Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

terça-feira, 13 de novembro de 2018

A arte e os intelectuais nos regimes autoritários

Uma das características de períodos com governos autoritários é a negação da cultura. Nestes ambientes, é comum haver um clima de agressão exagerada a qualquer expressão de arte ou manifestação intelectual. Nos regimes autoritários (de esquerda ou de direita), as pessoas são levadas a acreditar que a arte e o pensamento crítico, assim como o conhecimento da história e da filosofia são males em si e que artistas e intelectuais são malfeitores.

Nos regimes totalitários de direita, estas pessoas são classificadas como comunistas (mesmo tantos anos após a queda do muro de Berlim este tipo de argumento ainda seduz hordas de histéricos). Nos regimes totalitários de esquerda a arte e o pensamento intelectual são formatados para servir à burocracia do estado. Neste aspecto, os regimes totalitários, em todo o espectro, se igualam (na verdade, se igualam em muitas outras situações). Todos suprimem e perseguem os artistas e intelectuais.

Arte e pensamento só florescem em ambiente de liberdade ou na luta para conquistá-la.

Eu não sou artista e, muito menos, intelectual, mas encaro a arte e o pensamento como os dois mais importantes ingredientes para meu enriquecimento pessoal (não estou falando de dinheiro, é claro). É através da leitura e da compreensão das mais variadas manifestações artísticas que eu tento me realizar como ser humano e extrair prazer da vida. Eu estranho quem, tendo acesso a isso, consiga viver sem. Se as pessoas procurassem experimentar o prazer que isso proporciona veriam quanto bem isso faz.

Entendo que a maioria das pessoas, sobretudo no Brasil, não tenham este acesso. Comer, beber, ter onde morar e outras coisas comezinhas são preocupações mais urgentes. É justamente por isso que eu defendo um modelo de estado mais justo, com menos desigualdade, com mais solidariedade e menos violência. Um mundo em que estas questões corriqueiras não fossem tão urgentes possibilitaria, para mais pessoas, a oportunidade de experimentarem a satisfação que o saber e o conhecimento proporcionam.

O modelo brasileiro alija uma porção esmagadora da população da possibilidade de encontrar este conhecimento e este prazer. Empurra esta parcela da nação ao consumo de entretenimento e tenta convencer a todos que estão consumindo arte. Não tenho nada contra o entretenimento, mas uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa, como não cansava de repetir o Tim Maia.

Esta situação, entretanto, não é gratuita. Sempre foi interessante, para quem detém o poder, impedir o acesso ao conhecimento que produza reflexão. Foi assim em toda nossa história republicana, foi assim no nosso período imperial. E, não por acaso, sempre que há algum risco de que o pensamento crítico possa prosperar na sociedade, a reação recrudesce e conduz o país a um ambiente irrespirável. E nesse ambiente rarefeito, a incultura passa a ser virtude.

É por isso que se defende um modelo de educação sem cultura e sem pensamento crítico. Confundem educação com treinamento. E isso é muito útil para conservar as coisas como sempre foram. 



domingo, 11 de novembro de 2018

Pensando a solidão

O mais novo livro de Leandro Karnal é um ensaio a respeito da solidão. Dividido em 6 capítulos, ele inicia com uma visão bíblica da origem do homem, ser solitário (e feliz), num paraíso incontestável, até a criação de um novo ser, a partir de sua costela. É só a partir daí que Adão percebe que vivia sozinho, situação absolutamente natural, para ele, até então. Desta forma, passa a ter ideia do que era viver assim, com suas vantagens e desvantagens. O autor identifica, nesse ato do criador, uma censura à solidão, que percebe, também, em documentos de outros credos, como a Torá.

Como em um filme, numa troca de planos rápida, avança até o século XIX, para tratar da figura de Charles Darwin, pai da teoria da evolução, posição diametralmente oposta à mística criacionista. Aos 29 anos, Darwin caminhava para o presumível último quarto de sua vida, já que àquela época, o tempo de vida médio do ser humano não ultrapassava os 40 anos (ele, na verdade, viveu bem mais do que isso). Não era, portanto, o momento de decidir se deveria, ou não, se casar. Contrariando, porém, o costume da época e, refletindo entre prós e contras, ele toma a decisão de casar-se.

Num dos extremos da dicotomia entre fé e ciência, o cientista conclui, assim como o criador do universo, que não é bom que o homem esteja só (que é, aliás, o título do primeiro capítulo). A partir daí, Karnal parte para uma investigação a respeito da validade (ou não) desta afirmação. Para fazer isso, busca, de forma consistente, entender, exatamente, o que seja a solidão. Avança, mais uma vez, no tempo e chega aos dias atuais ao utilizar, para alcançar este entendimento, duas realidades bastante conhecidas de todos nós: o casamento e as relações pessoais nas redes sociais. O segundo capítulo, aliás, em minha opinião o melhor de todos, trata, justamente, deste mundo virtual e intitula-se A solidão entre milhões.

Partindo da observação do cotidiano, conclui que nunca estivemos tão conectados a tanta gente e, ao mesmo tempo, com tão pouca interação real. E, neste caso, interação real não se refere, apenas, aos relacionamentos ao vivo, em carne e osso, com outras pessoas, mas, sobretudo, ao formato que este meio propicia. O principal fator que falseia a realidade na forma de interagir através da rede é a possibilidade de sermos os “donos” da relação.

Adicionamos, curtimos e seguimos somente quem pensa como nós. Em referência àqueles cujas opiniões não coincidem com as nossas temos várias opções: desde ignorar até apagar o contato. Com isso, em lugar de interagir com outras pessoas, estamos, na verdade, interagindo com nós mesmos e, assim, ao invés de evoluirmos, internamente, através da exposição à diversidade de ideias, apenas reforçamos nossos próprios valores e convicções, ao mesmo tempo que sedimentamos nossos defeitos e preconceitos.

Ao analisar o casamento, ele conceitua o que chama de solidão a dois, que é aquela situação pela qual alguns casais passam quando a chama da paixão se esvai. Se a relação se sustentava apenas devido a este fogo, se não havia nenhum outro ingrediente, como admiração, por exemplo, a convivência passa a ser tão ou mais solitária do que a que ocorria antes de encontrar a pessoa amada.

Na busca do entendimento do que seja a condição de estar sozinho, chega a duas definições, parecidas, porém opostas: a de solidão e de solitude.

Em minha opinião, a melhor e mais fácil definição que diferencia estas duas palavras vem do teólogo alemão Paul Tillich:

Solidão expressa a dor por estar sozinho.

Solitude expressa o prazer de estar sozinho.

A partir deste ponto, o autor passa a enumerar exemplos de situações consideradas positivas em estar sozinho. Aborda a falsa solidão que é aquela em que a gente se encontra quando está absorto durante a leitura de um livro. Não há nada de solidão nesta atividade. É justamente nesses momentos que estamos travando um colóquio poderoso com o autor do livro e com o “eu mesmo”, o eu verdadeiro, o outro eu, que, muitas vezes, não conhecemos ou do qual nos escondemos.

Ele recorre, novamente, aos exemplos religiosos para mostrar que os momentos mais importantes das existências de Jesus Cristo, de Moisés e de Maomé, ocorreram quando eles estavam sozinhos no deserto, num monte isolado ou numa caverna.

No quinto capítulo do livro ele elenca inúmeros casos de solidão (e de solitude) presentes nas artes e, sobretudo, no cinema. Aqui, devo ser honesto, não cheguei a ler todo o capítulo, já que me pareceu, mais do que um ensaio produtivo, uma ostentação gratuita de conhecimento cultural. Desta maneira, pulei o capítulo quase no final e fui para o último (o segundo que mais gostei).

Este sexto capítulo, intitulado As solitárias, trata da utilização da solidão como forma de punição nas instituições carcerárias. Demonstra, através de estudos científicos e de depoimentos de vítimas, que a imposição compulsória da solidão pode ser até mais nociva ao ser humano que a tortura física. Aliás, a prática da solitária, como penalidade nas penitenciárias, já foi abolida em quase todo o mundo civilizado. Os Estados Unidos e o Brasil são dois exemplos, porém, de países em que ela é utilizada em larga escala.

O título do livro, O dilema do porco espinho – como encarar a solidão, é uma referência à metáfora, criada pelo filósofo alemão Arthur Schopenhauer, para ilustrar o problema da convivência humana. Publicada como uma parábola em sua obra Parerga e Paralipomena, em 1851, acabou ficando famosa, apesar de ser considerada um texto menor do filósofo. Num ambiente de frio extremo, os animais costumam juntar seus corpos, uns aos outros, para se aquecer e, com isso, ficar numa situação mais confortável. Este conforto, obviamente, não se aplica aos porcos espinhos. Daí o dilema.

Na conclusão do livro, estar sozinho não é, necessariamente, uma coisa boa ou ruim. Pode ser qualquer uma delas ou ambas, dependendo da situação. Solidão ou solitude, a elas todos nós estamos sujeitos. Basta saber como encará-las.


terça-feira, 30 de outubro de 2018

Simbolismo e conteúdo

Não sou muito afeito a ícones e símbolos. Minha iconoclastia, entretanto, é branda. Não chego ao ponto de destruir símbolos ou queimar bandeiras. Só não me agrada a ideia de idolatria a monumentos ou adoração de imagens. Para resumir, sou mais pelo conteúdo que pela forma.

Nesses meses de campanha eleitoral, foi muito comum a utilização da bandeira e do hino brasileiros, por parte dos seguidores do Nefasto, para ostentar um pretenso patriotismo*. Estes dois símbolos passam ao largo de minha concepção de pátria. Pátria, para mim, se refere à terra e ao povo que nela vive. Vincular a pátria, exclusivamente, a estes símbolos, configura patriotada e não patriotismo.

Além disso, confesso que tenho certa má vontade com nossos símbolos, tanto o hino quanto a bandeira.

Do hino me agrada muito a melodia, supostamente composta por Francisco Manuel da Silva. Ocorre, porém, que os primeiros compassos desta melodia são idênticos ao Responsório Sétimo de Matinas de Nossa Sra. da Conceição, do Padre José Maurício Nunes Garcia, principal compositor brasileiro daquele período, de quem Francisco Manuel, aliás, um compositor obscuro, foi aluno.

Não é o plágio na melodia do hino, entretanto, que me incomoda. Há outros hinos acusados de plágio, mundo afora. Há quem encontre similaridades exageradas entre o hino do Uruguai a um trecho da ópera Lucrezia Borgia, do compositor italiano Donizetti, assim como a introdução do hino da Argentina é um tanto parecida com a Sonatina número 4, opus 36, de Clementi. Há outros exemplos, mas, isso importa pouco. A melodia do nosso hino, para o meu gosto estético, é belíssima.

Minha má vontade é com a letra de Joaquim Osório Duque Estrada. Além de rebuscado, o texto é mentiroso, o que se observa logo no início. Afinal, todos sabemos, povo nenhum, heroico ou não, emitiu qualquer tipo de brado, muito menos retumbante, por ocasião da proclamação da independência, que não passou de um arranjo entre a elite local e o representante da Coroa portuguesa, à época.

Minha reserva, quanto à bandeira, não está na combinação de cores, que, aliás, me agrada. Nem na disposição das formas, embora me pareçam um exercício de geometria. Minha cisma é com a frase na faixa.

Tomada do positivismo de Augusto Comte, corrente filosófica cujo lema era: "O Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim", os articuladores da proclamação da república resolveram retirar, exatamente, o item que mais me seduz. Afinal, mais do que ordem e progresso, é o amor, em minha forma de ver o mundo, que deveria servir de lema ao povo de uma nação.

Repito, não sou iconoclasta ao ponto de defender a destruição de símbolos e bandeiras. Prefiro, entretanto, ícones cujo conteúdo seja, ao menos, verdadeiro.

Afinal, como eu já disse, sou mais pelo conteúdo que pela forma.


*Essa gente, aliás, tem grande dificuldade em escolher seus símbolos. Haja vista a camiseta da CBF, indumentária elegida pelos articuladores das manifestações de 2014. Embalagem da tramoia que apeou Dilma Rousseff do poder. Há instituição mais imaculada que esta?


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

O pensamento conservador

No mais interessante, entre os 5 primeiros episódios do programa Amigos, Sons e Palavras (de Gilberto Gil), no Canal Brasil, Renata Lo Prete cita uma frase, a respeito das informações veiculadas através do WhatsApp:

“Desconfie, especialmente, da informação com a qual você concorda, com a qual você se identifica. Porque é, justamente, no reforço das suas convicções, no reforço dos seus preconceitos, que o algoritmo opera.”

Eu tenho afirmado, com certa insistência, tanto aqui quanto nos diálogos que travo no Facebook, sobre a necessidade de as pessoas estarem abertas ao contraditório. Tenho firme convicção de que esta atitude é que enriquece o debate e aprimora as reflexões. Fechar-se às ideias do interlocutor, assim como desqualificá-las, antecipadamente, tolhe nossa capacidade de evoluir.

Considerar o contraditório não significa concordar com ele. Aliás, venho insistindo: concordar ou discordar são coisas absolutamente irrelevantes em qualquer discussão. Quando, após iniciar um debate, recebo como resposta do meu antagonista a frase: “eu discordo”, em lugar de apresentar uma argumentação, já sei que a discussão será paupérrima.

Há muito tempo, tenho sugerido às pessoas que leiam livros e textos que apresentem argumentos contrários às próprias convicções. Conversem, de peito aberto, com pessoas com visões diferentes de mundo. Acredito que isso enriquece, aprimora, provoca evolução.

Assim como sugiro a amigos conservadores que leiam os autores progressistas, procuro conhecer o pensamento conservador.

Quando éramos jovens, líamos muitos autores de esquerda e, com a arrogância típica da juventude, desprezávamos os autores de direita. Assim como nós, os jovens conservadores execravam os nossos livros. Uma das poucas vantagens que nos traz a maturidade é a de perceber que o mundo não é tão maniqueísta quanto pensávamos.

Confesso que, atualmente, não encontro, no Brasil, um autor com pensamento conservador que me anime à leitura. Bons tempos eram os de quando podíamos ler um texto de José Guilherme Merchior ou Roberto Campos. Discordávamos deles, mas escreviam tão bem que dava até raiva! Hoje, a perspectiva de ler algo de Olavo de Carvalho ou Luiz Felipe Pondé dá certo desgosto.

Por isso, recorro a um pensador conservador inglês, Roger Scruton. Seu livro mais importante, O que é conservadorismo, de 1980 (com revisões em 1984 e 2001) é quase um manual. Conceitua a atitude conservadora e aborda aspectos como autoridade, estado, propriedade e trabalho sob esta luz. É muito didático, no que diz respeito a entendermos o que se contrapõe ao pensamento progressista.

Não é, entretanto, este famoso manual que mais me instigou, entre as obras deste autor e, sim, Confissões de um herético, uma coletânea de ensaios esparsos, organizados em 12 capítulos, nos quais aborda os mais diversificados temas da vida cotidiana. Se não é um texto tão acadêmico quanto o livro mais famoso, o estilo informal destes ensaios nos deixa perceber, com mais clareza, os valores e os preconceitos contidos nesta forma de pensar e enxergar o mundo.

Inicia o livro com um capítulo dedicado à mentira e ao fingimento, fazendo uma instigante comparação entre as duas atitudes. Discorre sobre isso, tendo a arte como pano de fundo e utiliza a comparação entre modernismo e classicismo para fazer a equivalência entre pensamento progressista e conservador, respectivamente.

No segundo capítulo, um dos mais divertidos, no livro, ele traça uma comparação entre a relação das pessoas com animais de estimação urbanos e a relação com os animais rurais e silvestres. É explicitamente ácido quanto à primeira.

E segue, no livro, discorrendo sobre governo, dança, arquitetura, redes sociais, o luto, a morte e a natureza, entre outros temas. Faz isso, sempre, defendendo um ponto de vista conservador e absolutamente crítico à interferência do estado em qualquer uma das atividades sobre as quais discorre.

Na defesa intransigente de um “estado mínimo”, critica, por exemplo, a evolução da medicina e da indústria farmacêutica que, segundo sua visão, não deveria ter avançado a ponto de permitir que as pessoas vivessem tanto, interferindo na naturalidade da morte. Defende que o estado não deveria subsidiar o atendimento universal da população, mas deixasse que, “naturalmente”, quem não tivesse condições materiais para bancar um tratamento, vivesse pelo tempo “condizente” com sua posição social.

Aliás, sua convicção de que as pessoas deveriam se conformar com a vida que sua posição na sociedade lhes reserva está presente em praticamente todos os textos, seja de forma direta, seja subliminarmente.

Discordo quase integralmente do que ele escreve, mas, como eu já disse, isso é absolutamente irrelevante. O termo “quase” eu emprego por ter me identificado com um componente conservador que é o relacionado à arte. Percebo, em mim, há muito tempo, um conservadorismo neste campo, sobretudo no que se refere à música.

De salutar, em seu pensamento puramente conservador, há a possibilidade de identificar uma absoluta aversão a qualquer forma de governo autoritário. Em nenhum momento, em nenhum dos textos, ele ao menos flerta com qualquer ataque à democracia. E esta, juntamente com a superioridade estética de seu texto, é uma característica que o difere da maioria dos pensadores conservadores de nosso país.

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

O antipetismo e a corrupção


A percepção da corrupção, numa sociedade, depende da atuação de 2 entidades: o órgão oficial responsável por investigar atos de corrupção e a imprensa. Quanto maior a capacidade que estas entidades tiverem de exercer seu papel maior será a chance de se perceber o grau de corrupção.

Quando uso o termo capacidade, estou incluindo, neste balaio, 3 fatores: liberdade de ação, recursos materiais e disposição de agir. Isso vale tanto para as entidades investigativas quanto para a imprensa.

Quanto mais esses 3 fatores aplicados a estas 2 entidades forem atendidos, plenamente, mais a sociedade vai conseguir atingir a real percepção da corrupção.

Durante a campanha eleitoral deste ano, muito mais do que as propostas, as diferenças ideológicas e o preparo dos candidatos, o que tem motivado os debates entre eleitores é a rejeição ao que cada um deles representa.

Do lado do candidato apontado como favorito pelas pesquisas, a tônica da campanha está baseada na teoria de que o Partido dos Trabalhadores (PT) cometeu mais atos de corrupção em seu período de governo do que em qualquer outra época, no Brasil. Isso significa afirmar que, durante esses anos, o grau de corrupção foi maior do que fora às épocas dos governos FHC, Collor e do regime militar.

Uma enorme parcela do eleitorado recebe, digere e aceita esta afirmação sem avaliar sua consistência. E faz isso por não submeter a comparação, que nela está inserida, à luz do ambiente de cada época. A maneira de avaliar esta informação, de forma apropriada, é comparar estes ambientes, no tocante às 2 entidades e 3 fatores aos quais me referi no início do texto.

No período imediatamente pós-ditadura, as entidades oficiais não dispunham das ferramentas de que dispõem hoje, mas a imprensa teve um papel importante na veiculação de informações, sobretudo no governo de Fernando Collor e seu lugar-tenente PC Farias.

Itamar Franco, após assumir, criou, em dezembro de 1993, uma comissão especial para investigar crimes de corrupção, num primeiro movimento para instrumentalizar melhor as entidades investigativas. Esta comissão foi extinta nos primeiros dias após a posse de FHC.

Nas duas edições de seu governo, aliás, além de controlar com mão de ferro a atuação da Polícia Federal, FHC contou com o beneplácito de grande parte da imprensa. Isso criou um ambiente muito propício para se blindar a divulgação de casos de corrupção que foram, desde a compra de votos para aprovar a emenda da reeleição, passando pelos casos da privatização da Telebras, das obras do Metrô de São Paulo, PROER, SIVAN e outros que, posteriormente, vieram à tona e estão, hoje, bem documentados.

Seu procurador-geral da República, Geraldo Brindeiro, ficou jocosamente conhecido pela alcunha de “engavetador-geral da República”. Isso acabou explicando o motivo dele ter sido escolhido para o cargo, apesar de não figurar na lista tríplice que, tradicionalmente, é preparada pelos procuradores e enviada ao presidente da República.

Na gestão de Lula, pelo contrário, da lista dos nomes escolhidos pelos procuradores, aqueles que figuravam em primeiro lugar foram os indicados para a PGU, tanto em 2003, Claudio Fonteles, quanto em 2005, Antônio Fernando de Souza que, mesmo tendo sido o relator da denúncia do mensalão, foi reconduzido ao cargo em 2007.

Em seus 2 mandatos, Lula instrumentalizou a Polícia Federal, o que possibilitou que o número de investigações ocorridas, livremente, durante este período, tenha sido 50 vezes maior que no período tucano. Além disso, a imprensa, de 2002 a 2008, foi muitíssimo mais vigilante (e é assim mesmo que ela deve ser, mas, com todos), em comparação à maneira aquiescente com que tratou o período anterior.

Desta forma, fica muito bem configurada a diferença de ambiente relativa aos 3 fatores envolvendo as 2 entidades a que me referi nos primeiros parágrafos. E, assim, se constrói uma percepção de “grau de corrupção” muito diferente, também.

Tudo isso, sem contar com o período do regime militar em que as investigações, sobre qualquer assunto, só eram permitidas com a autorização das forças armadas e à imprensa, sob censura, era imposta uma proibição de divulgar qualquer notícia que desabonasse o governo. Essa dobradinha, investigação zero e imprensa calada, produziu, no imaginário popular, a ideia de uma época em que não havia corrupção no Brasil. Há, até hoje, ingênuos que sustentam e agitam esta bandeira!

Hoje, há vasta documentação sobre isso. Só não enxerga quem não quer ver. Para quem queira, indico não apenas 1, mas 2, 3, 4, até 5 exemplos para se informar.

A campanha do candidato favorito nas pesquisas está calcada num sentimento de antipetismo que foi construído, principalmente, sobre dois alicerces: um, que afirma que no tempo do PT o grau de corrupção foi “muito maior” que em qualquer período da história e outro, que insiste que, na época da ditadura militar, não havia corrupção no Brasil.

Qualquer pessoa pode votar no candidato que quiser, isso a lei permite (o que, aliás, não acontecia quando os militares mandavam). Uma pessoa pode votar em Bolsonaro por preferir sua proposta de modelo econômico (caso descubra qual é). Pode votar nele por compartilhar de suas ideias antidemocráticas. Pode votar nele, até, por ser racista, por ser homofóbico, por ser misógino. Estes últimos motivos são imorais, mas permitidos pela lei.

Agora, a pessoa que vota neste homem alegando que é devido à corrupção do PT ter sido a maior da história e que com os militares ela vai se acabar, essa pessoa vai precisar refletir melhor e confessar, não pra mim (não é da minha conta), mas pra si, o verdadeiro motivo que a move. Para, pelo menos, não ser hipócrita consigo mesma. 



segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Chuva de opiniões na rede


Numa discussão que tive com alguns amigos, ainda ontem, pelo Facebook, voltei a aludir a uma convicção que tenho desde que entrei, pela primeira vez, nesta casa de loucos. A de que o FB é uma espécie de mesa de boteco.

A internet é uma ferramenta que dá oportunidade pra que todo mundo participe e, aí, cada um faz isso da maneira que consegue.

Não é muito diferente de discussão em boteco*, que tem de tudo: fala mansa, gritaria, soco na mesa e até ameaças de bofetada (é quando, normalmente, entra a turma do “deixa disso”).

O que falta, aqui no FB, é a mesma coisa que falta no boteco, ou seja, opinião serena e embasada. Tem palpite, cutucada, desabafo, agressão verbal, mas não tem argumentação estruturada.

O grande problema é que, através deste ambiente, muita gente está decidindo seu voto.

Antigamente, as pessoas utilizavam os jornais, o rádio e a TV para se informar. Por mais que alguns órgãos de imprensa pudessem ser tendenciosos, sabiam que nenhum deles teria a audácia de fabricar notícias absurdamente falsas (até por medo de levar processos).

Chegavam ao trabalho e, como o ambiente não permitia a balbúrdia, participavam de discussões relativamente ordeiras e, com isso, acabavam tendo a oportunidade de ouvir algum tipo de argumentação minimamente estruturada. Na escola, sempre conseguiam, do professor, alguma dica de um livro onde pudessem se aprofundar em determinado assunto. Alguns chegavam ao capricho de, ao menos, folhear este livro e ler algumas páginas.

Nada disso impedia que, no encontro no boteco, entre uma cerveja e um prato de torresmo, uma cachaça e um pires de tremoços, uma batida de limão e uma porção de salaminho, a arruaça fosse a mesma de sempre, mas, pelo menos, em seu íntimo, cada um tinha sua opinião construída, fruto de reflexões estimuladas pelas informações adquiridas.

Hoje, aparentemente, as redes sociais substituíram o boteco, com o agravante de ter um alcance muito maior do que os integrantes da mesa ao lado. Qualquer um emite opiniões sobre tudo, desde a quantidade de anestésico em cirurgia de esterilização de gatos até o melhor método de ministrar aulas de química orgânica.

Todo mundo se sente livre para opinar sobre o que quiser na rede social, sem necessidade de informar-se ou estudar sobre o tema escolhido. E, se algum interlocutor contesta o pitaco, sempre há a opção de esvurmar o mancebo. O pior, neste processo, é que ele é retroalimentado positivamente, pois, toda imbecilidade que qualquer um postar na rede pode se transformar em observação genial, caso outros imbecis inundem seu post com sinais de positivo, coraçõezinhos vermelhos e risadinhas para reforçar a rematada tolice (além de alimentar sua vaidade).

Pode ser que, com o tempo, as pessoas aprendam a utilizar as redes sociais para debater de forma mais estruturada, baseando seus argumentos em informações confiáveis e em estudo consistente. Por enquanto, estamos muito longe disso.


 *Em tempo, a única coisa que a discussão de boteco tem de diferente do FB (e para melhor) é a birita.

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

O poder da argumentação


Devido ao meu apego às eleições, do qual já falei anteriormente, neste período de campanha política eu me sinto muito estimulado a debater e isso acontece desde sempre. Desde quando ainda não havia redes sociais (sim, garotos, já houve um tempo em que não existiam redes sociais como as de hoje). Em outras épocas se debatia nos bares, na universidade, na fábrica e, em todos estes ambientes, gostei, sempre, de debater e expor meu ponto de vista.

Debater nestes ambientes, aliás, sempre me pareceu mais saudável do que o que acontece agora. A primeira diferença é que os debates eram preponderantemente baseados em argumentos. Hoje, você coloca um argumento na rede e, recebe, de volta a expressão: “não concordo!”. Aí, fica esperando a próxima mensagem, com o contra-argumento, mas ele não chega.

Pode receber, de volta, o desenho de uma bonequinha dançando de havaiana ou a sigla e o número de algum candidato. Quando muito, recebe, do interlocutor, uma mensagem absolutamente desconectada do tema que foi proposto. Acho que está ocorrendo uma dislexia generalizada nas pessoas. Elas não estão conseguindo concatenar as ideias ou formular frases minimamente relacionadas a um tema específico, sem falar da estupidez que é a utilização da agressividade como ferramenta de argumentação.

Como sempre faço em épocas de eleição, eu estava preparado para debater, utilizando, como base, meus estudos, valores e reflexões, ou seja, tudo aquilo que constrói as nossas convicções e embasam nossos argumentos.

Estava preparado para debater com os petistas, não utilizando aqueles argumentos de que só o PT praticou corrupção, que em seu governo a corrupção foi maior do que nunca, de que no regime militar isso não ocorria e outras tolices, pois, nesta esparrela só caem os muito ingênuos ou os mal-intencionados (aliás, terei, eternamente, a dúvida de qual destas duas categorias é mais nociva para o mundo). Meu debate com os petistas tem sido em outra direção. Tem sido na cobrança do partido ter adotado, ao chegar ao poder, os mesmos procedimentos que sempre foram a marca registrada daqueles que estavam à sua direita. No fato de, no poder, Lula ter transigido tanto e atendido, tão fortemente, às demandas da camada da população que, desde sempre, tem sido a mais favorecida. Por que é que os inegáveis avanços sociais implementados foram tão tímidos?

Estava preparado para debater com os tucanos e cobrar, deste partido, o distanciamento monstruoso que foi promovido, em relação à sua ideia original. A continuidade do uso da Social Democracia no nome desta agremiação que, hoje, é mais liberal que o próprio DEM (ou PFL, ou PDS ou ARENA, tanto faz). Por traírem os ideais de tucanos históricos como Mário Covas, Euclides Scalco ou José Richa (este, aliás, foi traído pelo próprio filho).

Estava preparado para debater com eleitores de Marina e mostrar que seu discurso é sempre vazio e inconsistente. Este debate, aliás, nem seria necessário pois, como sempre, esta candidata acaba se transformando no próprio argumento contra si.

Estava preparado, até, para explicar para os eleitores de João Amoedo e de seu partido (que de novo só tem o nome) que só quem nunca leu Aristóteles pode se apresentar ao eleitorado como um “não político”. Afinal, o grande filósofo já ensinou, há mais de 2.300 anos, que o homem é um animal político.

O que eu não estava esperando é que teria que debater com as pessoas e afirmar (e reafirmar) que sou contra a tortura, contra o racismo, contra a homofobia, contra a misoginia, enfim, contra toda forma de violência que se possa praticar a um ser humano.

Nunca imaginei que teria que mostrar para as pessoas que não acho admissível um candidato falar em eliminar (ao invés de vencer) um adversário.

Nunca passou pela minha cabeça que eu teria que explicar que a democracia foi um bem conquistado pela nossa sociedade à custa de derramamento de sangue, assassinatos e desaparecimento de pessoas que tinham opiniões distintas de quem detinha o poder no regime militar.

Enfim, julguei (talvez ingenuamente), que estas coisas eram tão básicas, tão óbvias, tão absurdamente evidentes, que não careciam de qualquer tipo de argumentação para serem defendidas.

Esta etapa da eleição, que se avizinha, deixou de ter um caráter apenas ideológico. Não é, como deveria, matéria de qualquer tipo de argumentação. Nesta eleição, o que está em jogo é uma escolha escandalosamente simples. É a escolha entre a civilidade e a barbárie. E é assustador que ainda haja, na nossa sociedade, uma dúvida como esta.



Porque me importam as eleições


Sou de outro tempo. Do tempo em que não havia eleições para todos os cargos, no Brasil. A primeira eleição de que participei foi para senador (votei em Fernando Henrique Cardoso, que entrou como suplente), mas, naquela época, não era permitido votar para presidente, governador e nem prefeitos de capitais. Aliás, as eleições para prefeito também eram proibidas nos municípios em “área de segurança nacional” e nas estâncias hidrominerais. Nesta última categoria, aliás, nunca entendi o motivo da proibição, mas quem souber a razão, não precisa me contar. Naquela época, havia tanta coisa que não fazia sentido que esta era uma preocupação menor.

Por todo este histórico, me são caras as eleições. Gosto muito delas e as encaro como uma conquista do povo brasileiro, depois de 21 anos sob um regime militar em que, não só os direitos básicos foram surrupiados, mas, também, a dignidade e, em muitos casos, a vida.

Por tudo isso, também, sempre resisti a praticar o voto nulo ou em branco e, confesso, tive medo de ser obrigado a fazer isso nestas eleições, caso a disputa para governador de São Paulo ficasse restrita à escolha entre Dória (aquele que tem um sorriso nos lábios e ódio no olhar) e Scaf. Felizmente, fui salvo pelo gongo e poderei depositar meu voto em Márcio França, como já havia feito no 1° turno.

Outra conquista que tivemos foi a instauração do 2° turno nas eleições para os cargos executivos. Sem ele, com a quantidade insana de partidos políticos que temos no Brasil, estaríamos ameaçados, a cada eleição, a ver eleito um candidato que tivesse menos que 15% dos votos totais. Só na eleição deste ano, tivemos 13 candidatos!

Assim como o 1° turno serve para que cada um escolha o candidato que considere o mais apropriado, o 2° é feito para que se escolha o menos ruim. O 2° turno é, também, a oportunidade de se formar alianças políticas, instrumento muito importante para equalizar programas e, com isso, buscar a ampliação do eleitorado. Há quem confunda aliança política com conchavo, mas são coisas completamente diferentes. Conchavo, normalmente, é feito no subterrâneo, no escuro, com o propósito de satisfazer interesses escusos. Alianças, normalmente, devem ser feitas à superfície, às claras. A boa política é a arte de saber dialogar e negociar para se chegar a uma agenda comum que atenda as expectativas de uma camada maior de eleitores.

A importância maior, entretanto, do 2° turno, é a possibilidade de embate entre os dois candidatos, com mesmo espaço de tempo para expor suas ideias e seus programas. É nesta oportunidade, efetivamente, que as diferenças de proposta de governo podem ser avaliadas pelos eleitores, através das argumentações e contra-argumentações que este evento propicia.

Nas eleições deste ano, esta oportunidade não está sendo propiciada ao eleitor devido à fuga do candidato Bolsonaro, o que demonstra, claramente, seu desapego à democracia (além da covardia, é claro). Além disso, parte dos eleitores fizeram uso do chamado “voto útil” no 1° turno e abandonaram os candidatos que consideravam a melhor opção para tentar forçar a não realização do 2°. Este é um erro, politicamente, grosseiro, e explico o motivo.

Ao esvaziar a sacola de votos do candidato que considera a melhor opção, o eleitor esvazia, também, o capital político dele, no momento de se fazer as alianças para a segunda rodada da eleição. Com isso, as ideias e os pontos do programa que motivaram o eleitor a preferir tal candidato, acabam não tendo chance de ser incorporados ao programa daquele que, efetivamente, recebeu seu voto. Assim, o eleitor vai para o 2° turno depositando voto em um candidato que não tem, em sua plataforma de campanha, os pontos que eram contemplados por seu candidato inicial e que, portanto, ele julga importantes.

A maioria dos eleitores que preferiam Alckmin, Amoedo, Meirelles e Marina, mudaram, no último momento, para Bolsonaro. Com isso, deixaram seus candidatos preferidos sem capital político para negociar a inserção de suas propostas na campanha do capitão do exército, numa eventual aliança política. Desta forma, este eleitor acabou perdendo dos dois lados. Nem evitou o segundo turno nem conseguiu ver as ideias nas quais, realmente, acreditava, inseridas no programa do candidato em que votou.

Votei em Ciro Gomes no 1° turno e votarei em Fernando Haddad no próximo dia 28. Por valorizar tanto as eleições, eu nunca questiono a decisão dos eleitores. Isso, pra mim, é sagrado. Por isso, como eleitor, vou acatar a decisão da maioria, mesmo que a considere equivocada. Sou, acima de tudo, um democrata.

E por ter esta preferência pelos regimes democráticos, votaria em qualquer outro candidato que não fosse o capitão do mato, pois, como eu disse no início do texto, sou de outro tempo. Aquele em que a democracia era inexistente no nosso país e sei muito bem como é viver num ambiente destes.

domingo, 14 de outubro de 2018

Atypical


O cinema e a TV, em sua dramaturgia, têm, historicamente, duas formas de tratar pessoas com necessidades especiais. Aliás, nem sei se este é o termo mais adequado, mais politicamente correto. Aqui, neste site, tem uma receita de bolo, mas já deve estar desatualizada, já que é de 2014. Confesso que não dou conta desta evolução semântica.

Mas, voltando ao que interessa, no cinema e na TV estas pessoas são retratadas, tradicionalmente, ou de forma caricata e debochada ou, então, de forma melodramática e piegas.

Uma exceção a esta regra é a série Atypical, exibida pelo Netflix, já em sua segunda temporada.



Ao retratar a família e os colegas do protagonista, um adolescente com autismo (não sei, ao certo, precisar o grau), mostra estas duas formas erradas de se relacionar com ele, a debochada e a piegas, pelos colegas da escola e pela família, respectivamente.

As exceções a esta dualidade estão representadas pelas personagens de sua irmã e de seu colega de trabalho que procuram tratá-lo, no limite do possível, como uma pessoa absolutamente normal.

A série mostra o cotidiano do protagonista e de seu entorno com bastante leveza, sem deixar de mostrar as dificuldades e os dissabores de todos que gravitam ao seu redor.

Enfim, é uma série que eu recomento fortemente.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

Reflexões sobre a eleição presidencial no primeiro turno


Passado um dia da divulgação do resultado das eleições, neste primeiro turno e, depois de acompanhar as análises feitas pelos “especialistas” na TV, escrevo aqui algumas conclusões a que cheguei a partir de minhas reflexões. Acho importante, aliás, que cada um consiga formular suas próprias conclusões em lugar de aceitar apenas e, passivamente, as conclusões oriundas da análise de jornalistas das grandes empresas de mídia, das declarações de políticos profissionais (de qualquer que seja o partido), de seu chefe ou do pastor de sua igreja. A única forma de criar um legítimo senso crítico é conseguir criar um pensamento político baseado em suas próprias reflexões. É claro que todos temos nossas influências e é natural nos apoiarmos nelas, mas, as formas de influência que citei acima (TV, partidos políticos, o empregador e a igreja) são as piores que podem haver. Cada um deve buscar as suas fontes de influência. Eu sugiro os livros. Dá um pouco de trabalho, mas é a única, entre as que eu conheço, que estimula a própria reflexão.
Se 49 milhões de eleitores votaram em Bolsonaro, outros 58 milhões preferiram escolher outro candidato. Houve, além disso, mais de 10 milhões de eleitores que foram às urnas e preferiram não dar seu voto para nenhuma das 13 opções apresentadas e mais 30 milhões que sequer compareceram aos locais de votação. Desta forma, do total de eleitores cadastrados nas zonas eleitorais do Brasil e, também, no exterior, 33% deles votaram no Capitão e 66% preferiram não lhe presentear com o voto.

O Fenômeno Bolsonaro
Jair Bolsonaro começou sua atuação política no fim da década de 1980, defendendo o aumento do soldo de oficiais de baixa patente do exército. Foi uma atuação sindical, portanto. Como para esta classe trabalhadora não há sindicatos, ele utilizou a estratégia de organizar manifestações das esposas de militares, já que os procedimentos fechados desta entidade proíbem seus membros de se expressar livremente. Elegeu-se vereador na cidade do Rio de Janeiro baseado nos votos deste segmento. Evidentemente, sua luta por melhoria nos salários não incluía os direitos de suboficiais, sargentos, cabos e soldados. Apesar disso, a classe toda engajou-se na tarefa de elegê-lo. A alta oficialidade sempre teve muitas reservas ao seu comportamento, e, em documentos internos do Exército Brasileiro, da década de 1980, ele já era avaliado por seus superiores como um oficial deficiente na tarefa de liderar por sua “falta de lógica, racionalidade e equilíbrio na apresentação de seus argumentos”. Na verdade, é uma pessoa tosca, iletrada e inculta.
Após este início, foi pavimentando sua carreira política, elegendo-se, dois anos depois, como deputado federal e, a partir daí, captando a sensação (legítima) de insegurança da população carioca, foi vendo crescer sua popularidade e seu volume de votos, sempre com um discurso pautado pela extrema violência e baseado em manifestações de intolerância a diversos grupos que encontraram eco em segmentos da nossa sociedade. Nestes 30 anos de carreira política, esteve filiado a 8 partidos diferentes.
Na eleição de ontem, este candidato obteve uma quantidade expressiva de votos e é importante, portanto, tentar identificar as características de quem depositou seu voto num candidato tão tosco. Eu consegui formular algumas (mas deve haver outras):
1 – O bolsonarista típico
É aquele que concorda e apoia os valores mais autênticos deste personagem, ou seja, o racismo, a homofobia, a misoginia, a tortura e a convicção de que a violência é um caminho aceitável para se atingir os fins. Minha convicção é que, felizmente, esta parcela é relativamente pequena, comparando-se com a quantidade de votos que ele recebeu.
2 – O eleitor insatisfeito
Este grupo, que me parece ser um dos maiores, entre seus eleitores do dia de ontem, é aquele que não está satisfeito com o que o estado tem oferecido em termos de serviços públicos, sobretudo no combate e prevenção da violência. Embora o candidato, durante a campanha, não tenha apresentado nenhuma proposta concreta de combate a este mal que assola, principalmente, as médias e grandes cidades brasileiras, suas bravatas encontram eco na parcela da população que vê, todos os dias, as polícias estaduais atuarem muito mais na defesa do patrimônio da classe média e alta, do que na proteção da vida de quem mora na periferia e, principalmente, nas favelas. A perspectiva do surgimento de um “salvador da pátria”, que consiga mudar esta realidade, prometendo segurança, ocorre como alento na mente desta população, que acaba relevando o fato destas promessas não estarem rigorosamente atreladas ao cumprimento estrito da lei ou ao respeito aos direitos humanos. Neste ponto, é interessante perceber que esta falta de apego ao cumprimento estrito da lei e o desrespeito sistemático aos direitos humanos são justamente as principais características da atuação das polícias estaduais, que, hoje, produzem esta insatisfação, sobretudo nas áreas da população menos favorecida.
3 – O eleitor eminentemente conservador
É o mais ideológico, entre todos. Convencido do discurso liberal, de que o estado deve interferir pouco na economia (os mais radicais, dizem nada), é o eleitor que não votaria, naturalmente, em Bolsonaro, mas admite relevar as características fascistas que o candidato manifesta publicamente, em troca de um “bem maior” (em sua visão), ou seja a “eliminação do pensamento de esquerda”. A simples utilização deste verbo (“eliminar”), por si só, já revela que o caráter fascista não está presente somente no discurso do candidato.
É o grupo que mais tem consciência de que qualquer avanço em políticas sociais, com foco na redistribuição de renda e na diminuição da concentração da riqueza do país, enfim, tudo que mire da direção da redução da desigualdade, irá comprometer seus próprios interesses. É a parcela da sociedade que luta, com todas as forças, para, do ponto de vista econômico, conservar as coisas como estão (o termo conservador não vem do nada, afinal). Como é economicamente conservador, o é, também, em relação aos costumes e, por isso, questões como a violência contra os negros, os índios, as mulheres e os homossexuais não lhe comovem.
Não que ele pratique ou estimule este comportamento, muito pelo contrário. Apenas não se importa com isto.
*Cabe aqui um esclarecimento: Quero apenas deixar claro que não considero que ser conservador seja um defeito. É apenas uma característica, absolutamente legítima. O problema é quando o conservador, no natural afã de conservar o status quo, torna-se reacionário. Quando adquire esta característica, perde a capacidade de dialogar com respeito com um oponente e é neste ponto que começa a proferir considerações semelhantes ao do bolsonarista típico. É quando passa a utilizar verbos como varrer, limpar, metralhar e, o mais emblemático, eliminar, ao se referir a adversários.
4 – O eleitor antipetista
Aqui, é muito importante não confundir com o eleitor conservador. O conservador não é antipetista, pois nunca votou e nunca irá votar no PT. O conservador é aquele que será “anti” qualquer partido que apresente propostas na direção de redução da desigualdade, como foi explicado no item anterior. 
O eleitor antipetista é muito menos esclarecido que o conservador, até por que, é o eleitor que se deixa pautar pela opinião da mídia, do mercado, da igreja e de outras instâncias influenciadoras. Tem, portanto, comportamento circunstancial. Se estas instâncias, amanhã, elegerem os carnívoros como a causa de todos os males que assolam o mundo, passarão a ser anticarnívoros e, adotarão discurso e atos que tenham o objetivo de eliminar (de novo, este maldito verbo), da face da terra, os indivíduos que tenham o hábito de comer carne. O mesmo fenômeno aconteceu com os judeus na Alemanha, durante o regime nazista. A falácia de que a corrupção foi inventada pelo PT, ou foi maior em seus governos, ou que na ditadura não existia corrupção é tão simplória que somente os extremamente ingênuos, que são muitos, embarcam nesta onda. Esta é a falácia que pegou. É a falácia do momento.
O antipetista é o eleitor mais manipulável e mais fácil de enganar. É o mais inculto, o que não significa que não tenha recebido alguma educação formal. Consegue combinar letras e sílabas e reproduzir o som das palavras que estas combinações geram, mas quando as associações ocorrem entre as palavras, costuma se atrapalhar, principalmente se elas forem expressas através da escrita. Devido a isto, prefere se informar pela TV do que pelos jornais. Utiliza, também, as notícias veiculadas pelas redes sociais e as compartilham indiscriminadamente, sem checar sua veracidade e, também, sem questionar se fazem sentido. Não é o único tipo de eleitor que compartilha as fake News, mas é o único que acredita nelas.
É um grupo tão grande quanto o dos insatisfeitos, sendo que muitos indivíduos podem ser categorizados dentro de ambos.
5 – O eleitor evangélico
Na minha visão, foi o responsável pela abrupta e leve elevação dos votos em Bolsonaro, comparados aos dados nas pesquisas do sábado. Esta elevação quase liquidou o pleito no primeiro turno, o que seria uma pena.
*Outro esclarecimento: sou um fervoroso defensor do sistema em dois turnos, para o executivo, por dois motivos: ele impede que um candidato com apenas 10 ou 15% dos votos totais se eleja e, principalmente, porque é no segundo turno, normalmente, que surge espaço para um real debate de ideias e conceitos. Num segundo turno, em geral, nenhum candidato consegue fugir à responsabilidade de apresentar seus planos e projetos.
Voltando ao perfil do eleitor evangélico, é o que tenho mais dificuldade em interpretar, por ser muito complexo. Identifico, neste tipo de eleitor, traços característicos, tanto do eminentemente conservador quanto do antipetista.
O conservadorismo desta parcela da sociedade, diferentemente do conservador liberal, é muito mais focado nos costumes do que na economia. Neste aspecto, o que acaba pegando mais fundo em sua consciência são as questões da luta contra a homofobia e a descriminalização do aborto, presentes, firmemente, no discurso dos eleitores progressistas.
Existe aí, a meu ver, uma dificuldade de interpretação por parte dos evangélicos: criticar a homofobia é criticar a violência contra os homossexuais (que, em última análise, se insere na crítica à violência contra qualquer ser humano). Não há, na luta contra a homofobia, nenhuma intenção de “estímulo” ao homossexualismo, até porque, não se trata de uma escolha (e muito menos de um defeito ou doença) e sim de uma orientação íntima e pessoal. Esta dificuldade de interpretação é ampliada por bobagens como o “kit gay” (uma coisa que nunca existiu) e outras coisas do gênero.
Na questão do aborto, outra confusão. Descriminalizar não significa estimular alguém a fazer um aborto. Ninguém faz um aborto por que quer.  Cada mulher deve ter o direito de fazer o que achar mais apropriado com seu corpo (como fazem os homens). É uma decisão individual. O estado não deve se meter neste assunto (nesta questão, sou mais liberal que os ultraliberais). Além do mais, se as igrejas evangélicas querem desaconselhar seus seguidores a fazer aborto, que o façam, mas o que acontece com as pessoas de fora de suas congregações não é assunto onde devam se meter.
Já o seu antipetismo é ainda mais circunstancial do que o antipetismo clássico, descrito no item anterior. Para adotar esta posição, subitamente, pode bastar uma orientação do pastor que, na maioria das vezes, é dada a poucas horas do dia da eleição. Desta vez, decidiram votar em Bolsonaro, mas em outras eleições o voto foi pro PT, seguindo a mesma fórmula.
*Mais um esclarecimento se faz necessário: Tenho muitos amigos evangélicos e eles sabem o quanto respeito sua fé (na mesma medida em que respeitam a ausência dela, em mim). Eles sabem, também, que apesar de respeitar qualquer tipo de fé (cristãos, judeus, adeptos da umbanda e candomblé, crentes no deus Tupã ou em Thor), tenho pouquíssimo respeito pela instituição da maioria das igrejas que exploram esta fé.
É muito provável que a maioria dos eleitores de Bolsonaro se encaixe em mais de uma destas categorias, até porque, o ser humano é a espécie do reino animal mais complexa e controversa que existe no planeta.

O fenômeno #ELENÃO#
A composição do eleitorado que não quis depositar seu voto no capitão talvez seja mais heterodoxa do que o grupo que votou a favor. Há, inclusive, nesta composição, por mais contraditório que pareça, integrantes de alguns dos mesmos grupos que lhe presentearam com o voto.
A característica dos que não quiseram depositar sua confiança no capitão é o que vou tentar destrinçar agora:
1 – O eleitor progressista
Tão ideológico quanto o conservador, é aquele que acredita e defende um estado que garanta as mesmas oportunidades para todo o conjunto da sociedade, além de ter a convicção de que é dele o dever de prover serviços essenciais como saúde, segurança e educação à população. Está consciente de que, para isso, é necessária uma política fiscal mais justa e proporcionalmente mais igualitária e, assim, defende uma tributação amena para quem tem baixa renda e robusta para quem tenha maior renda.
De forma geral, não está filiado a qualquer partido e é pautado menos por eles e mais por uma ideologia do tipo social democrata, tendo a preocupação de identificar, em cada momento particular da história, quais partidos ou candidatos apresentam um discurso que coincida com este ideal de governança. Este eleitor tem, por característica intrínseca e ideológica, um histórico de defesa de direitos humanos e luta contra a violência e o preconceito, sofridos pelas mulheres, negros, índios e membros da comunidade LGBT.
Esta categoria de eleitor foi migrando sua preferência por partidos, no Brasil, conforme estes iam mudando sua posição no espectro ideológico. A grande maioria dos eleitores com este perfil foi entusiasta do PSDB, em sua origem, e, conforme este partido foi mudando sua  identidade em direção à direita, o eleitor foi fazendo outras escolhas, dentre elas, o PT de Lula ou o PDT de Brizola e Darcy Ribeiro.
É um eleitor preocupado com a corrupção, mas tem consciência que este é um problema crônico e endêmico da sociedade brasileira e a firme convicção de que ela não está atrelada a apenas um partido político. Por isso, defende, mais do que uma política de caça às bruxas seletivo e pautado por interesses escusos, a adoção de medidas, por parte do estado, de um modelo que não estimule o financiamento privado de campanhas políticas.
Tem, acima de qualquer preferência partidária, um compromisso com a democracia e se engaja fortemente contra os movimentos de cunho fascista que a ameacem.
*Insistindo: Ser progressista ou ser conservador não significa, em minha concepção, estar do lado certo ou do lado errado, ser do bem ou ser do mal. Significa ter valores e visões de mundo diferentes. A própria escolha entre ser solidário ou individualista é uma escolha íntima e pessoal, ambas legítimas. A convivência pacífica e a interlocução respeitosa entre pessoas com estas diferentes concepções ideológicas só reforçam a democracia. Quando um sentimento de ódio e um desejo de eliminação do oponente começa a vigorar, aí a democracia é colocada em risco.
2 – O eleitor petista
Sem ser, necessariamente, filiado ao PT, é aquele que vota sistematicamente em seus candidatos. Exerce uma militância forte, nos períodos de campanha eleitoral, mas não participa do dia a dia do partido nem toma parte de suas deliberações. Tem, em geral, atitude aguerrida na militância, mas sua energia oscila, de acordo com o momento histórico no Brasil.
3 – O petista de carteirinha
É aquele eleitor que, mais do que militante, é filiado ao PT e, com isso, segue suas diretrizes, sejam elas quais forem, já que participa de suas deliberações e, mesmo quando suas posições particulares são derrotadas, dentro do partido, age com disciplina. Esta é uma característica comum em partidos fortemente estruturados e está presente neste tipo de agremiação, no mundo todo.
A quantidade de eleitores petistas e de petistas de carteirinha representa um número muito menor do que se supõe. Acostumou-se, entretanto, nestes últimos anos, a classificar todo aquele que defende políticas de inclusão social como petistas ou petralhas, como preferem aqueles que cultivam o uso do verbo “eliminar” na referência aos antagonistas.
4 – O eleitor de esquerda

Predominantemente oriundo do grupo de ex-eleitores petistas, está à esquerda do PT e considera que a solução para os problemas sociais que o Brasil enfrenta, há séculos, pode ser obtida através de um modelo em que o estado venha a gerir o maior número de atividades possível. São eleitores que votaram nos candidatos do PSOL, PSTU e PPL. Neste primeiro turno teve pouquíssima participação na contagem de votos.

5 – O conservador órfão

É aquele eleitor que se manteve fiel à sua convicção, confirmando seu voto no candidato em que, de fato, acreditava. Eleitor de Alckmin, Amoedo, Daciolo, Meirelles, Álvaro Dias e Eymael, totalizou um volume de votos menor que a de votos nulos, quantidade esta que, naturalmente, tende a migrar para Bolsonaro, no segundo turno.

6 – O eleitor de Marina Silva

Este eleitor, assim como a própria candidata, são os exemplos mais complexos para se analisar, mas vou arriscar.

Dona de mais de 22 milhões de votos, em 2014, viu seu balaio encolher para pouco mais de 1 milhão, no final do dia de ontem. Ao longo da campanha, foi vendo as previsões de intenção de votos em seu nome diminuírem, continuamente, devido ao parco significado de seu discurso.

O eleitor típico de Marina se divide, historicamente, entre 2 grupos. O primeiro é o de perfil culto e educado, preocupado com a proteção do meio ambiente e com o bem-estar das pessoas, de forma geral. O segundo grupo pertence ao dos eleitores evangélicos.

Eu arriscaria o palpite de que a queda paulatina ocorrida no decorrer da campanha seja devida à migração da intenção de votos das pessoas do primeiro grupo, em favor de Ciro e Haddad e a queda abrupta, ocorrida nos últimos 2 ou 3 dias da campanha, deveu-se à migração dos evangélicos em favor de Bolsonaro.

Saber para onde vai este milhão de votos que ela conquistou é um exercício de adivinhação tão difícil quanto inútil.


E daí?

E daí, nada. Adivinhação não é minha praia.

O resultado, para o segundo turno, apresenta um favorito claro, que é Bolsonaro.

Do ponto de vista matemático, as previsões mais óbvias são as de que os votos em Ciro e os dos eleitores do PSOL, PSTU e PPL migrem para Haddad, assim como os dos conservadores órfãos (que votaram em Alckmin, Amoedo, Daciolo, Meirelles, Álvaro Dias e Eymael) se dirijam para Bolsonaro. Dos eleitores de Marina Silva, nem mesmo o velho Oswald de Souza, conseguiria prever.

Há, ainda, os 40 milhões de eleitores que votaram em branco, nulo ou não compareceram às zonas eleitorais e que podem, a seu bel-prazer, alterar esta estatística (para cima ou para baixo).

Deixando a matemática de lado e pensando em campanha eleitoral, acredito que haja um volume de votos que pode ser conquistado por Haddad (ou deve preservado por Bolsonaro) que é o dos grupos maiores, ou seja, os que eu chamei de eleitor insatisfeito e eleitor antipetista.

O desafio de Haddad, evidentemente, é maior, mas Bolsonaro não poderá continuar fugindo dos debates e terá, em algum momento, que apresentar algum plano de governo. A partir de agora, ele terá muito mais tempo no rádio e na TV para aparecer e se pronunciar. Resta saber se ele conseguirá usar este tempo em seu benefício ou se é isso que pode levá-lo à lona. Afinal, há pessoas que, ao receberem uma corda, laçam um cavalo e o domam. Há outras que só o que conseguem fazer é se enforcar.