Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

domingo, 25 de março de 2007

Saudade de conversar

Com essa história de grandes lojas de livros e CDs, como a FNAC e a Mega Store Saraiva, encravadas nos shopping centers, quase me esqueci das pequenas livrarias e lojas de disco que me davam tanto prazer freqüentar na minha juventude. Sou de um tempo em que a livraria Cultura era uma lojinha pequena no Conjunto Nacional, na avenida Paulista, onde eu ficava fuçando nas prateleiras, enquanto matava aulas no cursinho.

Lembro-me também da discoteca Merci, em São Bernardo, que eu visitava toda semana, atrás das novidades e onde eu comprei a maior parte dos meus discos de vinil. Lá, eu conversava com o dono da loja, pedia coisas difíceis de encontrar e ele ia sempre atrás. De tanto freqüentar a loja, ele sabia o que eu gostava e ficava me mostrando as coisas novas que chegavam. É daquela época esta minha incapacidade de me controlar quando entro numa dessas lojas, o que faz com que meu orçamento esteja sempre numa corda bamba. É difícil sustentar esse vício. E, pra piorar, a Clélia sofre do mesmo mal e do mesmo vício.

Nessas super lojas de hoje, a gente não conversa com ninguém. Quando não se encontra algum livro ou CD, há aquelas máquinas onde se pode fazer a pesquisa pelo nome do artista ou pelo título. Às vezes, mesmo assim, não conseguimos encontrar o que queremos. E quando se pede ajuda ao funcionário, ele, invariavelmente, vai até a máquina, mesmo que você diga, em alto e bom som, que já pesquisou. Não adianta. Ele faz isso assim mesmo. Faz parte do procedimento. Terminada a consulta, ele diz que não tem o produto. Se não tá no sistema, não tem jeito. Justiça seja feita, na FNAC, ainda é fácil encomendar o que você não encontrou.

Mas o que eu sinto falta mesmo é de conversar com o livreiro, de trocar informações com o balconista da discoteca. É de interagir!

Em Campinas, a livraria Pontes ainda guarda um pouco desta característica de que eu tenho tanta saudade. Mas onde eu me realizo mesmo é na loja de discos Iluminações, na rua José Paulino, n° 1474. Lá, o Carlos sempre tem uma porção de dicas e opiniões pra me dar, baseado em tudo o que eu já comprei na loja. E nesse final de semana, foi lá que eu vi que saiu, em CD, uma série de velhos discos da gravadora Odeon e da gravadora Eldorado. Acabei comprando vários discos que eu tinha em vinil e que adorava. E não só dessas duas coleções, achei outros que não pestanejei em comprar, assim que os vi na prateleira:

Theo de Barros – Primeiro disco

Apesar de ser parceiro de Geraldo Vandré na canção Disparada, este grande compositor e arranjador nunca foi reconhecido pela mídia e pelo grande público como deveria. Neste disco, há uma série de obras instrumentais e algumas canções em que ele canta com sua boa voz.


Antonio Adolfo – Feito em casa

Este pianista e arranjador sempre atuou como coadjuvante, como muitos músicos ótimos, e este disco, cujo título é também o da primeira faixa, foi uma das primeiras experiências de produção independente, numa época em que era praticamente impossível lançar um disco sem se submeter à ditadura das grandes gravadoras, todas multinacionais. Ele resolveu bancar a parada e assumir o risco de gravar, divulgar e vender o disco sem depender da estrutura de uma grande empresa. O resultado foi ótimo, pelo menos em termos musicais.


Luiz Melodia – Coleção sucessos
Apesar de eu não gostar de coletâneas, este disco tem algumas coisas especiais. Começa com uma gravação de Codinome beija-flor que, em minha opinião, é muito melhor que a gravação do Cazuza, que fez tanto sucesso. Tem A voz do morro, de Zé Kéti e a minha preferida, Onde o sol bate e se firma, uma canção que foi gravada pela Olívia Byington num disco super antigo.


Boca Livre – Em concerto

Este disco, desse conjunto vocal que eu sempre gostei, já sem o Cláudio Nucci e com o Lourenço Baeta, foi gravado ao vivo em 1989. Tem coisas interessantíssimas como uma versão a capela de Cheek to Cheek de Irving Berlin, Uma linda interpretação de Azul da cor do mar do Tim Maia e tem João Balaio, uma versão para o português muito louca do João Bosco.


Paulinho Nogueira – Água branca

Este violonista tem uma obra pequena mas muito especial. Ele ficou conhecido do público por ter sido o professor de violão do Toquinho. Isto lhe trouxe alguma notoriedade e um pouco de dor de cabeça, pois muita gente se matriculava em suas aulas e não se conformavam em não conseguir atingir o nível de qualidade de seu aluno mais célebre. Neste disco, há bonitas canções como Coração de strass que também foi gravada pela desaparecida Rosa Maria.

Enfim, foi um final de semana musicalmente nostálgico. Agradavelmente nostálgico.

Coisa de Gênio

Há alguns compositores que têm um estilo tão típico que não é preciso olhar no encarte de um disco pra descobrir que uma música desconhecida foi feita por um deles. Não é uma questão de de falta de criatividade ou simplismo. Muito pelo contrário. Alguns são músicos muito criativos e especiais, capazes de cometer obras muito complexas e bonitas. É o caso de compositores como Ivan Lins, Francis Hime ou Guilherme Arantes. Suas canções têm uma marca, uma assinatura tão forte que é muito fácil identificar sua autoria.

E este é o caso também de Guinga. Longe de ser simples, sua música é tão bonita quanto complexa. Tão complexa que na turnê que fez para divulgar o CD As cidades, a única canção do disco que Chico Buarque não incluiu no roteiro foi Você, Você, sua primeira parceria com Guinga, pois ele não era capaz de se acompanhar ao violão, tamanha a complexidade daquela harmonia.

Quando comprei o primeiro disco solo do Guinga, Delírio Carioca, todo com canções em parceria com Aldir Blanc, fiquei tão incomodado com sua maneira de cantar que devolvi o CD na loja. Depois disso, comprei Simples e Absurdo, com vários cantores e Catavento e Girassol da Leila Pinheiro, ambos com canções da mesma parceria. Morri de arrependimento de ter devolvido aquele disco e só consegui consertar essa burrada no ano passado, quando o CD foi relançado.

E agora, acaba de sair Casa de Villa, belíssimo como todos os seus outros CDs. Mesclando composições instrumentais com canções em parcerias diversas, este disco traz uma evolução em relação aos anteriores por soltar-se do violão e aventurar-se também por outros instrumentos.

No CD há uma canção antiga da qual eu gosto muito, Porto de Araújo, parceria com Paulo César Pinheiro que foi gravada, pela excelente cantora Simone Guimarães. Esta canção já havia sido gravada pela Miucha, num disco de 1988.

Em seu blog, Bruno Ribeiro mostra trechos de uma entrevista que fez com Guinga em São Paulo e o chama de gênio. Isso não é nenhum exagero do Bruno.


Em tempo: O site Goear não está mais funcionando como antes. Não sei o que houve. Por isso, pra ouvir as músicas lincadas nos posts anteriores, é necessário clicar no quadrinho que aparece na tela (mais de uma vez). E nestes novos posts, é necessário clicar nos links do texto.

Dupla boa

Escrevi um post na semana passada, falando sobre a nova formação do MPB4, sem o Ruy, com a entrada do Dalmo Medeiros. Falei que não tinha gostado desta nova formação e entre os comentários recebidos, o Baptistão disse que também se sentia órfão do Ruy. E é isso mesmo. Eu sou um órfão do Ruy.

Na época em que ele saiu do grupo, chegou a falar dos seus planos para o futuro e um deles era a formação de uma dupla com Carlinhos Vergueiro, tentando resgatar uma antiga tradição, na nossa música, de duplas de cantores, como foi o caso de Francisco Alves e Mário Reis, em minha opinião, o exemplo mais feliz desta forma de cantar.

Achei que este plano não tinha saído do discurso, mas na semana passada, fuçando nas prateleiras de uma loja de discos, encontrei o CD Só pra chatear de Ruy Faria e Carlinhos Vergueiro. Comprei o disco correndo e minha satisfação ao ouvi-lo foi do tamanho da decepção que eu tive com o disco do MPB4. Que trabalho bom!

A escolha do repertório privilegiou grandes clássicos, sem cair na obviedade. E, no meio de uma porção de sambas de primeira, temos até um gostoso xaxado de João do Vale, O canto da ema. E é excelente a gravação do samba Seja Breve de Noel Rosa.

Não sei se esta dupla vai perdurar, mas se isto acontecer, minha sensação de perda será compensada. Perdi o grupo vocal que eu mais gostava, mas terei ganhado uma dupla de primeira.

domingo, 18 de março de 2007

Compromisso com o samba

Do Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira, extraímos este texto, ao consultarmos o verbete Marçal (Armando de Souza Marçal):


Compositor. Ritmista. Pai do percussionista Mestre Marçal e avô de Marçalzinho. De família muito pobre, teve muitas dificuldades na infância, e não conseguiu nem mesmo cursar o primário. Especializou-se como lustrador de móveis, trabalhando em diversos hotéis do Rio de Janeiro. Ainda trabalhando como lustrador, faleceu aos 45 anos, no seu escritório da Victor, de ataque cardíaco.


Só no Brasil, um compositor precisa trabalhar como lustrador de móveis, mesmo sendo autor de tantos sambas importantes, alguns clássicos, como A primeira vez ou Agora é cinza, sempre em parceria com Bide (Alcebíades Maia Barcelos).

Pois agora seu neto Marçalzinho lança, ao lado de Moacyr Luz, o CD Sem compromisso, o primeiro na percussão e o segundo cantando e tocando violão.

Não tenho nada contra batucada, nem contra o cavaquinho. Alguns grandes conjuntos de samba me agradam, mas o que mais me emociona é quando o samba é tocado assim, como toda a simplicidade, só violão e percussão. Uma voz e quatro mãos.

O CD traz sambas de primeira linha, quatro deles da dupla Bide e Marçal. E tem ainda Geraldo Pereira, Zé Ketti e Mauro Duarte, além de sambas, já conhecidos, do próprio Moacyr.


Um disco despretensioso, em que o único compromisso é com o bom samba. Absolutamente encantador.

sexta-feira, 16 de março de 2007

Um traço fino

Nas minhas andanças pela blogosfera (isso está virando um vício), tenho entrado em tudo que é tipo de página. E é muito divertido ficar passeando no blog dos outros, não só lendo o que o povo escreve, mas também descobrindo quem comenta, desvendando cada tribo. E esse passeio gera mais comentários, o que acaba fazendo com que as tribos se misturem, formando tribos maiores, com índios de toda espécie. Eu, crente que sou no poder da diversidade (quanto mais ampla, melhor), me encanto com esta troca.

E nestas andanças, procurando imagens pra ilustrar meus posts, acabei encontrando um traço fino. Um caricaturista de primeira, comparável a Nássara ou Lan. Trata-se de Eduardo Baptistão. Suas caricaturas estão por toda parte, ilustrando jornais e revistas como O Estadão, a Veja e a Carta Capital, entre outras publicações. Vale entrar no site do moço pra conferir a precisão de seu traço.


É dele, aliás, a imagem que usei no meu post sobre o livro do Aldir Blanc.

É isso aí.

quarta-feira, 14 de março de 2007

MPB3

Gosto muito de conjuntos vocais masculinos. Gostava dos Cariocas, com seu repertório de clássicos da bossa nova, embora me incomodasse o exagero na utilização do falsete. Gostava do Boca Livre, com seu repertório mais autoral e no qual era possível identificar qualidade em algumas vozes individuais, coisa rara neste tipo de conjunto. Nunca achei tanta graça em conjuntos vocais mistos e muito menos nos femininos. Questão de gosto.

Mas, de todos os grupos, o que eu sempre preferi, de longe, foi o MPB4. A tonalidade grave de seu canto, principalmente quando executava as canções em uníssono, sempre me encantou. E esse conjunto era um dos recordistas mundiais em longevidade com a mesma formação.

Era! Pois há 3 anos, um dos componentes, Ruy Faria, saiu do conjunto. Não vem muito ao caso os motivos dessa saída, mesmo porque, eu não me interesso por fuxicos. O que interessa é que, para substituí-lo, foi chamado o cantor Dalmo Medeiros, tenor do extinto conjunto Céu da Boca. Aliás, desse conjunto, saíram várias cantoras com alguma qualidade, como Paula Morelenbaum, Eveline Hecker, Verônica Sabino e Maucha Adnet.

Ainda não tinha ouvido o som do MPB4 com a nova formação e, na semana passada, vi na prateleira de uma loja o CD MPB4 – 40 anos. Comprei-o e já fui ouvindo no carro. Fui ansioso pra ouvir alguma coisa que me tocasse, como me provoca enorme emoção quando ouço gravações antológicas deste conjunto, como Pesadelo, Cicatrizes, Pressentimento e a que mais me emociona, Canto Triste, cantada a capela. Infelizmente, a nova sensação foi decepcionante.

A voz de Dalmo Medeiros é muito aguda e cheia de uns floreios que não combinam com o estilo do grupo. E o disco, gravado ao vivo, busca aquela solução fácil de agradar a platéia através da execução de grandes sucessos. E logo a primeira faixa, provavelmente o maior sucesso do grupo, Amigo é pra essas coisas, soa muito mal, quase um desrespeito à gravação original. Nesta canção, e naquela gravação, sobressaía-se a voz solo do Ruy, num duelo com Aquiles. A combinação era perfeita. Como coube a Dalmo Medeiros a incumbência de cantar a linha de Ruy, o resultado saiu sofrível.

A gravação do disco é cheia daquelas participações do público, cantando junto ou batendo palmas (sempre fora do ritmo), que tanto me irrita quando vou a shows. E este show contou com participações especiais de Cauby Peixoto, Roberta Sá, Zeca Pagodinho e Milton Nascimento, todos, absolutamente, deslocados. Há ainda duas faixas bônus, com participação de Chico Buarque, que, aparentemente, não participou do show. Nem isso salva o disco.

Pra não dizer que não se pode aproveitar nada do CD, há, na faixa Refém da Solidão, um arranjo muito criativo e cujo resultado lembra muito o som do velho MPB4. Só isso. Que pena!

domingo, 11 de março de 2007

Reencontro

Eu tinha 17 ou 18 anos quando li Rua dos Artistas e Arredores, do Aldir Blanc. E lembro-me que fiquei embasbacado com o texto de quem eu já admirava (pra não dizer que idolatrava) como letrista dos sambas do João Bosco. O livro era uma coletânea de textos que ele escrevera no Pasquim naquela década.

Antes de se mudar para o Estácio, aos doze anos, Aldir morou em Vila Isabel, na Rua dos Artistas, de onde tira personagens da memória e da imaginação para nos mostrar um mundo visto por olhos de criança. Personagens como seus avós, Seu Aguiar e Dona Noêmia, além do Penteado (tremendo gozador), Lindauro (boçal, mas de bom coração), Ceceu Rico (que não gostava de festa), Esmeraldo (simpatia-é-quase-amor) entre muitos outros. São crônicas hilariantes que fazem qualquer um lembrar de seu bairro e de sua família.

Emprestei o livro pra meio mundo e surpreendentemente ele sempre voltou pras minhas mãos, embora cada vez num estado mais deplorável. Hoje ele está em petição de miséria.

Pois este livro, juntamente com outro chamado Porta de Tinturaria, além de crônicas esparsas publicadas na revista Bundas e no Jornal do Brasil, tudo isso junto, foi agora editado num só volume chamado Rua dos Artistas e transversais. Comprei o livro ansioso, já contando com uma outra emoção causada por novas crônicas com aqueles personagens. Pensei em pular a parte que eu lera há quase 30 anos, mas não resisti. Reli os textos de Rua dos Artistas com o mesmo prazer de outrora (se não maior) e continuei nos textos inéditos pra mim.

Saí, com a convicção reforçada de que poucos textos me causam tanta alegria quanto os de Aldir Blanc. Seja em suas crônicas, seja em suas letras de música.


sábado, 10 de março de 2007

Saudade ou saudosismo?

Ontem, à noite, acabou a energia em casa. Foi, na verdade, uma piscadela. Uns 10 segundos e logo voltou. Mas voltou sem sinal de TV. O problema desta TV a cabo é que, quando o sinal some, fico sem os sinais da TV aberta também. Podia pegar meu livro e começar a ler, mas lembrei-me de uns DVDs do Chico Buarque que tinha comprado, no ano passado, e nem tirado da caixa. Eram os três CDs do quarto volume. Os outros nove eu assisti assim que comprei, mas estes três últimos, não sei por que, estavam inéditos pra mim.

Escolhi aquele cujo tema era a época dos festivais e comecei a assistir. Começou a me dar uma emoção boba, uma saudade estranha, ao ver aquelas imagens e ouvir aquelas músicas, algumas maravilhosas.

Não sei se é lembrança daquela época (eu tinha entre 7 e 8 anos) ou foi uma lembrança construída com o tempo, de tanto ter visto aquelas cenas, mas o que se passa é que foram, justamente, estas músicas e estes artistas que forjaram meu senso crítico e meu gosto musical.

Canções como Disparada (Geraldo Vandré e Theo de Barros), Ponteio (Edu Lobo e Capinan), Domingo no parque (Gilberto Gil), Sinal fechado (Paulinho da Viola), entre tantas outras, que, apesar de quarentonas, todas elas, se tivessem surgido hoje, seriam, ainda, revolucionárias.

Gosto de sentir saudade, mas tento evitar o saudosismo. Por isso, me assusto um pouco quando me pego emocionado com estas coisas mais velhas, principalmente, quando percebo que, atualmente, pelo menos no que diz respeito a música, não me assalta tal emoção.

sábado, 3 de março de 2007

Aeroportos & aeronaves

Sala de embarque

O que mais enche o saco nas minhas viagens é ficar na sala de embarque. É o cúmulo do tempo perdido, já que o tempo de vôo, que também é perdido, pelo menos é útil. E nas salas de embarque, só há duas coisas a fazer. Ler um bom livro ou, na falta deste, ficar olhando as pessoas e tentando imaginar suas histórias, sua vida.

Felizmente, na hora do embarque do Rio de Janeiro pra Campinas eu tinha um bom livro nas mãos. Bom não, excelente. Era o livro do Aldir Blanc, Rua dos Artistas & Transversais. Acomodei-me num lugar bem iluminado e o mais longe possível de qualquer exemplar da espécie humana. Iniciei a leitura e comecei a usufruir de um prazer indescritível.

Acontece que a sala foi se enchendo. E pra meu grande desgosto, uma família inteira, com direito a duas crianças, a mãe, a avó e a bisavó, acomodou-se em volta de mim. Desprezando minha presença, a atividade que eu estava exercendo e, principalmente, o fato de que tal atividade só pode ser exercida com algum silêncio, eles começaram a falar. Começaram, é maneira de dizer. As crianças ficaram brincando e a mulher começou a falar, enquanto as velhinhas só escutavam. E ela ficou a meter o pau em alguém que não estava ali. Foi nessa que eu percebi que ainda faltava um personagem naquela família. Era o marido, que não havia chegado.

Chegou. Chegou e a mulher continuou metendo o pau no dito cujo. E eu, sem conseguir ler o meu delicioso livro, tratei de me antenar pra tentar entender o que acontecia. Parecia um Big Brother, só que ao vivo e de verdade. No fim, descobri que o motivo de tanta amargura foi porque o mané cismou de engraxar os sapatos no aeroporto, colocando em risco, na concepção da estressada, seu embarque. Descobri, inclusive, que alguma coisa parecida já havia acontecido numa viagem que eles fizeram à Disney. O cara já não era mais réu primário!

O que ficou claro, entretanto, foi que aquela mulher estaria reclamando de qualquer outra coisa, tivesse acontecido ou não, só pra aporrinhar a vida do marido.

E o marido. Bem, o marido é um mané.


Dentro do avião

Como se não bastasse a dificuldade de ler meu livro na sala de embarque, assim que me sentei na poltrona do avião, descobri que iria viajar ao lado de duas pessoas, daquelas que gostam de fazer amizade em viagens curtas. Apresentaram-se e começaram a contar, um para o outro, suas vidas. Impossibilitado de prestar atenção nas hilariantes crônicas do Aldir, fui obrigado a ficar os 55 minutos do vôo ouvindo as idéias dos dois personagens. São cariocas, ambos, e moram em Campinas. Estão na cidade há pouco menos de 3 anos e descobriram uma coincidência entre si. Não gostam de campineiros. E começaram a discorrer, em alto e bom som, sobre todos os defeitos das pessoas, todas elas, que nasceram, moram ou gostam da cidade.

Não tenho procuração pra defender pessoas nascidas em Campinas, uma cidade na qual não moro e onde não nasci. Mas acho um grande idiota quem diz que não gosta de nenhum campineiro ou de nenhum argentino ou de nenhum carioca. Isso é a mesma coisa que dizer que não gosta de preto, de veado, de pobre ou de torcedores do Atlético paranaense. Isso é coisa de skinhead. Coisa de babaca.

O que me deixou mais aliviado foi perceber que eles eram, de fato, bem babacas, quando começaram a indicar, um para o outro, os melhores bares de Campinas. Declarando-se amantes dos botecos pé-sujo, elencaram todos aqueles bares do Cambuí, sobretudo os da rua Emílio Ribas como seus preferidos. Os melhores da cidade, na opinião deles.

Isso me fez lembrar, imediatamente, dos textos do blog do Bruno, em que trata justamente desse tema. Fosse ele que estivesse no meu lugar, não conseguiria ficar calado. Tenho certeza disso.

Sentir inveja

Foi um livro do Carlos Heitor Cony, o Quase Memória, que me reconciliou com a ficção. Foi depois de lê-lo que parei de privilegiar os livros de história e de política e resolvi diversificar mais, escancarando mesmo. Acontece que este livro me comoveu tanto, que nunca consegui a mesma comoção em outros livros dele. O que me encanta, em qualquer texto do Cony, mesmo os mais conservadores, é essa invejável capacidade de lidar com a palavra. Mas como eu já disse, emoção como a que tive com Quase Memória, nunca mais.

Isso já não acontece com Moacyr Scliar. Desde o primeiro livro dele que li, nem me lembro qual foi, encantei-me com seu estilo e a cada novo livro é um renovar do encantamento.

Acabei de ler Os Vendilhões do Templo em que ele nos brinda com 3 diferentes textos, independentes, com narrativas passadas em épocas e lugares muito distintos, todas as 3 envolventes.

Este médico, judeu ateu, que vive namorando com as escrituras do cristianismo pra compor suas narrativas, utiliza com maestria, histórias conhecidas, verdadeiras ou não, pra compor crônicas exuberantes. É o que faz toda segunda feira, na Folha, quando pega uma notícia banal, bem curta, normalmente, e cria, a partir dessa nota, uma obra de ficção, enxuta e completa.

Já nas primeiras palavras de qualquer um de seus livros, como é o caso dos livros do Cony, a gente percebe a facilidade com que nos envolvem. Os dois.

Pois é. Mais um escritor pra eu sentir inveja.

sexta-feira, 2 de março de 2007

Novamente o Rio

Novamente no Rio de Janeiro, novamente em Santa Cruz. Lugar desprovido de beleza, mas o Rio não é só Ipanema ou a Barra da Tijuca. Novamente o risoto de camarão no Siri da Barra, o que não foi, exatamente, um sacrifício.

Mas no segundo dia da viagem, mais conhecido como hoje, os amigos me levaram pra almoçar no Centro Luiz Gonzaga de Tradições Nordestinas, também conhecido como Feira de São Cristóvão e que um deles chamou mesmo de Feira dos Paraíbas. Deixei passar esse deslize discriminatório, pra não arrumar confusão e resolvi encarar. Logo na entrada um aviso, muito bem impresso e em letras garrafais, esclarecia que era proibido entrar no recinto portando armas de fogo. Logo pensei: do lado de fora está liberado? Além disso, na porta do pavilhão, uma troca de sopapos entre um travesti e um provável cliente, com uns policiais tentando botar panos quentes.

O aviso meigo e o qüiproquó na entrada me animaram. O lugar promete!

De fato, o lugar é espetacular. Eu tenho nas veias um tanto de sangue nordestino herdado do meu avô materno, que se mistura com o sangue espanhol dos antepassados mais distantes e com o álcool, evidentemente. Por isso, tenho um carinho muito especial pelos nordestinos.

Algumas lojinhas estavam abertas e deu pra ver uma profusão de produtos típicos à venda, como artesanato, comidas, sapatos e roupas. O que mais me seduziu, entretanto, é que não é uma feira para turistas como o maravilhoso Mercado Central de Fortaleza ou o Mercado Modelo em Salvador. É exatamente o contrário. É uma feira no Rio de Janeiro feita pros nordestinos que vivem naquela cidade.

Almoçamos lá, uma carne de sol esplêndida, que perde somente pra do restaurante Entre amigos-o Bode, em Recife, esta imbatível.

O que fica claro, porém, é que é à noite que a coisa pega, com dois palcos enormes onde rola muito forró. Na minha próxima viagem ao Rio, tenho que marcar a volta para o sábado!