Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

domingo, 31 de dezembro de 2006

O mestre maior

Eu tive um CD player de carro que possuía uma função especial. Ela nos permitia escolher as músicas preferidas. O processo se resumia em ir ouvindo o CD e a cada faixa que se gostava mais, pressionávamos uma determinada tecla. Depois, bastava escolher a função e através de um programa, ele tocava apenas as escolhidas.

Este recurso mostrou-se inútil quando comprei e fui ouvir o CD Só Cartola, com Elton Medeiros e Nelson Sargento. Cada faixa ouvida revela uma jóia, dando vontade de voltá-la. Vontade essa, somente suplantada pela ansiedade de ouvir a próxima, que invariavelmente se mostra tão magnífica quanto a anterior.

Considero Cartola um dos 6 gênios de nossa música popular, figurando ao lado de Pixinguinha, Noel Rosa, Ary Barroso, Tom Jobim e João Gilberto. Todos eles exerceram uma influência decisiva para que a chamada MPB tivesse a qualidade que tem hoje.

Neste CD, os intérpretes mostram canções inspiradíssimas do mestre, como já fizeram inúmeros outros artistas. Elton Medeiros e Nelson Sargento, entretanto, são do ramo. Além de terem privado da companhia do grande sambista, foram ambos seus parceiros. Sabem o terreno em que estão pisando. Foi Nelson Sargento, aliás, quem criou uma das mais inspiradas definições de Cartola. Após a morte do grande sambista, ele disse:

"Cartola não existiu, mas foi um sonho que a gente teve".

O que torna este CD especial é a forma com que as canções são interpretadas, ou seja, com a simplicidade que a obra de Cartola exige.

Contribui muito para isso, o acompanhamento do conjunto Galo Preto, que se comporta sem exageros, como deve ser tocado o samba de raiz. Quem dera o samba fosse sempre assim executado. Bandolim, cavaquinho, flauta, violões de 6 e 7 e a percussão que se resume basicamente a um pandeiro. É divina a interpretação instrumental da canção Sol e Chuva.



O disco foi gravado ao vivo, no Teatro Municipal de Niterói, em outubro de 98. Nota-se a platéia delirando. Não aos gritos e assobios, mas gozando de um prazer gostoso que só este tipo de música pode proporcionar.

Não foi um CD que vendeu bastante e muito menos tocou nas rádios. É uma pena. Faria muito bem à nossa alma poder ouvi-lo em toda parte.


sexta-feira, 29 de dezembro de 2006

Mineiridade

Tempos atrás, uma amiga chamou a atenção da Clélia para um livro editado em 1996 e que passou despercebido. Ele foi reeditado em 2002, dessa vez, com um CD incluído. Trata-se do livro Os Sonhos Não Envelhecem: Histórias do Clube Esquina, de Márcio Borges.

Um dos fundadores do movimento da música mineira, que surgiu nos anos 60 e invadiu os anos 70, Márcio Borges nos conta, com muita delicadeza, a história daquele grupo de jovens que criou uma forma diferente de fazer música, num período já muito fértil do ponto de vista da criatividade musical no Brasil. Teria sido muito fácil seguir um caminho aberto pela bossa nova ou aderir a algum novo movimento musical como o tropicalismo ou a jovem guarda. Mas os mineiros tinham uma coisa especial dentro de si. Uma coisa nova. Diferente.

O livro nos conta, sobretudo a história de Milton Nascimento, o Bituca. Ele foi o grande artífice deste movimento. Mostra como o processo de criação operava naquele ambiente e toda a genialidade deste artista. Fala da forma revolucionária que ele utilizava pra compor. Detalha aspectos importantes de sua personalidade sem se ocupar com fofocas ou questões pessoais que não sejam relevantes musicalmente. Foi Márcio Borges quem insistiu com Milton para que compusesse canções. Até então, ele só pensava em cantar. E foi, justamente com Márcio, que ele compôs sua primeira música: Clube da Esquina.

É muito prazeroso acompanhar as histórias da composição de algumas músicas muito conhecidas como Travessia, Paula e Bebeto e Vento de Maio. Além de Milton, pode-se acompanhar o início da carreira de músicos e compositores importantes como Wagner Tiso, Toninho Horta, Beto Guedes e Lô Borges.

Tendo sido o primeiro parceiro de Bituca, Márcio Borges mostra bastante generosidade e humildade ao reconhecer o talento e até alguma superioridade em outros dois parceiros muito importantes de Milton Nascimento: Ronaldo Bastos e principalmente Fernando Brant. É possível, conforme se desenrola a história, perceber o quanto este letrista é genial. A cada passagem do livro envolvendo Fernando Brant, extrai-se uma obra prima. E além de um parceiro criativo, Ronaldo Bastos revela-se também muito importante na produção de discos e shows de Milton Nascimento.

O livro é delicioso. O autor consegue nos transportar para cada lugar e cada época, nos proporcionando intimidade. Desvenda a Belo Horizonte do regime militar e revela a família tipicamente mineira. Oferece, sobretudo, a sua família, abrindo as portas da casa dos Borges, pra que consigamos entender, mais facilmente, o ambiente em que aquela criatividade toda pôde ser extravasada.

Sei bem o que é isso. Tenho amigos mineiros e conheço a sua hospitalidade. Não há nada parecido. E mostrando os integrantes do clube da esquina migrando pra São Paulo ou Rio de Janeiro mas sempre voltando pra Minas, o livro confirma uma convicção minha: a de que o mineiro, entre todos os brasileiros, é o povo que mais sente saudades de sua terra. Mineiro é louco pra voltar.

Mesmo quando fala da barra pesada que foi a época violenta do regime militar, o livro não perde o lirismo. Toda a narrativa é composta com muita saudade. Não aquela saudade triste que reclama que o tempo bom não volta mais. Uma saudade alegre de quem sabe que os sonhos não envelhecem. Não envelhecem e nem acabam. Eventualmente são substituídos.

É um livro pra quem gosta de música, pra quem gosta de história, pra quem gosta de sonhar.


Desrespeitando um mito

Resisto bravamente a assistir a TV Globo. Aliás, já me prometi ver menos TV no ano que vem. Mas a TV Globo, essa, faz muito tempo que não vejo. Não suporto a maneira com que se tenta impor, direcionar, tutelar o telespectador da maneira que ela faz, através das novelas, dos telejornais, dos programas em geral.

Acontece que a Cecília veio nos dizer que iria passar um especial sobre a Elis Regina. Um especial com a Hermila Guedes, a atriz de O Céu de Suely fazendo o papel da cantora. Resolvemos assistir. Logo no começo do especial, a apresentadora nos promete um programa para quem não a conheceu, ficar sabendo quem foi Elis Regina. E para quem a conheceu, matar saudades. Não cumpriu nem uma coisa nem outra.

Como era de se esperar, a Globo conseguiu produzir um programa frio, pasteurizado, cheio de imagens desconectadas, cheio de buracos históricos, desprezando fatos importantes da carreira da cantora e salientando acontecimentos absolutamente dispensáveis. A sensação que deu foi de que alguém reuniu uma porção de arquivos sobre ela, que deviam estar jogados num canto, e deu pra algum estagiário fazer uma montagem.

É impressionante. Com toda a grana e poder que a TV Globo tem, certamente conseguiria produzir um programa muito mais rico e emocionante. Não. Teve aquele manjado sabor de pasta de dentes, como tudo que é produzido pela emissora.

A globo é foda!


quinta-feira, 28 de dezembro de 2006

2007

Nesta época do ano, são comuns as manifestações de esperança, as listas de desejos, os planos de mudança. Faz anos que não os faço.

É comum que as expectativas sejam sempre de que aconteçam determinadas coisas, que o mundo nos dê algo mais, algo que estamos sentindo falta, algo de que estamos precisando. Há quem deseje ganhar mais dinheiro, encontrar um novo amor ou um amor qualquer, comprar uma casa, ter filhos, emagrecer, parar de fumar.

Até desejo algumas destas coisas, mas o meu desejo mais íntimo é outro. Mais do que desejar algo do mundo, quero pedir que as coisas aconteçam em mim. Quero que eu evolua, que eu possa melhorar meu comportamento.

Em 2007, quero ouvir mais as pessoas do que falar pra elas. Quero entender e aprender a aceitar as opiniões discordantes. Não planejo concordar com elas, mas ao menos respeitá-las mais.

Quero ouvir mais música de gente nova, sem parar de ouvir meus velhos discos. Quero cantar.

Quero ler mais poesia. Quero ler mais os clássicos. Aliás, quero ler mais e ver menos TV.

Quero entrar em mais blogs. Colocar comentários em todos que eu entrar. Mais contribuir do que polemizar. Quero polemizar, também.

Andar mais a pé e menos de carro. Ir mais ao cinema. Cozinhar mais e ir menos a restaurantes. Jogar fora coisas inúteis e comprar menos coisas inúteis pra depois não ter que jogar fora.

Fazer a declaração do Imposto de renda no primeiro dia e não no último, como todo ano.

Quero aprender mais coisas simples, como pintar a parede de casa, cuidar das plantas, gastar menos do que ganho.

Desejo ser mais tolerante. Menos preguiçoso. Quero, sobretudo, ter um pouco mais de paciência.


terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Presente de natal

Há muito tempo o natal não significa nada pra mim. Mas já significou. Quando eu era criança. E o significado tinha um nome bem claro: presente!

Eu adorava o natal por causa dos presentes. Todo final de ano, minha avó Iraci fazia um crediário nas lojas Mappin e assumia uma dívida que lhe consumia um ano inteiro de trabalho, pra presentear os 5 netos. Foi dela que ganhei um carrinho a pilha que subia nas paredes (e depois caía, evidentemente) e também um gravador, com o qual eu gravava as músicas que tocavam no rádio.

Conforme fui crescendo, fui perdendo o entusiasmo por ganhar presentes. Aliás, aqui em casa, a gente não costuma dar presentes em datas especiais. É muito comum não darmos presentes nos aniversários, assim como é comum darmos presentes sem que seja necessária uma data especial pra isso. A Clélia é quem mais gosta de presentear. E, há muitos anos, sempre damos livros de presente para as crianças. Todas as amiguinhas de escola da Cecília sabiam que iriam ganhar um livro dela no aniversário. Talvez algumas não achassem tanta graça, mas nós dávamos assim mesmo.

Voltando ao natal, fazia tempo que nenhum presente me entusiasmava. Em geral, ganho presentes com excelentes intenções, mas que raramente mexem comigo. Neste ano fui surpreendido. É que ganhei um presente espetacular do meu pai. Lançado pela Fundação Perseu Abramo, ganhei o livro Pela democracia, contra o arbítrio.
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Ainda não o li. Apenas o folheei, na casa de minha irmã, entre um naco de pernil e uma coxa de peru. Apaixonei-me por ele. O livro traz dezenas de depoimentos que habitaram a página da fundação. Envolve o período que vai do golpe de 64 à campanha pelas diretas já, passando pela morte de Vladmir Herzog, o movimento estudantil em 1977, a campanha pela anistia, a greve de 1980 no ABC e a criação do PT. É um livro ricamente ilustrado com fotos emblemáticas deste período.

É um livro denso, daqueles que a gente sente ciúmes, daqueles que a gente quer namorar.

O samba deles

Gosto muito de música, de quase todo tipo, desde que seja honesta e que tenha qualidade. Mas a música que me emociona mesmo é o samba. O samba de raiz, o samba de terreiro, o samba feito por gente que é do ramo, que não busca a fama, que não vai na onda. O samba me tira do sério, me faz chorar, me dá arrepios. O samba me completa e eu não conseguiria viver sem samba, embora conseguisse viver só com ele. Mas, felizmente, também há o jazz, o bolero, a música clássica, o rock e, sobretudo, ainda bem que existe o tango.

Ultimamente, acho que o tango é a música que eu mais tenho ouvido depois do samba. Talvez isso tenha a ver com minha paixão pela cidade de Buenos Aires, que, aliás, já está virando um vício. Descobri, ao longo do tempo, que tango é muito mais que Gardel e Piazzolla. Descobri Roberto Goyeneche, Aníbal Troilo, Maria Graña e muita gente mais. Na Argentina, há uma infinidade de artistas ligados ao tango. Gente antiga e gente nova. Gente viva e gente morta. Há quem faça um tango moderno e há quem não deixe o tango tradicional morrer.

Viajamos pra Buenos Aires em julho e compramos muitos CDs de tango. Foi aqui no Brasil, entretanto, que comprei um CD fantástico. Só voz e piano. Voz e piano brasileiros! Trata-se de Tango, com Bibi Ferreira e Miguel Proença. Lançado pela gravadora Biscoito Fino, o disco traz tangos tradicionalíssimos, executados com um esmero impressionante. O consagrado pianista, mais do que acompanhar a cantora, exibe uma intimidade com esta música que não fica atrás de nenhum artista porteño. Uma das intérpretes mais emotivas que eu conheço, Bibi Ferreira, exibe uma pronúncia impecável.



Iremos pra lá, novamente, no mês que vem e, certamente, compraremos muitos outros CDs. Além do mais, por aquelas bandas, o preço dos discos e livros é bem mais baixo do que aqui. Por que não juntar a fome com a vontade de comer? Ademais, tem a carne argentina. Aí, não dá pra resistir!

O nosso mundo e os livros

A editora Casa da Palavra, pra comemorar seus dez anos de nascimento, convidou 10 leitores vorazes para escrever sobre o livro que mais importância teve em suas vidas. Reuniu estes escritos e lançou Dez livros que abalaram meu mundo. Abre a obra, o depoimento de José Mindlin, que faz uma declaração que me encheu de inveja, a de que lê, em média, 100 livros por ano. Após ler os deliciosos depoimentos, fiquei pensando no livro que abalou meu mundo e foi fácil saber seu nome. Mas não foi fácil chegar a ele ao longo de minha vida.

Sou hoje um leitor voraz, compulsivo mesmo, mas comecei muito tarde. Na infância, não tive referências, já que não se lia em casa. Ganhei meu primeiro livro aos oito anos, de minha avó. Chamava-se O gato de botas e eu o achei absolutamente desinteressante. Para uma criança que estava habituada aos gibis hiper coloridos, as ilustrações do livro me pareceram muito pobres. Além do mais, na escola em que eu estudava, ir para a biblioteca era sinônimo de castigo. Quando alguma criança aprontava algo grave (tinha de ser muito grave), era mandada para a biblioteca, onde ficava trancada e tinha de ler e resumir um livro escolhido pela professora. A escolha era sempre péssima, assim como era ruim a escolha do único livro que tínhamos de ler em cada semestre para resumir (por que isso?) e entregar uma ficha preenchida. A escolha sempre caía em alguma obra da fase romântica de Machado de Assis. Li Helena, Iaiá Garcia, A mão e a luva. Odiei todos. Aliás, o gosto que tenho pelos livros de Machado de sua fase realista é comparável à ojeriza que tenho da fase romântica.

Foi só quando entrei no curso técnico que descobri que uma biblioteca podia ser uma coisa aberta, disponível e útil. E de tanto freqüentá-la, por causa dos livros técnicos, ao lado de temas como transistores e válvulas eletrônicas, encontrei contos, poesias e romances. Descobri Malba Tahan e seu O homem que calculava me causou um grande frisson. Mas foram os livros de história e política que fizeram a minha cabeça. Descobri Hélio Silva e devorei tudo que fora escrito por ele. Numa época em que a censura grassava natural e solta, era excitante quando algum livro de Gramsci ou Engels chegava às nossas mãos, sempre devidamente encapado por um papel pardo e grosso.

Acabei virando, assim, um rato das prateleiras de história e política das livrarias e, ao mesmo tempo, freqüentador assíduo de livrarias técnicas. E, durante muitos anos, abandonei a ficção e a poesia. Só lia biografias, livros de história, sociologia, política, enfim, essas coisas que eu considerava menos alienantes. Ficção, lia pouca coisa.

Um dia, por acaso, me caiu nas mãos o livro Quase Memória do Carlos Heitor Cony. E foi justamente este livro que abalou meu mundo. Foi por causa dele que eu fiz as pazes com a literatura de ficção e sobretudo por ele, senti vontade de escrever. Na verdade, foi mais que vontade. Foi uma necessidade, como se, caso não o fizesse, ficaria sufocado. Depois dele, voltei a ler Eça, descobri Saramago, aventurei-me pelos autores mais novos, principalmente os brasileiros. E descobri o prazer da releitura. Com isso, inaugurei uma tradição, que é reler Dom Casmurro e Cem anos de Solidão. Por coincidência, eu os li quando fiz 20 anos. Reli pela primeira vez quando completei 30 e repeti a dose ao fazer 40 anos de idade. Em cada oportunidade descobri coisas novas, provei novos sabores, extraí novos prazeres. Não vejo a hora de chegar aos 50 para ler esses dois livros pela quarta vez.

Hoje, posso dizer que os livros são minha perdição. Juntamente com os CDs, é com eles que gasto todo o dinheiro que tenho (e, às vezes, o que não tenho). E cada vez que olho pra estante de casa ou pras prateleiras das livrarias, me dá uma angústia insuportável, por saber que, por mais que eu viva, não conseguirei ler nem uma infinita parte do que desejo. E do que preciso.

sábado, 23 de dezembro de 2006

Saborosa arte

Sem ter talento pra fazer música ou escrever versos, elegi a culinária como a minha arte. Acho que todo mundo deveria se dedicar a alguma atividade artística. Não profissionalmente, mas como uma forma de extrair prazer, de exorcizar os demônios do dia-a-dia. O trabalho chato, as contas vencidas, os desejos inatingíveis. Gosto de fazer comida e de servi-la aos amigos. Gosto de alimentar as pessoas que eu amo. Acho que é o lado materno da minha porção mulher se manifestando.

E é por este amor à culinária e à gastronomia que gostamos, a Clélia, a Cecília e eu, de acompanhar o programa Top Chef, que o canal por assinatura Sony transmite às quartas feiras, 21 horas, com inúmeras reprises durante a semana.

Não sou dado aos realities shows. Nunca usei meu tempo acompanhando os Big Brothers da vida, nem os originais europeus e americanos e, muito menos, as imitações brasileiras. Aliás, quando estes programas estão passando na TV aberta, sinto-me como um ET por não conseguir participar das conversas com os colegas do escritório na hora do almoço. Não assisto, pois não me interesso pela intimidade das pessoas, sejam elas comuns ou celebridades.

Top Chef é um reality show diferente. São 12 candidatos a chefe de cozinha que competem entre si, recebendo tarefas, sempre ligadas a gastronomia. Um vence e um perde, toda semana. O que perde deixa o programa. Ao final de 12 semanas, o grande vencedor receberá alguns prêmios relevantes para a sua carreira. É delicioso acompanhar as execuções dos pratos, as idéias de combinações de sabores, as saídas para as tarefas mais insólitas. É interessante, também, perceber a fogueira de vaidades que esta disputa e convivência provoca nos candidatos. Como todo artista, ou melhor, como qualquer pessoa, a vaidade, num determinado momento, aflora e mostra do que somos capazes para sermos admirados.

Ninguém escapa disso. Todos somos vaidosos. Há os que se envaidecem da sua beleza plástica, outros do conhecimento adquirido ou, até mesmo, há aqueles que se orgulham de levar uma vida monástica, sem luxo e sem vaidade. Estes, às vezes, são os que têm o ego mais inchado.

Não tem jeito. O ser humano deveria ter nascido pavão.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2006

À meia luz

Eu não tenho muitos discos da cantora Alcione. Não que não goste de sua voz. Muito pelo contrário. Suas participações nos songbooks de Almir Chediak ou no CD Chico Buarque de Mangueira são excelentes. Seu timbre forte e melodioso é muito agradável.

O que sempre me deixou com um pé atrás no trabalho desta cantora maranhense foi a escolha do repertório e os arranjos. Os mesmos defeitos que acometem o excelente Emílio Santiago, em minha opinião, um de nossos melhores cantores na atualidade.

Mas há um CD de Alcione que eu acho excelente. Gravado ao vivo, basicamente com sambas-canções, chamado Nos bares da vida. É um CD, na própria definição da cantora, pra matar as saudades de quando cantava na noite, sobretudo no Beco das Garrafas. A noite sempre deu muita tarimba para os intérpretes e nos revelou grandes talentos.

Pois neste CD há clássicos de nossa música de dor de cotovelo como Nossos momentos, Bar da noite, Neste mesmo lugar e Tudo acabado, entre outros. E ela prova que dá pra cantar este tipo de música com muito bom gosto.

Os arranjos simples ajudam a criar um clima intimista. Na maior parte das faixas há apenas um violão e, eventualmente, uma sutil percussão. Uma grata surpresa, se pensarmos que esta cantora sempre privilegiou os exagerados arranjos do que se convencionou chamar de sambão. O resultado não poderia ser melhor. O violão de João Lyra, na medida do necessário, recebe contribuições, em algumas faixas, do piano de Cristóvão Bastos ou do trompete de Márcio Montarroyos ou ainda da gaita de Rildo Hora. Na excelente gravação de De onde vens, de Dori Caymmi e Nelson Motta, é o próprio autor da melodia que a acompanha ao violão, num momento especial.

Nos bares da vida é um disco pra quem gosta de samba-canção e pra quem já experimentou o que é curtir num bar, à meia luz, uma bela dor de cotovelo.

Povo e sociedade

Anna Lee é uma jornalista com uma quedinha por história. Escreveu um livro com Carlos Heitor Cony, O Beijo da Morte, no qual lidam com a teoria de que as mortes de Juscelino Kubitschek, João Goulart e Carlos Lacerda, ocorridas na época da ditadura militar, não tenham sido por acidente ou por doença, mas sim, um plano cooperativo das ditaduras do cone sul para eliminar as lideranças políticas no Brasil. Há quem considere esta teoria estapafúrdia e há quem a considere bastante provável. Não importa. O que importa é que o livro é delicioso.

Pois Anna Lee acaba de lançar outro livro, desta vez sozinha. Chama-se O Sorriso da Sociedade. Nele, ela disseca o Rio de Janeiro do início do século passado, quando o prefeito Pereira Passos transformou a cidade num canteiro de obras. Sua intenção, sob o comando do presidente Rodrigues Alves, era transformar o então Distrito Federal numa cidade moderna, aos moldes das grandes cidades européias, sobretudo Paris. Inserida nessa cidade e com o mesmo ideal de comparação com a referência parisiense encontra-se a Academia Brasileira de Letras, fundada há menos de 10 anos. E como pano de fundo, um crime, envolvendo 2 intelectuais das letras.

O livro mostra, com muita riqueza de detalhes, como viviam e como se relacionavam a elite carioca e a intelectualidade daquele tempo. E deixa que entrevejamos como a população foi alijada da nova cidade e o quanto o era da vida cultural. Pra fazer a mega reforma, o prefeito desalojou milhares de pessoas dos cortiços e casas de cômodos da cidade. Estas pessoas foram “empurradas” para os morros e tiveram que se arranjar como puderam. A população pobre, na maioria analfabeta, não fazia parte da chamada sociedade, na capital federal. A intelectualidade, também elitizada, não escrevia para ela, portanto.

Será que isso mudou muito?

sábado, 16 de dezembro de 2006

Época de sonho

Sempre tive uma estranha sensação de que nasci na época errada. Na verdade, vivo desejando ter nascido em outras épocas. Quando era mais moleque, quis ter nascido na década de 1910 pra ir lutar na Guerra Civil Espanhola ou na de 1950 pra ter ido lutar na guerrilha do Araguaia, como se eu tivesse coragem suficiente pra alguma dessas empreitadas.

Mas é no campo da música que eu sempre tive a sensação de estar na era errada. Afinal, tendo nascido em 1960, na minha adolescência peguei o auge da detestável época das discotecas, com direito a filmes com John Travolta e Olívia Newton John. Tivesse nascido 10 anos antes, teria acompanhado a evolução dos Beatles enquanto ela ocorria. Só fui me interessar por eles quando o conjunto já tinha terminado.

Se fosse 20 anos mais velho, eu teria descoberto, aos dezoito, provavelmente maravilhado, o disco Canção do amor demais da Elizeth Cardoso, com músicas de Tom e Vinícius e iria reparar, em duas faixas do disco, o violão de um desconhecido chamado João Gilberto. Iria, certamente, me apaixonar de forma irremediável pela bossa nova, como de fato me apaixonei mais tarde, como quem se apaixona por uma mulher mais velha, ainda inteirona.

Esta sensação de extemporaneidade diminuiu, outro dia, conversando com a Adriana Davi no odiável Fran’s Café de Campinas. Descobri que ela não viu Elis Regina cantar. E eu vi. Vi Elis Regina no show Falso Brilhante, no teatro Bandeirantes, maravilhosa, absoluta. Vi Elis no show Transversal do Tempo, no auge de sua forma, 4 anos antes de morrer. E vi Elis em São Bernardo, num primeiro de maio, ao lado de Lula, Djalma Bom e um monte de outros caras ótimos que iriam fundar o PT, cantando Canção da América. Numa época em que ainda tinha muita gente ótima no PT e Canção da América ainda não tinha virado música de formatura de colégio.

Lembro-me, num show em São Caetano, de um mineiro desconhecido que cantava acompanhado do violão. Ninguém conhecia o cara e o teatro estava lotado só porque era de graça. Acontece que o cara era fantástico e eu fiquei de boca aberta com as músicas, o jeito de tocar violão e principalmente as letras das canções. Nunca mais esqueci o nome dele. João Bosco.

Outra descoberta foi num show em São Bernardo. Fui pra ver Toquinho, Vinícius e Maria Creuza. A cantora ficou doente e arrumaram uma substituta. Fiquei vidrado nela e não sabia o que era mais forte, minha emoção pelo seu jeito diferente de cantar ou meu tesão frente a uma mulher de quase 2 metros num vestido branco, longo e transparente. Era a primeira vez que eu via Simone. Comprei seus primeiro discos, que ainda ouço. Pena que ela tenha cedido a um apelo comercial exagerado, a ponto de gravar discos natalinos super oportunistas.

Vi também, muitos shows do Projeto Seis e Meia, em São Paulo, inspirado no Projeto Pixinguinha do Rio, em que 2 músicos de tendências e estilos diferentes dividiam o palco. Lá, no SESC Anchieta, pero da Rua Maria Antônia, vi Elizeth Cardoso, Marlene, Gonzaguinha, Luiz Gonzaga, Dick Farney, enfim, não dá pra lembrar de tudo. Só dá pra lembrar que era emocionante ir toda sexta feira de São Bernardo pro centro de São Paulo pra ver estes shows.

Vi Gilberto Gil no show Refazenda. Vi Egberto Gismonti no show Palhaço, no Guarujá. Vi Elomar, vi Hermeto Paschoal no Tuca, com a Clélia, num show que não terminava nunca. Saímos antes. Como saímos de um show do Toninho Horta, no Centro de Convivência em Campinas, quando a gente ainda namorava. Eu tinha que pegar o último ônibus pra São Paulo. E vi o nascimento do Grupo Rumo, de Luiz Tatit e Ná Ozzetti.

Pensando bem. Acho que não tem mesmo essa coisa de nascer na época errada. Toda época pode ser boa. É a gente que faz a época.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2006

O dom do samba

O ano era 1999. Durante 3 dias, shows em homenagem ao aniversário de 50 anos de Paulo César Pinheiro, na choperia do SESC Pompéia, em São Paulo. A cada dia, vários convidados entre intérpretes fiéis e fiéis parceiros do poeta. Fomos numa das noites, provavelmente no melhor show. Eduardo Gudin, Márcia, Joyce, Ivor Lancelotti, Vicente Barreto e o saudoso João Nogueira. Compramos o livro Poesia Morena e a Clélia chorou na hora de receber a dedicatória.

O ponto alto do show, pra mim, no entanto foi outro. Num determinado momento, o baterista sai de trás do instrumento e vem pra frente do palco, microfone em punho. Eu já havia lido centenas de vezes o nome de Wilson das Neves nos encartes dos meus melhores discos, mas nunca tinha visto sua figura. Jeitão malandro, típico carioca, falou que iria cantar um samba seu, em parceria com o homenageado. Comecei a ouvir o samba e fiquei embasbacado, sinceramente convencido que estava ouvindo o samba mais bonito da minha vida.

Fiquei alucinado com aquele samba e comecei a procurar um disco em que ele tivesse sido gravado. Era uma procura inglória. Em cada loja de discos que eu entrava, sempre buscava alguma coisa. Só vim encontrá-lo dois anos depois, na FNAC, já morando aqui. O nome do CD é O Som Sagrado de Wilson das Neves e tem O samba é meu dom na primeira faixa. 13 músicas são dele com letra de Paulo César Pinheiro e uma com Chico Buarque. Seu segundo CD, pela Biscoito Fino, Brasão de Orfeu, já traz parcerias, também, com outros artistas como Nei Lopes, Ivor Lancellotti, Délcio Carvalho e Cláudio Jorge. A primeira faixa do excelente CD Samba da cidade, de Moacyr Luz, é uma parceria entre eles.

Quando ele se apresentou no Tonico’s boteco, em Campinas, nos sentamos numa mesa bem próxima do palco, do jeito que a Clélia gosta. Quando terminou o show, pedimos pra ele cantar Não vim pra ficar, um samba gravado pelo Renato Braz. Ele olhou-nos intrigado e perguntou surpreso: - Vocês conhecem esse samba? Voltou ao palco, pediu o tom pros meninos do Quarteto de Cordas Vocais e terminou a apresentação com chave de ouro.



Ô sorte!

quinta-feira, 14 de dezembro de 2006

A Estrela Davi

Viemos há 5 anos para Valinhos. Apesar de ser uma delícia para se morar, limpa, sem trânsito, barulho, violência, a cidade não nos oferece praticamente nada em termos de lazer e ao que estávamos acostumados em São Paulo. Não tem cinema nem livraria. Os bares e bons restaurantes se contam com os dedos de uma mão. Por isso mesmo, foi natural, desde o começo, irmos para Campinas com muita freqüência. Às vezes, todos os dias da semana. Valinhos é tão perto que parece um bairro de Campinas, principalmente pra nós, acostumados com as distâncias paulistanas.

No início, meio perdidos, sem amigos, sem conhecer os lugares, começamos a freqüentar o ambiente dos Shopping Centers e os bares do tipo dos que há na Emílio Ribas. Não era a nossa cara. Por causa do Cine Paradiso, descobrimos o centro, depois Barão Geraldo e depois os distritos de Sousas e Joaquim Egídio. E nestas andanças, descobrimos uma profusão de bons músicos apresentando-se em todos os cantos da cidade. Isso nos encheu de alegria, amantes da boa música que somos.

Tudo começou no Tonico’s boteco, onde conhecemos o Chega de Demanda. Nem sei se o grupo existe ainda, mas através dele, acabamos conhecendo o núcleo de sambistas do Cupinzeiro. E aos poucos fomos conhecendo muito mais músicos bons. O Quarteto de Cordas Vocais (QCV), Jorge Matheus, Grupo Bons Tempos, Anderson e Marcelinho, Janice (Zíngaro Trio), Pezão, Tatiana Rocha e muitos outros mais. Muita gente boa. De qualidade, mesmo.

Gostamos de todos estes músicos, mas temos uma queda especial pela cantora Adriana Davi.

Conhecemos a Adriana no Deck Sousas (não gosto muito do novo nome, Bar da Praia). Ela se apresentava, naquela ocasião, com o Fernando Siqueira (outro craque) e ficamos fascinados com sua voz e interpretação. E de lá pra cá, Adriana só fez melhorar. Sua técnica, seu repertório, sua versatilidade. É sempre uma delícia ouvi-la. Seja acompanhada de Adriano Dias, Fernando Baeta ou Albano Sales, Adriana se adapta. Se adapta e brilha.

Ela tem muitos recursos vocais e se coloca muito bem no palco. Aliás, o palco é seu lugar. É nele, que do alto de seus pouco mais de um metro e meio, transforma-se numa gigante. Só mesmo Adriana é capaz de nos fazer ir a um bar odiável como o Fran’s Café. Só pra vê-la cantar é que deixamos de ir a um show do Monarco em Campinas.

É nossa cantora preferida.


quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

No centro, Lula

Ao receber, da revista Isto é, o prêmio de “O Homem do Ano”, o presidente Lula declarou que não é mais de esquerda. Disse que, aos 61 anos, é um homem de centro e que nessa idade, quem for de esquerda tem problemas. Disse mais. Segundo ele, se uma pessoa muito nova é de direita, também tem problemas. Ou seja, na concepção do presidente, ser de esquerda está ligado a imaturidade, talvez a molecagem.

Deixando as asneiras de lado, fica a pergunta: Lula, algum dia, foi de esquerda?

Pra responder esta pergunta é necessário resgatar alguma definição aceitável entre o que é ser de direita ou ser de esquerda. Tem muita gente dizendo, ultimamente, que estas definições não têm mais sentido. Não concordo. Acho que têm sim. E opto pela definição mais clássica, conforme aprendi com um amigo dileto: O que historicamente define a diferença entre esquerda e direita é o foco nas questões sociais, mais evidente na esquerda.

Indo além, percebo que o que os de esquerda apregoam é que o estado seja forte na defesa dos interesses da sociedade, sobretudo dos menos favorecidos. Os de direita, por sua vez, acreditam que o estado deve ser mínimo. Que o mercado, com sua força, pode resolver qualquer conflito ou impasse naturalmente, como se fosse uma entidade divina.

E aí? Lula já foi de esquerda? Quando defendia os interesses dos associados ao sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema estava lutando pela sociedade ou pelos interesses de uma classe, de uma corporação?

Não sei se Lula já foi de esquerda. Só sei que o Presidente Lula não é. Se fosse, não teria privilegiado tanto, em seu primeiro mandato, quem vive do jogo do mercado financeiro. Se fosse de esquerda, teria sido mais contundente na consecução da reforma agrária. Fosse de esquerda, não estaria fechando acordos com tanta facilidade com caciques do PMDB. Fosse de esquerda, não teria declarado, neste evento da Isto É, ser, agora, amigo de Delfim Netto.

O presidente Lula quer ser de centro. E nesta tentativa, está se aproximando perigosamente da direita.

Música Sagrada

A Biscoito Fino não surgiu no mercado para brigar com as multinacionais. Nada disso. Mesmo porque, esta briga seria inglória. A missão da gravadora, uma sociedade da cantora Olívia Hime com Kati Almeida Braga, dona do Banco Icatu, era criar um selo que abrigasse nomes da música brasileira, sobretudo aqueles que não encontram guarida sob o guarda-chuva das grandes gravadoras. A idéia inicial foi de reunir um cast de artistas de qualidade, mas de pouco apelo comercial. Surpreendentemente, juntamente com este tipo de artista, os grandes nomes da MPB vêm se integrando ao seu catálogo. É o caso de Chico Buarque e de Maria Bethânia, cuja gravadora anterior, a Sony & BMG, a dispensou, argumentando que não havia mais interesse em tê-la como contratada. Que coisa mais selvagem e burra!

Enfim, melhor para Maria Bethânia e melhor para a nossa música.

Mas além de lançar novos discos, a Biscoito Fino tem o trabalho muito importante de relançar discos que não interessariam às gravadoras de origem. Um ótimo exemplo disto é o CD Todo o sentimento, com Elizeth Cardoso e Raphael Rabello. O disco é um primor. Elizeth era daquelas cantoras que dava um tom sagrado a tudo que cantava. Por isso, o apelido de A Divina. Acompanhada pelo violão de Raphael Rabello, as canções ganham um colorido de lirismo que emociona qualquer um. É daqueles discos que a gente não quer parar de ouvir nunca. Daqueles discos que a gente ajusta o aparelho na função repetir e esquece da vida. Esquece do mundo pra usufruir toda a magia que só a música pode nos proporcionar.

Eu não ousaria dizer que é o melhor disco de Elizeth, mesmo porque, sua discografia é tão extensa e tão cheia de clássicos definitivos, que este tipo de comparação não tem razão de ser. Pode não ser o melhor, mas é o disco que mais me emociona.


Espécie humana

Imagine um livro em que a história se passa num local longínquo e completamente distante da nossa realidade. Os personagens são diferentes de tudo o que somos, a origem, a religião, enfim, nada que se passa na narração se identifica com a maioria das pessoas. Um livro assim teria tudo pra não despertar nosso interesse. Pois Dois Irmãos, do escritor manauense Miltom Hatoum, tem todas estas características e prende a nossa atenção de cabo a rabo. O grande segredo é que o livro trata de questões muito conhecidas dessa nossa desolada espécie, a humana. Afinal, somos os únicos exemplares do reino animal capazes de sentir inveja e rancor. De praticar atos de vingança. De ter prazer com o sofrimento de um semelhante. Nenhum outro animal tem estas características. Somente nós, os racionais.

O fato de, no livro, estes sentimentos e atitudes existirem entre dois irmãos, só reforça nossa triste condição.

Miltom Hatoum é um craque e o livro é muito bom. É um balde de água fria naqueles que insistem em enxergar nossa espécie com otimismo exagerado.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Nada justifica um genocídio

Neste dia em que morreu o ditador chileno Augusto Pinochet, me causa muita insatisfação ler, nos jornais, algumas pessoas alegando que o golpe militar no Chile, em 1973, tenha alavancado e sustentado o crescimento daquele país. Isto não é verdade. Os melhores índices econômicos aconteceram justamente depois de 1990, após a redemocratização.

Mas mesmo se isto fosse verdade, não é possível aceitar que o crescimento de uma nação ocorra graças a um assassinato em massa. E aí não contém nenhuma questão ideológica. Seja a pessoa de esquerda ou de direita. Seja socialista ou neoliberal, é inadmissível que alguém possa elogiar um governo que tenha cometido atrocidades como as da ditadura de Pinochet.

O governo de Salvador Allende, democraticamente eleito, foi derrubado por um golpe militar amplamente financiado e suportado pelo governo americano que, aliás, suportou também, naquela época, outros regimes ditatoriais na América Latina, inclusive no Brasil. A ditadura chilena, entretanto, não encontra, no nosso continente, paralelo de comparação em termos de desrespeito aos direitos humanos. Foi um verdadeiro genocídio executado contra pessoas desarmadas, apenas por discordarem do regime. Aliás, nem era preciso discordar, naqueles anos, para morrer no Chile. Bastava não concordar. Bastava ser neutro.

O corpo do ditador será agora cremado. Melhor seria, se, além disso, fosse também enterrado, de preferência num buraco bem fundo, o mais fundo que se possa cavar, de forma a ficar o mais próximo do inferno, que, caso exista, é o lugar mais apropriado a este personagem repulsivo.

O ideal é que Pinochet não seja esquecido, assim como Hitler, assim como Stalin. Ele deve ser lembrado como símbolo de todo o horror que o ser humano é capaz de praticar por causa da sede de poder. Mas Pinochet não deve ser um símbolo do Chile. O povo chileno merece ser lembrado por outros personagens. Viva o Chile de Pablo Neruda. Viva o Chile de Salvador Allende. Viva o Chile de Victor Jara.




Fuga do conformismo

Quem vive confortavelmente, às vezes, tem dificuldade em perceber que há miséria no mundo. São pessoas, por exemplo, que acreditam que o programa Fome Zero não faz diferença na vida de quem o recebe. São pessoas que gastam o valor que o governo paga a estas pessoas, numa noite de terça-feira, numa pizzaria de segunda categoria. Enfim, pessoas como eu ou como você que está me lendo, que tem computador em casa, tem acesso à internet.

Enfim, algumas pessoas que levam uma vida como a nossa, não percebem que existe gente que passa fome, por mais que esteja vendo nos cruzamentos, nos semáforos de São Paulo, meninos pedindo esmola e meninas se oferecendo nas avenidas das capitais nordestinas. E tem gente, que é como eu e como você, mas que percebe tudo isso e não liga. Gente que acha que isso não é problema seu. Gente que acredita (alguns, sinceramente) que o mundo é assim mesmo, que deus quis assim.

Pois saiba, meu amigo, que esse mundo de miséria existe sim. Existe no Brasil e no resto do mundo. Existe em países miseráveis, em países ricos, mas injustos e até em países do chamado primeiro mundo. Existe miséria em todos os lugares. E há lugares em que só existe miséria.

É num lugar como este que se passa a história do filme O céu de Suely, de Karim Aïnouz. Neste filme, desde a protagonista, Hermila Guedes até o bebê, Mateus Alvez, são marinheiros de primeira viagem. A exceção fica com a atriz Marcélia Cartaxo, protagonista estreante de A hora da Estrela, em 1985.

O filme, belíssimo, tem como tema subliminar a necessidade de fuga. Fuga da miséria, fuga pra não sei onde, fuga para o lugar mais longe que exista. Não importa o nome do lugar. O filme mostra como é possível não se conformar com uma situação que parece imutável. Como é necessário reconhecer que a vida pode ser muito melhor do que a que temos. Como é importante buscar nosso caminho e a nossa felicidade.

Atores que valem o filme

Edward Norton é o melhor ator americano da atualidade. E já faz um bom tempo. Sua estréia em As duas faces de um crime (1996) foi fenomenal. Neste filme, ele ofusca a atuação de Richard Gere, que interpreta um advogado que defende o personagem vivido por ele. O filme vale a pena, basicamente, pela atuação de Norton. Depois, vieram muitos outros trabalhos magníficos, como em A outra história americana e Clube da luta. Sua presença, em qualquer filme, é razão suficiente para me levar ao cinema.

Outro ator muito bom é Paul Giamatti. Sem colecionar papéis de protagonista e sempre ligado ao cinema mais marginal americano, teve sua hora de destaque no filme Anti-herói americano, no qual interpretava Harvey Pekar, criador da revista em quadrinhos American Splendor. Depois também fez Sideways – Entre umas e outras. Dois filmes muito bons, sobretudo por ele.

E são estes dois atores que sustentam o filme O Ilusionista, de Neil Burger. O filme é mediano e um tanto previsível. É pra ver Norton e Giamatti que vale a pena ir ao cinema. Tem também a atriz Jessica Biel. Bem fraquinha sua interpretação. Mas ela é deliciosa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Idéia genial

Final da década de 1930. O rádio era o grande veículo de comunicação no Brasil e era através dele que se construíam os grandes sucessos. Depois do carnaval, época na qual as marchinhas reinavam absolutas, começava a corrida para lançar algo novo. Aquele que emplacasse uma música ficava em destaque o ano inteiro.

Em 1939, o cantor Silvio Caldas lança o samba Da cor do pecado, de Bororó.



Percebendo o grande potencial deste samba, Orlando Silva sai à caça de uma música que rivalize com o iminente sucesso. Procura a dupla de compositores Pedro Caetano e Claudionor Cruz, autores de outros sucessos já gravados por ele. Com pressa, ao saber que um deles estava em uma cidade distante, impossibilitando-os de se encontrarem, não teve dúvida. Pediu a Pedro Caetano que fizesse uma nova letra para Da cor do pecado e a Claudionor Cruz que compusesse uma nova melodia para o samba gravado por Silvio Caldas. Juntou letra e música e o resultado foi perfeito. Nasceu o samba Nova Ilusão.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

No rumo das águas

Num país abundante de boas cantoras, em que a cada dia surge um novo nome e, mesmo entre aquelas que não aparecem, encontra-se grande qualidade, é natural que as cantoras mais antigas tendam a cair no ostracismo. É o caso de ótimas cantoras, como Gal Costa, que acabou sumindo da mídia. Mesmo Elis Regina, é raro ouvi-la no rádio. Nossos ouvidos estão cada vez mais sendo alimentados pelas novas cantoras, a maioria delas, muito boas.

Há, porém, um nome que reina absoluto e que parece imune ao processo de esquecimento popular. Trata-se de Maria Bethânia. Tendo sido a primeira mulher brasileira a vender mais de 1 milhão de discos (Álibi, de 1978), essa cantora nunca deixou o panteão dos grandes nomes da nossa música. Seus discos nunca foram oportunistas, seguindo sempre um conceito e obedecendo um estilo, que segundo ela, é não ter estilo nenhum.

Desta vez, Bethânia elegeu a água como mote e, neste rumo, fez dois discos. Pirata reúne canções que têm os rios como tema. São canções leves, algumas mais antigas outras nem tanto, em que autores consagrados como Caetano Veloso, Edu lobo e Joubert de Carvalho, mesclam suas músicas com outros mais novos como Ana Carolina, Seu Jorge e Vanessa da Mata.

O outro disco é Mar de Sophia, no qual são as águas do mar que dão o rumo do barco. Neste disco, canções mais densas são entremeadas por textos e poemas, como só Bethânia sabe falar. Ambos contam com a delicadeza do maestro Jaime Além, responsável pelos arranjos.

Vale a pena ter os dois discos. Aliás, Maria Bethânia sempre vale a pena.

Forma e conteúdo

Há livros em que é impossível ceder ao ímpeto de comprá-lo, já pela capa. É o caso deste, do escritor Marçal Aquino. Mais do que a capa, porém, o que é mais irresistível é seu título. Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, entretanto, é muito mais do que um título brilhante e uma ótima capa. É um daqueles livros policiais no qual você fica grudado até que ele acabe. Não quer largá-lo nem pra comer, nem pra dormir, nem pra nada. É um livro pra ler numa só jornada.

Marçal Aquino lida muito bem com as mudanças de época, brincando com os textos no passado e no presente. Este recurso, utilizado sem habilidade por muitos autores, é manejado por Aquino com muita naturalidade. Ele viaja pro passado e volta para o presente, sem nunca tirar do leitor a ansiedade e o suspense. E vai assim até a última página.

O livro tem humor e sensualidade. Seus personagens são reais sem ser insossos. São especiais sem ser inverossímeis.

Um livro delicioso.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Noite quase desastrosa

Campinas tem mais de 40 salas de cinema, mas tem tão pouca variedade em relação ao que nos poderia ser oferecido que, muito freqüentemente, precisamos correr pra São Paulo pra não perder os filmes mais interessantes.

Felizmente, de vez em quando, é possível assistir alguma coisa aproveitável nas salas do Shopping Jaraguá, na Av. Brasil, e no Cine Paradiso, no centro.

O grande problema é que o Paradiso está cada vez pior. Eu sei que deve ser barra pesada manter um cinema passando filmes com pouco (ou nenhum) apelo comercial, principalmente numa cidade em que as pessoas preferem passear no shopping center. É por isso que eu não esquento a cabeça de pagar 12 reais pelo ingresso do Paradiso e nem reclamo das poltronas detonadas ou da falta de pipoca. Não vou ao cinema por causa disso. O que não dá pra aceitar é quando as limitações começam a comprometer a possibilidade de ver o filme.

Nessa quinta feira, saímos, Clélia e eu, animados pra pegar uma sessão dupla no Paradiso. A idéia era assistir a dois filmes de língua espanhola, nossa paixão, e depois, ir a algum lugar qualquer, comer qualquer coisa. Firmes e decididos, desembolsamos os 48 reais necessários para iniciar a empreitada e entramos na sala. E o sofrimento começa aí. Não sei o que eles estão usando no banheiro ou no carpete, mas há um perfume forte e adocicado exalando de algum lugar. Certamente isso tem o objetivo de encobrir algum outro cheiro. O problema é que odor de mofo misturado com olor de lavanda, nunca irá produzir um bom resultado. E pra piorar, o primeiro filme, que era ótimo, estava com problemas na legenda e pra resolver este problema, o projecionista ficou o tempo todo fuçando na máquina, fazendo com que a imagem ficasse desfocada durante toda a projeção. Mas o filme era realmente muito bom. Ficamos até com vontade de assisti-lo novamente num cinema mais decente. Mas isso nunca seria em Campinas, evidentemente.

Terminada a sessão, saímos um pouco para respirar. Os olhos demoraram a entender o mundo focado, mas aos poucos, ajudado pela respiração de um ar mais aceitável, eles voltaram ao normal.

Entramos novamente na sala, resignados com o cheiro e torcendo para que a imagem do segundo filme fosse melhor. E era. A imagem ótima e a legenda perfeita. O problema é que o filme não engrenava. O filme, na verdade, era uma droga e nada indicava que fosse melhorar. Uma comédia absolutamente previsível, cheia de clichês e cheia de preconceito. Eu olhava pra Clélia e ela olhava pra mim. Nós nunca precisamos dizer nada um pro outro. Sabemos sempre o que o outro está pensando. Insistimos mais um pouco e acabamos fazendo algo que só havíamos feito uma vez na vida, quando ainda éramos namorados, ou seja, 25 anos atrás. Saímos do cinema com o filme pela metade. E isso, acho que desencadeou um fenômeno de libertação, pois, logo em seguida, outras 3 pessoas saíram atrás da gente, todos nós com aquela sensação de termos entrado numa arapuca.

Definitivamente, o que tínhamos planejado não estava dando certo. E, pra consertar, não poderíamos seguir com o roteiro original. Seria fatal comer qualquer coisa num lugar qualquer. Resolvemos ir a um lugar especial e rumamos para Joaquim Egídio. Fomos direto pra um dos nossos restaurantes preferidos, o Cambuquira, cuja cozinha é pilotada pelo amigo Caco Piccoli. Foi a salvação da noite. Lá, não teremos nunca medo de nos decepcionar. Lá, sabemos que o Cláudio vai nos recepcionar, ele que é, de longe, o melhor garçom da cidade. E indo lá, sempre podemos contar com a gostosa conversa do Caco, sem pressa, sem afetações, ele que é um chef brilhante. E foi isso que aconteceu, pra salvar nossa desastrada noite. Depois de muita conversa boa, com o restaurante absolutamente vazio, o Caco foi pra cozinha e se superou. Pedimos uma moqueca que nem estava no cardápio e o que chegou até nós beirava à perfeição. Além do mais, o Cambuquira é o restaurante cujo preço dos vinhos é o mais honesto dentre todos os que eu conheço. Foi realmente muito bom.

Voltamos pra Valinhos com a alma lavada.

quarta-feira, 29 de novembro de 2006

Toda maneira de amar

Isso era pra ser um comentário no blog do meu amigo Bruno Ribeiro, mas ficou tão grande que virou um post aqui no meu blog. Sendo assim, sugiro que, antes de continuar, dê uma olhada em seu texto da amizade de homens e mulheres pra depois voltar.

A princípio, sou meio avesso às generalizações, do tipo; todo argentino é assim, todo alemão é assado. Ou então, de frases que começam assim: O problema é que o brasileiro é.... São frases proferidas por brasileiros, que, evidentemente, nunca se incluem no problema, superiores que se enxergam. Da mesma maneira, tendo a rejeitar generalizações discriminatórias a respeito de pretos, de veados, de nordestinos, de ricos, seja a discriminação negativa ou positiva.

No caso de homens e mulheres, entretanto, sou obrigado a concordar que existem características claras que nos diferenciem, embora insista em identificar a individualidade de cada um, seja homem, mulher, criança.

Mas indo direto ao texto, achei um tanto simplista a análise do meu amigo. Acho que as mulheres são mais bem resolvidas que nós, os homens, apesar de todas as aparências. As mulheres são mais maduras e menos covardes que nós, que tendemos a só mostrar valentia quando ela pode ser exercida fisicamente. As mulheres tendem a ser mais honestas e transparentes e por isso, essa sensação de que são menos fiéis às amigas do que os homens entre eles.

Os homens que têm vontade de cantar a mulher do amigo, se não fazem isso é por covardia e não por lealdade. É por terem, mais arraigada a idéia de dominação e posse da mulher amada do que as mulheres. E o fato de parecer que haja mais mulheres “roubando” namorado das amigas do que o inverso é porque elas tendem mais à transparência. Minha sensação é que a balança está bem equilibrada nesta questão. Os homens, quando fazem isso (e fazem), são mais cuidadosos. Têm mais facilidade em escamotear.

Mas a questão que eu quero abordar é outra. Acho que toda esta conversa acaba revelando o quanto lidamos com o amor de forma possessiva. E isso vale pra homens e mulheres. Penso de outra forma. E minha forma de pensar, sei bem disso, quase não encontra eco. Quase ninguém concorda comigo. Felizmente, quem mais me interessa, pensa de forma similar. Pois eu acho que o amor não deve ser possessivo e não o sendo, não é exclusivista. Acredito, sinceramente, que assim como se pode amar mais de um filho, mais de um irmão, amar vários amigos, é possível amar mais de um homem, mais de uma mulher, ou ambos. Amar de formas diferentes, com intensidades diversas, enfim, simplesmente amar, sem condicionamentos.

Não estou falando só de sexo não. Restringir essa conversa a sexo é empobrecer o assunto. Estou falando de amar, mesmo. Gostar de estar com várias pessoas diferentes, não necessariamente ao mesmo tempo, querer compartilhar as sensações, sentir e matar as saudades, e, claro, fazer sexo. Amar uma pessoa é gostar de vê-la feliz, e, talvez, naquele momento, estar feliz não signifique estar ao nosso lado.

Sei, evidentemente, que essa forma de pensar não encontra adeptos tão facilmente e sei também, que não é uma coisa fácil de colocar em prática. Afinal, aprendemos, desde cedo, a amar de forma condicional. Amar sendo dono. Mas há tanta coisa em que a gente acredita e que não consegue ver colocada em prática. Tanta utopia. Esta é apenas mais uma. Pelo menos, a minha.
Aliás, existe um filme francês, muito legal, abordando este assunto. Marie-Jo e seus dois amores. Vale a pena assistir, mesmo discordando de mim.

terça-feira, 28 de novembro de 2006

FÉ x VERDADE

Ateu que sou, mas tendo sido criado numa família católica, com direito a alguns dos sacramentos, sempre tive muita curiosidade na figura de Jesus, o Cristo. Mas não o Jesus teológico e sim o Jesus histórico. Interesso-me pelo personagem, assim como me interessa conhecer a história de quem quer que tenha influído na maneira que o mundo é. Sempre tive dificuldade de encontrar textos que tivessem este foco. Finalmente, consegui. Trata-se do livro Jesus – Esse grande desconhecido, do jornalista espanhol Juan Arias.

O livro é muito bem compartimentado e o primeiro capítulo nos convida a refletir como seria o mundo de hoje se não existisse o cristianismo. É interessante refletir a este respeito. Mas não era isso que me interessava. O segundo capítulo, entretanto, vai direto ao ponto. O título já parece uma provocação: Jesus de Nazaré realmente existiu ou é apenas um mito? E é com muita tranqüilidade que o autor, grande estudioso e pesquisador de assuntos bíblicos, nos mostra que, do ponto de vista rigorosamente histórico, não há evidências claras de que este personagem tenha, de fato, existido. À falta de documentos, junta-se o fato de que os grandes historiadores da época, fossem romanos, fossem judeus, tendo deixado farta documentação a respeito de personagens e acontecimentos contemporâneos, não citam a existência do profeta de Nazaré. A única exceção é Flávio Josefo, historiador judeu, muito pouco respeitado nos meios acadêmicos, até porque, na documentação deixada por ele, encontra-se enorme quantidade de incoerências e dados conflitantes.

Na falta de documentação mais confiável, Arias decide utilizar-se dos evangelhos, não só os canônicos, mas também os apócrifos, apesar da enorme quantidade de incongruências encontradas, quando comparados entre si. Analisa cada um dos quatro textos reconhecidos pela igreja, tenta desvendar a identidade de seus autores e parte deles para identificar fatos que possam garantir a existência histórica do messias.

Ressalvando-se que os critérios de investigação e documentação histórica de hoje são absolutamente diferentes dos daquela época e considerando que a igreja católica não se preocupa com a questão do Cristo histórico, mas do Cristo teológico, Juan Arias decide seguir em frente, com as poucas informações que existem. Sua maior argumentação, aliás, é que, numa época em que pululavam centenas de profetas e pretendentes a messias, um personagem cujo discurso tenha sobrevivido e influenciado tão fortemente o mundo, durante 2 mil anos, dificilmente pode ter sido apenas um mito.

A partir daí, baseado nas informações dos evangelhos, o autor faz uma análise muito transparente de como alguns temas como a política, o amor, a paz, a relação com as mulheres e o sexo são abordados por Jesus. E, principalmente, e aí reside o ponto alto do livro, Arias nos mostra o quanto a igreja, já no século II, passa a defender valores e a se comportar de maneira absolutamente contrária ao que pregava Jesus de Nazaré.

O livro mostra, nitidamente, o quanto era clara a opção de Jesus em favor dos pobres e perseguidos e o quanto sua posição era contrária aos interesses dos ricos e poderosos. A postura de Jesus, segundo os parcos documentos existentes, é, claramente, no sentido de defender os desvalidos, os doentes, os mais fracos, as crianças e mulheres, inclusive as prostitutas. A igreja, por sua vez, aproximou-se do poder, tendo sido facilmente seduzida pelo império romano e, ao longo desses 20 séculos, sempre tem se colocado ao lado dos abastados, apesar de eventuais correntes minoritárias, eventualmente, buscarem uma reaproximação com o discurso original. O Vaticano, porém, sempre tem sido muito rigoroso em relação a este comportamento, a exemplo da repressão que faz aos defensores da Teologia da Libertação.

No fim, absolutamente adepto do discurso original de Jesus, o jornalista mostra o quanto os cristãos de hoje estão distantes deste discurso. O quanto as pessoas são pouco solidárias. O quanto elas privilegiam o indivíduo em detrimento do coletivo.

Enfim, é um livro magnífico, que deveria ser lido por todos os cristãos, pelos crentes de todas as religiões e até pelos que, como eu, não acreditam na existência de deus.

Sofisticado

Villa-Lobos, Pixinguinha e Tom Jobim talvez sejam nossos autores mais geniais. Mas acho que o mais sofisticado é Edu Lobo. E não uso o termo sofisticado como sinônimo de falsificado ou artificial ou afetado ou falsamente refinado, como o Aurélio qualifica este verbete. Digo sofisticado como refinado ao extremo, aprimorado, recorrendo ao mesmo Aurélio.

Edu Lobo é assim. Sempre foi. Desde suas primeiras composições. Suas primeiras melodias. Muitos compositores brasileiros têm refinamento e sofisticação. Mas nenhum deles sempre foi assim. Chico Buarque, por exemplo, foi capaz de cometer melodias paupérrimas no começo da carreira, embora quase sempre acompanhadas de letras ricas. Edu Lobo não. Desde o começo, desde antes dos festivais, suas melodias sempre foram de um refinamento deslumbrante. Coisa de dar orgulho na gente.

Pois acaba de sair um CD do grande flautista e saxofonista Mauro Senise, tocando só Edu Lobo. O disco chama-se Casa Forte. Mauro Senise freqüenta, há muitos anos, as fichas técnicas dos meus velhos vinis. Está em discos de Milton Nascimento, do tempo do Clube da Esquina, nos melhores LPs do Egberto Gismonti, já tocou com o Hermeto e, fuçando nos antigos discos da Gal, Elis, Nana Caymmi, Gonzaguinha, é sempre possível encontrar seu nome em algumas faixas, tocando flauta ou sax.

Neste CD, ele se acompanha da bateria de Ivan Conti e do baixo de Paulo Russo, seus velhos companheiros dos festivais de jazz. E nos arranjos e piano, tem Gilson Peranzzetta. Eu sempre tive certa má vontade com Gilson Peranzzetta, responsável pelos arranjos dos melhores discos de Ivan Lins, na década de 1970. Neste disco, pra minha feliz surpresa, seu piano está magnífico e os arranjos são absolutamente cool. Típico de quarteto de jazz dos velhos night clubs.

Enfim, não é um CD pra se ouvir na festa. É um CD pra se ouvir ao lado de um bom livro e de uma pessoa que seja especial. E isto, por si só, já é uma festa.

domingo, 26 de novembro de 2006

Sabores antigos

A primeira vez que comi um hambúrguer, tinha menos de 9 anos. Sei disso, pois ainda morava no bairro do Ipiranga. Meu pai trouxe a novidade de uma lanchonete, ao lado da igreja do Sião. Até então, meus sanduíches haviam se resumido a cachorro quente e misto frio. Fiquei abalado com aquele sabor. Me chamaram a atenção a maciez do pão e o gosto da maionese. Não sei bem porque, mas meu pai nunca mais trouxe aquilo pra casa. E, quase quarenta anos depois, nunca mais consegui comer um hambúrguer que tivesse aquele gosto.

Há muitos sabores da infância que desapareceram. Ou porque não existem mais, ou porque mudaram. Vai aí uma lista deles:

Guaraná Antártica
Só havia a garrafa de 290 ml e a caçulinha, um pouco menor. Seu sabor era mais azedinho e muito mais borbulhante. Tanto que no rótulo, vinha escrito Guaraná Champagne. Hoje tem gosto de xarope.


Sonho de Valsa
A casquinha era mais crocante e o recheio tinha sabor de paçoca, desmanchando na boca. Hoje, tem gosto de pasta de amendoim.

Diamante Negro
A Clélia acha que seu sabor mudou. Não tenho tão clara essa sensação. Só me lembro que era o chocolate preferido de minha mãe.

Biju
Em qualquer bairro de São Paulo havia um vendedor de biju. Eles carregavam uma lata imensa nas costas e chamavam a atenção da criançada com um dispositivo de madeira com um arame grosso que fazia um ruído característico. Isso desapareceu da cidade. Os que existem, industrializados, não têm nada a ver. Quando viemos morar em Valinhos, há 5 anos, encontramos um vendedor de biju autêntico. A Clélia nunca tinha comido. Nos esbaldamos por muito tempo. Depois disso, ele arrumou um emprego público e parou de fazer aquela delícia.

Churros
O verdadeiro churro espanhol, feito em rodelas e frito num tacho de óleo, era fácil de encontrar em São Paulo, principalmente nas feiras livres. Tinha a massa lisa e não eram doces. Depois, vieram esses detestáveis churros sextavados, feitos em máquinas e adocicados. Hoje, só é possível comer o churro tradicional em um endereço da Mooca, na rua Ana Néri, nas madrugadas e manhãs de sextas, sábados e domingos. E não sei por quanto tempo. Vida longa ao Toninho!

sábado, 25 de novembro de 2006

De novo, Almodóvar.

Como imaginara, gostei do novo filme de Pedro Almodóvar, Volver. Eu estava, há algum tempo, insatisfeito com seus filmes, como se ele tivesse perdido a mão. Os dois anteriores, Má educação e Fale com ela não me agradaram. Não fizeram com que eu saísse do cinema encantado, como ocorreu com Ata-me ou Mulheres à beira de um ataque de nervos, meus preferidos.

Um pouco deste encantamento voltou a me acometer ontem, quando saia do cinema quase vazio (que delícia!). Achei o filme emocionante e poético, à moda de Almodóvar, evidentemente. Gosto de seu jeito afetado de dirigir e da maneira com que enfoca as coisas, sempre de um ponto de vista feminino. Acho que neste aspecto, sou um pouco como ele. Tento ver o mundo de um ponto de vista feminino. Não sendo mulher, uso as mulheres que habitam minha vida para enxergar.

Penélope Cruz está lindíssima, embora com uma bunda e um par de peitos forçadamente não naturais. Não precisava. Mas quem rouba a cena, quem manda no filme, é mesmo Carmen Maura, a atriz espanhola de quem mais gosto.

sexta-feira, 24 de novembro de 2006

Uma picada inevitável?

O que o título do livro A Mosca Azul, de Frei Betto, nos promete é uma análise de como o poder seduz as pessoas, a ponto de fazê-las esquecer seus dogmas e ideais. Promete e cumpre. De fato, neste livro, o autor descreve de que maneira o PT, estando no poder, deixou-se contaminar por todos os vícios que criticara, quando oposição.

Frei Betto acompanhou todo o processo de criação do PT, desde as reuniões preliminares à sua fundação até o momento que o partido ganhou a eleição presidencial. Sem nunca ter sido filiado, sempre participou da vida do partido, chegando a ocupar um cargo nos primeiros momentos do governo Lula. Claramente contrário aos rumos que o partido tomou, afastou-se.

O livro, entretanto, nos oferece muito mais que isto. Com certa erudição, mas sem arrogância, ele cita diversos filósofos para explicar fenômenos como as mazelas do poder, a diferença entre governo e estado, e, sobretudo, sua visão socialista das realidades brasileira e mundial.

Fundamentalmente, Frei Betto possui duas crenças. A fé religiosa e a fé no socialismo. Sem perder a perspectiva histórica, ele crê, com sinceridade, nesta forma de estado como solução para os problemas sociais. E apesar de ter a consciência das necessidades individuais do ser humano, persiste em sua crença na possibilidade de uma sociedade que sobreponha os interesses coletivos aos pessoais.

É aí que, a meu ver, reside o maior conflito desta história. Pessimista que sou, não creio que o caráter essencial do ser humano seja o do solidário, mas sim, o do egoísta. De uma espécie capaz de sentimentos como inveja e rancor, e de atitudes como a tortura e a escravização do semelhante, não se deve esperar muita coisa.

Na parte final do livro, ele faz uma excelente defesa da comunhão entre religião e política. A igreja, ao longo da história, sempre pregou que religião e política devem estar dissociadas. Apesar disto, a igreja, sobretudo a católica, sempre se colocou ao lado dos poderosos. O que Frei Betto sustenta é que a religião deve andar sempre ao lado da política e que o papel do religioso é o de dar apoio aos mais pobres e oprimidos pela sociedade. Defende, assim, a atuação das comunidades eclesiais de base e o discurso da Teologia da Libertação.

Mais uma vez, meu ceticismo vai de encontro a esta tese. Ateu que sou, não enxergo as pessoas, apesar de se declararem religiosas, seguindo radicalmente os preceitos de suas crenças. Insisto que, do meu ponto de vista, vejo muito mais gente preocupada consigo mesma do que com o próximo. E isso não é uma crítica. É a essência do ser humano.

Cristão que é, Frei Betto identifica no discurso e atitudes de Jesus, a proximidade com o discurso socialista. É como na ótima letra de Tiro de misericórdia, de Aldir Blanc, que o coloca ao lado de outros contestadores:

(...) – irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Por que me abandonaram?
Por que nos abandonamos
Em cada cruz?

– irmãos, irmãs, irmãozinhos,
Nem tudo está consumado.
A minha morte é só uma:
Ganga, Lumumba, Lorca, Jesus (...)

Um jeito de fazer samba


Pode até ter nascido na Bahia, mas foi no Rio de Janeiro que o samba atingiu seu esplendor. O samba carioca tem um gingado diferente, bem malandro, com raízes nos morros, tendo gerado nomes como Ismael Silva, Paulo da Portela, Silas de Oliveira, Mano Décio, Cartola, Nelson Cavaquinho, enfim, uma lista tão grande que qualquer que seja sua extensão, sempre será injusta e pecará por esquecimento. Depois de influenciar a bossa nova, recebeu influência desta e uma nova safra surgiu e vem surgindo, a cada ano, em cada canto do Rio de Janeiro.

Existem outras maneiras de fazer samba. E os maneirismos são regionais. O de São Paulo tem uma característica mais quebrada, mais dura. E tem o sotaque italianado. Apesar de ser urbano, tem forte influência rural. Adoniran Barbosa foi o mais famoso compositor deste tipo de samba, e seu maior intérprete foi o conjunto Demônios da Garoa. Germano Mathias, entretanto, é o sambista mais emblemático deste estilo. Sambas como, Guarde a sandália dela, Minha nega na janela e Senhor Delegado, grandes sucessos do final da década de 1950, são exemplos típicos desta maneira de cantar. Não devemos nos esquecer ainda de Paulo Vanzolini e Geraldo Filme.

São dois estilos distintos e ambos deliciosos. E, hoje em dia, há muito intercâmbio entre estas duas escolas, muitos artistas transitando livremente entre estas duas cidades, com influências mútuas, sem que cada uma perca sua identidade. Há, entretanto, um artista paulistano que inaugurou, há mais de 30 anos, essa ponte aérea. Trata-se de Eduardo Gudin.

Em suas parcerias com Paulo César Pinheiro, Gudin sempre produziu um samba da mais alta qualidade, em que se podem perceber os aromas carioca e paulistano, convivendo harmoniosamente. Sem nunca ter ocupado espaço na grande mídia, Gudin, ao longo dos anos, nunca deixou de estar presente nas cenas musicais mais importantes do Brasil. Seja como compositor, seja como arranjador ou mesmo produzindo shows e discos alheios, ele sempre deixa muito clara a sua marca. Não sendo um cantor de muitos recursos, em seus discos, ele sempre lança jovens cantores que, depois, muitas vezes, seguem vôo com as próprias asas. Foi o caso de Mônica Salmaso e Renato Brás.

E agora, acabou de sair mais um CD, em que mostra sambas com parceiros diferentes como Paulinho da Viola, Francis Hime, Luiz Tatit, e uma parceria póstuma com Nelson Cavaquinho. Não podia faltar, evidentemente, um samba com Paulo César Pinheiro. O CD é muito bom e mostra sua tão qualificada maneira de fazer música. E o título do disco não podia ser mais feliz: Um Jeito de Fazer Samba.

domingo, 19 de novembro de 2006

Família & Tradição

Quando o Ademar e o Paulinho chegavam em casa, em horário pouco provável, todos sabíamos o que tinha acontecido. Alguém da família havia morrido. E vinham buscar o meu pai, que, com eles, formava o triunvirato funéreo. Sua incumbência era fazer com que o enterro acontecesse de forma apropriada. Eram tarefas singelas, como colocar a roupa no defunto, arrecadar dinheiro pra comprar um caixão, descobrir se alguém na família tinha um lugar pra enterrar o dito cujo, estas coisas. Mas a tarefa mais importante do grupo era garantir que o bar mais próximo do velório ficasse aberto a noite toda.

Os enterros da minha família seguiam um roteiro padrão. Os homens ficavam no bar, contando piadas e enaltecendo as qualidades (nem sempre elogiáveis) do defunto. As mulheres ficavam velando o corpo, em conversas sussurradas, falando mal de alguém que não estivesse presente, ou estivesse mais longe, do lado de dentro do caixão, por exemplo. E o tititi corria solto, até que alguma desmancha-prazeres, mais desavisada, tivesse a infeliz idéia de puxar um terço. Aí, não tinha saída. O segredo era ser bem rápida com as palavras pra terminar logo as contas e retomar as conversas.

Os meninos ficavam com um grupo ou com o outro, dependendo da faixa etária. Lembro-me da minha felicidade, no enterro do meu avô, dia em que mudei de grupo, livrando-me das rezadeiras e passando a ouvir as piadas que eu não entendia a metade. Mudei do chá pro guaraná, outra vantagem.

Há histórias hilariantes sobre enterros, a maioria delas não presenciadas por mim, apenas ouvi contar, possibilitando muita mentira, portanto.

O enterro do tio Zé foi no cú do mundo. O cara morava num casebre, praticamente, e o bar mais próximo era a léguas de distância. O jeito foi trazer a bebida para o velório, solução radical e só utilizada em casos extremos. Aquele era um caso extremo. Apesar disso, o velório transcorreu sem nenhum imprevisto. Problema foi mesmo na hora de seguir pro cemitério. A porta do casebre era mais estreita do que a largura do caixão, que entrara na casa vazio e de lado. Agora, evidentemente, ele estava cheio e não havia como passar. Nem pela porta, nem pela janela. Ninguém teve dúvida. Quebrou-se a parede e o féretro seguiu incontinente pro seu destino. A parede quebrada ficou de herança pra viúva.

O que nunca falta em um velório é gente disposta a ter chiliques. E uma tia minha, useira nesse comportamento, era a viúva num dado velório. Previa-se um chilique especial e a previsão confirmou-se. À beira do caixão, os soluços viraram gritos e, num momento de êxtase, ela pediu pro defunto levá-la junto com ele. A coisa tendia a fugir do controle quando o tio André (sempre ele) aproximou-se da viúva e sussurrando, sem ninguém mais ouvir, informou-a que o dito cujo tinha morrido numa cama, ao lado da outra, num momento mais que sublime. Como por encanto, os gritos calaram. O enterro seguiu tranqüilamente, mas ninguém entendeu porque as lágrimas secaram no rosto da viúva.

Houve uma ocasião em que surgiu um problema, aparentemente, insolúvel. O enterro seria num cemitério bem longe, pra onde não havia ônibus. Ninguém na família tinha carro. O tio André, então, contratou vários carros de praça (antigo nome dos táxis) pra levar a família toda pro cemitério. E assim foi resolvida a questão do transporte. Aquele foi o único enterro ao qual o tio André não compareceu. E até hoje, ninguém me contou quem pagou os táxis.

No velório da minha mãe ninguém conseguiu garantir um bar aberto a noite toda. Certamente, contribuiu pra isso, o fato do meu pai não estar com a cabeça voltada pra este problema prático. Não notei nenhum movimento estranho e não percebi se havia ação para trazer bebida pro local. O corpo iria ser velado a noite toda e eu estava meio cabreiro porque tentei convencer o povo a ir pra casa, voltando no dia seguinte, pela manhã. Afinal, aquele caixão não iria sair dali. Ninguém me ouviu. Eu fui dormir e convenci meu pai e minha irmã a fazerem o mesmo. E, na rebeldia dos meus vinte anos, avisei que se alguém desse chilique seria botado pra fora do local. No comecinho da manhã, um tio, completamente bêbado, esboçou algo parecido com um fricote e recebeu o devido cartão vermelho. Este incidente, pelo menos, me fez perceber que não houve falta de bebida naquela noite. Fiquei mais tranqüilo. Afinal, pra que serve uma família se não consegue manter suas tradições?