Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Eleições e a imprensa

Em seu editorial de domingo, sob o título: “Todo poder tem limite”, a Folha de São Paulo reclama o direito de criticar o governo Lula e declara que procura manter uma orientação de independência, pluralidade e apartidarismo editoriais.

Quanto à primeira reclamação, sou solidário ao jornal, já que, eu também venho criticando, sistematicamente, alguns aspectos do governo Lula, embora por razões opostas às da Folha e, por causa disto, já fui tachado até de direitista. Mas insisto em minha defesa no direito de criticar o governo, sempre que ache apropriado, mesmo que isto contrarie a opinião da maioria. Uma maioria que vai votar em Dilma (como eu vou) e que vai votar em Tiririca, em Netinho e em Alckmin (como eu não vou).

A segunda declaração do editorial é uma mentira. A Folha não é independente, nem plural e muito menos apartidária. Suas reportagens e os textos escritos por seus colunistas são absolutamente tendenciosos. Antes que me interpretem mal, devo declarar que acho absolutamente lícito que um jornal assuma sua preferência na disputa eleitoral. A revista Carta Capital, por exemplo, declara com todas as letras, que apóia a candidatura de Dilma Rousseff e, em minha opinião, esta é uma posição mais honesta. A honestidade da revista, entretanto, não impede que eu me incomode com seu jornalismo “chapa branca”. Acho que a imprensa tem a obrigação de criticar, muito mais do que a de elogiar o governo (qualquer governo).

Na mesma linha da Folha, seguem as outras revistas semanais, com destaque para a Veja, que é a que mais escancaradamente imprime reportagens e notícias tendenciosas em suas páginas. Talvez, se a Veja conseguisse ser mais sutil, conseguiria ser mais eficiente no objetivo de dificultar a eleição de Dilma, mas sua atuação é tão escandalosamente anti-Dilma que isto acaba arranhando sua credibilidade. A Veja é a revista da classe média e a classe média vai eleger Dilma, assim como ajudou a eleger Lula, há 8 e há 4 anos. Isso é a maior prova de que sua estratégia não funciona.

Ainda na mesma toada, temos a Rede Globo, embora seja sua prática mudar de lado no momento em que percebe que não tem mais jeito e, ainda, consegue posar de aliada. Aconteceu isso no episódio do movimento das diretas já, aconteceu isso na derrocada de Collor e aconteceu o mesmo na primeira eleição de Lula que, logo após a sua posse, deu uma longa entrevista exclusiva às câmeras da emissora.

Assim como não acho que Lula seja um messias e nem considero Dilma a mãezona que os marqueteiros do partido tentam impingir ao eleitorado menos esclarecido. Assim como não acredito nas promessas desesperadas de Serra para conseguir chegar ao segundo turno, como não me encanta o discurso insosso de Marina, como me arrepia o papel patético de Plínio de Arruda Sampaio. Assim como nada disso me seduz e como não idolatro nenhum personagem desta novela, também não alimento ilusões a respeito de imprensa independente ou imparcial. O máximo com que eu poderia sonhar é com uma imprensa honesta, mas nem isso me parece realista. Na verdade, nada disso existe.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A divisão da esquerda

O escritor inglês George Orwell ficou bastante famoso por seus livros 1984 e Revolução dos bichos, mas em minha opinião seus textos mais instigantes são os que relatam sua experiência na guerra civil espanhola. Reunidos num mesmo volume e editados pela Globo, Lutando na Espanha reúne os textos Homenagem à Catalunha e Recordando a guerra civil espanhola, além de outros escritos. O maior mérito da editora foi a de atender a uma determinação do autor, feita pouco antes de morrer, de que em uma segunda edição, os capítulos 5 e 11 de Homenagem a Catalunha fossem transformados em apêndices e colocados no final do livro. Com isso, queria dar ao texto mais linearidade, separando os capítulos dedicados à análise política, daqueles em que privilegiava a narração no campo de batalha.

Esta medida, de fato, tornou o livro muito mais ágil, o que não quer dizer que a leitura dos apêndices seja menos deliciosa do que os relatos bélicos. São delícias diferentes, como quindim e feijoada.

A guerra foi vencida pelos fascistas de Francisco Franco, principalmente devido à ajuda estrangeira que recebeu da Alemanha de Hitler e da Itália de Mussolini, enquanto a ajuda que a Rússia deu ao governo Espanhol foi muito mais frouxa. O governo contava, entretanto, com o engajamento de numerosos voluntários, idealistas do mundo todo, imbuídos de um pensamento libertário e de justiça social, mas que não foi suficiente para a vitória.

O que mais chama a atenção no relato de Orwell é a profunda divisão que a esquerda sofreu. Embora fosse claro, para todos, que o verdadeiro inimigo era a direita franquista, a partir de um determinado momento, o governo constituído, dominado pelos comunistas, dedicou mais esforços para combater os anarquistas e trotsquistas, seus antigos aliados no campo de batalha, do que os avanços das tropas fascistas. Esta atitude estava muito firmemente ligada às condições que Stalin impunha para continuar dando algum apoio ao governo espanhol.

Enquanto lia o livro, não pude deixar de me lembrar da esquerda brasileira na época da ditadura militar. Lembro-me, claramente, de longuíssimas discussões entre stalinistas e trotskistas ou entre militantes do PCB e do PCdoB, debaixo da mais brava repressão, como se o verdadeiro adversário não fosse o regime instaurado em 1964.

Sempre considerei este, o maior pecado da esquerda brasileira. A incapacidade de unir-se por uma causa comum, sempre contrastou, diametralmente, com a capacidade que os diversos segmentos da direita tinham de fazer acordos e conchavos. Enquanto aquela, embrenhava-se em posições sectárias, presas a um constante revisionismo ou a aventuras irresponsáveis, esta sempre mostrava-se apta a fazer todo tipo de conluio que fosse necessário para obter a vitória.

O segundo erro grosseiro da nossa esquerda sempre foi o de menosprezar a inteligência do adversário. Quantas vezes discuti com amigos que não concebiam a possibilidade de que houvesse vida inteligente no seio da direita. Não percebiam que, caso fosse composta apenas de beócios, jamais conseguiria manter-se tanto tempo no poder.

O que aconteceu na guerra da Espanha e o que sucedeu no Brasil, à época da ditadura militar, deve servir para que percebamos que, em matéria de política, sempre há muito o que aprender.

domingo, 5 de setembro de 2010

O pior do governo Lula

Apesar de reconhecer mais virtudes do que defeitos no governo Lula, sempre fiz questão de expressar minhas críticas e meu descontentamento com certos aspectos e setores de sua administração, embora isso tenha sempre provocado certo patrulhamento ideológico. Sigo, entretanto, convencido de que a crítica ainda é o melhor dos remédios para as doenças que afligem a política.

Próximo do fim e com a eleição de Dilma garantida, me parece este, o momento propício para tentar exprimir o que vi de pior em seu governo.

Reconheço e elogio a condução da política externa, principalmente quando foi focada na tarefa de tornar o Brasil mais versátil no que diz respeito ao comércio exterior, menos dependente da relação com os parceiros tradicionais, buscando novos mercados e, principalmente, colocando o nome do país numa posição de mais visibilidade, do ponto de vista comercial. Quando enveredou pelas questões políticas, entretanto, não foi, assim, tão feliz.

Teve a lucidez de frear a avidez privatizante dos governos anteriores, reequipando, tecnicamente, a Petrobras, tornando-a, novamente eficiente, embora não tenha conseguido (ou tentado) diminuir a cultura de corrupção que permeia as entranhas da estatal. Conduziu a economia de forma conservadora, o que levou o Brasil a escapar da crise de 2009, mas essa timidez na condução fez com que os avanços sociais, que existiram, reconheço, não tenham ocorrido na velocidade que todos desejávamos e que eu, particularmente, enxergo que seriam possíveis, dadas as condições políticas. Mais tímida ainda, foi sua posição em relação ao resgate de nossa história na questão dos direitos humanos vilipendiados na época da ditadura militar. Os dois exemplos de timidez foram bravamente defendidos pelo presidente do Banco Central e o Ministro da Defesa que, embora sejam filiados a partido da base governista, é difícil não identificar uma plumagem tucana sobre suas peles.

Pior foi a condução da política para os esportes conduzida pelo ministro Orlando Silva que, por ingenuidade, incompetência ou má fé, que seja, associou-se ao que há de mais antiquado e mais venal nesta área, capitaneada por Ricardo Teixeira da CBF e Carlos Arthur Nuzman do COB, com quem o governo nunca poderia ter se associado.

Muito pior do que tudo isso, entretanto, pior que as trapalhadas do Itamarati, que a condução frouxa da política de avanços sociais, pior do que a convivência com as más companhias no mundo do esporte e da política de forma geral, mais grave do que tudo isso, o pior, disparado, do que ocorreu no governo Lula, foi a atuação da oposição.

O PT sempre soube fazer oposição. Pode ter sido equivocado em alguns episódios, radical em outros, até mesmo ingênuo num sem número de situações. Sempre foi, porém, diligente e aguerrido. E mesmo em épocas em que era evidente que o PT não se elegeria para os cargos executivos, eu sempre defendi a necessidade de que tivéssemos, ao menos no legislativo, uma representação contundente da oposição. Acredito, firmemente, que foi isso que fortaleceu nossa democracia.

O que se viu, nestes 8 anos de governo Lula, infelizmente, foi uma oposição indolente, irresponsável ou colaboracionista, à esquerda e à direita.

À sinistra, grupelhos como PSOL ou PSTU não conseguiram, nem mesmo, resolver seus conflitos internos e nunca tiveram capacidade de mostrar à sociedade mais do que devaneios juvenis. À destra, PSDB e DEM nunca tiveram ânimo para imprimir uma oposição sistemática ao governo Lula.

Há dois elementos, fundamentalmente, que motivam um partido de oposição. O primeiro é ideológico, programático, movido pela convicção de que tenha uma proposta melhor do que a da situação. O segundo é, pura e simplesmente, o desejo de apropria-se do poder.

A motivação de PSDB e DEM encaixa-se no segundo caso, já que o governo Lula, sob o ponto de vista destes partidos, só teve o defeito de não ser deles. Nada que foi feito no governo do petista contrariou interesses dos componentes destes partidos e dos segmentos defendidos por eles. Ou alguém pode afirmar que os bancos e as grandes empreiteiras tiveram alguma perda nos últimos anos?

Sei que o momento é de comemoração para a militância petista e por isso, não tenho a ingenuidade de cobrar uma postura diferente daquela que os torcedores de futebol têm quando seu time é campeão, mesmo jogando feio. Sei que o momento é de comemorar. Só que tem outro campeonato no próximo ano e a folga com que Dilma será eleita, deveria servir de lastro para que ela pudesse governar com mais independência das relações políticas espúrias, como não foi o caso do governo Lula. Para que isso aconteça, será necessário que haja uma cobrança mais forte no sentido de que se imprima, de verdade, os avanços de que o Brasil precisa. Não tenho esperanças de que essa pressão venha da oposição instituída. Pode parecer absurdo (e é), mas a oposição ao governo terá de vir de dentro do próprio governo.