Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A boa nova

Envelhecer traz muitos perigos. Dois dos mais comuns são tornar-se nostálgico e conservador. Acho que estou sendo acometido destes dois pecados. Pelo menos no que diz respeito à música. Explico melhor.

É que ando tendo muito pouca paciência com as novidades, tanto na música brasileira quanto no jazz, minhas principais preferências. E essa falta de paciência tem me provocado falta de curiosidade. Por isso, acabo sempre garimpando as prateleiras das lojas, reais ou virtuais, em busca das mesmas coisas, das músicas de Tom, Chico Buarque, Gil e Paulinho da Viola. Busco Miles Davis, Cole Porter, Gershwin e Ella Fitzgerald. Procuro Aldir Blanc, Paulo Cesar Pinheiro, Monarco e João Gilberto. Anseio por ouvir Sinatra, Tony Bennett, Elizeth e Cauby. Só Cartola ou Nelson Cavaquinho me comovem. Só John Coltrane ou Bill Evans me fazem perder o prumo.

Quando penso muito nisso, procuro corrigir a rota e saio a procura de coisa nova. Mas tem tanta coisa e tanta coisa ruim, que acabo desanimando. Volto à minha busca nostálgica e conservadora.

Por isso mesmo foi que me peguei surpreso e satisfeito ao descobrir uma cantora nova, cantando só gente nova, num disco garimpado na internet. Trata-se do CD Nosso, de Dani Gurgel. Foi a caminho do trabalho, no carro, que, por acaso, seu disco começou a tocar. E, sem que eu tivesse prestando especial atenção, minha atenção foi fisgada. Faixa a faixa, as canções se sucediam uma após outra, cada qual com sua levada diferente, todas envolventes.

Num determinado momento, sua voz e seu jeito de cantar me lembrou Rosa Passos. Não a Rosa de hoje, arquétipo de celebridade, travestida por si própria em diva, cantora eterna de eternas bossas novas. Sua voz lembrou-me a Rosa Passos de 1979 do disco Recriação, quando me apaixonei por Formicida, corda e flor, logo depois gravada por Nana Caymmi.

Dani Gurgel é muita coisa.
Cantora, fotógrafa e blogueira, a menina tem tudo pra estourar. Só espero que não vire diva e nem celebridade.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Simples assim

Quando eu era moleque e queria andar de bicicleta, a solução era pedir pra quem tivesse que me deixasse andar. Simples assim. Quando ele deixava, bastava pegar a magrela, pedalar pelas ruas do bairro e devolvê-la depois.

Se ele não deixasse, era bem simples também. Bastava ameaçá-lo:

- Se não me deixar andar, eu te dou uma porrada!

A coisa só se complicava se ele, mesmo assim, continuasse negando. Aí, não havia outra alternativa, a não ser, cumprir a ameaça. Se não cumprisse, ficaria desacreditado no bairro e nunca mais poderia andar de bicicleta.

Não era só eu que fazia isso. Toda a molecada fazia. Era a lei da rua. E todo moleque era esperto o suficiente pra só ameaçar alguém em que pudesse bater, alguém mais fraco ou mais covarde. Todo moleque esperto sabia que não podia ameaçar alguém mais forte ou mais corajoso. E se não soubesse disso e cometesse esse erro, levava ele, umas porradas e aprendia rapidinho.

Quando eu ganhei, do meu pai, a minha bicicleta (uma gloriosa bicicleta Tigrão), passei de algoz a vítima. Aí, tive que aprender a não negar um passeio de bicicleta a quem fosse mais forte ou mais corajoso que eu. A vida era assim. Bem simples. Quem era mais forte vencia quem era mais fraco. E quem era mais fraco, pra não apanhar, recebia ajuda do irmão mais velho ou até do pai. E se não tivesse jeito, continuava apanhando, até crescer ou criar coragem.

Não fique escandalizado com isso, por favor. Isso pode não acontecer com seu filho que mora num condomínio e vai pra escola de transporte escolar. Mas, no meu tempo, era assim que as coisas funcionavam e, tenho certeza, ainda funcionam nos bairros da periferia.

Estou pensando nisso, pra entender melhor essa coisa que está acontecendo na faixa de Gaza. Eu digo coisa, pois já li tanta gente chamando de tanto nome diferente que fica difícil saber como chamar. Guerra, conflito, reação desproporcional, ofensiva, retaliação, enfim, acho que vou chamar de massacre, mesmo.

Pois bem. Vamos fazer de conta que eu acredito, homem de boa fé que sou, em tudo o que sai nO Globo, na Veja, na Folha de São Paulo, e em 99% da mídia instituída. E vou fazer de conta que não haja toda uma realidade histórica embasando essa coisa. Afinal, se toda a mídia está desprezando a história pra veicular as notícias e, principalmente, as análises, eu também tenho direito a este desprezo. Ou, então, vou fazer de conta que não sou um adulto e que raciocino como moleque, já que tem muito moleque sendo atingido naquela região.

Sendo assim, baseado na informação que recebo, eu poderia fazer uma associação com meu tempo. O Hamas jogou umas pedrinhas no terreno de Israel. Israel, que é muito mais forte, joga uma tonelada de pedras em Gaza, sem se importar com quem esteja brincando no quintal. Joga mais pedras no hospital, na escola, no parquinho, enfim, fica mais de vinte dias jogando pedras, machucando gente, destruindo tudo, a tal ponto que, até quem não tem nada a ver com isso começa a se incomodar. Até que, um belo dia, a dona ONU vai até Israel e diz que é pra parar de jogar pedra em Gaza.

E é aí que as coisas se complicam. Pois a dona ONU pediu pra andar de bicicleta. E Israel não deu nem bola. Israel não quis nem saber. E agora, dona ONU? O que fazer? Não vai ameaçar? E se ameaçar e Israel não der pelota e continuar a jogar as pelotas em Gaza?

Que vergonha, dona ONU. A senhora foi até lá, e no dia em que estava lá, mandando eles pararem, onde foi que eles jogaram pedras? Num prédio da ONU!

Não vai fazer nada?

Olha bem. A molecada toda vai ficar falando:

A ONU não é de nada, só come marmelada.

Antônio Maria

Quase não leio mais jornais. Não é que não goste de ler. Isso não me dá azia, muito pelo contrário. É que não confio neles. Já tive a ingenuidade de encontrar jornal imparcial e honesto. Sei que imparcialidade não é possível. Honestidade é. Infelizmente, não a encontro. Então, não leio mais notícias. Mesmo porque, o que me interessava no jornal eram os cadernos de política. Não dá pra ler. Não dá pra confiar. Agora, quando leio, eventualmente, são os cadernos de esporte e os cadernos culturais. O que me seduz, ainda, é a leitura das colunas. E só leio as colunas de quem eu gosto, ou quase gosto. Vá lá, leio também as de quem não gosto. Às vezes.

Leio a coluna do Cony, do Ruy Castro, do Jânio de Freiras, do Contardo, tudo na Folha. Leio as colunas do Veríssimo, do João Ubaldo, do Mathew Shirts, do Mário Prata, em outros jornais. Leio o Juca Kfouri, a Soninha e o Tostão. Leio a coluna do Fernando Calazans. Leio até o Jabor. Até o Nelson Motta. Até o Clóvis Rossi. Até quem não gosto muito, eu leio.

Não é sempre que tenho tempo para ler e quando vou viajar de avião, principalmente em viagens longas, costumo fazer um rapa em várias colunas, novas e antigas, imprimo e levo comigo. Com isso, acabo gostando mais daquelas colunas que são atemporais, que dependem menos do que está acontecendo na atualidade.

Por isso, causou-me grande prazer a leitura das crônicas que Antonio Maria escreveu no jornal Última Hora, de 1959 a 1961. São absolutamente atemporais. Reunidas no livro Benditas sejam as moças, por Joaquim Ferreira dos Santos, as crônicas retratam um Rio de Janeiro que talvez ainda exista, se não na Barra, quem sabe em Copacabana, Tijuca ou Vila Isabel. Os textos desnudam, com elegância e picardia, a sociedade carioca, da zona sul e do subúrbio, com sua ginga, sua malandragem e preconceitos. Retrata, sobretudo, a mulher carioca e acaba, de certa forma, retratando a mulher brasileira.

Fazia tempo que não extraia tanto prazer de uma leitura.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Morno

Roberto Carlos despontou no início dos anos 1960. Num período aberto à rebeldia, passou ao largo dela e simbolizou o bom moço que as mães carolas ansiavam para namorar suas filhas. Lançou seus discos ao longo de 40 anos, sem nunca arriscar. Essa foi sua marca. E apesar disso, é injusto negar a qualidade de muitas de suas músicas e da sua forma de cantar. Transformou-se num rei, merecidamente. Canta e encanta gerações de fãs, com seu jeito calmo e sublime. Sempre reverenciou a Bossa Nova e diversas vezes declarou sua admiração por João Gilberto e Tom Jobim. É um dos maiores ícones de nossa cultura popular.
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Caetano Veloso despontou no início dos anos 1960. Num período aberto à rebeldia, ergueu esta bandeira e foi sempre sua voz. Simbolizou tudo o que os pais de classe média não queriam que seus filhos fossem. Lançou seus discos ao longo de 40 anos, sem nunca ceder ao conforto do sucesso. Sempre arriscou. Essa foi sua marca. E apesar disso, conseguiu um considerável sucesso em sua carreira, imprimindo em nossa cultura, sua peculiar maneira de compor e cantar. Canta e instiga gerações de fãs, com seu estilo provocativo. Sempre reverenciou a Bossa Nova e diversas vezes declarou sua admiração por João Gilberto e Tom Jobim. É um dos maiores ícones de nossa cultura popular.

Dois símbolos tão distintos, têm a facilidade da sintonia, como quando Roberto canta Força Estranha, de Caetano ou quando Caetano canta Fera Ferida de Roberto. Certamente, esta sintonia deve muito à Bossa Nova e a Tom Jobim.

Por tudo isso, um disco reunindo estes dois grandes astros cantando só músicas do grande maestro, só poderia resultar num CD muito quente. Pois não foi o que aconteceu. O CD Roberto Carlos e Caetano Veloso e a obra de Tom Jobim é um disco morno. Caetano está muito Roberto Carlos no disco. Não se aventura, não inova, não arrisca. Isso pode cair bem na pele do rei, mas não convence na pele de Caetano. Roberto, por sua vez, está absolutamente desconfortável cantando Bossa Nova. Sua praia nunca foi o samba e Bossa Nova é samba, no final das contas.

Tanta coisa boa podia ter sido feita, aproveitando esta oportunidade, e tanta bobagem foi feita neste disco. Eles poderiam ter cantado muitas faixas juntos e não o fizeram. Quando fizeram, o resultado foi absolutamente óbvio. Há uma gravação de Insensatez em espanhol que é de uma insensatez atroz, me perdoem o trocadilho infame. Infame mesmo, aliás, são os arranjos pasteurizados de Eduardo Lage, há tantos anos fazendo os arranjos pasteurizados dos discos de Roberto, que nesses casos, funcionam muito bem. Neste, não funcionou.

O disco não é horrível. Pode ser até agradável ouvi-lo, desde que você esteja na sala de espera do seu dentista ou no elevador de um shopping center. O disco não empolga. Não é ruim, mas é morno. Isso é muito pouco quando se reúnem 3 símbolos tão importantes da nossa cultura.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Roberto Dinamite e Barack Obama

Quando uma coisa está muito ruim, nossa expectativa é que qualquer mudança será para melhor. Temos uma tendência a nos esquecer aquele ditado que diz que nada está tão ruim que não possa piorar. Na verdade, mesmo que não piore, as expectativas geradas, nestas situações, sempre tendem a criar decepção. Foi o que aconteceu com a eleição de Roberto Dinamite para a presidência do Vasco da Gama.

Sempre foi barbada que qualquer solução seria melhor para o clube carioca do que a permanência de Eurico Miranda. Por isso mesmo, toda a massa pensante, que admira o futebol, torceu pela vitória de Roberto. Eu também torci. E Roberto venceu. Venceu e foi empossado. E junto com ele, levou para São Januário toda a sua inexperiência, o que fez com que acumulasse uma série de decisões equivocadas. Tudo absolutamente compreensível. Parece que está encontrando o caminho certo, agora.

Já deixei claro, neste blog, que gosto mais de futebol do que de torcer. Mas, da mesma forma que torci para o Corinthians cair em 2007, no ano passado torci para o Vasco sobreviver na primeira divisão. E fiz isso, não porque tenha alguma simpatia especial pelo clube (sentimento que só nutro pelo São Paulo), mas porque queria evitar o que parecia inevitável, ou seja, que aquela turminha de sempre tivesse um motivo pra lamentar a saída de Eurico.

Aparentemente, isso não aconteceu. Aparentemente, a grande torcida cruzmaltina está apoiando o novo presidente.

Presidente Dinamite, este não é o momento de pisar na bola.
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Desde cedo, assumi, muito claramente, neste blog, minha preferência por Barack Obama como o candidato democrata à sucessão de Bush Jr. Ressaltei até meu medo de que a disputa acirrada com Hilary Clinton enfraquecesse a peleja principal em favor do candidato republicano. Quando Obama venceu as eleições, minha esperança estava acesa. Esperança por sua posição a respeito do bloqueio comercial a Cuba, por suas declarações a respeito do modelo de política externa que pretendia adotar, em relação à América Latina e ao Oriente Médio. Principalmente, tive esperança, por perceber o quanto seu nome estava mobilizando a metade progressista da população americana.

Hoje, a poucos dias da posse, minha esperança se esvaece. Noto em Obama uma extrema timidez no que diz respeito a estabelecer uma conversa mais direta e objetiva com a ilha de Fidel. Na verdade, é Raul Castro que está dando sinais inequívocos de que busca algum entendimento. A escolha das figuras que irão compor seu governo causa decepção em toda a esquerda norte-americana, e, sobretudo, o que mais me incomoda e desanima é seu silêncio a respeito da questão Palestina.

O momento e a posição de Obama não admitem o silêncio. É necessário que ele se manifeste, agora, claramente, sobre este genocídio que está ocorrendo na faixa de Gaza. É necessário que o presidente eleito dos Estados Unidos mande um sinal a Israel de que esta atitude não pode ser tolerada.

Presidente Obama, este não é o momento de ser covarde.

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

Início de ano

Começa um novo ano, hoje. Eu, que não sou dado a valorizar este tipo de data, entro nesta nave com uma sensação ruim. Não estou me referindo à crise financeira ou ao fim das férias, mesmo porque, eu não as gozei. O que me incomoda é a tal reforma ortográfica que querem me forçar a obedecer. Tenho uma enorme tendência a rebelar-me e não seguir estas novas regras. Não que sejam radicais ou ultrajantes. Achei-as, aliás, brandas. Mas é que eu gosto das regras antigas. E estou disposto a continuar com elas, mesmo depois de 2012, quando oficialmente serão abolidas.


De todas as mudanças, a que mais me incomoda é a eliminação do trema. Gosto do trema. Certamente por vaidade. Pouca gente o usa e por isso, acabo me sentindo diferenciado. Isso me agrada. Por essa razão, continuarei a usá-lo, mesmo depois de 2012. Afinal, eu sou daqueles que fazem um corte na letra Z ou no algarismo 7.

Minha fixação pelo trema não tem um caráter funcional. Sei que ele não serve pra muita coisa. Mas não sou daqueles que acham que só as coisas úteis têm valor. Minha simpatia pelo trema é estética, estilística.

Defenderei com eloqüência o meu direito de comer lingüiça, freqüentemente.

A frase acima, quando dita, é de uma falta de graça que ofende os ouvidos. Vê-la impressa, entretanto, me agrada. Sem o trema, nunca mais vou escrevê-la.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Bem-vindo Sarkozy

O presidente francês Nicolas Sarkozy está visitando o Brasil. Ele veio pra vender submarinos. E o Brasil está louco pra comprar. Mas não é isso que importa. Não importa que ele esteja aqui pra vender armas. Não importa que ele seja de extrema direita e nem que seja racista. Não importa que ele represente este tremendo retrocesso por que passa a política européia, sobretudo a política francesa. O que importa é que Carla Bruni veio junto com ele.

O Brasil já teve uma primeira dama lindíssima. Maria Thereza era até mais bonita que Carla Bruni. Acontece que Jango não dava a mínima pra ela. Mesmo tendo aquela beldade em casa, sempre preferiu esbaldar-se em outras camas. O contrário de Sarkozy que vive cercando a esposa de mesura e galanteios, ao menos publicamente.

Talvez, por causa disto, Maria Tereza sempre teve um ar de tristeza emoldurando seu lindo rosto. Talvez, por causa disso, Carla Bruni apresente-se sempre alegre e jovial.

Por tudo, apesar do retrocesso, apesar do racismo, apesar da intolerância que ele representa, Sarkozy será sempre bem-vindo. Contanto que traga Carla Bruni. Melhor seria se ela viesse sozinha.

sábado, 13 de dezembro de 2008

Mapeando Barão Geraldo

Quando viemos de São Paulo, 7 anos atrás, e fomos morar em Valinhos, nossa primeira ocupação foi começar a mapear a cidade. Após identificar bons açougues, quitandas e supermercado, ficou absolutamente claro, pra nós, que a cidade não ofereceria opções gastronômicas e culturais que aplacassem nosso apetite. Começamos, então a mapear Campinas, pertinho dali.

Depois de alguma perda de tempo no circuito Cambuí-Shoppings, descobrimos o centro da cidade e outros bairros menos festejados e passamos também a freqüentar Sousas e, com menor freqüência, Barão Geraldo. E agora, ironia do destino, 7 anos depois, eis que nos mudamos para Barão Geraldo.


Os campineiros, em geral, acham que Barão Geraldo é longe. Depois de Barão Geraldo tem o Guará, mais longe ainda. Depois do Guará tem o Village e a Vila Holândia, dois fins-de-mundo. Pois fomos morar mais longe do que o fim-do-mundo. É tão longe que já nem é Campinas. É Paulínia. Pois bem. Mesmo sendo em Paulínia, é por Barão Geraldo que chegamos até em casa e é por isso que nossa atual ocupação está sendo mapear este bairro.

Pra começo de conversa, Barão Geraldo nem é um bairro. É um sub-distrito, quase uma cidade. Desconfio, aliás, que seja maior que Valinhos. Dos lugares que já conhecíamos, aquele que temos ido com maior freqüência é a Casa da Moqueca.

Como o nome diz, a casa é especializada em peixes e frutos do mar. Até a semana passada, ostentava no muro uma faixa em que anunciava uma promoção de 10 pratos à base de camarão a R$ 39,00 para duas pessoas. Experimentamos quase todos e, de fato, além de muito saborosos, a quantidade é farta, dando, eventualmente, para alimentar 3 pessoas. A faixa saiu do muro, nessa semana. Eu liguei pra lá, na esperança de que a faixa tivesse sido retirada para lavar, ou coisa do tipo. Doce ilusão. A promoção acabou e os preços dos pratos voltaram ao seu patamar normal de R$ 53,00 a R$ 56,00. Mesmo assim, ainda vale a pena.

Os outros lugares que já conhecíamos são a Casa São Jorge, o Bar Pantanal, o Empório do Nono, o Seu Pimenta e a Estação Santa Fé. Ainda não fomos a esses lugares, pois estamos excitados com o mapeamento do que é misterioso na cidade (opa! no bairro).

Padarias e açougue:

Há 3 padarias interessantes. A mais tradicional delas é a Padaria Alemã. Parece aquelas padarias de cidade do interior de 30 anos atrás. Tem muita coisa interessante, de dar água na boca. Quase chegando no Guará, tem a Panetteria di Capri que é meio fashion e é, das 3, a que menos gosto. Tem uma gente meio metida a besta e o pão nem é lá grande coisa. Além do mais, o atendimento é antipático. No Guará, tem a Padaria Casa Grande, bem pequena, de cujo forno saem coisas bem interessantes, como alguns pães recheados e tortas. Deve haver mais coisa pra mapear. Estamos ainda no processo de busca.

Começamos a procurar um bom açougue. Nada. Pra maioria das pessoas que perguntamos, vinha a mesma resposta: - Eu compro carne no supermercado.

Eu não gosto muito de comprar carne em supermercados. Gosto, mesmo, é do velho e tradicional açougue. Aquele em que você estabelece contato com o açougueiro, que, com o tempo, reserva sempre um corte especial pra você. Depois de procurar muito, acabamos encontrando um bem interessante, que trabalha com gado red angus e produz uma lingüiça temperada com hortelã que é um pecado. Fica na rua Maria Tereza Dias da Silva, 698. Não sei o nome. O lugar é bom, mas o preço é salgado. Temos que procurar mais.

Restaurantes:

Desde que chegamos aqui, com a ajuda da Veja Campinas, do site Barão em foco e navegando meio sem rumo na Internet, estamos checando os lugares. Alguns são bem interessantes. Outros, nem tanto.

O pior, até agora, é um restaurante que fica bem no começo da Av. Albino José Barbosa Oliveira chamado Universo Massas. Sempre tive curiosidade em relação a este restaurante. Sua localização é estratégica e imponente. E em suas paredes, pôsteres gigantescos prometem uma quantidade inimaginável de massas, pizzas, carnes e sobremesas, em sistema de rodízio e a preço fixo. Sou glutão e não sou inocente. Sei que não dá pra fazer milagre e fui pra lá convicto de que seria ruim. O problema é que o lugar é muito pior do que ruim. É péssimo. Pior que péssimo. E o preço nem é tão baixo como eu supunha (o que não iria compensar tanta ruindade). Fujam!

Outro restaurante que não vale a pena voltar é o Via Roça. A comida é até boa. Mas o restaurante é longe, é longe, é longe até não mais poder. Comida mineira, bem feita e honesta. Preço compatível. Mas é muito longe! É no Village. Na verdade, é depois do Village e olha que o Village é longe. Só se justificaria ir até lá se a comida fosse esplendorosa. Mas é uma comida apenas boa. Como a comida que eu consigo fazer em casa.

Uma tranqueira é o restaurante Casa da Vó, no Tilly Center. Aliás, pelo que eu pude ver, não há nenhum motivo pra eu ir ao Tilly Center novamente.

Fomos também ao Bar do Jair. É um boteco daqueles cheios de gente, cujo prato principal é a coxinha, enorme, com mais de 20 opções de recheio. Fomos, a Clélia, a Cecília e eu e não conseguimos comer duas coxinhas cada um. O salgado é grande praca. Descobrimos também que, no final das contas, o único recheio que combina com coxinha é mesmo o de frango.

Pizzarias, fomos em 3. Vila Ré, pertinho da entrada de Barão é uma casa pequena, simples e simpática. O atendimento é bom e a pizza é boazinha. Isso é pouco. Pelo menos pra nós, pizza tem que ser ótima. Na Av. Santa Isabel há a Pizzaria Fiori. Bem requenguela, lembra as pizzarias de bairros pouco festejados de São Paulo, como Ipiranga ou Cambuci. O atendimento é desatento, quase hostil. A pizza, surpreendentemente, estava boa. Ao menos os primeiros pedaços, quando a fome era sufocante e a massa estava crocante. A segunda metade não foi tão sedutora. De positivo, sem dúvida, o preço. Comemos e bebemos, eu e a Clélia, gastando R$ 30,00.

A melhor pizzaria é a mais próxima de casa. Quase chegando no Guará. É a Gregória. No começo, evitamos esta pizzaria, pois ela estava sempre vazia. Aquilo nos incomodava. Pizzaria sempre enche. Até pizzaria ruim sempre enche. E sempre que passávamos em frente a ela, a mesma coisa, suas mesas estavam sempre vazias. Um dia resolvemos arriscar e descobrimos que o salão principal da casa fica nos fundos. E estava, evidentemente, cheio. Foi a única pizzaria de Barão em que já fomos mais de uma vez. O cardápio é parecido com o das pizzarias Brás ou Babbo Giovani. Os preços também. A pizza, no entanto, está um degrau abaixo. A rigor, pra comer pizza boa em Campinas, melhor ir pro Cambuí.



Picanha de Ouro é uma churrascaria mediana. A grande vantagem é o preço, realmente bem baixo. Isso torna uma visita a ela um bom programa, principalmente se você for bastante paciente no que diz respeito ao atendimento dos garçons. Se estiver a fim de comer uma carne de primeira, então é melhor ir pro Cambuí, no Cenário ou pro Chapadão, no Omar.

Fomos ao Recanto do Barão a fim de comer arroz feijão e carne. Uma comida que fosse parecida com a do Feijão com Tranqueira. Ao chegar lá, percebemos que o cardápio é quase exclusivamente de frutos do mar. Acabamos pedindo uma porção de picanha aperitivo que estava muito boa, mas não era exatamente o que nós queríamos. Acabamos voltando lá, à noite, pra comer uma moqueca. Achei salgado demais. O prato e a conta. Prefiro a da Casa da Moqueca.

Há ainda outras comidinhas. A sorveteria Sabor e Sonho não conquistou, ainda. Mas sorvete é assim mesmo. Tem que experimentar vários sabores, até encontrar os preferidos. Por enquanto, tenho ficado no de maracujá e no de coco, bem bons, ambos. Ai que saudades da sorveteria Só Aqui, de Valinhos. Mas aquela, só lá.

A Battataria Suíça foi uma grata surpresa. O serviço é meio lento e a cozinha é demorada, mas quando chega aquele disco voador de batata recheada, quentinho e crocante, parece que nada melhor poderia acontecer. E tem, às sextas e sábados, uma música ao vivo bacaninha.

O hambúrguer do Greg é muito gostoso. Lembra o primeiro hambúrguer que eu comi, ainda criança, em São Paulo. Todos os hambúrgueres deviam ter aquele sabor. Só que eu acho que pagar R$ 14,00 num cheese salada é um pouco imoral. E o pior é que eu comi dois. Um hambúrguer não pode custar mais que uma moqueca de camarão.

Se a hora avança a madrugada e tudo está fechado, uma saída é o Ponto Final, ao lado da Batataria Suíça. Deve ir até 4 ou 6 da manhã. Mas esse, provavelmente, é o único motivo pra ir lá.

Ontem, fomos no Le Chef, um restaurante com pretensões de bistrô francês. Saímos de lá bem satisfeitos. Comi uma truta ao molho de vinho tinto e a Clélia um salmão ao molho de maracujá. Ambos acompanhados de um risotinho básico. Ambos ótimos. Uma saladinha simples e deliciosa de entrada e uma sobremesa meio sem graça. Tudo isso mais bebidas, gastamos menos de R$ 50,00. Foi surpreendente. Iremos voltar.

Enfim, este mapeamento, esta busca, esta garimpagem, está fazendo com que a gente, raramente, saia de Barão para comer. Faz tempo que não vamos pra Campinas. Aliás, íamos muito mais pra Campinas quando morávamos em Valinhos. E pelo que temos visto, navegando na Internet ou passando pelas ruas do distrito, há muito mais pra se aventurar. É só uma questão de tempo, apetite e dinheiro. Mas a gente chega lá.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Bossa

Talento não é, necessariamente, hereditário. Temos vários exemplos de filhos de cantores e compositores que tentam uma carreira artística na esteira do sucesso dos pais. Alguns têm êxito, outros não. É um processo absolutamente aleatório.

Há os casos daqueles cuja ascendência até dá um empurrãozinho, mas há aqueles em que o sucesso dos pais acaba ofuscando a decolagem da carreira e seus vôos nunca adquirem altitude de cruzeiro. E esse é o caso de Pery Ribeiro.

Filho de dois grandes ícones da música brasileira das décadas de 40 a 60 no século passado, a cantora Dalva de Oliveira e o compositor Herivelto Martins, Pery Ribeiro nunca teve o reconhecimento merecido. Nunca brilhou excessivamente. Nunca foi celebridade. E essa nunca foi sua busca.

Dono de uma voz bonita e sedutora, Pery gravou muitas músicas em primeira mão que acabaram fazendo mais sucesso nas vozes de outros cantores. Só pra dar um exemplo, foi dele a primeira gravação de Garota de Ipanema, uma das músicas mais conhecidas no mundo.

Embora tenha participado ativamente do movimento da Bossa Nova, Pery nunca foi considerado um de seus símbolos. De carreira discreta, sempre me provocou muita admiração e era muito comum que, ao ouvir uma canção romântica, com uma batida levemente sincopada eu sempre a imaginasse cantada na voz dele.

E foi com muito interesse que, fuçando nas prateleiras da Livraria da Vila, no dia do lançamento do livro do Ricardo Filho, eu encontrei este CD do Pery Ribeiro cantando standards de trilhas sonoras do cinema americano das décadas de 40 e 50.


´S Wonderful: Movie´n Bossa, é recheado de clássicos como Moon River, Our Love Is Here to Stay e Over the Rainbow, todos interpretados com uma levada de Bossa Nova. Eu, em geral, desaprovo esse tipo de “releitura”, mas, nesse caso, tenho que admitir que o resultado ficou muito bom. É o 32º disco na carreira deste cantor tão regular, num mundo em que a regularidade já não é uma virtude.


Voltando

Já passa de 5 meses o tempo em que não escrevo nada neste blog. O último texto foi postado em primeiro de julho, junto com a dica de um CD do Pery Ribeiro, que eu ouvi menos do que gostaria.

Vários motivos poderiam ser perfilados para justificar este abandono. A doença do meu pai que nos exaure a todos, a necessidade por encontrar uma casa pra morar, as atribulações do trabalho, mas, enfim, o verdadeiro motivo, mesmo, tem sido um total desinteresse por escrever, ou mesmo, ler os blogs dos amigos.

Os motivos, se não foram resolvidos, estão, ao menos equacionados. Meu pai continua doente, mas está estável (embora isso não seja, necessariamente bom). A casa foi encontrada e, embora seja bem mais longe, é grande e gostosa. O trabalho continua atribulado, mas sempre foi e sempre será assim. Mas da mesma forma que não eram nenhum desses fatores que, verdadeiramente, me fizeram parar de escrever, não é nenhum deles que me impele a voltar aqui. Na verdade, venho namorando muito esta idéia ultimamente. Por saudade mesmo. Saudade de exercitar o ato da escrita, saudade de falar, saudade de ler o que todos andam escrevendo. Mas, talvez, o fato que tenha, realmente desencadeado essa decisão, seja um comentário recebido no último post, 5 meses depois dele ter sido postado. Foi um comentário da Tatiana, amiga da Cecília, e que eu tenho quase certeza que não conheço, mas se é amiga da Cecília é garantido que é gente boa. E nesse comentário, além de fazer uns elogios que sempre massageiam meu ego, ela pede que eu volte a escrever. Aí não tem jeito. Como é que eu posso deixar de atender um pedido desse?

Tati, obrigado pelo empurrão. Obrigado pra me dar mais um motivo pra voltar a fazer uma coisa que já estava me fazendo falta. Obrigado por me animar a voltar a ler o que andam escrevendo meus amigos. Obrigado mesmo.