Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Mais do mesmo

Pessimista que sou, fui instado a pesquisar, por certa expectativa que percebi, em dois grandes amigos, a respeito do Partido Novo e do Partido Raiz. Mais do que por esperança, o que me moveu foi a convicção de que estes amigos, apesar de militarem em campos distintos, do ponto de vista ideológico, são, ambos, pessoas de boa fé e, mais do que isso, absolutamente abertos ao debate lúcido com as opiniões divergentes.

Antes de qualquer coisa, tenho que confessar que não conhecia nenhuma das duas propostas e, por isso, fui diretamente às suas páginas oficiais, para conhecê-las. Apesar de, rapidamente, perceber em cada uma delas a posição no espectro ideológico que os orienta (o Novo à direita e o Raiz à esquerda) o que identifiquei de mais importante foram as similaridades entre os dois e não as divergências. E estas similaridades, infelizmente, não representam virtudes, sob o meu ponto de vista.




A primeira similaridade é o primarismo da mensagem. Ambos se apresentam como um movimento quase apolítico (como se isso fosse possível) e como se fossem detentores de ideias novas e inéditas.

O Novo, basicamente, defende o individualismo como agente de mudanças políticas e o mercado como agente regulador da economia.  Nenhuma diferença entre o que propõe o DEM e o que defendia o PFL ou o PDS, seus antecessores. Uma investigação mais minuciosa nos valores expostos no site, entretanto, revela uma profusão de propostas pueris, dignas de um TCC. Frases como “acreditamos no valor fundamental das liberdades individuais, incluindo direitos e deveres” são evidências do que estou dizendo. Ressalta o vigor com que defende a igualdade perante a lei, mas não dedica nenhuma palavra sobre algum instrumento que garanta igualdade de oportunidades a todos.

O Raiz, basicamente, propõe o rompimento com o individualismo e defende uma política que privilegie os interesses coletivos. Sua orientação é guiada por um documento chamado Carta Cidadanista, cujo teor, apesar de recheado de nobres intenções, não apresenta nada que já não esteja contido nos documentos originais do PT ou dos partidos oriundos das dissidências petistas mais autênticas, como o PSOL. Faz uso de um discurso ambientalista que não difere do utilizado pela REDE de Marina Silva, numa clara intenção de “roubar-lhe” um espaço neste mercado, em moda. E, quando explicita o método de decisão interno, cita um tal de consenso progressivo que nos faz imaginar aquelas incansáveis discussões de centros acadêmicos universitários onde a vaidade tem muito mais valor do que qualquer resultado prático.

A maior similaridade entre os dois, entretanto, reside na insistência em se apresentar como um movimento e não um partido político, o que, em si só, já representa uma tentativa de embuste da opinião pública. São (ou serão) 2 partidos políticos e, com eles, teremos 34, no total. Isso me parece um exagero. O discurso dos dois é que se tratam de movimentos (eu chamaria de agremiações) de pessoas cansadas dos políticos corruptos e desonestos que existem nos outros 32 partidos, como se o discurso fosse, por si só, garantia de que nestes dois novos (novos?) não haverá nenhuma pessoa corrupta ou desonesta.

Não precisamos de 34 partidos políticos, até porque não existem 34 formas diferentes de enxergar o país (nem mesmo o mundo). O que precisamos é de partidos mais programáticos e menos personalistas. De partidos mais ideológicos, dentro dos quais, quem estiver em desacordo com a direção, lute, com argumentos, para derrotar as posições contrárias, em lugar de sair (ou seria fugir?) e fundar uma nova agremiação. Quando isso ocorrer, teremos, talvez, no máximo, 5 partidos, o que cobrirá todo o espectro político ideológico, com intersecções. E, neste caso, que cada partido aprimore suas ferramentas internas para extirpar o que houver de mal dentro dele. Se a solução continuar sendo a fundação de novos partidos, logo teremos 70.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Lidando com os monstros

Na sede de ler livros de história e política, acabo, displicentemente, lendo menos livros de ficção e literatura do que eu deveria. Se com os livros de história e política eu obtenho informação, fundamental para eu entender melhor o mundo, é a literatura que me provoca as reflexões necessárias para que eu possa entender a mim mesmo.

Após terminar de ler 1822, o segundo da trilogia do Laurentino Gomes, resolvi ler ficção e fui procurar algo na estante. Eu poderia optar por algum do Moacyr Scliar ou do Cony, apostando, portanto, que iria me satisfazer. Queria, entretanto, alguma coisa nova pra mim, um autor que eu não conhecesse, queria assumir algum risco. Escolhi A Suavidade do Vento, de Cristóvão Tezza.

Diferentemente do Moacyr Scliar ou do Cony, em que os primeiros parágrafos já costumam me enfeitiçar, o texto de Cristóvão Tezza demorou para engrenar e me conquistar. O lado positivo desta característica, porém, é que a conquista foi acontecendo aos poucos e, no ápice, me ganhou por completo.

O livro trata, sobretudo, de como temos, todos nós, que lidar, diariamente com nossos monstros, bichos criados por nós mesmos e o quanto é importante, mais do que tentar matá-los (tarefa impossível), aprender a conviver com eles.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2015

Mais um pedaço da história

O livro 1822, diferentemente da obra anterior de Laurentino Gomes, não conduz a história pela via temporal. Em lugar disso, trata a independência do Brasil a partir das principais personagens e das passagens mais pitorescas que envolveram o evento. Nem por isso é inferior ou menos delicioso de ler que o antecessor. Muito pelo contrário, esta forma distinta de conduzir a narrativa traz um sabor todo especial para quem tem interesse nesta importante etapa da construção do nosso país.

O maior mérito do livro é o de desfazer alguns mitos, começando com as condições e o ambiente em que ocorreu a proclamação da independência. A primeira informação é a de que no fatídico dia 7 de setembro, a situação intestinal do futuro imperador era absolutamente desconfortável, o que o obrigava a interromper, sistematicamente, a viagem de Santos a São Paulo, para aliviar-se no denso matagal que cobria as margens da estrada. Além disso, por uma questão de conforto, D. Pedro montava uma mula, nem de longe parecida com o exuberante cavalo que Pedro Américo pintou no famoso quadro Independência ou morte, 50 anos depois.


Outro mito desfeito pelo livro é o de que a independência foi um movimento pacífico. Na verdade, o que Laurentino mostra é que muita gente morreu, tanto do lado português quanto do brasileiro, principalmente nas regiões Norte e Nordeste, onde algumas batalhas bastante sangrentas foram travadas.

Apesar da personagem principal, evidentemente, ser o imperador, o livro dedica capítulos a outras importantes figuras como a princesa Leopoldina, José Bonifácio, o Chalaça e a Marquesa de Santos. E trata de questões emblemáticas como a questão do Dia do Fico, da constituinte e da influência da maçonaria na independência.

Por fim, mostra como o imperador, apesar de um homem iletrado, quase bronco, teve habilidade política para conseguir apoios, principalmente no Nordeste, onde dominavam os poderosos senhores de engenho de açúcar, comprometendo-se com eles de que não iria acabar com a escravidão, apesar de ser, tanto ele quanto Bonifácio, convictos abolicionistas.

Apesar de não ser historiador, Laurentino Gomes trata a história com muita honestidade, pesquisando incansavelmente os dados, que, aliada à qualidade do texto, proporciona aos aficionados por história, como eu, uma leitura sempre prazerosa.

domingo, 13 de dezembro de 2015

Grupo vocal com graça

Quem acompanha o que eu escrevo no blog sabe que eu gosto de conjuntos vocais. Sabe que prefiro os conjuntos masculinos e minhas referências são, nesta ordem, o MPB4 (de antes da saída do Ruy), Os Cariocas e o Boca Livre. Não sou muito fã de grupos vocais femininos, mas apreciei os grupos mistos como o Céu da Boca ou o Garganta Profunda.

Fazia tempo que não surgia um grupo vocal novo que me chamasse a atenção e eis que, este ano, tomei conhecimento do Ordinarius, do Rio de Janeiro. Seu som tem pouca intrusão instrumental e, quando tem, é quase sempre apenas percussiva.

O que traz de novidade, entretanto, é que, aliada a uma excelente qualidade vocal, eles capricham bastante nuns vídeos postados em sua homepage. São sempre graciosas as apresentações.

Seu primeiro CD, lançado em 2012, traz um repertório bastante diversificado, e de muita qualidade. Agora, saiu um novo CD, chamado Rio de Choro, bem interessante, também. Prefiro, entretanto, o primeiro.


Enfim, pra quem aprecia a música vocal bem executada e, também, a música brasileira de primeira qualidade, ouvir o grupo Ordinarius é garantia de ter as duas coisas reunidas.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

A arte de entrevistar alguém

Rolava o ano de 1974. A ditadura militar e sua companheira inseparável, a censura, dominavam os cenários político e cultural do Brasil. Um ano antes, o compositor Chico Buarque escrevera, com Ruy Guerra, a peça Calabar, o elogio da traição, cuja montagem foi proibida, como foi proibida a menção do nome do personagem principal em qualquer veículo. Com isso, o disco Chico canta Calabar, com as canções da peça, teve que ser lançado com o título Chico Canta, com a maioria das letras mutiladas.

O cerco se fechava em torno do autor e foi ficando claro que mesmo se ele colocasse melodia na poesia batatinha quando nasce, seria censurado. A única saída, portanto, foi lançar um disco em que cantava músicas de outros autores, intitulado Sinal Fechado, mesmo nome de um samba de Paulinho da Viola, última faixa do LP (quem não souber o que isso significa, pergunte ao pai ou ao avô).

Entre canções de Caetano Veloso, Gilberto Gil, Tom Jobim e outros nomes consagrados da música popular brasileira, figurava um samba de dois autores desconhecidos, Julinho da Adelaide e Leonel Paiva. O samba chamava-se Acorda Amor. O disco foi liberado sem maiores problemas, já que a censura não descobriu que a dupla, na verdade, fora inventada por Chico e que o samba era, na realidade, de sua autoria. Apesar de toda a truculência da época, a criatividade do artista encontrou espaço para este tipo de molecagem com os gorilas. Maior molecagem que esta, entretanto, foi a ideia do escritor Mario Prata, em meio ao sucesso do disco (e do samba), de entrevistar Julinho da Adelaide e publicá-la, no jornal Última Hora, em plena edição de 7 de setembro, dia da pátria. Pra quem vivia nos subterrâneos do país e sabia o que estava acontecendo, a entrevista foi hilária.

Lembrei-me desta história e da habilidade do escritor em entrevistar personagens fictícios quando comecei a ler seu mais novo livro, Mario Prata entrevista uns Brasileiros. São 22 entrevistas que vão de Pedro Álvares Cabral a Rui Barbosa, passando por Dom João VI, Dom Pedro I, Tiradentes, Xica da Silva, entre outros. Todos já mortos, há décadas.

Como criatividade pouca é bobagem, uma das melhores entrevistas é a que ele faz com Bentinho, personagem do livro de Machado de Assis, Dom Casmurro, talvez o único entrevistado vivo, já que uma personagem de tal importância na nossa literatura, não morre nunca. Há anos que a grande discussão acadêmica nos meios literários é a de saber se Capitu deu pra Escobar ou não. Na entrevista, esta questão não é nem sequer abordada. Através de trechos cirurgicamente pinçados do livro, o entrevistador consegue mostrar que o ciúme que Bentinho sentia, talvez não fosse de Capitu e sim de Escobar, o que faz o entrevistado ficar numa situação de saia justa.

São textos rápidos, inteligentes e cheios de picardia, como é típico de tudo que escreve Mario Prata. E como se não bastasse, em meio a toda graça das entrevistas, ainda é possível aprender um pouquinho de história.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Prazer na leitura

Todo texto linear, bem ordenado, com princípio, meio e fim, oferece muito conforto para qualquer leitor, até mesmo os menos treinados neste hábito. Características assim são muito boas de se encontrar em textos jornalísticos, livros didáticos ou bulas de remédio. Em literatura, porém, alguma dose de inovação, um pouco de divagação, enfim, qualquer coisa que desafie o leitor a sair da linha reta e force a mente a pensar fora da caixa é sempre bem-vinda.

Lembro-me do desconforto que senti ao ler meu primeiro Saramago. Acho que foi O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Aquela forma de utilizar as vírgulas e as letras maiúsculas, em lugar do travessão, para indicar os diálogos, causaram-me algum susto, mas, depois, aquilo passou a parecer normal, minha mente se acostumou e o prazer com a leitura se instalou em mim.

Pois foi exatamente esta mesma sensação que experimentei ao ler Mamma, son tanto Felice, de Luiz Ruffato, o primeiro dos 5 volumes que compõem a coleção Inferno Provisório.

Lançado em 2005, este primeiro livro não foi fácil de ser encontrado, já que estava esgotado em todas as livrarias que procurei (reais e virtuais). Já havia adquirido os demais volumes e para iniciar a leitura pelo começo apelei para um site de livros usados, a Estante Virtual. O dono anterior, ao que parece, não se interessou nem mesmo por folheá-lo, já que o livro chegou em estado impecável. Talvez tenha ganhado de presente do amigo secreto da firma. Talvez preferisse ter ganho um livro de autoajuda. Enfim, pude colocá-lo à frente dos outros quatro na minha estante.

O pouco que conhecia do texto de Luiz Ruffato eram suas colunas no jornal El País Brasil. Gosto de lê-las e, a partir de uma entrevista no rádio, interessei-me pelo projeto Inferno Provisório, cujo objetivo é falar da formação e evolução do proletariado brasileiro, desde os anos 50 até o início do século 21, por meio da saga de uma comunidade de imigrantes italianos e seus descendentes, no interior de Minas Gerais e na cidade de São Paulo, conforme li numa reportagem sobre o escritor.

Este primeiro volume presta-se a mostrar a formação desta comunidade e a forma que o autor encontrou para evidenciar a disparidade entre os personagens foi apresentá-los de maneira destacada de uma narrativa linear e encadeada. Reside aí a razão do desconforto inicial com a leitura. A história de cada personagem é quebrada para dar início à narrativa de uma outra, repetidamente.

Aos poucos, porém, esta sucessão de quebras deixa de incomodar e, em lugar disso, colabora para que se construa uma crescente curiosidade a respeito do que virá nos próximos volumes.


domingo, 18 de outubro de 2015

Lusofonia

“O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa.
– Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver.
 – Vais fazê-la à minha frente – repetia.
Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos. Vais fazê-la.”

Este é o primeiro trecho do livro Aprender a rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares. Encontrei-o numa livraria de Lisboa, procurando título de outro Tavares, o Miguel Sousa, e peguei-o por erro. Bastou ler este primeiro trecho para decidir comprá-lo.

Os portugueses são muito ciosos de seus escritores e tecem loas aos mais clássicos e famosos, como Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago. Há nas estantes de suas livrarias, entretanto, espaço para muitos outros escritores de língua lusófona, inclusive brasileiros, diferentemente das lojas daqui. Com isso, é possível encontrar nas livrarias da capital portuguesa obras de escritores de Angola, como Gonçalo.   

Escrito em três partes, Força, Doença e Morte, mostra o protagonista, Lenz Buchmann em dois momentos, primeiro como o médico mais competente da cidade e, depois, como um político poderoso e influente. Cada parte do livro é dividida em vários capítulos e cada capítulo, também, subdividido em outros. Isso torna a leitura ágil e dinâmica, sem tirar-lhe a intensidade.

Ao longo de toda a narrativa, ou seja, em qualquer das três partes e em qualquer dos dois momentos, o traço mais marcante do caráter do personagem manteve-se intacta: sua arrogância. Por isso, nem quando ele estava salvando vidas com sua perícia cirúrgica e nem quando estava enfraquecido, à beira da morte, o leitor é levado a ter qualquer sentimento de simpatia ou piedade por ele.

Não só no Brasil, a literatura feita em língua portuguesa mostra-se pungente. Nada como viajar para descobrir isso e, assim, abrir-se para uma viagem mais poderosa que é a leitura.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sentir, mais que entender

Certa vez comentei com um amigo que era impossível viver com uma mulher que não gostasse de João Gilberto. Nem me lembro se ele concordou comigo, mas isso pouco importa. O que importa é que eu realmente acreditava nisso naquela época e, talvez, ainda acredite hoje.

Sei que há pessoas que não gostam de João Gilberto e há, aliás, quem o odeie. Tenho muita dificuldade em entender isso, assim como tenho a mesma dificuldade em entender como alguém possa gostar destas duplas modernas de música sertaneja ou da chamada música techno. Esta minha dificuldade deve-se, muito provavelmente, à escolha errada do verbo. Em lugar de entender, eu estou pensando em sentir.

O maior defeito que as pessoas apontam em João Gilberto é que suas gravações, assim como as apresentações ao vivo, são muito longas e que ele repete as músicas muitas vezes, o que torna a audição enfadonha. Não sinto assim. Consigo perceber, em cada repetição, alterações sutis na harmonia, enriquecendo a execução de cada canção. Minha convicção, aliás, é que cada alteração, se não é planejada, surge de uma busca do novo, da perfeição.

João Gilberto tem hoje 84 anos, vive recluso num apartamento no Rio de Janeiro, esquecido por todos, até por mim, talvez. O que me fez lembrar dele foi o livro Ho-ba-la-lá, do jornalista alemão Marc Fischer, que juntou algumas economias e viajou ao Brasil com a intenção de encontrar-se pessoalmente com João Gilberto, mesmo sabendo que esta empreitada é inglória. Nesta tentativa, acabou se encontrando com vários personagens que gravitam ou gravitaram em torno do cantor, o que ia enriquecendo o rol de informações que tinha do artista, seu ídolo. 

Com isso, no livro, vão se desvendando facetas, algumas conhecidas, outras inéditas de João, numa narrativa que instiga a curiosidade do leitor pra saber se ele irá, ou não, atingir seu intento.

Se ele conseguiu, não sou eu quem vai contar. Não sou estraga prazeres.


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

A história e o tempo

“A violência é a parteira da história” é um dos aforismos mais citados de Karl Marx e, possivelmente, o mais mal interpretado. Por estar presente justamente no capítulo de O Capital, que fala sobre a acumulação primitiva, esta frase, muitas vezes, é interpretada como uma incitação à violência, cujo intuito seria disseminar o ódio de classe para mover a luta pelo poder. Mais do que uma incitação à violência, esta é nada mais que uma constatação de como as sociedades têm se transformado ao longo da história.

Pois é exatamente à clarificação desta constatação que se presta o livro A história do mundo para quem tem pressa, da historiadora britânica Emma Marriott. Nem mesmo um historiador imbecil ou irresponsável (o que não é o caso), imaginaria ser possível resumir 5 mil anos de história em 200 páginas. Apesar do que está grifado como subtítulo em sua capa, esta tarefa é tão obviamente impossível que ninguém pode acusar a editora de propaganda enganosa.

O maior (se não o único) mérito do livro é expor a história da civilização e suas transformações através de uma linha do tempo, pontuando seus principais acontecimentos com causas e consequências, sem a preocupação de se deter em detalhes ou análises mais elaboradas. Com isso, não tece nenhum juízo de valor e, portanto, consegue o distanciamento perfeito que toda análise histórica deveria ter.

O livro tem início nos anos 3.500 antes da era cristã, discorrendo sobre os antigos impérios, em todos os continentes. Passeia pela evolução dos primeiros impérios europeus, os novos impérios, a era dos descobrimentos e termina às portas da eclosão da segunda guerra mundial. Não passa deste período, justamente para preservar o distanciamento já citado.

Nesta exposição, fica muito claro que todas as transformações pelas quais passou a organização da espécie humana, nos quatro cantos do mundo, tiveram como instrumento a violência, o que acaba por corroborar a afirmação de Marx.

Nas poucas páginas do livro, só há duas passagens em que a autora cita o Brasil. Uma delas é a respeito dos efeitos que a grande depressão da década de 1930 provocou no país, citando Getúlio Vargas, que ela define como alguém que “embora governasse como um ditador, modernizou o Brasil, com reformas fiscais, educacionais e agrárias, melhorando assim as condições de vida dos pobres”. A outra passagem é para informar o vergonhoso fato de termos sido a última nação do ocidente a abolir a escravidão.

Enfim, um livro leve e que se consegue ler rapidamente, mas sem pressa.


sábado, 1 de agosto de 2015

Minha cantora preferida

Tenho lido por aí que Leny Andrade é a maior e melhor cantora de jazz do Brasil. Nunca a ouvi por este viés. Na verdade, sempre a considerei a melhor cantora do Brasil. Ao menos, é a cantora que eu mais gosto de ouvir. Sempre. Hoje, acho que esta minha preferência é dividida com Mônica Salmaso. E nem acho possível classificá-la como uma cantora de jazz. Leny canta samba e canta boleros divinamente. Na verdade, Leny canta bem o que quer que seja. Nenhuma cantora que eu conheço tem o domínio de ritmo e divisão que ela tem. E canta qualquer gênero musical. Sua única imposição é só cantar música boa, como gosta de repetir.

Acaba de lançar o CD Iluminados, só com músicas de Ivan Lins e Vitor Martins, acompanhada de músicos do primeiro time. Um amigo gostava de dizer, ainda na época do vinil, que eu tinha mais discos de Leny Andrade do que ela própria. Não sei se eram mais, mas com certeza não eram menos, já que tinha todos.

Ela surgiu no início da década de 1960, cantando num trio de Sérgio Mendes em boates do emblemático Beco das Garrafas, época da efervescência da Bossa Nova. Era um tempo em que o Brasil parecia que iria decolar e que o golpe militar conseguiu abater.  

A primeira vez que a vi ao vivo foi no início dos anos 1990, na cidade de Tübingen, na Alemanha. Seu show antecedia uma apresentação de Gal Costa. A maioria absoluta do público estava ali, maciçamente, para ver a cantora baiana, muito mais famosa. Mas o que me demoveu a viajar os 45 Km que separavam esta cidade de Stuttgart, onde eu trabalhava na época, foi a presença de Leny no show.

A segunda vez que a vi ao vivo foi 25 anos depois, no mês passado, aqui em Campinas, no Almanaque Café. Voz já cansada, aos 72 anos, mantém o mesmo pique.

É sempre um prazer ouvir uma grande cantora. Minha preferida. Sempre.

(Ivan Lins e Vitor Martins) – Leny Andrade

sábado, 11 de julho de 2015

Erotismo com elegância e ardência

Mario Vargas Llosa é um escritor peruano muito profícuo, que também se aventurou pela política. No campo político tem um pensamento bastante conservador, o que pode ser percebido através da leitura de sua coluna no jornal espanhol El País. É como contador de histórias, entretanto, que se expressa de forma mais proveitosa.

Uma das características que mais me encantam em sua prosa é a capacidade de dosar o erotismo com elegância e ardência, ao mesmo tempo. Tive meu primeiro contato com isso há mais de 40 anos, lendo Pantaleón e as visitadoras e com Travessuras da menina má, há menos de 10 anos. Em ambos, o erotismo era um ingrediente utilizado com sabedoria. Exatamente entre estas duas obras, escreveu Elogio da madrasta, que eu só vim a ler agora.

Neste livro minúsculo, em lugar do erotismo ser um ingrediente da história, é, na verdade, seu único e principal tema. Apesar disso, consegue trabalhá-lo com diversos enfoques, utilizando a técnica de alternar a narrativa da trama central, bem simples, aliás, com interpretações criativas de quadros de Francis Bacon e Fra Angelico, entre outros. Como a edição que li era um livro de bolso, não pude apreciar, de forma apropriada, as obras de arte, mas isso não teve importância graças ao velho amigo Google, que me salvou. Nesta página é possível degustar, em boa resolução e em cores, as obras utilizadas no livro.

Quando digo que a trama é bem simples, isso não quer dizer que a narrativa não seja soberba. Na verdade, até mesmo um capítulo que ele dedica a temas escatológicos é escrito com graça e engenhosidade.


Isso é Mario Vargas Llosa. Quem dera todos os pensadores conservadores tivessem tanta perícia ao escrever ficção.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Vozes que se calam

Já escrevi, num post de 2007, o quanto eu gosto de conjunto vocais. Falei da minha simpatia pelos Cariocas e pelo Boca Livre, mas ressaltei que minha preferência sempre foi o MPB4. No texto de 8 anos atrás, eu falava do quanto me desagradou a saída do Ruy, substituído por Dalmo Medeiros, o que descaracterizou a sonoridade do grupo.

A sonoridade do MPB4, aliás, foi o que sempre me seduziu. Enquanto eu achava que Os Cariocas abusavam do uso de falsete, o som do Boca Livre me parecia, às vezes, um tanto meloso, sem falar do repertório, com o qual tinha um pé atrás. No caso do MPB4, o repertório me parecia irrepreensível.

Voltando à sonoridade do grupo, a principal razão da minha preferência eram os arranjos vocais, quase sempre a cargo do Magro. E agora, desde 2012, com sua morte, este som, definitivamente, não tem mais chance de voltar a soar. Por mais contraditório que isso possa parecer, o que me agradava em seus arranjos era a incidência dos trechos em uníssono que ele utilizava nas canções. Em geral, os arranjadores vocais fazem exatamente o contrário, ou seja, harmonizam cada nota da melodia com um acorde, de forma que, em grande parte das vezes, o resultado fica pesado. O que o Magro fazia era justamente usar o canto em uníssono para ressaltar belos acordes, quando, realmente, eles pudessem ter um efeito especial.

Este tipo de detalhe sempre me interessou e, por isso, foi com grande entusiasmo que comprei o livro Vozes do Magro, lançado ano passado. Nele, o maestro comenta detalhes dos arranjos de cada faixa dos primeiros 14 discos do grupo, ou seja, a primeira metade de sua discografia. Felizmente, os meus discos prediletos (Cicatrizes, Palhaços e Reis, 10 anos depois e Canto dos Homens) encontram-se nesta relação, até porque, minha preferência recai justamente nesta fase do quarteto.

Entremeando dados técnicos musicais e detalhes das gravações com “causos”, alguns pitorescos, o autor não se furta em reconhecer deslizes, revelando os arranjos que, em sua opinião, não ficaram tão bons, seja por falta de competência, seja por preguiça. Esta sinceridade acaba por enriquecer mais ainda os comentários. Entre um disco e outro, entre uma faixa e outra, o livro vem recheado de depoimentos de artistas que privaram da convivência com o Magro e o MPB4.

No fim do livro há, ainda, uma série de partituras com os arranjos do maestro com alguns dos sucessos do grupo que, por mais de 40 anos, embalaram meus sentidos e o de muita gente de minha geração.

Resistindo, pra não perecer, o MPB4 convidou Paulinho Malaguti para substituir Magro no grupo e assumir a responsabilidade pelos arranjos. Malaguti fez um trabalho competente como arranjador dos grupos Céu da Boca e Arranco de Varsóvia, mas, como eu já disse em meu texto de 2007, nunca me interessei por conjuntos vocais mistos. Se já era difícil eu me interessar pelo som do MPB4 sem o Ruy, imagine agora, sem os arranjos do Magro. Definitivamente, as vozes do MPB4, para mim, se calaram. Fica, enfim, a consolação de poder ouvir os seus discos antigos.

(João Bosco e Aldir Blanc) - MPB4

sábado, 2 de maio de 2015

O jazz e o pop

Quem acompanha este blog sabe que minhas preferências musicais recaem, principalmente, sobre a música brasileira, sobretudo o samba. Isso não quer dizer que eu seja refratário a outros gêneros musicais. Na verdade, tenho muito apreço pelo jazz e pela música norte-americana que foi produzida nas décadas de 40 e 50, do século passado. Me encantam os standards escritos por compositores como os irmãos Gershwin, Irving Berlin, Jerome Kern, Richard Rodgers e Cole Porter, meu preferido. Todos eles produziram canções inesquecíveis que me seduziram (e ainda seduzem), interpretadas pelas vozes de Frank Sinatra, Ella Fitzgerald, Carmen McRae, entre tantos outros. E, dentre tantos, tenho clara predileção por Tony Bennett.

A música americana mais moderna me interessa muito pouco. Com o rock flertei na mocidade e o resquício de interesse ficou restrito a alguma produção nacional. Já em relação à música pop americana, meu interesse é zero. Não me instigam os artistas e, muito menos, a forma com que este produto cultural (ou seria subproduto?) é trabalhado pelo mercado.

E foi por isso, justamente, por esta quase implicância com a música pop, que me surpreendi com meu interesse e, mais que isso, minha satisfação com o resultado de um disco de Lady Gaga. Devo confessar que nunca havia ouvido nada que esta moça tenha gravado e nem mesmo seu rosto era familiar pra mim. O que suscitou minha curiosidade foi o fato do disco em questão ter sido gravado com Tony Bennett, um trabalho cujo repertório é composto por standards de jazz, a maioria em dueto com o meu cantor americano preferido. E não é que a voz da moça é boa? Ela tem um timbre forte e uma boa noção de divisão musical, característica imprescindível para interpretar este tipo de música.

Com acompanhamento irrepreensível, o disco é muito agradável de se ouvir. Não sinto muita propensão em ouvir outras coisas gravadas por ela, mas, ao menos, agora, sei que se trata de uma cantora vigorosa, ou seja, não é só mais um rostinho feio no mercado da música pop. 

Cheek to Cheek (Irving Berlin) – Tony Bennett & Lady Gaga

sexta-feira, 1 de maio de 2015

Lusitanos

Gosto dos livros da coleção Povos & Civilizações da Editora Contexto. A proposta é analisar a característica de uma determinada sociedade, utilizando a história de seu povo como o fio condutor desta análise. Já li Os Americanos, Os Espanhóis e Os Argentinos, nessa ordem. Agora, terminei de ler Os Portugueses, da professora Ana Silvia Scott, que segue a mesma proposta dos anteriores.

O que notei, entretanto, é que, neste caso, a utilização da história foi bem mais apurada do que os que li anteriormente. Isso, aliás, foi o que mais me seduziu no livro, já que sei muito pouco sobre a história de Portugal. Como a própria autora ressalta, parece que a historiografia brasileira desinteressou-se dos lusitanos, depois da partida da família real de volta à Europa. Só voltamos a nos interessar por eles a partir da Revolução dos Cravos.

Desta maneira, foi muito interessante saber mais sobre o período sob Salazar, por exemplo. Sempre identifiquei este regime com o de Francisco Franco, na Espanha ou Benito Mussolini, na Itália, mas, pude perceber que houve uma série de características únicas na ditadura portuguesa, que durou mais de 40 anos, já que não terminou com a morte de seu criador, tendo sobrevivido, ainda, mais seis anos pelas mãos de Marcelo Caetano.

Como não podia deixar de ser, o livro trata da relação entre brasileiros e portugueses, tanto aqui quanto lá. Mostra, principalmente, como esta relação, por parte dos portugueses, sofreu, ao longo dos anos, alterações constantes, indo da mais profunda admiração até o sentimento de desprezo, não chegando a atingir, entretanto, o patamar de intolerância que é dispensada aos imigrantes africanos.

Outra característica que é salientada no texto é a capacidade de adaptação deste povo a novas culturas. Sendo uma gente que emigra muito, herança do tempo das grandes navegações, os portugueses conseguem a façanha de, ao mesmo tempo, manter vivas as tradições lusitanas e adaptar-se ao modo de vida das sociedades pra onde migram.

Enfim, é um livro valioso pra quem, como eu, interessa-se em entender, ao menos um pouco, como pensam todos os outros povos.


sábado, 25 de abril de 2015

Safadeza divertida

Quem vê a capa e olha o título do livro O cheirinho do amor –Crônicas safadas, logo imagina que se trata de uma coletânea de histórias de sacanagem. E é isso mesmo. Mas não é só isso. Embora, em cada texto, o escritor Reinaldo Moraes destile toda sorte de histórias em que o sexo é protagonista, não se furta a inserir estes relatos nos cenários mais variados possíveis. Desta maneira, as tais crônicas exibem sua safadeza envoltas em ambientes ligados ao cinema, teatro e literatura, além do jornalismo, entre outros. Assim, o escritor empresta um ar de seriedade aos textos, sem, entretanto, perder o estilo sacana de escrever. Com isso, demonstra que é possível ser sério e divertido ao mesmo tempo.

Reinaldo abusa de trocadilhos, dos mais criativos aos mais infames (estes, os melhores), mostrando sempre o quanto o sexo comanda o estilo deste escritor sexagenário (com o perdão do trocadilho, também infame, de minha parte). O vocabulário que utiliza não tem frescura e não se percebe uma preocupação em ser politicamente correto, como, tampouco, há a preocupação com o inverso. É um vocabulário de quem não aprendeu sobre a vida mundana em aulas de educação sexual no colégio, mas sim, na rua, como era praxe para uma geração em que o máximo que havia como suporte teórico para este aprendizado eram os catecismos de Carlos Zéfiro.

Para fazer um resumo sobre tudo isso, nada melhor que reproduzir o que Matthew Shirts escreveu na orelha do livro: “Se você gosta de sexo – do tema, ao menos – e de uma boa história, vai se deliciar com este livro”. Concordo e dou fé.

sábado, 18 de abril de 2015

Motivações do impedimento

A corrupção é um tema muito sério, ninguém duvida disso, mas tenho insistido que esta é apenas uma parte da reflexão que a sociedade tem que exercitar. Além do mais, este mote é antigo e já foi parte da estratégia política em diversos momentos de nossa história. Carlos Lacerda fez isso desde os anos 40 e a receita era simples e batida: foque as denúncias numa só uma direção, em apenas um partido ou determinado político, como se este ou aquele, fosse o inventor da corrupção no Brasil. Lacerda fez isso com Getúlio, com Juscelino, com Jango. Nunca conseguiu se eleger. Outros, entretanto, conseguiram, utilizando o discurso de limpeza, como Jânio e sua vassourinha e Collor com a fama de caçador de marajás. Em ambos os casos, vimos no que deu.

O que temos agora, é uma tentativa insistente, capitaneada pelo PSDB, de passar para a sociedade a ideia do impeachment. Foi a estratégia escolhida pelos tucanos. Para isso, conta com a poderosa ajuda da grande mídia.

Me pus, então, a refletir sobre qual é a verdadeira razão dos tucanos insistirem tão tresloucadamente nesta estratégia. A resposta é clara: eles não têm voto. Não tiveram em 2014 e não terão em 2018.

Muita gente pode imaginar que eles quase chegaram lá, que no 2° turno, apenas 3,46 milhões de votos deixaram Aécio distante de Dilma, mas o raciocínio é um pouco menos simplista. Se nos lembrarmos do 1° turno, veremos que enquanto Dilma teve 41,5% dos votos, Aécio teve 33,5%, ou seja, uma diferença de quase 9 milhões. No segundo turno, a majoração deveu-se muito mais ao antipetismo do que a uma preferência pela penugem tucana. Só continuou na disputa porque o PT, durante a campanha, decidiu concentrar em Marina Silva sua artilharia, ou seja, concluiu que seria mais difícil vencer a candidata acriana do que o mineiro.

Além do mais, devemos atentar ao fato de que o voto em Aécio, no 2° turno, foi extremamente multifacetado, indo desde a parcela da classe média descontente com os rumos do governo petista, até os radicais de direita que defendem a volta do regime militar, passando pelos homofóbicos, pelos racistas e outros exemplares desta diversa fauna que compareceu às manifestações de 15 de março. A percepção de que esta mistura é muito heterogênea, aliás, foi o que motivou o fracasso das manifestações de 12 de abril, quando a maioria da classe média ficou em casa, preferindo não se misturar com os radicais (no que fez muito bem).

Agora, vamos brincar de futurologia. Se Dilma continua no poder, com o PT bastante desgastado durante os próximos 3 anos, mesmo que Lula saia candidato, dificilmente conseguirá, no primeiro turno, mais do que os 30% de votos que tradicionalmente o partido tem. Podemos contar que Marina (se conseguir registrar seu partido) estará, novamente, na disputa e deve manter os 20 milhões de votos que conseguiu em 2014 e 2010. O PMDB deve lançar candidato próprio, possivelmente Eduardo Cunha, o que garante um grande contingente do eleitorado conservador (sobretudo os evangélicos). Além disso, tem Bolsonaro, que já declarou que sai candidato (embora não tenha partido, ainda), e que deve aglutinar a preferência dos radicais de direita, saudosos dos tempos em que a caserna é que mandava no Brasil. Por fim, o PSOL, que teve quase 2% de votos em Luciana Genro, deve crescer um pouco mais, principalmente se apresentar um candidato com propostas mais consistentes. Aí, basta fazer as contas. O que sobra para o PSDB é muito pouco.

Os tucanos sabem disso. Eles são profissionais da política e fazem contas. É um partido que tem caciques muito experientes (o que falta é índio), mas com grande dificuldade de seduzir as massas, já o disse, publicamente, Fernando Henrique. Além do mais, como se não bastasse o desgaste que a disputa interna entre Alckmin e Aécio deve gerar, qualquer uma das soluções deve levar José Serra para outro partido, provavelmente o novo PSD de Gilberto Kassab.

A saída do impeachment, portanto, foi a estratégia escolhida. Levaria o PMDB ao poder (seja com Michel Temer, seja com Eduardo Cunha), que ficaria desgastado nestes 3 próximos anos de governo e, com isso, os tucanos teriam alguma chance de ir para o segundo turno.

Taí: agora ficou mais fácil entender esta renitente insistência no impedimento da presidente do Brasil. Puro desespero de causa.


sábado, 11 de abril de 2015

Selvageria

É bastante comum utilizarmos os termos humano ou humanitário de forma positiva. Da mesma maneira, quando classificamos alguém como desumano, estamos quase sempre indicando uma atitude horrível. Credito este fenômeno a certa condescendência exagerada com nossa espécie. É como uma puxada de brasa coletiva pra nossa sardinha.

Se pensarmos bem (ah! como é difícil pensar com isenção), ao mesmo tempo em que salientamos a capacidade que o homem tem de ser solidário, carinhoso, altruísta e generoso, deveríamos também reconhecer que, dentre os seres de todo o reino animal, talvez sejamos o único exemplo capaz de escravizar, torturar e ser cruel com outro da mesma espécie. Muitos animais utilizam a violência como forma de sobrevivência. Para conseguir seu alimento, garantir seu espaço, perpetuar a espécie, diversos exemplares da fauna terrestre são capazes de trucidar sua presa, mas nunca veremos um leão matar um veado e abandonar a carne e nem uma gaivota tirar um peixe do mar só para fazê-lo sofrer. Podemos dizer que, se fizessem isso, estes animais estariam tendo atitudes humanas.

Entre os sentimentos exclusivos dos humanos podemos citar a inveja e o ódio. Entre as atitudes que somos capazes de tomar, talvez a mais vil seja a vingança. Sim, por que a vingança é a maldade praticada apenas pelo fato de termos sido, também, vítimas. É a vingança que faz com que legitimemos nosso algoz, dando a ele a justificativa para ter sido cruel conosco, ao mostrarmos que somos capazes de ser como ele é, muito mais do que somos capazes de perdoar.

E é justamente sobre a vingança que trata o ótimo filme Relatos Selvagens. Produção conjunta entre Argentina e Espanha, o filme é ágil e perspicaz. São 6 histórias muito rápidas que prendem a atenção do espectador durante todo o tempo e, apesar do tema ácido e também da violência das cenas, é um filme muito engraçado. Como se isso não bastasse, tem Ricardo Darín em seu elenco, sem dúvida nenhuma o melhor ator latino-americano dos dias atuais.

Nenhuma das histórias é ruim, o que vai fazer com que cada um que assistir ao filme tenha a sua preferida. Dirigido pelo argentino Damián Szifron, criador da excelente série Los Simuladores, de 2002 que, lamentavelmente fez pouco sucesso quando exibida no Brasil, o filme mostra como o cinema argentino está mais evoluído do que o brasileiro, na atualidade.

É duro reconhecer, mas além da superioridade da carne e do futebol, temos que engolir o fato de que o cinema dos hermanos é muito mais instigante do que o nosso. Isso dá uma certa raiva, motivada por alguma inveja. Dois sentimentos absolutamente humanos.



domingo, 29 de março de 2015

Educação

Embora Cid Gomes só tenha falado verdades absolutas quando foi à Câmara dos Deputados, talvez por isso mesmo, teve que deixar o cargo de ministro da Educação. Desde o início, achei um erro da presidente ter feito o convite para Cid ocupar esta pasta. Não digo isso por achar que um político não possa assumir um ministério, qualquer que seja. Aliás, quem pensa assim deve ter achado errado o fato de José Serra, que é político e não médico, ter sido ministro da Saúde ou Fernando Henrique, que também é político e não economista, ter sido ministro da Fazenda.

Dilma, em minha opinião, depois de ter batizado o seu segundo mandato com o lema “Brasil, pátria educadora”, deveria ter colocado um educador para comandar a pasta. O erro, agora, foi corrigido.

Confesso que, entre os cotados, minha escolha teria sido na direção do professor Mário Sérgio Cortella. Ele mesmo, entretanto, declarou que teria recusado, caso fosse convidado, por considerar que o que o Brasil precisa fazer como política para a Educação é uma coisa que ele não tem condições de capitanear.

O que mais me agrada em Mário Sérgio Cortella, que é filósofo, é o fato de que comunica o conhecimento com extrema simplicidade e, com isso, consegue fazer a mensagem chegar a todos, democratizando, desta forma, a informação. Além disso, tem bom humor. Fanático por etimologia, utiliza a origem das palavras para explicar as ideias e desfazer as confusões mais comuns.  

Apesar de, evidentemente, eu reconhecer a importância de se ensinar matemática, gramática e ciências, o que falta na escola, em minha opinião, é estimular o pensamento. É mostrar que as ideias devem brotar de nossa própria reflexão, provocadas pela leitura, pelo conhecimento. É ensinar que as informações não devem ser consumidas e sim digeridas, questionadas. É isso que prega a filosofia. Copiando o professor Cortella, faço uso da etimologia pra dizer que a palavra filosofia vem do grego philos ou philia que quer dizer amor ou amizade; e sophia, que significa sabedoria; ou seja, literalmente, significa amor ou amizade pela sabedoria.

Quem assumiu a pasta da Educação é outro filósofo, o professor Renato Janine Ribeiro. Me parece uma escolha acertada. Para quem quiser conhecer um pouco do pensamento de ambos, sugiro a leitura do livro Política: Para não ser idiota, escrito em 2012, fruto de um instigante diálogo entre os dois. Como não poderia deixar de ser, o livro começa com a definição da palavra idiota que vem do grego idiótes e significa aquele que só vive a vida privada, que recusa a política, que diz não à política.

A partir daí, inicia-se uma discussão extremamente proveitosa, que passa por temas que vão do engajamento político das pessoas e desemboca na ecologia, passando pelos conceitos de democracia, ética e poder. É um livro pequeno, pouco mais de cem páginas, que se consome (ou digere) com avidez.

Outra dica é acessar o site da CBN para ouvir a divertida entrevista do Professor Cortella no programa Fim de Expediente, na última sexta-feira.
 http://cbn.globoradio.globo.com/programas/fim-de-expediente/FIM-DE-EXPEDIENTE.htm

sábado, 14 de março de 2015

House of Cards

Estou absolutamente empolgado com a série House of Cards, produzida e veiculada pelo Netflix. Sei que estou atrasado, já que acaba de estrear a terceira temporada e eu estou finalizando a primeira, ainda. Mas sou assim mesmo, meio lerdinho.

O enredo trata das tramoias e negociatas que envolvem um figurão do poder legislativo americano, do partido Democrata. Poderia ser do Republicano, isso pouco importa. Como o modelo presidencialista americano guarda fortes semelhanças com o nosso, é instigante assistir aos jogos nos bastidores do poder e fazer associações com o que ocorre por aqui.

Quem acompanha o blog lê, nos textos sobre cinema, o quanto eu aprecio, num filme, duas coisas: uma boa interpretação e mulheres bonitas. House of Cards tem ambas. Tem o protagonismo do excelente ator Kevin Spacey, brilhante em Seven – Os sete crimes capitais, Os suspeitos, A negociação, Beleza americana, A corrente do bem, entre outros. Tem, ainda, a beleza madura de Robin Wright e a jovialidade de Kate Mara, mostrando que gostosura não tem idade.


sábado, 7 de março de 2015

Pensamento de esquerda e socialismo

O atual momento político que vive o Brasil não é muito diferente de outros pelos quais o país já passou. São os mesmos ingredientes, quais sejam um governo que descontenta a classe dominante que, por sua vez, domina os canais de comunicação hegemônicos e, estes, com seu poderio, manipulam a repercussão das notícias, tanto as falsas quanto as verdadeiras, de acordo com seus interesses, controlando o foco, a intensidade e o grau de dramaticidade com que as veicula. Foi assim em 45, em 54, em 64, em 84 e em 89, ao final dos dois governos de Getúlio, na deposição de Jango por um golpe militar, na campanha das diretas já e na eleição de Collor, respectivamente. Nada de novo.


Ou quase nada. O que há de novo são as tais redes sociais. Este fenômeno, que não existia antes, tem servido de veículo pra classe média expressar sua revolta (tanto a autêntica quanto a manipulada), mas tem servido, também, para demonstrar a falta de capacidade da nossa sociedade em interpretar com clareza os fatos. Além disso, estas redes, principalmente o facebook, tem escancarado a absoluta falta de cuidado em se informar, antes de sair teclando.

O que mais tem me chamado a atenção (afora a intolerância com a opinião alheia) é a confusão que se faz entre pensamento de esquerda e socialismo. Mistura-se temas e assuntos extremamente díspares e, às vezes, até contraditórios. Joga-se num mesmo balaio, os regimes da antiga União Soviética, Venezuela e Cuba, a eleição de Dilma, o PT, o regime democrático e até o fascismo de Benito Mussolini. Mistura-se, chacoalha-se, e, como num estômago preguiçoso, vomita-se um resultado que pareceria até engraçado, não cheirasse tão mal.

Parte-se do princípio de que ser de esquerda é ser socialista. Nada mais primário. Para começar, é necessário entender que, mais importante que saber se alguém (ou algum grupo) é de esquerda, é entender se esta pessoa (ou grupo) está à direita ou à esquerda e de quem. Por exemplo, nos Estados Unidos, o partido Democrata está à esquerda do partido Republicano e, evidentemente, isso não quer dizer que Barak Obama ou Hilary Clinton, sejam socialistas.

A definição de esquerda e direita já sofreu inúmeras mudanças de interpretação, desde que foi utilizada pela primeira vez, durante a Revolução Francesa, quando designava a posição política dos grupos que compunham a Assembleia Nacional daquele país, em função da posição em que se sentavam. Por muito tempo, caracterizou-se o pensamento de esquerda como aquele que defende o total controle do estado sobre a economia de um país. Esta definição, há tempos, já caiu em desuso e há os que defendem a ideia de que esta dicotomia já não faz mais sentido nos dias de hoje, posição com a qual não concordo.

A conceituação que mais me agrada é a que foi utilizada pelo pensador italiano Norberto Bobbio em seu livro Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política, de 1994 e sobre qual já escrevi aqui. Segundo este conceito, o que diferencia o pensamento de esquerda do de direita é a defesa de um modelo em que o estado garanta a igualdade de oportunidades para todas as pessoas em contraponto a uma ideologia que defende a regulação das desigualdades pela ação “natural” do mercado.

Entre as várias propostas teóricas de forma de governo, seja capitalista ou socialista, democrática ou autoritária, a que mais me parece capaz de proporcionar um estado de bem-estar aos cidadãos é a Social Democracia. Sou fervoroso fã deste modelo de governo e cito exemplos de aplicação desta política que promoveram avanços econômicos e sociais em seus países: Willy Brandt na Alemanha de 1969 a 1974, Felipe Gonzales na Espanha de 1982 a 1996 e Mário Soares em Portugal de 1986 a 1996, sendo que os dois últimos eram líderes de partidos socialistas e todos sabemos que nem Espanha e nem Portugal são países socialistas. O que ocorreu, em todos estes casos, foi um claro desenvolvimento socioeconômico após um período longo e dramático sob regimes autoritários.

Nestes três casos, foi um pensamento de esquerda (na concepção definida por Bobbio) que impulsionou estes países para o crescimento, sem transformá-los em regimes fechados.


domingo, 1 de março de 2015

Gostar de samba

Todos que acompanham o que escrevo neste blog, há bastante tempo, sabem que, dentre vários gêneros de música que eu aprecio, o samba é o que mais me comove. Gosto de samba desde que gosto de música e, cada vez mais, é a ele que eu recorro quando quero me extasiar. Aprecio muito a Bossa Nova e o que se convencionou chamar de MPB, mas gosto da simplificação que o grande Wilson das Neves faz sobre isso: é tudo samba!

Contudo, nunca me empolguei muito com desfiles de escola de samba, principalmente por um motivo: muito raramente os sambas-enredo são bons. Notem que não utilizei a palavra nunca, já que há, ao longo da história, casos de sambas belíssimos utilizados pelas escolas para os desfiles, mas são casos raros. Eu estaria sendo leviano se não citasse Aquarela Brasileira (Império Serrano, 1964); Yayá do cais dourado (Vila Isabel, 1969); Onde o Brasil aprendeu a Liberdade (Vila Isabel, 1972); Os Sertões (Em cima da hora, 1976); 100 anos de liberdade, realidade ou ilusão (Mangueira, 1988); Kizomba, festa da raça (Vila Isabel, 1988) e Liberdade, liberdade, abre as asas sobre nós (Imperatriz Leopoldinense, 1989). Existem outros, certamente, mas estes são meus preferidos. São poucos, entretanto. Muito poucos.

Fico, por isso, intrigado. Por que é que a grande maioria dos sambas utilizados pelas escolas para o desfile do carnaval são tão ruins? Se a maioria dos nossos mais geniais sambistas são intimamente ligados às escolas? Por que instituições que têm, ou tiveram, entre seus componentes, gente como Cartola, Nelson Cavaquinho, Monarco, Ivone Lara, Carlos Cachaça, Paulinho da Viola e Martinho da Vila, não conseguem apresentar, todos os anos, sambas geniais para mostrar na avenida? Talvez seja porque quem comanda as escolas de samba, na verdade, não goste muito de samba.

Assim, fiquei surpreso quando vi que a escola Viradouro, este ano, utilizou uma junção de dois ótimos sambas de Luiz Carlos da Vila, Nas veias do Brasil e Por um dia de graça, num enredo. Morto devido a um câncer, em 2008, recebeu esta justa homenagem.

Luiz Carlos da Vila teve este apelido por fazer parte da escola de samba de Vila Isabel ou por ter sido morador da Vila da Penha, ou por ambas as razões, o que motivou o compositor Nei Lopes a chamá-lo de Luiz Carlos das Vilas. Foi um compositor muito criativo, que ficou mais conhecido do grande público, após ter sido um dos autores do samba enredo Kizomba, festa da raça. Apesar de ótimos, não são seus sambas-enredo que me encantam. Ele é capaz de uma poesia de primeira linha, aliada a criações melódicas e harmônicas como poucos.

Em foto ao lado de Wilson Moreira, Aldir Blanc e Moacyr Luz

Vi que a Viradouro ficou em último lugar no desfile e caiu para a segunda divisão. Não sei o motivo e nem tenho muita curiosidade a este respeito. Só sei que, dificilmente, uma outra escola tenha apresentado um samba tão bom como o da Viradouro. Pode ter caído por algum problema com fantasia, porta-bandeira ou carro alegórico. Ou então, caiu porque os julgadores destes desfiles não gostam muito de samba.

Além da Razão (Luiz Carlos da Vila, Sombra e Sombrinha)

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Criatividade e Ousadia

Há sete anos escrevi este post comemorando o surgimento de um novo sambista. Naquela ocasião do lançamento de seu primeiro CD, o que mais me chamava a atenção era o repertório, extraído da lavra de gente como Paulinho da Viola, Ivone Lara, Paulo César Pinheiro e Luiz Carlos da Vila. Naquele primeiro disco, as composições de sua autoria representavam apenas um terço do disco. Esta participação, como autor, foi aumentando e, no segundo CD, os sambas de sua autoria já significavam mais da metade e, no terceiro, eram a totalidade do disco, sempre em parceria com gente de primeira linha como Moacyr Luz ou Zé Renato.

Mais uma vez, Moyseis Marques vem inovar, com um quarto CD, Casual Solo, em que se acompanha de um instrumental bem minimalista. E a inovação vem no fato de que expande seus horizontes ao pôr os pés bem fora do terreno do samba, sem abandoná-lo. Incursiona na área do jazz e do reggae com a delicadeza que só quem sabe como pisa no terreiro alheio pode fazer.

Não se limita ao gênero musical a sua inventividade, já que combina, numa mesma faixa, um samba de Luiz Carlos da Vila com a música mineira de Toninho Horta e Fernando Brant. A combinação resulta perfeita, mostrando que criatividade é uma coisa poderosa quando acompanhada de ousadia.

Horizonte Melhor/ Aqui, ó (Luiz Carlos da Vila e Adilson Victor/ Toninho Horta e Fernando Brant)