Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Requinte em dobro

Agradam-me os discos de cantoras consagradas com músicas de um só autor. Ella Fitzgerald deixou-nos fantásticos registros deste tipo, os famosos songbooks, em que gravou todos os grandes compositores americanos como Cole Porter, Gershwin, Rogers & Hart, Irving Berlin, Johny Mercer, Jerome Kern e Duke Ellington. Gravou, também, um songbook com as músicas de Antonio Carlos Jobim.

Isto pode parecer uma estratégia para garantir a venda dos discos, uma tática para não correr riscos lançando autores ou músicas desconhecidas. Não vejo por este lado. Aliás, pode até mesmo ser este o interesse, mas isto pouco me importa. O que me interessa é o resultado. No caso dos songbooks de Ella Fitzgerald, ele foi estupendo. Não me canso de ouvir.

No Brasil, alguns discos deste tipo me agradaram muito, como o de Beth Carvalho cantando Nelson Cavaquinho, Leny Andrade cantando Cartola, Rosa Passos cantando Caymmi ou Ari Barroso, repetindo o que Gal Costa fizera em dois discos memoráveis. Embora não fosse uma cantora conhecida, à época do lançamento, foi uma gratíssima surpresa conhecer Teresa Cristina através de um CD duplo em que cantava músicas de Paulinho da Viola.

Outra grata surpresa é este CD, Na boca do Lobo, em que Vânia Bastos interpreta canções de Edu Lobo. Vânia Bastos é uma cantora madura, que não traz nenhum traço do som estridente que tinha sua voz no início da carreira, quando cantava no grupo de Arrigo Barnabé, nos longínquos anos 80. Seus primeiros discos traziam um repertório meio modernoso, que foi se sofisticando com o tempo, muito provavelmente por influência de Eduardo Gudin, com quem veio a se casar. O ponto alto da sua carreira, em minha opinião, é o CD Vânia Bastos & cordas – Canções de Tom Jobim, em que canta embalada por orquestra com arranjos e condução de Francis Hime. Nada poderia ser mais sofisticado.

Edu Lobo é um dos compositores mais requintados de nossa música, como já falei aqui. O que me causa espanto é perceber, com pesar, o quanto lhe falta de espaço na mídia, a ponto de torná-lo um ilustre desconhecido, num país em que as duplas sertanejas e os pagodeiros comparecem até nos programas de TV que falam de futebol. A geração dos que têm menos de 30 anos, com raríssimas exceções, desconhece completamente sua existência, embora assobiem algumas de suas canções pelos cantos por ande andam. Se isso não bastasse, Edu Lobo só estabelece parcerias com letristas de primeira linha, como Paulo César Pinheiro, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Cacaso, Capinan e Gianfrancesco Guarnieri, todos com músicas presentes no CD.

Enfim, um disco duplamente requintado.



Meia-noite (Edu Lobo e Chico Buarque)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro

Pela primeira vez na história, o governo do estado do Rio de Janeiro está tomando a direção correta no tratamento da questão da segurança na cidade maravilhosa. Se estivesse ouvindo o clamor da Zona Sul, entraria nas comunidades atirando, destruindo tudo, eliminando o inimigo no peito e na raça e arrastando junto uma multidão de gente inocente. Sim, pois, pra grande parte de quem mora no Leblon, não faz muita diferença se algumas crianças da favela tiverem que morrer pra que se mantenha os traficantes restritos ao que eles consideram o seu lugar. Pra parte da classe média e pros emergentes cariocas, o que acontece no morro não tem a menor importância, desde que não vaze para o asfalto. Afinal, o que ocorre nestas comunidades só incomoda a turma que mora na Barra da Tijuca, se isto provocar o atraso das empregadas domésticas na chegada ao trabalho ou dificultar o fornecimento, em domicílio, de maconha e cocaína.

O que está ocorrendo neste momento, na cidade do Rio de Janeiro, e que nunca foi feito antes, nem mesmo no governo de Brizola, é que a população destas comunidades está sendo respeitada, o que deveria parecer natural, mas não é, dado o ineditismo do fato.

O ponto crucial para o sucesso, ao menos até o momento, desta empreitada, está sendo o uso da inteligência, ao invés da truculência. Ao empurrar os soldados do tráfico para fora de seus domínios e os obrigar a deixar pra trás, armas, drogas e dinheiro, o estado está atingindo seu ponto mais sensível, já que, neste ramo de negócio, capital de giro e liquidez são essenciais.

Se encararmos o tráfico como um negócio comercial, coisa que ele é, na sua mais absoluta essência, perceberemos que segue exatamente as mesmas lei básicas de qualquer segmento de mercado, regido pela lei da oferta e da procura e pelas dificuldades da concorrência. Por ser um produto de alta demanda e pela proibição oficial de seu comércio, o fator preço não é o que dita as decisões do planejamento estratégico neste negócio, assim como a propaganda não é o fator fundamental da gestão de marketing.

Neste ramo de atividade, o sucesso competitivo se obtém através da aquisição de armas e a lucratividade advém do capital de giro. Agir, portanto, como a polícia está agindo, ao subtrair dos traficantes as armas e as drogas, mina os dois mais importantes pilares deste negócio.
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De negativo, nesta história toda, eu identifico a ação da mídia. Pela TV aberta, direcionada à população mais pobre, emissoras como Band e Record, tratam o assunto como tratam as enchentes e as catástrofes que acontecem nas cidades, com seu costumeiro alto grau de dramaticidade e hipocrisia. Pela TV paga, o canal de notícias da Globo dirige seu noticiário à classe média, tentando mostrar que a polícia está fazendo o papel que esta parcela da população espera da corporação, ou seja, impedir que o que acontece dentro daquele mundo não resvale para o mundo das pessoas de bem.

Felizmente, a polícia está fazendo muito mais que isto. Ao menos por enquanto, está dando um sopro de esperança de que, finalmente, o estado brasileiro pode trazer, no futuro, um pouco de dignidade a esta gente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cantando as músicas dos outros

Há compositores que cantam tão bem que acabo preferindo ouvi-los cantando músicas de outros autores às suas próprias composições. É o caso de Ed Motta, por exemplo, que, em minha opinião, registrou a melhor gravação de Imagina, de Tom Jobim e Chico Buarque. Sinto a mesma coisa em relação a Zélia Duncan.

O inverso disso são aqueles compositores cujas músicas ganham brilho na voz de outros cantores, como é o caso de Guilherme Arantes. Basta ouvir as estupendas gravações de Aprendendo a jogar, na voz de Elis Regina, Coisas do Brasil com Leila Pinheiro ou Amanhã cantada por Caetano Veloso. Interpretadas pelo autor são baladinhas despretensiosas.

Djavan não se encaixa num caso e nem no outro. Embora algumas de suas letras sejam absolutamente incompreensíveis para o meu limitado entendimento, o som destas palavras, emolduradas por suas melodias, quase sempre, fazem bem aos meus ouvidos. E apesar de suas canções já terem sido gravadas por grandes cantores, normalmente, suas próprias interpretações são as mais interessantes. E foi por isso que fiquei curioso para ouvir o seu último disco, Ária, em que ele só canta músicas de outros autores.

O disco é bom, sem ser espetacular. A principal virtude é a diversidade de autores. Djavan mistura Cartola, Tom, Vinícius, Caetano Veloso, Beto Guedes e Silas de Oliveira, entre outros, sem que isso transforme o disco em uma gororoba sem sabor definido. A segunda virtude é a simplicidade e o minimalismo dos arranjos, o que permite, ao ouvinte, degustar com mais facilidade a voz do cantor. Ironicamente, estas duas virtudes é que propiciam os dois principais defeitos do disco. A diversidade acaba permitindo alguns equívocos, como a inclusão de La Noche e Fly me to the moon, músicas cantadas num espanhol e num inglês pouco convincentes. O segundo equivoco é a inclusão de Treze de Dezembro, um xaxado instrumental de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, gravado num vocalise em ritmo um tanto jazzíztico. Poderia ter gravado com a letra que Gilberto Gil compôs e nos livrar da inclusão de Palco, do mesmo autor, com a qual ele fecha o disco. Outro defeito é justamente a voz do cantor que parece, neste disco, inexata, talvez cansada. Não chega a desafinar, mas não se oferece límpida.

Felizmente, as virtudes vencem os defeitos com folga e, com isso, ouvir o disco acaba sendo uma experiência prazerosa.



Disfarça e chora (Cartola e Dalmo Castello)

sábado, 30 de outubro de 2010

Comentário sobre as eleições

Este texto deveria ter sido um comentário no blog do Bruno Ribeiro, mas foi ficando tão longo que resolvi publicá-lo aqui. Sugiro, àqueles que buscarem maior compreensão das coisas, que leiam o texto dele antes de continuar aqui.

Concordo que não é hora de a militância petista descansar, mas acredito que haja pouca chance de uma reviravolta no que indicam as pesquisas. A última chance dos tucanos, que poderia ter sido o debate da Globo, foi uma coisa tão idiota e inócua que acabou favorecendo a candidata do governo, já que não mudou a decisão prévia de ninguém, nem mesmo a indecisão dos indecisos.

Concordo, também, que esta foi a campanha mais baixa dentre as que presenciei e isso acabou provocando, em mim, se não alguma decepção, ao menos algumas surpresas.

Não me decepcionei com a mídia e com a maioria dos políticos envolvidos na campanha, pois já não nutria nenhuma ilusão a respeito do PSDB e de José Serra. Fiquei surpreso, entretanto, com o voto de alguns amigos que insistiram na opção tucana ou mesmo no voto em Marina, principalmente depois que a campanha tomou o rumo que tomou e que a sordidez da oposição ficou tão desmascarada.

Não cheguei a perder nenhum amigo, já que consegui respeitar a opinião diversa, embora tenha tido algumas discussões ríspidas com muitos deles. O texto do Bruno, entretanto, me alertou para o perigo de que algum amigo tenha me "perdido" já que no meu caso, corri um risco duplo, pois tive divergências nas duas direções. A maioria continua me cumprimentando e, até agora, nenhum deles mudou de lado na calçada ao me avistar andando na rua. Espero que isso não aconteça.

Vou votar em Dilma e vou torcer por sua vitória, mas, certamente, não vou sair por aí comemorando, já que não nutro uma expectativa tão otimista assim.

O lado positivo desta campanha (e desta vitória) vai ser a de soterrar uma parcela da classe política representada pelo DEM (ou PFL, ou PDS, ou ARENA, como queiram), mas isso ainda é pouco, em minha opinião. Se eu posso nutrir alguma esperança a respeito do futuro governo de Dilma é a de que outros grupos, tão maléficos como este, sejam, também, alijados da nossa realidade e tenham seu espaço diminuído. Foi magnífica a atuação da jovem militância petista, apesar da bobeada no final do primeiro turno. Gostaria, entretanto, de ver esta tenacidade da militância dirigida para que se soterrasse da vida pública, por exemplo, a hegemonia da família Sarney que, há muitos anos castiga o povo maranhense. Me incomoda muito perceber que Roseana só conseguiu ser eleita por causa do apoio de Lula, o que impediu a ida de Flávio Dino, do PC do B, para o segundo turno. O mesmo apoio garantiu a Renan Calheiros uma cadeira no Senado por Alagoas e impediu que Heloisa Helena conquistasse este espaço. E assim como estes casos, outras famílias e outros grupos dominam o Norte e o Nordeste, justamente as regiões em que Lula tem mais apoio e que levarão Dilma à vitória.

Estes grupos têm que ser dizimados da vida pública brasileira. Se isso não acontecer, teremos o Brasil de sempre, injusto, mesmo quando cresce. Dilma pode avançar neste sentido. E é neste sentido que alimento alguma esperança de que seu governo possa ser melhor que o de Lula. Do contrário, será mais uma decepção.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ainda, as eleições

O caráter de Marina

Terminada a contagem dos votos, os dois candidatos classificados para o segundo turno correram em direção a Marina Silva para implorar seu apoio. Ela ouviu a ambos e disse que se manifestaria em 15 dias. Declarou que não quer se render ao velho jeito de fazer política. Ocorre que, ao pedir os tais 15 dias para se pronunciar, ela está fazendo exatamente o que há de mais antiquado em política, ou seja, entrar no jogo do toma lá, dá cá, negociando cargos de primeiro escalão em troca de apoio. Esta história de que quer checar qual das duas propostas tem mais compromisso com um desenvolvimento sustentável é pura balela. Ela sabe muito bem o que representam as candidaturas de Serra e de Dilma. Mais honesto seria fazer como fez Gabeira que já se bandeou pros lados dos tucanos (lado do qual, aliás, nunca saiu). Marina, entretanto, preferiu barganhar com o crédito que acredita ter, junto à sociedade, usando seus milhões de votos como garantia. Não acho que ela esteja com essa bola toda.

Acredito que sua votação tenha trêsorigens: primeiramente, o voto daqueles que se seduzem com o discurso ambientalista. Só que a posição destes eleitores é um tanto independente de Marina e, acredito, dividem-se ao meio, na hora de escolher entre Dilma e Serra. Em segundo lugar há os votos dos evangélicos e, neste caso, estou seguro que eles migrarão integralmente para o candidato da oposição. Por fim, há os votos daqueles que iriam votar em Dilma e entraram no conto da onda verde, certos de que a candidata governista estava com a vitória garantida.

Somando tudo isso, é bem possível que Serra obtenha, dos eleitores de Marina, mais votos do que Dilma. Mesmo assim, o mais provável é que a candidata de Lula se eleja. Principalmente se a coordenação da campanha petista não dormir no ponto, novamente.


A ressurreição de Serra

Muito menos por méritos próprios e mais pelos votos em Marina e de uma bobeada da coordenação da campanha petista, o candidato da oposição à presidência da república ganhou uma sobrevida. Junto com ela veio, de bandeja, uma onda de otimismo que, talvez, não tenha razão de ser.

Para provocar uma reviravolta nas tendências que se mostram, há mais de 6 meses, em favor da candidata governista, seriam necessários muito mais votos do que a parcela evangélica do eleitorado que foi desprezado pelo comando petista. Para vencer a eleição, Serra teria que fazer tudo o que não fez durante toda a campanha. Teria que desprender-se do DEM e escolher outro vice, teria que apresentar propostas mais consistentes e, mais do que isso, teria que apontar quais os aspectos negativos do governo Lula que ele corrigiria. Isso é uma missão impossível, já que, justamente o que há de mais criticável no atual governo é justamente aquilo que se assemelha ao governo FHC. É a condução da economia à moda Armínio Fraga, é o seu ministro da defesa, tucano até a última pena, é a política entreguista de seu ministro dos esportes, absolutamente subordinado aos interesses da CBF e ao COB, dos ilustres Ricardo Teixeira e Carlos Arthur Nuzman.

Para provocar uma reviravolta, ele teria que contar, realmente, com o apoio de Aécio Neves e nada indica que isso interesse ao político mineiro, já de olho em 2014 e já pensando em como disputar com Geraldo Alckmin, outro que, pela mesma razão, não tem nenhuma motivação para ajudar Serra.

Para vencer a eleição, Serra teria que não ser Serra.


Dilma, o PT e o salto alto

O resultado das eleições, aparentemente, causou certo desânimo na alma dos petistas e, sobretudo, na candidata à presidência. Provavelmente a decepção aconteça muito menos pelo resultado, absolutamente favorável, ainda, do que pela percepção de uma bobeada no finalzinho dos acréscimos do segundo tempo do jogo. E aí vem aquela enxurrada de justificativas, como a onda de boatarias sobre a suposta opinião da ex-ministra sobre o aborto, a bagunça do STF e a tentativa de manobra de Gilmar Mendes no lance dos documentos com foto, a tal da onda verde incensada pela mídia, enfim, alguns golpes baixos deferidos no final da luta.

A culpa, entretanto, é toda do PT e de sua soberba. Ou será que alguém imaginou que, na reta final, os golpes baixos não viriam? Será que não tinha ninguém no comando da campanha que fosse capaz de dizer que deveria ter sido feito um trabalho mais consistente com os eleitores evangélicos, ainda mais tendo um candidato ao senado ligado à igreja Batista? Alguém achou que a mídia, que operou suas ferramentas durante toda a campanha, iria arrefecer seu ânimo na reta final?

O que aconteceu é que o PT e sua candidata bobearam. Acreditaram que bastaria posar ao lado de Lula e estaria tudo resolvido. Como se ele fosse um santo milagreiro, já que muita gente o beatifica. De qualquer forma, isso não bastou. Não bastou e teremos uma disputa no segundo turno. E isso vai acontecer contra uma oposição que, aparentemente, encontrou o caminho do tesouro. Uma oposição que se encheu de otimismo.

Para vencer (e vencer ainda está fácil), a candidata e os petistas terão que ser mais diligentes, mais atentos, menos burros. E terão de descer do salto alto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O engodo Marina Silva

O debate de ontem, na Rede Globo, foi muito mais enfadonho do que eu poderia prever. Confirmou o que já se havia visto nos demais debates, com Dilma e sua crônica dificuldade de se expressar diante de câmeras e de platéias, e Serra, embora bastante à vontade no púlpito, herança dos anos de experiência em salas de aula, utilizou seu tempo e espaço sem pronunciar, ao menos, uma frase que tivesse alguma utilidade. De Plínio nem quero falar. Gostaria, apenas, de sinalizar minha tristeza ao vê-lo submeter uma biografia relativamente respeitável a um papel tão ridículo.

Se houve alguma utilidade no debate de ontem, foi a de mostrar a falta de consistência no discurso de Marina Silva.

Me causa grande estranheza o fato de ela ostentar mais de 10% da preferência do eleitorado como apontam as pesquisas. Custo a crer que essa pequena multidão esteja, realmente, seduzida por suas propostas. Só me resta acreditar que as razões da escolha de parte deste eleitorado sejam outras.

Se o motivo deste voto é levar Serra ao segundo turno, seria mais fácil, então, votar no candidato tucano de uma vez, sem precisar recorrer a um caminho tão indireto.

Pode haver, por parte do eleitorado, um desejo de que haja segundo turno, vontade absolutamente legítima para quem ainda não conseguiu avaliar propostas e definir com qual candidato mais se identifica. Para isso, não precisa votar em Marina. Pode-se votar em Plínio, em Emayel ou até mesmo em Levy Fidélis, aquele do trem voador e das dentaduras.

Pode ser, entretanto, que este eleitor se identifique com a causa ambientalista e com o discurso do PV. Se é esse o caso, o mais acertado é votar nos candidatos do partido para deputado e no Ricardo Young para senador, em São Paulo. Seria mais útil para a natureza e produziria, no Congresso, uma oposição mais respeitável do que temos hoje.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eleições e a imprensa

Em seu editorial de domingo, sob o título: “Todo poder tem limite”, a Folha de São Paulo reclama o direito de criticar o governo Lula e declara que procura manter uma orientação de independência, pluralidade e apartidarismo editoriais.

Quanto à primeira reclamação, sou solidário ao jornal, já que, eu também venho criticando, sistematicamente, alguns aspectos do governo Lula, embora por razões opostas às da Folha e, por causa disto, já fui tachado até de direitista. Mas insisto em minha defesa no direito de criticar o governo, sempre que ache apropriado, mesmo que isto contrarie a opinião da maioria. Uma maioria que vai votar em Dilma (como eu vou) e que vai votar em Tiririca, em Netinho e em Alckmin (como eu não vou).

A segunda declaração do editorial é uma mentira. A Folha não é independente, nem plural e muito menos apartidária. Suas reportagens e os textos escritos por seus colunistas são absolutamente tendenciosos. Antes que me interpretem mal, devo declarar que acho absolutamente lícito que um jornal assuma sua preferência na disputa eleitoral. A revista Carta Capital, por exemplo, declara com todas as letras, que apóia a candidatura de Dilma Rousseff e, em minha opinião, esta é uma posição mais honesta. A honestidade da revista, entretanto, não impede que eu me incomode com seu jornalismo “chapa branca”. Acho que a imprensa tem a obrigação de criticar, muito mais do que a de elogiar o governo (qualquer governo).

Na mesma linha da Folha, seguem as outras revistas semanais, com destaque para a Veja, que é a que mais escancaradamente imprime reportagens e notícias tendenciosas em suas páginas. Talvez, se a Veja conseguisse ser mais sutil, conseguiria ser mais eficiente no objetivo de dificultar a eleição de Dilma, mas sua atuação é tão escandalosamente anti-Dilma que isto acaba arranhando sua credibilidade. A Veja é a revista da classe média e a classe média vai eleger Dilma, assim como ajudou a eleger Lula, há 8 e há 4 anos. Isso é a maior prova de que sua estratégia não funciona.

Ainda na mesma toada, temos a Rede Globo, embora seja sua prática mudar de lado no momento em que percebe que não tem mais jeito e, ainda, consegue posar de aliada. Aconteceu isso no episódio do movimento das diretas já, aconteceu isso na derrocada de Collor e aconteceu o mesmo na primeira eleição de Lula que, logo após a sua posse, deu uma longa entrevista exclusiva às câmeras da emissora.

Assim como não acho que Lula seja um messias e nem considero Dilma a mãezona que os marqueteiros do partido tentam impingir ao eleitorado menos esclarecido. Assim como não acredito nas promessas desesperadas de Serra para conseguir chegar ao segundo turno, como não me encanta o discurso insosso de Marina, como me arrepia o papel patético de Plínio de Arruda Sampaio. Assim como nada disso me seduz e como não idolatro nenhum personagem desta novela, também não alimento ilusões a respeito de imprensa independente ou imparcial. O máximo com que eu poderia sonhar é com uma imprensa honesta, mas nem isso me parece realista. Na verdade, nada disso existe.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A divisão da esquerda

O escritor inglês George Orwell ficou bastante famoso por seus livros 1984 e Revolução dos bichos, mas em minha opinião seus textos mais instigantes são os que relatam sua experiência na guerra civil espanhola. Reunidos num mesmo volume e editados pela Globo, Lutando na Espanha reúne os textos Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra civil espanhola, além de outros escritos. O maior mérito da editora foi a de atender a uma determinação do autor, feita pouco antes de morrer, de que em uma segunda edição, os capítulos 5 e 11 de Homenagem a Catalunha fossem transformados em apêndices e colocados no final do livro. Com isso, queria dar ao texto mais linearidade, separando os capítulos dedicados à análise política, daqueles em que privilegiava a narração no campo de batalha.

Esta medida, de fato, tornou o livro muito mais ágil, o que não quer dizer que a leitura dos apêndices seja menos deliciosa do que os relatos bélicos. São delícias diferentes, como quindim e feijoada.

A guerra foi vencida pelos fascistas de Francisco Franco, principalmente devido à ajuda estrangeira que recebeu da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, enquanto a ajuda que a Rússia deu ao governo Espanhol foi muito mais frouxa. O governo contava, entretanto, com o engajamento de numerosos voluntários, idealistas do mundo todo, imbuídos de um pensamento libertário e de justiça social, mas que não foi suficiente para a vitória.

O que mais chama a atenção no relato de Orwell é a profunda divisão que a esquerda sofreu. Embora fosse claro, para todos, que o verdadeiro inimigo era a direita franquista, a partir de um determinado momento, o governo constituído, dominado pelos comunistas, dedicou mais esforços para combater os anarquistas e trotsquistas, seus antigos aliados no campo de batalha, do que os avanços das tropas fascistas. Esta atitude estava muito firmemente ligada às condições que Stalin impunha para continuar dando algum apoio ao governo espanhol.

Enquanto lia o livro, não pude deixar de me lembrar da esquerda brasileira na época da ditadura militar. Lembro-me, claramente, de longuíssimas discussões entre stalinistas e trotskistas ou entre militantes do PCB e do PCdoB, debaixo da mais brava repressão, como se o verdadeiro adversário não fosse o regime instaurado em 1964.

Sempre considerei este, o maior pecado da esquerda brasileira. A incapacidade de unir-se por uma causa comum, sempre contrastou, diametralmente, com a capacidade que os diversos segmentos da direita tinham de fazer acordos e conchavos. Enquanto aquela, embrenhava-se em posições sectárias, presas a um constante revisionismo ou a aventuras irresponsáveis, esta sempre mostrava-se apta a fazer todo tipo de conluio que fosse necessário para obter a vitória.

O segundo erro grosseiro da nossa esquerda sempre foi o de menosprezar a inteligência do adversário. Quantas vezes discuti com amigos que não concebiam a possibilidade de que houvesse vida inteligente no seio da direita. Não percebiam que, caso fosse composta apenas de beócios, jamais conseguiria manter-se tanto tempo no poder.

O que aconteceu na guerra da Espanha e o que sucedeu no Brasil, à época da ditadura militar, deve servir para que percebamos que, em matéria de política, sempre há muito o que aprender.

domingo, 5 de setembro de 2010

O pior do governo Lula

Apesar de reconhecer mais virtudes do que defeitos no governo Lula, sempre fiz questão de expressar minhas críticas e meu descontentamento com certos aspectos e setores de sua administração, embora isso tenha sempre provocado certo patrulhamento ideológico. Sigo, entretanto, convencido de que a crítica ainda é o melhor dos remédios para as doenças que afligem a política.

Próximo do fim e com a eleição de Dilma garantida, me parece este, o momento propício para tentar exprimir o que vi de pior em seu governo.

Reconheço e elogio a condução da política externa, principalmente quando foi focada na tarefa de tornar o Brasil mais versátil no que diz respeito ao comércio exterior, menos dependente da relação com os parceiros tradicionais, buscando novos mercados e, principalmente, colocando o nome do país numa posição de mais visibilidade, do ponto de vista comercial. Quando enveredou pelas questões políticas, entretanto, não foi, assim, tão feliz.

Teve a lucidez de frear a avidez privatizante dos governos anteriores, reequipando, tecnicamente, a Petrobras, tornando-a, novamente eficiente, embora não tenha conseguido (ou tentado) diminuir a cultura de corrupção que permeia as entranhas da estatal. Conduziu a economia de forma conservadora, o que levou o Brasil a escapar da crise de 2009, mas essa timidez na condução fez com que os avanços sociais, que existiram, reconheço, não tenham ocorrido na velocidade que todos desejávamos e que eu, particularmente, enxergo que seriam possíveis, dadas as condições políticas. Mais tímida ainda, foi sua posição em relação ao resgate de nossa história na questão dos direitos humanos vilipendiados na época da ditadura militar. Os dois exemplos de timidez foram bravamente defendidos pelo presidente do Banco Central e o Ministro da Defesa que, embora sejam filiados a partido da base governista, é difícil não identificar uma plumagem tucana sobre suas peles.

Pior foi a condução da política para os esportes conduzida pelo ministro Orlando Silva que, por ingenuidade, incompetência ou má fé, que seja, associou-se ao que há de mais antiquado e mais venal nesta área, capitaneada por Ricardo Teixeira da CBF e Carlos Arthur Nuzman do COB, com quem o governo nunca poderia ter se associado.

Muito pior do que tudo isso, entretanto, pior que as trapalhadas do Itamarati, que a condução frouxa da política de avanços sociais, pior do que a convivência com as más companhias no mundo do esporte e da política de forma geral, mais grave do que tudo isso, o pior, disparado, do que ocorreu no governo Lula, foi a atuação da oposição.

O PT sempre soube fazer oposição. Pode ter sido equivocado em alguns episódios, radical em outros, até mesmo ingênuo num sem número de situações. Sempre foi, porém, diligente e aguerrido. E mesmo em épocas em que era evidente que o PT não se elegeria para os cargos executivos, eu sempre defendi a necessidade de que tivéssemos, ao menos no legislativo, uma representação contundente da oposição. Acredito, firmemente, que foi isso que fortaleceu nossa democracia.

O que se viu, nestes 8 anos de governo Lula, infelizmente, foi uma oposição indolente, irresponsável ou colaboracionista, à esquerda e à direita.

À sinistra, grupelhos como PSOL ou PSTU não conseguiram, nem mesmo, resolver seus conflitos internos e nunca tiveram capacidade de mostrar à sociedade mais do que devaneios juvenis. À destra, PSDB e DEM nunca tiveram ânimo para imprimir uma oposição sistemática ao governo Lula.

Há dois elementos, fundamentalmente, que motivam um partido de oposição. O primeiro é ideológico, programático, movido pela convicção de que tenha uma proposta melhor do que a da situação. O segundo é, pura e simplesmente, o desejo de apropria-se do poder.

A motivação de PSDB e DEM encaixa-se no segundo caso, já que o governo Lula, sob o ponto de vista destes partidos, só teve o defeito de não ser deles. Nada que foi feito no governo do petista contrariou interesses dos componentes destes partidos e dos segmentos defendidos por eles. Ou alguém pode afirmar que os bancos e as grandes empreiteiras tiveram alguma perda nos últimos anos?

Sei que o momento é de comemoração para a militância petista e por isso, não tenho a ingenuidade de cobrar uma postura diferente daquela que os torcedores de futebol têm quando seu time é campeão, mesmo jogando feio. Sei que o momento é de comemorar. Só que tem outro campeonato no próximo ano e a folga com que Dilma será eleita, deveria servir de lastro para que ela pudesse governar com mais independência das relações políticas espúrias, como não foi o caso do governo Lula. Para que isso aconteça, será necessário que haja uma cobrança mais forte no sentido de que se imprima, de verdade, os avanços de que o Brasil precisa. Não tenho esperanças de que essa pressão venha da oposição instituída. Pode parecer absurdo (e é), mas a oposição ao governo terá de vir de dentro do próprio governo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Preconceito e ignorância

O amigo Bruno Ribeiro escreveu em seu blog, um bom texto a respeito de preconceito, com pinceladas específicas em relação ao presidente Lula. Minha opinião a respeito do preconceito, em geral, é muito parecida com o que ele colocou.

Embora concorde quando ele fala que as respostas céticas de seus interlocutores a respeito do tema sejam conformistas, sou obrigado a reconhecer que elas são verdadeiras. O preconceito existe sim e não há sinal de que esteja diminuindo.

O preconceito, pra mim, é pura ignorância. Simples assim. É expressão de quem emite juízo de valor sem conhecimento de causa. É opinião baseada em impressões desprovidas de saber. Assim, as pessoas podem achar que todo preto é burro, todo nordestino é preguiçoso, toda mulher é histérica, todo evangélico é babaca, todo careca é trouxa, todo feio é triste, enfim, sem o conhecimento, sem o saber, é possível achar qualquer coisa, caso não se tenha alguma preocupação em ser justo.

Mais grave do que isso, entretanto, é quando o saber existe e, mesmo assim, expressam-se os mesmos juízos. Aí não é mais preconceito. Aí já é falha de caráter, pois mesmo sabendo que a opinião não está suportada por informação consistente, percebe-se a contínua insistência na tese, aproveitando-se, até, do preconceito alheio. Um determinado preto pode até ser burro, mas não o é por ser preto. Seria, mesmo que fosse ariano. Um nordestino preguiçoso seria assim mesmo se tivesse nascido gaúcho. Um evangélico babaca não seria diferente se fosse espírita.

Meu pessimismo me leva a acreditar que o preconceito não terá fim. Se otimista eu fosse, conseguiria, no máximo, enxergar o fim do preconceito como uma utopia. O caminho seria, então, a educação, seria o saber, seria o conhecimento. Desta forma, com a sabedoria adquirida, só sobrariam os sem caráter a emitir opiniões baseadas no nada. Infelizmente, me parece que a aquisição do conhecimento é alguma coisa mais utópica do que o fim do preconceito.

Especificamente, em relação ao presidente Lula, reconheço que a carga de críticas que cai sobre ele é pesadamente suportada pelo preconceito. Sempre combati isso, nas conversas em geral, com extrema rispidez, mesmo porque sinto um enorme incômodo em ser confundido com um preconceituoso quando faço alguma crítica a ele ou ao seu governo. Os poucos leitores que este blog coleciona são testemunhas do quanto tenho criticado o governo petista. Por causa disto já fui chamado de conservador, de direitista, de babaca, ora aqui, ora ao vivo. Até aí, tudo bem. Já me chamaram de tanta coisa na vida, sem que eu fosse (embora algumas eu tenha sido mesmo), que não é isso o que mais importa. O que me importa é que a carga de preconceito que cai sobre os ombros do nosso presidente faz com que todos que achem acertado criticá-lo, acabem sendo juntados num mesmo balaio, com gatos de bandos distintos.

Sigo, entretanto, firme em minha convicção de que a crítica é a ferramenta mais eficaz na depuração de problemas e não posso abrir mão da liberdade de fazê-la. Vou continuar buscando esta depuração, mesmo porque, acredito que isso seja mais importante do que os eventuais rótulos que me coloquem no peito.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Por que votarei em Dilma

O título deste post poderia terminar com um sinal de interrogação, mas isso não seria honesto. Se o título fosse uma pergunta, denotaria alguma dúvida, coisa que, absolutamente, não tenho mais. Votarei em Dilma sem nenhuma dúvida, mas, também, sem convicção. Alguém pode achar que isso é contraditório, mas não é.

Votarei em Dilma, basicamente, para não votar em Serra. E o meu não-voto em Serra não se deve ao seu currículo ou a qualquer questão ideológica. Não se deve ao fato dele estar andando em más companhias ou à escolha de seu vice. Em qualquer um destes itens, não identifico, sinceramente, grandes diferenças entre o candidato da oposição e a candidata do governo.

O motivo do meu não-voto em Serra se deve à sua covardia.

Serra teve a oportunidade de defender sua candidatura dizendo o que ele poderia fazer para melhorar o que aqui está. Poderia mostrar sua face, poderia tentar convencer os eleitores a votarem num outro projeto e mostrar à sociedade que este projeto é consistente. Muito provavelmente, não conseguiria se eleger, mas estaria, ao menos, sendo honesto. Muito possivelmente, seu projeto não tenha consistência, mas, ao menos, estaria mostrando, claramente, a que veio.

Mas, não. Serra preferiu o caminho da omissão. Preferiu aceitar a imposição do vice de um partido que está em frangalhos, preferiu submeter-se aos caprichos de um marqueteiro profissional, preferiu fugir da responsabilidade pela derrota. E deu o tiro de misericórdia em sua própria candidatura, quando tentou, num gesto desesperado, ligar sua imagem à do presidente Lula. Esta foi a gota d’água e o ápice da sua covardia.

Dilma contará com o voto da militância política do PT, com o voto de uma parcela esclarecida da sociedade, contará com o voto de uma parcela ignorante da população. Contará com votos dos pobres, da classe média, de parte da elite, até. Esse mundo de votos deverá elegê-la, possivelmente, no primeiro turno. Contará, também, com um voto meu. Será, repito, um voto sem convicção. Será, entretanto, um voto sem nenhuma sombra de dúvida.
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domingo, 22 de agosto de 2010

Pra não passar em branco

Já falei aqui sobre Wilson das Neves e não me sinto capaz de escrever melhor do que fiz naquela oportunidade. Não poderia, entretanto, deixar passar em branco seu mais novo disco, Pra gente fazer mais um samba, lançado este ano. Além das costumeiras parcerias com Paulo César Pinheiro, ele nos brinda com sambas feitos com Nei Lopes, Arlindo Cruz, Délcio Carvalho, Nelson Rufino e Roque Ferreira. Mais do que nunca, aqui, vale o velho ditado: diga-me com quem andas e eu te direi quem és.

Cada vez mais, ouvir Wilson das Neves me faz lembrar Roberto Silva. E isso é muito bom.



Estava faltando você (Wilson das Neves e Délcio Carvalho)

sábado, 21 de agosto de 2010

Lidando com o tempo

Eu tinha 20 anos quando li Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marquez e Dom Casmurro de Machado de Assis. Em idade mais tenra havia lido alguns dos livros da fase romântica do escritor brasileiro e não tinha me sentido arrebatado por sua prosa. Quando penetrei em seu universo realista, entretanto, o arrebatamento foi instantâneo e somente suplantado pela leitura, logo depois, da obra do autor colombiano.

Não sou dado a releituras, já que me assombra o fantasma representado pela convicção de que não terei tempo, em minha vida, para ler, sequer os livros que repousam em minha estante, quiçá, todos aqueles que eu desejo. Esta convicção, que é quase uma certeza, me persegue há muito tempo e isso faz com que eu evite releituras. Nem mesmo filmes eu costumo ver mais de uma vez, o que mostra que esta minha urgência se conta em minutos.

Apesar disso, e por absoluto acaso, reli essas duas obras quando estava com trinta anos. A sensação que tive foi a que estava lendo coisa inédita, tal foi a diferença que as leituras representaram. Eram os mesmos livros, as mesmas edições, o que fez com que eu percebesse como o tempo operava, em mim, significativas mudanças. Ao fazer 40 anos, repeti, deliberadamente, esta experiência e a leitura dos dois livros revelou-se, mais uma vez, surpreendente.

A nossa maneira de ver as coisas, as mesmas coisas, pode mudar, sem que isso signifique que alguma destas maneiras seja equivocada. As nossas verdades são dependentes de vários fatores e o tempo é o mais poderoso de todos. É por isso que tendo a desconfiar das pessoas que carregam certezas absolutas por toda a vida, pessoas que têm dificuldade em rever suas próprias posições, através do exercício do auto-questionamento. Ao longo dos anos, aprendi a apreciar, com sinceridade, as situações em que consegui ser convencido a mudar minha opinião e descobri que pode ser prazeroso o momento da percepção de que eu estava errado. Isso requer, entretanto, desapego à vaidade e uma certa dose de coragem, principalmente no mundo extremamente competitivo em que vivemos.

E é com extrema excitação que encaro, a partir de agora, a oportunidade de ler Dom Casmurro e Cem anos de solidão, novamente. Anseio pelas novas descobertas.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Histórias das canções

Escrevi um post, semanas atrás, falando sobre meu interesse em saber sobre o como e os porquês que movem os escritores. Tenho essa curiosidade, em lugar de tê-la a respeito da vida pessoal de cada um. Por isso não me animo a assistir realities shows ou a ler a revista Caras. Tenho um sincero desinteresse em saber como é a casa de fulano ou se beltrano comeu sicrana. Nada disso me interessa, de verdade.

Me interessa, entretanto, a obra dos artistas e, além do como e dos porquês, tenho uma genuína curiosidade em saber como estas obras foram concebidas, como as idéias surgiram, as histórias por trás de cada concepção.

O livro Histórias das Minhas Canções, de Paulo César Pinheiro foi um achado delicioso, devorado em poucas horas, em que eu pude, além de reler letras de músicas, as quais não me esqueço nunca, saber da história de cada uma delas, o como, o onde e o porquê foram criadas. Em face à vastidão da obra deste poeta, as 256 páginas do livro parecem uma gota que não sacia uma sede infinita. O livro se esvai, delicioso, mas injustamente curto. Dá uma vontade louca de continuar descobrindo as histórias por traz de cada obra prima deste autor, em que as mais pitorescas são aquelas que nos mostram as artimanhas utilizadas para driblar a burocrática censura imposta ao país nos anos de chumbo em que alguns de nós vivemos. Muito interessante, também, seu relato da motivação absolutamente apolítica a partir da qual foi composta a letra de Tô Voltando, com Maurício Tapajós e da surpresa do autor ao vê-la transformada no hino da anistia, sem que isso tivesse sequer passado por sua cabeça quando a compôs.

Um livro curto, só 256 páginas, insuficiente para saciar minha sede de conhecer. E apesar disso, um livro esplêndido, capaz de satisfazer um desejo, se não pela quantidade, pela imensa qualidade.

Debate

Eu poderia dizer que fiquei em dúvida entre assistir ao debate com os candidatos a presidência da república, realizado pela Rede Bandeirantes e assistir ao jogo São Paulo e Internacional, mas isso não seria verdade. Não tive dúvida nenhuma em optar pelo debate, durante todo o tempo. Do jogo, vi trechos, aproveitando os intervalos.

Mais do que alguma esperança de grandes emoções, o que me motivou a assisti-lo foi a expectativa de escrever, aqui, sobre ele. Sei que, fosse qual fosse o resultado, a maioria dos blogs de quem é partidário de Dilma ou de Serra iria declarar que seu candidato teve expressiva vantagem, apresentando performance absolutamente superior, mesmo que um deles viesse a representar um retumbante fiasco. Eu, não sendo partidário de nenhum lado, por isso mesmo, me sinto muito à vontade, portanto, para expor minha opinião.

Achei patética a participação de Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, personagem pelo qual até tive certa simpatia no passado, quando, ainda pertencente ao PT, ele teve coragem de desmascarar algumas mazelas ocorridas dentro das entranhas do partido. No debate que acaba de terminar, sua participação foi digna de pena.

Marina Silva, do PV, apresenta-se com um discurso inconsistente e com uma proposta conciliatória que beira à ingenuidade. Por diversas vezes, parecia conclamar toda a nação a dar as mãos e caminhar unida, ricos e pobres, feios e belos, vascaínos e flamenguistas, em direção a um éden prometido.

Mas vamos ao que interessa, ou seja, o embate entre Dilma e Serra.

Iniciando o debate com muito nervosismo, gaguejando, demonstrando alguma insegurança, cheguei a ter a sensação de que Dilma iria desabar, principalmente ao notar o quanto Serra se apresentava com desenvoltura diante das câmeras. Embora eu não ache que essa questão seja significativa, dada a inexperiência da candidata em debates e ao traquejo do candidato, forjado em muitos anos no ofício de dar aulas, essa sensação poderia ter efeito sobre um eleitor que, porventura, supervalorize estas qualidades. Aos poucos, entretanto, Dilma foi assumindo o controle dos próprios nervos e, se não chegou a passar a imagem de alguém absolutamente confortável com a situação, conseguiu, ao menos, levar o debate a termo, sem deixar a maionese desandar. Contribuiu, para isso, a total falta de capacidade do tucano em aproveitar-se dos momentos iniciais de insegurança da candidata governista.

Como era de se esperar, não houve baixaria, já que este papel cabe ao vice da candidatura tucana, Indio da Costa e ao presidente do PT José Eduardo Dutra. A eles é que foi delegada a tarefa de baixar o porrete e o nível da campanha. Assim como também era de se esperar, o candidato da oposição procurou bater nos pontos fracos do governo Lula como a má gestão dos portos e se concentrou em se descolar da figura e do governo de Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário, Dilma buscou, o tempo todo, associar-se ao governo Lula, do qual, de fato, foi importante integrante. Com muito menos ênfase, falou de seus planos de governo.

Com tudo isso, e com um regulamento que engessava a discussão e garantia certo conforto aos dois principais candidatos, o debate foi transcorrendo suavemente.

Alguns instantes pitorescos:

* No início do debate, tomada, ainda, por forte nervosismo, Dilma fez uma confusão danada com os nomes de alguns programas e serviços sociais e descreveu o SAMU como um serviço para transportar crianças. Serra, que teve a oportunidade de fazer a réplica, poderia tê-la corrigido, o que significaria uma vitória tática, naquele momento do embate. Não o fez, perdendo a chance que lhe caia no colo. Certamente, nem Dilma nem Serra jamais tiveram necessidade de utilizar os serviços do SAMU que, aliás, são bastante bons.

*Serra insistiu, inexplicavelmente, num problema envolvendo subsídios do governo federal às APAEs, uma questão que, embora possa ser importantíssima para algumas pessoas, não iria sensibilizar parte significativa do eleitorado. Perdeu tempo e espaço preciosos.

*Em suas considerações finais, Plínio de Arruda Sampaio, olhando fixamente para a câmera, conclamou os camponeses que o estavam assistindo naquele momento a atentarem para a diferença entre sua proposta e a de seus opositores. Nem imagina Plínio que, àquela hora, quase meia noite e meia, era muito mais fácil o São Paulo estar goleando o Internacional do que haver um único camponês ainda acordado.

*O momento mais patético, entretanto, mais patético ainda do que a participação de Plínio com suas orelhas de abano, foi o momento das considerações finais de Serra em que ele forçou a barra ao falar de sua origem humilde, de sua história de oposição ao regime militar, ao lembrar-se do pai, enfim, tudo isso para provocar um marejar nos olhos, ciente de que isso causa algum efeito em algum eleitor. Isso já é desespero de causa.

Enfim, todos salvaram-se. Tenho certeza que os blogs de amanhã vão cantar as suas vitórias e acho isso absolutamente natural. Eleição é assim mesmo. Mas nem que eu veja este debate outra vez (coisa que não farei nem ameaçado de morte), vou me convencer de que houve algum vencedor. Não. Pelo menos nesta noite, ninguém ganhou. Na verdade, ganhou o São Paulo, mas quem levou foi o Inter.

sábado, 3 de julho de 2010

A Copa do Mundo, ainda

O futebol brasileiro não foi eliminado da Copa do Mundo, pois o futebol brasileiro não foi à África do Sul. Eliminada foi a seleção do Dunga, a seleção da CBF, entidade da qual eu não reconheço a legitimidade.

Mesmo assim, eu torci pela seleção que estava lá, representando o Brasil, já que esta é, em mim, uma antiga falha de caráter. Torci, sabendo que ela não iria me dar prazer e, por isso mesmo, escolhi as seleções da Argentina e da Espanha para desempenharem este papel, como escrevi aqui, dias atrás. E se não tive nenhuma ilusão com a seleção do Dunga, os times da Espanha e da Argentina representaram duas desilusões.

A Espanha passou pelo Paraguai, graças a um árbitro trapalhão e a uma estratégia covarde, no início do jogo do time guarani. Sim, pois com poucos minutos de partida, ficou claro que a Espanha não era aquela fúria que se anunciara. Foi um time confuso e pouco assertivo. E o Paraguai, aparentemente, só percebeu isto aos 35 minutos do primeiro tempo. Ou então, percebeu antes e não teve coragem de encarar esta realidade. No final, acabou sendo castigado por apresentar postura excessivamente humilde.

A Argentina não fez nada diferente do que tinha feito desde o início da Copa. Apenas pegou, pela frente, um time que jogou mais bola do que ela. Jogou muito mais bola, aliás. E eu, que nunca fui um grande fã do futebol alemão, pragmático e objetivo, tive que reconhecer que pelo menos, o que eles apresentaram foi o futebol mais honesto com sua tradição. Sim, por que, o futebol da Alemanha, em geral, não é bonito, mas ninguém espera deles que isso aconteça. Os Alemães praticam um futebol direto e burocrático, desde sempre, e, com isso, já foram campeões 3 vezes. E, desta vez, jogando uma bola mais agressiva e mais rápida do que normalmente fazem, conseguiram envolver e massacrar a maioria dos adversários até agora. Se eu não estivesse escaldado pela temeridade que é fazer previsões, diria que fará o mesmo com o time da Espanha. Não direi nada, entretanto.

A honestidade que sobrou ao time da Alemanha faltou ao time da seleção da CBF. E não é a primeira vez que isso acontece. Há tempos que o Brasil vem sendo traído por um modo de jogar futebol que não tem absolutamente nenhuma identidade com sua tradição. Um modo de tratar a bola que despreza o drible, a malícia, a alegria.

Além de honesta, a comissão técnica da Alemanha teve a coragem que faltou a Dunga. Coragem de barrar alguns veteranos que se julgavam donos da equipe e convocar jovens de 21 anos para atuarem como titulares. Enquanto isso, Dunga desprezou uma dádiva que a natureza lhe oferecia e deixou de fora jogadores valorosos como Ganso e Neymar.

Erro parecido com esse foi cometido também por Maradona, embora no sentido inverso, ao deixar de convocar jogadores experientes como Zanetti e Cambiasso. Acreditou que ter talento de sobra no ataque seria suficiente para alcançar o sucesso. Não foi. Mas as semelhanças entre Dunga e Maradona terminam por aí, já que em todos os outros aspectos o técnico portenho venceu, de lavada, o gaúcho. Quando vimos um Dunga rancoroso e amargurado, víamos um Maradona espirituoso e divertido. À beira do campo, um tinha raiva e o outro tinha ganas de vitória. E, o mais importante, no momento mais difícil para os dois times, no momento da derrota, o comportamento dos dois técnicos não poderia ter sido mais distante. Ao final de cada partida, enquanto o técnico Argentino entrava no campo para abraçar todos os seus jogadores, o brasileiro deu as costas a eles e fugiu pro vestiário antes de todo mundo.

Se, numa comparação entre Dunga e Maradona sempre sobrou talento pro lado Argentino, este episódio mostrou que no quesito da coragem e hombridade, o técnico brasileiro também perde de goleada. Maradona sempre foi um deus em sua terra e, mesmo assim, teve coragem de aventurar-se numa empreitada arriscada. Se eu conheço o povo argentino, ele vai continuar valorizando seu grande ídolo.

Dunga nunca foi nada e continuará a ser desprezível. Se eu conheço o nosso povo, ele será esquecido em pouquíssimo tempo. E é isso o que ele merece.

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

O vôo raso dos tucanos

A campanha do PSDB à presidência da república, depois da fase atabalhoada, está entrando na fase melancólica cujo fato mais emblemático foi a escolha do candidato a vice na chapa de José Serra. Mais correto seria dizer a falta de escolha, já que não pululam nomes dispostos a embarcar num barco furado como este, aparentemente, nem no DEM e muito menos no PSDB.

A próxima fase será a do desespero, da agressividade rasgada, dos golpes baixos. É uma estratégia típica, porém, ultrapassada, já que, felizmente, tudo indica que este tipo de estratagema não seduz mais a sociedade. Deu certo no passado, quando foi utilizada por Collor contra Lula, no caso Miriam Cordeiro-Luriam, mas deu errado nas últimas eleições municipais em São Paulo, quando Marta Suplicy tentou alavancar sua candidatura na “solteirice” de Gilberto Kassab. Não funcionou, pois, aparentemente, o eleitorado adquiriu maturidade suficiente para não cair neste tipo de armadilha. Torço para que seja isso. Torço para que, realmente, o eleitorado esteja mais maduro, este eleitorado que votou em Lula, mas que também já elegeu Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor.

Voltando à campanha atual, a escolha de Álvaro Dias para vice de Serra teria sido absolutamente equivocada, já que ele é um nome que não conta com apoio dentro do partido. A solução, entretanto, não podia ser pior, ou seja, a escolha de um nome obscuro do DEM. Mas afinal, qual político do DEM não apresenta um perfil obscuro?

Este partido, não devemos esquecer, é aquele que já foi PFL, oriundo do PDS, originado na velha ARENA. É o partido mais identificado com o regime instaurado pela ditadura militar que reinou neste país nas décadas de 1960 e 70. Este partido reúne o que há de mais retrógrado na representação política brasileira. É um partido que, aliás, não soube ser oposição nestes anos de governo Lula. Sim, este partido, o DEM, não sabe ser oposição. Comparado a seus quadros, só encontramos paridade em alguns nomes do PMDB que estão aliados ao governo Lula, como José Sarney ou Renan Calheiros, que também têm grande dificuldade de ocupar uma posição oposicionista.

As apostas dos tucanos, agora, irão se voltar ao programa eleitoral gratuito da TV, confiantes nos milagres que os marqueteiros de plantão poderão operar. Ocorre que o outro lado também conhece os poderes destes marqueteiros, já experimentou seus truques e tirou proveito de seus resultados. Se fosse depender disso, haveria empate.

Além do mais, a penetração da TV aberta é muito menor do que foi no passado, já que a classe média, responsável por 53% do eleitorado, tem hoje, em sua maioria, algum plano de TV paga. Será natural mudar o canal da TV no momento do programa eleitoral. Aos que permanecerem sintonizados no canal aberto, será oferecido o mais baixo nível de debate político que nossos candidatos são capazes de produzir. Pode ser que seja até divertido, mas, certamente, não será nem um pouco instrutivo.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Elogio à liberdade

Dentre todos os personagens dos livros de Jorge Amado, Quincas Berro d’Água é aquele que mais me convida a refletir sobre a liberdade. Não falo da liberdade coletiva, a liberdade de um povo oprimido por nenhuma ditadura sangrenta ou burocrática. Falo da liberdade individual, aquela mais egoísta possível, a que cada um de nós, intimamente, se não a busca, sonha com ela.

A gente passa a vida toda se adequando, tentando se encaixar num mundo que nos acolha, que nos aceite, que nos trate bem. E nessa tentativa, acabamos correndo o risco de nos anularmos, de ceder tanto, que passamos a ser parte de um processo automático, engrenagem de uma máquina velha e ultrapassada. Fazemos isso quando aceitamos, de bom grado, tudo aquilo que se nos oferece, sem questionamentos, sem crítica. É o lazer estereotipado que nos impinge a televisão, o consumismo ao qual nos condena o mercado, a vida tacanha que, por vezes, aceitamos, em troca de uma ilusória sensação de segurança ou conforto.

Quantos de nós não sonha em romper as barreiras da comodidade e se aventurar num mundo desconhecido, como fazíamos quando éramos crianças. Uma vida livre, repleta de perigos e satisfações plenas, como as tardes de ócio e os amores proibidos.

Tudo isso me veio à mente, ontem, assistindo ao filme de Sérgio Machado, Quincas Berro d’Água. Um personagem que encarou a liberdade de forma radical, com a fuga das amarras da vida social e da família, o mergulho na cachaça, a vida em meio à putaria. O que pode mais querer uma pessoa sã?

O filme traz uma trinca de atores excepcional. Paulo José, no papel do protagonista, consegue dar vida ao morto, desempenhando a função sem nunca abrir os olhos. Sua voz permeia a narrativa o tempo todo, num compasso dolente, mas feliz, ao mesmo tempo. Consegue passar a sensação de uma vida vivida em estado de verdadeira alegria, numa Bahia real, sem ter de apelar pra nenhum sotaque forçado, gaúcho que é.

Marieta Severo está impecável, o que já é um lugar comum. Não tenho dúvidas que é, hoje, a mais competente atriz brasileira.

E, completando a trinca, uma atriz pela qual nunca tive qualquer interesse, Mariana Ximenes exibe uma surpreendente expressividade e está insuportavelmente bonita no papel. Durante o filme todo, transpira sensualidade, sem uma cena, sequer, de nudez.

A história contida em A Morte e a morte de Quincas Berro d’Água é um alerta para que todos nós questionemos o rumo que estamos dando às nossas vidas, um aviso dos riscos que corremos de sermos condenados à infelicidade, um elogio à liberdade.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago

Fui ler Saramago pela primeira vez quando ele já tinha escrito muitos livros. E foi O Evangelho segundo Jesus Cristo, o primeiro que me arrebatou. Escrito por um ateu convicto, foi fácil me identificar com ele. Sua narrativa, sem pontuação, embora me tenha parecido difícil, no começo, depois de 15 ou 20 páginas, me pareceu a coisa mais natural do mundo. Mergulhei naquelas páginas que mostravam um Cristo humano, sem divindade, muito mais crível. E eu que não creio no Cristo divino, passei a crer no Cristo homem.

Depois foi Ensaio sobre a Cegueira que me absorveu. Eu o li de um fôlego só, absorto, angustiado. Que delícia ler algo que te consome, que te prende, que te estimula a ficar refletindo o tempo todo.

Do terceiro, A Caverna, não gostei tanto. Talvez estivesse num grau de exigência muito grande, expectativa criada pelos dois anteriores. Pensando naquele livro, agora, lembro-me que, apesar da aparente falta de entusiasmo, ele também me prendeu a suas páginas. Memorial do Convento, li o começo e não prossegui, sem desistir, postergando a leitura. Nunca mais li nada dele. Tenho a estante com alguns livros seus, ainda virgens pra mim.

E agora Saramago está morto. A morte que ele tratou através de suas intermitências num livro que faz parte da virgindade da minha estante. Morreu o escritor que está entre os que eu mais admiro e que mais me proporcionaram prazer com a leitura. Um prazer genuino, um prazer emocionante. Mais que o escritor, admiro o pensador, o homem que teve a coragem de morrer ateu e comunista, numa época em que estas duas coisas estão fora de moda.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Vai começar a copa

O pessoal da empresa em que eu trabalho vai assistir ao primeiro jogo do Brasil num boteco, comendo churrasco e enchendo a cara. Adoro churrasco e adoro encher a cara, mas não gosto de fazer isso enquanto assisto a um jogo de futebol. Umas moças bem bonitas estão insistindo para que eu vá, o que massageia o meu ego e me provoca uma enorme tentação, mas ninguém vai me ver assistindo ao jogo do Brasil ao lado de uma turba barulhenta, por mais que eu aprecie a companhia de moças bonitas.

Vou assistir ao jogo ao lado de meu pai, que é um sujeito que assiste futebol do mesmo jeito que eu: em absoluto silêncio. É que achamos futebol um assunto demasiado sério pra ficar tratando a coisa na base da brincadeira. Os festeiros que me perdoem, entendo completamente suas motivações, mas futebol é coisa que eu gosto de ver absolutamente concentrado.

Nunca consegui torcer contra o Brasil (nem nunca quis), mas confesso que não nutro muita esperança que esta seleção me proporcione algum prazer. Por isso, vou torcer pelo Brasil e vou saciar minha vontade de ver jogos espetaculares quando estiverem em campo os times da Argentina ou da Espanha. Desta maneira, terei dois tipos de satisfação.

Copa do mundo é um negó$$io que acontece a cada 4 anos e tem sido, nas últimas edições, sempre a mesma coisa. Ainda assim, me causa certo frisson quando começa a chegar a hora da bola rolar, bola, aliás, que tem sido vítima de críticas e elogios dos jogadores, dependendo da empresa de material esportivo com a qual tenham contrato. O que importa é que a mesma bola irá rolar para todos os times.

Tenho tido cada vez menos paciência com a cobertura jornalística da copa pelos grandes grupos de mídia. A babação de ovo e a rasgação de seda pra cima da CBF têm sido vergonhosas. O que mais me irritou, entretanto, foi ver alguns jornalistas comemorando a quebra do braço de Drogba, da Costa do Marfim, ou a contusão de Nani de Portugal. Torcer para um adversário se machucar antes do jogo é de uma covardia atroz.

Sobre esta cobertura, a única exceção, entre tudo que estou vendo é, como de costume, o trabalho da ESPN Brasil. Apesar do mau humor de José Trajano, que, às vezes, beira o chilique, sua equipe de profissionais é, de longe, a mais credenciada a dizer que faz verdadeiro jornalismo. Pessoas como Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, André Plihal ou Roberto Salim, entre muitos outros, em frente ou atrás das câmeras, produzem um trabalho de altíssima qualidade, que só aumenta o meu nível de prazer.

É isso aí. Chega de papo. Vai começar a Copa.

sábado, 5 de junho de 2010

Motivação e talento

Na juventude, cometi alguns poemas e outras tantas letras de música que fiz o favor de não mostrar a muita gente, livrando, assim, a humanidade, de experiência tão infeliz. Escrevi alguns contos, poucos, que minha autocensura não me permite mostrar a ninguém, nem mesmo à Clélia. Talvez, algum dia, mostre a ela, ao menos. Por enquanto, ainda não decidi se servem pra alguma coisa. Apesar da convicção da falta de qualidade dos versos e da incerteza em relação aos contos, fico insistindo em escrever. É como se fosse um vício incontrolável.

Minha dificuldade em escrever sempre encontrou desculpas e justificativas, sobretudo a falta de tempo, a mais comum de todas. Até que um dia, quando me mudei, sozinho, para o interior, deixando a família em São Paulo, durante um ano, antes que todos se mudassem pra cá. A partir desta perspectiva, a de ter, durante a semana, toda as noites livres e só, excitei-me com a expectativa de poder escrever como um louco. Não produzi uma linha. Mas vivi um ano inteiro atormentado, como se algo quisesse sair de mim, aprisionado.

Acabei encontrando espaço e motivo neste blog. Não sei bem qualificar isto que eu escrevo. Talvez sejam crônicas, talvez nem isso. Como falo freqüentemente sobre livros, filmes e discos, há quem diga que escrevo críticas. Não é isso. Não me sinto apto a criticar o trabalho dos outros. O que eu faço, na verdade, é me apropriar da obra alheia e fazê-la servir de mote pra que eu fale as coisas que habitam minha cabeça. O que importa é que este espaço acabou me proporcionando um certo sossego, uma tranqüilidade que eu não tinha antes.

Tudo isso pra falar do livro que estou lendo agora, por que escrevo?. Na verdade, foi como escrevo?, da mesma série, que comecei a ler. Acontece que o início da leitura de um remetia tantas vezes ao outro, que resolvi inverter a ordem e investigar o porquê, antes do como.

Organizado por José Domingos de Brito, o livro traz depoimentos, trechos de reportagens ou entrevistas, em que escritores renomados, do Brasil e do resto do mundo, tentam explicar o motivo que os levam a exercer esta atividade. O que os move, o que os motiva, sendo que nem sempre, pra não dizer quase nunca, conseguem chegar a uma resposta que os convença a eles próprios.

Ler estes depoimentos acabou me causando certo alívio, ao perceber que essa obsessão inexplicável não é exclusividade das almas desprovidas de talento.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

As certezas e as desilusões

Dias atrás, escrevi um texto em que abordava a sucessão presidencial, passando a sensação que tenho de que não sinto tanta diferença entre escolher o candidato tucano ou a candidata do presidente Lula. Se pudesse, não votaria em nenhum deles, mas também não me animo com o discurso de Marina Silva, que aliás, nunca me despertou muito interesse. Votar em branco é uma alternativa que nunca considerei plausível, principalmente pra quem, como eu, sou de uma época em que votar era proibido.

Minha indecisão é absolutamente sincera. Por desinteresse, ignorância, ceticismo ou todos estes ingredientes juntos, não tenho uma predileção por qualquer um dos candidatos, até mesmo, porque não reconheço em nenhum deles um projeto consistente de governo para o Brasil. Considero, tanto o projeto petista quanto o tucano, como simples planos de detenção de poder e defesa de interesses de grupos restritos e oportunistas, como tem sido ao longo da história republicana do país.

Reconheço que não tenho tido disposição para buscar, nos jornais, informação que me oriente, mas por dois motivos acredito que esse interesse não vai se manifestar. Em primeiro lugar, os jornais não informam de maneira imparcial. Alguns até fingem, mas a maioria é escrachadamente partidária, pra um lado ou pra outro. O pouco que vejo e ouço, são manifestações de criticas pessoais, absolutamente hipócritas, em relação ao candidato adversário. Não tenho tanta paciência e reside aí a segunda razão para o meu descaso. Além de tudo isso, os marqueteiros de plantão já estão operando seus milagres e conseguiram sumir com as olheiras da Dilma e ensinaram o Serra a sorrir sem mostrar seus caninos de vampiro. Conseguiram transformar ambos em pessoas simpáticas, coisa que nunca foram, nenhum dos dois.

Outra alternativa, seria verificar ao lado de quem cada candidato caminha. Mas aí sim é que as coisas se confundem mais. Afinal, não dá pra confiar em quem anda de mãos dadas com Arthur Virgílio, José Sarney, Renan Calheiros ou Álvaro Dias.

A última chance seria olhar pros meus amigos, pessoas em quem confio e das quais não tenho nenhuma dúvida a respeito das intenções. E mesmo ali, encontro uma equânime divisão. Há quem penda para o Serra e quem clame pela Dilma. E enxergo neles, dos dois lados, uma espécie de cegueira que só se explica pela paixão. Uma paixão que faz com que se classifique Serra como o mais selvagem dos ultra-direitistas e Dilma como um gênio da gestão pública. Ou, então, que vejam Lula como um subdesenvolvido analfabeto e Fernando Henrique Cardoso como o maior estadista de todos os tempos.

Nada disso é verdade. Lula não é santo e Serra não suga o sangue de virgens desamparadas. Dilma nunca foi uma terrorista sanguinária e Fernando Henrique não é o ícone máximo do pensamento moderno mundial. Todos têm certos vícios e muitos pecados.

Por fim, minha filha, que vai votar em Dilma, não se conforma que eu tenha alguma dúvida. Mas isso eu consigo entender. Ela tem aquela certeza absoluta que acomete os jovens. Eu também já tive todas as certezas do mundo. Hoje, carrego muitas dúvidas e algumas desilusões.

sábado, 15 de maio de 2010

Maestria

Vez ou outra, invento de ler alguma biografia. Quando cismo em fazer isso, costumo escolher alguma personalidade pela qual eu tenha admiração e de quem eu busque mais informação. Foi assim com Garrincha, Assis Chateaubriant, Carmen Miranda ou Nelson Rodrigues. Todos, personagens que me suscitavam curiosidade. Todos, de quem eu sabia que sabia pouco. E, por causa disso foi que eu relutei em iniciar a leitura da biografia de Tom Jobim, escrita por Sérgio Cabral. Afinal, eu já li tanta coisa a respeito deste fundamental artista, já ouvi tanto as suas músicas, já me inteirei tanto a respeito da Bossa Nova, que achei que representaria certa perda de tempo, encarar suas mais de 500 páginas.

Eu me surpreendi, duplamente.

Primeiro, por que descobri que havia, sobre ele, meia dúzia de histórias desconhecidas completamente por mim, além de perceber que, ler as histórias já conhecidas, com começo, meio e fim e inseridas num contexto e ambiente mais claramente explicitados, é uma experiência muito mais prazerosa.

A outra surpresa, igualmente positiva, foi descobrir o lado biógrafo de Sérgio Cabral. Já li dezenas de reportagens suas, críticas, comentários, sempre envolvendo a cultura brasileira, sobretudo a nossa música, especialmente o samba. Nunca tinha, entretanto, lido um trabalho biográfico escrito por este jornalista. Gostei muito.

Ele não tem aquele estilo investigativo, de quem caça os segredos, esmiúça os detalhes, garimpa as histórias, como outros biógrafos como Ruy Castro ou Fernando Morais. Não mantém aquela distância solene e respeitosa do biografado, criando quase uma barreira entre eles. Não. Sérgio Cabral escreve de dentro da história. Escreve com a propriedade de quem conviveu com o objeto de seu estudo, seu personagem, seu ambiente, seu mundo. Isso dá ao texto um sabor diferente. Isso o exime de ter de comprovar, de checar, de cruzar informações. Faz o trabalho como se fosse mero exercício de relembrar momentos especiais, situações prazerosas.

Além de tudo isso, ler esta biografia só veio reforçar minha opinião de que, se Carmem Miranda foi a primeira a levar o mundo (e mais especificamente os Estados Unidos) a conhecer a música brasileira, foi Tom Jobim que fez com que os americanos e o mundo todo, passassem a respeitá-la como produto de qualidade superior. Tom Jobim é, sem sombra de dúvidas, um dos compositores brasileiros mais respeitados no mundo inteiro, não só pelos amantes da boa música mas, sobretudo, por aqueles que estão inseridos neste meio, que vivem dela, que fazem dela razão de viver.

É, sem dúvida, nosso maestro soberano.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Confissões futebolísticas

Confesso, eu que tenho deixado muito claro o quanto o futebol deixou de me encantar, há tempos, que voltei a sentir a fisgada da sedução vendo o time do Santos jogar, neste campeonato paulista.

Confesso que deixei de assistir a um jogo do meu time para ver um jogo do Santos, que passava no mesmo horário.

Confesso que cheguei a torcer a favor do Santos, num jogo contra o meu time, dada a infinita diferença estética entre o futebol exibido pelos dois.

Confesso que não havia visto nenhum jogo do Santo André e fui assistir ao primeiro jogo da final, imaginando que os meninos da Vila iriam golear o time do ABC.

Confesso que, no segundo jogo, depois de ver a trave tramar contra o time menor, a arbitragem favorecer o time maior e toda a mídia incensar o de maior torcida, no finalzinho do jogo, torci pelo Santo André.

O Santos foi campeão e, apesar das lambanças da arbitragem e da covardia do técnico, acho que foi merecido. Apesar do mau-caratismo e da imbecilidade que Robinho e Neymar, respectivamente, exibem fora de campo, mesmo assim, o Santos mereceu ser campeão. E mereceu, sobretudo, pela elegância de Paulo Henrique, o Ganso, este sim, um jogador que nem mesmo a cegueira de Dunga deveria impedir que fosse à África do Sul.

sábado, 17 de abril de 2010

Coisa Rara

Carne de vaca, arroz de festa, mato. São expressões que a gente usa para designar o que é raso, ordinário, não especial. Não necessariamente ruim, apenas, pouco especial. As coisas raras são as que me seduzem, mais ainda quando me surpreendem. É por isso que prefiro sempre um livro, um disco, um show, em que eu receba algo novo, algo que não esteja esperando. Sinto certo enfado, por exemplo, ao assistir a um show recheado de sucessos, ouvir um disco cheio de obviedades, ler autor que prime pela repetição.

Pra me excitar, além da sedução, só quando, além de raro, a coisa é especial. Há poucas coisas tão especiais quanto a música de Edu Lobo. É muito mais que raro, embora o seja, e muito. Mas é mais. A música de Edu Lobo é elegante, é requintada, é chique. E foi por isso que fiquei ansioso para ouvir seu novo disco, Tantas Marés, lançado depois de ... , quantos anos mesmo? Fui pesquisar em seu site. O último disco, de 2002, foi para a peça Cambaio, com músicas dele e de Chico Buarque, com muita gente boa cantando. Antes disso, em 1997, saiu Álbum de Teatro, uma compilação de músicas, também de Edu e Chico, feitas para peças teatrais e ballets. Voltando um pouco mais, o disco Meia Noite, excelente, com Edu cantando em todas as faixas, embora nenhuma canção fosse inédita. Disco de Edu Lobo, com músicas novas, o último foi Corrupião, de 1993. Há 17 anos! Tá aí a explicação pra minha ansiedade. A excitação veio logo em seguida, quando eu percebi que, das 12 faixas, a metade era de inéditas e com letra de Paulo César Pinheiro.

Há muito tempo não me sentia tão seduzido por um disco. Ouví-lo foi um êxtase.




Primeira Cantiga (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro) Edu Lobo e Mônica Salmaso

domingo, 4 de abril de 2010

Política e futebol

Neste ano, teremos dois eventos muito importantes para nós, o povo brasileiro. 2010 é ano de Copa do Mundo e de eleições para presidente. São dois eventos, entretanto, que não me animam, justamente por que futebol e política são dois assuntos aos quais eu dou extrema importância.

Justamente por gostar muito de futebol, tenho certa cisma com a Copa do Mundo. Me incomoda essa cultura do ganhar a qualquer custo que o espírito desta competição impinge às nossas mentes. Essa coisa da garra e da disciplina tática em detrimento do prazer e da arte. Percebi isso aos 22 anos, quando vi jogar uma seleção que não venceu a disputa, mas encheu meus olhos de admiração. Depois de ver juntos, em campo, Sócrates, Zico, Júnior e Falcão, nunca mais tive o mesmo prazer em uma Copa do Mundo. Nenhuma outra seleção, vencedora ou não, depois daquela, me causou alguma emoção. Sei que sou diferente. Sei que sou como um ser extra-terrestre por gostar mais de futebol bem jogado do que de títulos de campeão. Fazer o que? Sou assim, simplesmente.

Gosto muito de política, também. Tenho extrema convicção de que é através dela que podemos construir um mundo melhor, mais justo, mais equilibrado. Abomino as formas de governo que suprimem a liberdade política com o argumento da governabilidade. Por isso mesmo, sou avesso às ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda.

Embora aprecie o jogo da política, o processo eleitoral é o que eu menos gosto, até porque vira um clima de campeonato, um processo de ganhar a qualquer custo, muito parecido com o da Copa do Mundo. Principalmente, nos últimos tempos, em que o marketing virou ciência, em que a imagem pasteurizada dos candidatos, com seus sorrisos super brancos, seus punhos cerrados, suas mangas arregaçadas, são mais eloqüentes que suas idéias ou seus planos de governo. Sem falar no posicionamento da mídia, tão tendenciosa, para um lado e para o outro.

Os jornais e revistas adotam posição de apoio e de crítica aos candidatos segundo suas convicções e interesses. Não vejo muito mal nisso. Ruim é quando os fatos são falseados, as informações manipuladas, os interesses escondidos. Revestida de sua tradicional pose, a Folha de São Paulo critica duramente o atual governo, tentando atingir Dilma. A Veja faz a mesma coisa. Não me oponho a que a imprensa critique, creio que é esta uma de suas principais funções. Estaria no papel dela, se não tratasse com tanto carinho o ex-governador de São Paulo, principal oponente da ex-ministra. Caminho inverso faz a revista Carta Capital, que bate em Serra como a sua polícia bate em bandido e releva qualquer deslize do governo federal.

Saindo da mídia mais poderosa e entrando nos blogs mais conhecidos, temos de um lado, Reinaldo Azevedo espinafrando Lula e a sua candidata e, do outro, Paulo Henrique Amorim tratando Serra como se fosse o maníaco do parque. Ambos, sem nenhuma preocupação em ser, minimamente, elegantes.

Somando-se a isso, o equilíbrio que as pesquisas estão mostrando (fica fora a última pesquisa do Vox Populi, vergonhosamente tendenciosa em seu método) indica que o embate será bem parelho e feio, como uma final entre Itália e França, decidida nos pênaltis.

Por mim, além da disputa não animar, ela também não incomoda, até porque não vejo tanta diferença assim entre os candidatos. Poderia ser muito pior. Poderia ser Alckmin ou Arthur Virgílio contra Marta Suplicy ou Mercadante. Poderia ser o DEM contra o PSOL. Poderia ser muito pior.

Serra e Dilma são, ambos, autoritários e antipáticos. Os marqueteiros de plantão irão se encarregar de torná-los mais palatáveis à massa que se informa pela televisão. Serra terá que se esmerar para não bater em Lula, que goza de popularidade inédita a um presidente em final de mandato. Dilma, por seu lado, terá que se manter agarrada a Lula e não largar mais até outubro, novembro. Essa é sua herança. Como se vê, disputa folgada só haveria se o candidato fosse o próprio Lula. Aliás, fosse ele o candidato, teria meu voto. Não sendo, minha escolha poderá ir para Dilma ou para Serra, tanto faz.

Gosto de Lula. Simpatizo com a pessoa e admiro o político. Simpatia e admiração que, entretanto, nunca foram suficientes para calar minhas eventuais críticas ao seu governo. O que tem me incomodado, nesses 8 anos de governo Lula, é, justamente, esse clima de torcida de futebol. Ou se critica tudo nele, ou trata-se o presidente como um santo. Nem uma coisa nem outra. E, se de um lado, ao elogiar o governo encontro pela frente uma turma preconceituosa que só enxerga em sua figura o nordestino de origem pobre e detestável (àqueles olhos), do outro, ao criticá-lo encontro outra turma, me patrulhando, como se isso fosse blasfêmia.

Pouco me importa quem vai vencer as eleições. Só uma coisa, porém, me alivia. Acho que vou poder falar mal do governo com um pouco mais de tranqüilidade. Afinal, o que pode ser mais prazeroso de se fazer na frente de uma cerveja gelada, num boteco bem imundo?

sábado, 3 de abril de 2010

O baianismo e os norte-americanos

O filme Coração Vagabundo, produzido por Paula Lavigne é, fundamentalmente, um meio de veiculação para o ego de Caetano Veloso. Tem lá seus encantos, como a fotografia bem cuidada e a trilha sonora, recheada de músicas cantadas por ele, sobretudo as do disco A foreign sound, o último do baiano de que eu gostei, com um repertório desigual de músicas norte-americanas em que mistura Cole Porter e Gershwin a Kurt Cobain e Bob Dylan. Eu preferiria que fossem apenas Standards de jazz e, sobretudo, que não tivesse bobagens como Diana ou Feelings, por exemplo.

Mas, voltando ao filme, a condução da câmera, pelas mãos do diretor Fernando Grostein Andrade, acaba sendo apenas um trabalho braçal, já que segue, fielmente, os passos de Caetano e acaba, por fim, servindo de palanque para que ele possa falar sobre seu assunto preferido, ou seja, ele mesmo.

Num determinado momento, logo no início, o compositor evoca seu baianismo e faz um paralelo entre a sua importância no cenário da música brasileira e a dos, também baianos, Dorival Caymmi e João Gilberto. Achei isso interessante e, ao longo do filme, enquanto Caetano destilava sua verve, eu fiquei pensando no assunto. De fato, penso que os três tiveram uma participação decisiva, revolucionária, até, na nossa música. Três baianos, em diferentes momentos da história, com João Gilberto recebendo influência de Caymmi e Caetano sendo o que não seria, caso não tivesse existido os outros dois.

Além dos três terem vindo da Bahia e se colocado, de forma categórica, no cenário musical brasileiro, dominado sempre pelo eixo Rio-São Paulo, estes artistas estabeleceram, cada um ao seu modo, uma relação com a música dos Estados Unidos.

Caymmi, dos três, o que interagiu menos com os norte-americanos, talvez seja o único a inserir uma marca, por conta da música O que é que a baiana tem, cantada por Carmem Miranda, e que acabou dando o tom do que seria a imagem do Brasil no imaginário daquele país.

João Gilberto morou quase 20 anos nos Estados Unidos numa relação simbiótica, quase parasitária, cujo objetivo sempre foi usufruir das benesses daquele mercado. Estabeleceu-se em solo americano sem, no entanto, integrar-se àquela sociedade. Diz-se, talvez com alguma má fé, que nunca aprendeu a falar inglês com fluência.

A relação de Caetano com os Estados Unidos é de exagerada admiração. Isso fica claro no filme e já é bem conhecido de quem acompanha sua carreira e tem ouvido o que ele fala sobre o assunto. A mim, incomoda um pouco essa quase submissão, essa assunção da condição de colonizado, de subdesenvolvido. Caetano lida bem com essa convicção de atraso que ele tem, da nossa sociedade, em relação à da América do Norte. O que me espanta não é isso, mas, sim, que essa convicção se estenda, também, à nossa música, que ele considera menor, comparada à do norte do continente. Gosto muito de certo tipo de música americana, muito provavelmente diferente do tipo de música americana que encanta Caetano. Mas isso não tem importância. Isso é questão de gosto.

Sobre essa questão, aliás, fico mais na linha do que compôs um baiano que veio antes de Caymmi e que foi cantado por baianos que vieram depois de Caetano.




Brasil Pandeiro (Assis Valente) – Novos Baianos

sábado, 20 de março de 2010

Amor e posse

Perder alguma coisa material tem a sua dor. É uma dor amena, ao menos pra mim. Já passei por isso algumas vezes. Certa vez, esqueci um livro numa sala de espera de dentista. A dor foi mais pelo que deixei de ler e pela ruptura da continuidade do prazer que já experimentara, do que pelo valor do livro, propriamente dito. Curiosamente, vim a comprar um outro exemplar dele, algum tempo depois, mas nunca retomei sua leitura. Ficou, mesmo, como uma perda.

Certa vez, emprestei um disco a um amigo e não mais o reouve devido a uma dupla amnésia, a do amigo que deve tê-lo colocado em sua estante por descuido e a minha, que não me lembrei qual foi o amigo contemplado pelo empréstimo sem volta. A dor, neste caso, foi amenizada pela certeza que o bom amigo passou a regozijar-se com boa música, já que, assim como só tenho bons amigos, sempre só tive bons discos.

A dor maior, a mais pungente, é a perda de algo que nos falte ao sentimento, algo pelo que sintamos carinho, algo pelo qual sintamos amor. Algo que tenha uma história, construida ao longo de muitos anos. Aí, a sensação é maior do que a de perda. A sensação é a de vazio, um vazio que parece que nunca mais vai ser ocupado novamente. Talvez o tempo amenize essa dor.