Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Bem-vindo Sarkozy

O presidente francês Nicolas Sarkozy está visitando o Brasil. Ele veio pra vender submarinos. E o Brasil está louco pra comprar. Mas não é isso que importa. Não importa que ele esteja aqui pra vender armas. Não importa que ele seja de extrema direita e nem que seja racista. Não importa que ele represente este tremendo retrocesso por que passa a política européia, sobretudo a política francesa. O que importa é que Carla Bruni veio junto com ele.

O Brasil já teve uma primeira dama lindíssima. Maria Thereza era até mais bonita que Carla Bruni. Acontece que Jango não dava a mínima pra ela. Mesmo tendo aquela beldade em casa, sempre preferiu esbaldar-se em outras camas. O contrário de Sarkozy que vive cercando a esposa de mesura e galanteios, ao menos publicamente.

Talvez, por causa disto, Maria Tereza sempre teve um ar de tristeza emoldurando seu lindo rosto. Talvez, por causa disso, Carla Bruni apresente-se sempre alegre e jovial.

Por tudo, apesar do retrocesso, apesar do racismo, apesar da intolerância que ele representa, Sarkozy será sempre bem-vindo. Contanto que traga Carla Bruni. Melhor seria se ela viesse sozinha.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Mapeando Barão Geraldo

Quando viemos de São Paulo, 7 anos atrás, e fomos morar em Valinhos, nossa primeira ocupação foi começar a mapear a cidade. Após identificar bons açougues, quitandas e supermercado, ficou absolutamente claro, pra nós, que a cidade não ofereceria opções gastronômicas e culturais que aplacassem nosso apetite. Começamos, então a mapear Campinas, pertinho dali.

Depois de alguma perda de tempo no circuito Cambuí-Shoppings, descobrimos o centro da cidade e outros bairros menos festejados e passamos também a freqüentar Sousas e, com menor freqüência, Barão Geraldo. E agora, ironia do destino, 7 anos depois, eis que nos mudamos para Barão Geraldo.


Os campineiros, em geral, acham que Barão Geraldo é longe. Depois de Barão Geraldo tem o Guará, mais longe ainda. Depois do Guará tem o Village e a Vila Holândia, dois fins-de-mundo. Pois fomos morar mais longe do que o fim-do-mundo. É tão longe que já nem é Campinas. É Paulínia. Pois bem. Mesmo sendo em Paulínia, é por Barão Geraldo que chegamos até em casa e é por isso que nossa atual ocupação está sendo mapear este bairro.

Pra começo de conversa, Barão Geraldo nem é um bairro. É um sub-distrito, quase uma cidade. Desconfio, aliás, que seja maior que Valinhos. Dos lugares que já conhecíamos, aquele que temos ido com maior freqüência é a Casa da Moqueca.

Como o nome diz, a casa é especializada em peixes e frutos do mar. Até a semana passada, ostentava no muro uma faixa em que anunciava uma promoção de 10 pratos à base de camarão a R$ 39,00 para duas pessoas. Experimentamos quase todos e, de fato, além de muito saborosos, a quantidade é farta, dando, eventualmente, para alimentar 3 pessoas. A faixa saiu do muro, nessa semana. Eu liguei pra lá, na esperança de que a faixa tivesse sido retirada para lavar, ou coisa do tipo. Doce ilusão. A promoção acabou e os preços dos pratos voltaram ao seu patamar normal de R$ 53,00 a R$ 56,00. Mesmo assim, ainda vale a pena.

Os outros lugares que já conhecíamos são a Casa São Jorge, o Bar Pantanal, o Empório do Nono, o Seu Pimenta e a Estação Santa Fé. Ainda não fomos a esses lugares, pois estamos excitados com o mapeamento do que é misterioso na cidade (opa! no bairro).

Padarias e açougue:

Há 3 padarias interessantes. A mais tradicional delas é a Padaria Alemã. Parece aquelas padarias de cidade do interior de 30 anos atrás. Tem muita coisa interessante, de dar água na boca. Quase chegando no Guará, tem a Panetteria di Capri que é meio fashion e é, das 3, a que menos gosto. Tem uma gente meio metida a besta e o pão nem é lá grande coisa. Além do mais, o atendimento é antipático. No Guará, tem a Padaria Casa Grande, bem pequena, de cujo forno saem coisas bem interessantes, como alguns pães recheados e tortas. Deve haver mais coisa pra mapear. Estamos ainda no processo de busca.

Começamos a procurar um bom açougue. Nada. Pra maioria das pessoas que perguntamos, vinha a mesma resposta: - Eu compro carne no supermercado.

Eu não gosto muito de comprar carne em supermercados. Gosto, mesmo, é do velho e tradicional açougue. Aquele em que você estabelece contato com o açougueiro, que, com o tempo, reserva sempre um corte especial pra você. Depois de procurar muito, acabamos encontrando um bem interessante, que trabalha com gado red angus e produz uma lingüiça temperada com hortelã que é um pecado. Fica na rua Maria Tereza Dias da Silva, 698. Não sei o nome. O lugar é bom, mas o preço é salgado. Temos que procurar mais.

Restaurantes:

Desde que chegamos aqui, com a ajuda da Veja Campinas, do site Barão em foco e navegando meio sem rumo na Internet, estamos checando os lugares. Alguns são bem interessantes. Outros, nem tanto.

O pior, até agora, é um restaurante que fica bem no começo da Av. Albino José Barbosa Oliveira chamado Universo Massas. Sempre tive curiosidade em relação a este restaurante. Sua localização é estratégica e imponente. E em suas paredes, pôsteres gigantescos prometem uma quantidade inimaginável de massas, pizzas, carnes e sobremesas, em sistema de rodízio e a preço fixo. Sou glutão e não sou inocente. Sei que não dá pra fazer milagre e fui pra lá convicto de que seria ruim. O problema é que o lugar é muito pior do que ruim. É péssimo. Pior que péssimo. E o preço nem é tão baixo como eu supunha (o que não iria compensar tanta ruindade). Fujam!

Outro restaurante que não vale a pena voltar é o Via Roça. A comida é até boa. Mas o restaurante é longe, é longe, é longe até não mais poder. Comida mineira, bem feita e honesta. Preço compatível. Mas é muito longe! É no Village. Na verdade, é depois do Village e olha que o Village é longe. Só se justificaria ir até lá se a comida fosse esplendorosa. Mas é uma comida apenas boa. Como a comida que eu consigo fazer em casa.

Uma tranqueira é o restaurante Casa da Vó, no Tilly Center. Aliás, pelo que eu pude ver, não há nenhum motivo pra eu ir ao Tilly Center novamente.

Fomos também ao Bar do Jair. É um boteco daqueles cheios de gente, cujo prato principal é a coxinha, enorme, com mais de 20 opções de recheio. Fomos, a Clélia, a Cecília e eu e não conseguimos comer duas coxinhas cada um. O salgado é grande praca. Descobrimos também que, no final das contas, o único recheio que combina com coxinha é mesmo o de frango.

Pizzarias, fomos em 3. Vila Ré, pertinho da entrada de Barão é uma casa pequena, simples e simpática. O atendimento é bom e a pizza é boazinha. Isso é pouco. Pelo menos pra nós, pizza tem que ser ótima. Na Av. Santa Isabel há a Pizzaria Fiori. Bem requenguela, lembra as pizzarias de bairros pouco festejados de São Paulo, como Ipiranga ou Cambuci. O atendimento é desatento, quase hostil. A pizza, surpreendentemente, estava boa. Ao menos os primeiros pedaços, quando a fome era sufocante e a massa estava crocante. A segunda metade não foi tão sedutora. De positivo, sem dúvida, o preço. Comemos e bebemos, eu e a Clélia, gastando R$ 30,00.

A melhor pizzaria é a mais próxima de casa. Quase chegando no Guará. É a Gregória. No começo, evitamos esta pizzaria, pois ela estava sempre vazia. Aquilo nos incomodava. Pizzaria sempre enche. Até pizzaria ruim sempre enche. E sempre que passávamos em frente a ela, a mesma coisa, suas mesas estavam sempre vazias. Um dia resolvemos arriscar e descobrimos que o salão principal da casa fica nos fundos. E estava, evidentemente, cheio. Foi a única pizzaria de Barão em que já fomos mais de uma vez. O cardápio é parecido com o das pizzarias Brás ou Babbo Giovani. Os preços também. A pizza, no entanto, está um degrau abaixo. A rigor, pra comer pizza boa em Campinas, melhor ir pro Cambuí.



Picanha de Ouro é uma churrascaria mediana. A grande vantagem é o preço, realmente bem baixo. Isso torna uma visita a ela um bom programa, principalmente se você for bastante paciente no que diz respeito ao atendimento dos garçons. Se estiver a fim de comer uma carne de primeira, então é melhor ir pro Cambuí, no Cenário ou pro Chapadão, no Omar.

Fomos ao Recanto do Barão a fim de comer arroz feijão e carne. Uma comida que fosse parecida com a do Feijão com Tranqueira. Ao chegar lá, percebemos que o cardápio é quase exclusivamente de frutos do mar. Acabamos pedindo uma porção de picanha aperitivo que estava muito boa, mas não era exatamente o que nós queríamos. Acabamos voltando lá, à noite, pra comer uma moqueca. Achei salgado demais. O prato e a conta. Prefiro a da Casa da Moqueca.

Há ainda outras comidinhas. A sorveteria Sabor e Sonho não conquistou, ainda. Mas sorvete é assim mesmo. Tem que experimentar vários sabores, até encontrar os preferidos. Por enquanto, tenho ficado no de maracujá e no de coco, bem bons, ambos. Ai que saudades da sorveteria Só Aqui, de Valinhos. Mas aquela, só lá.

A Battataria Suíça foi uma grata surpresa. O serviço é meio lento e a cozinha é demorada, mas quando chega aquele disco voador de batata recheada, quentinho e crocante, parece que nada melhor poderia acontecer. E tem, às sextas e sábados, uma música ao vivo bacaninha.

O hambúrguer do Greg é muito gostoso. Lembra o primeiro hambúrguer que eu comi, ainda criança, em São Paulo. Todos os hambúrgueres deviam ter aquele sabor. Só que eu acho que pagar R$ 14,00 num cheese salada é um pouco imoral. E o pior é que eu comi dois. Um hambúrguer não pode custar mais que uma moqueca de camarão.

Se a hora avança a madrugada e tudo está fechado, uma saída é o Ponto Final, ao lado da Batataria Suíça. Deve ir até 4 ou 6 da manhã. Mas esse, provavelmente, é o único motivo pra ir lá.

Ontem, fomos no Le Chef, um restaurante com pretensões de bistrô francês. Saímos de lá bem satisfeitos. Comi uma truta ao molho de vinho tinto e a Clélia um salmão ao molho de maracujá. Ambos acompanhados de um risotinho básico. Ambos ótimos. Uma saladinha simples e deliciosa de entrada e uma sobremesa meio sem graça. Tudo isso mais bebidas, gastamos menos de R$ 50,00. Foi surpreendente. Iremos voltar.

Enfim, este mapeamento, esta busca, esta garimpagem, está fazendo com que a gente, raramente, saia de Barão para comer. Faz tempo que não vamos pra Campinas. Aliás, íamos muito mais pra Campinas quando morávamos em Valinhos. E pelo que temos visto, navegando na Internet ou passando pelas ruas do distrito, há muito mais pra se aventurar. É só uma questão de tempo, apetite e dinheiro. Mas a gente chega lá.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bossa

Talento não é, necessariamente, hereditário. Temos vários exemplos de filhos de cantores e compositores que tentam uma carreira artística na esteira do sucesso dos pais. Alguns têm êxito, outros não. É um processo absolutamente aleatório.

Há os casos daqueles cuja ascendência até dá um empurrãozinho, mas há aqueles em que o sucesso dos pais acaba ofuscando a decolagem da carreira e seus vôos nunca adquirem altitude de cruzeiro. E esse é o caso de Pery Ribeiro.

Filho de dois grandes ícones da música brasileira das décadas de 40 a 60 no século passado, a cantora Dalva de Oliveira e o compositor Herivelto Martins, Pery Ribeiro nunca teve o reconhecimento merecido. Nunca brilhou excessivamente. Nunca foi celebridade. E essa nunca foi sua busca.

Dono de uma voz bonita e sedutora, Pery gravou muitas músicas em primeira mão que acabaram fazendo mais sucesso nas vozes de outros cantores. Só pra dar um exemplo, foi dele a primeira gravação de Garota de Ipanema, uma das músicas mais conhecidas no mundo.

Embora tenha participado ativamente do movimento da Bossa Nova, Pery nunca foi considerado um de seus símbolos. De carreira discreta, sempre me provocou muita admiração e era muito comum que, ao ouvir uma canção romântica, com uma batida levemente sincopada eu sempre a imaginasse cantada na voz dele.

E foi com muito interesse que, fuçando nas prateleiras da Livraria da Vila, no dia do lançamento do livro do Ricardo Filho, eu encontrei este CD do Pery Ribeiro cantando standards de trilhas sonoras do cinema americano das décadas de 40 e 50.


´S Wonderful: Movie´n Bossa, é recheado de clássicos como Moon River, Our Love Is Here to Stay e Over the Rainbow, todos interpretados com uma levada de Bossa Nova. Eu, em geral, desaprovo esse tipo de “releitura”, mas, nesse caso, tenho que admitir que o resultado ficou muito bom. É o 32º disco na carreira deste cantor tão regular, num mundo em que a regularidade já não é uma virtude.


Voltando

Já passa de 5 meses o tempo em que não escrevo nada neste blog. O último texto foi postado em primeiro de julho, junto com a dica de um CD do Pery Ribeiro, que eu ouvi menos do que gostaria.

Vários motivos poderiam ser perfilados para justificar este abandono. A doença do meu pai que nos exaure a todos, a necessidade por encontrar uma casa pra morar, as atribulações do trabalho, mas, enfim, o verdadeiro motivo, mesmo, tem sido um total desinteresse por escrever, ou mesmo, ler os blogs dos amigos.

Os motivos, se não foram resolvidos, estão, ao menos equacionados. Meu pai continua doente, mas está estável (embora isso não seja, necessariamente bom). A casa foi encontrada e, embora seja bem mais longe, é grande e gostosa. O trabalho continua atribulado, mas sempre foi e sempre será assim. Mas da mesma forma que não eram nenhum desses fatores que, verdadeiramente, me fizeram parar de escrever, não é nenhum deles que me impele a voltar aqui. Na verdade, venho namorando muito esta idéia ultimamente. Por saudade mesmo. Saudade de exercitar o ato da escrita, saudade de falar, saudade de ler o que todos andam escrevendo. Mas, talvez, o fato que tenha, realmente desencadeado essa decisão, seja um comentário recebido no último post, 5 meses depois dele ter sido postado. Foi um comentário da Tatiana, amiga da Cecília, e que eu tenho quase certeza que não conheço, mas se é amiga da Cecília é garantido que é gente boa. E nesse comentário, além de fazer uns elogios que sempre massageiam meu ego, ela pede que eu volte a escrever. Aí não tem jeito. Como é que eu posso deixar de atender um pedido desse?

Tati, obrigado pelo empurrão. Obrigado pra me dar mais um motivo pra voltar a fazer uma coisa que já estava me fazendo falta. Obrigado por me animar a voltar a ler o que andam escrevendo meus amigos. Obrigado mesmo.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Como todos nós

A coleção Perfis Brasileiros, editada pela Companhia das Letras, traz uma proposta que me agrada muito. A idéia é oferecer biografias de personagens da nossa história, escritas por estudiosos e que contenham boa base de interpretação pessoal. Isso faz com que estes perfis tenham alguma informação ou visão diferentes do que nos acostumamos a receber dos livros escolares.

Esta coleção me fez lembrar outra, editada pelo circulo do livro, mais de 20 anos atrás, chamada A vida cotidiana. Nela, era descrita a vida mundana de determinada época, na efervescência de algum acontecimento histórico importante. Lembro-me de ter lido Berlim no tempo de Hitler, de Jean Marabini, que, assim como os livros da coleção Perfis Brasileiros, falava da vida cotidiana com a história ao largo, usada como pano de fundo.

Eu já tinha lido o perfil de Dom Pedro II, de José Murilo de Carvalho, sobre o qual, inclusive, escrevi um texto aqui. E, agora, terminei de ler D. Pedro I: um Herói Sem Nenhum Caráter, de Isabel Lustosa. Ler os perfis dos dois Pedros, com tão pouca diferença de tempo, provoca uma inevitável comparação entre os personagens.

Sempre tive uma clara preferência pelo Pedro I, por mais que sempre tenha sabido que o segundo era muito mais admirável. Enquanto este era ligado às ciências e à arte, avesso à pompa, equilibrado e culto, o primeiro era desregrado, fanfarrão, mulherengo e inculto. Enfim, tinha um caráter absolutamente duvidoso. E é justamente por isso que minha preferência acaba recaindo sobre ele. Não é que eu prefira gente má a gente boa. Claro que não. É que eu tenho certa má vontade com os “bonzinhos”. Prefiro os humanos. Além do mais, alguém ser o tempo todo bom ou o tempo todo mau é coisa de telenovela.

O personagem Dom Pedro I, com seus arroubos, explosões, impulsividade, sua generosidade, alegria, lascívia, mas, sobretudo, seu amor ao Brasil, se identifica muito mais com o povo brasileiro do que o outro. E é essa mistura de qualidades, as boas e as más, que me fazem amar o nosso povo, um amor narcisista, já que me incluo, sem ressalvas, integrante dele. Sou absolutamente obcecado pelo nosso povo e gosto de tudo que provenha dele, do churrasco ao samba, do vatapá ao repente.

Enfim, gostei muito deste livro e, assim que terminar Mandrake, do Rubem Fonseca, me dedico a mais um perfil, desta vez, o de Getúlio Vargas, outro herói com algumas falhas de caráter. Como todos nós.

sábado, 21 de junho de 2008

O que não acontece

Os parcos leitores deste blog sabem que, ali, naquele canto superior direito, há sempre uma dica de um disco ou um livro, que eu renovo periodicamente. Na maior parte das vezes, a dica é de um livro que acabei de ler ou um disco que comprei há pouco tempo e que, depois de ouvir, se me empolgar com ele, indico e, logo depois, faço algum comentário.


Quando me caiu nas mãos o disco Angenor, de Cida Moreira, não precisei ouvi-lo antes para colocá-lo como dica no blog. Afinal, um disco da Cida Moreira cantando músicas do Cartola não poderia ser ruim. E, de fato, mais do que não ser ruim, o disco é estupendo.

Cida Moreira é uma cantora inventiva. Foge das soluções óbvias e, por isso, às vezes, causa alguma estranheza. Por vezes, pode parecer um tanto operesca, mas, quando isso ocorre, tem, certamente, alguma razão de ser. São ótimos seus discos cantando Chico Buarque, ou cantando Brecht e Kurt Weil. Ou então, quando passeia pela trilha sonora do cinema brasileiro.

A idéia de gravar Angenor foi de Omar Campos, que o produziu e toca violão em todas as faixas. O acompanhamento das músicas, aliás, é um ponto alto do disco. Uma coisa simples, sublime, sincera. Assim como a música de Cartola.

Angenor, provavelmente, vai vender pouco. Talvez nem apareça com destaque nas prateleiras das grandes lojas de CDs e, certamente, ficará longe da mídia. Cartola está fora da mídia, o que já seria um pecado normalmente, mas o pecado é ainda maior se lembrarmos que comemoramos, este ano, o centenário de seu nascimento.

Isso deveria ser motivo de festa, motivo de orgulho, feriado nacional. Mas isso não acontece.
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sexta-feira, 23 de maio de 2008

Bolacha Refinada

Deve ser a idade, mas o que tenho sentido é que estou ficando cada vez mais sectário quando o assunto é música. Sempre fui bastante eclético a esse respeito, embora nunca tenha sido muito tolerante com música ruim ou excessivamente comercial. Gosto muito de jazz, de música popular brasileira e até mesmo de rock cheguei a gostar, de alguma coisa em alguma época. Gosto de música caipira e de quase todas as manifestações regionais brasileiras. Mas, há muito tempo tem sido o samba, o samba autêntico, o samba verdadeiro, a única forma de música que me emociona. E isso pode ser identificado no meu interesse nas lojas e nos sites da internet que permitem baixar discos completos.

Cada vez mais, só os discos de samba chamam a minha atenção. E é com grande interesse e avidez que eu fico garimpando páginas e prateleiras, a procura de novos cantores e grupos que cantem os sambas mais refinados, mais tradicionais, daqueles compositores mais importantes. Fujo, é claro, dos grupos de pagode e daqueles artistas que se aproveitam do samba como se fosse uma onda, um modismo ou uma oportunidade para se tornarem famosos.

E foi assim, garimpando, que encontrei o álbum duplo O Samba Informal de Mauro Duarte.

Mauro Duarte, o Bolacha, é daqueles sambistas pouco conhecidos pelo grande público, o que não lhe empresta nenhum demérito, muito pelo contrário. Mas, até mesmo o grande público conhece muitos de seus sambas como Canto das 3 raças ou Menino Deus, imortalizados na voz de Clara Nunes. Quem é do samba, entretanto, do samba verdadeiro, sabe muito bem quem foi este sambista e sabe, verdadeiramente, da sua importância para nossa música. Um compositor intuitivo, conhecedor dos segredos e atalhos necessários pra se compor um grande samba.

Neste disco, Cristina Buarque, sempre ciosa do que é culturalmente relevante, ao lado do grupo Samba de Fato, nos oferece 30 sambas muito pouco conhecidos deste grande compositor. São sambas raros, até mesmo pra quem é do ramo. São sambas garimpados à custa de muita pesquisa, muita conversa de botequim, muita persistência. Mais da metade destas músicas estavam inéditas e dez delas estavam incompletas. Coube a Paulo César Pinheiro, seu parceiro mais constante, a tarefa de completá-las. E não fez isso apenas colocando a letra (como se isso fosse pouco!), mas também, completando as melodias, já que, destes sambas, só haviam fragmentos, alguns gravados em fitas cassete, outros na memória de amigos.
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O samba de fato é um grupo formado por Pedro Miranda, componente do Grupo Semente, que acompanha desde sempre a cantora Tereza Cristina e por Alfredo Del-Penho que, junto com Pedro Paulo Malta, formam a dupla Dois Bicudos. Além deles, temos ainda Paulino Dias e Pedro Amorim. E como se isso não bastasse, o disco ainda conta com as participações de Paulo César Pinheiro e Elton Medeiros, cantando em algumas faixas.
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Um disco como este me deixa nas nuvens. É como um bálsamo, um orgasmo, um alívio. Alívio por perceber que o mundo não está perdido, que a vida pode, ainda, nos presentear com coisas belas, que o samba está cada vez mais forte e vigoroso. Um disco como este me alivia, pois justifica o meu sectarismo.

domingo, 18 de maio de 2008

Um príncipe, um plebeu e uma cidade

O que mais gosto e admiro no jornalista Ruy Castro é o método incansavelmente investigativo que ele utiliza para escrever seus livros, sejam as biografias, sejam os textos sobre música. Até já escrevi sobre ele num ou noutro texto deste blog. Nunca tinha lido, porém, algum livro de ficção escrito por ele. Embora não esperasse nada que fosse ruim, acabei ficando positivamente surpreso ao ler Era no tempo do rei.

Trata-se de um daqueles livros que misturam figuras e acontecimentos reais com personagens e fatos inventados. Muitos se atrevem a utilizar esta fórmula, mas isso não é uma coisa tão fácil de fazer. Rubem Fonseca obteve um ótimo resultado quando escreveu Agosto. Jô Soares, em seus livros, alcançou um resultado medíocre. É uma empreitada para poucos.

Apesar dos riscos, ou até mesmo devido a eles, Ruy Castro resolveu construir uma história de ficção envolvendo D. Pedro I, aos doze anos, e um menino das ruas do Rio de Janeiro, da mesma idade. Misturando expoentes da corte portuguesa com personagens mundanos da cidade maravilhosa, o livro destila um sem par de aventuras pelas ruas e vielas da cidade, protagonizadas pelos dois meninos. O texto é rápido e ágil e prende a atenção do leitor, do começo ao fim. Uma leitura leve e divertida, que não te permite desgrudar os olhos do livro. São 250 páginas que se lêem em poucas horas.

Mais do que por qualquer personagem, Ruy Castro é um confesso apaixonado pela cidade do Rio. O fato de ter nascido mineiro, na cidade de Caratinga, é considerado por ele um acidente de percurso. Como ele mesmo sempre diz: “Sou tão mineiro quanto o Milton Nascimento é carioca”. E é devido a esta paixão pela cidade que o Rio é, no livro, um dos principais personagens. Em sua última página, aliás, depois de terminada a história, ele nos fornece uma tabela com a correspondência entre os nomes de lugares e ruas citados no livro e os nomes destas mesmas localidades nos dias de hoje. Pena que eu não conheça tão bem a geografia da cidade. Se a conhecesse, extrairia muito mais prazer desta leitura, tenho certeza.

Dom Pedro I sempre foi meu personagem favorito na história do Brasil. Embora seu filho tenha sido muito mais admirável, os traços do primeiro imperador, mulherengo, fanfarrão, até mesmo canalha, sempre me fascinaram mais. E isso, certamente, ajudou para que eu gostasse do livro. Tanto que, assim que o terminei, fui correndo até a estante e já iniciei a leitura de sua biografia, escrita pela historiadora cearense Isabel Lustosa. E a leitura está sendo tão prazerosa quanto a anterior.


Mas este é um assunto para depois.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Os Estados Unidos

O ponto de partida do livro História dos Estados Unidos – das origens ao século XXI é uma pesquisa informal realizada pelo jornalista americano Mark Hertsgaard, especializado em questões ambientais, a respeito do que as pessoas pensam sobre seu país. Ele fez esta pesquisa entrevistando pessoas comuns na África, Ásia e Europa. O resultado foi a constatação de que, no resto do mundo, as pessoas têm opiniões muito contundentes, mas contraditórias sobre os Estados Unidos. As pessoas adoram ou odeiam aquele país. Ao enumerar o que os estrangeiros pensam sobre Os Estados Unidos, ele nos mostra uma lista em que os entrevistados creditam aos norte-americanos a maioria das coisas boas e das coisas ruins que acontecem no mundo.

Partindo disso, o livro coloca questões difíceis de responder, a respeito da religiosidade, moralismo, cultura de massas, política e ideologia dos americanos. Para tentar responder a essas questões, os quatro historiadores responsáveis pela redação do texto indicam a análise da história daquele país, desde o período da colonização até os dias de hoje. Seria pretensioso contar a história de um país, sobretudo dos Estados Unidos, num livro de apenas 280 páginas. Mas nem é esta a intenção do trabalho. Tanto que, para quem quiser se aprofundar no tema, eles dão, no final do livro, uma consistente relação de obras a respeito do assunto.

O maior mérito do livro, em minha opinião, é desmistificar alguns fatos e personagens da história americana. Muita gente, sobretudo no Brasil, gosta de dizer que, se tivéssemos sido colonizados pelos ingleses ao invés dos portugueses, seríamos o que os Estados Unidos são hoje. Ninguém diz que, se isto tivesse ocorrido, seríamos como a Índia, ou a Guiana. E é justamente esta, a primeira tese que o livro desmente. Ele mostra as diferenças entre as colonizações, quanto à organização (muito mais efetiva, no caso dos portugueses) e os seus objetivos. E continua desmistificando. Mostra a Guerra da Secessão com a real motivação de ambos os lados. Desmente aquela idéia de que os nortistas seriam mais “bonzinhos” e defendiam os escravos negros. Através de análises de textos da época, fica evidente que os interesses do norte industrializado era meramente econômico e que os nortistas desejavam criar uma massa consumidora para os bens lá produzidos, mesmo achando que os negros eram “inferiores” como seres humanos. Esta era, inclusive, a opinião de Abraham Lincoln.

Quando trata da participação dos Estados Unidos na segunda Guerra Mundial, ressalta o fato de que enquanto enviava tropas para lutar no Japão, o governo americano negava sistematicamente refúgio aos judeus que eram perseguidos na Europa. Não deixa de citar, aliás, a decisão americana de bombardear Hiroxima e Nagasaki, uma atitude, em todos os sentidos, mais cruel que os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.

E nesta toada, todos os fatos e personagens relevantes daquele país são analisados com muita correção, sempre desmistificando tudo. A guerra do Vietnã, os governos Kennedy e Reagan, o bloqueio a Cuba e tudo o mais. Destrincha o american way of life e ressalta a importância do movimento negro. Mostra, aliás, como os movimentos negro e feminista, têm sido importantes para a formação daquela sociedade.

Um dos aspectos que o livro não deixa de lado, é a importância que nós, brasileiros, damos à opinião que os americanos têm a respeito do Brasil. É interessante perceber que, em geral, criticamos os americanos acusando-os de não saber qual é a capital de nosso país, mas quantos brasileiros, mesmo os da classe média e alta, sabem qual é a capital de Angola, Congo, Equador, Canadá ou Hungria? Ou será que nós pensamos que somos mais importantes do que qualquer um destes países? Por que é que exigimos que os americanos se interessem pelo Brasil se nós não nos interessamos pela maioria dos países de todos os continentes?

É um livro que nos mostra o melhor caminho pra encarar a característica de um país e um povo estrangeiro, que é buscar conhecer suas origens.

domingo, 30 de março de 2008

Surpresa boa

Gosto bastante da atriz Maria de Medeiros. O jeito lânguido, mínimo, mignon, que normalmente não me atrai numa mulher, nela é o que mais se destaca. Tem uma expressão nos olhos que presume alguma carência, certa necessidade de proteção. Uma boca fina e delineada que sugere de tudo um pouco. É surpreendente como esta imagem fragilizada esconde uma atriz forte e convincente.

A primeira vez que a vi foi no filme Henry & June – Delírios eróticos, em 1990, onde, ao lado de Uma Thurman e todo seu esplendor, conseguiu não ser ofuscada pela beleza da outra, muito provavelmente por ter o papel mais instigante, o da escritora Anaïs Nin. O filme não é lá grande coisa, mas saí do cinema impressionado com aquela atriz portuguesa.

Três anos depois disso, a vi no filme Huevos de Oro, de Bigas Luna, ao lado de Javier Bardem e Maribel Verdú. Sem ter o papel principal, roubou algumas cenas desempenhando o papel de uma mulher incerta, fora de seu mundo. Mais uma vez, naquela ocasião, exibiu uma forte capacidade de extravasar sensualidade, sem que tenha sido necessário ter atributos físicos exuberantes.


Um ano depois, me surpreendeu novamente nas telas, interpretando a namorada de Bruce Willis em Pulp Fiction de Quentin Tarantino. Confesso que não morro de amores por este filme, como em geral, pela obra deste diretor. Mas sua atuação foi correta e bastante.

A última vez que a vi foi numa participação em Xangô de Baker Street, mas, antes disso, ela dirigiu e atuou em Capitães de Abril, filme que tratava da Revolução dos Cravos. Foi só com a revolução, aliás, que essa filha de Lisboa voltou a Portugal, ainda criança, após passar a infância toda na Áustria. É uma atriz firme e capaz, que já não me surpreende.

Foi com muita surpresa, entretanto, que descobri seu lado cantora, no CD Little More Blue. É um disco feito exclusivamente com músicas brasileiras. Tem uma canção de Dolores Duran, uma de Ivan Lins, duas de Caetano e dez de Chico Buarque. Embora tenha um repertório irrepreensível, não é este o traço mais admirável do disco. O que mais me chamou a atenção foi o acompanhamento instrumental, a cargo do baixista turco Emek Evci, do percussionista francês Joël Grave e do pianista Jeff Cohen. Os arranjos são absolutamente não convencionais, todos muito inventivos.



Com uma solução propositadamente minimalista, os 3 músicos participam de cada faixa com parcimônia e delicadeza, ora em conjunto, ora individualmente, privilegiando a voz da cantora. Sua voz, aliás, soa estranha num primeiro momento, um tanto metálica. Sua precisão, entretanto, é assombrosa, tanto na articulação das palavras quanto na entoação das notas musicais. Divide uma das faixas com o compositor uruguaio Jorge Drexler, numa interpretação graciosa.



Surpreso com o disco, ando ouvindo-o com insistência e a cada audição descubro algo novo. E cada descoberta aguça mais minha curiosidade e reforça mais minha surpresa. Tal qual acontece quando ouço João Gilberto.

domingo, 23 de março de 2008

Admiração

Eu tenho uma grande admiração por estrangeiros que vivem no Brasil. Não os que vêm pra cá pra ficar um tempo, motivados pelo trabalho ou por alguma oportunidade passageira. Nem os que saíram de seus países devido a dificuldades políticas ou econômicas, fugidos ou esfomeados, em busca de abrigo, de um lugar ao sol. Nada tenho contra estes ou aqueles. Cada um deve ser livre pra decidir e escolher onde é que quer (ou pode) viver.

Minha admiração, entretanto, é por aquele estrangeiro que, sem ter nenhuma necessidade específica, sem uma motivação econômica ou política, escolhe o Brasil para viver sua vida. Viver para sempre. Escolhe nosso país pelo que ele tem de mais verdadeiro.

Nutro esta admiração, certamente, por causa da minha incapacidade de sentir-me estrangeiro. Simplesmente não consigo viver feliz numa terra estranha. Já tive esta experiência, algumas vezes, vivendo fora, períodos bem curtos, poucos meses, no máximo. Mas foram suficientes pra deixar bem claro o quanto me faz falta o Brasil. E não falo da óbvia saudade da família e dos amigos. Isso todo mundo sente. Sentia falta, na verdade, é de tudo. Ouvir nossa música, falar nossa língua, comer nossa comida, ler jornais em português. E é por isso que admiro tanto quem consegue sair de sua terra e vir para o Brasil. Acho que chego até a invejar. E essa admiração é muitas vezes aumentada quando este estrangeiro consegue dominar nossa língua. E esse é o caso de dois americanos que escolheram nossa terra para viver: Matthew Shirts e Michael Kepp.

Matthew, ou Mateus, como é chamado pelos amigos, veio ao Brasil, pela primeira vez, há mais de 30 anos e há quase 25 mudou-se definitivamente pra cá. Ele é hoje redator chefe da revista National Geographic Brasil e escreve semanalmente, às segundas-feiras, uma coluna no Caderno 2 do Estadão. Em seus textos, é bastante comum nos depararmos, não com manifestações de surpresa com os hábitos nativos, mas sim, com certa estupefação que seus hábitos de “gringo” ainda provocam nos brasileiros. São textos sempre leves e bem humorados, o que não significa que não tenham profundidade e crítica.

Outro gringo que adotou o Brasil definitivamente é Michael Kepp, nascido no Missouri e que, cansado de um estilo tacanho, típico do meio-oeste americano, resolveu meter uma mochila nas costas e ganhar a estrada à procura de um lugar em que ele coubesse. Depois de muito andejar, acabou caindo no Brasil e por aqui ficou, já se vão 25 anos. Seus artigos podem ser lidos, uma vez por mês, no caderno Equilíbrio que sai na Folha de São Paulo às quintas-feiras. Um conjunto representativo de seus textos também pode ser lido no livro Sonhando com sotaque – Confissões e desabafos de um gringo brasileiro. Um pouco mais ácido que Mateus, Michael Kepp não doura a pílula quando tem que criticar os hábitos brazucas, sem deixar de reconhecer que, apesar de tudo, foi aqui, depois de andar tanto, que encontrou o lugar no qual poderia ser feliz.

Ambos, declaram freqüentemente o seu amor ao Brasil. Isso não significa que evitem fazer críticas ao país, suas elites e até mesmo a seu povo. Por que amor é assim mesmo. Amor pressupõe a verdade e a verdade não prescinde das críticas. Quem aceita tudo, quem não se importa com nada, está, na verdade, se lixando. E não é esse o caso destes dois brasileiros.

sábado, 15 de março de 2008

Dois povos

Cuba é um país que sempre povoou o imaginário brasileiro. Para o bem e para o mal.

Nos anos 70 provocava um medo lancinante na classe média, ciosa de seus fusquinhas usados, comprados à prestação. Também embalava os sonhos de uma juventude romântica, oriunda desta mesma classe média, faminta de causas, sinceramente convicta de que ansiava pelo bem dos verdadeiros famintos. Olhava-se Cuba, daqui, como o inferno, onde demônios barbudos comiam as criancinhas que encontravam pelo caminho, ou então, como um paraíso, onde a justiça social se forjava sem depender do capital maléfico ou da providência divina.

Provocando a imaginação, seja para um lado ou para o outro, Cuba nunca ocupou uma área de indiferença na mente do povo brasileiro. E é assim até hoje. E é assim, inclusive, pelo fato de os dois povos guardarem uma imensa similaridade. Similaridade na alegria, na miscigenação, na comida e, sobretudo, na música. A música brasileira e a música cubana são, provavelmente, o que de melhor cada um destes povos produz.

O namoro entre as duas músicas sempre existiu. Às vezes de longe, meio dissimulado, com alguma cautela. Outras vezes bem perto, escancarado, como na aproximação entre Chico Buarque e Pablo Milanés, onde uma nova música cubana foi apresentada a uma, infelizmente restrita, audiência brasileira.

Depois, muito tempo depois, outra música cubana foi apresentada ao mundo por Ry Cooder (com uma ajudinha do capital maléfico) através do disco Buena Vista Social Club. Nessa ocasião, os Estados Unidos, além da Europa e da Ásia, conheceram a magnífica performance de Ibrahim Ferrer, Compay Segundo e Ruben Gonzales, entre outros. E nessa leva, o mundo tomou conhecimento de Omara Portuondo.

E agora, mais um namoro se mostra ao mundo. Maria Bethânia e Omara Portuondo acabam de gravar um disco. O resultado é soberbo. Duas cantoras no auge da maturidade, ambas com uma força impressionante, numa sintonia natural e bonita. Um repertório bem pensado e exato, com canções das duas terras, nas quais estas cantoras se entregam. Como não poderia deixar de ser, o acompanhamento destas vozes é sóbrio, mas há, em meio a toda sobriedade, pontos de excelência, como os violões de Swami Jr. e Jaime Alem e o piano do cubano Roberto Fonseca.


É um disco pra se ouvir em paz. Sem medo e sem pensar na revolução. Não nessa hora. Ouvir bebendo um bom rum ou uma cachaça da boa, tanto faz. Celebrando a excelência dessa música, nada mais.

Brasil e Cuba. Dois países unidos pelo que há de melhor em cada um deles. Duas divas, não duas celebridades. Elas estão muito acima disso.

sábado, 8 de março de 2008

Dividindo as chances

Já ouvi dizerem que, depois de todo o mal feito por Bush, até um poste se elegeria presidente dos Estados Unidos, contanto que fosse candidato pelo partido Democrata. Pode até ser. Afinal, além das traquinagens feitas pelo Júnior, é necessário reconhecer a tradição de alternância no poder entre os dois partidos. Some-se a isso o fato de que John McCain, o candidato republicano, tem o carisma de uma parede caiada.

A sociedade americana está, há muito tempo, extremamente dividida. Democratas e republicanos, conservadores e progressistas, Texas e Califórnia. Convive, de maneira surpreendente, o que há de mais retrógrado com o que existe de mais moderno em termos de comportamento e tolerância. É difícil prever até quando essa convivência será pacífica.

Depois de duas eleições absolutamente questionadas, em que Bush venceu com o país dividido, é natural e até mesmo esperado que os democratas levem, desta vez.

Posto isso, quando tudo parecia certo pros democratas, eis que, ironia do destino, surgem os dois candidatos mais carismáticos que este partido já teve nos últimos anos. Esta situação está dividindo as opiniões e acirrando tanto a disputa que pode ser que isso acabe favorecendo o candidato conservador.

Um agravante nesta situação é o fato de disputarem a preferência do eleitorado democrata, uma mulher e um negro. O que poderia parecer um sinal de modernidade e gerar uma expectativa otimista nos mais progressistas, pode ser mais um fator desagregador. Pra piorar, nem Obama e nem Hilary estão alinhados com os movimentos negro e feminista, respectivamente. Obama não é Martin Luther King. Não é Malcolm X e nem Jesse Jackson. Obama pensa e age como branco. Hillary não é Betty Friedan nem é Camille Paglia. Hillary pensa e age como homem.

O maior perigo é que o exagerado preconceito da sociedade americana acabe enfraquecendo a candidatura democrata e que um poste que parece uma parece branca seja eleito presidente dos Estados Unidos. Só uma coisa alivia: nem um poste, nem mesmo uma parede caiada, podem ser piores do que Bush Jr.

A vida da gente

Os regimes autoritários só se sustentam manejando informações. É preciso saber de tudo e de todos, para melhor controlar as coisas. Controlar a vida das pessoas. Foi assim no estado novo de Getúlio, na União Soviética stalinista, no Chile de Pinochet, na ditadura militar brasileira. Foi assim, também, na Alemanha Oriental.

E é sobre essa época, a da República Democrática Alemã que trata o filme A vida dos outros, do diretor Florian Henckel von Donnersmarck. Nele, o personagem central é um funcionário do governo, encarregado de espionar as pessoas consideradas “suspeitas”. Interpretado pelo ótimo ator Ulrich Mühe, este funcionário excepcionalmente burocrático, cumpre sua função à risca, acreditando, sinceramente, estar fazendo o que é correto.

O que, inicialmente, chama a atenção no filme é como podem existir pessoas que se guiam arduamente por regras e normas para viverem suas vidas. E como isso faz com que se sintam confortáveis e seguras. Essas pessoas não arriscam, nunca questionam o que está estabelecido e num determinado momento, adquirem uma cegueira absoluta, que faz com que não consigam perceber nem mesmo as mais óbvias contradições do mundo. São pessoas satisfeitas, acima de tudo, mas nunca felizes, já que a felicidade exige um pouco de risco, experimento, novas descobertas.

Viver não é preciso, já disse o poeta. Pra viver não existe receita de bolo. É um aprendizado contínuo, com todos os erros que ele pressupõe. Ao normatizarmos nossas vidas, estamos fugindo dos erros, como se isso compensasse a falta de prazer verdadeiro, que uma vida normalizada provoca. Sim, pois sob regras e normas, até o prazer é pasteurizado. Fazer o que é pra fazer, o que está convencionado, o que está escrito.

Num determinado momento do filme, porém, o personagem principal começa a questionar-se e, também, o sistema que ele segue, tão cegamente. E, aí, vai dando um tipo de angústia, de perceber-se tão cego e tão iludido. Perceber a falta de amigos, a falta de amor. Perceber a vida tão tacanha e enfadonha, apesar de confortável. Confortável é pouco. É preciso provar dos sabores da vida e, se necessário, é preciso transgredir.

Sentir-se, de repente, frente ao mundo real, com tudo de bom e de ruim que ele nos oferece pode ser chocante, num primeiro momento, mas é extremamente prazeroso descobri-lo e descobrir-se.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Dom de criar (e destruir)

Ontem, eu tive a oportunidade de visitar a Lufthansa Technik AG em Hamburgo. É a empresa da Lufthansa que faz a manutenção dos aviões da companhia e, também, de outras empresas aéreas. É um mundo gigantesco, de muita tecnologia. Olhar as entranhas de grandes jatos da Boeing ou da Airbus é absolutamente excitante, até pra quem não dá bola nenhuma pra tecnologia. É impossível não pensar na loucura que é colocar essas toneladas de alumínio no ar, pra voar como se fosse um pássaro.

O rio Elba, que atravessa Hamburgo, parece um mar e através dele se despeja na cidade milhares de produtos naquele que é o maior porto da Alemanha. Em suas margens estendem-se dezenas de companhias de docagem, através das quais são descarregados centenas de conteiners todos os dias. É absolutamente espantoso ver o tamanho dessas docas e a tecnologia envolvida nesse sistema logístico. Visto de longe, parece brinquedo de montar. Parece Lego.

Vendo tudo isso, toda essa tecnologia e grandiosidade, me pus a pensar no quão engenhosa é a mente humana. Quanto trabalho cerebral foi necessário para fazer estas coisas acontecerem. O ser humano é uma espécie que ultrapassa qualquer limite do que consegue imaginar, e constrói o futuro numa velocidade espantosa.

Ao mesmo tempo, comecei a pensar em como é que uma espécie tão criativa e inovadora, que consegue atingir objetivos tão improváveis, que resolve problemas quase insolúveis, como é que o ser humano não consegue resolver o problema da pobreza no planeta, ou acabar com a fome. E aí, toda aquela admiração que eu poderia ter por essa espécie, transforma-se no mais absoluto desprezo. Pois, justamente essa espécie que é capaz de criar, de inovar, de construir coisas grandiosas, esse mesmo animal, é o único, na face da terra, capaz de sentir inveja, agir por vingança, matar com crueldade. O ser humano é capaz de sentir amor por alguém e, ao mesmo tempo, indiferença em relação ao sofrimento de outra pessoa. Consegue usufruir de uma conquista material, sem se incomodar com o fato de que haja alguém passando fome. Passeia num carro de luxo e não enxerga a criança pedindo esmola no cruzamento.

Por tudo isso, acabo pensando que não merecemos esse dom. O dom de tanto criar. Mas, pensando melhor, o preço que pagamos por ter tal criatividade, é ter esse ranço de egoísmo que nos norteia. Uma coisa acaba anulando a outra. E com as mesmas mãos que conseguimos construir, é que iremos destruir e ser destruídos pelos nossos semelhantes.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

Convivência pacífica

Uma das coisas que mais me encanta, na Alemanha, é a facilidade com que a tecnologia e a breguice convivem naturalmente. Vejam só o taxi que me levou ao hotel. Um sistema hiper moderno de navegação convivendo pacificamente com inacreditáveis flores artificiais.

Doce Ilusão

Quando cheguei em Munique, onde pegaria meu vôo de conexão, o dia estava ensolarado e o céu estava azul, muito azul. Fiquei até animado. Doce ilusão. Quando cheguei em Hamburgo, percebi que o canal do tempo que eu pesquisara na Internet estava absolutamente certo.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

Segunda viagem do ano

Amanhã viajo para Hamburgo.


No site do hotel em que vou ficar hospedado vi fotos maravilhosas. A página do Wheather Channel, entretanto, não é das mais animadoras.

Paciência. É só trabalho mesmo.

Oscar 2008

Hoje irá acontecer a entrega do Oscar e, olhando a lista dos indicados, percebi que ainda não assisti a nenhum dos filmes que estão concorrendo. Pior: não assisti nenhum dos filmes que tenham candidatos a melhor diretor ou melhor ator. Na verdade, o único filme que assisti, e que concorre a algum prêmio importante é Piaf, já que Marion Cotillard concorre ao prêmio de melhor atriz. Fora isso, não vi nada. É a primeira vez que isso acontece em muitos anos. Sinal de que não tenho ido ao cinema o tanto quando deveria (e gostaria). Tenho que corrigir esta realidade.

Já que não vi nenhum filme, vou torcer por atores e atrizes de quem gosto, mesmo sem ter visto suas atuações. Vai aí minha lista:

Ator: Tommy Lee Jones (No Vale das Sombras)
Atriz: Laura Linney (The Savages)
Ator coadjuvante: Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez)
Atriz coadjuvante: Cate Blanchett (Não Estou Lá)


Não dou muito valor ao prêmio Oscar, como já falei em outro post, mas sempre gosto de assistir à cerimônia de entrega e àqueles programas idiotas de entrevistas no tapete vermelho. É a porção de cultura inútil que me permito. Todo ano.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Vício

Tenho que confessar. Estou viciado.

Não. Não é em cigarro. Não seria depois de velho que eu iria começar a usar alguma coisa que eu nunca tive a curiosidade de experimentar. Também não é em álcool. Apesar de gostar, percebo que estou bebendo cada vez menos. E não é por precaução e nem convicção. É por falta de vontade, mesmo. Deve ser a idade. Também não estou viciado em nenhuma droga, nem das leves, nem das pesadas. Nada, do que já experimentei nesta área, fez a minha cabeça. Estou viciado em House.

House é um seriado americano, daqueles de médicos e hospitais, que passam nas TVs a cabo. Como a minha TV a cabo não tem o canal que passa House, estou me abastecendo na locadora e com isso, me entorpecendo, beirando à overdose.

House não é daqueles seriados cheios de sangue e de tragédias médicas. Quem quiser algo assim deve assistir ER. Também não tem um excesso de tramas românticas entre médicos, residentes e enfermeiras. Isso tudo dá pra encontrar em Grey's Anatomy. House é, praticamente, um seriado de detetives, onde os criminosos são fungos, bactérias e vírus e os policiais são os médicos. Se fosse só isso, já seria interessante, por diferente. Mas o que me seduz neste seriado é o caráter de seu personagem principal.

Greg House é um médico brilhante, talvez o melhor do mundo, principalmente se formos nos basear em sua própria opinião. O que ele tem de brilhante, tem de arrogante e presunçoso. Erra bastante, mas, como acaba sempre acertando no final, isso acaba alimentando mais e mais seu ego. Ele tem, além disso, um total desprezo pela espécie humana, o que poderia ser contraditório em um médico (e é), mas é nesse ponto, mesmo, que reside seu charme e seu poder de sedução.



Apesar de todas estas características, eu simpatizo muito com ele. Com seu senso de humor recheado de sarcasmo e ironia, seu semblante sempre entediado e sua má vontade com as coisas tacanhas da vida. Ao longo de uma maratona assistindo House, noite e dia, nos finais de semana, essa admiração sofre abalos, mas ele acaba sempre me reconquistando e realimentando o meu vício. E aí eu fico pensativo e tento imaginar por que motivo esse personagem me seduz tanto.

A resposta é fácil. É que eu me enxergo neste personagem. Sim, pois, em menor escala, é claro, eu identifico nele a minha arrogância, minha presunção e até a minha falta de fé na raça humana. O que nele é patológico, em mim é característica consciente. Como ele, eu, muitas vezes, passo da conta e abuso da ironia. E ironia é a pior das figuras de linguagem. Afinal, se o interlocutor entende a ironia, ela ofende. Se ele não entende, ela não serviu pra nada.

Não sou como House. Não sou solitário e nem triste. Tenho uma família a quem amo e muito bons amigos. Mas esta identificação com seu caráter me assusta um pouco. E, vendo no seriado, o quanto ele sofre, me amedronto.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Escolha e qualidade

Se tem uma coisa que me incomoda, é aquele papo que surge, vez por outra, de que o samba acabou. E logo depois, vem uma onda dizendo que o samba está renascendo, está resurgindo. Nada mais falso. Tanto uma coisa quanto outra. O samba nunca acabou e nunca vai acabar. O que acontece, e isso, sempre, é o samba sair do foco da grande mídia. E acontece justamente por que o samba e, principalmente o sambista, é, acima de tudo, um resistente. E como tal, resiste ao cabresto e à tutela.

O samba nunca acaba, porque o samba mina do povo. Acontece que a grande mídia, assim como não conhece os rincões da nossa terra, também vira as costas para as periferias das grandes cidades. E é nestas periferias que o samba brota. É nessas periferias que ele se alimenta, cresce, vira coisa grande. Todos os dias, um samba novo, um novo sambista.

De tempos em tempos, entretanto, alguém se lembra do samba e, principalmente, se lembra de ganhar algum dinheiro com essa “nova onda”. E explora o renascimento, o ressurgimento do samba, mesmo que ele nunca tenha morrido e nem mesmo sumido do mapa. Não importa. O que interessa é tentar ganhar algum dinheirinho com este embuste. E aí, surgem novos artistas, novos grupos de pagode, todos querendo tirar uma lasquinha da nova onda.

Por isso mesmo é preciso tomar cuidado pra não comprar gato por lebre. E um jeito fácil de identificar o bicho é, justamente, ver por onde ele anda. Se o novo “sambista” estiver indo muito ao programa do Faustão, aparecendo no Fantástico, ou coisa que o valha, desconfie. É um felino. Para se identificar uma verdadeira lebre é preciso ver na companhia de quem ela tem andado. Isso não falha nunca.

E é assim que se pode identificar o CD de Moyseis Marques. Ele poderia ter gravado músicas de qualquer um, mas preferiu cantar sambas de Paulinho da Viola, Ivone Lara, Paulo Cesar Pinheiro ou Luiz Carlos da Vila. Ele poderia cantar acompanhado de qualquer um, mas preferiu a companhia de Elton Medeiros, Zé da Velha, Silvério Pontes ou Paulão Sete Cordas.

Questão de escolha. Garantia de qualidade.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Nada

O carnaval não me diz nada. Encaro esta data como o ano novo ou o natal. Ou seja, não significam nada pra mim. Mas destas 3 épocas, o carnaval é o que menos me incomoda. Não tenho nada a favor e nem contra. Aliás, o que me incomoda mesmo é a normatização dos comportamentos. Aquela coisa de se sentir mais amoroso no natal, mais esperançoso no ano novo, mais alegre no carnaval.

Abomino a tirania do prazer. A uniformidade do lazer.

É feriado? Tem que ir pra praia. Saiu de férias? Vai viajar pra onde?

As pessoas viraram escravas do prazer. Estão escolhendo a nossa diversão, decidindo o nosso gozo. Não gosto de ser teleguiado.

E é por isso que no meu carnaval, vou aproveitar pra ler meu livro, ouvir minha música, fazer umas comidinhas especiais. Vou fazer a minha folia. A folia que EU escolhi.


Em tempo: Se tem uma coisa ligada ao carnaval que me agrada, são algumas marchinhas de antigamente. Mas isso, eu gosto de ouvir em qualquer época do ano.

sábado, 19 de janeiro de 2008

Verdadeira Aula

Quem já teve a oportunidade de ler outros textos deste blog sabe o quanto eu gosto de música brasileira. Não gosto de Axé, não gosto de pagode, não gosto desta música sertaneja das duplas moderninhas. Gosto da música caipira feita pelas duplas tradicionais. Tonico e Tinoco, Pena Branca e Xavantinho, Tião Carreiro e Pardinho. Gosto, sobretudo, de samba. Do samba autêntico, de raiz, de verdade. O samba é a música que mais me emociona. É o samba que me fez gostar de bossa nova. É o samba que me faz gostar tanto da música brasileira. Música que eu gosto de ouvir e de conhecer.

Pouco interesse eu tenho pelo rock e pela música pop americana. Não dizem nada pra mim. Há uma música americana, entretanto, que me encanta. É aquela música feita nos anos 40 e 50. A dos grandes compositores e grandes cantores. As músicas de Cole Porter, dos irmãos Gershwim, de Irving Berlim, cantadas por Ella Fitzgerald, Tony Bennett e Frank Sinatra. Gosto muito de jazz.



Não sou um grande conhecedor desta música. Sou daqueles que conhece pouco além dos Standards. E é por isso que devorei o livro Tempestade de Ritmos, de Ruy Castro. É uma coletânea de textos, publicados numa infinidade de revistas e jornais brasileiros, desde a década de setenta até este nosso século, escolhidos e organizados pela escritora Heloisa Seixas. Quem já leu O Anjo Pornográfico, sobre Nelson Rodrigues, Estrela Solitária, sobre Garrincha e Carmem, sobre Carmem Miranda, sabe que Ruy é um excelente biógrafo. É um pesquisador incansável e até mesmo obcecado na busca de detalhes e da verdade. E quem já teve seu Chega de Saudade nas mãos, sobre a história da Bossa Nova, sabe o quanto ele gosta da música brasileira de qualidade, a mesma que me encanta.

Pois neste novo livro temos, tanto o repórter detalhista quanto o apaixonado por música. É uma verdadeira aula de jazz, onde ele fala desde ícones como Miles Davis e Louis Armstrong até gênios esquecidos ou desconhecidos, como Lionel Hampton ou Joe Mooney. Dividido por assunto, há até uma pequena reunião de textos sobre música brasileira.

Eu aprendi muito com o livro e, quanto mais aprendia, mais eu o devorava. E enquanto o devorava, ia dando aquela vontade louca de ouvir as músicas produzidas por aqueles personagens. Música de um tempo de glamour. De um tempo em que as guitarras elétricas ainda não tinham iniciado sua massacrante vocação de destruir nossos tímpanos. Tempo em que as músicas tinham mais que 3 acordes. Tempo em que as letras tinham alguma inteligência. Tempo que ficou pra trás.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

Nenhum sacrifício

Dentre as cidades do Nordeste que eu conheço, a que mais gosto é Fortaleza. Tem umas coisas diferentes aqui. Salpicada de turistas por todo lado e durante todo ano, Fortaleza é a cidade que mais sabe seduzir o turista, sem, entretanto, mimá-lo. É isso mesmo. A cidade não fica fazendo o que o turista quer. Ela faz o turista querer o que ela é. E ela é uma delícia de cidade. O tempo é bom (o ano todo), só chove nos momentos certos, tem o vento certo, tem o calor certo.

Tem todas aquelas praias belíssimas e distantes, mas não é isso que faz minha cabeça. Gosto mesmo é de tomar um táxi e depois de 10 reais e 7 minutos, me alojar numa barraca qualquer da Praia do Futuro e fingir que o resto do mundo não existe. E não precisaria existir mesmo, se eu pudesse continuar, indefinidamente, a beber cerveja e comer camarão.

Fortaleza tem uma aura que faz com que todo mundo se sinta contente o tempo todo. Mas não é aquela alegria fabricada como em Porto Seguro (que eu nem conheço) ou Salvador (que eu não achei, ainda, a graça). É uma coisa natural, um contentamento que se nota, como se todo mundo estivesse em sua cidade, em sua casa.

E não tem nem um décimo da violência e do trânsito insuportável de Recife.

Fortaleza é diferente. Foi uma das primeiras capitais a ter uma mulher na prefeitura e de esquerda, ainda mais. Tem vocação pra inovação. Fortaleza é inovadora até quando é conservadora. Tasso Jereissati comanda o estado de forma aparentemente moderna, mas não se iludam, não passa de um Coronel, como tantos os que existem nos estados do Norte e do Nordeste. É como foi um ACM e ainda é um Sarney ou um Jader Barbalho. É coronel, mas é um coronel mudérrrninho. Enfim, é diferente.

Passamos dez dias, em férias, em Fortaleza, há uns 5 ou 6 anos e estou hoje aqui, a trabalho. Mas, mesmo a trabalho, dá pra aproveitar um pouco esta aura. Passear pela orla no começo da noite antes de comer uma carne de sol ou um camarão na chapa.

É uma cidade onde eu toparia morar. Sem nenhum sacrifício.

sábado, 12 de janeiro de 2008

O Samba e o Violão

Samba combina com batucada. Mas o que eu gosto mesmo é de ouvir alguém cantando samba acompanhando apenas pelo violão. Melhor ainda se forem dois, um de seis e um de sete cordas. Aí, a combinação fica perfeita. Pois é exatamente isto que se ouve no CD O violão e o samba, com a cantora Dorina e Claudio Jorge e Carlinhos nos violões de seis e sete cordas, respectivamente.

Dorina é uma cantora sem nenhuma afetação. Não é como essas que andam surgindo por aí, acompanhadas de grandes jogadas de marketing, de grandes esquemas de divulgação, tentando tirar uma lasquinha da enorme popularidade que o samba tem na nossa terra. Dorina não toca no rádio e nem nas novelas. Dorina não entra no esquema do jabá, tão difundido em nossa mídia. Mas é uma cantora com a voz límpida, forte e clara. É daquelas cantoras forjadas em rodas de samba, na origem, na raiz.

Cláudio Jorge já pode ser considerado um bamba. É parceiro de sambistas de primeira como João Nogueira, Luiz Carlos da Vila, Wilson da Neves e Nei Lopes. Ou seja, o cara está sempre muito bem acompanhado. Tem qualidade cantando, compondo e tocando seu violão, aqui, neste disco, junto de Carlinhos 7 cordas.

O repertório do disco é um primor. Tem Nei Lopes, Baden e Paulo Cesar Pinheiro, Moacyr Luz e Martinho, Arlindo Cruz e Sombrinha. Tem Sidney Miller, Bide e Marçal, Candeia, Cartola, Chico Buarque. E tem, ainda, o samba que eu mais gosto de Paulinho da Viola.



Enfim, um disco de samba como o samba deve ser ouvido