de forma absolutamente assimétrica, apenas de um lado.



domingo, 30 de setembro de 2018

Histórias musicais


A música brasileira que mais me interessou, ainda na infância, foi aquela que se convencionou chamar de MPB e que surgiu nos festivais da TV Record, em meados da década de 60, no século passado. Naquele momento, uma geração de jovens compositores, todos ao mesmo tempo, despontaram no cenário musical ostentando uma criatividade inacreditável.

No resto do mundo, aquele período era o prenúncio de uma época iluminada, do desabrochar das liberdades individuais, e que culminaria com maio de 1968. Enquanto isso, no Brasil, mergulhávamos num período de sombras, culminando com o AI-5, em dezembro daquele mesmo ano.

Mais tarde, eu fui perceber que a música produzida por aquela geração genial não teria acontecido se não fosse o samba e a Bossa nova. Sem o samba e a Bossa nova, provavelmente não teríamos a MPB e, se não tivesse existido Pixinguinha, Noel Rosa, Ismael Silva, Tom Jobim e João Gilberto, arrisco-me ao palpite de que Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, teriam sido um arquiteto convencional, um obscuro crítico de cinema e um gestor de empresas engravatado e careta, respectivamente.

Wilson das Neves classificava a Bossa nova como um sub estilo do samba, mas essa é uma análise muito simplista. Nascida no Rio de Janeiro, seria impossível ela não ter os genes do samba em seu DNA, mas sofreu, também, uma enorme influência do jazz americano.

Tanto o samba quanto a Bossa nova têm seus personagens emblemáticos e, nos dois casos, são infinitas as histórias que os envolvem. Duas boas oportunidades para conhecer algumas destas histórias são os livros O Barquinho Vai... – Roberto Menescal e suas histórias, escrito por Bruna Fonte e Taberna da Glória e Outras Glórias – mil vidas entre os heróis da música brasileira, organizado por Ruy Castro.


Os personagens destes dois livros, Roberto Menescal e Hermínio Bello de Carvalho, respectivamente, têm quase a mesma idade (80 e 82), podem ter cruzado suas trajetórias em diversos momentos da vida, mas vêm de origens bem diversas e trilharam caminhos distintos, no cenário da nossa música. Enquanto Hermínio, filho de empregada doméstica, chegou ao topo da carreira à custa de muito trabalho infantil e passando necessidades, Menescal sempre foi um típico representante da classe média alta, com todos os privilégios que, ainda hoje, beneficia esta casta, no Brasil.

A música a que cada um deles se associa tem, também, características distintas. Enquanto o samba tem seu caráter de resistência, de luta do povo pobre, principalmente o negro, pela busca da dignidade na sociedade, a Bossa nova foi uma música produzida e consumida pela parcela da sociedade mais afortunada.

Apesar destas diferenças socioeconômicas, ambas têm sua sonoridade particular, complexa e extremamente importante para a identidade estética de nossa música.

Os dois livros têm uma característica em comum. Nenhum deles foi escrito, diretamente, por seu personagem. O livro com as histórias de Hermínio Bello de Carvalho é uma compilação de textos publicados em outros livros de sua autoria, já fora de catálogo, além de textos esparsos recolhidos pelo incansável Ruy Castro, exímio autor de biografias importantes (Garrincha, Nelson Rodrigues, Carmem Miranda). Já as histórias de Menescal foram contadas, verbalmente, para Bruna Fonte que as transcreveu, mantendo o relato na primeira pessoa e, com isso, dando um caráter muito intimista a ele.

No livro de Hermínio desfilam personagens como Pixinguinha, João da Baiana, Cartola, Dona Zica e Dona Neuma, Elizeth Cardoso, Emilinha Borba, Isaurinha Garcia, entre tantos outros. O capítulo mais interessante é o que discorre sobre seu convívio com Aracy de Almeida, no qual se consegue enxergar a real importância desta cantora (a mais fiel intérprete de Noel Rosa) e o quanto sua imagem, estereotipada, da ranzinza jurada de programas de calouros, como os de Chacrinha e Silvio Santos, foi uma imagem fabricada para dar audiência aos programas, estratégia à qual Aracy aquiesceu e foi conivente.

No livro de Menescal, como não poderia deixar de ser, os personagens presentes são os precursores e os fundadores da Bossa nova. Interessante perceber a diferença das duas frentes em que ele atuou, no cenário musical, primeiro como músico (compositor e instrumentista) e, depois, como produtor musical e como diretor de uma importante gravadora de discos, à época. É interessante, também, verificar, nesta trajetória, o momento em que abandonou a carreira de executivo extremamente bem pago, para pegar a estrada e voltar a fazer shows pelo mundo todo, depois de 15 anos sem tocar em um violão.

Uma característica que me agrada muito, em ambos os livros, é o fato de que os relatos sobre a vida privada dos dois são praticamente inexistentes. Eu, particularmente, quando leio sobre um artista, tenho muito pouco interesse em sua intimidade. Me interessa muito mais a sua obra. E isso, os dois livros têm de sobra.


domingo, 23 de setembro de 2018

O som de Rod Stewart que me empolga


O rock e o pop de Rod Stewart nunca me empolgaram. Eu o conheci, ainda bem moleque, quando um primo me mostrou o compacto simples (há quem não saiba bem o que é isso, mas o Google sabe) daquele desconhecido cantor, com a canção Maggie May. A canção, em si, não me disse nada, mas me chamaram à atenção sua voz rouca e o arranjo em que uma guitarra acústica e um órgão produziam um som parecido ao de uma gaita de foles. Àquela época, eu nem sabia que ele tinha ascendência escocesa.

Logo depois, o cantor iniciou uma carreira de grande sucesso, que nunca me animou a comprar algum de seus álbuns. Afinal, excetuando os Beatles, a música pop (inglesa ou americana) nunca fez minha cabeça. Das terras do Tio Sam, o que sempre me seduziu foi o jazz e, sobretudo, seus Standards.

A partir de 2002, Rod Stewart iniciou uma série de gravações de discos que foram intitulados The Great American Songbook. Foram 5 volumes em que o cantor desfilava clássicos da Brodway dos anos 1930-50. Standards, como se diz por lá, dos mais importantes compositores americanos, como Irving Berlin, Cole Porter, George & Ira Gershwin, Rodgers & Hart, Johnny Mercer, Jerome Kern, Harold Arlen, entre outros.

Ella Fitzgerald já havia gravado discos com músicas de todos eles, os famosos songbooks, mas foi uma surpresa ouvir estas canções na voz do astro pop britânico. Uma feliz surpresa, devo dizer.

Nesta série de discos, Rod Stewart é acompanhado de orquestra e a combinação cai muito bem. Eu, pelo menos, gostei muito.





sábado, 22 de setembro de 2018

Estações Havana

Eu me interessei pela literatura policial de Leonardo Padura depois de ler O homem que amava os cachorros, de 2009, livro do qual já falei por aqui. Afinal, um autor que consegue manter o suspense, até o fim, em uma história que todo mundo sabe o desfecho, merece, ao menos, atiçar minha curiosidade. E foi com curiosidade que me pus a ler sua tetralogia Estações Havana. Devorei-os gulosamente.

A trama dos livros se passa nas 4 estações do ano de 1989, emblemático pela queda do muro de Berlim, na capital cubana, onde o tenente Mario Conde, detetive da Polícia, desvenda crimes.

Passado Perfeito, Ventos de Quaresma, Máscaras e Paisagens de Outono (inverno, primavera, verão e outono) foram escritos em 1991, 1994, 1997 e 1998, respectivamente e, em todos eles, além de um intrincado mistério a ser resolvido pelo indolente policial, o autor nos brinda com uma descrição detalhada da vida das pessoas na Havana daquele final dos anos 1980.

Como é de lei, em qualquer história policial, as investigações são entremeadas por relatos de romances calientes, crises existenciais, análises socioeconômicas e muito senso de humor. Assim como eu já havia constatado no livro de 2009, Padura aproveita a oportunidade para traçar um perfil da sociedade cubana, não se furtando a criticar o governo, sem cair, entretanto, na armadilha do maniqueísmo, que empobrece toda tentativa de reflexão. Saber captar, sempre, todos os lados de qualquer realidade, sobretudo aqueles que vão de encontro aos nossos preconceitos, é o que nos ajuda a enxergar o mundo com os olhos e a mente mais abertos.

A Netflix produziu e exibe, no Brasil, uma série, batizada 4 Estações em Havana, com o ótimo ator cubano Jorge Perugorría, baseada nos livros. Por algum motivo, que me escapa a compreensão, ela alterou a sequência das histórias. 

No último volume, o tenente Conde se demite da polícia para se dedicar à sua real vocação de escritor. Ele reaparecerá, entretanto, como um investigador autônomo, nos futuros livros Adeus, Hemingway; A neblina do Passado; O Rabo da Serpente e Hereges. Seu último livro, A Transparência do Tempo, deve sair em outubro, segundo promessa da Editora Boitempo.

Todos editados no Brasil, apenas Adeus, Hemingway está fora de catálogo. Publicado pela Companhia das Letras, é item raro e só se consegue achar exemplares usados e, mesmo assim, por preço bem salgado. Comprei o meu pela Amazon da Espanha, no idioma original e enviei à casa de uma amiga que mora em Madrid. Em sua última viagem ao Brasil, ela o trouxe pra mim. Nem preciso dizer que o devorei avidamente, como sempre é delicioso devorar os livros de Padura.