Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

sábado, 5 de abril de 2014

Um gol de craque

Gosto muito do jornalista José Trajano. A primeira vez que o vi foi no programa Cartão Verde, da TV Cultura, há vinte anos, no qual participava ao lado de Juca Kfoury, programa que existe até hoje, pelo que sei. Logo em seguida, comecei a acompanhar o canal de esportes ESPN, na época da TVA, quando começavam a surgir os primeiros canais a cabo no Brasil. Trajano foi seu criador e grande condutor durante muitos anos, até se aposentar da função de diretor de jornalismo da emissora. Hoje, participa de alguns programas como comentarista. Não por acaso, a ESPN é o canal de esportes que gosto mais de assistir. Digo esporte como uma maneira de falar, já que do que eu gosto mesmo é de futebol, embora tenha algum interesse em assistir jogos de volei e de tênis, contanto que sejam femininos, como já expliquei num outro texto aqui.

A preferência pela ESPN tem muito a ver com minha maneira de apreciar futebol, já que me agrada muito mais assistir aos jogos do que torcer por um time. Tenho meu time de preferência, o São Paulo Futebol Clube, que eu herdei de meu pai que por sua vez herdou de meu avô. Naquela época era assim e pronto. O que me importa, porém, é que o meu time jogue bem, mais do que vença. Na verdade, entre ele vancer jogando feio ou roubado, ou empatar jogando bonito, prefiro a segunda opção. Por isso mesmo, por gostar tanto de ver um bom jogo de futebol, me é quase indiferente se o jogo é do São Paulo ou de algum outro time. Tanto é que não tive nenhuma dúvida entre assistir ao jogo do Real Madrid e Barcelona, dias atrás, ou a São Paulo e Penapolense que passava no mesmo horário.

O que me atrai na programação da ESPN é o fato de a maioria dos comentaristas enxergar o futebol da mesma maneira que eu enxergo e, também, de não cansar de denunciar todas as mamatas que o futebol contempla, seja no Brasil, seja no mundo, através das venais FIFA e CBF. Era só na ESPN que podíamos ouvir seus comentariastas criticando a realização da Copa do Mundo no Brasil, já antevendo a farra que aconteceria com dinheiro público, enquanto as demais emissoras, capitaneadas pela Rede Globo, teciam loas ao evento. Hoje, virou moda criticar o que está acontecendo, mas foi só na ESPN que ouvíamos este discurso há 7 anos, quando o Brasil foi escolhido. Sobre isso, é imprescindível a forma combativa com que jornalistas como Juca Kfoury, Mauro Cesar Pereira e Lúcio de Castro, incessantemente denunciam e criticam as mazelas do nobre esporte bretão, sem perder a paixão que ele nos suscita. Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.

Como se não bastasse a combatividade, temos no canal uma seleção de craques no que se refere aos comentários técnicos e táticos, com clareza e conhecimento de causa, como Paulo Vinícius Coelho, Paulo Calçade e o surpreendente Juan Pablo Sorin, craque fora e, outrora, dentro de campo. E tudo isso só foi possível se construir devido ao empenho de José Trajano.


E não é que ele surpreende, mais uma vez, lançando um romance delicioso? O livro chama-se Procurando Mônica. Absolutamente autobiográfica, a história conta um caso de amor, entre impossível e platônico, iniciado na adolescência e latente durante a vida toda do jornalista. De forma leve, o texto que eu devorei em menos de 24 horas nos faz perceber que até os amores não correspondidos podem ser aproveitados e que a não correspondência não precisa, necessariamente, desaguar para o drama rasgado. Não falo mais nada sobre o livro para não entregar o final. Mais um golaço de um craque.

terça-feira, 25 de março de 2014

Povos & Civilizações

Gostei muito de ler alguns livros da coleção Povos & Civilizações da Editora Contexto. Com a proposta de esmiuçar a característica de uma determinada sociedade, utilizando como linha de análise a história de seu povo, os textos nos ajudam a conhecer melhor as idiossincrasias de cada elemento desta sociedade, permitindo-nos escapar dos estereótipos e o consequente preconceito, armadilha que alimenta a intolerância em relação ao desconhecido (ou mal conhecido).

O primeiro livro que li foi Os Americanos, sobre o qual já escrevi aqui e que me ajudou a entender o extremo individualismo daquele povo, característica que sempre me intrigou. O segundo livro foi Os Espanhóis e, desta vez, ele serviu para que eu melhor compreendesse as questões regionais, o sentimento de nacionalismo extremo, levando parte da população ao desejo de separação, sobretudo no caso dos catalães e bascos. Sempre tive um pé atrás em relação a esses movimentos, comparando-os ao que acontece, no Brasil, em relação aos nordestinos, principalmente por parte de algumas pessoas dos estados do sul do país. Este fenômeno, no nosso caso, reflete um sentimento de extremo egoísmo e falta de solidariedade, mas, no caso da Espanha, há uma enorme carga histórica para justificar as tensões.

Acabei de ler, agora, mais um livro da coleção, Os Argentinos, escrito pelo jornalista Ariel Palacios. Argentino de nascimento, tendo se mudado para o Brasil aos 3 anos de idade, ele se define como um brasileiro nascido na Argentina. Entrevistado por Jô Soares em seu programa de televisão, ele justificou esta definição utilizando outros exemplos como o de Carmen Miranda, brasileira nascida em Portugal, Clarice Lispector, brasileira nascida na Ucrânia ou Otto Maria Carpeaux, brasileiro nascido em Viena.

Assim como os demais livros da coleção, Os Argentinos utiliza a história como o fio condutor da narrativa, mas, diferentemente dos outros dois que eu li, utiliza os símbolos associados àquele país para melhor explicar o desenvolvimento daquela sociedade. Na verdade, ele se vale, inteligentemente, de todos os clichês utilizados em relação aos nossos mais importantes vizinhos, para explicar melhor suas características e nos deixar escapar das armadilhas da simplificação. Emblematicamente, inicia o texto falando da carne, símbolo máximo do país, seguido do tango, do futebol e da política. Ao longo de todo o texto, pontua cada assunto com comparações entre eles e nós, os brasileiros, ilustrando os capítulos com exemplos, na maior parte das vezes, bastante divertidos.


Um dos momentos mais interessantes do livro é aquele em que ele fala dos mitos argentinos, como Borges, Gardel, Perón, Evita, Maradona, entre outros. Na verdade, ele desmistifica completamente estas figuras, sobretudo Maradona, a quem desanca quase cruelmente. Como o livro foi escrito em 2012, não há referência significativa a Jorge Mario Bergoglio, que viria a ser eleito papa no ano passado. Teria sido interessante ler alguma coisa sobre esta personagem que, em tão pouco tempo, já está caminhando na direção de se tornar, também, um mito, o que é sempre perigoso.

sexta-feira, 21 de março de 2014

Fascínio pela história

Gosto muito de ler sobre história, sobretudo história do Brasil. Sempre gostei e sempre tive atração pelos livros escritos por Hélio Silva, que li nas décadas de 70 e 80, e, depois, os de Eduardo Bueno, ainda no final do século passado. Já no começo deste século, me deliciei com os 4 volumes de Élio Gaspari sobre a ditadura (envergonhada, escancarada, derrotada e encurralada – nesta ordem). Nenhum deles foi historiador de formação, mas todos me seduziram com um texto muito mais palatável que os encontrados nos papéis acadêmicos.

Ler este tipo de autor, agora que tenho uma historiadora em casa, ficou mais complicado. Para Eduardo Bueno a Cecília torce o nariz, para os outros fica neutra, acredito, muito mais para não me chatear. Foi por isso que tive alguma ansiedade ao dizer a ela que havia comprado a trilogia dos livros de Laurentino Gomes. Lançados, logo viraram best sellers e, isso, em geral, me faz torcer, também, meu próprio nariz. Percebi, entretanto, que o nariz da Cecília manteve-se reto quando soube da compra, o que me deixou aliviado e mais motivado para lê-los.

O primeiro, 1808, devorei num fôlego só suas mais de 400 páginas. Inicia o relato com a preparação da fuga da corte de D. João VI de Portugal e termina com seu retorno, 13 anos depois. Ao longo deste período, provocou-se uma mudança no nosso país que, certamente, não seria o mesmo, caso Napoleão Bonaparte não tivesse feito espiantar o monarca lusitano pras bandas de cá.

Uma das virtudes do livro, talvez a principal, é não se ater aos estereótipos com os quais D. João e Carlota Joaquina são tratados, usualmente. Embora a narrativa confirme o caráter um tanto pusilânime do príncipe regente, mostra também, algumas qualidades como estrategista e habilidades de negociador. Prova disso foi a própria declaração de Napoleão, no final da vida, de que a única pessoa que conseguiu enganá-lo teria sido, justamente, D. João.

O mais delicioso, no texto, por sua vez, é a oportunidade de entender como foi forjada a nossa sociedade, misto de uma corte que não guardava nenhuma semelhança às cortes européias, sem fausto nem cultura, com um comportamento de desprezo em relação a uma população plebéia com forte predomínio de homens escravizados. Um início assim torna muito mais clara a compreensão da característica injusta e preconceituosa que, até hoje, parte da nossa sociedade ostenta.

Ao final da leitura do livro, a vontade que dá é, justamente, de continuar a trilogia. Engatar, de imediato, uma nova marcha e atravessar a independência (1822) para chegar, finalmente, à proclamação da república (1889). Não vai ser já, mas deve acontecer logo. É que a lista de prioridades é longa.

sábado, 8 de março de 2014

Duas infâncias

Gostei tanto de ler a coletânea de textos do Antônio Prata publicados no Estadão entre 2004 e 2010, sobre o qual escrevi aqui no ano passado, que não titubeei em comprar seu último livro, Nú, de Botas. Desta vez não é uma coletânea esparsa, mas são textos em torno de uma só ideia, interessantíssima, aliás. São histórias leves e rápidas, relatando passagens de sua infância, algumas reais, outras inventadas, como ele mesmo reconhece. O que torna o livro muito legal é o fato de que a linguagem é atual e estruturada, como se àquela época, aquela criança já tivesse o domínio da articulação. Desta forma, as mais estapafúrdias ideias que se passam na cabeça de um guri de 4, 5 ou 6 anos de idade, recebem argumentação absolutamente coerente a justificar qualquer ato.
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Mais uma vez pude confirmar a agilidade da escrita deste ótimo autor, mas o que mais me chamou a atenção, entretanto, no livro, foram as referências de sua infância. Ao contrário do que aconteceu no livro O Drible, sobre o qual escrevi aqui, na semana passada, com cujas referências da juventude eu me identifiquei completamente, no livro de Antônio Prata, as referências eram também conhecidas, mas eram as da época da infância da minha filha e meus sobrinhos. Ele fala de playmobil, do programa do Bozo, de roupas de moleton. Na infância do autor, a TV é em cores, como na infância da Cecília. Na minha, a TV era em preto e branco e chegou bem tarde, ao menos em casa. No início, ainda era o rádio.
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Mesmo assim, mesmo com referências de infância que não são as minhas, foi possível me identificar, e muito.  Esta é uma das magias em se ter filhos. A gente ganha duas infâncias pra se lembrar.

sábado, 1 de março de 2014

Dica Preciosa

Numa das minhas andanças pela Livraria da Vila, em Campinas, estava sentado na poltrona, folheando livros selecionados, alguns dos quais, invariavelmente, seriam comprados. Tinha a companhia da Clélia e da Cecília, cada uma num canto da loja, praticando o mesmo esporte. De repente, a Cecília chega com um livro e o passa pra mim, dizendo que o achou interessante. Depositei o volume na pilha selecionada e, quando chegou sua vez, li as orelhas, a contracapa, e depois, dei aquela folheada básica, procurando, a esmo, algum trecho para ler. Devolvi o livro à pilha e ele não foi comprado.
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No fim do ano, depois do natal sem troca de presentes, como já é tradicional, entre nós, a Cecília chegou do nada, e nos presenteou, a cada um, com um livro. O meu era aquele mesmo que já havia me indicado na livraria, tempos atrás. Desta vez, ele foi para a pilha que fica no meu criado mudo e, assim que terminei o que estava lendo, comecei-o.
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O que encontrei, confirmou uma sensação que tenho há algum tempo, ou seja, que as antenas da Cecília estão bem mais sintonizadas do que as minhas. O livro é muito bom. Trata-se de O Drible, de Sérgio Rodrigues. Nada que eu falar sobre o livro, dirá mais sobre ele do que a dedicatória que ela escreveu:
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A trama é intrincada, a narrativa é ágil, brincando entre o passado e o presente, criando um suspense que vai desaguar num resultado absolutamente inesperado. Até chegar a ele, o autor passeia pelo futebol anterior ao seu tempo e pela cultura pop da sua época de juventude, que coincide com a minha. Talvez, por isso mesmo, o livro tenha dito tanto a mim, já que, por ter praticamente a mesma idade que eu, as referências abordadas imprimiram, nele, o mesmo efeito que em mim.
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O livro serviu pra eu relembrar a juventude, refletir sobre a relação com meu pai, alimentar minha curiosidade sobre o futebol do passado e, principalmente, reforçar a minha convicção de que não devo, nunca, desprezar uma dica da minha filha. 

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Oscar 2014

Já expliquei, aqui, num outro post, que não dou muita bola para o Oscar, que valorizo mais o Globo de Ouro e, mais ainda, o Festival de Berlim, mas, todo ano, acabo dando, se não alguma atenção, ao menos uma espiadinha na lista dos filmes indicados. Este ano, só fui dar uma olhada nesta lista hoje e descobri que, dos 9 selecionados, só assisti a 4 deles.
O Lobo de Wall Street, do Scorsese, foi um dos que mais gostei. Andei lendo algumas críticas que o apontavam como um filme que estimulava ou, ao menos, contemporizava com a busca do sucesso através de falcatruas. Achei que não. O filme mostra um retrato fiel da sociedade americana, sua habitual ânsia de enriquecer e, se os trapaceiros do filme utilizam meios criminosos para ludibriar os clientes, as vítmas também exibem uma ambição desmesurada de alcançar seus intentos, oferecendo aos vilões um terreno fértil para executar as trapaças.
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Outra acusação que andei lendo sobre o filme foi o excesso de cenas com drogas e sexo. Prefiro muito mais isso do que quando excedem em cenas de violência. Se não dá pra escapar dos excessos, prefiro ver bundas e genitálias do que ver sangue. O ponto de destaque, no filme, é a atuação de Leonardo DiCaprio, cada vez um ator mais maduro, apesar de seu eterno ar jovial e sua extrema beleza. Mas isso não é culpa dele. Fazer o que? A natureza foi generosa, no caso.
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Philomena, de Stephen Frears, foi outro filme do qual gostei bastante. Uma dura crítica aos desmandos da igreja católica, na Irlanda, um dos países em que o catolicismo é o mais radical no mundo. Sempre me incomodou, aliás, a forma com que a mídia ocidental é condescendente com este radicalismo. Basta notar o fato de que, ao se referir a terroristas do Hamas, utilizam sempre o termo “radicais islâmicos”. Nunca vi, entretanto, uma referência aos terroristas do IRA como “radicais católicos”. No filme, a igreja usa a religiosidade das pessoas para reforçar seu poder e justificar atrocidades, em nome de um moralismo que não está tão distante dos dias de hoje, pois não trata da época da inquisição, mas de apenas 50 anos atrás. Judi Dench, que concorre ao prêmio de melhor atriz, está absoluta no papel. Seria minha favorita, mas parece que Cate Blanchett é mais cotada por sua atuação em Blue Jasmine de Woody Allen.
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Embora seja um filme sobre a escravidão nos Estados Unidos, a religião também é o pano de fundo de 12 Anos de Escravidão, de Steve McQueen. É a religião que serve de justificativa para os algozes subjugarem seus semelhantes de pele negra, através de interpretações oportunistas da Bíblia e é, também, a religião, e principalmente a esperança de redenção, que serve de ferramenta aos escravos para suportar os castigos. Por mais que seja sempre necessário mostrar o que o homem é capaz de fazer quando trata de ser cruel com um semelhante, achei que o filme exagerou na exibição das chagas abertas pelos açoites dos chicotes.
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A mensagem mais marcante do filme, para mim, foi a de quanto é possível reduzir o ser humano à sua condição de animal quando alguém o escraviza, tirando dele tudo o que, de positivo, é capaz de sentir, quebrando o seu espírito de solidariedade. O ponto alto do filme, além da excelente atuação do ator inglês Chiwetel Ejiofor, é sua ótima fotografia com uma infinidade de belíssimos planos com baixa profundidade de campo. Fiquei muito surpreso ao notar que ele não está na lista dos concorrentes ao prêmio de melhor fotografia.
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O filme do qual eu menos gostei foi Trapaça, de David Russell. Achei o filme mal feito, esta é a verdade. Não gostei da atuação dos atores e nem mesmo a presença de Amy Adams, que eu acho uma delicinha, salva o filme, já que ela não convence no papel de femme fatale. Ela é uma gracinha, reconheço, mas lhe falta o sex appeal que o papel demanda. Embora eu admita que a produção de Hollywood não é aquilo que mais me empolga em se tratando de cinema, fica difícil acreditar que não houvesse, ao longo de todo um ano, algum filme melhor que este para figurar na lista de indicados. É por estas e outras que se explica o meu desdém pelo Oscar.

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Objeto de desejo

O consumismo é, talvez, uma das maiores pragas que assolam a nossa sociedade. Possivelmente sempre tenha sido assim, mas, o que sinto, ultimamente, é um exagero neste comportamento que, por sua vez, alimenta e incentiva uma qualidade, esta sim, uma das piores que carregamos, intrinsecamente, que é a vaidade. Vaidade aliada ao consumismo resulta em ostentação que, numa análise rasa, presta-se à tarefa de se mostrar melhor que os outros aos olhos de todos. É o carro de luxo ou as roupas de grifes caras, nos dias de hoje, mas já foi a exibição de jóias raras num passado recente ou, mesmo, mais antigamente, passear num domingo, no centro de uma grande cidade, ladeado por muitos escravos.
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Outra faceta do consumismo é o descontrole que, às vezes, ele acarreta. Isso acontece com todo mundo, mesmo com quem não admita. Eu digo isso por mim, que não ligo pra carro, pra roupas e sapatos, que nem uso relógio e não me encanto com parafernálias tecnológicas. Eu, que não me empolgo com a moda e nem com a aparência, tenho, também, o meu fraco que são os livros.

Compro-os aos montes e me assusta, diariamente, sempre que olho pras minhas estantes, a certeza de que não vou conseguir lê-los todos, antes do fim da vida, mesmo atualmente, quando estou lendo de maneira compulsiva. Essa certeza, porém, não é capaz de fazer-me parar de comprá-los, ainda mais agora que se pode fazer isso sem gastar tanto dinheiro através das lojas virtuais. O site Buscapé é um garnde perigo, pois sempre dá pra encontrar um negócio irresistível numa destas livrarias.

Pois foi justamente isso que aconteceu com o livro João Gilberto, reunião de textos diversos organizados por Walter Garcia e editados pela Cosac Naify. O fato do livro ter saído por esta editora já é um sinal de que o objeto do desejo será caro. A Cosac Naify é a Louis Vuitton das publicações.
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Eu vinha namorando este livro há tempos, sempre folheando suas páginas com cuidado, como quem acaricia uma mulher linda e frágil, para preservar sua integridade. Já me peguei enamorado com ele nos corredores da Livraria da Vila, nas potronas da Livraria Cultura e até na FNAC, aquela livraria que virou loja de eletrodomésticos. Em todas elas, porém, o valor superior a 200 reais sempre me demoveu de comprá-lo. Pode parecer pouco dinheiro pra quem acha natural pagar mais de 150 mil reais por um carro ou mais de 500 reais por um par de tênis, mas, para aqueles que, como eu, têm como objeto de desejo os livros, este valor é uma fortuna. Até que um dia, nos meus passeios pelos sites das lojas, encontrei-o pela metade do preço. Não foi na semana da black Fryday, mas foi próximo. Não titubeei e agora que o tenho ao alcance das minhas mãos, miro-o com todo zelo, hesitante em tocá-lo, para não macular sua virgindade.

sábado, 25 de janeiro de 2014

Fim

Nunca tive nenhuma empolgação com o trabalho de Fernanda Torres. Acho-a uma atriz regular, nada excepcional, daquelas que não me motivam a ir ao cinema assistir a um filme por causa de sua participação, como acontece com Ricardo Darin, Edward Norton ou sua mãe, Fernanda Montenegro. Por isso mesmo, não me chamou a atenção o lançamento de seu livro, Fim. Foi a Clélia que me disse que gostava de ler seus textos publicados mensalmente na Folha e, por isso, num dia de vadiagem na Livraria da Vila, em Campinas, peguei o livro nas mãos e, ao ler a primeira página, senti vontade de lê-lo até que acabasse.
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Fiquei absolutamente surpreso com a qualidade do texto e com a forma que escolheu para contar a história, uma forma nada convencional e muito criativa. Em geral, tenho certa má vontade com estruturas muito exóticas de ligar a trama, mas a maneira escolhida por Fernanda foi muito instigante.
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Cheia de personagens, a história não chega a confundir o leitor, graças à maneira marcante que cada um deles tem lugar na trama. Se eventualmente acontecer, a dica é escrever na página do índice, a lápis, o nome das mulheres e amantes de cada um dos 5 amigos que fazem parte da história. Não cheguei a fazer isso, mas confesso que utilizei este recurso na segunda releitura que fiz de Cem Anos de Solidão, de Gabriel Garcia Marques, mas, naquele caso, eram muito mais personagens e quase todos se chamavam Aureliano ou José Arcádio (na verdade, não escrevi no livro, o que acho uma heresia, mas desenhei a árvore genealógica da família numa folha à parte).
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Para tratar de alguns dos personagens, Fernanda Torres utiliza a narração em primeira pessoa e, aí, revela um excepcional talento, já que faz isso com a mesma desenvoltura, tanto para personagens femininas quanto masculinas. A morte é o mote do livro, o que não quer dizer que a história seja fúnebre, muito pelo contrário. A autora usa a morte para celebrar a vida de cada uma das personagens, tenha sido ela aquilo que elas quiseram viver, tenha sido ela uma desilusão.
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Enfim, é um livro que me surpreendeu tanto, que ficarei a espera de outra publicação sua e estarei mais atento a seus textos na Folha. Provavelmente, entretanto, continuarei a não dar muita atenção aos filmes de que participa.
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quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

Ninfomaníaca, 1ª parte

Assisti à primeira parte de Ninfomaníaca, de Lars von Trier com algum desconforto. Não foi devido ao ambiente sombrio e andamento lento do filme, já que estas características, típicas deste diretor, estavam presentes em outras obras suas como Dançando no escuro e Dogville, dos quais gostei bastante. Também não foi a temática do sexo, visto que este tema me interessa muito, como escrevi, recentemente, neste blog, aqui e aqui. O que causou este meu desconforto foi o fato do sexo, no filme, ser mostrado sem qualquer componente de emotividade. Obviamente não sou inocente a ponto de acreditar que o sexo só funciona se estiver acompanhado de amor, claro que não, mas sexo, em minha concepção, tem que estar aliado a carinho ou, ao menos, ter a companhia de carícias. Pois no filme de von Trier, o sexo é sempre mostrado sem amor, sem carinho, sem, nem ao menos, alguma carícia. O sexo, na tela, sempre aparece como algo apenas genital, como instinto, como vício.
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Acontece que é este mesmo o objetivo do filme. É abordar o sexo quando ele é uma doença. É disso que ele quer tratar. E é por isso que ele é bom, apesar do desconforto que me causou. A escolha da atriz Stacy Martin me pareceu muito apropriada, pois sua inexpresividade caiu muito bem para o papel da protagonista da história, quando jovem.
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O personagem representado pelo ótimo ator sueco Stellan Skarsgård, para quem a protagonista narra sua história, serve, também, para que o diretor passe seus recados, como quando ele diz que vem de uma família antissionista mas não antissemita, uma clara referência à desastrada entrevista que ele deu, durante a apresentação do filme Melancolia, no festival de Canes, quando declarou que compreendia Hitler, causando embaraço em todos os presentes.  Mais importante que esta baboseira, é o fato de ser através deste personagem que é exposto o que há de mais interessante no filme, ou seja, a comparação entre a arte da sedução e uma pescaria e o paralelo entre sexo e a audição de um prelúdio de Bach escrito para orgão.
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No filme, o amor só aparece na forma de ilusão da protagonista que, ingenuamente, acreditou que este ingrediente poderia ser o remédio para o seu mal. O que vai acontecer com ela após descobrir que nem isso pode curá-la, só descobriremos quando a segunda parte do filme for exibida.
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quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

Contrariando a própria convicção

Tenho, cada vez mais forte, a convicção de que não sou mais capaz de assimilar novidades no que diz respeito à música. Eu me pego à procura das mesmas coisas de sempre quando percorro com o olhar as prateleiras das lojas de discos. Aliás, acho que sou o único a chamar os CDs de discos, mas, enquanto seu formato redondo e achatado me permitir esta atitude, resistirei bravamente.
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Mas, voltando às prateleiras, o que meus olhos treinados buscam é sempre a mesma coisa, seja jazz, MPB, Bossa Nova ou o samba autêntico, enfim, o tipo de música que verdadeiramente me emociona. Conscientemente, minha atenção passa ao largo das duplas sertanejas, dos grupos de pagode, do pop, do rap e do rock, seja da música americana, seja da brasileira. Minha visão seletiva me proteje dos discos da Paula Fernandes, do Péricles, do Nx Zero ou da Vanesa da Mata.
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Estou certo, entretanto, que esta autoproteção me impede de descobrir coisas novas que poderiam me agradar e, principalmente, enriquecer meu conhecimento musical e aumentar meu prazer. Afinal, cada vez menos eu consigo encontrar alguma gravação nova quando procuro pelas músicas de Cartola, Nelson Cavaquinho, Gershwin ou Cole Porter. Além do mais, mesmo os artistas que eu admiro e que ainda estão na ativa, diminuiram, e muito, a produção, o que é compreensível, visto se tratar de sexagenários, no mínimo. Desta forma, é cada vez mais raro o lançamento de um novo disco de João Bosco ou Paulinho da Viola, de Renato Teixeira ou Almir Sater, com, realmente, alguma novidade. Talvez as exceções sejam Caetano Veloso e Chico Buarque que têm apresentado incursões por novos caminhos, embora isso, em ambos os casos, me causem estranheza. No caso de Caetano Veloso, principalmente nos CDs Cê e Zii e Zie, eu identifico uma guinada a certo primitivismo melódico e harmônico que, a princípio, não me agrada. O último disco, Abraçaço, ainda preciso digerir melhor antes de saber o que achei. De qualquer forma, minha relação com a música de Caetano Veloso sempre foi assim. Sempre levei certo tempo para digerir seus discos e, de alguns deles, acabei aprendendo a extrair um grande prazer.
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Chico Buarque segue numa direção oposta à de Caetano e me causa a mesma estranheza. Em seus útimos discos Carioca (2006) e Chico (2011) ele se aventurou em dissonâncias intrincadas que incomodam meus ouvidos mais convencionais. Este incômodo, entretanto, me seduz, já que mostra uma busca por experimentar, realmente, algo novo.
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Falei tudo isso, ou seja, gastei 4 parágrafos e abusei da paciência de quem está lendo este texto para comentar o álbum Indivisível de Zé Miguel Wisnik. Contrariando minha própria convicção, a de que eu não seja capaz de assimilar novidades, este é um autor que me seduziu desde o primeiro momento que ouvi suas músicas. É na interpretação de grandes cantoras como Maria Bethânia, Gal Costa, Zizi Possi, Mônica Salmaso ou Vânia Bastos que seu talento se revela. Embora pareça contraditório, sua música é minimalista e complexa, dois atributos que me agradam muito. Neste novo áalbum, ele nos apresenta 2 CDs, o primeiro em que se acompanha do próprio piano com o suporte das teclas de Marcelo Jeneci. No segundo, é o violão de Arthur Nestrovski que dá o tom. Nos dois casos, a simplicidade dos arranjos e sua voz desprovida de recursos é que permitem perceber a riqueza e a complexidade de suas composições.
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Wisnik é versátil. Faz tanto melodia quanto letra e é capaz de musicar poemas de Fernando Pessoa, Gregório de Mattos e Drumond ou se atrever a colocar letra numa música de Schubert, além de apresentar uma versão para uma bela canção de Henri Salvador. Compõe sozinho e em parceria com Luiz Tatit, Guinga ou Chico Buarque, entre outros. Além de tudo, o álbum tem um projeto gráfico muito criativo.
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 Enfim, um disco e um artista capazes de me fazer acreditar que ainda tenho salvação.
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Se meu mundo cair (Zé Miguel Wisnik)
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Embebedado (Zé Miguel Wisnik e Chico Buarque)