Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

sábado, 8 de novembro de 2014

Combinações felizes

Vez ou outra, me repito neste espaço, principalmente quando falo de música. Talvez isso ocorra por eu estar ficando, cada vez mais, refratário com as novidades, fico tecendo loas àqueles cantores, músicos e letristas que mais admiro.

Já falei aqui que a cantora que mais tem me dado prazer em ouvir é Mônica Salmaso. Seu timbre me encanta e, talvez, eu só encontre paralelo, em questão de alumbramento, quando ouço Leny Andrade. Já fiz posts falando de Guinga, o compositor que mais me arrebatou depois de João Bosco. E entre os letristas, quem segue este blog, principalmente desde os tempos mais longínquos, sabe de minha predileção por Paulo César Pinheiro, ameaçada apenas pela admiração por Aldir Blanc.

Pois mais uma vez, estou aqui, me repetindo, mas para falar de um disco que reúne estes 3 artistas ao mesmo tempo. Trata-se de Corpo de Baile, o novo CD em que ela canta, exclusivamente, músicas feitas em parceria pelos dois.

Uma das coisas que mais me seduziram, no disco, foi a presença de algumas canções que eu ainda não conhecia. Apesar da minha má vontade em relação a novos artistas, tenho muita ânsia em conhecer obras novas daqueles que eu admiro. É este o caminho que me permito para degustar o novo.

Como sói acontecer nos discos desta cantora, as faixas contam com um naipe de instrumentistas de primeiríssima qualidade, suportados, na maioria delas, pelo piano de Nelson Ayres e os sopros de Teco Cardoso, o que, por si só, já é garantia de bom gosto e refinamento.

A faixa Curimã, uma das minhas preferidas, conta, ainda, com as participações luxuosas de Marlui Miranda numa fala incidental em língua indígena e da percussão do insuperável Robertinho Silva.

Só não dá pra falar que é o melhor disco de Mônica Salmaso, pois não se sabe o que virá no próximo. Só se sabe que será algo ainda melhor.

Curimã (Guinga & Paulo César Pinheiro) – Mônica Salmaso

domingo, 2 de novembro de 2014

Beatles ou Stones?

Gosto de ouvir o programa Fim de expediente, na rádio CBN, toda sexta-feira, às seis da tarde, quando volto do trabalho. Apresentado pelo ator Dan Stulbach, ao lado do escritor José Godoy e do economista Luiz Gustavo Medina, o programa é leve e divertido, embora, às vezes, aproxime-se do limiar de um ponto de vista conservador, numa expressão do pensamento da sociedade coxinha.


O programa é sempre mais interessante quando é ao vivo e recebe algum convidado e, nestas ocasiões, promove o quadro Boxe a três, em que são apresentadas algumas opções para a escolha da plateia, do convidado e dos próprios apresentadores. As opções variam segundo o tema do programa, mas, invariavelmente, há duas delas sempre presentes: Chico ou Caetano? e Beatles ou Stones?

À primeira pergunta eu fico, sinceramente, em cima do muro, já que tenho convicção de que minha vida teria sido muito menos feliz sem a música dos dois. Já em relação à segunda pergunta, não hesito em escolher os Beatles.

Embora eu considere que George Harrison, o melhor guitarrista dos Beatles, não seja tão bom quanto Keith Richards e que Charlie Watts seja muito melhor que Ringo Star, eu declaro a minha preferência pelo quarteto de Liverpool, mesmo achando que Mick Jagger seja um vocalista melhor que Lennon ou McCartney.

Minha escolha, na verdade, se dá devido a dois fatores. O primeiro está relacionado à qualidade das canções produzidas que, em minha opinião, apresentam melodia e letra superiores às dos Stones. O outro fator diz respeito à variedade de estilos e ao experimentalismo que os Beatles imprimiram ao seu trabalho ao longo da evolução de sua carreira enquanto os Roling Stones se fixaram na produção de um estilo de Rock um tanto imutável, abandonando a influência do blues do início da carreira.

E antes que alguém estranhe um post misturando Chico, Caetano, Beatles e Stones, eu mostro esta canção, uma das minhas preferidas, dos Beatles, lançada no álbum Revolver de 1966 e gravada no disco Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, 1975.

For No One (Lennon & McCartney) – Caetano Veloso

As mulheres dos sonhos de cada um

 Quem vê a capa e olha os nomes no índice de O livro das mulheres extraordinárias de Xico Sá não consegue evitar que a lembrança nos remeta à época das revistas Ele Ela e Status, anos 70, na qual nossas solitárias sessões masturbatórias eram inspiradas em coxas, bundas e um solitário peito, sem o mamilo. Sim, naqueles primeiros tempos, só se podia mostrar um seio, nunca o par e sempre sem o mamilo. Mais tarde, o mamilo foi liberado e, muito mais tarde, os pelos pubianos. Era uma época em que a excitação era produzida por nossa imaginação, estimulada pelas imagens permitidas na censura do regime militar. Por mais que quisessem nos domar, as mulheres estavam em nossas cabeças.

Pois o livro de Xico Sá aborda tudo isso, mas não só isso. Ao lado de um justificado saudosismo dos peitos como vieram ao mundo e da revolta pelo fim dos pelos pubianos, a ode que o mais famoso exemplar do macho jurubeba faz a 127 mulheres em mais de 250 páginas trata de peitos, de bundas e de outras partes do corpo feminino como as cordas vocais e o cérebro. Xico sabe que, se a beleza e a gostosura de uma mulher nos embevecem, quando aliadas ao talento e à inteligência, podem nos levar à loucura. Sempre achei isso: beleza com inteligência é uma combinação explosiva.

Em cada uma das crônicas, ele tece loas às beldades através de referências musicais, literárias, cinematográficas e, principalmente, televisivas. Não deixa escapar as lolitas de hoje, mas faz reverência às musas que, embora o tempo já tenha lançado ao ostracismo, ainda habitam nossa lembrança e nossa imaginação.

Há nomes famosos e outros nem tanto, principalmente para quem, como eu, ando distante da TV e, por isso mesmo, desatualizado a respeito das belezas e do talento das meninas de hoje em dia. Por isso mesmo, a sugestão é ler o livro ao lado de qualquer equipamento que possa fornecer um acesso ao Google para ligar o texto à pessoa.

Por mim, faltam, ainda, alguns nomes, como o de Zezé Motta ou Denise Dumont. Mas este tipo de lista é absolutamente pessoal, assim como os sonhos são de cada um.



domingo, 26 de outubro de 2014

A felicidade alheia

Há muito tempo que o cinema espanhol me encanta. Sem contar Luis Buñuel, o encantamento começou com as obras de Pedro Almodóvar e Bigas Luna. Filmes como Ata-me, Mulheres à beira de um ataque de nervos e As idades de Lulu, ainda nos longínquos anos 90, me seduziram definitivamente. Devo confessar que a sedução foi suportada pela beleza e pelo carisma de atrizes como Victoria Abril, Carmen Maura, Rossi de Palma e Maria Barranco. Depois, com Belle Époque de Fernando Trueba, conheci, numa só tacada, Penélope Cruz, Maribel Verdú e Ariadna Gil. Mais tarde, conheci Paz Vega. Aí foi covardia. Fiquei completamente dominado.  

Aos poucos, fui conhecendo diretores como Alejandro Amenábar, Emilio Martínez Lázaro, Julio Medem, Vicente Aranda e Fernando León de Aranoa e descobrindo filmes como Abre los ojos, Mar adentro, Los peores años de nuestra vida, El otro lado de la cama, Lucía y el sexo, La pasión turca, Los lunes al sol, entre muitos outros, sempre com interesse renovado.

Eis que, nesta semana, descobri, gravado da TV a cabo, o filme Enquanto você dorme (Mientras duermes), do diretor Jaume Balagueró, com Luis Tosar e Marta Etura. (veja o trailer do filme)


Trata-se de um triler envolvente que prende a atenção do espectador desde o primeiro instante e não lhe dá trégua até o final da trama. Luis Tosar eu já conhecia de outro filme, Segunda-feira ao sol, em que atuou ao lado de Javier Barden. Marta Etura, apesar da filmografia relativamente extensa, eu não conhecia, mas foi uma grata surpresa. Uma delícia de moça.

Apesar de ficar claro, logo no início do filme, a motivação do protagonista, mesmo após o término da trama, ficamos sem entender como alguém pode ter aquele mote na vida. E esta dificuldade de entendimento não é culpa do filme. É culpa da complexidade da espécie humana.

Cesar é o funcionário de um prédio em Barcelona (poderia ser Madrid, São Paulo ou Campinas) que tem como objetivo destruir a possibilidade das pessoas à sua volta serem felizes. Ele nunca foi feliz, mas não age desta maneira por inveja. Se fosse isso, seria mais fácil entender, por mais comum. Na verdade, ele nunca foi feliz porque nunca buscou isso, não tem este desejo. A sua infelicidade não o incomoda. O que o incomoda é a felicidade dos outros. Desta forma, ele não age na tentativa de ser como as outras pessoas, mas, sim, no sentido de que elas sejam como ele é.

Só o ser humano, entre todas as espécies, é capaz de agir assim. Isso não deveria surpreender, já que é o único, entre as espécies, capaz de se vingar ou de escravizar alguém. Não deveria surpreender, mas surpreende, como sempre ocorre, na maior parte das vezes, negativamente.

Um dado interessante é o fato do diretor ser catalão, o ator protagonista ser galego e a atriz ter nascido no País Basco, o que mostra que, apesar das diferenças de identidade cultural, os espanhóis, unidos, conseguem produzir coisas de muita qualidade.


sábado, 18 de outubro de 2014

A sociedade dividida

As últimas pesquisas do Ibobe e Datafolha mostram as intenções de votos válidos absolutamente empatados. Mais uma vez, parece que a sociedade está dividida. Como já falei aqui e também na página do Facebook, identifico gente respeitável entre os eleitores de ambos os partidos. Encontro também, infelizmente, muita gente intolerante dos dois lados, a maioria, aliás. E, até nisso, parece que se mantém a divisão.

Respeito a diversidade de opiniões, mas não respeito a intolerância. Pode ser uma falha de caráter de minha parte, mas não consigo conviver bem com pessoas que expressam posições racistas, homofóbicas e autoritárias. Posso até entender, no calor da disputa eleitoral, que surjam, nas redes sociais, ataques a candidatos adversários, por parte dos entusiastas de um ou de outro lado do espectro político. Acho uma pena que estas manifestações, em sua maior parte, não estejam embasadas em uma reflexão mais profunda, fruto de discussões honestas. Mas, até isso, essa forma de tratar eleição como se fosse jogo de futebol, eu consigo compreender.

O que tem me incomodado, desta vez, é que as pessoas, além de expressarem sua crítica aos candidatos (e aos políticos, em geral), estão dirigindo ofensas aos eleitores do lado adversário. Quem tem a minha idade e demorou a poder votar para presidente sabe o quanto é importante respeitar a decisão dos eleitores. Sou favorável a discutir, a argumentar, a discordar. Ofender jamais. Tampouco menosprezar quem tenha ideias divergentes.

A única coisa que não está dividida é a atuação da mídia. Não sou daqueles que têm ilusões a respeito de uma imprensa isenta. Isso não existe, nem aqui, nem em lugar nenhum do mundo. O que seria desejável, na verdade, é que cada órgão de imprensa deixasse bem claro qual é seu posicionamento. Isto é absolutamente legítimo e todos os jornais e revistas têm seu espaço editorial para expressar suas preferências partidárias. Na hora de noticiar, porém, o que o bom jornalismo prega é que se adote uma posição honesta. Notícia é fato e não deve ser manipulada, independentemente de ser a favor ou contra a orientação política do jornal. Quando um órgão de comunicação tenta esconder sua orientação e publica os fatos de forma tendenciosa, aí, devemos desconfiar. Quais são os interesses que estão por trás desta estratégia?

Dois exemplos de posicionamento claro são a Revista Carta Capital e o portal de notícias GGN, do jornalista Luis Nassif. Em ambos os casos, está declarada a definição por uma candidatura e isso não impede que críticas sejam feitas às ações e atos praticados pelos partidos e políticos que eles apoiam. Isso é transparência. Isso é responsabilidade. Pode-se muito bem posicionar-se a favor de um programa ou um projeto político e noticiar os fatos de maneira honesta e não tendenciosa.

Infelizmente, porém, esta prática não é seguida pela maioria dos órgãos de comunicação. A Folha de São Paulo, a Revista Veja e a Rede Globo de televisão são, provavelmente, os exemplos mais claros desta falta de transparência e honestidade com a notícia, em cada um dos diferentes meios de comunicação de massa. Nestes órgãos, os profissionais de jornalismo são tutelados com rédea curta e a liberdade de expressão é controlada de maneira seletiva, conforme a orientação da empresa. Infelizmente, poucos jornalistas se rebelam, conscientes de que teriam fechadas as portas do mercado de trabalho, se o fizessem (Xico Sá foi uma estrondosa exceção).

Esta atitude da mídia é favorecida pelo comportamento da maioria de nossa sociedade que prefere se informar através da leitura apenas das manchetes dos jornais ou assistindo ao Jornal Nacional, enquanto devora o jantar à espera da novela. As pessoas recebem a notícia da mesma maneira que o fazem com a comida, ou seja, sem sentir o sabor e sem uma avaliação crítica. Preferem recebê-la já digerida em lugar de ler um texto embasado em argumentos que possibilitem uma conclusão que seja fruto de sua própria reflexão. Nada disso. A notícia que já vem acompanhada da conclusão é mais fácil, não dá trabalho. É como digerir uma comida óbvia, sem um toque especial de sabor. Afinal, o que interessa mesmo é a novela. 


sábado, 11 de outubro de 2014

Aniversário Nefasto

O aniversário dos 50 anos da deflagração do golpe civil-militar, ocorrido no Brasil em 1964, suscitou a publicação de dezenas de livros sobre o assunto. Outros foram relançados, aproveitando a ocasião. Alguns eu já tinha, outros eu comprei. Entre todos, o que mais me chamou a atenção foi 1964 dos historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes. Os motivos foram dois.

Em primeiro lugar, me surpreendeu o fato de que, diferentemente das demais publicações que trataram do período em que durou o regime militar, o livro de Jorge e Angela analisou o período imediatamente anterior ao golpe. Mais especificamente, do dia da renúncia de Jânio Quadros até o momento da eclosão da “redentora”.

A segunda característica que me instigou foi a condução da narrativa com um enfoque que procurou demonstrar, o tempo todo, que houve alternativas políticas que poderiam ter evitado o golpe, como já havia acontecido nas tentativas anteriores, desde o fim do governo de Getúlio, passando pela eleição de Juscelino e a posse de João Goulart. Se no primeiro caso o golpe foi debelado pelo suicídio do presidente, provavelmente a maior jogada política da nossa história republicana, as demais tentativas foram contornadas com muita habilidade por parte dos políticos da época.

Impossível não perceber as semelhanças entre aquela época e a atual, em que o Brasil se divide entre uma, aparentemente eterna, disputa entre esquerda e direita. Naquela época, como agora, havia importantes agentes de cada lado do espectro político e em cada um dos lados, diferentes graus de radicalismo.

Como acontece hoje, partindo do centro, tínhamos na esquerda uma ala moderada que podemos chamar de progressista, outra mais radical, que eu denominaria de sectária e na extrema esquerda, uma autointitulada ala revolucionária, mas com claras tendências golpistas.

Da mesma forma, e como ainda ocorre hoje, a ala moderada da direita pode ser classificada como conservadora, adjacente a uma ala reacionária e no extremo deste espectro político, nitidamente golpista.

As alas moderadas, à direita e à esquerda eram, àquela época, absolutamente conciliáveis. Os progressistas eram representados por uma robusta parcela do PTB enquanto os conservadores tinham sua base no PSD. Liderados, respectivamente, por San Tiago Dantas e Tancredo Neves, estas duas alas davam um suporte parlamentar relativamente confortável a Jango e às suas reformas de base. O livro mostra, aliás, através de documentos da época, que, diferentemente do que viria a se propagar, estas reformas eram bem aceitas por ampla parcela da sociedade representada, incluindo a imprensa, já àquela época, bastante conservadora.

Os militares, apesar de extremamente anticomunistas, eram, ao mesmo tempo, majoritariamente legalistas. Esta obediência à legalidade, aliás, foi o que ajudou a evitar, nas oportunidades anteriores, a deflagração do golpe.

O presidente, entretanto, sofria pressões dos que estavam distantes das posições moderadas e de ambos os lados. Da esquerda, o chumbo vinha de Leonel Brizola que representava a ala mais sectária do PTB e, também, do PCB de Luís Carlos Prestes, do governador de Pernambuco Miguel Arraes, da CGT, das ligas camponesas de Francisco Julião e também da UNE, comandada, pasmem vocês, por José Serra.

Da direita, o chumbo era mais grosso e vinha da TFP e da cúpula da igreja católica, mas estava concentrado na UDN de Carlos Lacerda, mais uma vez tentando capitanear a tomada do poder através de um golpe, como já tentara fazer em todas as oportunidades anteriores. Para isso contava com a colaboração dos governadores de São Paulo e de Minas, Ademar de Barros e Magalhães Pinto.

O que o livro mostra é que, caso Jango tivesse conseguido se manter atrelado aos moderados, ou seja, aos progressistas e aos conservadores, conciliados e equilibrando-se de forma relativamente estável, ele teria conseguido resistir às pressões, tanto da esquerda quanto da direita e teria conseguido implantar, ao menos em parte, suas reformas de base.

O que aconteceu, entretanto, foi que ele não resistiu e acabou cedendo às pressões da esquerda, desequilibrando a balança para aquele lado. Esta tomada de posição, aliada à decisão equivocada de apoiar os sargentos rebelados, provocou a adesão de diversos oficiais militares legalistas à onda golpista.

Havia, entretanto, a possibilidade de resistir, partindo de algum apoio militar proveniente do Rio Grande do Sul. A informação de que o movimento golpista já tinha garantido o apoio militar do governo dos Estados Unidos, o que provocaria uma guerra fratricida no Brasil, fez o presidente não adotar esta possibilidade.

Finalmente, o livro ajuda a derrubar alguns mitos que se perpetuaram depois do golpe, durante o regime militar:

O primeiro é o de que a imprensa e a sociedade não teriam apoiado o golpe. Através de imensa documentação da época, os autores demonstram que, desde dezembro de 1963, diversos setores da sociedade civil e, sobretudo a imprensa, em quase sua totalidade, apoiavam e até incentivavam o golpe.

O segundo mito é a respeito de Jango que, através da comunicação controlada pelo regime, passou à história como um político fraco e covarde. Nada mais falso. Jango era um negociador hábil e foi devido a isso que conseguiu resistir tanto tempo às investidas constantes dos inimigos. Acusam o presidente de covarde por não ter resistido, mas sua decisão foi tomada por generosidade a um povo do qual ele não queria ver o sangue derramado, no caso de um embate.

O livro nos ajuda a perceber que é através da política que se pode encontrar os caminhos que evitem as soluções radicais e, tivesse havido mais habilidade neste campo, o Brasil não teria passado por uma ditadura cruel e nefasta, que atrasou em mais de 20 anos o nosso desenvolvimento social.

domingo, 28 de setembro de 2014

Voto

Desde a morte de Eduardo Campos, a decisão do meu voto foi definida, em favor de Dilma Rousseff. Isso não quer dizer que eu iria votar no candidato do PSB, mas, até aquele momento, eu estava sinceramente indeciso. Com sua saída da disputa, fiquei sem outra alternativa.

Nas últimas eleições presidenciais, o debate foi pautado pelo eleitorado mais conservador e, infelizmente, a discussão ficou centrada em questões como a legalização do aborto, descriminalização do consumo de maconha ou casamento gay. Isso, em minha opinião, empobreceu o debate que poderia ter tomado um rumo mais ideológico.

Desta vez, novamente, encontrou-se uma via que evita a discussão mais profunda do que a sociedade brasileira quer como diretriz do novo governo. Escolheu-se, aliás, um tema antigo e desbotado, já utilizado desde a redemocratização do Brasil, pós-Segunda Guerra, nas eleições de 1945. O surrado tema da corrupção foi utilizado na eleição de Dutra, de Juscelino e de Jânio, sempre com arautos da moralidade, entre os quais, o mais eloquente, à época, foi Carlos Lacerda.

Hoje, na falta de alguém com a verve que tinha Lacerda, a mídia une-se e investe-se do dever cívico de delatar os desmandos do governo federal, tomando o cuidado de não deixar claras as responsabilidades estaduais e municipais.

Se não fosse uma questão de má fé, poderia, até, passar por ingenuidade o embarque nesse discurso a respeito da corrupção, como se fosse ferramenta exclusiva de um só grupo ou partido. É hipocrisia falar do mensalão e se calar sobre a compra de votos que possibilitou a reeleição do presidente Fernando Henrique, assim como noticiar as estripulias em torno da Petrobras e se calar sobre o escândalo no metrô de São Paulo. Uma coisa não justifica a outra, mas não é honesto abrir espaço apenas para um dos lados do espectro político.

O critério da minha escolha não é por um determinado nome e nem mesmo por um partido, mas, numa convicção muito pessoal, pelo modelo que eu acredito para o desenvolvimento do Brasil. Na minha forma de ver, o crescimento da economia do país não pode ocorrer em detrimento da distribuição mais justa de renda. A diminuição da desigualdade social é mais urgente que o crescimento econômico e uma coisa não garante a outra, todos sabemos. Esta é a questão que deveria estar em discussão, pois é a clara diferença entre as propostas dos dois grupos que vêm disputando o poder nos últimos 20 anos.

Deixando a ingenuidade de lado, é imperativo reconhecer que ambas as posições são legítimas e expressam, cada uma, a maneira de pensar de uma parcela da nossa sociedade. Há os que acreditam na necessidade de um estado que garanta igualdade de oportunidades para todos e há aqueles que não têm esta preocupação, ou seja, que acreditam que cada um tem que buscar o seu caminho, se virar. Há quem se incomode com a presença de crianças pedindo esmolas nos semáforos e há os que só enxergam o interior de seus carros quando estão parados num semáforo. Há quem tolere posições e formas diferentes de pensar e há aqueles que só conseguem se comunicar com quem pensa de forma semelhante. Enfim, há essa imensa divisão em nossa sociedade e é natural que cada pessoa escolha quem representa seu posicionamento.

Entre as alternativas que eu elenquei, no parágrafo acima, eu me posiciono sempre na primeira, em cada frase. Por isso é que eu defini meu voto na continuidade de Dilma Rousseff na presidência da república. Entendo que, dentre as possibilidades com alguma chance de vitória, ela é a única que pode, minimamente, conduzir a sociedade na direção que eu enxergo como correta. Acho absolutamente natural, entretanto, que aqueles que pensam diferente de mim, ou seja, que optem pelas outras alternativas, escolham o candidato Tucano.

Minha escolha, entretanto, não impede que eu reconheça falhas, erros e até crimes na condução do governo. É por isso que, mesmo que eu vote numa pessoa ou num partido, não me eximo de criticá-lo, quando acho isso necessário. Acredito na discussão política, com este viés ideológico, como a melhor maneira de cada um se posicionar.  O que dá pena é que, em lugar de travar esta discussão de maneira aberta, prefira-se escamotear as reais motivações da definição do voto.


domingo, 21 de setembro de 2014

O samba emblemático de São Paulo

São Paulo ostenta um título, cuja autoria é atribuída a Vinícius de Moraes, o de “Túmulo do Samba”. Seja verdadeira ou não a sua autoria, tenha sido gerada por convicção ou por brincadeira, o que importa é que o título é injusto.

Reconheço, claramente, as diferenças entre o samba praticado, hoje, em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. Digo hoje, pois talvez estas diferenças não fossem assim no passado. Ou fossem diferenças diferentes.

Sempre gostei mais da forma com que o samba é praticado no Rio, mas acredito que o samba de São Paulo, hoje em dia (e quando digo isso, refiro-me aos últimos 20 anos), guarda mais proximidade com o samba carioca autêntico do que o próprio. Com o samba da Bahia, que involuiu do prato e faca para o axé, não tenho nenhuma paciência.

Um bom exemplo do melhor samba de São Paulo é o CD Carlinhos Vergueiro interpreta Paulo Poeta Compositor Cientista Boêmio Vanzolini.

Menos incensado que Adoniran Barbosa, como símbolo do samba de São Paulo, considero Paulo Vanzolini o representante mais emblemático (e mais importante) do samba na terra da garoa. Cientista internacionalmente reconhecido, falecido há pouco mais de um ano, ele sempre se intrigava com o fato de ser, no Brasil, mais famoso por alguns de seus sambas do que pelo seu amplo trabalho científico e acadêmico. Uma prova inequívoca da sabedoria popular, que soube dar a verdadeira importância a alguns clássicos de sua obra como Ronda ou Volta por Cima. Embora não sejam tão famosos, os sambas de minha preferência são Praça Clóvis e Mente, este composto em parceria com Eduardo Gudin. Uma das virtudes do CD foi mesclar alguns clássicos do autor com obras bem menos conhecidas.

Embora tenha composto muitas canções, o que mais me atrai em Carlinhos Vergueiro é sua voz grave e sua forma, absolutamente paulista, de cantar. É muito bom, de vez em quando, ouvir um samba sem o chiado nos esses e a rascância dos erres.


Maria que ninguém queria (Paulo Vanzolini) – Carlinhos Vergueiro

domingo, 3 de agosto de 2014

Os Voluntários

Gosto muito de ler os livros de Moacyr Scliar. Já disse isso neste blog num texto ou noutro. Quando comecei a ler Os Voluntários, entretanto, fiquei com a sensação de que se tratava de um livro menor. Não que fosse mal escrito, longe disso. Mas ele, de início, não me arrebatou. Parecia algo muito simples, muito básico. Aos poucos, porém, fui percebendo que a beleza do texto estava, exatamente, nesta simplicidade, na ausência de rebuscamento da linguagem. E percebi que isto era fundamental para se contar uma história em que os personagens são absolutamente normais, ou seja, desprovidos de qualquer brilho ou carisma, como a maior parte das pessoas.

Nesta simplicidade e na falta de carisma é que reside a beleza do texto, aliás. Esta falta de brilho é que ressalta a importância de cada personagem, importância que eles têm pra si mesmos e para as poucas pessoas que as cercam, embora não consigam perceber isso.

As personagens do livro, além disso, são pessoas fracassadas, sem muita esperança de que aconteça alguma coisa importante em suas vidas, além daquelas que, a princípio, acreditam ser determinadas como parte de seu destino. Por isso mesmo, ler o livro, dá uma certa melancolia, não um mal estar, mas uma tristeza boa que, curiosamente, ao comparar a nossa vida às das personagens, faz a gente se sentir mais confiante nas nossas próprias esperanças.  

sábado, 12 de julho de 2014

Arrebatamento e emoção, com cuidado

Faz tempo que um disco novo não me arrebata. Faz tempo que uma nova canção não me emociona. Faz tempo. Aliás, fazia. Acabei de ser arrebatado pelo novo CD de Maria Bethânia, Meus Quintais.

São 13 canções, algumas inéditas, outras conhecidas, todas tratadas com um requinte extremo pela voz límpida da cantora, o que surpreende, dada sua idade avançada. Aos 68 anos, é raro que qualquer cantor consiga manter a qualidade da voz e mais raro ainda, que melhore. O único exemplo que eu conhecia era Frank Sinatra. Maria Bethânia é o outro exemplo.

Além da voz, o tratamento instrumental que as canções recebem é de extremo bom gosto. Cada arranjo, cada acorde, a escolha dos músicos, tudo muito bem cuidado. Aliás, cuidado é a palavra que melhor expressa a sensação que se tem ao ouvir o disco.

Alguma voz foi a canção que me emocionou. Não sei se é a melodia simples de Dori Caymmi, a letra impecável de Paulo César Pinheiro, a voz tocante de Bethânia ou o piano singelo de André Mehmari. Provavelmente tudo isso junto. Tudo pra emocionar, tudo pra arrebatar. Finalmente.

Alguma voz (Dori Caymmi - Paulo César Pinheiro)

sábado, 5 de julho de 2014

Som conservador

escrevi, aqui no blog, um texto em que eu assumia que a idade está me tornando, em termos de música, um cara nostálgico e conservador. E o pior é que escrevi este texto há mais de 5 anos. Imaginem agora, então. Por isso mesmo, tenho tido certa má vontade com a maioria das “mudérrrnidades” que vivem inundando o nosso cenário musical. E essa má vontade faz com que eu fique afastado, imagino, de alguma música boa que possa estar sendo criada. Paciência. É o preço que eu pago para ficar livre de todas as porcarias que se produzem por aí, numa quantidade infinitamente maior que as eventuais coisas boas, disso eu tenho certeza.

Desta maneira, quando quero consumir alguma novidade, acabo procurando discos novos de artistas antigos que eu imagino que não vão representar riscos ou, então, artistas novos interpretando compositores clássicos que eu admire. E foi nesta procura que me pareceu absolutamente seguro comprar o CD GilbertosSamba, no qual Gilberto Gil canta temas consagrados na voz de João Gilberto. Fui sem pestanejar, admirador que sou destes dois Gilbertos.

O resultado não poderia ser mais decepcionante, para mim. Onde eu esperava um Gilberto Gil cantando um ótimo repertório do mestre da Bossa Nova, acompanhado apenas de um singelo violão, numa solução simplista, o que, pra mim seria virtude, acabei encontrando uma reunião de faixas onde o acompanhamento à uma maltratada voz é executada por instrumentistas que abusam da utilização de recursos eletrônicos para produzir o som.

Intrigado, percebi na ficha técnica a presença, em várias faixas, de uma geringonça chamada MPC e, ao pesquisar no Google, descobri que vem a ser um sequenciador de pistas gerador de sons e sampler digital, ou seja, uma engenhoca que produz sons com o mesmo timbre de instrumentos de verdade, muito utilizado pelos DJs da vida. No disco de Gil, foi utilizado à guisa de percussão, cujo resultado acabou sendo chocho e sem emoção.

Uma novidade, que poderia ser boa, é a última faixa, da qual sai o nome do CD, a única inédita. É uma boa canção, mas nela se encontram todos os ingredientes negativos aos quais me referi.

Uma pena que tenha, também, feito isso com ótimas canções como Aos pés da Cruz, Doralice ou Eu vim da Bahia. Uma verdadeira blasfêmia. Imagino, porém, que há muita gente que goste destas soluções tecnológicas e, ao ler este post, vá me acusar de nostálgico e conservador. Nem precisa perder o tempo. Afinal, esta acusação eu já me fiz, no primeiro parágrafo do texto.

Gilbertos (Gilberto Gil)

domingo, 29 de junho de 2014

A campanha eleitoral

À beira do momento ápice da campanha eleitoral, percebo que, infelizmente, não evoluímos na forma de conduzir o debate político que pudesse servir para facilitar a escolha do eleitorado. Eu me arrisco a dizer que, muito pelo contrário, corremos o risco de termos um debate piorado se comparado aos que tivemos nas eleições passadas.

Como já ocorreu nas últimas campanhas eleitorais para presidente, podemos identificar, entre o eleitorado, três grandes grupos: os petistas, os antipetistas e um terceiro que eu chamaria de independentes. Cada um dos dois primeiros pode ser dividido em duas fatias. O terceiro grupo é mais multifacetado.

Entre os petistas há aqueles que se posicionam desta forma por uma questão ideológica, de esquerda. Nada mais legítimo, já que a posição de esquerda é clássica como uma maneira de enxergar a política e está presente em todas as sociedades. A esta fatia eu chamaria de autênticos. Há uma outra fatia, entretanto, que não tem uma compreensão clara do que os petistas defendem como bandeira e identificam nas ações do governo apenas um componente clientelista, enxergando cada ideia como dogma e cada ação como salvação da pátria. Esta parcela da militância petista é a que costuma enxergar um risco de golpe em cada esquina e tem grande dificuldade em tolerar qualquer pensamento divergente. A esta parcela eu chamaria de ignorantes.

Entre os antipetistas, aqueles que se posicionam assim por uma questão ideológica de direita também representam uma posição absolutamente legítima, até porque, a posição de direita é, também, historicamente, clássica como uma maneira de enxergar a política e, da mesma forma, presente em todas as sociedades. Quem defende esta posição ideológica também poderia ser chamado de autêntico. A outra fatia dentro deste grupo é aquela que adota esta posição baseada em preconceito e todo preconceito é demonstração de ignorância, já que não se vale de informação verdadeira para conceber seu pensamento. Esta parcela, em geral, teve acesso a uma evolução social, mas não apresenta a contrapartida de uma evolução cultural. São pessoas com algum poder econômico, mas com pouca capacidade intelectual. Enxergam em toda ação do atual governo um perigo iminente de revolução comunista. Por este motivo, esta parcela de antipetistas é muito parecida com a parcela ignorante dos petistas.

O terceiro grupo, aquele que eu chamei de independentes é o mais complexo na hora de distinguir as facções. Há uma parcela guiada pela ideologia e que não identifica em nenhum dos dois grupos uma clara representação de seus conceitos. Esta parcela do eleitorado, normalmente identificada como “indecisos”, na verdade, vai migrar para uma das posições anteriores no momento do voto. Curiosamente, neste caso, acabam se misturando, neste balaio, pessoas de centro, de extrema esquerda e de extrema direita que, apesar de discordarem entre si na concepção política do mundo, unem-se na crítica ao discurso ou à prática de um dos grupos anteriores (ou a ambos). Nesta massa de eleitores, incluem-se, também as pessoas sem interesse nenhum por política, outrora chamados alienados (termo meio fora de moda) e, finalmente, uma quantidade imensa de pessoas que não consegue interpretar claramente as propostas de qualquer grupo (ou candidato) que esteja na disputa. Novamente aí, uma grande quantidade de pessoas ignorantes.

Quando uso o termo ignorante, não o faço com a conotação pejorativa, às vezes ofensiva, que ele tem. Ser ignorante é não ter conhecimento. É uma coisa natural. Afinal, todos somos ignorantes em algum tema (ou em muitos).

Não é tão preocupante que haja tanta gente ignorante em termos de política. Preocupante é perceber que os grupos que estão na disputa, ao identificarem o enorme contingente de eleitores nesta situação, foque seu discurso exatamente neste extrato, não para esclarecer suas propostas, mas, sim, para alimentar ainda mais a falta de entendimento destas pessoas e, com isto, conquistar seus votos, já que o voto das pessoas esclarecidas, tanto à direita quanto à esquerda, já está garantido. Para isso, as campanhas eleitorais utilizam de todo tipo de estratégia para confundir, enganar, mentir, alimentando o preconceito e fomentando o ódio na sociedade, ódio este que serve de combustível para incendiar as militâncias.

Em geral, passada a eleição, este clima esmaece, as coisas se acomodam e os grupos que disputam o poder negociam entre si, como é normal (e desejável) em política.

O grande perigo em insistir na utilização desta estratégia é que poderá acontecer, um dia, deste ódio fomentado sair do controle, passar do ponto e a sociedade ficar dividida de uma forma que não haja saída para contornar as arestas. Aí será a barbárie. Será a vitória da ignorância sobre o bom senso.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Apenas uma saída

Há quem alimente tanta expectativa no amor que não conseguirá nunca se sentir satisfeito. E, na busca do atingimento de uma utopia, corre o risco de sufocar o ser amado, como se fosse possível encontrar, numa só pessoa, uma entidade que, além de satisfazer os anseios atuais, consiga acompanhar as alterações dos desejos e necessidades que todos nós sofremos com o passar do tempo. Quem tem esta expectativa exagerada acaba se frustrando, já que toda utopia é um fim inatingível. Ninguém é tudo o que queremos e todo o tempo. Solução pra isso é saber lidar com as frustrações ou então amar mais de um, ao mesmo tempo.


E foi exatamente isso o que fez a personagem do livro Bocas de mel e fel da escritora Nilza Rezende. Não é seu primeiro livro. Seu romance de estreia, Um Deus dentro dele, um diabo dentro de mim, foi bastante aclamado mas ainda não o li. Em Bocas de mel e fel, a narrativa é um tanto fora do convencional e isso ajuda a separar os dois mundos da mesma personagem, reforçando a ideia de uma relação completar a outra, o que não garante uma realização plena, até porque a vida não é aritmética. Esta estratégia não é uma solução. É apenas uma saída.

sábado, 5 de abril de 2014

Um gol de craque

Gosto muito do jornalista José Trajano. A primeira vez que o vi foi no programa Cartão Verde, da TV Cultura, há vinte anos, no qual participava ao lado de Juca Kfoury, programa que existe até hoje, pelo que sei. Logo em seguida, comecei a acompanhar o canal de esportes ESPN, na época da TVA, quando começavam a surgir os primeiros canais a cabo no Brasil. Trajano foi seu criador e grande condutor durante muitos anos, até se aposentar da função de diretor de jornalismo da emissora. Hoje, participa de alguns programas como comentarista. Não por acaso, a ESPN é o canal de esportes que gosto mais de assistir. Digo esporte como uma maneira de falar, já que do que eu gosto mesmo é de futebol, embora tenha algum interesse em assistir jogos de volei e de tênis, contanto que sejam femininos, como já expliquei num outro texto aqui.

A preferência pela ESPN tem muito a ver com minha maneira de apreciar futebol, já que me agrada muito mais assistir aos jogos do que torcer por um time. Tenho meu time de preferência, o São Paulo Futebol Clube, que eu herdei de meu pai que por sua vez herdou de meu avô. Naquela época era assim e pronto. O que me importa, porém, é que o meu time jogue bem, mais do que vença. Na verdade, entre ele vancer jogando feio ou roubado, ou empatar jogando bonito, prefiro a segunda opção. Por isso mesmo, por gostar tanto de ver um bom jogo de futebol, me é quase indiferente se o jogo é do São Paulo ou de algum outro time. Tanto é que não tive nenhuma dúvida entre assistir ao jogo do Real Madrid e Barcelona, dias atrás, ou a São Paulo e Penapolense que passava no mesmo horário.

O que me atrai na programação da ESPN é o fato de a maioria dos comentaristas enxergar o futebol da mesma maneira que eu enxergo e, também, de não cansar de denunciar todas as mamatas que o futebol contempla, seja no Brasil, seja no mundo, através das venais FIFA e CBF. Era só na ESPN que podíamos ouvir seus comentariastas criticando a realização da Copa do Mundo no Brasil, já antevendo a farra que aconteceria com dinheiro público, enquanto as demais emissoras, capitaneadas pela Rede Globo, teciam loas ao evento. Hoje, virou moda criticar o que está acontecendo, mas foi só na ESPN que ouvíamos este discurso há 7 anos, quando o Brasil foi escolhido. Sobre isso, é imprescindível a forma combativa com que jornalistas como Juca Kfoury, Mauro Cesar Pereira e Lúcio de Castro, incessantemente denunciam e criticam as mazelas do nobre esporte bretão, sem perder a paixão que ele nos suscita. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Como se não bastasse a combatividade, temos no canal uma seleção de craques no que se refere aos comentários técnicos e táticos, com clareza e conhecimento de causa, como Paulo Vinícius Coelho, Paulo Calçade e o surpreendente Juan Pablo Sorin, craque fora e, outrora, dentro de campo. E tudo isso só foi possível se construir devido ao empenho de José Trajano.


E não é que ele surpreende, mais uma vez, lançando um romance delicioso? O livro chama-se Procurando Mônica. Absolutamente autobiográfica, a história conta um caso de amor, entre impossível e platônico, iniciado na adolescência e latente durante a vida toda do jornalista. De forma leve, o texto que eu devorei em menos de 24 horas nos faz perceber que até os amores não correspondidos podem ser aproveitados e que a não correspondência não precisa, necessariamente, desaguar para o drama rasgado. Não falo mais nada sobre o livro para não entregar o final. Mais um golaço de um craque.

terça-feira, 25 de março de 2014

Povos & Civilizações

Gostei muito de ler alguns livros da coleção Povos & Civilizações da Editora Contexto. Com a proposta de esmiuçar a característica de uma determinada sociedade, utilizando como linha de análise a história de seu povo, os textos nos ajudam a conhecer melhor as idiossincrasias de cada elemento desta sociedade, permitindo-nos escapar dos estereótipos e o consequente preconceito, armadilha que alimenta a intolerância em relação ao desconhecido (ou mal conhecido).

O primeiro livro que li foi Os Americanos, sobre o qual já escrevi aqui e que me ajudou a entender o extremo individualismo daquele povo, característica que sempre me intrigou. O segundo livro foi Os Espanhóis e, desta vez, ele serviu para que eu melhor compreendesse as questões regionais, o sentimento de nacionalismo extremo, levando parte da população ao desejo de separação, sobretudo no caso dos catalães e bascos. Sempre tive um pé atrás em relação a esses movimentos, comparando-os ao que acontece, no Brasil, em relação aos nordestinos, principalmente por parte de algumas pessoas dos estados do sul do país. Este fenômeno, no nosso caso, reflete um sentimento de extremo egoísmo e falta de solidariedade, mas, no caso da Espanha, há uma enorme carga histórica para justificar as tensões.

Acabei de ler, agora, mais um livro da coleção, Os Argentinos, escrito pelo jornalista Ariel Palacios. Argentino de nascimento, tendo se mudado para o Brasil aos 3 anos de idade, ele se define como um brasileiro nascido na Argentina. Entrevistado por Jô Soares em seu programa de televisão, ele justificou esta definição utilizando outros exemplos como o de Carmen Miranda, brasileira nascida em Portugal, Clarice Lispector, brasileira nascida na Ucrânia ou Otto Maria Carpeaux, brasileiro nascido em Viena.

Assim como os demais livros da coleção, Os Argentinos utiliza a história como o fio condutor da narrativa, mas, diferentemente dos outros dois que eu li, utiliza os símbolos associados àquele país para melhor explicar o desenvolvimento daquela sociedade. Na verdade, ele se vale, inteligentemente, de todos os clichês utilizados em relação aos nossos mais importantes vizinhos, para explicar melhor suas características e nos deixar escapar das armadilhas da simplificação. Emblematicamente, inicia o texto falando da carne, símbolo máximo do país, seguido do tango, do futebol e da política. Ao longo de todo o texto, pontua cada assunto com comparações entre eles e nós, os brasileiros, ilustrando os capítulos com exemplos, na maior parte das vezes, bastante divertidos.


Um dos momentos mais interessantes do livro é aquele em que ele fala dos mitos argentinos, como Borges, Gardel, Perón, Evita, Maradona, entre outros. Na verdade, ele desmistifica completamente estas figuras, sobretudo Maradona, a quem desanca quase cruelmente. Como o livro foi escrito em 2012, não há referência significativa a Jorge Mario Bergoglio, que viria a ser eleito papa no ano passado. Teria sido interessante ler alguma coisa sobre esta personagem que, em tão pouco tempo, já está caminhando na direção de se tornar, também, um mito, o que é sempre perigoso.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Fascínio pela história

Gosto muito de ler sobre história, sobretudo história do Brasil. Sempre gostei e sempre tive atração pelos livros escritos por Hélio Silva, que li nas décadas de 70 e 80, e, depois, os de Eduardo Bueno, ainda no final do século passado. Já no começo deste século, me deliciei com os 4 volumes de Élio Gaspari sobre a ditadura (envergonhada, escancarada, derrotada e encurralada – nesta ordem). Nenhum deles foi historiador de formação, mas todos me seduziram com um texto muito mais palatável que os encontrados nos papéis acadêmicos.

Ler este tipo de autor, agora que tenho uma historiadora em casa, ficou mais complicado. Para Eduardo Bueno a Cecília torce o nariz, para os outros fica neutra, acredito, muito mais para não me chatear. Foi por isso que tive alguma ansiedade ao dizer a ela que havia comprado a trilogia dos livros de Laurentino Gomes. Lançados, logo viraram best sellers e, isso, em geral, me faz torcer, também, meu próprio nariz. Percebi, entretanto, que o nariz da Cecília manteve-se reto quando soube da compra, o que me deixou aliviado e mais motivado para lê-los.

O primeiro, 1808, devorei num fôlego só suas mais de 400 páginas. Inicia o relato com a preparação da fuga da corte de D. João VI de Portugal e termina com seu retorno, 13 anos depois. Ao longo deste período, provocou-se uma mudança no nosso país que, certamente, não seria o mesmo, caso Napoleão Bonaparte não tivesse feito espiantar o monarca lusitano pras bandas de cá.

Uma das virtudes do livro, talvez a principal, é não se ater aos estereótipos com os quais D. João e Carlota Joaquina são tratados, usualmente. Embora a narrativa confirme o caráter um tanto pusilânime do príncipe regente, mostra também, algumas qualidades como estrategista e habilidades de negociador. Prova disso foi a própria declaração de Napoleão, no final da vida, de que a única pessoa que conseguiu enganá-lo teria sido, justamente, D. João.

O mais delicioso, no texto, por sua vez, é a oportunidade de entender como foi forjada a nossa sociedade, misto de uma corte que não guardava nenhuma semelhança às cortes européias, sem fausto nem cultura, com um comportamento de desprezo em relação a uma população plebéia com forte predomínio de homens escravizados. Um início assim torna muito mais clara a compreensão da característica injusta e preconceituosa que, até hoje, parte da nossa sociedade ostenta.

Ao final da leitura do livro, a vontade que dá é, justamente, de continuar a trilogia. Engatar, de imediato, uma nova marcha e atravessar a independência (1822) para chegar, finalmente, à proclamação da república (1889). Não vai ser já, mas deve acontecer logo. É que a lista de prioridades é longa.

sábado, 8 de março de 2014

Duas infâncias

Gostei tanto de ler a coletânea de textos do Antônio Prata publicados no Estadão entre 2004 e 2010, sobre o qual escrevi aqui no ano passado, que não titubeei em comprar seu último livro, Nú, de Botas. Desta vez não é uma coletânea esparsa, mas são textos em torno de uma só ideia, interessantíssima, aliás. São histórias leves e rápidas, relatando passagens de sua infância, algumas reais, outras inventadas, como ele mesmo reconhece. O que torna o livro muito legal é o fato de que a linguagem é atual e estruturada, como se àquela época, aquela criança já tivesse o domínio da articulação. Desta forma, as mais estapafúrdias ideias que se passam na cabeça de um guri de 4, 5 ou 6 anos de idade, recebem argumentação absolutamente coerente a justificar qualquer ato.
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Mais uma vez pude confirmar a agilidade da escrita deste ótimo autor, mas o que mais me chamou a atenção, entretanto, no livro, foram as referências de sua infância. Ao contrário do que aconteceu no livro O Drible, sobre o qual escrevi aqui, na semana passada, com cujas referências da juventude eu me identifiquei completamente, no livro de Antônio Prata, as referências eram também conhecidas, mas eram as da época da infância da minha filha e meus sobrinhos. Ele fala de playmobil, do programa do Bozo, de roupas de moleton. Na infância do autor, a TV é em cores, como na infância da Cecília. Na minha, a TV era em preto e branco e chegou bem tarde, ao menos em casa. No início, ainda era o rádio.
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Mesmo assim, mesmo com referências de infância que não são as minhas, foi possível me identificar, e muito.  Esta é uma das magias em se ter filhos. A gente ganha duas infâncias pra se lembrar.

sábado, 1 de março de 2014

Dica Preciosa

Numa das minhas andanças pela Livraria da Vila, em Campinas, estava sentado na poltrona, folheando livros selecionados, alguns dos quais, invariavelmente, seriam comprados. Tinha a companhia da Clélia e da Cecília, cada uma num canto da loja, praticando o mesmo esporte. De repente, a Cecília chega com um livro e o passa pra mim, dizendo que o achou interessante. Depositei o volume na pilha selecionada e, quando chegou sua vez, li as orelhas, a contracapa, e depois, dei aquela folheada básica, procurando, a esmo, algum trecho para ler. Devolvi o livro à pilha e ele não foi comprado.
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No fim do ano, depois do natal sem troca de presentes, como já é tradicional, entre nós, a Cecília chegou do nada, e nos presenteou, a cada um, com um livro. O meu era aquele mesmo que já havia me indicado na livraria, tempos atrás. Desta vez, ele foi para a pilha que fica no meu criado mudo e, assim que terminei o que estava lendo, comecei-o.
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O que encontrei, confirmou uma sensação que tenho há algum tempo, ou seja, que as antenas da Cecília estão bem mais sintonizadas do que as minhas. O livro é muito bom. Trata-se de O Drible, de Sérgio Rodrigues. Nada que eu falar sobre o livro, dirá mais sobre ele do que a dedicatória que ela escreveu:
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A trama é intrincada, a narrativa é ágil, brincando entre o passado e o presente, criando um suspense que vai desaguar num resultado absolutamente inesperado. Até chegar a ele, o autor passeia pelo futebol anterior ao seu tempo e pela cultura pop da sua época de juventude, que coincide com a minha. Talvez, por isso mesmo, o livro tenha dito tanto a mim, já que, por ter praticamente a mesma idade que eu, as referências abordadas imprimiram, nele, o mesmo efeito que em mim.
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O livro serviu pra eu relembrar a juventude, refletir sobre a relação com meu pai, alimentar minha curiosidade sobre o futebol do passado e, principalmente, reforçar a minha convicção de que não devo, nunca, desprezar uma dica da minha filha. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Oscar 2014

Já expliquei, aqui, num outro post, que não dou muita bola para o Oscar, que valorizo mais o Globo de Ouro e, mais ainda, o Festival de Berlim, mas, todo ano, acabo dando, se não alguma atenção, ao menos uma espiadinha na lista dos filmes indicados. Este ano, só fui dar uma olhada nesta lista hoje e descobri que, dos 9 selecionados, só assisti a 4 deles.

O Lobo de Wall Street, do Scorsese, foi um dos que mais gostei. Andei lendo algumas críticas que o apontavam como um filme que estimulava ou, ao menos, contemporizava com a busca do sucesso através de falcatruas. Achei que não. O filme mostra um retrato fiel da sociedade americana, sua habitual ânsia de enriquecer e, se os trapaceiros do filme utilizam meios criminosos para ludibriar os clientes, as vítmas também exibem uma ambição desmesurada de alcançar seus intentos, oferecendo aos vilões um terreno fértil para executar as trapaças.
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Outra acusação que andei lendo sobre o filme foi o excesso de cenas com drogas e sexo. Prefiro muito mais isso do que quando excedem em cenas de violência. Se não dá pra escapar dos excessos, prefiro ver bundas e genitálias do que ver sangue. O ponto de destaque, no filme, é a atuação de Leonardo DiCaprio, cada vez um ator mais maduro, apesar de seu eterno ar jovial e sua extrema beleza. Mas isso não é culpa dele. Fazer o que? A natureza foi generosa, no caso.
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Philomena, de Stephen Frears, foi outro filme do qual gostei bastante. Uma dura crítica aos desmandos da igreja católica, na Irlanda, um dos países em que o catolicismo é o mais radical no mundo. Sempre me incomodou, aliás, a forma com que a mídia ocidental é condescendente com este radicalismo. Basta notar o fato de que, ao se referir a terroristas do Hamas, utilizam sempre o termo “radicais islâmicos”. Nunca vi, entretanto, uma referência aos terroristas do IRA como “radicais católicos”. No filme, a igreja usa a religiosidade das pessoas para reforçar seu poder e justificar atrocidades, em nome de um moralismo que não está tão distante dos dias de hoje, pois não trata da época da inquisição, mas de apenas 50 anos atrás. Judi Dench, que concorre ao prêmio de melhor atriz, está absoluta no papel. Seria minha favorita, mas parece que Cate Blanchett é mais cotada por sua atuação em Blue Jasmine de Woody Allen.
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Embora seja um filme sobre a escravidão nos Estados Unidos, a religião também é o pano de fundo de 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen. É a religião que serve de justificativa para os algozes subjugarem seus semelhantes de pele negra, através de interpretações oportunistas da Bíblia e é, também, a religião, e principalmente a esperança de redenção, que serve de ferramenta aos escravos para suportar os castigos. Por mais que seja sempre necessário mostrar o que o homem é capaz de fazer quando trata de ser cruel com um semelhante, achei que o filme exagerou na exibição das chagas abertas pelos açoites dos chicotes.
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A mensagem mais marcante do filme, para mim, foi a de quanto é possível reduzir o ser humano à sua condição de animal quando alguém o escraviza, tirando dele tudo o que, de positivo, é capaz de sentir, quebrando o seu espírito de solidariedade. O ponto alto do filme, além da excelente atuação do ator inglês Chiwetel Ejiofor, é sua ótima fotografia com uma infinidade de belíssimos planos com baixa profundidade de campo. Fiquei muito surpreso ao notar que ele não está na lista dos concorrentes ao prêmio de melhor fotografia.
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O filme do qual eu menos gostei foi Trapaça, de David Russell. Achei o filme mal feito, esta é a verdade. Não gostei da atuação dos atores e nem mesmo a presença de Amy Adams, que eu acho uma delicinha, salva o filme, já que ela não convence no papel de femme fatale. Ela é uma gracinha, reconheço, mas lhe falta o sex appeal que o papel demanda. Embora eu admita que a produção de Hollywood não é aquilo que mais me empolga em se tratando de cinema, fica difícil acreditar que não houvesse, ao longo de todo um ano, algum filme melhor que este para figurar na lista de indicados. É por estas e outras que se explica o meu desdém pelo Oscar.