Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quarta-feira, 13 de dezembro de 2006

No centro, Lula

Ao receber, da revista Isto é, o prêmio de “O Homem do Ano”, o presidente Lula declarou que não é mais de esquerda. Disse que, aos 61 anos, é um homem de centro e que nessa idade, quem for de esquerda tem problemas. Disse mais. Segundo ele, se uma pessoa muito nova é de direita, também tem problemas. Ou seja, na concepção do presidente, ser de esquerda está ligado a imaturidade, talvez a molecagem.

Deixando as asneiras de lado, fica a pergunta: Lula, algum dia, foi de esquerda?

Pra responder esta pergunta é necessário resgatar alguma definição aceitável entre o que é ser de direita ou ser de esquerda. Tem muita gente dizendo, ultimamente, que estas definições não têm mais sentido. Não concordo. Acho que têm sim. E opto pela definição mais clássica, conforme aprendi com um amigo dileto: O que historicamente define a diferença entre esquerda e direita é o foco nas questões sociais, mais evidente na esquerda.

Indo além, percebo que o que os de esquerda apregoam é que o estado seja forte na defesa dos interesses da sociedade, sobretudo dos menos favorecidos. Os de direita, por sua vez, acreditam que o estado deve ser mínimo. Que o mercado, com sua força, pode resolver qualquer conflito ou impasse naturalmente, como se fosse uma entidade divina.

E aí? Lula já foi de esquerda? Quando defendia os interesses dos associados ao sindicato dos metalúrgicos de São Bernardo e Diadema estava lutando pela sociedade ou pelos interesses de uma classe, de uma corporação?

Não sei se Lula já foi de esquerda. Só sei que o Presidente Lula não é. Se fosse, não teria privilegiado tanto, em seu primeiro mandato, quem vive do jogo do mercado financeiro. Se fosse de esquerda, teria sido mais contundente na consecução da reforma agrária. Fosse de esquerda, não estaria fechando acordos com tanta facilidade com caciques do PMDB. Fosse de esquerda, não teria declarado, neste evento da Isto É, ser, agora, amigo de Delfim Netto.

O presidente Lula quer ser de centro. E nesta tentativa, está se aproximando perigosamente da direita.

Música Sagrada

A Biscoito Fino não surgiu no mercado para brigar com as multinacionais. Nada disso. Mesmo porque, esta briga seria inglória. A missão da gravadora, uma sociedade da cantora Olívia Hime com Kati Almeida Braga, dona do Banco Icatu, era criar um selo que abrigasse nomes da música brasileira, sobretudo aqueles que não encontram guarida sob o guarda-chuva das grandes gravadoras. A idéia inicial foi de reunir um cast de artistas de qualidade, mas de pouco apelo comercial. Surpreendentemente, juntamente com este tipo de artista, os grandes nomes da MPB vêm se integrando ao seu catálogo. É o caso de Chico Buarque e de Maria Bethânia, cuja gravadora anterior, a Sony & BMG, a dispensou, argumentando que não havia mais interesse em tê-la como contratada. Que coisa mais selvagem e burra!

Enfim, melhor para Maria Bethânia e melhor para a nossa música.

Mas além de lançar novos discos, a Biscoito Fino tem o trabalho muito importante de relançar discos que não interessariam às gravadoras de origem. Um ótimo exemplo disto é o CD Todo o sentimento, com Elizeth Cardoso e Raphael Rabello. O disco é um primor. Elizeth era daquelas cantoras que dava um tom sagrado a tudo que cantava. Por isso, o apelido de A Divina. Acompanhada pelo violão de Raphael Rabello, as canções ganham um colorido de lirismo que emociona qualquer um. É daqueles discos que a gente não quer parar de ouvir nunca. Daqueles discos que a gente ajusta o aparelho na função repetir e esquece da vida. Esquece do mundo pra usufruir toda a magia que só a música pode nos proporcionar.

Eu não ousaria dizer que é o melhor disco de Elizeth, mesmo porque, sua discografia é tão extensa e tão cheia de clássicos definitivos, que este tipo de comparação não tem razão de ser. Pode não ser o melhor, mas é o disco que mais me emociona.


Espécie humana

Imagine um livro em que a história se passa num local longínquo e completamente distante da nossa realidade. Os personagens são diferentes de tudo o que somos, a origem, a religião, enfim, nada que se passa na narração se identifica com a maioria das pessoas. Um livro assim teria tudo pra não despertar nosso interesse. Pois Dois Irmãos, do escritor manauense Miltom Hatoum, tem todas estas características e prende a nossa atenção de cabo a rabo. O grande segredo é que o livro trata de questões muito conhecidas dessa nossa desolada espécie, a humana. Afinal, somos os únicos exemplares do reino animal capazes de sentir inveja e rancor. De praticar atos de vingança. De ter prazer com o sofrimento de um semelhante. Nenhum outro animal tem estas características. Somente nós, os racionais.

O fato de, no livro, estes sentimentos e atitudes existirem entre dois irmãos, só reforça nossa triste condição.

Miltom Hatoum é um craque e o livro é muito bom. É um balde de água fria naqueles que insistem em enxergar nossa espécie com otimismo exagerado.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2006

Nada justifica um genocídio

Neste dia em que morreu o ditador chileno Augusto Pinochet, me causa muita insatisfação ler, nos jornais, algumas pessoas alegando que o golpe militar no Chile, em 1973, tenha alavancado e sustentado o crescimento daquele país. Isto não é verdade. Os melhores índices econômicos aconteceram justamente depois de 1990, após a redemocratização.

Mas mesmo se isto fosse verdade, não é possível aceitar que o crescimento de uma nação ocorra graças a um assassinato em massa. E aí não contém nenhuma questão ideológica. Seja a pessoa de esquerda ou de direita. Seja socialista ou neoliberal, é inadmissível que alguém possa elogiar um governo que tenha cometido atrocidades como as da ditadura de Pinochet.

O governo de Salvador Allende, democraticamente eleito, foi derrubado por um golpe militar amplamente financiado e suportado pelo governo americano que, aliás, suportou também, naquela época, outros regimes ditatoriais na América Latina, inclusive no Brasil. A ditadura chilena, entretanto, não encontra, no nosso continente, paralelo de comparação em termos de desrespeito aos direitos humanos. Foi um verdadeiro genocídio executado contra pessoas desarmadas, apenas por discordarem do regime. Aliás, nem era preciso discordar, naqueles anos, para morrer no Chile. Bastava não concordar. Bastava ser neutro.

O corpo do ditador será agora cremado. Melhor seria, se, além disso, fosse também enterrado, de preferência num buraco bem fundo, o mais fundo que se possa cavar, de forma a ficar o mais próximo do inferno, que, caso exista, é o lugar mais apropriado a este personagem repulsivo.

O ideal é que Pinochet não seja esquecido, assim como Hitler, assim como Stalin. Ele deve ser lembrado como símbolo de todo o horror que o ser humano é capaz de praticar por causa da sede de poder. Mas Pinochet não deve ser um símbolo do Chile. O povo chileno merece ser lembrado por outros personagens. Viva o Chile de Pablo Neruda. Viva o Chile de Salvador Allende. Viva o Chile de Victor Jara.




Fuga do conformismo

Quem vive confortavelmente, às vezes, tem dificuldade em perceber que há miséria no mundo. São pessoas, por exemplo, que acreditam que o programa Fome Zero não faz diferença na vida de quem o recebe. São pessoas que gastam o valor que o governo paga a estas pessoas, numa noite de terça-feira, numa pizzaria de segunda categoria. Enfim, pessoas como eu ou como você que está me lendo, que tem computador em casa, tem acesso à internet.

Enfim, algumas pessoas que levam uma vida como a nossa, não percebem que existe gente que passa fome, por mais que esteja vendo nos cruzamentos, nos semáforos de São Paulo, meninos pedindo esmola e meninas se oferecendo nas avenidas das capitais nordestinas. E tem gente, que é como eu e como você, mas que percebe tudo isso e não liga. Gente que acha que isso não é problema seu. Gente que acredita (alguns, sinceramente) que o mundo é assim mesmo, que deus quis assim.

Pois saiba, meu amigo, que esse mundo de miséria existe sim. Existe no Brasil e no resto do mundo. Existe em países miseráveis, em países ricos, mas injustos e até em países do chamado primeiro mundo. Existe miséria em todos os lugares. E há lugares em que só existe miséria.

É num lugar como este que se passa a história do filme O céu de Suely, de Karim Aïnouz. Neste filme, desde a protagonista, Hermila Guedes até o bebê, Mateus Alvez, são marinheiros de primeira viagem. A exceção fica com a atriz Marcélia Cartaxo, protagonista estreante de A hora da Estrela, em 1985.

O filme, belíssimo, tem como tema subliminar a necessidade de fuga. Fuga da miséria, fuga pra não sei onde, fuga para o lugar mais longe que exista. Não importa o nome do lugar. O filme mostra como é possível não se conformar com uma situação que parece imutável. Como é necessário reconhecer que a vida pode ser muito melhor do que a que temos. Como é importante buscar nosso caminho e a nossa felicidade.

Atores que valem o filme

Edward Norton é o melhor ator americano da atualidade. E já faz um bom tempo. Sua estréia em As duas faces de um crime (1996) foi fenomenal. Neste filme, ele ofusca a atuação de Richard Gere, que interpreta um advogado que defende o personagem vivido por ele. O filme vale a pena, basicamente, pela atuação de Norton. Depois, vieram muitos outros trabalhos magníficos, como em A outra história americana e Clube da luta. Sua presença, em qualquer filme, é razão suficiente para me levar ao cinema.

Outro ator muito bom é Paul Giamatti. Sem colecionar papéis de protagonista e sempre ligado ao cinema mais marginal americano, teve sua hora de destaque no filme Anti-herói americano, no qual interpretava Harvey Pekar, criador da revista em quadrinhos American Splendor. Depois também fez Sideways – Entre umas e outras. Dois filmes muito bons, sobretudo por ele.

E são estes dois atores que sustentam o filme O Ilusionista, de Neil Burger. O filme é mediano e um tanto previsível. É pra ver Norton e Giamatti que vale a pena ir ao cinema. Tem também a atriz Jessica Biel. Bem fraquinha sua interpretação. Mas ela é deliciosa.

quarta-feira, 6 de dezembro de 2006

Idéia genial

Final da década de 1930. O rádio era o grande veículo de comunicação no Brasil e era através dele que se construíam os grandes sucessos. Depois do carnaval, época na qual as marchinhas reinavam absolutas, começava a corrida para lançar algo novo. Aquele que emplacasse uma música ficava em destaque o ano inteiro.

Em 1939, o cantor Silvio Caldas lança o samba Da cor do pecado, de Bororó.



Percebendo o grande potencial deste samba, Orlando Silva sai à caça de uma música que rivalize com o iminente sucesso. Procura a dupla de compositores Pedro Caetano e Claudionor Cruz, autores de outros sucessos já gravados por ele. Com pressa, ao saber que um deles estava em uma cidade distante, impossibilitando-os de se encontrarem, não teve dúvida. Pediu a Pedro Caetano que fizesse uma nova letra para Da cor do pecado e a Claudionor Cruz que compusesse uma nova melodia para o samba gravado por Silvio Caldas. Juntou letra e música e o resultado foi perfeito. Nasceu o samba Nova Ilusão.



segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

No rumo das águas

Num país abundante de boas cantoras, em que a cada dia surge um novo nome e, mesmo entre aquelas que não aparecem, encontra-se grande qualidade, é natural que as cantoras mais antigas tendam a cair no ostracismo. É o caso de ótimas cantoras, como Gal Costa, que acabou sumindo da mídia. Mesmo Elis Regina, é raro ouvi-la no rádio. Nossos ouvidos estão cada vez mais sendo alimentados pelas novas cantoras, a maioria delas, muito boas.

Há, porém, um nome que reina absoluto e que parece imune ao processo de esquecimento popular. Trata-se de Maria Bethânia. Tendo sido a primeira mulher brasileira a vender mais de 1 milhão de discos (Álibi, de 1978), essa cantora nunca deixou o panteão dos grandes nomes da nossa música. Seus discos nunca foram oportunistas, seguindo sempre um conceito e obedecendo um estilo, que segundo ela, é não ter estilo nenhum.

Desta vez, Bethânia elegeu a água como mote e, neste rumo, fez dois discos. Pirata reúne canções que têm os rios como tema. São canções leves, algumas mais antigas outras nem tanto, em que autores consagrados como Caetano Veloso, Edu lobo e Joubert de Carvalho, mesclam suas músicas com outros mais novos como Ana Carolina, Seu Jorge e Vanessa da Mata.

O outro disco é Mar de Sophia, no qual são as águas do mar que dão o rumo do barco. Neste disco, canções mais densas são entremeadas por textos e poemas, como só Bethânia sabe falar. Ambos contam com a delicadeza do maestro Jaime Além, responsável pelos arranjos.

Vale a pena ter os dois discos. Aliás, Maria Bethânia sempre vale a pena.

Forma e conteúdo

Há livros em que é impossível ceder ao ímpeto de comprá-lo, já pela capa. É o caso deste, do escritor Marçal Aquino. Mais do que a capa, porém, o que é mais irresistível é seu título. Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios, entretanto, é muito mais do que um título brilhante e uma ótima capa. É um daqueles livros policiais no qual você fica grudado até que ele acabe. Não quer largá-lo nem pra comer, nem pra dormir, nem pra nada. É um livro pra ler numa só jornada.

Marçal Aquino lida muito bem com as mudanças de época, brincando com os textos no passado e no presente. Este recurso, utilizado sem habilidade por muitos autores, é manejado por Aquino com muita naturalidade. Ele viaja pro passado e volta para o presente, sem nunca tirar do leitor a ansiedade e o suspense. E vai assim até a última página.

O livro tem humor e sensualidade. Seus personagens são reais sem ser insossos. São especiais sem ser inverossímeis.

Um livro delicioso.

domingo, 3 de dezembro de 2006

Noite quase desastrosa

Campinas tem mais de 40 salas de cinema, mas tem tão pouca variedade em relação ao que nos poderia ser oferecido que, muito freqüentemente, precisamos correr pra São Paulo pra não perder os filmes mais interessantes.

Felizmente, de vez em quando, é possível assistir alguma coisa aproveitável nas salas do Shopping Jaraguá, na Av. Brasil, e no Cine Paradiso, no centro.

O grande problema é que o Paradiso está cada vez pior. Eu sei que deve ser barra pesada manter um cinema passando filmes com pouco (ou nenhum) apelo comercial, principalmente numa cidade em que as pessoas preferem passear no shopping center. É por isso que eu não esquento a cabeça de pagar 12 reais pelo ingresso do Paradiso e nem reclamo das poltronas detonadas ou da falta de pipoca. Não vou ao cinema por causa disso. O que não dá pra aceitar é quando as limitações começam a comprometer a possibilidade de ver o filme.

Nessa quinta feira, saímos, Clélia e eu, animados pra pegar uma sessão dupla no Paradiso. A idéia era assistir a dois filmes de língua espanhola, nossa paixão, e depois, ir a algum lugar qualquer, comer qualquer coisa. Firmes e decididos, desembolsamos os 48 reais necessários para iniciar a empreitada e entramos na sala. E o sofrimento começa aí. Não sei o que eles estão usando no banheiro ou no carpete, mas há um perfume forte e adocicado exalando de algum lugar. Certamente isso tem o objetivo de encobrir algum outro cheiro. O problema é que odor de mofo misturado com olor de lavanda, nunca irá produzir um bom resultado. E pra piorar, o primeiro filme, que era ótimo, estava com problemas na legenda e pra resolver este problema, o projecionista ficou o tempo todo fuçando na máquina, fazendo com que a imagem ficasse desfocada durante toda a projeção. Mas o filme era realmente muito bom. Ficamos até com vontade de assisti-lo novamente num cinema mais decente. Mas isso nunca seria em Campinas, evidentemente.

Terminada a sessão, saímos um pouco para respirar. Os olhos demoraram a entender o mundo focado, mas aos poucos, ajudado pela respiração de um ar mais aceitável, eles voltaram ao normal.

Entramos novamente na sala, resignados com o cheiro e torcendo para que a imagem do segundo filme fosse melhor. E era. A imagem ótima e a legenda perfeita. O problema é que o filme não engrenava. O filme, na verdade, era uma droga e nada indicava que fosse melhorar. Uma comédia absolutamente previsível, cheia de clichês e cheia de preconceito. Eu olhava pra Clélia e ela olhava pra mim. Nós nunca precisamos dizer nada um pro outro. Sabemos sempre o que o outro está pensando. Insistimos mais um pouco e acabamos fazendo algo que só havíamos feito uma vez na vida, quando ainda éramos namorados, ou seja, 25 anos atrás. Saímos do cinema com o filme pela metade. E isso, acho que desencadeou um fenômeno de libertação, pois, logo em seguida, outras 3 pessoas saíram atrás da gente, todos nós com aquela sensação de termos entrado numa arapuca.

Definitivamente, o que tínhamos planejado não estava dando certo. E, pra consertar, não poderíamos seguir com o roteiro original. Seria fatal comer qualquer coisa num lugar qualquer. Resolvemos ir a um lugar especial e rumamos para Joaquim Egídio. Fomos direto pra um dos nossos restaurantes preferidos, o Cambuquira, cuja cozinha é pilotada pelo amigo Caco Piccoli. Foi a salvação da noite. Lá, não teremos nunca medo de nos decepcionar. Lá, sabemos que o Cláudio vai nos recepcionar, ele que é, de longe, o melhor garçom da cidade. E indo lá, sempre podemos contar com a gostosa conversa do Caco, sem pressa, sem afetações, ele que é um chef brilhante. E foi isso que aconteceu, pra salvar nossa desastrada noite. Depois de muita conversa boa, com o restaurante absolutamente vazio, o Caco foi pra cozinha e se superou. Pedimos uma moqueca que nem estava no cardápio e o que chegou até nós beirava à perfeição. Além do mais, o Cambuquira é o restaurante cujo preço dos vinhos é o mais honesto dentre todos os que eu conheço. Foi realmente muito bom.

Voltamos pra Valinhos com a alma lavada.