Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

sábado, 14 de maio de 2016

PRIVATIZAÇÃO x PRIVATARIA

Conceitualmente, não sou contra a ideia de privatizações. O que me preocupa é a privataria. Explico.

Imaginemos a seguinte situação:

Uma família bem convencional: pai, mãe, filhos, netos, irmãos, cunhados, genros, noras, primos, todos vivendo numa mesma casa. Uma casa suficientemente grande pra acomodar tão numerosa família. Alguns com bons empregos, alguns com empregos nem tanto, outros procurando emprego. Convivência, ora pacífica, ora turbulenta. Conversas, por vezes, serenas, outras vezes intempestivas. Tudo dentro da normalidade de uma família como qualquer outra.

Tempos de crise econômica, o pessoal se virando, tentando se equilibrar. Apesar da felicidade de ter a boa casa, herdada do bisavô, que acolhe a todos, a vida está dura, está difícil. Todo mundo tentando ajudar, como pode, nos gastos da casa. Até que alguém se lembra do carro.

Sim, há um carro na garagem. Um carro potente, bonito, vistoso. Um carro importado, caro, custoso. Um carro que ninguém utiliza, gasta muito combustível. Difícil de pagar o imposto, o seguro, a manutenção. Melhor deixar na garagem, dizem uns. Não, melhor seria vender, dizem outros. As opiniões divergem, as discussões se acaloram. Argumentos pululam:

- O carro era o xodó do nono, diz uma tia.
- Ele está ocupando muito espaço na casa, pontua um genro.
- A cor é horrível, protesta a sobrinha, contribuindo para a discussão.

Um ou outro sopapo é desferido. A turma do “deixa disso” apazigua os ânimos.

Melhor votar. Afinal, a escolha da maioria ainda é o menos pior entre os critérios quando se sabe que o consenso nunca vai ser alcançado. Votação apertada, a decisão de vender o carro vence. Alguns protestam, querem refazer a votação. Voto de cunhado não vale. Enfim, passado o momento de exaltação, concluem, vencedores e vencidos, que é melhor assim. O dinheiro vai ajudar na manutenção da casa.

Alguém tem que assumir esta tarefa. Escolhem um primo:

- Ele é bom de lábia, salienta uma irmã.
- Pena que não a usa pra arrumar um emprego, alfineta a sobrinha.
- Vi numa tabela que vale muito.
- Tem que anunciar na Internet.
- Podíamos pintar de rosa, pra valorizar.

O primo agradece as contribuições e declara: - deixa comigo!

Encontrar um comprador acaba por se mostrar tarefa fácil. De fato, o carro é valioso. Bastante gente mostra interesse. Valor bem maior do que todos esperavam. Faz a escolha pela melhor oferta e pronto. 'bora fechar o negócio.

Na hora de selar o acordo, vem a ideia mirabolante na cabeça do diligente primo:

- Eu te dou um desconto de 5% se você topar colocar, no recibo, a metade do valor.
- Como assim? E o resto?
- A outra metade você paga pra mim, por fora.
- Isso está errado. Assim eu não topo.
- Então não tem negócio.

Procura um outro interessado, que havia feito a segunda melhor oferta. O sujeito também não aceita. O terceiro topa. Fecham o negócio.

O primo volta pra casa com o cheque visado pelo banco. Ar de vitorioso. O valor é um pouco menor do que todos esperavam. Fazer o que? É a crise.



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