Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Viajante

É comum ficarmos irritados quando algum estrangeiro (sobretudo os americanos) faz confusão e acha que a capital do Brasil é Buenos Aires ou Bogotá. Achamos isso um grande desrespeito. Onde já se viu desconhecer um país tão importante como o nosso?

Por outro lado, pouquíssimos de nós sabem qual é a capital da Mongólia, da Malásia, do Casaquistão, da Noruega, do Suriname ou de Belize. E não achamos que isso seja algum desrespeito. Afinal, nenhum destes países é tão importante quanto o nosso!

Na verdade, temos a mania de nos acharmos mais importantes do que os outros. E somos assim, tanto nacionalmente quanto no âmbito regional. Os paulistas se acham mais trabalhadores, os sulistas se acham mais sérios, os baianos se acham mais alegres, os cariocas os mais espertos. Nós, brasileiros, somos os maiorais. Tudo isso é uma grande bobagem. Há gente especial e gente babaca em qualquer lugar do mundo. Infelizmente, aliás, a babaquice impera em todo canto.

Quando a gente viaja muito, depois daquela fase de comparações, quando parece que todo lugar é pior ou melhor do que o lugar em que vivemos, começamos a entender as diferenças e a aceitá-las com mais naturalidade. É a partir deste ponto que as viagens começam a ser mais proveitosas, sejam elas a passeio ou a trabalho. A partir deste ponto, a gente começa a entender a maneira das pessoas lidarem com as situações, a aceitar o sabor das coisas que elas comem, a extrair prazer da vida que se leva em qualquer lugar. É a partir deste ponto que a gente deixa de ser turista para ser viajante.

E é com este espírito, o de viajante, sem preconceitos e, principalmente, sem julgamentos, que foi escrito o livro Ébano – Minha vida na África, pelo jornalista polonês Ryszard Kapuściński. As reportagens são escritas a partir de experiências específicas, sem seguir uma seqüência cronológica ou uma divisão regional. Assim, os textos acabam mostrando uma região absolutamente fragmentada com regiões desconectadas entre si.

A África é um grande mistério para a maioria de nós. Pra quem vê de muito longe, parece um grande continente com uma identidade única. Quando se olha mais de perto, vemos uma região que foi dividida por uma leva de colonizadores estrangeiros, impondo a cada divisão uma demarcação linear e artificial. Porém, se penetrarmos profundamente na história e, principalmente, na realidade africana, vamos entender que essa divisão, na verdade, foi um aglutinamento traumático de mais de 10 mil povos e nações completamente independentes entre si, cada um com sua língua, seus costumes, suas crenças.

O livro de Kapuściński escancara, de forma peremptória, a capacidade de tirania que tem o ser humano e mostra que esta capacidade vai muito além da questão da discriminação racial. Mostra, claramente, como se deu, ao longo do tempo, o domínio agressivo do branco europeu sobre a população de maioria negra, mas, indo mais longe, mostra o histórico de opressão e violência entre povos de etnias e culturas diferentes, mesmo quando negros, todos eles.

A virtude principal do livro, entretanto, é fazer todas as narrativas, com um profundo respeito pela população africana, aceitando seus costumes e tradições. Assim, consegue assimilar sua cultura e compreender melhor o mundo que retrata. E, com isso, comporta-se como o mais inteligente viajante.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Saudades de São Bernardo

Desde que me mudei para a região de Campinas, procurei me aplicar na tarefa de descobrir os lugares que me falavam alguma coisa. Tenho descoberto muitas coisas sobre as quais já falei em diversos textos sobre a cidade ou o bairro onde moro. Desde o começo destes tempos campineiros, me surpreendeu minha percepção de que não tinha tanta saudade de São Bernardo do Campo, cidade onde morei desde os 9 anos de idade. Não falo da saudade das pessoas. Esta existe, é claro, saudade da família e dos amigos. Falo de saudade da cidade e dos lugares que me fazem falta. Essa falta não se fez sentir profundamente, mas, pensando bem, a saudade existe sim.

Se penso bastante nisso, consigo lembrar-me de alguns lugares. São lugares para os quais eu procuro voltar, sempre que tenho a oportunidade de viajar para lá. Glutão que sou, estou falando de restaurantes, evidentemente. Uma das saudades, que consegui compensar é do restaurante Costela & Cia, já que encontrei semelhante em Indaiatuba.

O que há de mais tradicional, em São Bernardo, são os restaurantes do bairro Demarchi, especializado em frango com polenta. Freqüentei estes restaurantes desde criança, aos domingos, com a família, que procurava uma opção que não doesse no bolso e que agradasse a alma. Naquele tempo eram espaços bem pequenos e o frango e a polenta eram, praticamente, os únicos pratos oferecidos. Pedir uma porção de batatas fritas era uma temeridade e o que se recebia na mesa, intragável. Hoje são grandes potências, estes restaurantes, com uma variedade imensa de pratos, mas quando vou lá, fico mesmo é no velho frango a passarinho ao alho e óleo. Meu preferido, dentre tantos, é o restaurante São Judas Tadeu que faz o melhor frango com polenta frita do mundo, estou seguro disso.

É possível comer frango com polenta, também, no Restaurante do Gaia, que fica na mesma região. Mas lá, o que vale mesmo a pena é comer rabada. Para fazer isso, há que se ir almoçar numa quinta ou sexta-feira. É um restaurante que começou modesto, baratíssimo, e que tinha o objetivo de atender os operários da fábrica Volkswagen, que fica naquele bairro. Ganhou fama e ganhou preço alto a sua comida que continua, entretanto, excepcional.

A saudade mais braba, mesmo, talvez, seja a do Bar do Bolinho, justamente por que foi pra lá que eu nunca voltei depois da mudança de cidade. Só de pensar nisso fico assustado. Faz quase dez anos que não como um pão com bolinho! Parece que agora ficou moderninho. Até endereço na internet o boteco tem, com mesa e cadeiras pra gente se sentar. No meu tempo, a gente comia mesmo era em pé, na calçada. Pão com bolinho e queijo, e um vinagrete estupidamente apimentado. Isso sim dá saudade.

E agora, pensando bem, há outras saudades, sim. Menos fortes, algumas, e outras, de lugares que já não existem mais.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Revirando-se no túmulo

Tenho uma auto-reconhecida má vontade com as modernidades em geral. Já fui chamado de mal-humorado, por causa disso, coisa que, provavelmente, sou mesmo. Tenho procurado, então, exercitar mais minha capacidade de tolerância e foi com esse espírito que resolvi ouvir o disco de um tal Teddy Correa chamado Loopcinio em que canta clássicos de Lupicínio Rodrigues. Antes de ouvir, dei uma pequena olhada na internet e descobri que o moço é vocalista de uma banda chamada Nenhum de Nós da qual, sinceramente, nunca ouvi falar. Li também que, no disco, ele fazia uma “releitura” da obra de Lupicínio, inserindo uma levada mais moderna às músicas do homem. Isso me arrepiou, já que tenho certa aversão a esta coisa de releitura. Mesmo assim, resolvi arriscar, já que naquele momento estava de bom humor, estado de espírito que se alterou imediatamente, após poucos segundos de audição.

O pior é que resolvi ouvir, de cara, a faixa com a música que eu mais gosto do grande compositor gaúcho. E se eu tinha me arrepiado com a idéia, meu corpo todo estremeceu quando meus tímpanos captaram aquela blasfêmia. Sou obrigado a confessar que não ouvi a faixa até o fim. Por isso, vou achar compreensível que vocês não consigam fazê-lo quando clicarem no comando colocado aí embaixo:



(Nervos de Aço com Teddy Corrêa)

Fiquei imaginando Jamelão, o grande intérprete de Lupicínio, ouvindo esta barbaridade. Fiquei imaginando Noite Ilustrada, do qual tenho um disco lindo, cantando, com sua voz elegante, as canções do mestre. Certamente choraria de desgosto. Mais do que isso, fiquei imaginando o próprio Lupicínio, dando voltas no caixão, urrando de ódio, protestando contra esta heresia.

Só sei que ouvir este disco, ou melhor, ouvir um trecho desta faixa, me causou profunda azia. Dois envelopes de sal de frutas não foram suficientes pra me curar. Fui obrigado, então, a buscar correndo, este remédio, mais do que isso, este antídoto aí embaixo:



(Nervos de Aço com Paulinho da Viola)

domingo, 10 de janeiro de 2010

Bolo solado

Há receitas que, se seguidas à risca, parecem não ter chance de o negócio dar errado. Os ingredientes estão certos, os procedimentos corretos, a temperatura do forno, tudo perfeito, conforme a receita e, ao fim, o bolo sola. Faltou alguma coisa e não sabemos o que é.

Com música pode acontecer a mesma coisa. Pegue-se um repertório irrepreensível, daqueles que ninguém, com todos os parafusos na cabeça, tem coragem de questionar. Um repertório mais que respeitável, produto de primeira. Junte-se, no mesmo caldeirão, uma cantora especial, afinada, timbre bonito, voz forte. Para temperar, um grupo de músicos muito mais que competente. Gente do quilate de Cristóvão Bastos, Alceu Maia, Victor Biglione, Luciana Rabello e Robertinho Silva.

Pois foi com todos estes ingredientes que se produziu o disco A Minha Homenagem ao Poeta da Voz, de Selma Reis, cantando músicas de Paulo César Pinheiro. E não é que o bolo solou? O vatapá embolou, o pão não cresceu. Tudo certo: repertório, cantora, músicos. Só que não deu certo.

Cantar os sucessos de Paulo César Pinheiro pode parecer fácil, mas não é. A principal dificuldade, talvez, esteja, exatamente, na comparação com as gravações consagradas. Assim como o poeta têm inúmeros parceiros fixos, há intérpretes para os quais suas músicas caem como uma luva. Ninguém canta suas parcerias com Eduardo Gudin como a cantora Márcia. Os sambas que fez com Mauro Duarte ficam insuperáveis na voz de Clara Nunes. O conjunto MPB4 é o melhor canal para ouvir as músicas feitas com Maurício Tapajós, e os sambas de João Nogueira, nada melhor que ouvi-los com o autor.

Enfim, não se trata de um disco intragável. Mas é como aquele bolo que ficou mais ou menos, aquele que a gente até come um segundo pedaço, só pra agradar o dono da festa.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Arte em segundo plano

Estreou ontem, na Rede Globo, o especial Dalva e Herivelto – uma canção de amor, sobre a vida da cantora Dalva de Oliveira e do compositor Herivelto Martins. Produção bem cuidada, seu primeiro episódio já mostrou que a minissérie irá abordar muito mais a dramática vida pessoal dos protagonistas do que a música brasileira, que entrará, apenas, como pano de fundo. É uma pena, já que, pelo menos pra mim, a intimidade das pessoas famosas é muito menos importante que a obra que elas legam à posteridade.

Herivelto foi um compositor muito importante da nossa música, tendo sido responsável por vários clássicos de nosso cancioneiro, como Praça Onze, Isaura ou a imbatível Ave Maria no Morro. Dalva foi uma cantora de enorme popularidade, nas décadas de 1940 a 1960, tendo emplacado sucessos absolutos como Tudo acabado, Kalu ou Bandeira Branca, talvez o mais emblemático deles.

Infelizmente, ao que tudo indica, esta obra será coadjuvante na minissérie. Isto é compreensível, já que vivemos numa época em que a mídia valoriza, sobremaneira, aquilo que acontece na vida pessoal das, hoje chamadas, celebridades. É a preponderância da personalidade em detrimento da arte, a exposição exagerada da imagem e das fofocas, é a era dos paparazzi.

Adriana Esteves e Fábio Assunção estão bastante convincentes nos papéis principais, ambos muito bonitos, beleza muito superior aos personagens na vida real. Mas, como a vida real interessa mais se for revestida de glamour, até isso está dentro do combinado.

Espero, sinceramente, que, nos próximos episódios, a música tenha um pouquinho mais de espaço.




Ave Maria no morro (Herivelto Martins)
Trio de Ouro

sábado, 2 de janeiro de 2010

Uma coisa leva a outra

Os Beatles aconteceram antes de eu me conhecer musicalmente. O conjunto nasceu na mesma época que eu e terminou quando eu começava a me interessar por música. Na verdade, eu me interessei, primeiramente, por John Lennon. Lennon me levou aos Beatles e os Beatles me levaram a Paul McCartney. Virei maníaco dos 3. Sendo assim, minha beatlemania foi póstuma. Esse som me interessa até hoje.

Naquela época, a TV tocava pouca música, ou, pelo menos, era pouca a música que me interessava. Lembro-me de que a única coisa que chamava minha atenção, na TV, eram os festivais, no canal 7. Esse interesse ficaria guardado para mais tarde. Na realidade, a música entrava em minha alma através do rádio e a rádio que eu ouvia só tocava música pop americana. Daí meu interesse pelos Bee Gees (na fase pré-discoteca) ou por Elton John, por exemplo. Dei uma leve flertada com o rock, mas isso acabou logo, já que, um pouco mais tarde, uns 3 ou 4 anos depois, meu ouvido migrou, radicalmente, na direção da música brasileira. Resquício da lembrança dos festivais, recuperei o interesse em Chico Buarque, Edu Lobo, Caetano e Gil. E esse interesse me levou à Bossa Nova, como Lennon me levara aos Beatles. E a Bossa Nova tornou-se minha outra mania póstuma.

Foi a Bossa Nova que girou meu ouvido de volta na direção da música americana, mas não mais à música pop. Minha atenção voltou-se ao som que influenciara aquele movimento brasileiro. Passei a ouvir Sinatra e Ella Fitzgerald, cantando músicas de Cole Porter, Irving Berlin, Gershwin, entre outros. E é essa, a música americana que me interessa, até hoje.

Tudo isso pra falar do disco Nego, em que standards da música americana, com versões de Carlos Rennó, são apresentados por cantores brasileiros dos mais diferentes matizes. É possível ouvir Erasmo Carlos cantando Summertime, de Gershwin, ou Olívia Hime cantando White Christmas, de Irving Berlin, por exemplo. Tudo com letras em português.

Durante muito tempo, nutri má vontade com versões, de uma forma geral. Sempre tive a firme convicção de que dificilmente gostaria de alguma. As de Carlos Rennó, entretanto, me agradam. Desde que ouvi sua versão para My heart belongs to Daddy (Eu sou é do papai), de Cole Porter, gravada por Vânia Bastos, em 1986, minha má vontade com as versões ganhou um porém. Depois, veio o disco Cole Porter, George Gershwin - Canções, Versões, em que inaugurou a fórmula de Nego. É sempre bom quando alguma coisa vem derrubar as nossas convicções, principalmente as mais firmes.
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MEU ROMANCE (MY ROMANCE)
Autor: Richard Rodgers / Lorenz Hart / versão: Carlos Rennó

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Outro balanço – Futebol brasileiro

O desfecho do campeonato brasileiro teve, ao menos, duas virtudes. A primeira foi a de desmistificar a idéia de que, pra ser campeão, o clube tem de ser bem administrado, gerido como uma empresa, organizado profissionalmente e pagar os salários em dia. Todos disseram, ao longo do campeonato, coisas assim. Vaticinaram a vitória do Palmeiras, depois do São Paulo e por fim, do Internacional. Fosse assim, o Flamengo teria feito companhia ao Fluminense e ao Botafogo na luta para escapar do rebaixamento e o meu São Paulo teria erguido a taça pela quarta vez consecutiva. Por sorte, o futebol consegue nos surpreender e, por isso, nos dar prazer. Isso não quer dizer que se possa continuar avacalhando as coisas como alguns clubes insistem em fazer. Se tudo continuar como está, o Flamengo vai levar mais 17 anos para ser campeão novamente. Se não inovar, a nova presidente, Patrícia Amorim, vai ver seu time fazer um papel medíocre em 2010. Aliás, pelo que tudo indica, Vasco, Fluminense e Botafogo irão continuar rondando as últimas colocações do campeonato. Nada dá algum sinal de que as diretorias destes clubes terão comportamento diferente do que vêm tendo nos últimos anos.

A segunda virtude deste campeonato foi a queda do salto alto dos técnicos professores doutores. A vitória de Andrade sobre Luxemburgo ou Muricy, lavou a alma de quem se enoja com a prepotência e arrogância que imperam neste meio. Há séculos que Tostão vem sustentando que, principalmente a imprensa, dá, aos técnicos, muito mais importância do que eles efetivamente têm.

Do meu lado, vou continuar vendo futebol com os olhos nostálgicos e melancólicos. Nostalgia de um tempo em que jogar bola era uma forma de fazer arte. Afinal, para um são-paulino que teve a oportunidade de ver jogar Roberto Dias, Pedro Rocha ou Dario Pereyra, dói, mortalmente, ver seu time depender de gols do Washington. A melancolia fica por conta da convicção de que isso não volta mais. Vou continuar achando o jogo bonito mais importante do que o jogo vencido e, como 2010 será ano de copa, tenho certeza que, mesmo que a seleção brasileira vença, vou continuar preferindo a de 82, a que mais me emocionou.

E por absoluta falta de talento para falar mais sobre o assunto, fica este samba de Moacyr Luz e Paulo César Pinheiro, que talento têm de sobra:









Samba bom de bola - Moacyr Luz


Fazer samba é que nem jogar bola
Na rua, no campo ou no quintal
Tem que ter malícia, jogo de cintura,
Ginga, malandragem e coisa e tal
Um bom samba é que nem um gol feito
Depois dos noventa e na final
Com a mão do juiz encerrando a partida
Pro grande delírio da geral

Um samba bom é que nem o Pelé dando lençol
É que nem o Brasil consagrado penta campeão de futebol

Jogar bola é que nem fazer samba
É que nem batucar feito o Marçal
Tem que ter cadência, ter letra bonita,
Encarando o Noel no pau-a-pau
Um bom jogo é que nem escutar
O Cartola, o Ismael e o Dorival
Com a escola querida vencendo o desfile
Ganhando o troféu do carnaval

Um jogo bom é que nem o balanço do João
É que nem a batida do samba do Baden tocando violão.


E como samba bom é igual a gol bonito, sempre vale a pena ouvir de novo. Ei-lo cantado por dois craques:








Samba bom de bola - Teresa Cristina e Junior






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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Balanço oportuno – Governo Lula

Incomoda uma atual dicotomia a respeito do presidente Lula. Há os que o idolatram e creditam a ele tudo o que de bom tem acontecido ao país, isentando-o de qualquer mal. Já àqueles que o criticam sem critério, os aspectos positivos de nossa vida devem-se exclusivamente aos humores do mercado, aos fenômenos da natureza ou aos desígnios divinos e, todos os malefícios debitam-se da conta de seu governo ou sua forma de governar.

Havemos de ser justos. Ou se credita a ele tudo de bom e tudo de mal que nos ocorre ou acreditamos que o nosso mundo é uma bola que anda sozinha, acertando o gol, a trave ou sumindo pela linha de fundo, sem que ninguém a direcione. Quisera eu viver num mundo em que esta segunda opção fosse possível. Seria bom que nosso país fosse sólido o suficiente para voar imune às turbulências ou aos humores do piloto. Não é. Talvez, nenhum seja. Rendo-me, então, a reconhecer sua responsabilidade em muito do que se passa de positivo no Brasil, assim, como lhe impinjo as culpas de parte do que anda mal em nossa nação. Prefiro assim. Quero reconhecer seus méritos sem idolatrá-lo, já que abomino ídolos, e quero poder criticá-lo sem cair na armadilha do preconceito. Uma e outra coisa são o que mais se vê por aqui.

Quem critica Lula é, basicamente, a classe média. A população mais pobre percebeu uma sensível melhora em seu padrão de vida e associa essa melhora ao governo. Se essa associação é pertinente ou não, pouco importa. A classe dominante tem levado a sua vidinha como sempre levou. Banqueiros, megaempresários, grandes empreiteiros, estão todos numa situação muito confortável, nada mudou. Lula se elegeria muito facilmente, caso pudesse ser candidato, hoje. Afinal, agrada a classe pobre e não desagrada a classe dominante.

A temporada eleitoral já se inaugurou há tempos e anda a todo vapor. Lula emplacou Dilma dentro do partido e Serra conseguiu vencer, meio na marra, é verdade, as principais resistências entre os tucanos. Será uma disputa ferrenha. Dilma tende a crescer mais e virar gente grande. Deve brigar pau a pau com Serra. Marina e Ciro devem continuar insignificantes.

Há grande diferença entre Dilma e Serra, mas há grandes semelhanças entre eles, também. Aliás, as semelhanças entre Dilma e Serra são maiores que as semelhanças entre cada um deles e seus respectivos aliados. O mais natural seria Dilma e Serra estarem na mesma trincheira e do outro lado do campo de batalha, na outra trincheira, o PMDB estar ao lado dos Demos. Os tipos de farinha estariam mais bem acomodados dentro de cada saco. Já foi assim, no passado. Faz tempo que não é mais. Já passamos desta fase.

De toda forma, não vai ser tão fácil eleger Dilma. Afinal, a candidata não tem o prestígio que o Presidente goza em relação à classe pobre. Também não tem a confiança que Lula conquistou junto à classe dominante. Aliás, uma confiança que a classe rica não deposita em Serra. Talvez confiem menos nele do que na candidata governista. Com isso, na eleição de 2010 a classe média pode ter um papel mais importante. Quem souber tratá-la com perspicácia, pode se dar bem.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Motivos para assistir Julie & Julia

O título deste post não é o que parece ser. Não, eu não estou tentando convencer ninguém a assistir este filme. Cinema é uma coisa muito séria pra gente ficar indicando para os outros. Ao que se refere o título são os meus motivos para assisti-lo.

O principal deles é que se trata de uma comédia romântica. E eu, tenho que confessar, gosto de comédias românticas. Sei que, em geral, são fúteis, idiotas e previsíveis. Pois quanto mais fútil, mais idiota, mais previsível, mais eu gosto. Não tem uma justificativa, não tem perdão. É uma falha de caráter, eu sei, entre tantas outras.

A diretora é Nora Ephron, craque neste tipo de filme. São dela Sintonia de amor, Mens@gem para você e A Feiticeira, entre outras bobagens, algumas deliciosas. Conta, como protagonistas, com Meryl Streep e Amy Adams.

Devo confessar que tenho alguma má vontade com Meryl Streep. Sei que ela já ganhou 2 Oscars e foi indicada uma dúzia de vezes. Mas tenho má vontade com ela. Acho-a exagerada, quase sempre. Achei isso em O Diabo Veste Prada e em Terapia do Amor, por exemplo. O único papel em que gostei de sua atuação foi em As Pontes de Madson. Provavelmente, sua atuação foi ótima em outros filmes, talvez em todos. Continuo com má vontade. O problema não é ela, sou eu.

Aqui, achei-a absolutamente caricata, interpretando Julia Child. Isso me incomodou durante toda a exibição e esse sentimento só passou quando cheguei em casa e, procurando no YouTube, encontrei filmes da verdadeira Julia. Pude perceber, então, quão perfeita foi a caracterização feita pela atriz. Admirável!

Amy Adams está se transformando na nova namoradinha da América. Fez pouco mais que uma dúzia de filmes bobinhos, dos quais assisti dois ou três, incluindo o inacreditavelmente idiota Encantada, que vi no avião, indo ou voltando da Alemanha, dublado em português. Uma bobagem de dar medo.

Julie & Julia tem ainda, num papel coadjuvante, o ator Stanley Tucci, um dos meus preferidos.

Saí do cinema feliz. Há muita coisa que me agradou no filme. Ele fala de blogs e de gastronomia, dois assuntos que me interessam e me divertem; a trilha sonora é discreta e interessante; a caracterização de época bem feita. E, como se tudo isso não bastasse, Amy Adams é uma gracinha.
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domingo, 6 de dezembro de 2009

Pornografia

Moacyr Scliar é um grande contador de histórias. Já disse isso, aqui, quando escrevi sobre o livro Os Vendilhões do Templo em que, assim como em A Mulher que Escreveu a Bíblia, ele se utilizou de uma temática religiosa para criar sua narrativa. E isso aconteceu novamente agora, em seu mais recente livro, Manual da Paixão Solitária. Apesar de muito bem escrito, o livro não me empolgou. Talvez essa repetição da temática seja o que tenha tirado um pouco minha empolgação com este seu novo texto. Ou, então, a inserção do componente erótico, quase pornográfico, que domina a narrativa. Outro autor que admiro, mais pelas crônicas do que pelos romances, o João Ubaldo Ribeiro, publicou A Casa dos Budas Ditosos, recheado de pornografia. Também achei o livro ruim. Muito pior que este de Scliar.

Não tenho nada, a princípio, contra a pornografia. Posso até gostar dela, contando que alimente minha imaginação e conduza a um erotismo que, realmente, me excite sexualmente. Isto nem sempre é muito fácil. A pornografia, pra funcionar, tem que mexer com a mente, tem que criar um imaginário instigante, que nos leve a sonhar um sonho que pareça minimamente factível, uma situação possível. E é aí que as várias formas de expressão podem ter maior ou menor chance de lograr sucesso.

A literatura tem um poder muito maior de incitar a imaginação do que o cinema. No cinema, a coisa já vem pronta, construída, escolhida. Na literatura, quem faz as escolhas é o leitor. Por mais que o texto seja explícito, detalhado, sempre sobra espaço pra criação de imagens, paisagens e tons. No cinema as cores estão prontas. Por isso, a um filme, só resta a opção de tentar mostrar alguma coisa que esteja escondida por detrás das imagens. Acaba sendo a antítese dos livros.

Por isso, o que mais me cala fundo, em termos de erotismo, ou mesmo de pornografia, são as narrativas, muito mais do que as imagens. Os filmes pornográficos, aliás, de forma geral e, sobretudo, os mais novos, pecam pela total falta de imaginação, com suas seqüências padronizadas do tipo chupa-é chupado-mete-goza na boca. É sempre a mesma coisa. Sempre. Sem falar na inaturalidade das posições, acrobáticas quase sempre, em sua tarefa de mostrar pra câmera, os ângulos e os detalhes que não deveriam aparecer. Não seria necessário, na verdade.

Sou do tempo em que as revistas masculinas sonegavam tudo. Nem sequer um mamilo era liberado, que dirá um chumaço de pelos pubianos. Hoje, vê-se mais que em consulta ao ginecologista (parafraseando Aldir Blanc). Pelos pubianos continua-se a não ver, pois já não os há (o que fizeram com os pelos pubianos?). Com tanta sonegação de imagens, o exercício da erotização ficava por conta da nossa criatividade. E como sou de uma geração que chegou a ter acesso aos últimos catecismos de Carlos Zéfiro, fica bem claro que mais do que os traços toscos de mulheres nuas e falos desproporcionais, o que levava os jovens às nuvens, eram as histórias contidos naqueles quadrinhos.

Com tudo isso, uma narrativa erótica ou mesmo pornográfica, produzida por um competentíssimo contador de histórias deveria sempre levar ao ápice da excitação sexual. Nem sempre isso dá certo, descobri.