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quarta-feira, 6 de junho de 2007

Justificativa à intolerância

O livro O Mito das Nações, de Patrick J. Geary, procura justamente desmistificar a noção de nacionalismo que vem sendo utilizada, ao longo dos tempos, pra justificar inúmeros conflitos bélicos em todo o mundo. Desde a II guerra mundial, até os mais recentes conflitos no leste europeu ou no oriente médio, o nacionalismo vem sendo usado como motivação para justificar a intolerância que sempre serve de estopim para deflagrar as mais variadas guerras.

O livro nos mostra que as noções de nacionalismo, utilizadas, não se sustentam em si e não resistem a uma análise historicamente mais consistente. Mostra ainda que a formação das nações, desde o longínquo império romano, passando pelas invasões bárbaras, deveu-se menos a questões de etnia ou religião, do que a interesses comerciais e de detenção de poder.

Isso me fez lembrar uma passagem ocorrida, alguns anos atrás, numa visita que fiz a uma fábrica em Santa Catarina. Vi um operário com uma camiseta defendendo o separatismo dos estados da Região Sul do resto do Brasil. Não resisti e fui conversar com o rapaz. O que ele defendia era a teoria de que, por serem mais ricos, os estados do Sul não deveriam “sustentar” os estados pobres do Norte e do Nordeste e que, se fossem um país independente, sua população teria maior bem estar.

Eu argumentei que, mesmo que isso fosse verdade, a solução não é assim tão simples. Mesmo porque, o próximo passo, após a separação, seria a constatação de que, dos três estados, um deles seria o mais desenvolvido e rico. O Estado de Santa Catarina, por exemplo, poderia considerar-se superior aos demais estados e isso ensejaria um movimento de separação. E se acaso isso acontecesse, seguindo a mesma lógica, alguma cidade de Santa Catarina iria se sentir superior ao restante do estado. Assim, o município de Joinville, por exemplo, poderia iniciar um processo de separação do resto do estado e depois disso, um determinado bairro, uma rua, uma quadra.

A solução não tem essa direção. Muito pelo contrário. Em minha opinião, o caminho certo é o inverso. A diversidade enriquece e proporciona maiores possibilidades de crescimento. E mesmo que respeitemos a diversidade cultural (e devemos respeitá-la), as populações não devem ser segregadas em função de hábitos ou origem geográfica. Sendo assim, devemos estimular a convivência entre o gaúcho e o potiguar. Entre o mineiro e o acreano. E vou mais longe ainda. Devemos buscar a integração entre as populações do Brasil e dos demais países da América do Sul. A convivência do nosso povo com o povo boliviano ou venezuelano deve ser estimulada. Isso é muito mais importante que as relações entre os governos dos países. Pois o povo do Brasil é mais importante do que Lula, como o povo da Venezuela é mais importante do que Hugo Chaves e mesmo o povo norte-americano tem mais importância do que Bush.

O que divide os homens não é a religião, nem a etnia e muito menos a origem geográfica. O que divide os homens, de verdade, é a classe social. Nesse sentido, nossa população miserável está tão ligada aos moradores pobres de New Orleans quanto a elite da Avenida Paulista está próxima do pessoal de Wall Steet. E da mesma maneira, um eventual bom relacionamento entre o governo Lula e o governo de Fidel Castro não garantem a integração entre o povo brasileiro e o povo cubano.


Esta integração deve ser buscada pela sociedade e isso só vai ser possível no dia em que a intolerância e o preconceito (como sempre, burro) forem vencidos.

6 comentários:

Bruno Ribeiro disse...

Perfeito, como sempre! Gosto de suas análises ponderadas e profundamente humanas. Se gente como você tivesse nascido para a política, estávamos feitos!

Quanto ao nacionalismo: também estou de acordo. Porém, gostaria de ouvir sua opinião sobre o povo cubano - não sei se você já esteve em Cuba. O que encontrei por lá foi um povo extremamente patriota, mas ao mesmo tempo profundamente internacionalista, pronto para receber ou mesmo defender os povos oprimidos do mundo. Tanto é verdade que mais de 5 mil cubanos deixaram suas vidas em Angola, lutando pela independência do país africano; na Nicarágua foram 2 mil; na Guatemala, se não me engano, 700 cubanos perderam suas vidas num campo de batalha estrangeiro; em 1992, uma equipe de médicos cubanos veio ao Brasil para erradicar, sem cobrar um único centavo, um surto de febre amarela que estava dizimando a população pobre de Niterói. Nessa cidade não há nenhuma empresa cubana operando. O único pedido de Fidel à prefeitura de Niterói foi que se construísse uma praça dedicada ao poeta José Martí, mártir da independência cubana. E lá está a praça e o monumento! Ou seja, o nacionalismo cubano é assim, vinculado ao orgulho, ao patriotismo, mas nunca ao separatismo ou à xenofobia.

Abraços!

Diego Moreira disse...

Arnaldo, ia comentar alguma coisa mas senti que ia virar um texto...
Então, em breve, meu comentário vai aparecer lá no geografias suburbanas.
Excelente texto!
Abraços!

Claudia Lyra disse...

Você tem toda a razão, Arnaldo. Se bem que acho que a religião, ou melhor, a intolerância religiosa, é fator importante de divisão, separa os povos dentro de um mesmo país. Coisa triste.

marcia disse...

o conceito de nação é muito mais um conceito legal do que uma noção de identidade. todos os estudos de identidade acabam provando que a subjetividade do homem contemporâneo se dá por identificação em comunidades, e que estas comunidades, hoje, estão espalhadas pelo mundo e são pontuais, por interesses (por religião, por crença, por ideal político, por gosto estético, por algum interesse mais "tribal" que faz com que você se associe a inúmeras comunidades). tanto que hoje preferimos falar em subjetividade identitária, em vez de identidade (como algo mais rígido, que na verdade não existe).

quanto ao separatismo, esta idéia nunca foi levada a sério no Rio Grande do Sul. foi superestimada por algumas pessoas, mas nunca passou de delírio de poucos. :)

Vivien disse...

Tenho sempre ressalvas a discursos demasiado "nacionalistas", em geral, com tendências bélicas e ou "messiânicas".
Gostei da sua análise e compactuo com sua interpretação.

Diego Moreira disse...

aqui, meu camarada, o comentário/texto motivado por essa sua bela postagem.

Um abraço solidário!