Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Debate

Eu poderia dizer que fiquei em dúvida entre assistir ao debate com os candidatos a presidência da república, realizado pela Rede Bandeirantes e assistir ao jogo São Paulo e Internacional, mas isso não seria verdade. Não tive dúvida nenhuma em optar pelo debate, durante todo o tempo. Do jogo, vi trechos, aproveitando os intervalos.

Mais do que alguma esperança de grandes emoções, o que me motivou a assisti-lo foi a expectativa de escrever, aqui, sobre ele. Sei que, fosse qual fosse o resultado, a maioria dos blogs de quem é partidário de Dilma ou de Serra iria declarar que seu candidato teve expressiva vantagem, apresentando performance absolutamente superior, mesmo que um deles viesse a representar um retumbante fiasco. Eu, não sendo partidário de nenhum lado, por isso mesmo, me sinto muito à vontade, portanto, para expor minha opinião.

Achei patética a participação de Plínio de Arruda Sampaio, do PSOL, personagem pelo qual até tive certa simpatia no passado, quando, ainda pertencente ao PT, ele teve coragem de desmascarar algumas mazelas ocorridas dentro das entranhas do partido. No debate que acaba de terminar, sua participação foi digna de pena.

Marina Silva, do PV, apresenta-se com um discurso inconsistente e com uma proposta conciliatória que beira à ingenuidade. Por diversas vezes, parecia conclamar toda a nação a dar as mãos e caminhar unida, ricos e pobres, feios e belos, vascaínos e flamenguistas, em direção a um éden prometido.

Mas vamos ao que interessa, ou seja, o embate entre Dilma e Serra.

Iniciando o debate com muito nervosismo, gaguejando, demonstrando alguma insegurança, cheguei a ter a sensação de que Dilma iria desabar, principalmente ao notar o quanto Serra se apresentava com desenvoltura diante das câmeras. Embora eu não ache que essa questão seja significativa, dada a inexperiência da candidata em debates e ao traquejo do candidato, forjado em muitos anos no ofício de dar aulas, essa sensação poderia ter efeito sobre um eleitor que, porventura, supervalorize estas qualidades. Aos poucos, entretanto, Dilma foi assumindo o controle dos próprios nervos e, se não chegou a passar a imagem de alguém absolutamente confortável com a situação, conseguiu, ao menos, levar o debate a termo, sem deixar a maionese desandar. Contribuiu, para isso, a total falta de capacidade do tucano em aproveitar-se dos momentos iniciais de insegurança da candidata governista.

Como era de se esperar, não houve baixaria, já que este papel cabe ao vice da candidatura tucana, Indio da Costa e ao presidente do PT José Eduardo Dutra. A eles é que foi delegada a tarefa de baixar o porrete e o nível da campanha. Assim como também era de se esperar, o candidato da oposição procurou bater nos pontos fracos do governo Lula como a má gestão dos portos e se concentrou em se descolar da figura e do governo de Fernando Henrique Cardoso. Ao contrário, Dilma buscou, o tempo todo, associar-se ao governo Lula, do qual, de fato, foi importante integrante. Com muito menos ênfase, falou de seus planos de governo.

Com tudo isso, e com um regulamento que engessava a discussão e garantia certo conforto aos dois principais candidatos, o debate foi transcorrendo suavemente.

Alguns instantes pitorescos:

* No início do debate, tomada, ainda, por forte nervosismo, Dilma fez uma confusão danada com os nomes de alguns programas e serviços sociais e descreveu o SAMU como um serviço para transportar crianças. Serra, que teve a oportunidade de fazer a réplica, poderia tê-la corrigido, o que significaria uma vitória tática, naquele momento do embate. Não o fez, perdendo a chance que lhe caia no colo. Certamente, nem Dilma nem Serra jamais tiveram necessidade de utilizar os serviços do SAMU que, aliás, são bastante bons.

*Serra insistiu, inexplicavelmente, num problema envolvendo subsídios do governo federal às APAEs, uma questão que, embora possa ser importantíssima para algumas pessoas, não iria sensibilizar parte significativa do eleitorado. Perdeu tempo e espaço preciosos.

*Em suas considerações finais, Plínio de Arruda Sampaio, olhando fixamente para a câmera, conclamou os camponeses que o estavam assistindo naquele momento a atentarem para a diferença entre sua proposta e a de seus opositores. Nem imagina Plínio que, àquela hora, quase meia noite e meia, era muito mais fácil o São Paulo estar goleando o Internacional do que haver um único camponês ainda acordado.

*O momento mais patético, entretanto, mais patético ainda do que a participação de Plínio com suas orelhas de abano, foi o momento das considerações finais de Serra em que ele forçou a barra ao falar de sua origem humilde, de sua história de oposição ao regime militar, ao lembrar-se do pai, enfim, tudo isso para provocar um marejar nos olhos, ciente de que isso causa algum efeito em algum eleitor. Isso já é desespero de causa.

Enfim, todos salvaram-se. Tenho certeza que os blogs de amanhã vão cantar as suas vitórias e acho isso absolutamente natural. Eleição é assim mesmo. Mas nem que eu veja este debate outra vez (coisa que não farei nem ameaçado de morte), vou me convencer de que houve algum vencedor. Não. Pelo menos nesta noite, ninguém ganhou. Na verdade, ganhou o São Paulo, mas quem levou foi o Inter.

sábado, 3 de julho de 2010

A Copa do Mundo, ainda

O futebol brasileiro não foi eliminado da Copa do Mundo, pois o futebol brasileiro não foi à África do Sul. Eliminada foi a seleção do Dunga, a seleção da CBF, entidade da qual eu não reconheço a legitimidade.

Mesmo assim, eu torci pela seleção que estava lá, representando o Brasil, já que esta é, em mim, uma antiga falha de caráter. Torci, sabendo que ela não iria me dar prazer e, por isso mesmo, escolhi as seleções da Argentina e da Espanha para desempenharem este papel, como escrevi aqui, dias atrás. E se não tive nenhuma ilusão com a seleção do Dunga, os times da Espanha e da Argentina representaram duas desilusões.

A Espanha passou pelo Paraguai, graças a um árbitro trapalhão e a uma estratégia covarde, no início do jogo do time guarani. Sim, pois com poucos minutos de partida, ficou claro que a Espanha não era aquela fúria que se anunciara. Foi um time confuso e pouco assertivo. E o Paraguai, aparentemente, só percebeu isto aos 35 minutos do primeiro tempo. Ou então, percebeu antes e não teve coragem de encarar esta realidade. No final, acabou sendo castigado por apresentar postura excessivamente humilde.

A Argentina não fez nada diferente do que tinha feito desde o início da Copa. Apenas pegou, pela frente, um time que jogou mais bola do que ela. Jogou muito mais bola, aliás. E eu, que nunca fui um grande fã do futebol alemão, pragmático e objetivo, tive que reconhecer que pelo menos, o que eles apresentaram foi o futebol mais honesto com sua tradição. Sim, por que, o futebol da Alemanha, em geral, não é bonito, mas ninguém espera deles que isso aconteça. Os Alemães praticam um futebol direto e burocrático, desde sempre, e, com isso, já foram campeões 3 vezes. E, desta vez, jogando uma bola mais agressiva e mais rápida do que normalmente fazem, conseguiram envolver e massacrar a maioria dos adversários até agora. Se eu não estivesse escaldado pela temeridade que é fazer previsões, diria que fará o mesmo com o time da Espanha. Não direi nada, entretanto.

A honestidade que sobrou ao time da Alemanha faltou ao time da seleção da CBF. E não é a primeira vez que isso acontece. Há tempos que o Brasil vem sendo traído por um modo de jogar futebol que não tem absolutamente nenhuma identidade com sua tradição. Um modo de tratar a bola que despreza o drible, a malícia, a alegria.

Além de honesta, a comissão técnica da Alemanha teve a coragem que faltou a Dunga. Coragem de barrar alguns veteranos que se julgavam donos da equipe e convocar jovens de 21 anos para atuarem como titulares. Enquanto isso, Dunga desprezou uma dádiva que a natureza lhe oferecia e deixou de fora jogadores valorosos como Ganso e Neymar.

Erro parecido com esse foi cometido também por Maradona, embora no sentido inverso, ao deixar de convocar jogadores experientes como Zanetti e Cambiasso. Acreditou que ter talento de sobra no ataque seria suficiente para alcançar o sucesso. Não foi. Mas as semelhanças entre Dunga e Maradona terminam por aí, já que em todos os outros aspectos o técnico portenho venceu, de lavada, o gaúcho. Quando vimos um Dunga rancoroso e amargurado, víamos um Maradona espirituoso e divertido. À beira do campo, um tinha raiva e o outro tinha ganas de vitória. E, o mais importante, no momento mais difícil para os dois times, no momento da derrota, o comportamento dos dois técnicos não poderia ter sido mais distante. Ao final de cada partida, enquanto o técnico Argentino entrava no campo para abraçar todos os seus jogadores, o brasileiro deu as costas a eles e fugiu pro vestiário antes de todo mundo.

Se, numa comparação entre Dunga e Maradona sempre sobrou talento pro lado Argentino, este episódio mostrou que no quesito da coragem e hombridade, o técnico brasileiro também perde de goleada. Maradona sempre foi um deus em sua terra e, mesmo assim, teve coragem de aventurar-se numa empreitada arriscada. Se eu conheço o povo argentino, ele vai continuar valorizando seu grande ídolo.

Dunga nunca foi nada e continuará a ser desprezível. Se eu conheço o nosso povo, ele será esquecido em pouquíssimo tempo. E é isso o que ele merece.

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quinta-feira, 1 de julho de 2010

O vôo raso dos tucanos

A campanha do PSDB à presidência da república, depois da fase atabalhoada, está entrando na fase melancólica cujo fato mais emblemático foi a escolha do candidato a vice na chapa de José Serra. Mais correto seria dizer a falta de escolha, já que não pululam nomes dispostos a embarcar num barco furado como este, aparentemente, nem no DEM e muito menos no PSDB.

A próxima fase será a do desespero, da agressividade rasgada, dos golpes baixos. É uma estratégia típica, porém, ultrapassada, já que, felizmente, tudo indica que este tipo de estratagema não seduz mais a sociedade. Deu certo no passado, quando foi utilizada por Collor contra Lula, no caso Miriam Cordeiro-Luriam, mas deu errado nas últimas eleições municipais em São Paulo, quando Marta Suplicy tentou alavancar sua candidatura na “solteirice” de Gilberto Kassab. Não funcionou, pois, aparentemente, o eleitorado adquiriu maturidade suficiente para não cair neste tipo de armadilha. Torço para que seja isso. Torço para que, realmente, o eleitorado esteja mais maduro, este eleitorado que votou em Lula, mas que também já elegeu Fernando Henrique Cardoso e Fernando Collor.

Voltando à campanha atual, a escolha de Álvaro Dias para vice de Serra teria sido absolutamente equivocada, já que ele é um nome que não conta com apoio dentro do partido. A solução, entretanto, não podia ser pior, ou seja, a escolha de um nome obscuro do DEM. Mas afinal, qual político do DEM não apresenta um perfil obscuro?

Este partido, não devemos esquecer, é aquele que já foi PFL, oriundo do PDS, originado na velha ARENA. É o partido mais identificado com o regime instaurado pela ditadura militar que reinou neste país nas décadas de 1960 e 70. Este partido reúne o que há de mais retrógrado na representação política brasileira. É um partido que, aliás, não soube ser oposição nestes anos de governo Lula. Sim, este partido, o DEM, não sabe ser oposição. Comparado a seus quadros, só encontramos paridade em alguns nomes do PMDB que estão aliados ao governo Lula, como José Sarney ou Renan Calheiros, que também têm grande dificuldade de ocupar uma posição oposicionista.

As apostas dos tucanos, agora, irão se voltar ao programa eleitoral gratuito da TV, confiantes nos milagres que os marqueteiros de plantão poderão operar. Ocorre que o outro lado também conhece os poderes destes marqueteiros, já experimentou seus truques e tirou proveito de seus resultados. Se fosse depender disso, haveria empate.

Além do mais, a penetração da TV aberta é muito menor do que foi no passado, já que a classe média, responsável por 53% do eleitorado, tem hoje, em sua maioria, algum plano de TV paga. Será natural mudar o canal da TV no momento do programa eleitoral. Aos que permanecerem sintonizados no canal aberto, será oferecido o mais baixo nível de debate político que nossos candidatos são capazes de produzir. Pode ser que seja até divertido, mas, certamente, não será nem um pouco instrutivo.
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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Elogio à liberdade

Dentre todos os personagens dos livros de Jorge Amado, Quincas Berro d’Água é aquele que mais me convida a refletir sobre a liberdade. Não falo da liberdade coletiva, a liberdade de um povo oprimido por nenhuma ditadura sangrenta ou burocrática. Falo da liberdade individual, aquela mais egoísta possível, a que cada um de nós, intimamente, se não a busca, sonha com ela.

A gente passa a vida toda se adequando, tentando se encaixar num mundo que nos acolha, que nos aceite, que nos trate bem. E nessa tentativa, acabamos correndo o risco de nos anularmos, de ceder tanto, que passamos a ser parte de um processo automático, engrenagem de uma máquina velha e ultrapassada. Fazemos isso quando aceitamos, de bom grado, tudo aquilo que se nos oferece, sem questionamentos, sem crítica. É o lazer estereotipado que nos impinge a televisão, o consumismo ao qual nos condena o mercado, a vida tacanha que, por vezes, aceitamos, em troca de uma ilusória sensação de segurança ou conforto.

Quantos de nós não sonha em romper as barreiras da comodidade e se aventurar num mundo desconhecido, como fazíamos quando éramos crianças. Uma vida livre, repleta de perigos e satisfações plenas, como as tardes de ócio e os amores proibidos.

Tudo isso me veio à mente, ontem, assistindo ao filme de Sérgio Machado, Quincas Berro d’Água. Um personagem que encarou a liberdade de forma radical, com a fuga das amarras da vida social e da família, o mergulho na cachaça, a vida em meio à putaria. O que pode mais querer uma pessoa sã?

O filme traz uma trinca de atores excepcional. Paulo José, no papel do protagonista, consegue dar vida ao morto, desempenhando a função sem nunca abrir os olhos. Sua voz permeia a narrativa o tempo todo, num compasso dolente, mas feliz, ao mesmo tempo. Consegue passar a sensação de uma vida vivida em estado de verdadeira alegria, numa Bahia real, sem ter de apelar pra nenhum sotaque forçado, gaúcho que é.

Marieta Severo está impecável, o que já é um lugar comum. Não tenho dúvidas que é, hoje, a mais competente atriz brasileira.

E, completando a trinca, uma atriz pela qual nunca tive qualquer interesse, Mariana Ximenes exibe uma surpreendente expressividade e está insuportavelmente bonita no papel. Durante o filme todo, transpira sensualidade, sem uma cena, sequer, de nudez.

A história contida em A Morte e a morte de Quincas Berro d’Água é um alerta para que todos nós questionemos o rumo que estamos dando às nossas vidas, um aviso dos riscos que corremos de sermos condenados à infelicidade, um elogio à liberdade.
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sexta-feira, 18 de junho de 2010

José Saramago

Fui ler Saramago pela primeira vez quando ele já tinha escrito muitos livros. E foi O Evangelho segundo Jesus Cristo, o primeiro que me arrebatou. Escrito por um ateu convicto, foi fácil me identificar com ele. Sua narrativa, sem pontuação, embora me tenha parecido difícil, no começo, depois de 15 ou 20 páginas, me pareceu a coisa mais natural do mundo. Mergulhei naquelas páginas que mostravam um Cristo humano, sem divindade, muito mais crível. E eu que não creio no Cristo divino, passei a crer no Cristo homem.

Depois foi Ensaio sobre a Cegueira que me absorveu. Eu o li de um fôlego só, absorto, angustiado. Que delícia ler algo que te consome, que te prende, que te estimula a ficar refletindo o tempo todo.

Do terceiro, A Caverna, não gostei tanto. Talvez estivesse num grau de exigência muito grande, expectativa criada pelos dois anteriores. Pensando naquele livro, agora, lembro-me que, apesar da aparente falta de entusiasmo, ele também me prendeu a suas páginas. Memorial do Convento, li o começo e não prossegui, sem desistir, postergando a leitura. Nunca mais li nada dele. Tenho a estante com alguns livros seus, ainda virgens pra mim.

E agora Saramago está morto. A morte que ele tratou através de suas intermitências num livro que faz parte da virgindade da minha estante. Morreu o escritor que está entre os que eu mais admiro e que mais me proporcionaram prazer com a leitura. Um prazer genuino, um prazer emocionante. Mais que o escritor, admiro o pensador, o homem que teve a coragem de morrer ateu e comunista, numa época em que estas duas coisas estão fora de moda.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

Vai começar a copa

O pessoal da empresa em que eu trabalho vai assistir ao primeiro jogo do Brasil num boteco, comendo churrasco e enchendo a cara. Adoro churrasco e adoro encher a cara, mas não gosto de fazer isso enquanto assisto a um jogo de futebol. Umas moças bem bonitas estão insistindo para que eu vá, o que massageia o meu ego e me provoca uma enorme tentação, mas ninguém vai me ver assistindo ao jogo do Brasil ao lado de uma turba barulhenta, por mais que eu aprecie a companhia de moças bonitas.

Vou assistir ao jogo ao lado de meu pai, que é um sujeito que assiste futebol do mesmo jeito que eu: em absoluto silêncio. É que achamos futebol um assunto demasiado sério pra ficar tratando a coisa na base da brincadeira. Os festeiros que me perdoem, entendo completamente suas motivações, mas futebol é coisa que eu gosto de ver absolutamente concentrado.

Nunca consegui torcer contra o Brasil (nem nunca quis), mas confesso que não nutro muita esperança que esta seleção me proporcione algum prazer. Por isso, vou torcer pelo Brasil e vou saciar minha vontade de ver jogos espetaculares quando estiverem em campo os times da Argentina ou da Espanha. Desta maneira, terei dois tipos de satisfação.

Copa do mundo é um negó$$io que acontece a cada 4 anos e tem sido, nas últimas edições, sempre a mesma coisa. Ainda assim, me causa certo frisson quando começa a chegar a hora da bola rolar, bola, aliás, que tem sido vítima de críticas e elogios dos jogadores, dependendo da empresa de material esportivo com a qual tenham contrato. O que importa é que a mesma bola irá rolar para todos os times.

Tenho tido cada vez menos paciência com a cobertura jornalística da copa pelos grandes grupos de mídia. A babação de ovo e a rasgação de seda pra cima da CBF têm sido vergonhosas. O que mais me irritou, entretanto, foi ver alguns jornalistas comemorando a quebra do braço de Drogba, da Costa do Marfim, ou a contusão de Nani de Portugal. Torcer para um adversário se machucar antes do jogo é de uma covardia atroz.

Sobre esta cobertura, a única exceção, entre tudo que estou vendo é, como de costume, o trabalho da ESPN Brasil. Apesar do mau humor de José Trajano, que, às vezes, beira o chilique, sua equipe de profissionais é, de longe, a mais credenciada a dizer que faz verdadeiro jornalismo. Pessoas como Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, André Plihal ou Roberto Salim, entre muitos outros, em frente ou atrás das câmeras, produzem um trabalho de altíssima qualidade, que só aumenta o meu nível de prazer.

É isso aí. Chega de papo. Vai começar a Copa.

sábado, 5 de junho de 2010

Motivação e talento

Na juventude, cometi alguns poemas e outras tantas letras de música que fiz o favor de não mostrar a muita gente, livrando, assim, a humanidade, de experiência tão infeliz. Escrevi alguns contos, poucos, que minha autocensura não me permite mostrar a ninguém, nem mesmo à Clélia. Talvez, algum dia, mostre a ela, ao menos. Por enquanto, ainda não decidi se servem pra alguma coisa. Apesar da convicção da falta de qualidade dos versos e da incerteza em relação aos contos, fico insistindo em escrever. É como se fosse um vício incontrolável.

Minha dificuldade em escrever sempre encontrou desculpas e justificativas, sobretudo a falta de tempo, a mais comum de todas. Até que um dia, quando me mudei, sozinho, para o interior, deixando a família em São Paulo, durante um ano, antes que todos se mudassem pra cá. A partir desta perspectiva, a de ter, durante a semana, toda as noites livres e só, excitei-me com a expectativa de poder escrever como um louco. Não produzi uma linha. Mas vivi um ano inteiro atormentado, como se algo quisesse sair de mim, aprisionado.

Acabei encontrando espaço e motivo neste blog. Não sei bem qualificar isto que eu escrevo. Talvez sejam crônicas, talvez nem isso. Como falo freqüentemente sobre livros, filmes e discos, há quem diga que escrevo críticas. Não é isso. Não me sinto apto a criticar o trabalho dos outros. O que eu faço, na verdade, é me apropriar da obra alheia e fazê-la servir de mote pra que eu fale as coisas que habitam minha cabeça. O que importa é que este espaço acabou me proporcionando um certo sossego, uma tranqüilidade que eu não tinha antes.

Tudo isso pra falar do livro que estou lendo agora, por que escrevo?. Na verdade, foi como escrevo?, da mesma série, que comecei a ler. Acontece que o início da leitura de um remetia tantas vezes ao outro, que resolvi inverter a ordem e investigar o porquê, antes do como.

Organizado por José Domingos de Brito, o livro traz depoimentos, trechos de reportagens ou entrevistas, em que escritores renomados, do Brasil e do resto do mundo, tentam explicar o motivo que os levam a exercer esta atividade. O que os move, o que os motiva, sendo que nem sempre, pra não dizer quase nunca, conseguem chegar a uma resposta que os convença a eles próprios.

Ler estes depoimentos acabou me causando certo alívio, ao perceber que essa obsessão inexplicável não é exclusividade das almas desprovidas de talento.

sexta-feira, 4 de junho de 2010

As certezas e as desilusões

Dias atrás, escrevi um texto em que abordava a sucessão presidencial, passando a sensação que tenho de que não sinto tanta diferença entre escolher o candidato tucano ou a candidata do presidente Lula. Se pudesse, não votaria em nenhum deles, mas também não me animo com o discurso de Marina Silva, que aliás, nunca me despertou muito interesse. Votar em branco é uma alternativa que nunca considerei plausível, principalmente pra quem, como eu, sou de uma época em que votar era proibido.

Minha indecisão é absolutamente sincera. Por desinteresse, ignorância, ceticismo ou todos estes ingredientes juntos, não tenho uma predileção por qualquer um dos candidatos, até mesmo, porque não reconheço em nenhum deles um projeto consistente de governo para o Brasil. Considero, tanto o projeto petista quanto o tucano, como simples planos de detenção de poder e defesa de interesses de grupos restritos e oportunistas, como tem sido ao longo da história republicana do país.

Reconheço que não tenho tido disposição para buscar, nos jornais, informação que me oriente, mas por dois motivos acredito que esse interesse não vai se manifestar. Em primeiro lugar, os jornais não informam de maneira imparcial. Alguns até fingem, mas a maioria é escrachadamente partidária, pra um lado ou pra outro. O pouco que vejo e ouço, são manifestações de criticas pessoais, absolutamente hipócritas, em relação ao candidato adversário. Não tenho tanta paciência e reside aí a segunda razão para o meu descaso. Além de tudo isso, os marqueteiros de plantão já estão operando seus milagres e conseguiram sumir com as olheiras da Dilma e ensinaram o Serra a sorrir sem mostrar seus caninos de vampiro. Conseguiram transformar ambos em pessoas simpáticas, coisa que nunca foram, nenhum dos dois.

Outra alternativa, seria verificar ao lado de quem cada candidato caminha. Mas aí sim é que as coisas se confundem mais. Afinal, não dá pra confiar em quem anda de mãos dadas com Arthur Virgílio, José Sarney, Renan Calheiros ou Álvaro Dias.

A última chance seria olhar pros meus amigos, pessoas em quem confio e das quais não tenho nenhuma dúvida a respeito das intenções. E mesmo ali, encontro uma equânime divisão. Há quem penda para o Serra e quem clame pela Dilma. E enxergo neles, dos dois lados, uma espécie de cegueira que só se explica pela paixão. Uma paixão que faz com que se classifique Serra como o mais selvagem dos ultra-direitistas e Dilma como um gênio da gestão pública. Ou, então, que vejam Lula como um subdesenvolvido analfabeto e Fernando Henrique Cardoso como o maior estadista de todos os tempos.

Nada disso é verdade. Lula não é santo e Serra não suga o sangue de virgens desamparadas. Dilma nunca foi uma terrorista sanguinária e Fernando Henrique não é o ícone máximo do pensamento moderno mundial. Todos têm certos vícios e muitos pecados.

Por fim, minha filha, que vai votar em Dilma, não se conforma que eu tenha alguma dúvida. Mas isso eu consigo entender. Ela tem aquela certeza absoluta que acomete os jovens. Eu também já tive todas as certezas do mundo. Hoje, carrego muitas dúvidas e algumas desilusões.

sábado, 15 de maio de 2010

Maestria

Vez ou outra, invento de ler alguma biografia. Quando cismo em fazer isso, costumo escolher alguma personalidade pela qual eu tenha admiração e de quem eu busque mais informação. Foi assim com Garrincha, Assis Chateaubriant, Carmen Miranda ou Nelson Rodrigues. Todos, personagens que me suscitavam curiosidade. Todos, de quem eu sabia que sabia pouco. E, por causa disso foi que eu relutei em iniciar a leitura da biografia de Tom Jobim, escrita por Sérgio Cabral. Afinal, eu já li tanta coisa a respeito deste fundamental artista, já ouvi tanto as suas músicas, já me inteirei tanto a respeito da Bossa Nova, que achei que representaria certa perda de tempo, encarar suas mais de 500 páginas.

Eu me surpreendi, duplamente.

Primeiro, por que descobri que havia, sobre ele, meia dúzia de histórias desconhecidas completamente por mim, além de perceber que, ler as histórias já conhecidas, com começo, meio e fim e inseridas num contexto e ambiente mais claramente explicitados, é uma experiência muito mais prazerosa.

A outra surpresa, igualmente positiva, foi descobrir o lado biógrafo de Sérgio Cabral. Já li dezenas de reportagens suas, críticas, comentários, sempre envolvendo a cultura brasileira, sobretudo a nossa música, especialmente o samba. Nunca tinha, entretanto, lido um trabalho biográfico escrito por este jornalista. Gostei muito.

Ele não tem aquele estilo investigativo, de quem caça os segredos, esmiúça os detalhes, garimpa as histórias, como outros biógrafos como Ruy Castro ou Fernando Morais. Não mantém aquela distância solene e respeitosa do biografado, criando quase uma barreira entre eles. Não. Sérgio Cabral escreve de dentro da história. Escreve com a propriedade de quem conviveu com o objeto de seu estudo, seu personagem, seu ambiente, seu mundo. Isso dá ao texto um sabor diferente. Isso o exime de ter de comprovar, de checar, de cruzar informações. Faz o trabalho como se fosse mero exercício de relembrar momentos especiais, situações prazerosas.

Além de tudo isso, ler esta biografia só veio reforçar minha opinião de que, se Carmem Miranda foi a primeira a levar o mundo (e mais especificamente os Estados Unidos) a conhecer a música brasileira, foi Tom Jobim que fez com que os americanos e o mundo todo, passassem a respeitá-la como produto de qualidade superior. Tom Jobim é, sem sombra de dúvidas, um dos compositores brasileiros mais respeitados no mundo inteiro, não só pelos amantes da boa música mas, sobretudo, por aqueles que estão inseridos neste meio, que vivem dela, que fazem dela razão de viver.

É, sem dúvida, nosso maestro soberano.


segunda-feira, 3 de maio de 2010

Confissões futebolísticas

Confesso, eu que tenho deixado muito claro o quanto o futebol deixou de me encantar, há tempos, que voltei a sentir a fisgada da sedução vendo o time do Santos jogar, neste campeonato paulista.

Confesso que deixei de assistir a um jogo do meu time para ver um jogo do Santos, que passava no mesmo horário.

Confesso que cheguei a torcer a favor do Santos, num jogo contra o meu time, dada a infinita diferença estética entre o futebol exibido pelos dois.

Confesso que não havia visto nenhum jogo do Santo André e fui assistir ao primeiro jogo da final, imaginando que os meninos da Vila iriam golear o time do ABC.

Confesso que, no segundo jogo, depois de ver a trave tramar contra o time menor, a arbitragem favorecer o time maior e toda a mídia incensar o de maior torcida, no finalzinho do jogo, torci pelo Santo André.

O Santos foi campeão e, apesar das lambanças da arbitragem e da covardia do técnico, acho que foi merecido. Apesar do mau-caratismo e da imbecilidade que Robinho e Neymar, respectivamente, exibem fora de campo, mesmo assim, o Santos mereceu ser campeão. E mereceu, sobretudo, pela elegância de Paulo Henrique, o Ganso, este sim, um jogador que nem mesmo a cegueira de Dunga deveria impedir que fosse à África do Sul.