Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Prazer na leitura

Todo texto linear, bem ordenado, com princípio, meio e fim, oferece muito conforto para qualquer leitor, até mesmo os menos treinados neste hábito. Características assim são muito boas de se encontrar em textos jornalísticos, livros didáticos ou bulas de remédio. Em literatura, porém, alguma dose de inovação, um pouco de divagação, enfim, qualquer coisa que desafie o leitor a sair da linha reta e force a mente a pensar fora da caixa é sempre bem-vinda.

Lembro-me do desconforto que senti ao ler meu primeiro Saramago. Acho que foi O Evangelho Segundo Jesus Cristo. Aquela forma de utilizar as vírgulas e as letras maiúsculas, em lugar do travessão, para indicar os diálogos, causaram-me algum susto, mas, depois, aquilo passou a parecer normal, minha mente se acostumou e o prazer com a leitura se instalou em mim.

Pois foi exatamente esta mesma sensação que experimentei ao ler Mamma, son tanto Felice, de Luiz Ruffato, o primeiro dos 5 volumes que compõem a coleção Inferno Provisório.

Lançado em 2005, este primeiro livro não foi fácil de ser encontrado, já que estava esgotado em todas as livrarias que procurei (reais e virtuais). Já havia adquirido os demais volumes e para iniciar a leitura pelo começo apelei para um site de livros usados, a Estante Virtual. O dono anterior, ao que parece, não se interessou nem mesmo por folheá-lo, já que o livro chegou em estado impecável. Talvez tenha ganhado de presente do amigo secreto da firma. Talvez preferisse ter ganho um livro de autoajuda. Enfim, pude colocá-lo à frente dos outros quatro na minha estante.

O pouco que conhecia do texto de Luiz Ruffato eram suas colunas no jornal El País Brasil. Gosto de lê-las e, a partir de uma entrevista no rádio, interessei-me pelo projeto Inferno Provisório, cujo objetivo é falar da formação e evolução do proletariado brasileiro, desde os anos 50 até o início do século 21, por meio da saga de uma comunidade de imigrantes italianos e seus descendentes, no interior de Minas Gerais e na cidade de São Paulo, conforme li numa reportagem sobre o escritor.

Este primeiro volume presta-se a mostrar a formação desta comunidade e a forma que o autor encontrou para evidenciar a disparidade entre os personagens foi apresentá-los de maneira destacada de uma narrativa linear e encadeada. Reside aí a razão do desconforto inicial com a leitura. A história de cada personagem é quebrada para dar início à narrativa de uma outra, repetidamente.

Aos poucos, porém, esta sucessão de quebras deixa de incomodar e, em lugar disso, colabora para que se construa uma crescente curiosidade a respeito do que virá nos próximos volumes.


domingo, 18 de outubro de 2015

Lusofonia

“O pai agarrou nele e levou-o ao quarto de uma empregada, a mais nova e a mais bonita da casa.
– Agora vais fazê-la, aqui, à minha frente.
A criadita estava assustada, claro, mas o estranho é que parecia que ela estava assustada com ele, e não com o pai: era o facto de Lenz ser um adolescente que assustava a criadita e não a violência com que o pai a disponibilizava ao filho, sem qualquer pudor, sem sequer ter o cuidado de sair. O pai queria ver.
 – Vais fazê-la à minha frente – repetia.
Estas palavras do pai marcaram Lenz durante anos. Vais fazê-la.”

Este é o primeiro trecho do livro Aprender a rezar na Era da Técnica, de Gonçalo M. Tavares. Encontrei-o numa livraria de Lisboa, procurando título de outro Tavares, o Miguel Sousa, e peguei-o por erro. Bastou ler este primeiro trecho para decidir comprá-lo.

Os portugueses são muito ciosos de seus escritores e tecem loas aos mais clássicos e famosos, como Camões, Eça de Queiroz, Fernando Pessoa e José Saramago. Há nas estantes de suas livrarias, entretanto, espaço para muitos outros escritores de língua lusófona, inclusive brasileiros, diferentemente das lojas daqui. Com isso, é possível encontrar nas livrarias da capital portuguesa obras de escritores de Angola, como Gonçalo.   

Escrito em três partes, Força, Doença e Morte, mostra o protagonista, Lenz Buchmann em dois momentos, primeiro como o médico mais competente da cidade e, depois, como um político poderoso e influente. Cada parte do livro é dividida em vários capítulos e cada capítulo, também, subdividido em outros. Isso torna a leitura ágil e dinâmica, sem tirar-lhe a intensidade.

Ao longo de toda a narrativa, ou seja, em qualquer das três partes e em qualquer dos dois momentos, o traço mais marcante do caráter do personagem manteve-se intacta: sua arrogância. Por isso, nem quando ele estava salvando vidas com sua perícia cirúrgica e nem quando estava enfraquecido, à beira da morte, o leitor é levado a ter qualquer sentimento de simpatia ou piedade por ele.

Não só no Brasil, a literatura feita em língua portuguesa mostra-se pungente. Nada como viajar para descobrir isso e, assim, abrir-se para uma viagem mais poderosa que é a leitura.

sábado, 3 de outubro de 2015

Sentir, mais que entender

Certa vez comentei com um amigo que era impossível viver com uma mulher que não gostasse de João Gilberto. Nem me lembro se ele concordou comigo, mas isso pouco importa. O que importa é que eu realmente acreditava nisso naquela época e, talvez, ainda acredite hoje.

Sei que há pessoas que não gostam de João Gilberto e há, aliás, quem o odeie. Tenho muita dificuldade em entender isso, assim como tenho a mesma dificuldade em entender como alguém possa gostar destas duplas modernas de música sertaneja ou da chamada música techno. Esta minha dificuldade deve-se, muito provavelmente, à escolha errada do verbo. Em lugar de entender, eu estou pensando em sentir.

O maior defeito que as pessoas apontam em João Gilberto é que suas gravações, assim como as apresentações ao vivo, são muito longas e que ele repete as músicas muitas vezes, o que torna a audição enfadonha. Não sinto assim. Consigo perceber, em cada repetição, alterações sutis na harmonia, enriquecendo a execução de cada canção. Minha convicção, aliás, é que cada alteração, se não é planejada, surge de uma busca do novo, da perfeição.

João Gilberto tem hoje 84 anos, vive recluso num apartamento no Rio de Janeiro, esquecido por todos, até por mim, talvez. O que me fez lembrar dele foi o livro Ho-ba-la-lá, do jornalista alemão Marc Fischer, que juntou algumas economias e viajou ao Brasil com a intenção de encontrar-se pessoalmente com João Gilberto, mesmo sabendo que esta empreitada é inglória. Nesta tentativa, acabou se encontrando com vários personagens que gravitam ou gravitaram em torno do cantor, o que ia enriquecendo o rol de informações que tinha do artista, seu ídolo. 

Com isso, no livro, vão se desvendando facetas, algumas conhecidas, outras inéditas de João, numa narrativa que instiga a curiosidade do leitor pra saber se ele irá, ou não, atingir seu intento.

Se ele conseguiu, não sou eu quem vai contar. Não sou estraga prazeres.