Lembro-me também da discoteca Merci, em São Bernardo, que eu visitava toda semana, atrás das novidades e onde eu comprei a maior parte dos meus discos de vinil. Lá, eu conversava com o dono da loja, pedia coisas difíceis de encontrar e ele ia sempre atrás. De tanto freqüentar a loja, ele sabia o que eu gostava e ficava me mostrando as coisas novas que chegavam. É daquela época esta minha incapacidade de me controlar quando entro numa dessas lojas, o que faz com que meu orçamento esteja sempre numa corda bamba. É difícil sustentar esse vício. E, pra piorar, a Clélia sofre do mesmo mal e do mesmo vício.
Nessas super lojas de hoje, a gente não conversa com ninguém. Quando não se encontra algum livro ou CD, há aquelas máquinas onde se pode fazer a pesquisa pelo nome do artista ou pelo título. Às vezes, mesmo assim, não conseguimos encontrar o que queremos. E quando se pede ajuda ao funcionário, ele, invariavelmente, vai até a máquina, mesmo que você diga, em alto e bom som, que já pesquisou. Não adianta. Ele faz isso assim mesmo. Faz parte do procedimento. Terminada a consulta, ele diz que não tem o produto. Se não tá no sistema, não tem jeito. Justiça seja feita, na FNAC, ainda é fácil encomendar o que você não encontrou.
Mas o que eu sinto falta mesmo é de conversar com o livreiro, de trocar informações com o balconista da discoteca. É de interagir!
Em Campinas, a livraria Pontes ainda guarda um pouco desta característica de que eu tenho tanta saudade. Mas onde eu me realizo mesmo é na loja de discos Iluminações, na rua José Paulino, n° 1474. Lá, o Carlos sempre tem uma porção de dicas e opiniões pra me dar, baseado em tudo o que eu já comprei na loja. E nesse final de semana, foi lá que eu vi que saiu, em CD, uma série de velhos discos da gravadora Odeon e da gravadora Eldorado. Acabei comprando vários discos que eu tinha em vinil e que adorava. E não só dessas duas coleções, achei outros que não pestanejei em comprar, assim que os vi na prateleira:
Theo de Barros – Primeiro disco

Apesar de ser parceiro de Geraldo Vandré na canção Disparada, este grande compositor e arranjador nunca foi reconhecido pela mídia e pelo grande público como deveria. Neste disco, há uma série de obras instrumentais e algumas canções em que ele canta com sua boa voz.
Antonio Adolfo – Feito em casa

Este pianista e arranjador sempre atuou como coadjuvante, como muitos músicos ótimos, e este disco, cujo título é também o da primeira faixa, foi uma das primeiras experiências de produção independente, numa época em que era praticamente impossível lançar um disco sem se submeter à ditadura das grandes gravadoras, todas multinacionais. Ele resolveu bancar a parada e assumir o risco de gravar, divulgar e vender o disco sem depender da estrutura de uma grande empresa. O resultado foi ótimo, pelo menos em termos musicais.
Luiz Melodia – Coleção sucessos
Apesar de eu não gostar de coletâneas, este disco tem algumas coisas especiais. Começa com uma gravação de Codinome beija-flor que, em minha opinião, é muito melhor que a gravação do Cazuza, que fez tanto sucesso. Tem A voz do morro, de Zé Kéti e a minha preferida, Onde o sol bate e se firma, uma canção que foi gravada pela Olívia Byington num disco super antigo.
Boca Livre – Em concerto

Este disco, desse conjunto vocal que eu sempre gostei, já sem o Cláudio Nucci e com o Lourenço Baeta, foi gravado ao vivo em 1989. Tem coisas interessantíssimas como uma versão a capela de Cheek to Cheek de Irving Berlin, Uma linda interpretação de Azul da cor do mar do Tim Maia e tem João Balaio, uma versão para o português muito louca do João Bosco.
Paulinho Nogueira – Água branca

Este violonista tem uma obra pequena mas muito especial. Ele ficou conhecido do público por ter sido o professor de violão do Toquinho. Isto lhe trouxe alguma notoriedade e um pouco de dor de cabeça, pois muita gente se matriculava em suas aulas e não se conformavam em não conseguir atingir o nível de qualidade de seu aluno mais célebre. Neste disco, há bonitas canções como Coração de strass que também foi gravada pela desaparecida Rosa Maria.
Enfim, foi um final de semana musicalmente nostálgico. Agradavelmente nostálgico.