Como em um filme, numa
troca de planos rápida, avança até o século XIX, para tratar da figura de
Charles Darwin, pai da teoria da evolução, posição diametralmente oposta à
mística criacionista. Aos 29 anos, Darwin caminhava para o presumível último
quarto de sua vida, já que àquela época, o tempo de vida médio do ser humano
não ultrapassava os 40 anos (ele, na verdade, viveu bem mais do que isso). Não
era, portanto, o momento de decidir se deveria, ou não, se casar. Contrariando,
porém, o costume da época e, refletindo entre prós e contras, ele toma a
decisão de casar-se.
Num dos extremos da
dicotomia entre fé e ciência, o cientista conclui, assim como o criador do
universo, que não é bom que o homem
esteja só (que é, aliás, o título do primeiro capítulo). A partir daí,
Karnal parte para uma investigação a respeito da validade (ou não) desta
afirmação. Para fazer isso, busca, de forma consistente, entender, exatamente,
o que seja a solidão. Avança, mais uma vez, no tempo e chega aos dias atuais ao
utilizar, para alcançar este entendimento, duas realidades bastante conhecidas
de todos nós: o casamento e as relações pessoais nas redes sociais. O segundo
capítulo, aliás, em minha opinião o melhor de todos, trata, justamente, deste
mundo virtual e intitula-se A solidão
entre milhões.
Partindo da observação
do cotidiano, conclui que nunca estivemos tão conectados a tanta gente e, ao
mesmo tempo, com tão pouca interação real. E, neste caso, interação real não se
refere, apenas, aos relacionamentos ao vivo, em carne e osso, com outras
pessoas, mas, sobretudo, ao formato que este meio propicia. O principal fator
que falseia a realidade na forma de interagir através da rede é a possibilidade
de sermos os “donos” da relação.
Adicionamos, curtimos e
seguimos somente quem pensa como nós. Em referência àqueles cujas opiniões não
coincidem com as nossas temos várias opções: desde ignorar até apagar o
contato. Com isso, em lugar de interagir com outras pessoas, estamos, na
verdade, interagindo com nós mesmos e, assim, ao invés de evoluirmos,
internamente, através da exposição à diversidade de ideias, apenas reforçamos
nossos próprios valores e convicções, ao mesmo tempo que sedimentamos nossos
defeitos e preconceitos.
Ao analisar o
casamento, ele conceitua o que chama de solidão a dois, que é aquela situação
pela qual alguns casais passam quando a chama da paixão se esvai. Se a relação
se sustentava apenas devido a este fogo, se não havia nenhum outro ingrediente,
como admiração, por exemplo, a convivência passa a ser tão ou mais solitária do
que a que ocorria antes de encontrar a pessoa amada.
Na busca do
entendimento do que seja a condição de estar sozinho, chega a duas definições,
parecidas, porém opostas: a de solidão e de solitude.
Em minha opinião, a
melhor e mais fácil definição que diferencia estas duas palavras vem do teólogo
alemão Paul Tillich:
Solidão expressa a dor por estar sozinho.
Solitude expressa o prazer de estar sozinho.
A partir deste ponto, o
autor passa a enumerar exemplos de situações consideradas positivas em estar
sozinho. Aborda a falsa solidão que é aquela em que a gente se encontra quando
está absorto durante a leitura de um livro. Não há nada de solidão nesta
atividade. É justamente nesses momentos que estamos travando um colóquio
poderoso com o autor do livro e com o “eu mesmo”, o eu verdadeiro, o outro eu,
que, muitas vezes, não conhecemos ou do qual nos escondemos.
Ele recorre, novamente,
aos exemplos religiosos para mostrar que os momentos mais importantes das
existências de Jesus Cristo, de Moisés e de Maomé, ocorreram quando eles
estavam sozinhos no deserto, num monte isolado ou numa caverna.

Este sexto capítulo,
intitulado As solitárias, trata da
utilização da solidão como forma de punição nas instituições carcerárias. Demonstra, através de estudos científicos e de depoimentos de vítimas, que a
imposição compulsória da solidão pode ser até mais nociva ao ser humano que a
tortura física. Aliás, a prática da solitária, como penalidade nas
penitenciárias, já foi abolida em quase todo o mundo civilizado. Os Estados
Unidos e o Brasil são dois exemplos, porém, de países em que ela é utilizada em
larga escala.
O título do livro, O dilema do porco espinho – como encarar a solidão, é uma referência à metáfora, criada pelo filósofo alemão Arthur
Schopenhauer, para ilustrar o problema da convivência humana. Publicada como
uma parábola em sua obra Parerga e
Paralipomena, em 1851, acabou ficando famosa, apesar de ser considerada um
texto menor do filósofo. Num ambiente de frio extremo, os animais costumam
juntar seus corpos, uns aos outros, para se aquecer e, com isso, ficar numa situação mais confortável. Este conforto, obviamente, não se aplica aos porcos
espinhos. Daí o dilema.
Na conclusão do livro,
estar sozinho não é, necessariamente, uma coisa boa ou ruim. Pode ser qualquer
uma delas ou ambas, dependendo da situação. Solidão ou solitude, a elas todos
nós estamos sujeitos. Basta saber como encará-las.
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