Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Requinte em dobro

Agradam-me os discos de cantoras consagradas com músicas de um só autor. Ella Fitzgerald deixou-nos fantásticos registros deste tipo, os famosos songbooks, em que gravou todos os grandes compositores americanos como Cole Porter, Gershwin, Rogers & Hart, Irving Berlin, Johny Mercer, Jerome Kern e Duke Ellington. Gravou, também, um songbook com as músicas de Antonio Carlos Jobim.

Isto pode parecer uma estratégia para garantir a venda dos discos, uma tática para não correr riscos lançando autores ou músicas desconhecidas. Não vejo por este lado. Aliás, pode até mesmo ser este o interesse, mas isto pouco me importa. O que me interessa é o resultado. No caso dos songbooks de Ella Fitzgerald, ele foi estupendo. Não me canso de ouvir.

No Brasil, alguns discos deste tipo me agradaram muito, como o de Beth Carvalho cantando Nelson Cavaquinho, Leny Andrade cantando Cartola, Rosa Passos cantando Caymmi ou Ari Barroso, repetindo o que Gal Costa fizera em dois discos memoráveis. Embora não fosse uma cantora conhecida, à época do lançamento, foi uma gratíssima surpresa conhecer Teresa Cristina através de um CD duplo em que cantava músicas de Paulinho da Viola.

Outra grata surpresa é este CD, Na boca do Lobo, em que Vânia Bastos interpreta canções de Edu Lobo. Vânia Bastos é uma cantora madura, que não traz nenhum traço do som estridente que tinha sua voz no início da carreira, quando cantava no grupo de Arrigo Barnabé, nos longínquos anos 80. Seus primeiros discos traziam um repertório meio modernoso, que foi se sofisticando com o tempo, muito provavelmente por influência de Eduardo Gudin, com quem veio a se casar. O ponto alto da sua carreira, em minha opinião, é o CD Vânia Bastos & cordas – Canções de Tom Jobim, em que canta embalada por orquestra com arranjos e condução de Francis Hime. Nada poderia ser mais sofisticado.

Edu Lobo é um dos compositores mais requintados de nossa música, como já falei aqui. O que me causa espanto é perceber, com pesar, o quanto lhe falta de espaço na mídia, a ponto de torná-lo um ilustre desconhecido, num país em que as duplas sertanejas e os pagodeiros comparecem até nos programas de TV que falam de futebol. A geração dos que têm menos de 30 anos, com raríssimas exceções, desconhece completamente sua existência, embora assobiem algumas de suas canções pelos cantos por ande andam. Se isso não bastasse, Edu Lobo só estabelece parcerias com letristas de primeira linha, como Paulo César Pinheiro, Chico Buarque, Vinícius de Moraes, Cacaso, Capinan e Gianfrancesco Guarnieri, todos com músicas presentes no CD.

Enfim, um disco duplamente requintado.



Meia-noite (Edu Lobo e Chico Buarque)

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O Rio de Janeiro

Pela primeira vez na história, o governo do estado do Rio de Janeiro está tomando a direção correta no tratamento da questão da segurança na cidade maravilhosa. Se estivesse ouvindo o clamor da Zona Sul, entraria nas comunidades atirando, destruindo tudo, eliminando o inimigo no peito e na raça e arrastando junto uma multidão de gente inocente. Sim, pois, pra grande parte de quem mora no Leblon, não faz muita diferença se algumas crianças da favela tiverem que morrer pra que se mantenha os traficantes restritos ao que eles consideram o seu lugar. Pra parte da classe média e pros emergentes cariocas, o que acontece no morro não tem a menor importância, desde que não vaze para o asfalto. Afinal, o que ocorre nestas comunidades só incomoda a turma que mora na Barra da Tijuca, se isto provocar o atraso das empregadas domésticas na chegada ao trabalho ou dificultar o fornecimento, em domicílio, de maconha e cocaína.

O que está ocorrendo neste momento, na cidade do Rio de Janeiro, e que nunca foi feito antes, nem mesmo no governo de Brizola, é que a população destas comunidades está sendo respeitada, o que deveria parecer natural, mas não é, dado o ineditismo do fato.

O ponto crucial para o sucesso, ao menos até o momento, desta empreitada, está sendo o uso da inteligência, ao invés da truculência. Ao empurrar os soldados do tráfico para fora de seus domínios e os obrigar a deixar pra trás, armas, drogas e dinheiro, o estado está atingindo seu ponto mais sensível, já que, neste ramo de negócio, capital de giro e liquidez são essenciais.

Se encararmos o tráfico como um negócio comercial, coisa que ele é, na sua mais absoluta essência, perceberemos que segue exatamente as mesmas lei básicas de qualquer segmento de mercado, regido pela lei da oferta e da procura e pelas dificuldades da concorrência. Por ser um produto de alta demanda e pela proibição oficial de seu comércio, o fator preço não é o que dita as decisões do planejamento estratégico neste negócio, assim como a propaganda não é o fator fundamental da gestão de marketing.

Neste ramo de atividade, o sucesso competitivo se obtém através da aquisição de armas e a lucratividade advém do capital de giro. Agir, portanto, como a polícia está agindo, ao subtrair dos traficantes as armas e as drogas, mina os dois mais importantes pilares deste negócio.
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De negativo, nesta história toda, eu identifico a ação da mídia. Pela TV aberta, direcionada à população mais pobre, emissoras como Band e Record, tratam o assunto como tratam as enchentes e as catástrofes que acontecem nas cidades, com seu costumeiro alto grau de dramaticidade e hipocrisia. Pela TV paga, o canal de notícias da Globo dirige seu noticiário à classe média, tentando mostrar que a polícia está fazendo o papel que esta parcela da população espera da corporação, ou seja, impedir que o que acontece dentro daquele mundo não resvale para o mundo das pessoas de bem.

Felizmente, a polícia está fazendo muito mais que isto. Ao menos por enquanto, está dando um sopro de esperança de que, finalmente, o estado brasileiro pode trazer, no futuro, um pouco de dignidade a esta gente.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Cantando as músicas dos outros

Há compositores que cantam tão bem que acabo preferindo ouvi-los cantando músicas de outros autores às suas próprias composições. É o caso de Ed Motta, por exemplo, que, em minha opinião, registrou a melhor gravação de Imagina, de Tom Jobim e Chico Buarque. Sinto a mesma coisa em relação a Zélia Duncan.

O inverso disso são aqueles compositores cujas músicas ganham brilho na voz de outros cantores, como é o caso de Guilherme Arantes. Basta ouvir as estupendas gravações de Aprendendo a jogar, na voz de Elis Regina, Coisas do Brasil com Leila Pinheiro ou Amanhã cantada por Caetano Veloso. Interpretadas pelo autor são baladinhas despretensiosas.

Djavan não se encaixa num caso e nem no outro. Embora algumas de suas letras sejam absolutamente incompreensíveis para o meu limitado entendimento, o som destas palavras, emolduradas por suas melodias, quase sempre, fazem bem aos meus ouvidos. E apesar de suas canções já terem sido gravadas por grandes cantores, normalmente, suas próprias interpretações são as mais interessantes. E foi por isso que fiquei curioso para ouvir o seu último disco, Ária, em que ele só canta músicas de outros autores.

O disco é bom, sem ser espetacular. A principal virtude é a diversidade de autores. Djavan mistura Cartola, Tom, Vinícius, Caetano Veloso, Beto Guedes e Silas de Oliveira, entre outros, sem que isso transforme o disco em uma gororoba sem sabor definido. A segunda virtude é a simplicidade e o minimalismo dos arranjos, o que permite, ao ouvinte, degustar com mais facilidade a voz do cantor. Ironicamente, estas duas virtudes é que propiciam os dois principais defeitos do disco. A diversidade acaba permitindo alguns equívocos, como a inclusão de La Noche e Fly me to the moon, músicas cantadas num espanhol e num inglês pouco convincentes. O segundo equivoco é a inclusão de Treze de Dezembro, um xaxado instrumental de Luiz Gonzaga e Zé Dantas, gravado num vocalise em ritmo um tanto jazzíztico. Poderia ter gravado com a letra que Gilberto Gil compôs e nos livrar da inclusão de Palco, do mesmo autor, com a qual ele fecha o disco. Outro defeito é justamente a voz do cantor que parece, neste disco, inexata, talvez cansada. Não chega a desafinar, mas não se oferece límpida.

Felizmente, as virtudes vencem os defeitos com folga e, com isso, ouvir o disco acaba sendo uma experiência prazerosa.



Disfarça e chora (Cartola e Dalmo Castello)

sábado, 30 de outubro de 2010

Comentário sobre as eleições

Este texto deveria ter sido um comentário no blog do Bruno Ribeiro, mas foi ficando tão longo que resolvi publicá-lo aqui. Sugiro, àqueles que buscarem maior compreensão das coisas, que leiam o texto dele antes de continuar aqui.

Concordo que não é hora de a militância petista descansar, mas acredito que haja pouca chance de uma reviravolta no que indicam as pesquisas. A última chance dos tucanos, que poderia ter sido o debate da Globo, foi uma coisa tão idiota e inócua que acabou favorecendo a candidata do governo, já que não mudou a decisão prévia de ninguém, nem mesmo a indecisão dos indecisos.

Concordo, também, que esta foi a campanha mais baixa dentre as que presenciei e isso acabou provocando, em mim, se não alguma decepção, ao menos algumas surpresas.

Não me decepcionei com a mídia e com a maioria dos políticos envolvidos na campanha, pois já não nutria nenhuma ilusão a respeito do PSDB e de José Serra. Fiquei surpreso, entretanto, com o voto de alguns amigos que insistiram na opção tucana ou mesmo no voto em Marina, principalmente depois que a campanha tomou o rumo que tomou e que a sordidez da oposição ficou tão desmascarada.

Não cheguei a perder nenhum amigo, já que consegui respeitar a opinião diversa, embora tenha tido algumas discussões ríspidas com muitos deles. O texto do Bruno, entretanto, me alertou para o perigo de que algum amigo tenha me "perdido" já que no meu caso, corri um risco duplo, pois tive divergências nas duas direções. A maioria continua me cumprimentando e, até agora, nenhum deles mudou de lado na calçada ao me avistar andando na rua. Espero que isso não aconteça.

Vou votar em Dilma e vou torcer por sua vitória, mas, certamente, não vou sair por aí comemorando, já que não nutro uma expectativa tão otimista assim.

O lado positivo desta campanha (e desta vitória) vai ser a de soterrar uma parcela da classe política representada pelo DEM (ou PFL, ou PDS, ou ARENA, como queiram), mas isso ainda é pouco, em minha opinião. Se eu posso nutrir alguma esperança a respeito do futuro governo de Dilma é a de que outros grupos, tão maléficos como este, sejam, também, alijados da nossa realidade e tenham seu espaço diminuído. Foi magnífica a atuação da jovem militância petista, apesar da bobeada no final do primeiro turno. Gostaria, entretanto, de ver esta tenacidade da militância dirigida para que se soterrasse da vida pública, por exemplo, a hegemonia da família Sarney que, há muitos anos castiga o povo maranhense. Me incomoda muito perceber que Roseana só conseguiu ser eleita por causa do apoio de Lula, o que impediu a ida de Flávio Dino, do PC do B, para o segundo turno. O mesmo apoio garantiu a Renan Calheiros uma cadeira no Senado por Alagoas e impediu que Heloisa Helena conquistasse este espaço. E assim como estes casos, outras famílias e outros grupos dominam o Norte e o Nordeste, justamente as regiões em que Lula tem mais apoio e que levarão Dilma à vitória.

Estes grupos têm que ser dizimados da vida pública brasileira. Se isso não acontecer, teremos o Brasil de sempre, injusto, mesmo quando cresce. Dilma pode avançar neste sentido. E é neste sentido que alimento alguma esperança de que seu governo possa ser melhor que o de Lula. Do contrário, será mais uma decepção.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Ainda, as eleições

O caráter de Marina

Terminada a contagem dos votos, os dois candidatos classificados para o segundo turno correram em direção a Marina Silva para implorar seu apoio. Ela ouviu a ambos e disse que se manifestaria em 15 dias. Declarou que não quer se render ao velho jeito de fazer política. Ocorre que, ao pedir os tais 15 dias para se pronunciar, ela está fazendo exatamente o que há de mais antiquado em política, ou seja, entrar no jogo do toma lá, dá cá, negociando cargos de primeiro escalão em troca de apoio. Esta história de que quer checar qual das duas propostas tem mais compromisso com um desenvolvimento sustentável é pura balela. Ela sabe muito bem o que representam as candidaturas de Serra e de Dilma. Mais honesto seria fazer como fez Gabeira que já se bandeou pros lados dos tucanos (lado do qual, aliás, nunca saiu). Marina, entretanto, preferiu barganhar com o crédito que acredita ter, junto à sociedade, usando seus milhões de votos como garantia. Não acho que ela esteja com essa bola toda.

Acredito que sua votação tenha trêsorigens: primeiramente, o voto daqueles que se seduzem com o discurso ambientalista. Só que a posição destes eleitores é um tanto independente de Marina e, acredito, dividem-se ao meio, na hora de escolher entre Dilma e Serra. Em segundo lugar há os votos dos evangélicos e, neste caso, estou seguro que eles migrarão integralmente para o candidato da oposição. Por fim, há os votos daqueles que iriam votar em Dilma e entraram no conto da onda verde, certos de que a candidata governista estava com a vitória garantida.

Somando tudo isso, é bem possível que Serra obtenha, dos eleitores de Marina, mais votos do que Dilma. Mesmo assim, o mais provável é que a candidata de Lula se eleja. Principalmente se a coordenação da campanha petista não dormir no ponto, novamente.


A ressurreição de Serra

Muito menos por méritos próprios e mais pelos votos em Marina e de uma bobeada da coordenação da campanha petista, o candidato da oposição à presidência da república ganhou uma sobrevida. Junto com ela veio, de bandeja, uma onda de otimismo que, talvez, não tenha razão de ser.

Para provocar uma reviravolta nas tendências que se mostram, há mais de 6 meses, em favor da candidata governista, seriam necessários muito mais votos do que a parcela evangélica do eleitorado que foi desprezado pelo comando petista. Para vencer a eleição, Serra teria que fazer tudo o que não fez durante toda a campanha. Teria que desprender-se do DEM e escolher outro vice, teria que apresentar propostas mais consistentes e, mais do que isso, teria que apontar quais os aspectos negativos do governo Lula que ele corrigiria. Isso é uma missão impossível, já que, justamente o que há de mais criticável no atual governo é justamente aquilo que se assemelha ao governo FHC. É a condução da economia à moda Armínio Fraga, é o seu ministro da defesa, tucano até a última pena, é a política entreguista de seu ministro dos esportes, absolutamente subordinado aos interesses da CBF e ao COB, dos ilustres Ricardo Teixeira e Carlos Arthur Nuzman.

Para provocar uma reviravolta, ele teria que contar, realmente, com o apoio de Aécio Neves e nada indica que isso interesse ao político mineiro, já de olho em 2014 e já pensando em como disputar com Geraldo Alckmin, outro que, pela mesma razão, não tem nenhuma motivação para ajudar Serra.

Para vencer a eleição, Serra teria que não ser Serra.


Dilma, o PT e o salto alto

O resultado das eleições, aparentemente, causou certo desânimo na alma dos petistas e, sobretudo, na candidata à presidência. Provavelmente a decepção aconteça muito menos pelo resultado, absolutamente favorável, ainda, do que pela percepção de uma bobeada no finalzinho dos acréscimos do segundo tempo do jogo. E aí vem aquela enxurrada de justificativas, como a onda de boatarias sobre a suposta opinião da ex-ministra sobre o aborto, a bagunça do STF e a tentativa de manobra de Gilmar Mendes no lance dos documentos com foto, a tal da onda verde incensada pela mídia, enfim, alguns golpes baixos deferidos no final da luta.

A culpa, entretanto, é toda do PT e de sua soberba. Ou será que alguém imaginou que, na reta final, os golpes baixos não viriam? Será que não tinha ninguém no comando da campanha que fosse capaz de dizer que deveria ter sido feito um trabalho mais consistente com os eleitores evangélicos, ainda mais tendo um candidato ao senado ligado à igreja Batista? Alguém achou que a mídia, que operou suas ferramentas durante toda a campanha, iria arrefecer seu ânimo na reta final?

O que aconteceu é que o PT e sua candidata bobearam. Acreditaram que bastaria posar ao lado de Lula e estaria tudo resolvido. Como se ele fosse um santo milagreiro, já que muita gente o beatifica. De qualquer forma, isso não bastou. Não bastou e teremos uma disputa no segundo turno. E isso vai acontecer contra uma oposição que, aparentemente, encontrou o caminho do tesouro. Uma oposição que se encheu de otimismo.

Para vencer (e vencer ainda está fácil), a candidata e os petistas terão que ser mais diligentes, mais atentos, menos burros. E terão de descer do salto alto.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

O engodo Marina Silva

O debate de ontem, na Rede Globo, foi muito mais enfadonho do que eu poderia prever. Confirmou o que já se havia visto nos demais debates, com Dilma e sua crônica dificuldade de se expressar diante de câmeras e de platéias, e Serra, embora bastante à vontade no púlpito, herança dos anos de experiência em salas de aula, utilizou seu tempo e espaço sem pronunciar, ao menos, uma frase que tivesse alguma utilidade. De Plínio nem quero falar. Gostaria, apenas, de sinalizar minha tristeza ao vê-lo submeter uma biografia relativamente respeitável a um papel tão ridículo.

Se houve alguma utilidade no debate de ontem, foi a de mostrar a falta de consistência no discurso de Marina Silva.

Me causa grande estranheza o fato de ela ostentar mais de 10% da preferência do eleitorado como apontam as pesquisas. Custo a crer que essa pequena multidão esteja, realmente, seduzida por suas propostas. Só me resta acreditar que as razões da escolha de parte deste eleitorado sejam outras.

Se o motivo deste voto é levar Serra ao segundo turno, seria mais fácil, então, votar no candidato tucano de uma vez, sem precisar recorrer a um caminho tão indireto.

Pode haver, por parte do eleitorado, um desejo de que haja segundo turno, vontade absolutamente legítima para quem ainda não conseguiu avaliar propostas e definir com qual candidato mais se identifica. Para isso, não precisa votar em Marina. Pode-se votar em Plínio, em Emayel ou até mesmo em Levy Fidélis, aquele do trem voador e das dentaduras.

Pode ser, entretanto, que este eleitor se identifique com a causa ambientalista e com o discurso do PV. Se é esse o caso, o mais acertado é votar nos candidatos do partido para deputado e no Ricardo Young para senador, em São Paulo. Seria mais útil para a natureza e produziria, no Congresso, uma oposição mais respeitável do que temos hoje.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eleições e a imprensa

Em seu editorial de domingo, sob o título: “Todo poder tem limite”, a Folha de São Paulo reclama o direito de criticar o governo Lula e declara que procura manter uma orientação de independência, pluralidade e apartidarismo editoriais.

Quanto à primeira reclamação, sou solidário ao jornal, já que, eu também venho criticando, sistematicamente, alguns aspectos do governo Lula, embora por razões opostas às da Folha e, por causa disto, já fui tachado até de direitista. Mas insisto em minha defesa no direito de criticar o governo, sempre que ache apropriado, mesmo que isto contrarie a opinião da maioria. Uma maioria que vai votar em Dilma (como eu vou) e que vai votar em Tiririca, em Netinho e em Alckmin (como eu não vou).

A segunda declaração do editorial é uma mentira. A Folha não é independente, nem plural e muito menos apartidária. Suas reportagens e os textos escritos por seus colunistas são absolutamente tendenciosos. Antes que me interpretem mal, devo declarar que acho absolutamente lícito que um jornal assuma sua preferência na disputa eleitoral. A revista Carta Capital, por exemplo, declara com todas as letras, que apóia a candidatura de Dilma Rousseff e, em minha opinião, esta é uma posição mais honesta. A honestidade da revista, entretanto, não impede que eu me incomode com seu jornalismo “chapa branca”. Acho que a imprensa tem a obrigação de criticar, muito mais do que a de elogiar o governo (qualquer governo).

Na mesma linha da Folha, seguem as outras revistas semanais, com destaque para a Veja, que é a que mais escancaradamente imprime reportagens e notícias tendenciosas em suas páginas. Talvez, se a Veja conseguisse ser mais sutil, conseguiria ser mais eficiente no objetivo de dificultar a eleição de Dilma, mas sua atuação é tão escandalosamente anti-Dilma que isto acaba arranhando sua credibilidade. A Veja é a revista da classe média e a classe média vai eleger Dilma, assim como ajudou a eleger Lula, há 8 e há 4 anos. Isso é a maior prova de que sua estratégia não funciona.

Ainda na mesma toada, temos a Rede Globo, embora seja sua prática mudar de lado no momento em que percebe que não tem mais jeito e, ainda, consegue posar de aliada. Aconteceu isso no episódio do movimento das diretas já, aconteceu isso na derrocada de Collor e aconteceu o mesmo na primeira eleição de Lula que, logo após a sua posse, deu uma longa entrevista exclusiva às câmeras da emissora.

Assim como não acho que Lula seja um messias e nem considero Dilma a mãezona que os marqueteiros do partido tentam impingir ao eleitorado menos esclarecido. Assim como não acredito nas promessas desesperadas de Serra para conseguir chegar ao segundo turno, como não me encanta o discurso insosso de Marina, como me arrepia o papel patético de Plínio de Arruda Sampaio. Assim como nada disso me seduz e como não idolatro nenhum personagem desta novela, também não alimento ilusões a respeito de imprensa independente ou imparcial. O máximo com que eu poderia sonhar é com uma imprensa honesta, mas nem isso me parece realista. Na verdade, nada disso existe.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A divisão da esquerda

O escritor inglês George Orwell ficou bastante famoso por seus livros 1984 e Revolução dos bichos, mas em minha opinião seus textos mais instigantes são os que relatam sua experiência na guerra civil espanhola. Reunidos num mesmo volume e editados pela Globo, Lutando na Espanha reúne os textos Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra civil espanhola, além de outros escritos. O maior mérito da editora foi a de atender a uma determinação do autor, feita pouco antes de morrer, de que em uma segunda edição, os capítulos 5 e 11 de Homenagem a Catalunha fossem transformados em apêndices e colocados no final do livro. Com isso, queria dar ao texto mais linearidade, separando os capítulos dedicados à análise política, daqueles em que privilegiava a narração no campo de batalha.

Esta medida, de fato, tornou o livro muito mais ágil, o que não quer dizer que a leitura dos apêndices seja menos deliciosa do que os relatos bélicos. São delícias diferentes, como quindim e feijoada.

A guerra foi vencida pelos fascistas de Francisco Franco, principalmente devido à ajuda estrangeira que recebeu da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, enquanto a ajuda que a Rússia deu ao governo Espanhol foi muito mais frouxa. O governo contava, entretanto, com o engajamento de numerosos voluntários, idealistas do mundo todo, imbuídos de um pensamento libertário e de justiça social, mas que não foi suficiente para a vitória.

O que mais chama a atenção no relato de Orwell é a profunda divisão que a esquerda sofreu. Embora fosse claro, para todos, que o verdadeiro inimigo era a direita franquista, a partir de um determinado momento, o governo constituído, dominado pelos comunistas, dedicou mais esforços para combater os anarquistas e trotsquistas, seus antigos aliados no campo de batalha, do que os avanços das tropas fascistas. Esta atitude estava muito firmemente ligada às condições que Stalin impunha para continuar dando algum apoio ao governo espanhol.

Enquanto lia o livro, não pude deixar de me lembrar da esquerda brasileira na época da ditadura militar. Lembro-me, claramente, de longuíssimas discussões entre stalinistas e trotskistas ou entre militantes do PCB e do PCdoB, debaixo da mais brava repressão, como se o verdadeiro adversário não fosse o regime instaurado em 1964.

Sempre considerei este, o maior pecado da esquerda brasileira. A incapacidade de unir-se por uma causa comum, sempre contrastou, diametralmente, com a capacidade que os diversos segmentos da direita tinham de fazer acordos e conchavos. Enquanto aquela, embrenhava-se em posições sectárias, presas a um constante revisionismo ou a aventuras irresponsáveis, esta sempre mostrava-se apta a fazer todo tipo de conluio que fosse necessário para obter a vitória.

O segundo erro grosseiro da nossa esquerda sempre foi o de menosprezar a inteligência do adversário. Quantas vezes discuti com amigos que não concebiam a possibilidade de que houvesse vida inteligente no seio da direita. Não percebiam que, caso fosse composta apenas de beócios, jamais conseguiria manter-se tanto tempo no poder.

O que aconteceu na guerra da Espanha e o que sucedeu no Brasil, à época da ditadura militar, deve servir para que percebamos que, em matéria de política, sempre há muito o que aprender.

domingo, 5 de setembro de 2010

O pior do governo Lula

Apesar de reconhecer mais virtudes do que defeitos no governo Lula, sempre fiz questão de expressar minhas críticas e meu descontentamento com certos aspectos e setores de sua administração, embora isso tenha sempre provocado certo patrulhamento ideológico. Sigo, entretanto, convencido de que a crítica ainda é o melhor dos remédios para as doenças que afligem a política.

Próximo do fim e com a eleição de Dilma garantida, me parece este, o momento propício para tentar exprimir o que vi de pior em seu governo.

Reconheço e elogio a condução da política externa, principalmente quando foi focada na tarefa de tornar o Brasil mais versátil no que diz respeito ao comércio exterior, menos dependente da relação com os parceiros tradicionais, buscando novos mercados e, principalmente, colocando o nome do país numa posição de mais visibilidade, do ponto de vista comercial. Quando enveredou pelas questões políticas, entretanto, não foi, assim, tão feliz.

Teve a lucidez de frear a avidez privatizante dos governos anteriores, reequipando, tecnicamente, a Petrobras, tornando-a, novamente eficiente, embora não tenha conseguido (ou tentado) diminuir a cultura de corrupção que permeia as entranhas da estatal. Conduziu a economia de forma conservadora, o que levou o Brasil a escapar da crise de 2009, mas essa timidez na condução fez com que os avanços sociais, que existiram, reconheço, não tenham ocorrido na velocidade que todos desejávamos e que eu, particularmente, enxergo que seriam possíveis, dadas as condições políticas. Mais tímida ainda, foi sua posição em relação ao resgate de nossa história na questão dos direitos humanos vilipendiados na época da ditadura militar. Os dois exemplos de timidez foram bravamente defendidos pelo presidente do Banco Central e o Ministro da Defesa que, embora sejam filiados a partido da base governista, é difícil não identificar uma plumagem tucana sobre suas peles.

Pior foi a condução da política para os esportes conduzida pelo ministro Orlando Silva que, por ingenuidade, incompetência ou má fé, que seja, associou-se ao que há de mais antiquado e mais venal nesta área, capitaneada por Ricardo Teixeira da CBF e Carlos Arthur Nuzman do COB, com quem o governo nunca poderia ter se associado.

Muito pior do que tudo isso, entretanto, pior que as trapalhadas do Itamarati, que a condução frouxa da política de avanços sociais, pior do que a convivência com as más companhias no mundo do esporte e da política de forma geral, mais grave do que tudo isso, o pior, disparado, do que ocorreu no governo Lula, foi a atuação da oposição.

O PT sempre soube fazer oposição. Pode ter sido equivocado em alguns episódios, radical em outros, até mesmo ingênuo num sem número de situações. Sempre foi, porém, diligente e aguerrido. E mesmo em épocas em que era evidente que o PT não se elegeria para os cargos executivos, eu sempre defendi a necessidade de que tivéssemos, ao menos no legislativo, uma representação contundente da oposição. Acredito, firmemente, que foi isso que fortaleceu nossa democracia.

O que se viu, nestes 8 anos de governo Lula, infelizmente, foi uma oposição indolente, irresponsável ou colaboracionista, à esquerda e à direita.

À sinistra, grupelhos como PSOL ou PSTU não conseguiram, nem mesmo, resolver seus conflitos internos e nunca tiveram capacidade de mostrar à sociedade mais do que devaneios juvenis. À destra, PSDB e DEM nunca tiveram ânimo para imprimir uma oposição sistemática ao governo Lula.

Há dois elementos, fundamentalmente, que motivam um partido de oposição. O primeiro é ideológico, programático, movido pela convicção de que tenha uma proposta melhor do que a da situação. O segundo é, pura e simplesmente, o desejo de apropria-se do poder.

A motivação de PSDB e DEM encaixa-se no segundo caso, já que o governo Lula, sob o ponto de vista destes partidos, só teve o defeito de não ser deles. Nada que foi feito no governo do petista contrariou interesses dos componentes destes partidos e dos segmentos defendidos por eles. Ou alguém pode afirmar que os bancos e as grandes empreiteiras tiveram alguma perda nos últimos anos?

Sei que o momento é de comemoração para a militância petista e por isso, não tenho a ingenuidade de cobrar uma postura diferente daquela que os torcedores de futebol têm quando seu time é campeão, mesmo jogando feio. Sei que o momento é de comemorar. Só que tem outro campeonato no próximo ano e a folga com que Dilma será eleita, deveria servir de lastro para que ela pudesse governar com mais independência das relações políticas espúrias, como não foi o caso do governo Lula. Para que isso aconteça, será necessário que haja uma cobrança mais forte no sentido de que se imprima, de verdade, os avanços de que o Brasil precisa. Não tenho esperanças de que essa pressão venha da oposição instituída. Pode parecer absurdo (e é), mas a oposição ao governo terá de vir de dentro do próprio governo.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Preconceito e ignorância

O amigo Bruno Ribeiro escreveu em seu blog, um bom texto a respeito de preconceito, com pinceladas específicas em relação ao presidente Lula. Minha opinião a respeito do preconceito, em geral, é muito parecida com o que ele colocou.

Embora concorde quando ele fala que as respostas céticas de seus interlocutores a respeito do tema sejam conformistas, sou obrigado a reconhecer que elas são verdadeiras. O preconceito existe sim e não há sinal de que esteja diminuindo.

O preconceito, pra mim, é pura ignorância. Simples assim. É expressão de quem emite juízo de valor sem conhecimento de causa. É opinião baseada em impressões desprovidas de saber. Assim, as pessoas podem achar que todo preto é burro, todo nordestino é preguiçoso, toda mulher é histérica, todo evangélico é babaca, todo careca é trouxa, todo feio é triste, enfim, sem o conhecimento, sem o saber, é possível achar qualquer coisa, caso não se tenha alguma preocupação em ser justo.

Mais grave do que isso, entretanto, é quando o saber existe e, mesmo assim, expressam-se os mesmos juízos. Aí não é mais preconceito. Aí já é falha de caráter, pois mesmo sabendo que a opinião não está suportada por informação consistente, percebe-se a contínua insistência na tese, aproveitando-se, até, do preconceito alheio. Um determinado preto pode até ser burro, mas não o é por ser preto. Seria, mesmo que fosse ariano. Um nordestino preguiçoso seria assim mesmo se tivesse nascido gaúcho. Um evangélico babaca não seria diferente se fosse espírita.

Meu pessimismo me leva a acreditar que o preconceito não terá fim. Se otimista eu fosse, conseguiria, no máximo, enxergar o fim do preconceito como uma utopia. O caminho seria, então, a educação, seria o saber, seria o conhecimento. Desta forma, com a sabedoria adquirida, só sobrariam os sem caráter a emitir opiniões baseadas no nada. Infelizmente, me parece que a aquisição do conhecimento é alguma coisa mais utópica do que o fim do preconceito.

Especificamente, em relação ao presidente Lula, reconheço que a carga de críticas que cai sobre ele é pesadamente suportada pelo preconceito. Sempre combati isso, nas conversas em geral, com extrema rispidez, mesmo porque sinto um enorme incômodo em ser confundido com um preconceituoso quando faço alguma crítica a ele ou ao seu governo. Os poucos leitores que este blog coleciona são testemunhas do quanto tenho criticado o governo petista. Por causa disto já fui chamado de conservador, de direitista, de babaca, ora aqui, ora ao vivo. Até aí, tudo bem. Já me chamaram de tanta coisa na vida, sem que eu fosse (embora algumas eu tenha sido mesmo), que não é isso o que mais importa. O que me importa é que a carga de preconceito que cai sobre os ombros do nosso presidente faz com que todos que achem acertado criticá-lo, acabem sendo juntados num mesmo balaio, com gatos de bandos distintos.

Sigo, entretanto, firme em minha convicção de que a crítica é a ferramenta mais eficaz na depuração de problemas e não posso abrir mão da liberdade de fazê-la. Vou continuar buscando esta depuração, mesmo porque, acredito que isso seja mais importante do que os eventuais rótulos que me coloquem no peito.