Há preconceito sim. E onde está o problema?
Na concessionária de automóveis, o repórter negro, apesar de andar pelos carros zero quilômetro demonstrando interesse, não foi abordado por ninguém. O branco, sim. Em poucos segundos, havia ao lado dele um vendedor que gastou um bom tempo com explanações técnicas sobre os carros. O mesmo ocorreu numa grande livraria, no setor de informática, em que a representante comercial de uma marca japonesa de notebooks só deu atenção ao repórter de pele clara. Numa das agências bancárias em que tentaram entrar, o dispositivo que bloqueia a porta “automática” só travou para o repórter negro, embora ambos estivessem com exatamente os mesmos objetos dentro das respectivas bolsas. Muito provavelmente, o automatismo do dispositivo de segurança era o olhar atendo do vigia, de dentro de sua guarita.
A reportagem segue esta toada e acaba concluindo que sim, existe preconceito racial no Brasil. Será que alguém ainda duvida disso? A pergunta que faço é: seria só isso?
A intenção que eu identifiquei na reportagem é muito mais grave. O que se estava tentando passar é a ideia de que o preconceito é um
sentimento inerente na população, um traço genuinamente cultural, quase inconsciente. Isso fica claro quando a reportagem não divulga o nome da concessionária e nem a marca que ela representa, quando não revela o nome do banco, quando não diz em qual livraria ocorreu o fato reportado. É como se o preconceito só existisse nas camadas mais humildes da população, deixando a classe dominante de fora disso. A representante comercial da “famosa marca japonesa” de computadores era negra, ressalta o repórter. E eu duvido que o vendedor da concessionária tenha dinheiro para comprar o carro zero que oferece ou que o vigia do banco tenha cheque especial. Aquelas pessoas deram tratamento diferenciado para os repórteres só por preconceito? Acho que não.Aquelas pessoas fizeram aquilo por absoluta convicção de que o rapaz negro não teria dinheiro para comprar o carro zero ou o notebook. Pode até ser uma convicção equivocada, mas foi sincera. E essa convicção vem do conhecimento da nossa realidade. Vem da constatação de que aos negros são dadas as piores oportunidades de trabalho, os menores salários, bem menos chances de crescer. E é isso que faz com que muitos deles tenham que migrar para a informalidade, para a mendicância, para a marginalidade, eventualmente. As condições de vida da população negra, no Brasil, são piores porque isso interessa a uma elite que se beneficia de sua existência, da mão de obra mais barata, da discriminação racial da classe média. Tudo é muito mais que preconceito. É puro jogo de interesses.
O preconceito racial existe sim, isso é óbvio, mas é muito desonesto parar a discussão por aí. Como é hipócrita acreditar que se pode acabar com ele ou diminuí-lo, sem identificar, claramente, os motivos de sua existência. É muito confortável debitar à população menos favorecida o ônus desta culpa. É como se racista fosse só esta manada de vendedores, vigias e recepcionistas, todos eles também vítimas de algum tipo de discriminação, muitos deles, também negros.
O preconceito e o racismo existem sim. É até ofensivo negar. Mas o problema não para por aí.




