Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

domingo, 18 de janeiro de 2015

Setenta anos

Já escrevi no blog, neste post e também neste outro, que me incomoda a ideia de idolatrar alguém. Sendo assim, o que mais se aproximaria de ídolo, pra mim, são algumas figuras que construíram meu gosto musical. Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Edu Lobo e Paulinho da Viola estão todos com mais de 70 anos, mas são suas canções as que mais me emocionam, ainda. Embora estejam em plena atividade, fazendo shows, gravando discos ou escrevendo, noto que suas criações mais recentes perderam o viço dos tempos áureos. Isso não é uma reclamação. Com 15 anos a menos que eles, já sei muito bem o quanto o tempo é cruel com a nossa vitalidade. A obra que produziram é muito mais que suficiente para que sejam lembrados para sempre.

E foi por ter esta compreensão que fiquei positivamente surpreso com o lançamento do CD Setenta Anos, de Dori Caymmi, em que ele comemora a efeméride, com 13 músicas novas, todas com letra de Paulo César Pinheiro, um de seus parceiros mais constantes.

O disco tem, ainda, uma característica que muito me encanta: é um disco de voz e violão, simples, limpo, minimalista, como só conseguem ser aqueles que reproduzem música de primeira linha.

A música de Dori é e sempre foi de primeira linha, assim como a poesia de Paulo César Pinheiro. Ambos têm nos encantado há 50 anos com suas criações e é um verdadeiro alento perceber que continuam criando maravilhosamente.

À toa (Dori Caymmi e Paulo César Pinheiro) - Dori Caymmi


terça-feira, 6 de janeiro de 2015

Início de um novo ano, início de um novo governo

Sei que há quem vai estrilar com o título deste post, inaugural, do blog em 2015. Já me explico: após o anúncio do novo ministério de Dilma, não consigo manter o ânimo e nem reconheço continuidade no modelo de governo que ela tentou imprimir no primeiro mandato. Se nesta primeira tentativa os avanços sociais já foram tímidos, a configuração do ministério atual mostra uma inclinação mais acentuada para o lado direito do espectro político, o que dificulta mais ainda estes avanços. Desta forma, a razão da minha crítica vai na direção contrária à de quem votou no projeto tucano, nas eleições do ano passado.

Estas últimas eleições, aliás, me causaram mais descrença na raça humana do que as anteriores. A participação do eleitorado, via redes sociais, mostrou o quanto a veiculação (e multiplicação) de dados falsos se sobrepôs à desejável discussão conceitual do que cada um entende como mais apropriado pra nossa sociedade. A enxurrada de manifestações de intolerância com as opiniões adversas beirou os limites do intolerável, com o perdão do trocadilho infeliz.

O que ficou evidente, de lado a lado, foi o claro posicionamento dos eleitores do lado direito e esquerdo do pensamento político. Mais do que as próprias candidaturas, imbuídas do pragmatismo típico das campanhas, as manifestações dos eleitores foram bastante reveladoras da posição de cada um, nem sempre de maneira respeitosa.

Passado o ápice, com a revelação do resultado das urnas e, talvez devido à estreiteza da diferença de votos, restou, entre os eleitores, um ranço de rancor de difícil digestão. De minha parte, encaminhei minhas reflexões para o tema da dicotomia esquerda-direita e para auxiliar-me, recorri ao pensador Italiano Norberto Bobbio e seu livro Direita e Esquerda – Razões e significados de uma distinção política. Escrito há 20 anos, durante a campanha eleitoral italiana de 1994, este pequeno livro, como o próprio autor se refere a ele, é absolutamente atual e aderente à realidade brasileira de hoje.

A primeira metade da obra dedica-se à tarefa de justificar a continuidade do uso da díade direita-esquerda na política, em resposta às inúmeras tentativas de desacreditar esta divisão. Após comprovar a pertinência de seu uso, trata de definir o que caracteriza cada um dos pensamentos na segunda e mais instigante parte do livro. Nela, o pensador italiano demonstra que o que caracteriza o pensamento de direita e o de esquerda não é a questão da presença maior ou menor do estado na economia e, portanto, na vida das pessoas e nem a questão da democracia ou autoritarismo de um estado.

A conclusão a que o livro chega é muitíssimo parecida com a minha concepção, ou seja, o que define um pensamento de direita ou de esquerda é o que se refere à questão da igualdade entre as pessoas. Faz uso, para isso, de uma eficiente comparação entre os pensamentos de Rousseau e Nietzsche no que diz respeito à distinta postura que um e outro assumem perante a naturalidade e a artificialidade da igualdade e da desigualdade. Com isso, acaba por mostrar que ambas as posições, direita e esquerda, são lícitas, expressando a ideologia de cada um.

O livro toma o cuidado de demonstrar como as posições extremas, tanto de um lado quanto de outro, têm similaridades. Faz isso aproximando a díade direita-esquerda de outra, qual seja, a que contrapõe liberdade e autoridade.

Concluo, assim, que a concepção moderna de um pensamento democrático de esquerda é a que defende um estado que garanta um mesmo grau de oportunidades e que, para isso, conte com uma oferta de educação, saúde e segurança igual para todos. Arrisco-me, ainda, a concluir que, na prática, o que mais se aproxima deste conceito é a Social Democracia.

Pensando em tudo isso, após a leitura de suas poucas 130 páginas, eu fico a imaginar o quão difícil é encontrar, dentro do balaio de partidos políticos que temos no Brasil, alguma proposta que seja, verdadeiramente, de esquerda e democrática.

Entre os partidos mais hegemônicos, temos o PSDB que é Social Democrata apenas no nome, mas, na realidade, defende um modelo liberal. Temos o PT que tem um discurso Social Democrata, mas não se assume como tal. Temos o PMDB que representa o que há de mais fisiológico e arcaico na forma de fazer política e os partidos nanicos, à esquerda e à direita que, mais que qualquer outra coisa, servem para emprestar suas legendas aos partidos maiores nas épocas de eleições.

Enfim, não há nada no horizonte que consiga me animar.

sábado, 8 de novembro de 2014

Combinações felizes

Vez ou outra, me repito neste espaço, principalmente quando falo de música. Talvez isso ocorra por eu estar ficando, cada vez mais, refratário com as novidades, fico tecendo loas àqueles cantores, músicos e letristas que mais admiro.

Já falei aqui que a cantora que mais tem me dado prazer em ouvir é Mônica Salmaso. Seu timbre me encanta e, talvez, eu só encontre paralelo, em questão de alumbramento, quando ouço Leny Andrade. Já fiz posts falando de Guinga, o compositor que mais me arrebatou depois de João Bosco. E entre os letristas, quem segue este blog, principalmente desde os tempos mais longínquos, sabe de minha predileção por Paulo César Pinheiro, ameaçada apenas pela admiração por Aldir Blanc.

Pois mais uma vez, estou aqui, me repetindo, mas para falar de um disco que reúne estes 3 artistas ao mesmo tempo. Trata-se de Corpo de Baile, o novo CD em que ela canta, exclusivamente, músicas feitas em parceria pelos dois.

Uma das coisas que mais me seduziram, no disco, foi a presença de algumas canções que eu ainda não conhecia. Apesar da minha má vontade em relação a novos artistas, tenho muita ânsia em conhecer obras novas daqueles que eu admiro. É este o caminho que me permito para degustar o novo.

Como sói acontecer nos discos desta cantora, as faixas contam com um naipe de instrumentistas de primeiríssima qualidade, suportados, na maioria delas, pelo piano de Nelson Ayres e os sopros de Teco Cardoso, o que, por si só, já é garantia de bom gosto e refinamento.

A faixa Curimã, uma das minhas preferidas, conta, ainda, com as participações luxuosas de Marlui Miranda numa fala incidental em língua indígena e da percussão do insuperável Robertinho Silva.

Só não dá pra falar que é o melhor disco de Mônica Salmaso, pois não se sabe o que virá no próximo. Só se sabe que será algo ainda melhor.

Curimã (Guinga & Paulo César Pinheiro) – Mônica Salmaso

domingo, 2 de novembro de 2014

Beatles ou Stones?

Gosto de ouvir o programa Fim de expediente, na rádio CBN, toda sexta-feira, às seis da tarde, quando volto do trabalho. Apresentado pelo ator Dan Stulbach, ao lado do escritor José Godoy e do economista Luiz Gustavo Medina, o programa é leve e divertido, embora, às vezes, aproxime-se do limiar de um ponto de vista conservador, numa expressão do pensamento da sociedade coxinha.


O programa é sempre mais interessante quando é ao vivo e recebe algum convidado e, nestas ocasiões, promove o quadro Boxe a três, em que são apresentadas algumas opções para a escolha da plateia, do convidado e dos próprios apresentadores. As opções variam segundo o tema do programa, mas, invariavelmente, há duas delas sempre presentes: Chico ou Caetano? e Beatles ou Stones?

À primeira pergunta eu fico, sinceramente, em cima do muro, já que tenho convicção de que minha vida teria sido muito menos feliz sem a música dos dois. Já em relação à segunda pergunta, não hesito em escolher os Beatles.

Embora eu considere que George Harrison, o melhor guitarrista dos Beatles, não seja tão bom quanto Keith Richards e que Charlie Watts seja muito melhor que Ringo Star, eu declaro a minha preferência pelo quarteto de Liverpool, mesmo achando que Mick Jagger seja um vocalista melhor que Lennon ou McCartney.

Minha escolha, na verdade, se dá devido a dois fatores. O primeiro está relacionado à qualidade das canções produzidas que, em minha opinião, apresentam melodia e letra superiores às dos Stones. O outro fator diz respeito à variedade de estilos e ao experimentalismo que os Beatles imprimiram ao seu trabalho ao longo da evolução de sua carreira enquanto os Roling Stones se fixaram na produção de um estilo de Rock um tanto imutável, abandonando a influência do blues do início da carreira.

E antes que alguém estranhe um post misturando Chico, Caetano, Beatles e Stones, eu mostro esta canção, uma das minhas preferidas, dos Beatles, lançada no álbum Revolver de 1966 e gravada no disco Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, 1975.

For No One (Lennon & McCartney) – Caetano Veloso

As mulheres dos sonhos de cada um

 Quem vê a capa e olha os nomes no índice de O livro das mulheres extraordinárias de Xico Sá não consegue evitar que a lembrança nos remeta à época das revistas Ele Ela e Status, anos 70, na qual nossas solitárias sessões masturbatórias eram inspiradas em coxas, bundas e um solitário peito, sem o mamilo. Sim, naqueles primeiros tempos, só se podia mostrar um seio, nunca o par e sempre sem o mamilo. Mais tarde, o mamilo foi liberado e, muito mais tarde, os pelos pubianos. Era uma época em que a excitação era produzida por nossa imaginação, estimulada pelas imagens permitidas na censura do regime militar. Por mais que quisessem nos domar, as mulheres estavam em nossas cabeças.

Pois o livro de Xico Sá aborda tudo isso, mas não só isso. Ao lado de um justificado saudosismo dos peitos como vieram ao mundo e da revolta pelo fim dos pelos pubianos, a ode que o mais famoso exemplar do macho jurubeba faz a 127 mulheres em mais de 250 páginas trata de peitos, de bundas e de outras partes do corpo feminino como as cordas vocais e o cérebro. Xico sabe que, se a beleza e a gostosura de uma mulher nos embevecem, quando aliadas ao talento e à inteligência, podem nos levar à loucura. Sempre achei isso: beleza com inteligência é uma combinação explosiva.

Em cada uma das crônicas, ele tece loas às beldades através de referências musicais, literárias, cinematográficas e, principalmente, televisivas. Não deixa escapar as lolitas de hoje, mas faz reverência às musas que, embora o tempo já tenha lançado ao ostracismo, ainda habitam nossa lembrança e nossa imaginação.

Há nomes famosos e outros nem tanto, principalmente para quem, como eu, ando distante da TV e, por isso mesmo, desatualizado a respeito das belezas e do talento das meninas de hoje em dia. Por isso mesmo, a sugestão é ler o livro ao lado de qualquer equipamento que possa fornecer um acesso ao Google para ligar o texto à pessoa.

Por mim, faltam, ainda, alguns nomes, como o de Zezé Motta ou Denise Dumont. Mas este tipo de lista é absolutamente pessoal, assim como os sonhos são de cada um.



domingo, 26 de outubro de 2014

A felicidade alheia

Há muito tempo que o cinema espanhol me encanta. Sem contar Luis Buñuel, o encantamento começou com as obras de Pedro Almodóvar e Bigas Luna. Filmes como Ata-me, Mulheres à beira de um ataque de nervos e As idades de Lulu, ainda nos longínquos anos 90, me seduziram definitivamente. Devo confessar que a sedução foi suportada pela beleza e pelo carisma de atrizes como Victoria Abril, Carmen Maura, Rossi de Palma e Maria Barranco. Depois, com Belle Époque de Fernando Trueba, conheci, numa só tacada, Penélope Cruz, Maribel Verdú e Ariadna Gil. Mais tarde, conheci Paz Vega. Aí foi covardia. Fiquei completamente dominado.  

Aos poucos, fui conhecendo diretores como Alejandro Amenábar, Emilio Martínez Lázaro, Julio Medem, Vicente Aranda e Fernando León de Aranoa e descobrindo filmes como Abre los ojos, Mar adentro, Los peores años de nuestra vida, El otro lado de la cama, Lucía y el sexo, La pasión turca, Los lunes al sol, entre muitos outros, sempre com interesse renovado.

Eis que, nesta semana, descobri, gravado da TV a cabo, o filme Enquanto você dorme (Mientras duermes), do diretor Jaume Balagueró, com Luis Tosar e Marta Etura. (veja o trailer do filme)


Trata-se de um triler envolvente que prende a atenção do espectador desde o primeiro instante e não lhe dá trégua até o final da trama. Luis Tosar eu já conhecia de outro filme, Segunda-feira ao sol, em que atuou ao lado de Javier Barden. Marta Etura, apesar da filmografia relativamente extensa, eu não conhecia, mas foi uma grata surpresa. Uma delícia de moça.

Apesar de ficar claro, logo no início do filme, a motivação do protagonista, mesmo após o término da trama, ficamos sem entender como alguém pode ter aquele mote na vida. E esta dificuldade de entendimento não é culpa do filme. É culpa da complexidade da espécie humana.

Cesar é o funcionário de um prédio em Barcelona (poderia ser Madrid, São Paulo ou Campinas) que tem como objetivo destruir a possibilidade das pessoas à sua volta serem felizes. Ele nunca foi feliz, mas não age desta maneira por inveja. Se fosse isso, seria mais fácil entender, por mais comum. Na verdade, ele nunca foi feliz porque nunca buscou isso, não tem este desejo. A sua infelicidade não o incomoda. O que o incomoda é a felicidade dos outros. Desta forma, ele não age na tentativa de ser como as outras pessoas, mas, sim, no sentido de que elas sejam como ele é.

Só o ser humano, entre todas as espécies, é capaz de agir assim. Isso não deveria surpreender, já que é o único, entre as espécies, capaz de se vingar ou de escravizar alguém. Não deveria surpreender, mas surpreende, como sempre ocorre, na maior parte das vezes, negativamente.

Um dado interessante é o fato do diretor ser catalão, o ator protagonista ser galego e a atriz ter nascido no País Basco, o que mostra que, apesar das diferenças de identidade cultural, os espanhóis, unidos, conseguem produzir coisas de muita qualidade.


sábado, 18 de outubro de 2014

A sociedade dividida

As últimas pesquisas do Ibobe e Datafolha mostram as intenções de votos válidos absolutamente empatados. Mais uma vez, parece que a sociedade está dividida. Como já falei aqui e também na página do Facebook, identifico gente respeitável entre os eleitores de ambos os partidos. Encontro também, infelizmente, muita gente intolerante dos dois lados, a maioria, aliás. E, até nisso, parece que se mantém a divisão.

Respeito a diversidade de opiniões, mas não respeito a intolerância. Pode ser uma falha de caráter de minha parte, mas não consigo conviver bem com pessoas que expressam posições racistas, homofóbicas e autoritárias. Posso até entender, no calor da disputa eleitoral, que surjam, nas redes sociais, ataques a candidatos adversários, por parte dos entusiastas de um ou de outro lado do espectro político. Acho uma pena que estas manifestações, em sua maior parte, não estejam embasadas em uma reflexão mais profunda, fruto de discussões honestas. Mas, até isso, essa forma de tratar eleição como se fosse jogo de futebol, eu consigo compreender.

O que tem me incomodado, desta vez, é que as pessoas, além de expressarem sua crítica aos candidatos (e aos políticos, em geral), estão dirigindo ofensas aos eleitores do lado adversário. Quem tem a minha idade e demorou a poder votar para presidente sabe o quanto é importante respeitar a decisão dos eleitores. Sou favorável a discutir, a argumentar, a discordar. Ofender jamais. Tampouco menosprezar quem tenha ideias divergentes.

A única coisa que não está dividida é a atuação da mídia. Não sou daqueles que têm ilusões a respeito de uma imprensa isenta. Isso não existe, nem aqui, nem em lugar nenhum do mundo. O que seria desejável, na verdade, é que cada órgão de imprensa deixasse bem claro qual é seu posicionamento. Isto é absolutamente legítimo e todos os jornais e revistas têm seu espaço editorial para expressar suas preferências partidárias. Na hora de noticiar, porém, o que o bom jornalismo prega é que se adote uma posição honesta. Notícia é fato e não deve ser manipulada, independentemente de ser a favor ou contra a orientação política do jornal. Quando um órgão de comunicação tenta esconder sua orientação e publica os fatos de forma tendenciosa, aí, devemos desconfiar. Quais são os interesses que estão por trás desta estratégia?

Dois exemplos de posicionamento claro são a Revista Carta Capital e o portal de notícias GGN, do jornalista Luis Nassif. Em ambos os casos, está declarada a definição por uma candidatura e isso não impede que críticas sejam feitas às ações e atos praticados pelos partidos e políticos que eles apoiam. Isso é transparência. Isso é responsabilidade. Pode-se muito bem posicionar-se a favor de um programa ou um projeto político e noticiar os fatos de maneira honesta e não tendenciosa.

Infelizmente, porém, esta prática não é seguida pela maioria dos órgãos de comunicação. A Folha de São Paulo, a Revista Veja e a Rede Globo de televisão são, provavelmente, os exemplos mais claros desta falta de transparência e honestidade com a notícia, em cada um dos diferentes meios de comunicação de massa. Nestes órgãos, os profissionais de jornalismo são tutelados com rédea curta e a liberdade de expressão é controlada de maneira seletiva, conforme a orientação da empresa. Infelizmente, poucos jornalistas se rebelam, conscientes de que teriam fechadas as portas do mercado de trabalho, se o fizessem (Xico Sá foi uma estrondosa exceção).

Esta atitude da mídia é favorecida pelo comportamento da maioria de nossa sociedade que prefere se informar através da leitura apenas das manchetes dos jornais ou assistindo ao Jornal Nacional, enquanto devora o jantar à espera da novela. As pessoas recebem a notícia da mesma maneira que o fazem com a comida, ou seja, sem sentir o sabor e sem uma avaliação crítica. Preferem recebê-la já digerida em lugar de ler um texto embasado em argumentos que possibilitem uma conclusão que seja fruto de sua própria reflexão. Nada disso. A notícia que já vem acompanhada da conclusão é mais fácil, não dá trabalho. É como digerir uma comida óbvia, sem um toque especial de sabor. Afinal, o que interessa mesmo é a novela. 


sábado, 11 de outubro de 2014

Aniversário Nefasto

O aniversário dos 50 anos da deflagração do golpe civil-militar, ocorrido no Brasil em 1964, suscitou a publicação de dezenas de livros sobre o assunto. Outros foram relançados, aproveitando a ocasião. Alguns eu já tinha, outros eu comprei. Entre todos, o que mais me chamou a atenção foi 1964 dos historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes. Os motivos foram dois.

Em primeiro lugar, me surpreendeu o fato de que, diferentemente das demais publicações que trataram do período em que durou o regime militar, o livro de Jorge e Angela analisou o período imediatamente anterior ao golpe. Mais especificamente, do dia da renúncia de Jânio Quadros até o momento da eclosão da “redentora”.

A segunda característica que me instigou foi a condução da narrativa com um enfoque que procurou demonstrar, o tempo todo, que houve alternativas políticas que poderiam ter evitado o golpe, como já havia acontecido nas tentativas anteriores, desde o fim do governo de Getúlio, passando pela eleição de Juscelino e a posse de João Goulart. Se no primeiro caso o golpe foi debelado pelo suicídio do presidente, provavelmente a maior jogada política da nossa história republicana, as demais tentativas foram contornadas com muita habilidade por parte dos políticos da época.

Impossível não perceber as semelhanças entre aquela época e a atual, em que o Brasil se divide entre uma, aparentemente eterna, disputa entre esquerda e direita. Naquela época, como agora, havia importantes agentes de cada lado do espectro político e em cada um dos lados, diferentes graus de radicalismo.

Como acontece hoje, partindo do centro, tínhamos na esquerda uma ala moderada que podemos chamar de progressista, outra mais radical, que eu denominaria de sectária e na extrema esquerda, uma autointitulada ala revolucionária, mas com claras tendências golpistas.

Da mesma forma, e como ainda ocorre hoje, a ala moderada da direita pode ser classificada como conservadora, adjacente a uma ala reacionária e no extremo deste espectro político, nitidamente golpista.

As alas moderadas, à direita e à esquerda eram, àquela época, absolutamente conciliáveis. Os progressistas eram representados por uma robusta parcela do PTB enquanto os conservadores tinham sua base no PSD. Liderados, respectivamente, por San Tiago Dantas e Tancredo Neves, estas duas alas davam um suporte parlamentar relativamente confortável a Jango e às suas reformas de base. O livro mostra, aliás, através de documentos da época, que, diferentemente do que viria a se propagar, estas reformas eram bem aceitas por ampla parcela da sociedade representada, incluindo a imprensa, já àquela época, bastante conservadora.

Os militares, apesar de extremamente anticomunistas, eram, ao mesmo tempo, majoritariamente legalistas. Esta obediência à legalidade, aliás, foi o que ajudou a evitar, nas oportunidades anteriores, a deflagração do golpe.

O presidente, entretanto, sofria pressões dos que estavam distantes das posições moderadas e de ambos os lados. Da esquerda, o chumbo vinha de Leonel Brizola que representava a ala mais sectária do PTB e, também, do PCB de Luís Carlos Prestes, do governador de Pernambuco Miguel Arraes, da CGT, das ligas camponesas de Francisco Julião e também da UNE, comandada, pasmem vocês, por José Serra.

Da direita, o chumbo era mais grosso e vinha da TFP e da cúpula da igreja católica, mas estava concentrado na UDN de Carlos Lacerda, mais uma vez tentando capitanear a tomada do poder através de um golpe, como já tentara fazer em todas as oportunidades anteriores. Para isso contava com a colaboração dos governadores de São Paulo e de Minas, Ademar de Barros e Magalhães Pinto.

O que o livro mostra é que, caso Jango tivesse conseguido se manter atrelado aos moderados, ou seja, aos progressistas e aos conservadores, conciliados e equilibrando-se de forma relativamente estável, ele teria conseguido resistir às pressões, tanto da esquerda quanto da direita e teria conseguido implantar, ao menos em parte, suas reformas de base.

O que aconteceu, entretanto, foi que ele não resistiu e acabou cedendo às pressões da esquerda, desequilibrando a balança para aquele lado. Esta tomada de posição, aliada à decisão equivocada de apoiar os sargentos rebelados, provocou a adesão de diversos oficiais militares legalistas à onda golpista.

Havia, entretanto, a possibilidade de resistir, partindo de algum apoio militar proveniente do Rio Grande do Sul. A informação de que o movimento golpista já tinha garantido o apoio militar do governo dos Estados Unidos, o que provocaria uma guerra fratricida no Brasil, fez o presidente não adotar esta possibilidade.

Finalmente, o livro ajuda a derrubar alguns mitos que se perpetuaram depois do golpe, durante o regime militar:

O primeiro é o de que a imprensa e a sociedade não teriam apoiado o golpe. Através de imensa documentação da época, os autores demonstram que, desde dezembro de 1963, diversos setores da sociedade civil e, sobretudo a imprensa, em quase sua totalidade, apoiavam e até incentivavam o golpe.

O segundo mito é a respeito de Jango que, através da comunicação controlada pelo regime, passou à história como um político fraco e covarde. Nada mais falso. Jango era um negociador hábil e foi devido a isso que conseguiu resistir tanto tempo às investidas constantes dos inimigos. Acusam o presidente de covarde por não ter resistido, mas sua decisão foi tomada por generosidade a um povo do qual ele não queria ver o sangue derramado, no caso de um embate.

O livro nos ajuda a perceber que é através da política que se pode encontrar os caminhos que evitem as soluções radicais e, tivesse havido mais habilidade neste campo, o Brasil não teria passado por uma ditadura cruel e nefasta, que atrasou em mais de 20 anos o nosso desenvolvimento social.

domingo, 28 de setembro de 2014

Voto

Desde a morte de Eduardo Campos, a decisão do meu voto foi definida, em favor de Dilma Rousseff. Isso não quer dizer que eu iria votar no candidato do PSB, mas, até aquele momento, eu estava sinceramente indeciso. Com sua saída da disputa, fiquei sem outra alternativa.

Nas últimas eleições presidenciais, o debate foi pautado pelo eleitorado mais conservador e, infelizmente, a discussão ficou centrada em questões como a legalização do aborto, descriminalização do consumo de maconha ou casamento gay. Isso, em minha opinião, empobreceu o debate que poderia ter tomado um rumo mais ideológico.

Desta vez, novamente, encontrou-se uma via que evita a discussão mais profunda do que a sociedade brasileira quer como diretriz do novo governo. Escolheu-se, aliás, um tema antigo e desbotado, já utilizado desde a redemocratização do Brasil, pós-Segunda Guerra, nas eleições de 1945. O surrado tema da corrupção foi utilizado na eleição de Dutra, de Juscelino e de Jânio, sempre com arautos da moralidade, entre os quais, o mais eloquente, à época, foi Carlos Lacerda.

Hoje, na falta de alguém com a verve que tinha Lacerda, a mídia une-se e investe-se do dever cívico de delatar os desmandos do governo federal, tomando o cuidado de não deixar claras as responsabilidades estaduais e municipais.

Se não fosse uma questão de má fé, poderia, até, passar por ingenuidade o embarque nesse discurso a respeito da corrupção, como se fosse ferramenta exclusiva de um só grupo ou partido. É hipocrisia falar do mensalão e se calar sobre a compra de votos que possibilitou a reeleição do presidente Fernando Henrique, assim como noticiar as estripulias em torno da Petrobras e se calar sobre o escândalo no metrô de São Paulo. Uma coisa não justifica a outra, mas não é honesto abrir espaço apenas para um dos lados do espectro político.

O critério da minha escolha não é por um determinado nome e nem mesmo por um partido, mas, numa convicção muito pessoal, pelo modelo que eu acredito para o desenvolvimento do Brasil. Na minha forma de ver, o crescimento da economia do país não pode ocorrer em detrimento da distribuição mais justa de renda. A diminuição da desigualdade social é mais urgente que o crescimento econômico e uma coisa não garante a outra, todos sabemos. Esta é a questão que deveria estar em discussão, pois é a clara diferença entre as propostas dos dois grupos que vêm disputando o poder nos últimos 20 anos.

Deixando a ingenuidade de lado, é imperativo reconhecer que ambas as posições são legítimas e expressam, cada uma, a maneira de pensar de uma parcela da nossa sociedade. Há os que acreditam na necessidade de um estado que garanta igualdade de oportunidades para todos e há aqueles que não têm esta preocupação, ou seja, que acreditam que cada um tem que buscar o seu caminho, se virar. Há quem se incomode com a presença de crianças pedindo esmolas nos semáforos e há os que só enxergam o interior de seus carros quando estão parados num semáforo. Há quem tolere posições e formas diferentes de pensar e há aqueles que só conseguem se comunicar com quem pensa de forma semelhante. Enfim, há essa imensa divisão em nossa sociedade e é natural que cada pessoa escolha quem representa seu posicionamento.

Entre as alternativas que eu elenquei, no parágrafo acima, eu me posiciono sempre na primeira, em cada frase. Por isso é que eu defini meu voto na continuidade de Dilma Rousseff na presidência da república. Entendo que, dentre as possibilidades com alguma chance de vitória, ela é a única que pode, minimamente, conduzir a sociedade na direção que eu enxergo como correta. Acho absolutamente natural, entretanto, que aqueles que pensam diferente de mim, ou seja, que optem pelas outras alternativas, escolham o candidato Tucano.

Minha escolha, entretanto, não impede que eu reconheça falhas, erros e até crimes na condução do governo. É por isso que, mesmo que eu vote numa pessoa ou num partido, não me eximo de criticá-lo, quando acho isso necessário. Acredito na discussão política, com este viés ideológico, como a melhor maneira de cada um se posicionar.  O que dá pena é que, em lugar de travar esta discussão de maneira aberta, prefira-se escamotear as reais motivações da definição do voto.


domingo, 21 de setembro de 2014

O samba emblemático de São Paulo

São Paulo ostenta um título, cuja autoria é atribuída a Vinícius de Moraes, o de “Túmulo do Samba”. Seja verdadeira ou não a sua autoria, tenha sido gerada por convicção ou por brincadeira, o que importa é que o título é injusto.

Reconheço, claramente, as diferenças entre o samba praticado, hoje, em São Paulo, Bahia e Rio de Janeiro. Digo hoje, pois talvez estas diferenças não fossem assim no passado. Ou fossem diferenças diferentes.

Sempre gostei mais da forma com que o samba é praticado no Rio, mas acredito que o samba de São Paulo, hoje em dia (e quando digo isso, refiro-me aos últimos 20 anos), guarda mais proximidade com o samba carioca autêntico do que o próprio. Com o samba da Bahia, que involuiu do prato e faca para o axé, não tenho nenhuma paciência.

Um bom exemplo do melhor samba de São Paulo é o CD Carlinhos Vergueiro interpreta Paulo Poeta Compositor Cientista Boêmio Vanzolini.

Menos incensado que Adoniran Barbosa, como símbolo do samba de São Paulo, considero Paulo Vanzolini o representante mais emblemático (e mais importante) do samba na terra da garoa. Cientista internacionalmente reconhecido, falecido há pouco mais de um ano, ele sempre se intrigava com o fato de ser, no Brasil, mais famoso por alguns de seus sambas do que pelo seu amplo trabalho científico e acadêmico. Uma prova inequívoca da sabedoria popular, que soube dar a verdadeira importância a alguns clássicos de sua obra como Ronda ou Volta por Cima. Embora não sejam tão famosos, os sambas de minha preferência são Praça Clóvis e Mente, este composto em parceria com Eduardo Gudin. Uma das virtudes do CD foi mesclar alguns clássicos do autor com obras bem menos conhecidas.

Embora tenha composto muitas canções, o que mais me atrai em Carlinhos Vergueiro é sua voz grave e sua forma, absolutamente paulista, de cantar. É muito bom, de vez em quando, ouvir um samba sem o chiado nos esses e a rascância dos erres.


Maria que ninguém queria (Paulo Vanzolini) – Carlinhos Vergueiro