Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um montão de tranqueiras dentro de um baú aberto.

sábado, 17 de abril de 2010

Coisa Rara

Carne de vaca, arroz de festa, mato. São expressões que a gente usa para designar o que é raso, ordinário, não especial. Não necessariamente ruim, apenas, pouco especial. As coisas raras são as que me seduzem, mais ainda quando me surpreendem. É por isso que prefiro sempre um livro, um disco, um show, em que eu receba algo novo, algo que não esteja esperando. Sinto certo enfado, por exemplo, ao assistir a um show recheado de sucessos, ouvir um disco cheio de obviedades, ler autor que prime pela repetição.

Pra me excitar, além da sedução, só quando, além de raro, a coisa é especial. Há poucas coisas tão especiais quanto a música de Edu Lobo. É muito mais que raro, embora o seja, e muito. Mas é mais. A música de Edu Lobo é elegante, é requintada, é chique. E foi por isso que fiquei ansioso para ouvir seu novo disco, Tantas Marés, lançado depois de ... , quantos anos mesmo? Fui pesquisar em seu site. O último disco, de 2002, foi para a peça Cambaio, com músicas dele e de Chico Buarque, com muita gente boa cantando. Antes disso, em 1997, saiu Álbum de Teatro, uma compilação de músicas, também de Edu e Chico, feitas para peças teatrais e ballets. Voltando um pouco mais, o disco Meia Noite, excelente, com Edu cantando em todas as faixas, embora nenhuma canção fosse inédita. Disco de Edu Lobo, com músicas novas, o último foi Corrupião, de 1993. Há 17 anos! Tá aí a explicação pra minha ansiedade. A excitação veio logo em seguida, quando eu percebi que, das 12 faixas, a metade era de inéditas e com letra de Paulo César Pinheiro.

Há muito tempo não me sentia tão seduzido por um disco. Ouví-lo foi um êxtase.




Primeira Cantiga (Edu Lobo e Paulo César Pinheiro) Edu Lobo e Mônica Salmaso

domingo, 4 de abril de 2010

Política e futebol

Neste ano, teremos dois eventos muito importantes para nós, o povo brasileiro. 2010 é ano de Copa do Mundo e de eleições para presidente. São dois eventos, entretanto, que não me animam, justamente por que futebol e política são dois assuntos aos quais eu dou extrema importância.

Justamente por gostar muito de futebol, tenho certa cisma com a Copa do Mundo. Me incomoda essa cultura do ganhar a qualquer custo que o espírito desta competição impinge às nossas mentes. Essa coisa da garra e da disciplina tática em detrimento do prazer e da arte. Percebi isso aos 22 anos, quando vi jogar uma seleção que não venceu a disputa, mas encheu meus olhos de admiração. Depois de ver juntos, em campo, Sócrates, Zico, Júnior e Falcão, nunca mais tive o mesmo prazer em uma Copa do Mundo. Nenhuma outra seleção, vencedora ou não, depois daquela, me causou alguma emoção. Sei que sou diferente. Sei que sou como um ser extra-terrestre por gostar mais de futebol bem jogado do que de títulos de campeão. Fazer o que? Sou assim, simplesmente.

Gosto muito de política, também. Tenho extrema convicção de que é através dela que podemos construir um mundo melhor, mais justo, mais equilibrado. Abomino as formas de governo que suprimem a liberdade política com o argumento da governabilidade. Por isso mesmo, sou avesso às ditaduras, sejam elas de direita ou de esquerda.

Embora aprecie o jogo da política, o processo eleitoral é o que eu menos gosto, até porque vira um clima de campeonato, um processo de ganhar a qualquer custo, muito parecido com o da Copa do Mundo. Principalmente, nos últimos tempos, em que o marketing virou ciência, em que a imagem pasteurizada dos candidatos, com seus sorrisos super brancos, seus punhos cerrados, suas mangas arregaçadas, são mais eloqüentes que suas idéias ou seus planos de governo. Sem falar no posicionamento da mídia, tão tendenciosa, para um lado e para o outro.

Os jornais e revistas adotam posição de apoio e de crítica aos candidatos segundo suas convicções e interesses. Não vejo muito mal nisso. Ruim é quando os fatos são falseados, as informações manipuladas, os interesses escondidos. Revestida de sua tradicional pose, a Folha de São Paulo critica duramente o atual governo, tentando atingir Dilma. A Veja faz a mesma coisa. Não me oponho a que a imprensa critique, creio que é esta uma de suas principais funções. Estaria no papel dela, se não tratasse com tanto carinho o ex-governador de São Paulo, principal oponente da ex-ministra. Caminho inverso faz a revista Carta Capital, que bate em Serra como a sua polícia bate em bandido e releva qualquer deslize do governo federal.

Saindo da mídia mais poderosa e entrando nos blogs mais conhecidos, temos de um lado, Reinaldo Azevedo espinafrando Lula e a sua candidata e, do outro, Paulo Henrique Amorim tratando Serra como se fosse o maníaco do parque. Ambos, sem nenhuma preocupação em ser, minimamente, elegantes.

Somando-se a isso, o equilíbrio que as pesquisas estão mostrando (fica fora a última pesquisa do Vox Populi, vergonhosamente tendenciosa em seu método) indica que o embate será bem parelho e feio, como uma final entre Itália e França, decidida nos pênaltis.

Por mim, além da disputa não animar, ela também não incomoda, até porque não vejo tanta diferença assim entre os candidatos. Poderia ser muito pior. Poderia ser Alckmin ou Arthur Virgílio contra Marta Suplicy ou Mercadante. Poderia ser o DEM contra o PSOL. Poderia ser muito pior.

Serra e Dilma são, ambos, autoritários e antipáticos. Os marqueteiros de plantão irão se encarregar de torná-los mais palatáveis à massa que se informa pela televisão. Serra terá que se esmerar para não bater em Lula, que goza de popularidade inédita a um presidente em final de mandato. Dilma, por seu lado, terá que se manter agarrada a Lula e não largar mais até outubro, novembro. Essa é sua herança. Como se vê, disputa folgada só haveria se o candidato fosse o próprio Lula. Aliás, fosse ele o candidato, teria meu voto. Não sendo, minha escolha poderá ir para Dilma ou para Serra, tanto faz.

Gosto de Lula. Simpatizo com a pessoa e admiro o político. Simpatia e admiração que, entretanto, nunca foram suficientes para calar minhas eventuais críticas ao seu governo. O que tem me incomodado, nesses 8 anos de governo Lula, é, justamente, esse clima de torcida de futebol. Ou se critica tudo nele, ou trata-se o presidente como um santo. Nem uma coisa nem outra. E, se de um lado, ao elogiar o governo encontro pela frente uma turma preconceituosa que só enxerga em sua figura o nordestino de origem pobre e detestável (àqueles olhos), do outro, ao criticá-lo encontro outra turma, me patrulhando, como se isso fosse blasfêmia.

Pouco me importa quem vai vencer as eleições. Só uma coisa, porém, me alivia. Acho que vou poder falar mal do governo com um pouco mais de tranqüilidade. Afinal, o que pode ser mais prazeroso de se fazer na frente de uma cerveja gelada, num boteco bem imundo?

sábado, 3 de abril de 2010

O baianismo e os norte-americanos

O filme Coração Vagabundo, produzido por Paula Lavigne é, fundamentalmente, um meio de veiculação para o ego de Caetano Veloso. Tem lá seus encantos, como a fotografia bem cuidada e a trilha sonora, recheada de músicas cantadas por ele, sobretudo as do disco A foreign sound, o último do baiano de que eu gostei, com um repertório desigual de músicas norte-americanas em que mistura Cole Porter e Gershwin a Kurt Cobain e Bob Dylan. Eu preferiria que fossem apenas Standards de jazz e, sobretudo, que não tivesse bobagens como Diana ou Feelings, por exemplo.

Mas, voltando ao filme, a condução da câmera, pelas mãos do diretor Fernando Grostein Andrade, acaba sendo apenas um trabalho braçal, já que segue, fielmente, os passos de Caetano e acaba, por fim, servindo de palanque para que ele possa falar sobre seu assunto preferido, ou seja, ele mesmo.

Num determinado momento, logo no início, o compositor evoca seu baianismo e faz um paralelo entre a sua importância no cenário da música brasileira e a dos, também baianos, Dorival Caymmi e João Gilberto. Achei isso interessante e, ao longo do filme, enquanto Caetano destilava sua verve, eu fiquei pensando no assunto. De fato, penso que os três tiveram uma participação decisiva, revolucionária, até, na nossa música. Três baianos, em diferentes momentos da história, com João Gilberto recebendo influência de Caymmi e Caetano sendo o que não seria, caso não tivesse existido os outros dois.

Além dos três terem vindo da Bahia e se colocado, de forma categórica, no cenário musical brasileiro, dominado sempre pelo eixo Rio-São Paulo, estes artistas estabeleceram, cada um ao seu modo, uma relação com a música dos Estados Unidos.

Caymmi, dos três, o que interagiu menos com os norte-americanos, talvez seja o único a inserir uma marca, por conta da música O que é que a baiana tem, cantada por Carmem Miranda, e que acabou dando o tom do que seria a imagem do Brasil no imaginário daquele país.

João Gilberto morou quase 20 anos nos Estados Unidos numa relação simbiótica, quase parasitária, cujo objetivo sempre foi usufruir das benesses daquele mercado. Estabeleceu-se em solo americano sem, no entanto, integrar-se àquela sociedade. Diz-se, talvez com alguma má fé, que nunca aprendeu a falar inglês com fluência.

A relação de Caetano com os Estados Unidos é de exagerada admiração. Isso fica claro no filme e já é bem conhecido de quem acompanha sua carreira e tem ouvido o que ele fala sobre o assunto. A mim, incomoda um pouco essa quase submissão, essa assunção da condição de colonizado, de subdesenvolvido. Caetano lida bem com essa convicção de atraso que ele tem, da nossa sociedade, em relação à da América do Norte. O que me espanta não é isso, mas, sim, que essa convicção se estenda, também, à nossa música, que ele considera menor, comparada à do norte do continente. Gosto muito de certo tipo de música americana, muito provavelmente diferente do tipo de música americana que encanta Caetano. Mas isso não tem importância. Isso é questão de gosto.

Sobre essa questão, aliás, fico mais na linha do que compôs um baiano que veio antes de Caymmi e que foi cantado por baianos que vieram depois de Caetano.




Brasil Pandeiro (Assis Valente) – Novos Baianos

sábado, 20 de março de 2010

Amor e posse

Perder alguma coisa material tem a sua dor. É uma dor amena, ao menos pra mim. Já passei por isso algumas vezes. Certa vez, esqueci um livro numa sala de espera de dentista. A dor foi mais pelo que deixei de ler e pela ruptura da continuidade do prazer que já experimentara, do que pelo valor do livro, propriamente dito. Curiosamente, vim a comprar um outro exemplar dele, algum tempo depois, mas nunca retomei sua leitura. Ficou, mesmo, como uma perda.

Certa vez, emprestei um disco a um amigo e não mais o reouve devido a uma dupla amnésia, a do amigo que deve tê-lo colocado em sua estante por descuido e a minha, que não me lembrei qual foi o amigo contemplado pelo empréstimo sem volta. A dor, neste caso, foi amenizada pela certeza que o bom amigo passou a regozijar-se com boa música, já que, assim como só tenho bons amigos, sempre só tive bons discos.

A dor maior, a mais pungente, é a perda de algo que nos falte ao sentimento, algo pelo que sintamos carinho, algo pelo qual sintamos amor. Algo que tenha uma história, construida ao longo de muitos anos. Aí, a sensação é maior do que a de perda. A sensação é a de vazio, um vazio que parece que nunca mais vai ser ocupado novamente. Talvez o tempo amenize essa dor.

quinta-feira, 18 de março de 2010

O Rio e o choro

Nada pior do que viver mal informado. E confesso, ultimamente, ando com tanta preguiça que pouco interesse tenho tido nos assuntos que pululam nos nossos dias. Mas eis que, de repente, sou tomado de assalto por essa pendenga a respeito dos royalties do pré-sal, envolvendo os estados do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todo mundo falando, manifestações nas ruas do Rio, o governador Sérgio Cabral ora chorando ora indignado. Podia tentar me informar, ler como um louco a respeito do assunto, mas a preguiça me cria barreiras, ata minhas pernas, embota meus olhos. E aí, quando não se tem informação suficiente, só há duas ferramentas pra encarar a questão. Uma é usar a intuição e a segunda é dar uma olhada em quais são as pessoas que estão defendendo um lado e outro.
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A primeira opção é a mais perigosa, já que a intuição pode trair a gente, danada que ela é. Além do mais, a intuição sempre funciona melhor quando está acompanhada de fortes convicções a respeito de todas as coisas. E nesse aspecto, admito, ando meio fraquinho. Se ainda fosse no tempo dos meus 30 anos, quando eu tinha as certezas mais absolutas a respeito de tudo, mas hoje, beirando os 50, não tenho certeza de nada. Virei, de novo, aprendiz. Só que aprendiz preguiçoso, que é o pior tipo que pode existir.
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De qualquer maneira, meu sentimento vai na direção de achar que não é pelo fato de uma riqueza ser produzida numa determinada região que as pessoas das outras partes do país não devam usufruir dela. Tenho essa mania meio antiquada de crer que a riqueza deve ser dividida com todo mundo. Mania fora de moda, reconheço. Mas se for só pela intuição e pelo sentimento, absolutamente desprovido de informação e sem nenhum saco de pensar muito no assunto, minha tendência é a de achar que os lucros da exploração do petróleo não devem ficar concentrados somente nas regiões produtoras.
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Sei que isso é pouco pra segurar qualquer discussão, embora não esteja nos meus planos discutir esse assunto com ninguém. Estou, sinceramente, pouco me lixando pra o tema. Mas, mesmo assim, reconheço que meus argumentos são fracos.
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Resta, portanto, a segunda opção. Resolvo, então, prestar atenção em quem é que está esbravejando contra a emenda do Ibsen Pinheiro e vejo, de cara, o Arnaldo Jabor e o Reinaldo Azevedo. Isso não deveria bastar, mas acabou bastando.
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Assim sendo, munido do que consegui formular utilizando estas duas precárias ferramentas, tendo a concluir que a riqueza deva ser distribuída de maneira mais igualitária entre todos, preservando o direito das regiões produtoras de terem seus custos cobertos. É uma conclusão bem simplista, simplória até, bem sei. Mas, como já deixei claro, não tenho nenhuma intenção de descer tão profundamente nesta questão quanto as profundezas do pré-sal. É só intuição. Intuição e faro.

terça-feira, 16 de março de 2010

Bar do Cação

Continuando a singela participação no Comida Di Buteco em Campinas, antes que o evento acabe, fomos ao bar do Cação comer o camarão empanado. Talvez por excesso de expectativa, acabei ficando um tanto decepcionado com a iguaria. O camarão é enorme, não há como negar, mas, talvez, até por isso mesmo, não é nenhum espetáculo. Mas também não é ruim, levou uma nota 8. Mais que o 6 que eu dei pra coxinha e menos do que o 9 que o joelho de porco mereceu.

Espetéculo, mesmo é o chopp Brahma, meu preferido, de longe. Estava no ponto ideal, temperatura perfeita, cremosidade criminosa. Um néctar.
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O bar me pareceu bem honesto e o cardápio bastante instigante. Tem muita coisa interessante. Só não tem cação.
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Devemos voltar lá pra provar algum dos escondidinhos.

domingo, 14 de março de 2010

Lá do Paraná

São Paulo e Rio de Janeiro nos impõem uma hegemonia cruel na área da música popular. Embora a Bahia tenha gerado tantos talentos, de João Gilberto aos Novos Baianos, passando pelos antigos, os Doces Bárbaros, esses talentos, todos, só foram mostrados ao Brasil depois que migraram para o eixo Rio-São Paulo. E isso se repete, ali e acolá, com artistas de todos os cantos. Essa hegemonia, forçada pelo poder econômico, acaba nos impedindo de ver, ouvir e conhecer muita gente boa, de talento, que não tem oportunidade de se mostrar ou não tem assim tanta fome de fama.

Por tudo isso, me encho de alegria quando descubro algum artista novo ou, ao menos, que eu não conhecia. Foi o caso de Rogéria Holtz que, apesar de paulista, radicou-se no Paraná e lá, vem tentando firmar uma carreira. E em seu segundo disco, No país de Alice, resolveu cantar parte da obra de Alice Ruiz, outra paranaense de quem, aliás, já falei aqui no blog.

Há, no disco, parcerias de Alice Ruiz com Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Zeca Baleiro, Zé Miguel Wisnik e Alzira Espíndola, entre outros. Este amplo espectro de compositores possibilita percebermos que a cantora detém considerável versatilidade. O acompanhamento prima pelo básico, guitarra, baixo e bateria, eventualmente um teclado, sem invencionices.

A voz de Rogéria Holtz é grave, lembrando, às vezes, a de Zélia Duncan, de quem também me agrada muito o timbre. E como Alice tem esta fauna diversa de parceiros, o disco é também bastante diversificado, embora ao longo das faixas o que impera são as baladas de levada bem pop, umas mais leves, outras mais ligeiras. Não é, definitivamente, meu tipo predileto de música, mas não posso negar que causa certo prazer ficar a ouvi-lo. Não há uma faixa espetacular, mas, no todo, o disco encaixa muito bem.



Virtual (Alice Ruiz – Zé Miguel Wisnik)

sábado, 6 de março de 2010

Comida di buteco em Campinas

Iniciou ontem o Comida di Buteco em Campinas. Este evento, originado em Belo Horizonte, onde acontece há dez anos, começou com uma idéia simples, a de eleger a melhor comida servida entre os incontáveis botecos da capital mineira. A idéia fez sucesso, virou evento e acabou sendo exportada para outras cidades. Ganhou site, organização e regras. Tenho um certo pé atrás quando se colocam muitas regras em manifestações naturais e como boteco é um assunto muito sério, fico,então, com os dois pés atrás. Tenho medo quando as coisas viram moda e boteco, definitivamemte, não combina com modismos. Boteco é lugar pra encontrar os amigos de verdade ou pra ir sozinho curtir dor de cotovelo. É lugar pra apreciar mulher bonita e pra falar mal do governo. É, enfim, lugar pra lamber os beiços e encher a cara, sem ter que se preocupar se está fazendo bonito ou feio. Boteco é o último reduto do homem livre.

De qualquer maneira, o concurso, em Campinas, já começou e vai durar 2 semanas. 20 botecos participam e eu não sei qual foi o critério para a seleção, mas me parece inacreditável que o City Bar, meu preferido, não esteja na lista. A relação deles, com os petiscos concorrentes, pode ser encontrada no site do evento.

Como não preciso de um motivo pra ir a um boteco, com motivo foi mais fácil ainda. Provavelmente, não irei a todos, nestes quinze dias, mas já fui em dois deles, um ontem e outro hoje. Não conhecia, ainda, nenhum dos dois.

Por estar bem perto de casa, fomos, ontem, ao Bar da Coxinha. O lugar me decepcionou. Ostentando este nome, o mínimo que eu esperava era que o acepipe principal da casa fosse irrepreensível. Achei abaixo da média e nem acho que uma coxinha mediana precise ser espetacular. O recheio estava bom, mas a massa era molenga e a fritura encharcada. Quem é do ramo saberia como trazer esta iguaria bem sequinha à nossa mesa. Um lugar aprazível, bem boteco de bairro, onde as pessoas podem ir a pé tomar uma cerveja honesta, mas deveria, obrigatoriamente, oferecer uma coxinha de primeira, ou mudar o nome.

Hoje, fomos ao Rei do Joelho. Ao chegar, já simpatizei com a casa: é a minha cara. Abrindo o cardápio, um texto do amigo Bruno Ribeiro, tecendo loas ao local, me deixou ainda mais animado. Pedimos o joelho à pururuca. O que comemos foi bem melhor do que imaginava. Já comi muito joelho de porco, nas nossas terras e em terras alheias. Arrisco-me a dizer que este seja o melhor entre os que já digeri. A salada de batata que o acompanha é fundamental. A mostarda utilizada mostra que o responsável pela cozinha sabe bem o que está fazendo. Até o azeite que a Clélia, a mais crédula das crédulas, pediu era bom, soterrando, mais uma vez, minha falta de fé na raça humana. Saímos de lá satisfeitos e felizes. Para aqueles que cultuam a comida leve, sugiro que fujam com a mesma tenacidade com que eu fujo de um prato de alface. É comida pra iniciados.

Modismos à parte, o evento, pelo menos, acabou servindo pra me dar assunto pro blog.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

A Fita Branca

Que o ser humano é o animal com maior capacidade de cometer atrocidades contra elementos da mesma espécie eu não tenho a menor dúvida. É um bicho capaz de torturar, escravizar, vingar-se e, mais do que tudo, sentir prazer com isso. Por essa razão é que eu sempre encaro expressões como humanidade ou humanismo, com uma visão muito mais negativa do que a maioria das pessoas tem.

A história está recheada de acontecimentos que atestam a capacidade que temos de cometer atrocidades contra nossos semelhantes, muitas vezes revestidas de legalidade, como a escravidão, impingida aos africanos após a descoberta do novo continente, 500 anos atrás, ou os métodos utilizados pelo Império Romano para controlar as populações das terras conquistadas.

Quando a coisa é antiga, nos é mais fácil ter uma perspectiva histórica. Quando é coisa relativamente nova, envolvendo pessoas do mesmo tempo que o nosso, aí fica um gosto amargo na boca, uma constatação de que somos mesmo capazes de atos e atitudes vis.

Dentre os eventos mais recentes, um que sempre me intrigou foi o nazismo. Custa-me entender como um povo, relativamente culto e educado, como o alemão do meio do século passado, pôde deixar-se envolver e conduzir ou, mais do que isso, ser condutor de um regime que culminou com o holocausto. Tentando entender como isso possa ter acontecido, procuro, constantemente, compreender a gênese do povo alemão. Procuro observar o alemão de hoje, aproveitando as oportunidades que tenho, com boa freqüência, de viajar para aquele país, já há mais de 15 anos. Confesso que as muitas observações que faço, mais me confundem do que trazem conclusões. Na verdade, conhecer o alemão de hoje pouco ajuda a entender o que aconteceu mais de 50 anos atrás. Mais elucidativo seria, talvez, conhecer o alemão de antes das guerras.

Pois o filme A Fita Branca de Michael Haneke nos proporciona, exatamente, uma percepção de como era a população numa época anterior à primeira guerra mundial, retratando a vida numa pequena aldeia alemã. Estão lá presentes a rígida educação, baseada na disciplina, e o estímulo à delação, marcas incontestáveis do regime do Terceiro Reich. Mais forte do que tudo isso, há o olhar duro, sem doçura, das crianças. É inevitável perceber que serão aquelas crianças que, num futuro próximo, vão conduzir o regime nazista até onde ele chegou.

O filme é lento, quase parado. Filmado em preto e branco, bem escuro, sua fotografia ajuda muito a mostrar o ambiente dentro do qual se formatou o regime que construiu nossa história mais recente e forjou o mundo em que vivemos hoje.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Risco e prazer

Já falei aqui, há algum tempo, o quanto imagino ser difícil conviver com a obrigação de escrever crônica todo santo dia. E falei, também, como é perigoso comprar livros de crônicas de autores famosos, correndo o risco de perceber que os textos já haviam sido lidos nos jornais. Por isso mesmo, foi com muita atenção que comprei O Rei da Noite, de João Ubaldo Ribeiro. Tive o cuidado de ler, ainda na livraria, o início de vários textos, para ver se não os conhecia, já que tive, no passado, o hábito de ler sua coluna no Estadão. Como não leio o Estadão há muito tempo (sempre preferi a Folha, embora esta já não me satisfaça), este risco mostrou-se mínimo. Comprei o livro, portanto, com segurança. Foi uma sábia decisão, percebi depois.

Gosto muito mais do Ubaldo escritor de crônicas do que do escritor de romances. Na verdade, só li, dele, dois romances: A Casa dos Budas Ditosos, da coleção Plenos Pecados, tratando da luxúria, foi penoso de ler. Não foi por sentimento puritano, já que não tenho nada contra erotismo e nem mesmo a pornografia. Achei o livro ruim, só isso. O outro romance que li foi Sargento Getúlio, baseado no qual, achei o filme melhor. Pelo menos pela minha ótica, isso não é uma grande virtude para um livro. Provavelmente por causa destas duas experiências malsucedidas, O livro Viva o Povo Brasileiro repousa preguiçoso e virgem na minha estante há muitos anos.

As crônicas de Ubaldo, entretanto, sempre me agradaram muito, como me agrada vê-lo falar em entrevistas na televisão. Seus textos são rápidos e, principalmente, não são datados. Isso é muito raro. Nada pior que uma crônica que só tem vigor quando lida numa época específica.

Este livro, O Rei da Noite, teve o poder de me proporcionar bastante prazer. E é, fundamentalmente, o prazer que eu busco quando compro livros de crônicas, seja do Ubaldo, do Veríssimo ou do Cony. Compro, mesmo sabendo dos riscos que corro. Afinal, quanto maior o risco, mais prazerosa pode ser uma empreitada.