Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

sexta-feira, 20 de março de 2009

Desvendando Campinas

O que suscitou este post foi um comentário colocado no meu último texto, intitulado Pizza, em que eu falava, além do filme homônimo do Ugo Giorgetti, da minha queda por essa iguaria e da dificuldade em encontrá-la, com boa qualidade, fora da cidade de São Paulo. Salientei a dificuldade em encontrá-la aqui em Campinas, inclusive.

Em seu comentário, a Márcia, que chegou ao blog por indicação da Valéria Martins, fala de seu atual desafio que é o de entender melhor a cidade de Campinas, pra onde se mudou, vinda do Rio de Janeiro. Pediu mais dicas, aliás.

Isto posto, resolvi desencavar uma antiga idéia da minha cachola, qual seja, a de escrever um tipo de guia dos bares e restaurantes da cidade. É uma idéia antiga que a preguiça e, principalmente, a convicção de falta de talento me fizeram procrastinar. Já escrevi alguns textos falando de comidas e afins, mas nunca escrevi alguma coisa tão dedicada. E hoje, depois de mais de 8 anos morando na região, sinto-me motivado pela Márcia a escrever algumas palavras a respeito dos lugares mais significativos que conheci e tenho freqüentado, ao longo deste tempo. Não será um guia, já que quem precisa de guia é cego e eu não sou bengala branca e nem Santa Luzia, como diria Gilberto Gil.

Prevejo um texto longo, já que são muitos os lugares sobre os quais pretendo falar. Por isso, quem não mora na região e nem tem o menor interesse nesta cidade, sinta-se liberado para interromper a leitura por aqui e aguardar o próximo post.

Uma última sugestão à Márcia, antes que eu comece tão longa empreitada, é a de ler o blog do Bruno Ribeiro e também sua coluna Doses, que sai todo domingo, na revista Metrópole, encartada no jornal Correio Popular. O Bruno é carioca como você, Márcia, mas já vive na cidade de Campinas há uns 200 anos, pelo menos, a julgar pela quantidade de botecos que ele conhece.

Então, vamos lá.

Como o motivo desta história toda foram as pizzas, vamos começar por elas:

Como eu já disse, é difícil comê-las bem, fora da capital paulista. Por isso mesmo, os dois melhores locais para saboreá-las, por aqui, são em filiais de pizzarias paulistanas, Bráz e Babbo Giovanni. Elas se equivalem na qualidade (excelente), no preço (bem alto) e no bom atendimento. Ambas, além das redondas, oferecem algumas boas opções de entrada, como os cornicciones e as fatias de pão de lingüiça. Acaba sendo quase um empate técnico. O que desempata, a favor do Bráz, é o ambiente, um tanto mais amplo e despojado. De qualquer forma, estas duas são as melhores opções, caso se queira uma pizza irrepreensível e se tenha uma boa quantidade de dinheiro no bolso.

Para quem quer uma coisa diferente, a dica é a pizzaria Fiducia, onde a diferença é exatamente a espessura da massa, extremamente fina. Tão fina que aqueles mais glutões (meu caso), muitas vezes, acabam pedindo duas. Outra alternativa para aplacar o apetite exagerado é pedir algumas entradas bem interessantes, como o fritelle de parmesão, feito da mesma massa da pizza, e a porção de berinjela, que é servida em fatias grelhadas e temperadas, sem exagero de condimento, o que é raríssimo em se tratando de pratos à base de berinjela. É muito bom o atendimento dos garçons, informal, sem ser chato.

Uma última possibilidade é o Piola. A pizza é boa, sem ser espetacular, mas o que me incomoda é o ambiente ruidoso, um tanto fashion, com uma trilha sonora muito pop pro meu gosto e em volume acima do aceitável. É um lugar onde as pessoas vão para ver e serem vistas. Como o motivo de eu ir a uma pizzaria é comer pizza, evito ir ao Piola.

Mais do que pizza, entretanto, minha verdadeira adoração, em se tratando de comida, é a carne:

A melhor carne da cidade está no restaurante Omar Grill. Serve uma bisteca de boi que muito poucas vezes eu comi tão boa. Seu acompanhamento clássico é uma salada de acelga com alho que teria tudo pra não ter graça nenhuma e, provavelmente, nessa quebra de expectativa negativa é que está sua graça. Na primeira vez que a provei, apaixonei-me. Na segunda, percebi que nunca mais pediria este prato. É um restaurante pequeno, fica no bairro do Castelo, longe do burburinho, sem estacionamento, sem nenhum tipo de frescura, onde você é atendido pelo próprio dono. Ir ao Omar é render-se ao pecado da inveja, antes de sucumbir ao da gula, já que, enquanto se espera a chegada do seu pedido, fica-se cobiçando os pratos das mesas vizinhas, graças ao delicioso aroma que cada um deles exala.

Em segundo lugar, eu escolheria o Cenário, que trabalha com carne argentina. Aí também é covardia. Carne argentina não tem comparação. O restaurante, antes da reforma (ou mudança de endereço), era meio bagunçado. A área da parrilha era bem desleixada e a iluminação no restaurante, precária. Não fui lá depois que mudou de endereço, então não posso falar. O que posso falar é que a carne é de excelente qualidade.

Pra quem gosta de rodízio, a melhor opção é o Montana Grill, embora o preço seja muito salgado. É lá que eu levo os gringos quando vêm visitar a empresa. Eles saem de lá empanturrados de carne e caipirinha. Alguns garçons até arriscam algumas palavras em inglês, o que facilita a minha vida, já que eu tenho que ficar explicando tudo, até porque, eles ficam perguntando tudo. Sempre querem saber sobre o cupim, pois na Europa não tem gado zebu. Eles se satisfazem com a explicação de que se trata da carne da corcunda do boi. Mas, pensando bem, que diferença isso faz?

Há muitas outras churrascarias rodízio na cidade. Nenhuma merece algum comentário especial. São as que eu costumo ir, por causa do preço.

Mais caro que o Montana Grill e muito mais metido a besta é o Barbacoa, no Shopping D. Pedro. Fui lá uma vez só, com um grupo grande e achei o serviço muito irregular. Além de caro, as porções eram pequenas e eles tiveram uma dificuldade enorme em trazer todos os pratos pedidos a uma temperatura apropriada. Foi, realmente, um fiasco. Há alguns restaurantes que eu até topo dar uma segunda chance, mas a este preço, é impossível arriscar. De qualquer maneira, os gringos saíram de lá satisfeitos, inchados de tanta caipirinha, tomadas com canudo (coisa de gringo).

Outro restaurante metido a besta é o Outback, no shopping Iguatemi. Acho irritante aquele atendimento, imitando o estilo americano, em que o garçom ou a garçonete se apresenta, fala seu nome e declara que está lá pra te servir. Fala isso e nunca mais aparece em sua mesa. Pedir uma água com gelo é um verdadeiro desafio. Mas não dá pra negar duas coisas: a carne é de primeira (principalmente, se você gosta de pimenta) e há uma sobremesa que está entre as dez melhores do mundo, o Tunder, um petit gateau maravilhoso que pode ser consumido em 3, sem que nenhum dos 3 saia insatisfeito.

O Baby Beef é uma das mais festejadas churrascarias de Campinas. Não sei bem por que. Fomos lá apenas uma vez, logo que viemos de São Paulo, e não achei graça nenhuma. Por isso, não voltamos. Outro restaurante que tem alguma fama, por causa da carne, é a Cantina do Zuza. Sua proposta é tentadora: comida barata, arroz, feijão, batata frita e um bifão de contra-filé com alho. Poucas coisas me seduzem mais que isso. O resultado, porém, é decepcionante. A pior batata frita que comi na vida. O bife não tem graça nenhuma. Só o preço é que compensa. Outra churrascaria sem graça é a Sulina, na entrada de Sousas. Tem um cardápio interessante, mas os pratos, apesar de bem servidos, não têm brilho.

No assunto carne, das que mais me agradam, a costela está na frente. E, nesse caso, não há churrascaria rodízio, no mundo, que sirva costela do jeito que tem que ser. Há, felizmente, duas boas costelarias na cidade: Colonial Grill e Carro de Boi. Embora ambas sejam boas, o Colonial ganha, principalmente devido à sua salada de rúcula, que é melhor do que qualquer outra servida na cidade. Melhor até que a mais famosa, a do Hirata.

O Hirata, ao lado do Rã-chu, são duas churrascarias em que a salada de agrião é muito melhor do que as carnes. No caso do Rã-chu, aliás, o que há de menos especial no seu cardápio é justamente a rã.

Carne, porém, não é só churrasco. O melhor filé à parmegiana que já comi é servido no Bar do Alemão, uma filial do restaurante homônimo, que fica em Itu. Apesar do nome e apesar de servir uma comida alemã bastante boa, o filé à parmegiana é o prato mais pedido. O bife é enorme e, caso sejam menos de 4, à mesa, peça o mini filé que é mais do que suficiente. Indispensável pedir batatas fritas para acompanhar, que podem ser à portuguesa ou chips, ou ainda no corte tradicional. Todas são ótimas. No almoço, servem pratos executivos, individuais, e o filé à parmegiana, bem menor, figura entre as opções que podem ser consumidas com uma mesa de saladas pra lá de especial.

Outro restaurante que serve carne com muita qualidade é o Rosário, tanto no centro, ao lado do largo que lhe empresta o nome, quanto na filial do shopping Galleria. Há vários pratos saborosos de filé ali servidos. Atente apenas para deixar bem claro ao garçom como quer o ponto da sua carne, principalmente os garçons do centro, bastante mal humorados e um tanto trapalhões. Outra dica: recuse o couvert e peça somente pão com alho e a berinjela. Isso já valeria o jantar. Minha boca espuma só de lembrar.

Talvez, empatando com a carne, entre minhas preferências gastronômicas, está a cozinha regional brasileira. Sou absolutamente fanático pela comida mineira e gosto muito da baiana, também. Neste quesito, o Araxá é uma boa pedida. Tem um sistema de bufê que pode ser consumido por quilo ou, por um preço fixo você come à vontade. Nem preciso dizer qual dos dois sistemas eu escolho. Quando vou lá, volto ao bufê mais de 3 vezes. A composição dos pratos muda a cada dia. O meu dia preferido é a sexta-feira, quando tem rabada. Mas não é só isso. Tem feijão tropeiro, tutu, arroz com alho, arroz com queijo, frango com quiabo, costelinha, enfim, um desfile interminável de iguarias das Gerais, que é, em minha modesta opinião, onde se produz a melhor comida do mundo. Com um cardápio quase igual e no mesmo sistema de self-service, o restaurante Fogão Mineiro, entre Sousas e Joaquim Egídio, é uma boa opção para quem gosta deste tipo de comida.

Outro restaurante interessante é o Feijão com Tranqueira. Este nome sempre me instigou, mas demoramos para ir conhecê-lo. Afinal, fica pra lá de Joaquim Egídio, no fim da Estrada das Cabras. Digo fim, pois nunca passei de lá, mas pela lonjura do lugar, a sensação que temos é que esta estrada não tem fim. É um restaurante rústico, com vários salões e algumas mesas do lado de fora, no meio de um quintal de terra, com muitas árvores. Tem galinheiro, curral e pomar. E, mais importante de tudo, uma comida farta e saborosa. Tomar cuidado pra não pedir muita coisa. Os pratos, servidos também em meia porção, são suficientes para 4 pessoas gulosas. De qualquer maneira, a honestidade das garçonetes, em geral, as faz avisar os comensais quando começam a exagerar na quantidade dos pedidos. Se o dia for de sol e você não se incomoda com a presença de formigas, a melhor pedida é comer no quintal. Só não peça caipirinha. Eles não têm a menor idéia de como fazer esta bebida.

O restaurante Boi Falô é o mais perto de casa. Por isso, é longe pra caramba de quem está em qualquer outro lugar do mundo. Se fosse bom, eu estaria falido. Falido e satisfeito. Pena que não é. Tem um salão imenso e algumas mesas instaladas numa confortável varanda. Parece uma típica sede de fazenda. Seu fogão a lenha exibe uma infinidade de quitutes, todos de dar água na boca. Pena que o sabor deles não faz jus ao que os olhos vêem. A comida, simplesmente, não tem graça, não seduz. Com isso, o preço, que nem é tão alto, acaba sendo salgado pelo que oferece.

Sem precisar ir tão longe, há a opção, também em Joaquim Egidio, do restaurante Dona Dinha. Bem no meio da praça central do distrito, ocupa uma casa grande, no alto de um monte, ideal para os almoços de domingo. Tem as mesmas opções do Araxá e do Fogão Mineiro, só que servidos à la carte. O preço é honesto e a comida saborosa.

Gosto de comida regional brasileira, não importa qual seja a região. Se descermos de Minas e rumarmos para o extremo Sul do país, vamos encontrar, em Porto Alegre, e, mais especialmente, na região de Caxias do Sul, as sedutoras galeterias. Eu me esbaldo nesse tipo de restaurante, com seus galetinhos de primeiro canto (que dó!), sua polenta e salada de batata. É uma pena que este tipo de restaurante seja tão raro em São Paulo. É raro na capital e, surpreendentemente, existe um em Campinas, a Galeteria Via Dei Galli, no Castelo. É uma tentativa meio capenga de copiar o modelo sulista, mas não me decepciona tanto. A Clélia não se seduz com ele. Por isso, vamos pouco.

Se a comida regional é uma das minhas favoritas, dentre seus pratos minha preferência recai sobre a feijoada. Há duas muito famosas em Campinas. A do Seu Pimenta é famosa pela roda de samba, a cargo do correto grupo Velha Arte do Samba e seu repertório recheado dos sambas outrora cantados por Noite Ilustrada. A feijoada, em si, é meio insossa e eles ainda oferecem uma estranhíssima alternativa que chamam de feijoada light. É claro que passei longe desta proposta. Afinal, eu tenho um nome a zelar. A outra feijoada, no outro extremo da cidade, é servida no restaurante Vila Real, que fica no interior do hotel The Royal Palm Plaza. A principal característica desta feijoada é seu preço. Aliás, nem chega a ser um preço. É uma tentativa de extorsão. É muito caro e, o que é pior, não vale nem a metade do que eles cobram. Eles servem o alimento na forma mais abjeta que existe, ou seja, cada pertence em uma cumbuca separada. Desta forma, o lombo tem gosto de lombo, o paio tem gosto de paio e assim por diante. Tudo errado. Tudo tinha que ter gosto de feijoada. O único ponto alto é o acarajé, que servem como entrada, frito na hora, com vatapá de primeira. Mas isso não os redime do preço e nem da má feijoada. Sendo bem sincero, nunca comi, em restaurante nenhum do mundo, uma feijoada tão boa quanto a que eu faço em minha casa. Já comi, entretanto, em várias casas de amigos e familiares, feijoadas melhores do que a minha. Feijoada é coisa pra se comer em casa.

Mudando da água pro vinho, podemos falar de comida árabe. Confesso que nunca comi uma esfiha do restaurante Habbib’s. Tenho como meta continuar assim. Quando chegamos em Campinas, fomos ao restaurante Papai Salim, um dos mais tradicionais da cidade e saímos de lá com um sonho: o de que nosso adorado restaurante Almanara, um dia, viesse para Cá. Alguns anos depois, esse sonho tornou-se realidade e hoje podemos nos regalar com quibes, esfihas e a melhor kafta do universo. Em busca de um sabor diferente, fomos ao restaurante Al Sultan, mas não nos empolgamos. Um ambiente meio sombrio e uma variedade de comidas um tanto quanto tímida, no bufê. Justamente o contrário do bufê do Clos Vert, em Barão Geraldo, um restaurante árabe com sotaque francês, justamente as nacionalidades do casal proprietário da casa. Cometemos um erro na primeira vez que fomos lá. Chegamos muito tarde e uma parte dos pratos já tinha acabado. O que comemos, entretanto, agradou bastante. Certamente, iremos voltar e, desta vez, num horário mais apropriado.

A cozinha portuguesa e a alemã também têm representantes na cidade. O Cantinho Português e a Cantina Alemã são dois restaurantes bem simples, sem nenhuma afetação. Nenhum deles chega a empolgar, mas são bastante honestos. O Cantinho Português oferece pratos com bacalhau por um preço bastante convidativo se comparado a qualquer outro restaurante do gênero. O ponto forte, porém, é o almoço de domingo, onde, num sistema de bufê, pode-se comer pratos interessantes, com sotaque lusitano.

O restaurante italiano mais tradicional da cidade é o Fellini. Seus pratos são fartos e, por isso, se houver empolgação, o preço acaba saindo muito salgado e metade da comida sobra na mesa. Uma entrada pequena de antepasto e um prato de massa, podem ser divididos por 2 pessoas, sem medo de alguém passar fome. Além do mais, é imperativo deixar espaço para a melhor sobremesa da cidade, o tiramissu do Fellini. Nada é comparável a ele. É um pouco caro, mas vale a pena. Já chegamos a jantar num outro restaurante e ir pra lá só pra comer a sobremesa. Diversas vezes, compramos esta delícia para levar pra casa. Qualquer jantar vira um sucesso terminando com ela.

Pra comer frutos do mar, Idalvo’s? Talvez, pela opulência de seus pratos, principalmente suas paellas, é o primeiro nome que vem à mente do campineiro quando se fala em camarões, polvo e lula. Não é, entretanto, meu preferido. Acho seu tempero um tanto pesado. Prefiro me esbaldar no bobó de camarão do Buquet Garni ou no camarão na moranga da Casa da Moqueca, ambos com tempero mais leve e preço menos salgado.

Por falar em restaurante caro, entre os expoentes neste quesito, só conheço o Baracat. Já foi eleito o melhor restaurante de Campinas e figura, sempre, em qualquer lista dos 10 melhores. Faz uma comida de autor, super cuidadosa e as invenções do chef, Marcos Baracat, são sempre uma agradável surpresa. Só fui lá 2 vezes, em ocasiões bem especiais. A última, quando a Cecília entrou na USP. Estava combinado. É, realmente, muito caro, mas tudo é perfeito. As entradas, os pratos, a sobremesa. Destaque para a trilha sonora. Standards de jazz nas melhores vozes e no volume ideal.

Um dos encantos de Campinas é a quantidade de bairros importantes e diferentes entre si. Seja na Vila Industrial, seja no Castelo, cada lugar tem seus encantos e recantos, onde se pode comer e beber com prazer. No centro, o Éden Bar proporciona um dos bufês mais sortidos que eu já pude ver. É uma comida a quilo com muita variedade e algumas boas surpresas. Já comemos lá algumas vezes, mas, na última, um detalhe me desagradou: eu estava me servindo no bufê, tudo escolhido, me dirigindo à balança e vejo um pingo cair no prato. Olhei pro teto e vi um vazamento na tubulação do ar condicionado. Desisti do prato (que estava lindo), fiz outro, pegando coisas só do outro lado do bufê e fui ao caixa pesar. Comentei sobre o ocorrido e o funcionário olhou pro teto com algum desdém, com a expressão de quem já conhecia o problema de longa data. Nunca mais voltei lá.

Indo pra outro lado da cidade, no distrito de Joaquim Egídio, o Estação Marupiara (antigo Estação Primavera) fica num belíssimo casarão do século XIX, ao lado de uma antiga estação de trem, em meio a armazéns desativados. Ocupa uma área com muito verde e é uma delícia almoçar no jardim, ao lado das hortas em que se plantam as ervas utilizadas em suas receitas, além de flores comestíveis, utilizadas em alguns dos pratos. O prato que mais gosto é o polvo ao vinagrete, servido como entrada, mas que eu elegi como prato principal.

Meu restaurante preferido, de todos na cidade, é o Cambuquira, também em Joaquim Egídio. Não só pela comida, nem só pelo ambiente, mas pelo conjunto da obra. É absolutamente indescritível comer lá e ainda desfrutar de longas e agradáveis conversas com o chef Caco Piccoli, um dos mais inventivos da região. Tem uma carta de vinhos com preços honestíssimos e um cardápio curto e delicioso. Acho que já provamos quase todos os pratos. Seus risotos e massas estão sempre no ponto certo e sua destreza no preparo do camarão beira a perfeição. É pena que, como quase tudo em Joaquim Egídio, só comece a funcionar na quinta-feira à noite. Os almoços aos domingos são muito concorridos e, por isso, prefiro as noites de quinta ou sexta, quando, por ter menos gente, a chance de ter conversas mais longas com o Caco é sempre maior.

Campinas não oferece só bons restaurantes. Temos muito bons botecos e bares na cidade. Em todo lugar, de todos os tipos. Abomino aqueles que infestam a rua Emílio Ribas e arredores. São aqueles em que o ambiente conta mais do que a comida e a bebida, e o atendimento não é sincero. São aqueles infestados pela rapaziada mais vazia e com os bolsos mais cheios. São aqueles em que o barulho da música ruim se confunde com o burburinho das conversas fúteis. Fujo, absolutamente desta região. Mas, felizmente, Campinas tem muito mais que isso.

Quando nos mudamos para Valinhos, vindos de São Paulo, depois de perder algum tempo no circuito shoppings-Cambuí, descobrimos, finalmente, o centro da cidade. E foi lá, depois de sair de uma sessão vespertina no cine Paradiso, que entramos pela primeira vez no Tonico’s Boteco. Chegamos cedo e saímos cedo. Provamos um excelente caldo de feijão e um apetitoso escondidinho e quando já tinha pedido a conta, já estávamos nos retirando, pudemos ver, chegando ao bar, um pessoal que faria o som ao vivo. Fui com a cara da turma e saí de lá com uma sensação, como uma intuição, de que aquela rapaziada faria uma música boa. Não tive dúvida e na semana seguinte, fomos mais tarde pra lá e conhecemos o samba do Chega de Demanda.

Fiquei abismado. Nunca imaginei que aqueles jovens fossem tocar uma música de tanta qualidade. Desfilavam sambas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Silas de Oliveira, Monarco, enfim, alguns destes sambas, eu julgava que ninguém além de mim, conhecia. Fiquei encantado e viramos figurinhas carimbadas no boteco. Foi no Tonico’s que pudemos ver apresentações de Monarco, Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Nei Lopes, Guilherme de Brito, Délcio Carvalho, Luiz Carlos da Vila e Moacyr Luz. Que outro lugar trouxe gente tão importante do samba aqui pra Campinas? Nenhum, tenho certeza.

Faz tempo que não vou ao Tonico’s. Na verdade, cansei deste bar. E não é pela comida, pela bebida ou pela música que ali toca. Tudo isso continua muito bom. O que eu cansei foi do público mal educado que freqüenta o bar. Um público ruidoso que aumenta o volume da conversa quando a música começa, competindo com o samba, desrespeitando o artista. Pior que isso, desprezando o artista. Parei.

Somos mais de restaurantes do que de bares, mas foi nos bares da cidade que conhecemos tantos músicos locais, muitos com qualidade. E tudo começou no Deck Sousas que, no início, tinha música só nas tardes de domingo. E era só música instrumental. Era delicioso passar lá as tardes lendo os jornais e ouvindo Anderson Alves e Marcelo Faleiros, clarineta e violão, desfilando choros, tangos, valsas, Guinga, Pixinguinha ou Piazzolla. Aos poucos, o Elder começou a trazer música nas outras noites, o bar começou a encher, o cardápio diversificou-se, o local virou um sucesso. As tardes de domingo são disputadíssimas, mas o som não é mais aquela coisa dolente e instrumental. Virou uma festa. Uma festa com muita alegria e animação. Já não dá mais pra ler meu jornal.

Mas foi a partir daí, foi a partir do Deck, que começamos a desbravar os bares da cidade e através deles poder conhecer Tatiana Rocha, Pezão, Albano, Jorge Matheus, Ding Dong, Adriano Dias, Chiquinho do pandeiro, Grupo Bons Tempos e Adriana Davi, que sumiu. Que saudade de Adriana Davi, a melhor cantora da cidade, em minha opinião. Faz tempo que não vejo toda essa gente, mas foi nos bares que os conheci, a todos. No Pantanal, que não tem nada de bom pra comer, pude ouvir o Albano tocando com o Jorjão. O Empório do Nono com o grupo Choro Bandido tocando toda segunda feira; a Estação Santa Fé com um programa mais jazzístico; a Casa São Jorge, onde vi pela primeira vez As Chinelas fazendo suas estripulias; o Fran’s Café que tinha Thaïs e Henrique, mas não vendia cerveja (como pode um lugar não vender cerveja?), mas parece que agora vende. E tem o Bar Pessoa.

O Bar Pessoa é um caso raro. Fica dentro do hotel The Royal Palm Plazza, um dos mais caros da cidade, o que nos leva a pensar que lá tudo é muito caro. Acontece que não é. Os preços são os mesmos de qualquer outro dos bares que eu falei. Mas a atração principal nem é a comida ou a bebida. O que há de mais especial neste bar é poder ouvir a pianista Janice Pezoa e seu grupo nas noites de quinta feira, desfilando standards de jazz e clássicos da bossa nova. Poucos programas são tão relaxantes e prazerosos como este.

Há dois bares que não têm música ao vivo, mas que têm o melhor chope e o melhor petisco da cidade: o Giovannetti, com suas várias opções de endereço, e o City Bar, com seu irresistível bolinho de bacalhau.

E como se não bastasse a cidade ter essa infinidade de opções gastronômicas, das quais listei, com certeza, menos de 10%, há excelentes opções nas cidades vizinhas. É o caso de Valinhos, onde a cozinha italiana do restaurante Laura e Francesco é de uma criatividade a toda prova. Além da extrema amabilidade, a Laura não tem medo de arriscar e funde a Emília Romana com a capital cearense. Que o diga seu talharim com patolas de caranguejo ou com negro de lula. Simplesmente imperdíveis. E, saltando do requinte ao rústico, ainda em Valinhos, o Rancho Arizona oferece uma comida farta e deliciosa, por um preço criminoso, de tão baixo. Seu corte mais famoso, o bife do capitão, alimenta 5 pessoas esfomeadas, sem chance de dúvida. O Zé e a Ivani nos recebem com um apuro tão grande que até comove. Mais comovente ainda foi o restaurante ter sido indicado pelo meu cardiologista.

Andando um pouquinho mais, pela estrada que sai de Valinhos, antes de chegar a Itatiba, o Bistecão do Dito é o melhor restaurante que eu conheço nesta cidade. Com mesas enormes e bancos de madeira, um bufê rústico de saladas, provê, junto com um feijão simples e caprichado, o acompanhamento ideal para uma das 4 opções de carne que ele oferece: cupim, bisteca de porco, frango e o bistecão de boi. Nunca tenho dúvida, peço sempre o bistecão e peço mal passado, sangrando, que é como eu gosto de comer a carne de boi. O ambiente é todo aberto, o que faz com que tenha muita mosca por perto. Isso é incômodo, mas o sabor suculento da carne compensa.

Algumas vezes, vale a pena andar um pouco mais para comer algo especial. Em Jaguariúna, o Bar da Praia é um programa válido pra comer frutos do mar e tomar batidas inusitadas. Em Holambra, o Vila de São Paulo une música e gastronomia de forma simétrica. Um cardápio onde se sobressai a excelente panqueca com frutos do mar e palmito, combina, à perfeição, com uma acústica tão apurada que, em qualquer ambiente da casa, tem-se uma sonoridade perfeita, até mesmo no banheiro, acreditem. Vale a pena ir pra Indaiatuba comer na Kostela do Japonês, onde a carne é assada numa churrasqueira a lenha, no lugar do carvão. Isso dá à costela um sabor inusitado e viciante. Acompanha ainda um bufê onde o feijão é tão bom que chega a emocionar.

E é sempre um grande prazer rodar 1 hora até chegar em Piracicaba pra saborear, à beira do rio, uma posta de filhote acompanhada de cuscuz de camarão. Dentre uma grande variedade de restaurantes, o Dezoito’s é o melhor. Nem precisa experimentar todos. Tem coisas que a gente sabe, sem mesmo saber como.

E finalmente, além de comer comida, beber bebida e ouvir um som que alegre os sentidos, há os dias em que se deseja comer besteira. Comer no meio da rua. E não há besteira mais deliciosa do que pastel. Acontece que nenhum pastel da região me animou. Nem o do Voga, nem o do Ô Pastel!, nem o do Caiu do Céu, em Valinhos. Nem mesmo o de qualquer feira, de Barão Geraldo ou do Cambuí. Nenhum deles chega aos pés do pastel do Mauro, da feira perto de onde eu morava, em São Bernardo do Campo, na grande São Paulo.

Vejam só, falei tanto e voltei ao ponto de partida.
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sábado, 14 de março de 2009

Pizza

Conforme o tempo passa, vão diminuindo as certezas absolutas que a gente tem na vida. Minha meta é envelhecer sem nenhum dogma. Tenho alguns, ainda, e o maior deles é que só se deve comer pizza em São Paulo.
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Já comi pizza em muitos lugares. No Norte, no Sul, na Bahia, em Minas, na Itália. Nenhuma delas chega aos pés das que se come aqui. As melhores pizzarias na cidade são a Castelões, no Brás, a Speranza, em Moema, a Camelo, na rua Pamplona. Tinha o Carmo, no Ipiranga, a melhor de todas, mas não existe mais. A maioria das boas pizzarias, as mais tradicionais, tem um cardápio reduzido. Não cede a invenções ou aos modismos.

Quando me mudei pra Campinas, foi difícil achar uma pizzaria de qualidade. Hoje, tem o Bráz e o Babbo Giovanni, não por coincidência, filiais das casas da capital.

Embora eu aprecie muito uma pizza bem feita, me seduz também comer pizza no balcão, no meio da noite, em lugares pouco badalados do centro da cidade. Em Campinas, à que eu mais recorro é a da Padaria Sacramento, com sua massa bolachuda, de pão, e seu recheio exagerado, parecendo mais uma torta. Nunca neguei que sou meio varzeano.

De qualquer forma, comer pizza fora de São Paulo sempre me deixa em estado de alerta. Em Porto Alegre, colocam catchup; no Rio de Janeiro, esquartejam a pizza, como se ela fosse vítima de maníaco. Qualquer uma dessas atitudes dá prisão preventiva aqui por estes lados. Afinal, quem faz essas coisas é capaz de cometer os crimes mais hediondos.

Todo esse preâmbulo é só pra falar do filme Pizza de Ugo Giorgetti. Trata-se de um documentário em que ele percorre todos os cantos da cidade e interpreta a relação de amor que a população tem com essa iguaria. E com a sensibilidade que lhe é peculiar, tira o foco das redondas e dos restaurantes, para colocar a luz sobre as pessoas. Assim, disseca as discrepâncias sociais da nossa sociedade, sem transformar o filme num libelo sociológico que o tornaria chato. Mostra as diferenças entre a região chique e a periferia de forma escancarada. Desde a pizzaria A Tal da Pizza, na Granja Viana, onde uma brotinho pode custar 40 reais ou a Veridiana, em Higienópolis, com música ao vivo de piano e baixo acústicos, até as pizzarias dos bairros da periferia, como a Tropical, no Jardim Ângela, onde a pizza grande custa 6 reais.

Mostra a Castelões, a mais tradicional, onde não entra o frango e nem o Catupiry e mostra uma pizzaria na favela Heliópolis, a maior do Brasil, com seus 70 mil habitantes. As pizzarias de bairros tradicionais como a Moca ou o Belém, onde se come de pé, no balcão, e a Pizzaria do edifício Copan, que atende aos mais de 2 mil moradores, a maioria solitários, incluindo as putas, aposentados e travestis. Todo mundo gosta de pizza.

É particularmente belo o enfoque que o filme dá no trabalho dos entregadores de pizza, com suas motos ou mesmo aqueles que se vestem das geladeiras de isopor e fazem a entrega a pé. Conversa com eles de forma direta e amistosa e essas conversas é que rendem os depoimentos mais saborosos do filme. É também divertida a conversa com os pizzaiolos da periferia, a grande maioria migrantes que nunca tinham experimentado pizza nas cidades de origem. Um deles foi experimentar a primeira pizza de sua vida, depois de fazer algumas delas.

O filme é, fundamentalmente, noturno, já que pizza não combina com a luz do dia. Mas, pra quem acha que todas as pizzarias na cidade abrem à noite e fecham muito antes do sol raiar, o filme revela uma realidade que era pra mim desconhecida. Numa manhã de sábado, na fila de espera para entrar no presídio, está lá o entregador de pizza pra proporcionar uma refeição especial no dia de visita. É a última e única cena melancólica do filme. Talvez, por uma coisa ou a outra, a mais marcante.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Qual Brasil?

Celso Viáfora é um compositor, cantor e violonista paulistano de muito pouca notoriedade. A mídia o despreza, embora suas músicas tenham qualidade muito acima da média. Não está sozinho nesta tribo, já que fama e talento nem sempre andam juntas nesse nosso mundo. Arrisco-me a dizer que quase nunca.

Parceiro de Ivan Lins, César Brunetti e Chico César, é em Vicente Barreto que encontra o companheiro mais constante. Seu disco A cara do Brasil é o que eu mais gosto porque ele abre mão de qualquer rótulo ou sotaque ao longo de todas as faixas. A faixa título, aliás, é genial, já que nos força a uma reflexão sobre o nosso país e nos cobra uma decisão a respeito de qual Brasil é o que cada um de nós quer?

O Brasil é um caboclo sem dinheiro
Procurando o doutor n'algum lugar
Ou será o professor Darcy Ribeiro
Que fugiu do hospital pra se tratar?

O Brasil é o que tem talher de prata
Ou aquele que só come com a mão?
Ou será que o Brasil é o que não come
O Brasil gordo na contradição?

O Brasil Mauro Silva, Dunga e Zinho
Que é o Brasil zero a zero e campeão
Ou o Brasil que parou pelo caminho:
Zico, Sócrates, Júnior e Falcão


Que cada um faça a sua escolha. Não dá pra ficar em cima do muro.
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terça-feira, 3 de março de 2009

O que é certo e o que é direito

Muitas vezes temos que enfrentar o conflito entre fazer o que é certo e o que é direito. Fazer aquilo em que, sinceramente, acreditamos ou aquilo que se espera da gente. E o que isso traz de bom é o exercício do auto questionamento.

É sobre isso, fundamentalmente, que trata o filme O Leitor, de Stephen Daldry. O ponto alto do filme é a presença de Kate Winslet , uma atriz que melhora no mesmo compasso em que amadurece. Estou falando tanto seu talento quanto de sua beleza. Apesar de ter participado de algumas bobagens como Titanic ou Em busca da terra do nunca, teve participações exuberantes em Contos proibidos do Marques de Sade ou Pecados íntimos. Nestas oportunidades, soube exibir um magnífico misto de talento e sensualidade.
O que mais me seduz em Kate Winslet é seu corpo honesto de mulher real. Ela exibe sua nudez com a dignidade de quem não tem nada para esconder. E não faz isso baseada em curvas perfeitas, mas em curvas verdadeiras. Com isso, sua imagem é muito mais convincente do que qualquer Lolita perfeita dos tempos de hoje. E, por isso mesmo, muito mais excitante.

Como tudo tem um ponto de equilíbrio, o filme conta, também, com a participação de Ralph Fiennes, desfilando sua sengracice crônica e desempenhando o mesmo papel de sempre. O mesmo sonso que já aparecera no interminável O Paciente inglês ou no tolerável O jardineiro fiel.
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Mas nem uma nem outro é o que se tira de melhor deste filme. O melhor é justamente a reflexão que ele provoca, já durante a exibição. O conflito interior, a dúvida de como se deve agir, a tentação de não se fazer o que é certo pra se fazer o que é direito. E, de uma maneira sutil, o filme mostra o protagonista indo na direção certa, tomando a decisão mais verdadeira. A decisão baseada no respeito e no amor ao ser humano. Como toda decisão deveria ser tomada.

domingo, 1 de março de 2009

Corrida

Num post anterior, eu disse que a corrida pela sucessão presidencial está a todo vapor. E está mesmo. E nada disso é oficial, seguindo o velho modus operandi que caracteriza essas coisas no Brasil.

Lula está se esforçando pra emplacar Dilma como candidata petista, apesar das fortes resistências dentro do partido. Uma Dilma de rosto novo e de simpatia nova, ambos fabricados. Dilma não é a preferida pelo partido. E o partido tem muita gente de maior expressão política do que ela. O partido tem Tarso Genro, tem Suplicy, tem Mercadante. Mas Lula escolheu Dilma.

Acho que Lula não acredita na vitória de Dilma. Aliás, isso nem lhe importa. Afinal, Lula sabe que se elege com facilidade em 2014. Ele vai sair do governo em 2010, com um altíssimo grau de popularidade, e entregar o país ao seu sucessor num momento de enorme crise financeira. Serão 4 anos de penúria e muita dificuldade, que irão corromper a popularidade de qualquer presidente, seja ele quem for. Com isso, em 2014, sua vitória é uma barbada.

A mídia tem insistido na polaridade entre Dilma e José Serra. E Serra tem alimentado isso, fingindo que Aécio Neves não existe. Mas Aécio existe. E Aécio tem Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral. Não dá pra ganhar a eleição só com Minas, mas dá pra atrapalhar a eleição alheia. Aécio dará trabalho para Serra. E apesar de toda uma carreira política gaúcha, Dilma é mineira. Será mais mineira que nunca, nesta campanha. Comerá pão de queijo e angu, como poucos. Falará uai, se necessário.

O PMDB pode ser o fiel da balança nestas eleições. Ganharam a presidência da câmara e do Senado. Digo ganharam pois trata-se de 2 PMDBs. O PMDB de Sarney é pró Dilma. O PMDB de Michel Temer é pró Serra. E essa divisão pode ser notada, facilmente, pela entrevista do Senador Jarbas Vasconcelos (PMDB/PE) à revista Veja, na semana retrasada. Nesta entrevista, ele critica fortemente o seu partido, mas direciona as críticas a Sarney, poupando Temer. Critica Dilma e elogia Serra. Tudo isso com um tom de indignação incomensurável. Fosse ele um centroavante derrubado na área, receberia o cartão amarelo.

Mas o PMDB sabe ser tão versátil (pra não dizer safado), que nada impede que tudo isso mude, invertendo-se, eventualmente. Do PMDB pode se esperar tudo, menos que fique totalmente na oposição.

Enfim, o jogo está na mesa. Dilma e Serra tentando ocupar os espaços e Aécio tentando atrapalhar. E Lula assistindo a tudo isso, de camarote, e planejando 2014. E com essa mesa posta, temos ainda Ciro Gomes se fingindo de morto.
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Onde será que anda Ciro Gomes?