O Brasil sempre foi muito abundante de boas cantoras. Sempre teve, tem e sempre terá algumas maravilhosas. Divinas, majestosas, suaves, apimentadas. Gosto de muitas delas.
Hoje, sem nenhuma dúvida, a cantora que mais me emociona, de longe, é Mônica Salmaso. .
Genialidade e virtuosismo, em música, são características invejáveis, entretanto, raras. Enquanto uma gera grande resultado criativo, o outro garante apuro na execução, proporcionando resultado igualmente embevecedor. Já que raras, são características quase impossíveis de se encontrar juntas, numa só pessoa. Assim, tão feliz combinação é mais fácil de ocorrer na união de talentos.
Pois foi felicidade, justamente, o que eu senti ao ouvir, já na primeira oportunidade, o disco de Guinga com Paulo Sérgio Santos, Saudade do Cordão.
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Di menor (Guinga e Celso Viáfora)
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Guinga é capaz de verdadeiras atrocidades quando a tarefa é exterminar o lugar comum. Suas músicas são sempre especiais, nunca ralas. Por muitos, considerado irascível, característica dos gênios, sua obra é respeitada e, muitas vezes, cultuada por qualquer ser que consiga identificar qualidade na combinação de notas musicais. Dono de um dedilhado preciso, é na criação das melodias e harmonias, entretanto, que seu talento se expressa com maior fulgor.
Não tenho conhecimento de alguma obra composta por Paulo Sérgio Santos. Conheço há muito, entretanto, a qualidade interpretativa do clarinetista do Quinteto Villa Lobos. Seu virtuosismo trafega do erudito ao popular, sem que ele tenha de lançar mão de malabarismos, recurso muito empregado por inúmeros instrumentistas. Transita entre Bach e Pixinguinha com a naturalidade de quem sabe tratar-se da mesma coisa.
Juntar estes dois monstros da nossa música, gênio e virtuose, só poderia dar no resultado que deu: um disco inebriante. Só mesmo esse som pra me motivar a escrever um texto tão recheado de termos pomposos. Não poderia ser diferente. Esse disco merece pompa.
Não foi por coincidência que o fim da minha fé em deus aconteceu no momento em que eu ingressei na escola técnica, aos 14 anos. Afinal, a intimidade com os átomos e as moléculas e tudo o que podia ocorrer com eles, devidamente comprovado nos laboratórios de física e química, pareceu, aos meus jovens olhos, incompatível com as crenças que a família tentava incutir em minha mente. Empreendi, naquele momento, uma peleja contra a fé, sempre aparado no conhecimento científico que começava a desvendar, excitado.
Com o tempo, minha crença não ressurgiu, mas aprendi a respeitar e, até mesmo, a entender o efeito que a fé pode causar nas pessoas, em grande parte das vezes, um efeito positivo. Percebi o quanto esta fé pode fazer bem a essas pessoas e o quanto a existência deste suporte pode servir de alento e até mesmo de consolo, nos momentos difíceis pelos quais, todos nós, acabamos passando. Hoje, lido muito bem com qualquer manifestação de fé que as pessoas possam ter, respeitando o direito de todas elas escolherem seu caminho. Minha tolerância não é tão elástica em relação às igrejas que canalizam, formatam e manipulam esta fé.
No fim de tudo, é sobre isso que trata o livro A goleada de Darwin, de Sandro de Souza. Em 90% dos seus capítulos, ele trata do debate entre criacionismo e darwinismo, quando levados aos bancos escolares, sobretudo nos Estados Unidos. Mostra o quanto uma grande parcela daquela sociedade rejeita a teoria de Charles Darwin e como, no início do século passado, foi difícil ensiná-la nas escolas americanas. Hoje, depois da batalha ganha pela teoria da evolução das espécies, existe, ainda, um forte movimento no sentido que se ensine, também, outra versão da história, baseada na crença da criação do universo e, sobretudo, da humanidade, por uma entidade divina.
O livro não rejeita este ensino. O livro resiste a que esse ensino seja feito nas aulas de ciência. E nesse ponto, concordo plenamente com ele. Acho lícito ensinar essa versão do caminho que criou a vida numa aula de teologia, filosofia, ou até mesmo de história. Nas aulas de ciências ou biologia deve-se ensinar o que está cientificamente comprovado, ou seja, a teoria da evolução da espécie e da seleção natural, desenvolvida por Charles Darwin, mais de 100 anos atrás.
A principal conclusão do livro, afinal, é, justamente, perceber que ciência e fé podem caminhar juntas, contanto que cada uma ocupe o seu lugar na mente das pessoas e, principalmente, nos bancos escolares.
A primeira vez que fui a Buenos Aires foi numa viagem de trabalho. Meu portuñol era muito pior do que é hoje e eu ainda não fora apresentado à carne argentina e ao tango, duas das minhas paixões atuais. Dos argentinos eu só conhecia Mercedes Sosa e Violeta Parra, já que as canções desta, na voz daquela, embalaram meus sonhos na juventude. Foi uma época em que eu tinha esperança nos homens. Conhecia tão pouco a Argentina que achei, até hoje, que Violeta Parra fosse de lá, mas era chilena, me corrigiu o bom amigo Bruno Ribeiro.
Naquela viagem, indo de taxi para o trabalho, vi um cartaz que anunciava um show com La Negra, naquela semana. Era um teatrão antigo e imponente, na Avenida Corrientes, próximo ao hotel em que eu estava hospedado, na região central da cidade. Fui à bilheteria e comprei um lugar na primeira fila do balcão superior. Na platéia não havia mais lugar.
A primeira parte do show foi só com músicas mais modernas, com participações de artistas, até então, desconhecidos pra mim, como Fito Paes e Charly Garcia. Foi um bom show, mas eu sentia um certo vazio, ansioso por ouvir as canções que embalaram a minha mocidade. Após o intervalo, ela volta e começa a cantar todos os clássicos de Violeta Parra, Victor Jara, Athaualpa Yupanqui. Não tive como segurar as lágrimas. Eu estava lá, sozinho e longe das pessoas que mais amo e, ao mesmo tempo, muito perto de mim. Perto da pessoa que havia sido anos antes, cheio de sonhos e esperanças.
Morreu Mercedes Sosa, muito tempo depois que morreu, em mim, a esperança. Mesmo assim, sinto saudades. Saudades de um tempo, saudades de uma cantora, saudades de mim.
O Rio de Janeiro vai realizar os Jogos Olímpicos de 2016. Assim que o resultado saiu, foi anunciado pelos principais sites de notícias on-line que exibiram fotos do povo dançando nas ruas, em comemoração. É a comemoração da amnésia.
Esqueceu-se, já, tão cedo, da farra que foram os Jogos Pan-americanos, com obras super faturadas e uma herança inútil para a cidade do Rio de Janeiro, a mesma de agora. Esqueceu-se das promessas não cumpridas, de antes do Pan. Esqueceu-se da engenhoca que é o Engenhão, estádio tão indesejado que foi cedido a um clube que deve cair pra segunda divisão. Estádio que não vai servir pra Copa e que não vai servir pros Jogos Olímpicos. Não serve pra nada. Esqueceu-se que a prestação de contas não foi prestada, virou tudo um faz-de-conta.
Estão comemorando, a Rede Globo e os grandes jornais brasileiros, de olho nas verbas de publicidade que o governo, certamente, vai despejar na grande mídia. Estão comemorando as empreiteiras, de olho nas obras que vão fazer com o dinheiro público, o nosso dinheiro. Aliás, a comemoração é dupla, já que teremos Copa do Mundo, em 2014, e Olimpíadas, em 2016. Vai ser uma festa, uma gastança.
Já posso ver o atraso nas obras e no planejamento, o que vai acabar justificando a falta de licitação para contratar as empresas. Exatamente como aconteceu no Pan. Será que ninguém se lembra disso? Será que toda essa gente, que dança nas ruas, prefere que seu dinheiro seja utilizado pra construir estádios, em cidades onde não há times de futebol, ao invés de colocar remédios nos hospitais públicos? Será que não percebem que um evento defendido por João Avelange e Carlos Arthur Nuzman não merece crédito?
O Presidente Lula está radiante. Como todos os políticos, aliás. Afinal, em 2014, ano da Copa, o candidato Lula vai estar em plena campanha, assim como Serra, ou Aécio, até Ciro Gomes. Qualquer um que seja eleito vai pegar os Jogos Olímpicos no meio do mandato. Mais motivo de festa. Mas isso é natural da política. O que me preocupa é a comemoração dos outros. Daqueles que vão ganhar muito dinheiro sem investir um centavo, daqueles que vão conseguir financiamento a juros mais baixos do BNDES.
Comemoram os Marinhos, os Frias, os Mesquitas, os Odebrechts, os Correias, os Gutierres. Todos eles comemoram, mas quem dança, pra variar, é o povo.
Sou, por princípio, contra qualquer golpe de estado, seja ele proveniente da direita ou da esquerda. Embora reconheça as imperfeições dos regimes democráticos, tenho a convicção de que nenhuma outra forma de governo apresenta alguma vantagem sobre a democracia. Sobre as formas de estado, a história tem demonstrado, ao longo do tempo, que nenhuma das que foram experimentadas conseguiu promover bem-estar e justiça social para a maioria da população.
Voltando aos golpes de estado, devido a este meu princípio, encarei com orgulho a posição firme do governo do presidente Lula de repudiar, sem nenhuma tolerância, a tomada de poder em Honduras, absolutamente ilegal. Lembrei-me da época em que os golpes de estado pipocavam na América Latina, época que não traz nenhum resquício de saudade.
Não nutro nenhuma simpatia pela figura do presidente deposto, Manuel Zelaya, assim como sua figura, tampouco, me inspira antipatia. Humildemente, confesso que nunca tinha ouvido falar nesta pessoa. Confesso, ainda, que seu jeito meio fanfarrão, com bigode e chapéu, não me motivaria a convidá-lo para uma feijoada em minha casa, mas isso não quer dizer nada, já que são pouquíssimas as pessoas a quem me animo a enviar este convite. O não quer dizer que a figura do presidente golpista, Roberto Micheletti, com seu terno e sua gravata, me inspire mais simpatia, muito pelo contrário. Tenho certa má vontade com quem usa, constantemente, este tipo de roupa, em cidades de clima tropical ou equatoriano, seja político, empresário ou treinador de time de futebol. Acho isso um pouco jeca.
De toda forma, meu conhecimento sobre Honduras, ou qualquer outro país da América Central, é nulo e, mais uma vez confesso, desta vez envergonhado, que não tenho nenhuma curiosidade em aumentá-lo. Sugiro, para quem tenha uma ânsia maior que a minha por detalhes sobre este episódio, que leia este texto do Bruno Ribeiro, com o qual eu concordo, como concordo, em boa parte das vezes.
Faço esta sugestão movido pela convicção de que os nossos jornais e revistas não estão dando o tratamento adequado ao caso. Muito menos os canais de televisão. E se a situação em Honduras não move meu ânimo, a maneira com que nossos mais tradicionais órgãos de comunicação se comportam, isso sim, me tira do sério. Eles conseguiram, por exemplo, inventar (ou apropriar-se) de termos capciosos para qualificar o regime instaurado ilegalmente. Chamaram-no “governo de fato” ou “governo interino”, coisas que ele não é. É um governo golpista, simples assim. Agora, aparentemente, os jornais começam a economizar estas expressões (será vergonha?) e a utilizar o verdadeiro nome do regime, mas não fazem isso de maneira sistemática. Usam uma expressão na manchete e outra no corpo da matéria, quem sabe para criar uma mensagem subliminar no leitor. A TV, entretanto, continua firme em sua qualificação errada do governo ilegal.
O acerto do nosso governo ao repudiar o golpe de estado e oferecer abrigo (ou asilo) ao presidente deposto não está sendo repetido, em minha opinião, na maneira com que está conduzindo a situação. O Itamarati, pelo que tudo indica, perdeu o controle, por não ter adotado um plano para conduzir uma crise absolutamente previsível, desde que resolveu dar abrigo ao bigodudo. Com isso, corre o risco de perder o respeito que conquistou no primeiro momento da crise. Seria uma pena.
Não sei o que é que me emociona mais ao ouvir este samba. Se é ouvir o nome de tantos bambas ou se é identificar quem está cantando cada verso. Devem ser as duas coisas. Só sei que me arrepia. .
. O samba bate outra vez (Maurício Tapajós & Paulo Cesar Pinheiro)
Odete, Aracy, Dona Ivone SíIvia Teles, Claudette, Simone Clara, Beth, Elizeth, Alcione Dolores Duran, Clementina Carmem Costa, Miúcha e Cristina Gal, Bethânia e Elis Regina Nora Ney, Nana, Linda e Dircinha Dóris, Elza, Marlene, Emilinha - O samba bate!
O samba bate outra vez Bate outra vez, não pára Bate no Estácio, na mídia No estúdio, no pódio, no estádio Num gol do Mengão campeão E nos programas de televisão Jornal e rádio
O samba bate outra vez Bate outra vez e invade Bate no bar, na boate Nos palcos de toda cidade Que bom que já bate esse som, Que é do Brasil, Dentro do coração da mocidade!
O samba bate outra vez O toque de reunir O samba é que leva emoção Ninguém pode impedir O samba é que é revolução É preciso que se convençam Por isso hoje o samba saiu Saiu de novo pra quem não ouviu E vem do compositor do Brasil Com sua benção!
Pixinga, Vinícius e Baden Caymmi e Chico Buarque Vanzolini e Mauro Duarte Manacéa e Waiter Alfaiate Wilson Moreira e Nei Lopes Bide, Brancura e Baiaco Marçal, Ismael, Nilton Bastos Casquinha, Candeia e Monarco O samba bate!
(O samba bate outra vez...)
Mijinha, Anescar, Aniceto Assis Valente, Ataulfo, Herivelto Ary Barroso, Jobim, João Gilberto Haroldo Lobo e Janet de Almeida Wilson Batista e Geraldo Pereira Mano Décio e Silas de Oliveira Vadico, Sinhô, Noel Rosa Luis Reis e Haroldo Barbosa
Donga e João da Baiana Monsueto e Luis Soberano Claudionor e Pedro Caetano Cartola e Nelson Cavaquinho Elton Medeiros, Zé Kéti e Paulinho Mirabeau, Zé-com-Fome, Valzinho Lyra, Menescal e Bôscoli Donato, Aldir, João Bosco
Miltinho, Aquiles, Rui, Magro (A moçada do MPB-4) Dick, Lúcio, Emílio Santiago Vassourinha e Ciro Monteiro Jamelão, Dilermando Pinheiro Roberto Silva e Roberto Ribeiro Mário Reis, Jorge Veiga, Moreira Zimbo Trio, Jair, João Nogueira O samba bate!
A cena se repete todos os dias, invariavelmente. Pode mudar o cenário, com nuvens ou com céu aberto, mas os personagens são os mesmos, ainda que mudem. Eu, sozinho no carro, sou como tantos outros, a maioria sozinhos, indo em seus carros, manhã bem cedo, rumo ao trabalho. Há os que andam nas calçadas, determinados, ambos os lados, um rumo parecido. Descem dos ônibus ou se dirigem ao ponto. Rostos diferentes, roupas diferentes, o mesmo semblante. O cenho fechado, grave, obscuro, como o que exibimos nós, de dentro dos carros.
E no meio desta cena, eis que um personagem me chama a atenção. É um rapazote no mesmo cenário que todos, também anda sozinho, determinado, indo pro trabalho ou pra escola, quem sabe. É de manhã cedo, como é pra todos. O mesmo céu, o mesmo chão. O que difere é um inexplicável sorriso em seu rosto.
Não há uma imagem engraçada em seu campo de visão e nenhuma mulher especialmente bonita anda à sua frente e nem vem ao seu encontro. Não é um riso largo, nem um riso de ironia. Também não é um sorriso idiota. Não é dirigido a ninguém que se possa notar. É um sorriso só dele, que não precisa ser explicado e que, talvez, nem ele mesmo perceba. Nem é um sorriso especialmente bonito, mas é um sorriso, só isso.
Vendo aquilo, pequei o pecado que eu mais abomino. Vendo aquilo, senti uma curtíssima e imensa ponta de inveja.
Ivan Lins não está entre meus ídolos. Na verdade, eu não gosto dessa idéia de idolatrar ninguém, mas há artistas por quem tenho extrema admiração. Artistas que me comovem, fazendo músicas que me emocionam. Músicos que me seduzem com canções que fazem minha vida ser mais feliz. Enfim, Ivan Lins não está entre eles.
Não estou dizendo que desgosto deste artista. Muito pelo contrário. Acho que sou capaz de relacionar dez ou até vinte músicas dele que acho excelentes. Gosto muito da maneira que ele lida com a harmonia e percebo sua assinatura em muitas composições, em geral, gostando dela. Me incomoda, entretanto, sua voz um tanto metálica e sua maneira de executar o piano, de forma martelada. Gosto bastante, enfim, de algumas de suas músicas, preferencialmente cantadas por outros artistas. E, da mesma forma, nunca me interesso quando ele canta músicas de outros compositores.
Foi por tudo isso que não me interessei em ouvir o disco em que Ivan Lins canta Noel Rosa, há doze anos, quando foi lançado. Afinal, se Ivan Lins figura entre os artistas que eu apenas admiro, Noel está naquela outra categoria, a de quase idolatria. Fiquei imaginando seu martelo assassinando as clássicas obras de um gênio, e sua voz metálica profanando algumas letras magistrais do poeta da Vila Isabel. Além do mais, tenho tremenda má vontade com a mistura de samba e piano. O disco saiu e eu deixei passar.
Por esses dias, por puro acaso, este CD começou a tocar no meu carro (Acaso, aliás, é uma das canções de Ivan Lins que muito me agradam). Fui tomado de grande surpresa. Surpresa, aliás, é o que mais existe neste trabalho, lançado, inicialmente, em 2 volumes e depois relançado em formato de box, com a adição de um terceiro. Já na primeira faixa, numa grande sacada, o samba De Babado de Noel e João Mina é transformado em um partido alto em que Ivan versa ao lado de Nelson Sargento, Nei Lopes e Zeca Pagodinho, partideiros notórios. Outra surpresa agradabilíssima é que o piano foi deixado a cargo de duas feras do instrumento: Cristóvão Bastos e Leandro Braga. Desse jeito, um piano se encaixa bem até em bateria de escola de samba. Entre os músicos, executando o samba mais autêntico que a nossa gente é capaz de produzir, tem gente da lavra de Armando Marçal, Cláudio Jorge e Marcos Suzano. Fica difícil não acertar.
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De Babado (Noel Rosa & João Mina)
Como se isso tudo já não fosse suficiente, há participações especiais de uma turma do primeiro time da nossa música como Chico Buarque, Caetano Veloso, MPB4, Nana Caymmi, Leila Pinheiro, Fátima Guedes, Zé Renato e Guinga, entre outros do mesmo quilate. O som fica quase perfeito. O que destoa é o que eu já previa: a voz metálica de Ivan Lins. Mesmo isso não consegue estragar este excelente trabalho. Ainda bem.
Faz muito tempo que eu não lia um livro com tanta avidez. Elogiado por Elio Gaspari em sua trilogia da ditadura brasileira como o mais importante documento sobre a conspiração dos militares, Visões do Golpe - A memória militar de 1964 foi lançado em 1994 pela Relume-Dumará e relançado, 10 anos depois, pela Ediouro. Organizado por Maria Celina D’Araujo, Gláucio Ary Dillon Soares e Celso Castro, o livro traz depoimentos de 12 militares que participaram ativamente da conspiração que derrubou o presidente João Goulart em 1964. Todos oficiais de média patente, nenhum deles teve ação decisiva na eclosão do movimento, levado a cabo por generais, mas ao curso do tempo, foram sendo promovidos ao generalato e conduziram o regime ao longo de 20 anos com a morte ou reforma daqueles que deflagraram o golpe. O golpe, aliás, presente no título, é tratado pelos entrevistados por revolução, como se ela tivesse se originado do seio e dos anseios da população. Defendem o golpe com muita altivez.
Deixando claro que têm, muito firmemente, suas próprias convicções, os organizadores decidem eximir-se de mostrá-las para oferecer aos leitores o pensamento dos militares entrevistados. Sendo assim, o livro acaba não cometendo o maior pecado que cometeu Elio Gaspari ao não conseguir disfarçar sua clara admiração por Geisel e Golbery em sua trilogia. Esta é a diferença entre livros de história quando são escritos por jornalistas e quando são escritos por cientistas políticos, sociólogos ou historiadores.
O que fica patente, no livro, além do fato de todos os entrevistados defenderem o golpe, é a clara existência, na época, de dois grupos distintos dentro das forças armadas. Os Castelistas e os Costistas, uns defendendo a legalidade e outros, a chamada Linha Dura. Todos eles reconhecem que Castelo Branco tinha por objetivo devolver o poder a um civil depois de seu mandato. Segundo eles, esta disposição foi atropelada pelo grupo da linha dura que teria, aliás, levado Costa e Silva a apoiar esta direção. A maioria admite que Costa e Silva queria o poder, desde a deflagração do golpe, o que não significa que quisesse a presidência. Isto, pra mim, é mais do que suficiente para caracterizar o regime como uma ditadura.
Independentemente das questões históricas, o relato dos entrevistados serve para deixar muito clara a maneira como pensam os militares, como eles se consideram em relação aos civis e como é importante, mais do que tudo, a questão da hierarquia dentro das corporações. Tanto que, todos eles não hesitam em apontar como causa da deflagração do golpe o apoio que Jango deu aos sargentos e marinheiros nos momentos em que se sublevaram ou questionaram a ordem estabelecida dentro das casernas. Muitos deles não titubearam em declarar que sem este apoio, provavelmente, os militares não teriam se unido a ponto de desferirem o golpe no estado. Afirmam, sobretudo, que Castelo Branco não o faria.
E esta afirmação me leva, sempre, a fazer pequenas digressões condicionais. Como seria o nosso futuro se Jango não tivesse sido deposto? E se Jânio não tivesse renunciado? Aliás, o que teria acontecido se Lott não tivesse garantido a posse de Juscelino? O que teria sido de nosso país se Getúlio não tivesse dado um tiro no peito? Nada disso, porém, serve pra alguma coisa. A história não admite o uso da conjunção condicional.
O livro trata apenas do período que vai da tomada do poder até a posse de Costa e Silva, como segundo presidente militar. Engloba, portanto, o tempo anterior ao recrudescimento do regime, com sua onda de repressão e tortura, marcas registradas dos governos de Costa e Silva e Médici. Mas, como na obra de Gaspari, este livro faz parte de uma trilogia. Sendo assim, já tenho em minhas mãos o segundo volume, cujo título é Os anos de chumbo. Este, sim, é um período que me interessa ver como os militares vão encarar.