Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

domingo, 13 de outubro de 2013

Desconforto

Inferno foi o primeiro livro de Patrícia Melo que eu li. Gostei muito e soube, mais tarde, que ela ganhou um importante prêmio por ele. E foi por isso que comprei, há algum tempo, Acqua Toffana, sem saber que ele foi seu primeiro livro publicado.
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Fazia um bom tempo que ele estava na estante e, semana passada, resolvi pegá-lo pra ler. Confesso que fiquei um tanto decepcionado, não que ele seja ruim, mas, provavelmente, por eu estar com uma expectativa exagerada devido ao outro.
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O que mais me incomodou, ao começar a leitura, foi a forma não linear da narração que me causou certo desconforto. Isso não é incomum e, nem necessariamente, negativo. Lembro-me de ter sentido o mesmo desconforto quando li, pela primeiravez, um livro de José Saramago. Era O Evangelho Segundo Jesus Cristo e sua forma de escrever os diálogos, sem utilizar o sistema convencional de pontuação, com travessão, me perturbou um pouco. Esta sensação, entretanto, passou rapidamente e logo eu estava absorto na leitura que terminei quase perdendo fôlego. Quando fiz minha segunda incursão na obra deste autor, Ensaio Sobre a Cegueira, eu estava absolutamente confortável para encarar aquela leitura que também me arrebatou.
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No livro inicial de Patrícia Melo, o desconforto não me abandonou um só instante. Ele foi, aliás, agravado pelo fato de eu tê-lo indicado no blog, antes de começar a ler, como, aliás, faço com todos os livros que indico.
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Caso minha memória não esteja me traindo (e nem minha preguiça de checar), acho que é a primeira vez que faço um comentário que não seja elogioso de uma indicação do blog. De qualquer forma, preferi escrever, mesmo assim, até porque o maior desconforto que o livro me causou foi o fato de eu não saber, até agora, se gostei dele ou não.

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Resposta ao tempo

Se, por brincadeira, alguém pedir pra eu escolher um, apenas um, dentre os meus letristas de música preferidos, este inquiridor ficará sem resposta. Julgo-me absolutamente incapaz de sacar apenas um nome de uma relação que tem Noel Rosa, Orestes Barbosa, Chico Buarque, Fernando Brant, Vitor Martins, Cacaso, e muitos, muitos outros mais.
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Se a coisa não fosse brincadeira, se eu tivesse, mesmo, que escolher um nome, sob ameaça contra a vida, até por instinto, teria que abdicar de certos pudores e reduzir a lista até chegar a um nome. E este nome único seriam dois: Paulo César Pinheiro e Aldir Blanc. Isso mesmo. Ambos são meu letrista preferido na música brasileira, por mais que a sintaxe desta frase soe errada. Nunca tive qualquer dúvida a este respeito e isso acabou de ser reforçado após ler o livro Aldir Blanc, Resposta ao tempo – Vida eletras, do jornalista Luiz Fernando Vianna.
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Sem se preocupar estritamente com dados precisos e dando maior valor aos acontecimentos sob o ponto de vista da lembrança de pessoas entrevistadas, mesmo que apresentem falhas, o que valeu, mesmo, foi alinhavar os fatos às sensações do poeta e perceber como elas foram, no decorrer de sua vida, construindo sua poesia. Servindo-se de alguns versos de suas inúmeras obras-primas, o livro vai encadeando os períodos do tempo, formando uma biografia do letrista na qual a própria história da nossa música vai se construindo, numa quase confusão em que conter e estar contido se misturam, como acontece na vida real.  Aldir Blanc, aliás, é o mais competente cronista da nossa música atual, como já fora, no passado, Noel Rosa, por coincidência (ou não), também oriundo de Vila Isabel.
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Aldir é um sujeito recluso, não é dado a manifestações de estrelismo, não é uma celebridade. Por isso é esquecido pela mídia, até mesmo por que não compactua com seu jogo. Por esse motivo, o livro trata até dos momentos difíceis de sua vida sem a dramaticidade que, certamente, venderia mais livros. Mesmo o episódio do afastamento entre Aldir e João Bosco é tratado de maneira natural e sem alarde, como eles mesmos, os protagonistas, preferem tratar. Este assunto é o que mais me interessava quando comecei a ler a biografia, não por gostar de fofocas, mas pelo fato de que este afastamento provocou em mim uma sensação de orfandade, já que me privou de continuar recebendo, através dos discos, o tipo de música que mais me fascinava naqueles tempos.
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O fim da parceria entre Aldir Blanc e João Bosco me causou, num primeiro momento, a sensação de que nenhum dos dois, compondo com outros parceiros, conseguiria arrebatar minha emoção no mesmo nível que o fizeram quando compunham juntos. Esta sensação perdura até hoje em relação a João Bosco, mas Aldir Blanc conseguiu continuar a me surpreender e me encantar com letras feitas com outros parceiros, sobretudo Guinga e Moacyr Luz.
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Não importa que sua música não venda tanto quanto as bobagens que habitam a nossa mídia. Para mim, ele continua sendo o primeiro de todos, mesmo que empatado com outro.
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Notas musicais:
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1 - Na contracapa do livro, Guinga diz: “Aldir não escreve, presta depoimento”. Acredito que este samba, feito em parceria com João Bosco, seja bastante emblemático desta forma de fazer letra que tanto me encanta.


Siri Recheado e o cacete (João Bosco e Aldir Blanc) – João Bosco
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2 – Ao lado de um grande senso de humor e picardia, Aldir é, também, hábil com as palavras ao desvendar as amarguras do ser humano, como nesta belíssima canção, composta em parceria com Guinga.


Catavento e Girasol (Guinga e Aldir Blanc) - Guinga
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3 – Com Moacyr Luz, Aldir conseguiu atingir o mesmo grau de perfeição ao compor sambas, como este.


Pra que pedir perdão? (Moacyr Luz e Aldir Blanc) - Moacyr Luz e Aldir Blanc

sábado, 28 de setembro de 2013

A Bossa Nova ainda seduz os gringos

Stacey Kent era uma estudante de Letras quando mudou-se dos Estados Unidos para a Europa a fim de estudar francês, italiano e alemão e completar um mestrado em Literatura Comparada. A partir daí, uma reviravolta aconteceu em sua vida e transformou-a numa das mais importantes cantoras de jazz da atualidade. Dona de um timbre sutil que, à primeira audição, pode parecer frágil, sua voz tem uma firmeza que faz com que não precise lançar mão de malabarismos melódicos para conquistar ouvidos exigentes e atentos. O que mais me seduz em sua maneira de cantar é a forma como articula as palavras, sílaba a sílaba, característica que sempre me encantou na performance de Frank Sinatra, por exemplo. Com mais de dez discos lançados, apresenta um repertório à prova de qualquer checagem. Perfeito. Canta com desenvoltura, tanto em inglês como em francês. Nos discos mais recentes, tem demonstrado muito interesse pela música brasileira, sobretudo a Bossa Nova e em seu álbum Raconte-moi, com repertório todo em francês, apresentou uma versão sublime de Águas de março.
 
Marcos Valle é um expoente da música brasileira, surgido na esteira da Bossa Nova sem ter se fixado na estética do movimento, já que, ao longo do tempo, foi se deslocando na direção de uma música Pop, com nítida influência norte-americana. Isso não significa, necessariamente, um declínio de qualidade. Embora sejam da fase inicial suas composições de minha preferência, não dá pra negar que as canções com acento Pop como Black is beaultiful, Com mais de trinta e Meu herói tenham grande qualidade. Apesar de a Bossa Nova ter uma meia paternidade do piano de Tom Jobim, foi o violão de João Gilberto, seguido dos de Menescal e Carlos Lyra que ligaram fortemente o movimento a este instrumento. Marcos Valle veio, como parte de uma segunda geração da Bossa, trazer novamente o piano a um lugar de destaque. Seu toque é sutil e minimalista, da mesma forma que sempre fora o de Tom.
 
Nesta altura do texto, alguém pode estranhar o motivo de eu falar de dois personagens tão diferentes. A razão é simples: acaba de sair o CD Marcos Valle & Stacey Kent ao vivo, com a cantora interpretando as canções dele, em sua maioria, versões em inglês. Há uma música em francês (La Petite Valse) e outra (Passa por mim) em que ela se arrisca a cantar em um português bastante convincente, não decorado, já que tem um surpreendente domínio do nosso idioma.
 
A seleção de repertório é bem abrangente, embora focada na fase inicial, com levada de Bossa Nova. Os arranjos também são diversificados, indo desde soluções minimalistas, apenas com piano, até execuções com banda completa. Em todas as faixas, o sax correto de Jim Tomlinson, marido da cantora, está presente. O único pecado foi ela não ter gravado O amor é chama, a canção que mais gosto, de Marcos Valle. Em compensação, as gravações de Samba de Verão e Eu preciso aprender a ser só são preciosas.


Summer Samba (Samba de Verão) - (Marcos e Paulo Sérgio Valle - Norman Guimble)


If you went away (Preciso aprender a ser só) - (Marcos e Paulo Sérgio Valle)


O ouvido argentino para a nossa música

É emblemática a frase do sociólogo Pablo Alabarces, da Universidad de Buenos Aires: “Os brasileiros amam odiar os argentinos, enquanto os argentinos odeiam amar os brasileiros”. De fato, se colocarmos a questão da rivalidade no futebol de lado, é claramente perceptível, em qualquer viagem a Buenos Aires, seja a passeio, seja a negócios, a admiração que as pessoas, na Argentina, nutre pelo nosso país. O inverso já não é tão perceptível. Aliás, é típica a má vontade dos brasileiros, em geral, com o país vizinho, como, de resto, é típica a má vontade dos nossos patrícios com outros povos, como os portugueses, por exemplo, como foi dito pelo escritor Valter Hugo Mãe, no programa Fim de expediente, da CBN, alguns dias atrás.
Mas, voltando aos “hermanos”, até mesmo na questão da carne, item no qual a deles é absolutamente superior que a nossa, mesmo nesse tema, é comum ouvir os argentinos se derreterem em elogios a um corte que não é muito comum por lá, ou seja, a picanha (que em minha opinião, nem é assim tão especial). Mas é, sobretudo na música, que percebemos a maior razão da admiração deles por nós. Enquanto, por aqui, o máximo que se observa é um parco conhecimento do tango, qualquer loja de discos de Buenos Aires, tem, pelo menos, uma uma estante inteira exclusiva para expor CDs dos nossos artistas. Eles, realmente, conhecem nossa música e este conhecimento não se atém somente ao óbvio. É possível encontrar muita coisa que, até por aqui, é raro.
Foi este fenômeno que me levou a comprar o livro Estação Brasil – Conversa com músicosBrasileiros, coletânea de entrevistas com alguns de nossos mais importantes músicos, pela argentina Violeta Weinschelbaum. 
O livro tem dois aspectos bastante interessantes. O primeiro deles é perceber o nível de conhecimento da autora dos detalhes de nossa história musical, sobretudo do movimento tropicalista. O segundo aspecto, mais importante, pra mim, é o fato das entrevistas sempre terem uma condução no sentido de se desvendar aspectos relativos à criação artística dos entrevistados. Em nenhum momento, no livro, encontramos qualquer pergunta a respeito da vida pessoal do músico. Isto, comparado a uma mídia como a nossa, em que a veiculação da fofoca e o culto às celebridades é o que impera, chega a ser uma redenção.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

Overdose de cinema

Já falei aqui sobre a dificuldade de assistir a bons filmes nas dezenas de salas de cinema espalhadas pelos inúmeros shopping centers de Campinas. Depois do fechamento do Cine Paradiso, no centro da cidade, só nos restou o Cine Topázio no longínquo e raquítico Shopping Prado para quem gosta de cinema de qualidade.
Neste final de semana não foi diferente. Após avaliar a oferta dos shopping centers mais próximos de casa e perceber (como se já não soubesse) que não havia nada “assistível” nestas salas, dada a enxurrada de blockbusters (agora inventaram esta excrescência de oferecer filmes dublados nos cinemas), resolvi me encher de coragem e encarar a travessia da cidade até o Shopping Prado.
O Cine Topázio, para nossa alegria, oferecia 5 opções bastante interessantes. Fomos no sábado e no domingo, dois filmes em cada dia.
O primeiro a que assistimos foi Os sabores do Palácio, filme francês, delicioso de assistir por causa da língua (falo tanto do idioma quanto do paladar). Trata do trabalho de uma chef de cozinha contratada para cuidar da alimentação do presidente da república, em Paris. Ansiosa em saber quais são os gostos de seu novo patrão, ela se surpreende com a solicitação de que se privilegie a elaboração da comida simples, aquela que era feita pelas nossas avós, na infância. O que surpreende mais, na verdade, é que não se trata de comida fácil ou sem graça. Comida simples pode ser comida elaborada, criativa, difícil e, por isso mesmo, apresentar sabor recompensador.
Embora o filme misture as preocupações gastronômicas com as agruras da convivência com os burocratas do palácio, o que mais me seduziu foi a mensagem de que, seja servindo à mais alta autoridade no país ou a uma turba de trabalhadores na cantina de um local ermo, o serviço deve ser feito com o mesmo esmero e o sabor da comida apresentada deve ser irrepreensível.
O filme aproveita para dar uma cutucada crítica naqueles que priorizam a estética dos pratos ao seu sabor, aos construtores desta culinária que serve muito mais aos olhos do que ao paladar e que desperdiçam o tempo construindo espumas coloridas ou flores de açúcar.
E por falar em flores, Flores Raras foi o filme a que assistimos em seguida. Ele trata da relação amorosa entre a arquiteta brasileira Lota Macedo Soares e a poetisa americana Elisabeth Bishop, no Rio de Janeiro, nas décadas de 1950 e 1960. Com produção cuidadosa, as cenas mostram tanto a cidade do Rio de Janeiro quanto a Serra de Petrópolis como eram naquela época.
Ao lado da questão estética da cidade, que é o principal pano de fundo do filme, há também a referência ao momento histórico em que vivia o país, mostrando a relação próxima de Lota com o político Carlos Lacerda, desde quando ele aspirava ser governador até, depois de eleito, ser deposto e exilado pelo regime cujo golpe de estado, tanto ele quanto ela apoiaram.
Sobre o trabalho dos atores o destaque é para Glória Pires no papel da arquiteta, embora a Lota real tenha sido fisicamente muito menos atraente que a atriz. Outra coisa estranha foi a caracterização de Lacerda que parece, no filme, alguém muito mais leve do que ele era realmente. Independentemente do que se pense a seu respeito, uma coisa que não se pode negar sobre Carlos Lacerda é que ele era uma pessoa intensa.
Intenso é um adjetivo que não se deve utilizar para qualificar o filme uruguaio Tanta Água, o primeiro que vimos no domingo. Um filme, certament, bem difícil de assistir, o que não quer dizer que seja difícil de gostar. Eu, ao menos, gostei. O que chama a atenção é o caráter medíocre da vida real. E uso medíocre com o sentido original do termo, que significa mediano, ordinário, regular. O roteiro trata da vida de pessoas absolutamente comuns, assim como são comuns as coisas todas que acontecem com elas. Neste filme, não acontece nada de anormal, a não ser o fato de 3 familiares, um adulto, uma criança e uma adolescente, estarem viajando em férias no verão. O problema é que, ao chegarem ao seu destino, não para de chover, inviabilizando tudo o que poderia ser feito à guisa de lazer. O que é que tem isso de mais? Nada.
Se é só isso, se ele mostra apenas uma situação corriqueira e absolutamente desprovida de drama ou aventura, pra que assistir a um filme assim? Pois é nesta questão que se encaixa o interesse (ao menos, o meu), porque, apesar dele mostrar um mundo absolutamente regular e normal, ele incomoda. Ele incomoda ao nos mostrar que, talvez, a nossa vida pode estar sendo desperdiçada. Por mostrar que, talvez, trabalhar o dia todo para, no final do dia, comer uma comida básica, informar-se assistindo ao Jornal Nacional e ver algum filme dublado, depois de assistir a alguma novela banal, seja sufocante. O filme incomoda por mostrar que quase todo mundo é igual e que são quase sempre iguais e tacanhas as relações familiares.
São quase sempre iguais as relações familiares e é isso o que nos mostra o filme francês O verão do Skylab. Diferentemente do filme anterior, embora também mostre situações corriqueiras, que todo mundo conhece, o que não falta ao filme é graça. E muita graça, no sentido de ser engraçado e no sentido de ser gracioso. As situações mostradas com esta numerosa família poderiam ocorrer em qualquer lugar do mundo e em qualquer tempo, mas é o fato de ocorrer na década de 1970 que permite que seja ridiculamente engraçado e por situar-se na região francesa da Bretanha que o torna gracioso. A presença das típicas situações envolvendo as grandes famílias, como a comida e bebida fartas (quando não exageradas), a avó meio atrapalhada, o tio meio maluco, as discussões entre cunhados com opiniões contrárias e argumentos absurdos, e as travessuras das crianças. A atuação das crianças, aliás, é o ponto forte do filme, sobretudo a da jovem atriz Lou Alvarez.

Poderia ser mais um entre tantos filmes sobre famílias e suas peripécias, mas o roteiro é tão dinâmico que não dá tempo da gente sossegar. Aliás, tudo é tão ágil que não há momento algum em que tenhamos oportunidade de avaliar se estamos gostando ou não. O cinema poderia ser sempre assim.

domingo, 22 de setembro de 2013

Comendo feijoada em Campinas

Posso dizer, sem chance de equívoco, que feijoada é uma das comidas que eu mais gosto. É um dos pratos mais democráticos que eu conheço, já que, por ter uma quantidade imensa de ingredientes, é difícil encontrar alguém que não goste de nenhum deles.
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Gosto de comer e gosto de fazer em casa. Acontece que feijoada é uma comida que só tem graça fazer pra bastante gente. No mínimo 15 pessoas. E como não é sempre que quero uma multidão à minha volta, eventualmente, pra matar a vontade, temos que recorrer aos restaurantes, que a servem, como é regra e tradição, nos almoços de sábado.
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Em Campinas, eu gostava da feijoada do boteco Seo Pimenta, em Barão Geraldo, servida ao som do bom samba da Velha Arte. O problema é que o boteco pegou fogo e com isso, a cumbuca se foi. Quase em frente ao finado boteco, o Empório do Nono serve uma que não chega a me empolgar.
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Decidimos, então, eu e a Clélia, procurar outras opções na cidade.
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Antes de começar o relato do nosso périplo, vão aí duas informações necessárias:
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Primeramente, nunca encontrei um restaurante que servisse uma feijoada mais gostosa do que a que eu faço. Isso não quer dizer que a minha feijoada é a melhor do mundo. As que minha avó e minha mãe faziam eram melhores que a minha. Deve haver muito boas por aí. Só que eu não consigo encontrar.
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Em segundo lugar, quando vou a restaurantes, prefiro as feijoadas servidas com tudo numa só cumbuca. Não gosto muito daquelas em que cada um dos pertences é servido separadamente. Isso pode até ser prático para que cada um escolha o que mais gosta, mas, assim, perde-se a unidade do prato. Fica cada coisa com um sabor e nenhuma delas com sabor de feijoada.
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Infelizmente, este modo de servir é o que predomina nos restaurantes e botecos hoje em dia. Sendo assim, nos rendemos a esta realidade e provamos feijoada em 3 lugares de Campinas (não no mesmo dia, evidentemente):
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Restaurante Vila Real
Local: Hotel Royal Palm Plaza
Preço: R$ 93,00 por pessoa
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Servida em sistema de buffet, ao som de um trio que toca chorinho e MPB instrumental.  Na ocasião em que nós fomos, contava com a participação de Chiquinho do Pandeiro, o que, por si só, já é garantia de boa música.
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Além do buffet com a feijoada (e mais uns pratos quentes para quem não aprecia a iguaria), há uma mesa de saladas pouco criativa e um balcão em que se servem acarajés. O problema começa justamente aí. O acarajé é absurdamente descaracterizado e, em lugar do vatapá, caruru, camarão seco frito e pimenta, ele é servido com um camarão com creme de leite (ou algo que o valha).  Ainda por cima, os bolinhos de feijão fradinho estavam murchos. Se quiser comer acarajé em Campinas, tem que ir ao restaurante da Tonha.
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Falando da feijoada, propriamente, aconteceu aquilo que eu mais temia. Cada pertence, servido individualmente, parecia ter sido cozido separado, a quilômetros de distância do feijão que, por isso mesmo, não tinha gosto de nada (a não ser de feijão). Colocar no prato um punhado de feijão cozido e alguns pedaços de carne cozidos, não transforma este prato em uma feijoada.
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Se alguma coisa serve de consolo, em termos de comida, o buffet de doces brasileiros é acima do razoável.
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Casa Rio – Bar & Restaurante
Local: Sousas
Preço: R$ 29,00 por pessoa
A Feijoada é acompanhada pelo samba do grupo Canta Brasil, com repertório afiadíssimo. O local apresenta, ainda, a vantagem de servir feijoada, também, aos domingos, excessão à regra.
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Dispostas num buffet mais simples, as carnes são servidas por tipo (e não separadamente). Desta forma, a linguiça e o paio vêm numa mesma cumbuca, o lombo e a costela também estão juntas, assim como orelha e pé. Fiquei com a clara sensação de que todas as carnes foram cozidas juntas e, só depois, separadas para servir. Se for isso mesmo, é fenomenal. Se não for assim, tanto faz, pois o sabor de tudo estava muito bom. Além do mais, há opções no buffet que combinam perfeitamente com o prato, como frango a passarinho, costelinha frita, torresmo e mandioca, que podem funcionar como tira-gosto pra acompanhar o caldinho de feijão.
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O balcão de sobremesas, com doces brasileiros, é bastante autêntico.
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Um único cuidado deve ser tomado. Se não quiser ficar bem no centro da muvuca, com pesoas dançando ao seu redor e música muito alta, inviabilizando a sua conversa, escolha uma mesa um pouco mais distante do palco.
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Choperia Giovannetti
Local: Cambuí
Preço: R$ 53,00 por pessoa
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Servida no salão da belíssima unidade que fica ao lado da prefeitura de Campinas, o diferencial deste restaurante é seu buffet de saladas, extremamente criativo e variado. Além disso, há um terceiro buffet com massas, que não chegamos a provar, mas que pareceu interessante.
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A feijoada, com os pertences em cumbucas separadas, apresenta, apesar disso, um sabor convincente. Couve, farinha, farofa, laranja picada e torresmo compõem, com dignidade, os acompanhamentos. Embora tenha agradado, a lembrança que fica é mesmo do buffet de saladas que, ao lado, oferece, ainda, algumas boas opções de pratos quentes pra quem prefere passar longe do feijão preto. Este buffet é tão bom que, ontem, tendo voltado ao Giovannetti, acabamos declinando da feijoada e nos servimos, além das saladas, de um excelente filé com creme de aspargos, uma lasanha de escarola surpreendente e um risoto de maracujá com gorgonzola delicadíssimo.
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Na casa não há música ao vivo, mas, em compensação, tem um chope Brahma que é, de longe, o melhor da cidade.
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Conclusão:
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Na comparação entre as 3 opções, a que menos gostei foi a do Vila Real. Isso sem falar no preço, que me pareceu extorsivo.
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A minha preferida, considerando o sabor, é, sem dúvida, a da Casa Rio, e também não falo isso influenciado pelo preço, felizmente, o mais baixo dos três.
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Ao Giovannetti, apesar de ter gostado do sabor da feijoada, iremos voltar pelo seu buffet de saladas que me fez levantar várias vezes da mesa em sua direção, passando pela feijoada, sem cair em tentação.
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Como esta busca é infindável, vamos continuar na árdua procura e já estamos planejando conhecer a feijoada do Tonico's Boteco, qualquer sábado destes.

sábado, 6 de julho de 2013

Pedro Almodóvar, mais uma vez

Semana passada estreou, aqui em Campinas, o novo filme de Pedro Almodóvar, Os Amantes Passageiros. Fiquei sabendo disso, ao ler a primeira página do caderno de cultura do Correio Popular, cujo texto, de João Nunes, espinafrava o filme. Logo em seguida, minha filha postou, em sua página do facebook, um comentário falando bem dele. Como eu confio mais na Cecília do que em qualquer crítico, fui ao cinema sem preocupação. Não me arrependi. Gostei, embora não seja uma obra-prima e não chega nem perto dos meus preferidos; Ata-me ou Mulheres à beira de um ataque de nervos. Não tenho, aliás, a ilusão de que ele volte a fazer algo que me arrebate como estes dois. O mesmo se passa com Woody Allen. Provavelmente, nunca produzirá outro filme como Manhattan.
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O autor do texto do Correio Popular se mostra incomodado com a forma com que a questão da sexualidade (da homossexualidade, na verdade) é abordada. Talvez tenha considerado muito debochada a maneira do tema ser conduzido. Esquece-se que Pedro Almodóvar é puro deboche e exagero. Sempre foi. O único ponto de concordância com o texto de João Nunes é a respeito da cena da dancinha. Absolutamente desnecessária.
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O texto sugere, ainda, um palpite de que o diretor espanhol tenha perdido a mão. Cheguei, também, a pensar nisso, depois de ver Má educação e Fale com ela, mas, logo depois, percebi que era bobagem, já que seus filmes, Volver, Abraços partidos e A pele que habito, voltaram a me agradar. Acredito que Os amantes passageiros esteja no mesmo padrão destes últimos.
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Com um elenco composto de habitués das produções do diretor, conta ainda com participações relâmpago de atores consagrados como Penélope Cruz, Antonio Banderas e Paz Vega, irreconhecível, muito magra e quase feia (nunca imaginei que um dia iria escrever isso).
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É uma boa diversão. Não arrebata, mas nem sempre isso é necessário.

domingo, 30 de junho de 2013

A Seleção que eu amei

Não digo isto embalado pelo clima das manifestações, mas eu torci o nariz para a realização da Copa do Mundo no Brasil desde que a tragédia foi anunciada, como escrevi neste texto aqui. Sentimento semelhante eu tenho a respeito dos Jogos Olímpicos no Rio de Janeiro.
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Falando de futebol, especificamente, não tenho me sentido empolgado com a Copa das Confederações e, pra que não digam que é por causa do resultado do jogo final contra a Espanha, estou escrevendo este texto antes da partida. Pra dizer a verdade, nem mesmo a Copa do Mundo tem me interessado muito nos últimos anos. E isso acontece, justamente, pelo fato de eu gostar muito deste esporte.
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Em 1970, eu tinha 9 anos e começava a me interessar por futebol. Daquela copa tenho, claras, duas lembranças. A primeira é do jogo Brasil x Inglaterra, quando acabou a energia na minha casa e eu acompanhei a partida pelo rádio de pilha, inaugurando um hábito que me acompanharia por toda a adolescência.
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A outra lembrança foi depois da partida final, que assistimos pela TV, na casa de minha avó. Mais do que o jogo, em si, o que ficou na minha cabeça foi a quantidade de soldados do exército que havia nas ruas durante a comemoração. Perguntei o motivo ao meu pai e ele deu alguma explicação protocolar, pra mudar de assunto. Só depois de alguns anos eu fui entender, melhor, o que se passava no nosso país naquela época.
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As seleções de 74 e 78 não me empolgaram, como não empolgaram ninguém que tivesse um mínimo interesse pelo esporte. E foi só em 1982 que voltei a me sentir, realmente, excitado com um time brasileiro numa Copa do Mundo. Nunca mais me senti assim, depois disso. Aquele time não ganhou a Copa, mas isso não faz nenhuma diferença.
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E é pensando no time de 82 que eu queria indicar o livro de Paulo Roberto Falcão, Brasil 82: O time que perdeu a Copa e conquistou o mundo. Neste livro, além de relatar alguns casos sobre aquele time e aquela época, Falcão pergunta a cada um dos companheiros, que jogaram com ele, o motivo do Brasil não ter saído vitorioso na competição. É muito interessante perceber como cada um dos ex-atletas tem uma versão distinta para o que aconteceu, mas, principalmente, perceber que a maioria deles, apesar da derrota, não se sente derrotado.

domingo, 2 de junho de 2013

Sexo comportado

No meio do feriado de 4 dias, ainda com ganas de ir ao cinema e sem ânimo pra viajar pra São Paulo novamente, procuramos as opções em Campinas. Busca inglória, acabamos escolhendo um filme argentino, motivados pelas últimas boas sensações experimentadas, nas telas, pelo que se produziu naquele país, nos últimos 15 anos. Filmes como 9 rainhas,  O filho da noiva, Kamchatka, O segredo dos seus olhos, Abutres ou Elefante Branco. Filmes com atores como Ricardo Darin e diretores como Juan José Campanella, que nos fazem morrer de inveja pelo fato do nosso cinema não produzir, há muito tempo, algo minimamente comparável a eles.
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O filme 2 mais 2, de Diego Kaplan é divertido. Tem algumas tiradas engraçadas, mas é só isso. Trata-se da história de dois casais de amigos, um mais conservador, outro mais ousado, que resolvem se atrever e experimentar a troca de casais, ou o swing, como chamam atualmente. O tema é instigante, poderia render alguma reflexão mais profunda sobre o amor e o sexo, ou produzir cenas mais picantes, que provocassem sensações excitantes na platéia. Tanto uma coisa quanto outra teria alguma utilidade.
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Nada disso. O filme é divertido e nada mais. Perde a graça, entretanto, quando, em dado momento, começa a trilhar um caminho que o faz cair na armadilha moralista, reforçando a ideia de que o sexo só deve ser praticado dentro de determinadas normas vigentes e mostrando que quem se atreve a desafiá-las, acaba sofrendo consequências, talvez irreparáveis. Mas o próprio filme oferece, de bandeja, uma chance de reparação ao apontar o arrependimento como forma de salvação.
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Com este tema, poderia desmascarar a hipocrisia da sociedade que cultiva mais o sentimento de posse do que o amor. Poderia produzir um libelo pela liberdade, mostrando formas alternativas das pessoas se relacionarem. Prefere, entretanto, não se atrever, não ousar, não fazer nada disso. Opta pelo caminho mais comportado, mais seguro, menos excitante. Opta por ser um filme divertido. Nada mais.
 
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Em tempo: Praticamente durante toda a exibição, a imagem no cinema do Shopping Galleria ficou desfocada, chegando, durante alguns minutos, a ficar indecifrável. Como se não bastasse a falta de opções na cidade de Campinas, nota-se, também, o descomprometimento com a qualidade da exibição.

sábado, 1 de junho de 2013

Lidando com a culpa

Uma das coisas que um feriado prolongado pode proporcionar é a ida ao cinema de maneira plena, quase excessiva. É difícil este exercício em Campinas, onde impera a exibição de blockbusters nas centenas de salas contidas nas dezenas de shopping centers da cidade. Não há alternativa. Pra ter verdadeira variedade de filmes, é preciso ir pra São Paulo.
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Supus que o feriado tornaria o trânsito naquela cidade mais ameno. Ledo engano, estava impossível. A quantidade de carros era inacreditável, tornando realidade que o preço do estacionamento chegue a 14 reais por meia hora. De qualquer forma, apesar do valor extorsivo dos estacionamentos e, também, das entradas do cinema (25 reais, uma inteira!), logramos assistir a 2 filmes que, se acaso estiveram em alguma sala de Campinas, isso não durou mais do que 1 semana.
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O primeiro foi o filme canadense O que traz boas novas (Monsieur Lazhar), do diretor Philippe Falardeau. Uma leitura superficial da sinopse poderia sugerir tratar-se de mais uma daquelas histórias de professor e alunos, no estilo “Ao mestre com carinho”, com uma sala de aula, cheia de jovens desajustados e que são convertidos em pequenos gênios, graças aos métodos diferenciados de algum professor iluminado. Coisa de ficção científica. Uma leitura atenta da sinopse, entretanto, indica que não é este o caso. Muito pelo contrário, aliás, percebe-se ao assirtir ao filme. Neste caso, os alunos são absolutamente ajustados, nada indica que tenham grandes problemas sociais, mas a tela mostra que este equilíbrio não é garantia de uma rotina sem conflitos.

 
De uma delicadeza cirúrgica, o filme, entre outras coisas, desnuda o conflito entre ensinar e educar, questionando a função da escola e a dos pais. E, nesta questão, o principal mérito do filme é o de nem ao menos sugerir uma resposta para ela.  Há, ainda, que se ressaltar o exelente desempenho do ator protagonista e os de duas das crianças que interpretam seus alunos. De arrepiar.
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O segundo filme que assistimos, logo em seguida, foi o brasileiro Hoje, de Tata Amaral com Denise Fraga e o ator uruguaio Cesar Trancoso. Muito mais tenso que o primeiro, o filme trata das marcas deixadas nas pessoas que sofreram torturas no regime militar, mesmo depois de muito tempo passado. A diretora escolhe uma forma de condução da narrativa nada usual e que confere ao filme, em alguns momentos, uma morosidade incômoda. Incômoda, porém, é a realidade na qual viveu o país por 20 anos e da qual não está conseguindo se livrar, por total incapacidade de expiar suas culpas.
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E falando em culpa, para explicar o título dete post, é necessário dizer que a forma de lidar com a culpa é a única coisa comum a dois filmes tão diferentes, tanto na temática quanto na maneira de conduzir a direção. A culpa (e o jeito de lidar com ela) é o elo de ligação destas duas histórias tão distintas. E mais não vou falar, para que, quem tiver a oportunidade, possa assisti-los. A ambos.
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Em tempo: Acho que mudaram o material da embalagem dos sacos de pipoca, nos cinemas. Parece algum tipo de papelão grosso. O que sei é que isso produz um ruído insuportável na sala de projeção. E como os sacos são imensos, o ruído é interminável. As pessoas, tudo indica, vão mais ao cinema para comer do que para assistir a um filme.