Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Negando o passado

Foi impossível sair do cinema, após assistir Lore, de Cate Shortland sem me lembrar de outro filme alemão, A Cidade sem Passado, de 1990, que mostrava o quanto uma cidade alemã, 25 anos depois do fim da Segunda Guerra, fazia questão de se esquecer do que ocorrera no país durante o Holocausto Nazista. Era como se nada tivesse acontecido, como se ninguém soubesse, à época, o que se passava no país. E este filme de 2013 mostra, exatamente, o início deste processo de negação por parte da população da Alemanha.
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Com a ocupação das cidades alemãs pelos exércitos aliados, começam a surgir as fotos dos campos de concentração e a reação geral é de incredulidade, de alegada surpresa, como se fosse propaganda do inimigo conquistador, como se os corpos amontoados fossem de atores magérrimos, contratados para posar como modelos.
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O filme é muito tenso, do início ao fim, e mostra o quanto a espécie humana pode ser egoísta quando se trata de livrar a própria pele. E como o mesmo indivíduo que não se importou com o que se passava com o vizinho judeu, diferente dele, não se importa com o que se passa com um alemão próximo a ele, igual a ele, seja homem, mulher, velho ou criança.
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O filme difere das centenas de histórias de guerra já produzidas pelo cinema (principalmente o americano) no fato de que as vítimas, agora, não são os judeus (ou os homosexuais ou os comunistas) perseguidos pelos nazistas e sim um grupo de crianças alemãs, filhos de nazistas fugitivos, que sofrem as agruras no país destruído. E, com isso, mostra que a capacidade do ser humano de impingir a dor e o sofrimento a um semelhante seu, como ocorreu com os nazistas aos judeus e com os judeus aos palestinos, não é característica de uma parcela da espécie, mas dela como um todo.
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Apesar de provocar muita reflexão, o filme é extremamente deprimente, assim como a realidade. Dá vontade até de negar o passado.
 

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Sexo tratado com beleza e elegância

Para minha surpresa, no fim de semana passado, havia mais de 5 filmes em exibição em Campinas que me interessavam assistir. Escolhemos um para o sábado e outro para o domingo. O critério da escolha obedeceu, exclusivamente, à questão do horário, mas, outra surpresa, resultou em 2 filmes com muitas coisas em comum. Ambos eram falados em francês, os dois tratavam de experimentações da adolescência, tinham atrizes belíssimas e, principalmente, a temática central era o sexo. Mais do que isso, nos dois casos, tratavam de sexo não convencional, ao menos na visão da maioria das pessoas.
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Jovem e bela é um filme de François Ozon cuja personagem se inicia na prostituição aos 17 anos. Sua motivação não é a necessidade de dinheiro, que ela acumula sem gastar um centavo. Tampouco é a libido que lhe motiva, já que o que a impele é menos a expectativa do prazer que possa experimentar com cada cliente e mais a ansiedade provocada pelo desconhecido, previamente, a cada encontro. Apesar da nudez da atriz Marine Vacth, de 23 anos, de extrema beleza, o que mais me seduziu no filme não foram as cenas de sexo e sim o comportamento da personagem, principalmente no que se refere ao seu relacionamento com as outras pessoas. A personagem era tão inexpressiva que fica a grande dúvida se esta é uma característica própria da atriz ou se ela é tão competente em seu ofício, que sua capacidade de convencimento seja extrema. Seja qual for a razão, a escolha de Marine Vacth foi muito acertada.
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O filme do domingo foi Azul é a cor mais quente, dirigido por Abdellatif Kechiche, que trata da relação entre uma adolescente e uma estudante de artes plásticas, alguns anos mais velha. Vencedor da Palma de Ouro deste ano, o filme foi lançado no Brasil na esteira de algumas polêmicas, entre as quais, a acusação de tirania, imputada ao diretor, devido ao seu nível de exigência nas filmagens. Outros dois aspectos, muito comentados na mídia, são a duração de 3 horas, bastante acima do convencional, e uma cena de sexo entre as duas, de mais de 7 minutos, feita com extremo realismo. Reconheço que a cena é, realmente, de tirar o fôlego, muito menos pela excitação que possa causar no expectador e mais devivo a um certo desconforto que a cena realmente provoca. O filme, entretanto, longe de ser uma obra erótica ou pornográfica, trata do quanto é complicado lidar com a questão das relações amorosas nesta época da vida de qualquer um. Desta forma, o fato desta relação acontecer entre pessoas do mesmo sexo acaba tendo uma importância secundária. Outro ponto a se ressaltar é a estonteante beleza da atriz Adèle Exarchopoulos, de 19 anos, que nos é insessantemente mostrada na tela, o tempo todo. É, realmente, uma overdose de beleza.
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A conclusão do fim de semana é que é possível fazer filmes sobre sexo (e não de sexo), com beleza e elegância e, ainda, nos provocar reflexões profundas.

sábado, 14 de dezembro de 2013

Filho de peixe

Sou obrigado a confessar que sempre tive má vontade para ler o que escrevia Antonio Prata. O principal motivo era o fato de ele escrever na revista Capricho para um público adolescente, na época em que a Cecília fazia parte deste público. A outra razão é o fato dele ser filho de Mário Prata, um escritor de quem eu gosto muito de ler as crônicas. E, nesse caso, aliado à má vontade, há o preconceito de pensar que a carreira do filho possa estar atrelada ao reconhecimento que tem o pai e, com isso, as portas das editoras se abrirem mais facilmente.
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Por felicidade, tenho a consiência de que todo e qualquer preconceito é fruto de ignorância e, embora isso não possa evitar que os tenha (como todos nós), essa consciência foi capaz de permitir que eu folheasse o livro Meio Intelectual, Meio de Esquerda, certa tarde de um sábado em que eu estava à toa na livraria da Vila em Campinas. Comecei a ler as crônicas e fui tomado de assalto ao perceber como seu texto é ágil, divertido e inteligente.  Não posso negar que fui seduzido, também, pelo título do livro, expressão tirada de um dos textos, chamado Bar ruim é lindo, bicho.
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A maior parte do livro é composta de textos publicados no Estadão entre 2004 e 2010. Li, praticamente, num dia, numa viagem entre Campinas e Belo Horizonte, metade na ida, metade na volta. Cada texto me fazia querer ler mais e, conforme o livro terminava, ia sentindo certa angústia de perceber que iria acabar e por saber que eu não tenho a menor intenção de começar a ler o Estadão, onde nem mesmo sei se ele ainda escreve. Esta sensação arrefeceu, um pouco, quando cheguei em casa e ao comentar sobre isso, a Clélia me mostrou que temos outros 3 livros dele, comprados por ela, o que eu nem sabia. Deu pra respirar aliviado por dois motivos: vou poder ler mais coisas de Antonio Prata e fica reforçada a minha convicção de que todo preconceito é sinônimo de burrice.

sábado, 7 de dezembro de 2013

A Pausa do Tempo

Este meu blog já foi muito mais ativo. Comecei a escrever há 7 anos e, naquela época, postava quase um texto por dia. Era uma febre, uma compulsão, vício movido por desejo, nunca por obrigação. Aos poucos a frequência foi diminuindo, revelando queda na ansiedade, mas mantendo um ritmo muito alto, ainda. Era uma época em que eu tinha a paixão por escrever, quase todo dia.
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Sem que eu percebesse, a frequência foi baixando e, de repente, sem que nenhuma decisão fosse tomada neste sentido, o blog ficou inativo por mais de 2 anos. Foi um período em que senti muito mais necessidade de ler do que de escrever. Tenho voltado, agora, lentamente, com pouco mais de 2 textos em cada mês e quando releio os antigos, reconheço neles a carga de paixão que não percebo nos atuais.
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Das épocas remotas, também, eu frequentava diversos outros blogs, de onde me alimentava. Percebi o mesmo fenômeno na maioria deles, coincidindo, inclusive, as épocas de maior atividade e de diminuição de fôlego. Alguns já nem existem mais.
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Um dos blogs cuja visita me dava mais prazer era A Pausa do Tempo, da jornalista e agente literária Valéria Martins. O que sempre me seduziu em seu texto é a leveza com que ela lida com as palavras, como se estivesse conversando com o leitor e como se nesta conversa sempre houvesse uma pitada de poesia. Sua principal característica é a generosidade com que nos oferece suas palavras. A coincidência de interesse por alguns temas como o amor e a literatura, sempre me fez buscar, neste blog, o incentivo para escrever mais.  
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Foi  por tudo isso que fiquei muito animado ao saber do lançamento do livro A Pausa doTempo, com textos selecionados do blog homônimo, pela editora Jaguatirica. Assim que consegui comprar meu exemplar, mergulhei de cabeça na leitura e, embora reconhecesse alguns dos textos, relê-los não me provocou sensação de estar lendo algo de novo e, sim, a sensação de estar lendo algo novo. Comprar o livro, aqui em Campinas, não foi uma tarefa muito fácil, já que a Jaguatirica é uma editora pequena e, como a própria Valéria me explicou, as grandes livrarias não dão a mínima para as pequenas editoras. De qualquer forma, depois de procurar na Saraiva e na Livraria da Vila (na FNAC eu nem procurei, pois aquilo virou uma loja de eletrodomésticos!), consegui encomendá-lo na Livraria Cultura.
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Enfim, ler o livro, me deu o mesmo prazer que eu tinha quando acompanhava o blog com frequência e confirmou o que eu já sentia naquela época, ou seja, Valéria Martins escreve do jeito que eu gostaria de saber escrever.

domingo, 1 de dezembro de 2013

The Voice Brazil

Antigamente, no Brasil, os programas de calouros eram a forma mais comum de um cantor aparecer e se tornar conhecido. Era, praticamente, a única maneira de um artista ter a chance de gravar um disco. Estávamos na era do rádio e cada estação tinha o seu, sendo os mais famosos o Programa César de Alencar e Calouros em Desfile, de Ary Barroso. Nos primeiros anos da televisão, tudo que passava na tela era o que já existia no rádio, adaptado ao novo veículo e a fórmula dos shows de calouros foi, também, exportada, sendo a Buzina do Chacrinha, seu melhor exemplo. Isso, aliás, multiplicou em muito a popularidade de seu apresentador quando passou para o tubo de raios catódicos. E como ele dizia que em televisão nada se cria, tudo se copia, rapidamente vieram outros, de muito sucesso como o de Silvio Santos e de Flávio Cavalcante e outros com sucesso mediano, como o do Bolinha ou Raul Gil. E este, pelo que sei, continua na tela de LED até hoje.
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Mas hoje, mesmo, o que temos de mais parecido com aquilo talvez seja o programa The Voice Brasil, produzido pela Rede Globo. Confirmando a frase do Velho Guerreiro, é uma cópia do homônimo produzido nos Estados Unidos. Pode ser parecido com os velhos programas de calouro, mas não é a mesma coisa.
 
Nos de antigamente, o candidato tinha o seu sucesso (ou seu fracasso), dependente apenas de sua voz. Vinha com uma roupinha simples, era acompanhado por um conjunto de música bem básico, quase chinfrim, sem nenhum arranjo rebuscado e tinha que cantar, ali, parado, à frente do microfone.
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No The voice, o que mais conta é a perfumaria. É a roupa moderninha, é o arranjo rebuscado, é o berro e a firula. Sim, porque, contrariando o título do programa, usa-se muito mais o grito do que a voz. Chega a ser irritante. Parece um concurso pra se saber quem berra mais. Berra-se com afinação, berra-se com ritmo, mas berra-se. Parece ser este o principal critério de escolha dos jurados (que agora chamam-se técnicos).
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Assistindo ao programa, fiquei pensando que, se tivesse sido sempre assim, ou seja, se somente os cantores que berram fossem selecionados, vozes como a de João Gilberto nunca teriam tido chance. Roberto Carlos não passaria pelo crivo dos técnicos. Nem Mônica Salmaso, nem Renato Braz, nem Emílio Santiago. Tivesse sido sempre assim, não teríamos conhecido a voz de Beth Carvalho, nem de Clara Nunes, nem tampouco de Milton Nascimento.
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Se dependêssemos dos critérios utilizados no The Voice, onde o grito e a firula são mais importantes que o canto, só conheceríamos vozes como a de Ana Carolina ou Paula Fernandes. E nunca teríamos ouvido Elizeth Cardozo. Ainda bem que não tenha sido sempre assim. A vida seria muito triste.

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Deixa (Vinicius de Moraes & Baden Powell) - Elizeth Cardoso

sábado, 30 de novembro de 2013

Sessão dupla de cinema e Martha Medeiros

No fim de semana prolongado pelo feriado da Proclamação da República, fizemos, em São Paulo, uma sessão dupla de cinema, hábito que há tempos não repetíamos. Assistimos ao filme francês Os Belos dias e também ao último de Woody Allen, Blue Jasmine.

A motivação para escolher o francês foi a presença de Fanny Ardant. Sempre vou considerar sua presença em qualquer filme, motivo suficiente para vê-lo, mesmo que depois ele me desagrade. Já assisti vários filmes com ela, como Sabrina, O jantar, Elizabeth, Sem notícias de deus, 8 mulheres, entre outros, alguns aproveitáveis, alguns descartáveis. Não importa. A figura de Fanny Ardant sempre justificou cada ida ao cinema.

Fui seduzido por esta atriz quando vi A mulher do lado, seu primeiro filme de François Trufault, com quem foi casada durante algum tempo. Na exuberância de seus 30 anos, contracenava com Gerard Depardieu e sua beleza me deixou perplexo. Consigo lembrar-me, até hoje, da expressão de seu rosto em algumas cenas. Talvez tenha sido o primeiro que vi com ela, mas ficou claro, pra mim, naquele momento, que qualquer outro trabalho que fizesse, seria suficiente motivo para eu me interessar em vê-la. Em Os Belos dias, filme do ano passado, aos 63 anos, exibe uma beleza que ainda me cativa.
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Já a motivação para assistir ao novo filme de Woody Allen é o próprio Woody Allen. Sempre me sinto impelido a assistir seus filmes e isto ocorre mesmo que o anterior não tenha me agradado. Na verdade, acho que vou ao cinema em busca de reviver a sensação que tive quando assisti a alguns de seus filmes em minha juventude como Um assaltante bem trapalhão, Bananas, Zelig, A Rosa Púrpura do Cairo e, principalmente, Manhattan, meu preferido, sem dúvida. O fato de eu não ter me empolgado com seus trabalhos mais recentes, tem me levado a imaginar que ele esteja perdendo a mão, mas, talvez, não tenha mudado ele, tenha mudado eu. Afinal, andei revendo alguns filmes que me cativaram no passado e não tive nem a sombra da sensação de outrora.  Mesmo Annie Hall, um filme que deixei de assistir, não sei bem por que motivo, mas que, tenho certeza, me cativaria naquela época, não me provocou nenhuma emoção especial quando o vi, finalmente, neste ano. Entre os recentes, só mesmo Meia Noite em Paris me causou algum impacto. Senti enfado ao assistir Para Roma com amor e, felizmente, Blue Jasmine, me provocou alguma satisfação, sobretudo a performance de Cate Blanchet, uma atriz que nunca tinha chamado minha atenção. 

Por mais que estes dois filmes pareçam não ter nada em comum, consegui perceber um elo entre eles, já que ao fim da tarde, me veio à mente um texto antigo de Martha Medeiros, do qual eu gosto muito e que fala sobre traição. Neste texto, chamado Traição e Semântica, a escritora fala daquilo que ela considera, realmente, uma traição e a forma com que, em geral, as pessoas aplicam esta expressão. Pois, nos dois filmes, ou melhor, em cada um deles, as formas de traição são mostradas das duas maneiras que ela trata no texto. E, vê-los no mesmo dia, me fez concordar, novamente, com ela.




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Passado Interrompido

Desde que surgiu este dilema das biografias autorizadas, me senti meio que em cima do muro, posição que, em geral, me incomoda. Confesso que mantive esta posição um pouco por preguiça e, por isso, não me sentia motivado a ler mais sobre o que estava se passando, já que, embora seja um grande admirador da obra de Chico Buarque, Gilberto Gil, Caetano Veloso e, até mesmo, de algumas canções do Roberto Carlos, tenho muito pouco interesse pelas opiniões deles a respeito de assuntos gerais e, muito menos, de detalhes sobre suas vidas privadas. Aliás, a vida privada das pessoas me interessa quase nada. Por outro lado, a biografia chapa branca sempre me deixa bastante desconfiado, com a sensação de estar sendo ludibriado. Acabei vencendo a preguiça e escolhi uma posição que, neste momento, pouco importa, visto que este assunto já esfriou.
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De qualquer forma, tenho de confessar que gosto de ler biografias, principalmente aquelas em que o foco principal seja a obra (ou o pensamento) do biografado e não tanto a sua vida privada. E gosto muito de ler entrevistas, também. Aliás, acho que gosto mais de ler entrevistas, já que esta fica no meio do caminho entre a biografia não autorizada e a de chapa branca. O problema é que entrevista, em geral, é uma coisa datada, que reflete a opinião do entrevistado naquele momento, e que pode mudar em pouco tempo, em função de alguma reflexão mais profunda ou de algum acontecimento inesperado. Por isso mesmo, é sempre muito estranho ler entrevistas antigas.
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O que dizer, portanto, de ler uma entrevista feita há mais de 30 anos?  Faz algum sentido? Pode até fazer, principalmente se o entrevistado, logo depois dela, não tiver tido a chance de refletir ou ver as voltas que o mundo deu. E foi exatamente o que me motivou a ler A última entrevista de John Lennon e Yoko Ono, conduzida por David Sheff, à época, jornalista escalado pela revista Playboy para esta tarefa, transformada em livro. A entrevista aconteceu em algumas sessões na casa do ex-Beatle, em seu escritório e no estúdio em que estava sendo gravado o último álbum lançado por ele, Double Fantasy. Poucos meses depois, Lennon seria baleado em frente à sua casa.
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Apesar de datadas, algumas de suas posições a respeito de política e, principalmente, sobre a paz, parecem atuais. Fica uma sensação de que nenhuma reflexão ou acontecimento histórico teria mudado sua maneira de pensar e enxergar o mundo, não que isso fosse ruim, muito pelo contrário, mas sua argumentação era tão consistente que poderia ser utilizada mesmo hoje em dia, com mais de 70 anos, caso estivesse vivo. Os detalhes de seu relacionamento com os outros Beatles, assim como com Yoko Ono, longe de serem tratados como fofoca, servem como pano de fundo fundamental para entender sua obra e sua forma de pensar.
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É a respeito de sua obra, aliás, que o conteúdo da entrevista mais me seduziu, justamente na parte em que, a convite do jornalista, ele comenta cada uma das mais importantes canções produzidas durante a carreira solo ou juntamente com os Beatles. Para quem foi um beatlemaníaco extemporâneo, como eu, foi absolutamente delicioso conhecer os detalhes das composições daquele que sempre foi meu Beatle preferido.

domingo, 13 de outubro de 2013

Desconforto

Inferno foi o primeiro livro de Patrícia Melo que eu li. Gostei muito e soube, mais tarde, que ela ganhou um importante prêmio por ele. E foi por isso que comprei, há algum tempo, Acqua Toffana, sem saber que ele foi seu primeiro livro publicado.
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Fazia um bom tempo que ele estava na estante e, semana passada, resolvi pegá-lo pra ler. Confesso que fiquei um tanto decepcionado, não que ele seja ruim, mas, provavelmente, por eu estar com uma expectativa exagerada devido ao outro.
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O que mais me incomodou, ao começar a leitura, foi a forma não linear da narração que me causou certo desconforto. Isso não é incomum e, nem necessariamente, negativo. Lembro-me de ter sentido o mesmo desconforto quando li, pela primeiravez, um livro de José Saramago. Era O Evangelho Segundo Jesus Cristo e sua forma de escrever os diálogos, sem utilizar o sistema convencional de pontuação, com travessão, me perturbou um pouco. Esta sensação, entretanto, passou rapidamente e logo eu estava absorto na leitura que terminei quase perdendo fôlego. Quando fiz minha segunda incursão na obra deste autor, Ensaio Sobre a Cegueira, eu estava absolutamente confortável para encarar aquela leitura que também me arrebatou.
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No livro inicial de Patrícia Melo, o desconforto não me abandonou um só instante. Ele foi, aliás, agravado pelo fato de eu tê-lo indicado no blog, antes de começar a ler, como, aliás, faço com todos os livros que indico.
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Caso minha memória não esteja me traindo (e nem minha preguiça de checar), acho que é a primeira vez que faço um comentário que não seja elogioso de uma indicação do blog. De qualquer forma, preferi escrever, mesmo assim, até porque o maior desconforto que o livro me causou foi o fato de eu não saber, até agora, se gostei dele ou não.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resposta ao tempo

Se, por brincadeira, alguém pedir pra eu escolher um, apenas um, dentre os meus letristas de música preferidos, este inquiridor ficará sem resposta. Julgo-me absolutamente incapaz de sacar apenas um nome de uma relação que tem Noel Rosa, Orestes Barbosa, Chico Buarque, Fernando Brant, Vitor Martins, Cacaso, e muitos, muitos outros mais.
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Se a coisa não fosse brincadeira, se eu tivesse, mesmo, que escolher um nome, sob ameaça contra a vida, até por instinto, teria que abdicar de certos pudores e reduzir a lista até chegar a um nome. E este nome único seriam dois: Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. Isso mesmo. Ambos são meu letrista preferido na música brasileira, por mais que a sintaxe desta frase soe errada. Nunca tive qualquer dúvida a este respeito e isso acabou de ser reforçado após ler o livro Aldir Blanc, Resposta ao tempo – Vida eletras, do jornalista Luiz Fernando Vianna.
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Sem se preocupar estritamente com dados precisos e dando maior valor aos acontecimentos sob o ponto de vista da lembrança de pessoas entrevistadas, mesmo que apresentem falhas, o que valeu, mesmo, foi alinhavar os fatos às sensações do poeta e perceber como elas foram, no decorrer de sua vida, construindo sua poesia. Servindo-se de alguns versos de suas inúmeras obras-primas, o livro vai encadeando os períodos do tempo, formando uma biografia do letrista na qual a própria história da nossa música vai se construindo, numa quase confusão em que conter e estar contido se misturam, como acontece na vida real.  Aldir Blanc, aliás, é o mais competente cronista da nossa música atual, como já fora, no passado, Noel Rosa, por coincidência (ou não), também oriundo de Vila Isabel.
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Aldir é um sujeito recluso, não é dado a manifestações de estrelismo, não é uma celebridade. Por isso é esquecido pela mídia, até mesmo por que não compactua com seu jogo. Por esse motivo, o livro trata até dos momentos difíceis de sua vida sem a dramaticidade que, certamente, venderia mais livros. Mesmo o episódio do afastamento entre Aldir e João Bosco é tratado de maneira natural e sem alarde, como eles mesmos, os protagonistas, preferem tratar. Este assunto é o que mais me interessava quando comecei a ler a biografia, não por gostar de fofocas, mas pelo fato de que este afastamento provocou em mim uma sensação de orfandade, já que me privou de continuar recebendo, através dos discos, o tipo de música que mais me fascinava naqueles tempos.
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O fim da parceria entre Aldir Blanc e João Bosco me causou, num primeiro momento, a sensação de que nenhum dos dois, compondo com outros parceiros, conseguiria arrebatar minha emoção no mesmo nível que o fizeram quando compunham juntos. Esta sensação perdura até hoje em relação a João Bosco, mas Aldir Blanc conseguiu continuar a me surpreender e me encantar com letras feitas com outros parceiros, sobretudo Guinga e Moacyr Luz.
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Não importa que sua música não venda tanto quanto as bobagens que habitam a nossa mídia. Para mim, ele continua sendo o primeiro de todos, mesmo que empatado com outro.
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Notas musicais:
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1 - Na contracapa do livro, Guinga diz: “Aldir não escreve, presta depoimento”. Acredito que este samba, feito em parceria com João Bosco, seja bastante emblemático desta forma de fazer letra que tanto me encanta.


Siri Recheado e o cacete (João Bosco e Aldir Blanc) – João Bosco
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2 – Ao lado de um grande senso de humor e picardia, Aldir é, também, hábil com as palavras ao desvendar as amarguras do ser humano, como nesta belíssima canção, composta em parceria com Guinga.


Catavento e Girasol (Guinga e Aldir Blanc) - Guinga
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3 – Com Moacyr Luz, Aldir conseguiu atingir o mesmo grau de perfeição ao compor sambas, como este.


Pra que pedir perdão? (Moacyr Luz e Aldir Blanc) - Moacyr Luz e Aldir Blanc

sábado, 28 de setembro de 2013

A Bossa Nova ainda seduz os gringos

Stacey Kent era uma estudante de Letras quando mudou-se dos Estados Unidos para a Europa a fim de estudar francês, italiano e alemão e completar um mestrado em Literatura Comparada. A partir daí, uma reviravolta aconteceu em sua vida e transformou-a numa das mais importantes cantoras de jazz da atualidade. Dona de um timbre sutil que, à primeira audição, pode parecer frágil, sua voz tem uma firmeza que faz com que não precise lançar mão de malabarismos melódicos para conquistar ouvidos exigentes e atentos. O que mais me seduz em sua maneira de cantar é a forma como articula as palavras, sílaba a sílaba, característica que sempre me encantou na performance de Frank Sinatra, por exemplo. Com mais de dez discos lançados, apresenta um repertório à prova de qualquer checagem. Perfeito. Canta com desenvoltura, tanto em inglês como em francês. Nos discos mais recentes, tem demonstrado muito interesse pela música brasileira, sobretudo a Bossa Nova e em seu álbum Raconte-moi, com repertório todo em francês, apresentou uma versão sublime de Águas de março.
 
Marcos Valle é um expoente da música brasileira, surgido na esteira da Bossa Nova sem ter se fixado na estética do movimento, já que, ao longo do tempo, foi se deslocando na direção de uma música Pop, com nítida influência norte-americana. Isso não significa, necessariamente, um declínio de qualidade. Embora sejam da fase inicial suas composições de minha preferência, não dá pra negar que as canções com acento Pop como Black is beaultiful, Com mais de trinta e Meu herói tenham grande qualidade. Apesar de a Bossa Nova ter uma meia paternidade do piano de Tom Jobim, foi o violão de João Gilberto, seguido dos de Menescal e Carlos Lyra que ligaram fortemente o movimento a este instrumento. Marcos Valle veio, como parte de uma segunda geração da Bossa, trazer novamente o piano a um lugar de destaque. Seu toque é sutil e minimalista, da mesma forma que sempre fora o de Tom.
 
Nesta altura do texto, alguém pode estranhar o motivo de eu falar de dois personagens tão diferentes. A razão é simples: acaba de sair o CD Marcos Valle & Stacey Kent ao vivo, com a cantora interpretando as canções dele, em sua maioria, versões em inglês. Há uma música em francês (La Petite Valse) e outra (Passa por mim) em que ela se arrisca a cantar em um português bastante convincente, não decorado, já que tem um surpreendente domínio do nosso idioma.
 
A seleção de repertório é bem abrangente, embora focada na fase inicial, com levada de Bossa Nova. Os arranjos também são diversificados, indo desde soluções minimalistas, apenas com piano, até execuções com banda completa. Em todas as faixas, o sax correto de Jim Tomlinson, marido da cantora, está presente. O único pecado foi ela não ter gravado O amor é chama, a canção que mais gosto, de Marcos Valle. Em compensação, as gravações de Samba de Verão e Eu preciso aprender a ser só são preciosas.


Summer Samba (Samba de Verão) - (Marcos e Paulo Sérgio Valle - Norman Guimble)


If you went away (Preciso aprender a ser só) - (Marcos e Paulo Sérgio Valle)


O ouvido argentino para a nossa música

É emblemática a frase do sociólogo Pablo Alabarces, da Universidad de Buenos Aires: “Os brasileiros amam odiar os argentinos, enquanto os argentinos odeiam amar os brasileiros”. De fato, se colocarmos a questão da rivalidade no futebol de lado, é claramente perceptível, em qualquer viagem a Buenos Aires, seja a passeio, seja a negócios, a admiração que as pessoas, na Argentina, nutre pelo nosso país. O inverso já não é tão perceptível. Aliás, é típica a má vontade dos brasileiros, em geral, com o país vizinho, como, de resto, é típica a má vontade dos nossos patrícios com outros povos, como os portugueses, por exemplo, como foi dito pelo escritor Valter Hugo Mãe, no programa Fim de expediente, da CBN, alguns dias atrás.
Mas, voltando aos “hermanos”, até mesmo na questão da carne, item no qual a deles é absolutamente superior que a nossa, mesmo nesse tema, é comum ouvir os argentinos se derreterem em elogios a um corte que não é muito comum por lá, ou seja, a picanha (que em minha opinião, nem é assim tão especial). Mas é, sobretudo na música, que percebemos a maior razão da admiração deles por nós. Enquanto, por aqui, o máximo que se observa é um parco conhecimento do tango, qualquer loja de discos de Buenos Aires, tem, pelo menos, uma uma estante inteira exclusiva para expor CDs dos nossos artistas. Eles, realmente, conhecem nossa música e este conhecimento não se atém somente ao óbvio. É possível encontrar muita coisa que, até por aqui, é raro.
Foi este fenômeno que me levou a comprar o livro Estação Brasil – Conversa com músicosBrasileiros, coletânea de entrevistas com alguns de nossos mais importantes músicos, pela argentina Violeta Weinschelbaum. 
O livro tem dois aspectos bastante interessantes. O primeiro deles é perceber o nível de conhecimento da autora dos detalhes de nossa história musical, sobretudo do movimento tropicalista. O segundo aspecto, mais importante, pra mim, é o fato das entrevistas sempre terem uma condução no sentido de se desvendar aspectos relativos à criação artística dos entrevistados. Em nenhum momento, no livro, encontramos qualquer pergunta a respeito da vida pessoal do músico. Isto, comparado a uma mídia como a nossa, em que a veiculação da fofoca e o culto às celebridades é o que impera, chega a ser uma redenção.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Overdose de cinema

Já falei aqui sobre a dificuldade de assistir a bons filmes nas dezenas de salas de cinema espalhadas pelos inúmeros shopping centers de Campinas. Depois do fechamento do Cine Paradiso, no centro da cidade, só nos restou o Cine Topázio no longínquo e raquítico Shopping Prado para quem gosta de cinema de qualidade.

Neste final de semana não foi diferente. Após avaliar a oferta dos shopping centers mais próximos de casa e perceber (como se já não soubesse) que não havia nada “assistível” nestas salas, dada a enxurrada de blockbusters (agora inventaram esta excrescência de oferecer filmes dublados nos cinemas), resolvi me encher de coragem e encarar a travessia da cidade até o Shopping Prado.
O Cine Topázio, para nossa alegria, oferecia 5 opções bastante interessantes. Fomos no sábado e no domingo, dois filmes em cada dia.
O primeiro a que assistimos foi Os sabores do Palácio, filme francês, delicioso de assistir por causa da língua (falo tanto do idioma quanto do paladar). Trata do trabalho de uma chef de cozinha contratada para cuidar da alimentação do presidente da república, em Paris. Ansiosa em saber quais são os gostos de seu novo patrão, ela se surpreende com a solicitação de que se privilegie a elaboração da comida simples, aquela que era feita pelas nossas avós, na infância. O que surpreende mais, na verdade, é que não se trata de comida fácil ou sem graça. Comida simples pode ser comida elaborada, criativa, difícil e, por isso mesmo, apresentar sabor recompensador.
Embora o filme misture as preocupações gastronômicas com as agruras da convivência com os burocratas do palácio, o que mais me seduziu foi a mensagem de que, seja servindo à mais alta autoridade no país ou a uma turba de trabalhadores na cantina de um local ermo, o serviço deve ser feito com o mesmo esmero e o sabor da comida apresentada deve ser irrepreensível.
O filme aproveita para dar uma cutucada crítica naqueles que priorizam a estética dos pratos ao seu sabor, aos construtores desta culinária que serve muito mais aos olhos do que ao paladar e que desperdiçam o tempo construindo espumas coloridas ou flores de açúcar.
E por falar em flores, Flores Raras foi o filme a que assistimos em seguida. Ele trata da relação amorosa entre a arquiteta brasileira Lota Macedo Soares e a poetisa americana Elisabeth Bishop, no Rio de Janeiro, nas décadas de 1950 e 1960. Com produção cuidadosa, as cenas mostram tanto a cidade do Rio de Janeiro quanto a Serra de Petrópolis como eram naquela época.
Ao lado da questão estética da cidade, que é o principal pano de fundo do filme, há também a referência ao momento histórico em que vivia o país, mostrando a relação próxima de Lota com o político Carlos Lacerda, desde quando ele aspirava ser governador até, depois de eleito, ser deposto e exilado pelo regime cujo golpe de estado, tanto ele quanto ela apoiaram.
Sobre o trabalho dos atores o destaque é para Glória Pires no papel da arquiteta, embora a Lota real tenha sido fisicamente muito menos atraente que a atriz. Outra coisa estranha foi a caracterização de Lacerda que parece, no filme, alguém muito mais leve do que ele era realmente. Independentemente do que se pense a seu respeito, uma coisa que não se pode negar sobre Carlos Lacerda é que ele era uma pessoa intensa.
Intenso é um adjetivo que não se deve utilizar para qualificar o filme uruguaio Tanta Água, o primeiro que vimos no domingo. Um filme, certament, bem difícil de assistir, o que não quer dizer que seja difícil de gostar. Eu, ao menos, gostei. O que chama a atenção é o caráter medíocre da vida real. E uso medíocre com o sentido original do termo, que significa mediano, ordinário, regular. O roteiro trata da vida de pessoas absolutamente comuns, assim como são comuns as coisas todas que acontecem com elas. Neste filme, não acontece nada de anormal, a não ser o fato de 3 familiares, um adulto, uma criança e uma adolescente, estarem viajando em férias no verão. O problema é que, ao chegarem ao seu destino, não para de chover, inviabilizando tudo o que poderia ser feito à guisa de lazer. O que é que tem isso de mais? Nada.
Se é só isso, se ele mostra apenas uma situação corriqueira e absolutamente desprovida de drama ou aventura, pra que assistir a um filme assim? Pois é nesta questão que se encaixa o interesse (ao menos, o meu), porque, apesar dele mostrar um mundo absolutamente regular e normal, ele incomoda. Ele incomoda ao nos mostrar que, talvez, a nossa vida pode estar sendo desperdiçada. Por mostrar que, talvez, trabalhar o dia todo para, no final do dia, comer uma comida básica, informar-se assistindo ao Jornal Nacional e ver algum filme dublado, depois de assistir a alguma novela banal, seja sufocante. O filme incomoda por mostrar que quase todo mundo é igual e que são quase sempre iguais e tacanhas as relações familiares.
São quase sempre iguais as relações familiares e é isso o que nos mostra o filme francês O verão do Skylab. Diferentemente do filme anterior, embora também mostre situações corriqueiras, que todo mundo conhece, o que não falta ao filme é graça. E muita graça, no sentido de ser engraçado e no sentido de ser gracioso. As situações mostradas com esta numerosa família poderiam ocorrer em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo, mas é o fato de ocorrer na década de 1970 que permite que seja ridiculamente engraçado e por situar-se na região francesa da Bretanha que o torna gracioso. A presença das típicas situações envolvendo as grandes famílias, como a comida e bebida fartas (quando não exageradas), a avó meio atrapalhada, o tio meio maluco, as discussões entre cunhados com opiniões contrárias e argumentos absurdos, e as travessuras das crianças. A atuação das crianças, aliás, é o ponto forte do filme, sobretudo a da jovem atriz Lou Alvarez.

Poderia ser mais um entre tantos filmes sobre famílias e suas peripécias, mas o roteiro é tão dinâmico que não dá tempo da gente sossegar. Aliás, tudo é tão ágil que não há momento algum em que tenhamos oportunidade de avaliar se estamos gostando ou não. O cinema poderia ser sempre assim.

domingo, 22 de setembro de 2013

Comendo feijoada em Campinas

Posso dizer, sem chance de equívoco, que feijoada é uma das comidas que eu mais gosto. É um dos pratos mais democráticos que eu conheço, já que, por ter uma quantidade imensa de ingredientes, é difícil encontrar alguém que não goste de nenhum deles.
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Gosto de comer e gosto de fazer em casa. Acontece que feijoada é uma comida que só tem graça fazer pra bastante gente. No mínimo 15 pessoas. E como não é sempre que quero uma multidão à minha volta, eventualmente, pra matar a vontade, temos que recorrer aos restaurantes, que a servem, como é regra e tradição, nos almoços de sábado.
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Em Campinas, eu gostava da feijoada do boteco Seo Pimenta, em Barão Geraldo, servida ao som do bom samba da Velha Arte. O problema é que o boteco pegou fogo e com isso, a cumbuca se foi. Quase em frente ao finado boteco, o Empório do Nono serve uma que não chega a me empolgar.
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Decidimos, então, eu e a Clélia, procurar outras opções na cidade.
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Antes de começar o relato do nosso périplo, vão aí duas informações necessárias:
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Primeramente, nunca encontrei um restaurante que servisse uma feijoada mais gostosa do que a que eu faço. Isso não quer dizer que a minha feijoada é a melhor do mundo. As que minha avó e minha mãe faziam eram melhores que a minha. Deve haver muito boas por aí. Só que eu não consigo encontrar.
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Em segundo lugar, quando vou a restaurantes, prefiro as feijoadas servidas com tudo numa só cumbuca. Não gosto muito daquelas em que cada um dos pertences é servido separadamente. Isso pode até ser prático para que cada um escolha o que mais gosta, mas, assim, perde-se a unidade do prato. Fica cada coisa com um sabor e nenhuma delas com sabor de feijoada.
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Infelizmente, este modo de servir é o que predomina nos restaurantes e botecos hoje em dia. Sendo assim, nos rendemos a esta realidade e provamos feijoada em 3 lugares de Campinas (não no mesmo dia, evidentemente):
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Restaurante Vila Real
Local: Hotel Royal Palm Plaza
Preço: R$ 93,00 por pessoa
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Servida em sistema de buffet, ao som de um trio que toca chorinho e MPB instrumental.  Na ocasião em que nós fomos, contava com a participação de Chiquinho do Pandeiro, o que, por si só, já é garantia de boa música.
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Além do buffet com a feijoada (e mais uns pratos quentes para quem não aprecia a iguaria), há uma mesa de saladas pouco criativa e um balcão em que se servem acarajés. O problema começa justamente aí. O acarajé é absurdamente descaracterizado e, em lugar do vatapá, caruru, camarão seco frito e pimenta, ele é servido com um camarão com creme de leite (ou algo que o valha).  Ainda por cima, os bolinhos de feijão fradinho estavam murchos. Se quiser comer acarajé em Campinas, tem que ir ao restaurante da Tonha.
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Falando da feijoada, propriamente, aconteceu aquilo que eu mais temia. Cada pertence, servido individualmente, parecia ter sido cozido separado, a quilômetros de distância do feijão que, por isso mesmo, não tinha gosto de nada (a não ser de feijão). Colocar no prato um punhado de feijão cozido e alguns pedaços de carne cozidos, não transforma este prato em uma feijoada.
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Se alguma coisa serve de consolo, em termos de comida, o buffet de doces brasileiros é acima do razoável.
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Casa Rio – Bar & Restaurante
Local: Sousas
Preço: R$ 29,00 por pessoa
A Feijoada é acompanhada pelo samba do grupo Canta Brasil, com repertório afiadíssimo. O local apresenta, ainda, a vantagem de servir feijoada, também, aos domingos, excessão à regra.
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Dispostas num buffet mais simples, as carnes são servidas por tipo (e não separadamente). Desta forma, a linguiça e o paio vêm numa mesma cumbuca, o lombo e a costela também estão juntas, assim como orelha e pé. Fiquei com a clara sensação de que todas as carnes foram cozidas juntas e, só depois, separadas para servir. Se for isso mesmo, é fenomenal. Se não for assim, tanto faz, pois o sabor de tudo estava muito bom. Além do mais, há opções no buffet que combinam perfeitamente com o prato, como frango a passarinho, costelinha frita, torresmo e mandioca, que podem funcionar como tira-gosto pra acompanhar o caldinho de feijão.
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O balcão de sobremesas, com doces brasileiros, é bastante autêntico.
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Um único cuidado deve ser tomado. Se não quiser ficar bem no centro da muvuca, com pesoas dançando ao seu redor e música muito alta, inviabilizando a sua conversa, escolha uma mesa um pouco mais distante do palco.
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Choperia Giovannetti
Local: Cambuí
Preço: R$ 53,00 por pessoa
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Servida no salão da belíssima unidade que fica ao lado da prefeitura de Campinas, o diferencial deste restaurante é seu buffet de saladas, extremamente criativo e variado. Além disso, há um terceiro buffet com massas, que não chegamos a provar, mas que pareceu interessante.
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A feijoada, com os pertences em cumbucas separadas, apresenta, apesar disso, um sabor convincente. Couve, farinha, farofa, laranja picada e torresmo compõem, com dignidade, os acompanhamentos. Embora tenha agradado, a lembrança que fica é mesmo do buffet de saladas que, ao lado, oferece, ainda, algumas boas opções de pratos quentes pra quem prefere passar longe do feijão preto. Este buffet é tão bom que, ontem, tendo voltado ao Giovannetti, acabamos declinando da feijoada e nos servimos, além das saladas, de um excelente filé com creme de aspargos, uma lasanha de escarola surpreendente e um risoto de maracujá com gorgonzola delicadíssimo.
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Na casa não há música ao vivo, mas, em compensação, tem um chope Brahma que é, de longe, o melhor da cidade.
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Conclusão:
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Na comparação entre as 3 opções, a que menos gostei foi a do Vila Real. Isso sem falar no preço, que me pareceu extorsivo.
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A minha preferida, considerando o sabor, é, sem dúvida, a da Casa Rio, e também não falo isso influenciado pelo preço, felizmente, o mais baixo dos três.
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Ao Giovannetti, apesar de ter gostado do sabor da feijoada, iremos voltar pelo seu buffet de saladas que me fez levantar várias vezes da mesa em sua direção, passando pela feijoada, sem cair em tentação.
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Como esta busca é infindável, vamos continuar na árdua procura e já estamos planejando conhecer a feijoada do Tonico's Boteco, qualquer sábado destes.