Livros, música, cinema, política, comida boa. Isso tudo e mais um monte de tranqueiras dentro de um baú.

domingo, 25 de fevereiro de 2007

Prazer no conhecimento

Meu cardiologista disse – sim, acredite se quiser, eu tenho um cardiologista. Cada vez que o visito, após os exames de praxe, que invariavelmente mostram que eu estou no bico do corvo, trocamos dicas etílicas e gastronômicas. Enquanto eu lhe dou uma dica de onde comer uma excelente costela em Indaiatuba, ele me ensina onde tem o melhor joelho de porco de Campinas.

Mas voltando ao assunto, ele me disse que, cada vez que o Dr. Drauzio Varella surge no Fantástico, seus clientes aparecem querendo alguma solução definitiva e milagrosa pros problemas de pressão alta ou colesterol. Percebo que ele torce o nariz pro médico mais midiático do país.

Nunca vi Drauzio Varella no Fantástico, pois não assisto o Fantástico. Acho que a última vez que assisti, o programa ainda era em preto e branco. Gostei bastante de seu livro Carandiru e conheço suas idéias pelos artigos que escreveu na Folha de São Paulo e na revista Carta Capital. Pois estes textos foram publicados num livro, chamado Borboletas da Alma.

Não conseguia parar de ler o livro. Levei-o pra Buenos Aires, nas férias, e em cada pausa para descanso que fazíamos, eu corria pra ele. São textos, todos, sobre ciência e medicina. Ele deixa bem clara a sua crença na teoria da evolução de Charles Darwin e consegue justificar, com ela, desde características do corpo até comportamentos psicológicos do ser humano.

Faz uma crítica mordaz à indústria do tabaco e à indústria farmacêutica, mostrando como ambas manipulam a informação, através da mídia, no sentido de maximizar seus lucros, em detrimento da saúde pública. Não poupa o governo (qualquer governo), os grandes órgãos de imprensa e nem a igreja católica, da qual desmascara o caráter pernicioso quando atrapalha o trabalho de prevenção da Aids, dada a sua intransigência em relação ao uso da camisinha.

Enfim, um livro muito esclarecedor e, por que não dizer, prazeroso. Afinal, é sempre um prazer aumentar o nosso conhecimento.

Vinícius

Há filmes que a gente acha que não vale a pena assistir. Ou por não gostar do gênero, ou do diretor ou dos atores. Há aqueles que a gente vê o trailer e se desinteressa e aqueles que, obviamente, sabemos que será uma droga. Há, ainda, aqueles que nos provocam algum interesse, alguma curiosidade, mas que, por preguiça, preferimos deixar pra depois, talvez assistir em casa, quando sair na locadora.

Há, entretanto, filmes que a gente perde por pura bobeada. Por não ter tempo de ir ao cinema, por achar que ele ficará em cartaz mais um pouco e, de repente, o filme some das salas de exibição. Pois foi por pura bobeada, burrice mesmo, que não assisti ao filme Vinícius, quando passou no cinema.

E ontem à tarde, depois de comer uma suculenta chuleta com salada de chuchu, deitado na cama para uma siesta merecida, zapeando a TV, descobri que o filme iria passar no canal TV Brasil. Fiquei em casa pra assistir.

Conheci poesia com Vinícius. E conheci a poesia de Vinícius por causa de suas letras de música. Até então, moleque ainda, nunca tinha me interessado por ela, tendo lido apenas coisas esparsas de Olavo Bilac, Cassiano Ricardo ou Gonçalves Dias. Quando li Vinícius me apaixonei e a sua poesia, fundamentada na métrica e na rima, passou a ser minha referência. E foi justamente por isso que demorei muito pra me interessar pela poesia sem métrica e rima e pela poesia concreta. Demorei muito pra me entusiasmar com Drumond, Cabral ou Bandeira. Quem me curou dessa cegueira foi Ferreira Gullar, quando li o Poema Sujo e Dentro da noite veloz.


Mas, voltando ao filme, não me emocionava tanto desde que vi Meu tempo é hoje, sobre Paulinho da Viola.

Vinícius, o filme, tem depoimentos de amigos e parceiros, tem interpretações de suas obras, tem cenas e fotos da época em que viveu e tem uma narração baseada na linha do tempo, pontuada pela sua vida, as cidades em que morou, seus nove casamentos. Por ter todas estas coisas e não apenas cada uma destas coisas, o filme é tão maravilhoso.

Raramente compro DVDs de filmes pois, em geral, não gosto de ver um filme mais de uma vez. Uma das exceções foi o DVD do Paulinho da Viola. Acho que agora vou ter que abrir uma nova exceção.

sábado, 24 de fevereiro de 2007

Lembranças

Quando a Cecília era pequenina, sempre que eu voltava de viagem, ela me perguntava se eu tinha visto alguém famoso no aeroporto. Lembrei-me disso quando voltei do Rio de Janeiro na semana passada pois viajei perto de Luciana Rabello. Luciana não é famosa, mas está ligada ao que de melhor existe na nossa música, já que além de tocar cavaquinho, é irmã do Raphael Rabello, cunhada do Paulinho da Viola e mulher do Paulo César Pinheiro.

E pensar em Paulo César Pinheiro me faz lembrar de último post da Clélia em seu blog. Sei que sou suspeito, mas realmente o post está ótimo, já que é sobre esse fantástico letrista e poeta. No post, ela desfila mais de 15 músicas e suas letras com os mais diversos parceiros. Todas de primeira. Só eu sei o quanto lhe doeu ter que escolher estas músicas, deixando pra trás outras tantas obras primas.

E com esta conversa toda, lembrei-me de Clara Nunes, que também foi mulher do poeta.

E por isso, resolvi colocar na coluna Pra Ouvir (aí do teu lado direito) algumas músicas dele cantados pela Clara.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2007

Mais a cerimônia do que o prêmio

O Oscar, em si, não tem muito crédito pra mim, já que é um prêmio excessivamente corporativo. Dou mais valor pro festival de Berlim ou o Globo de Ouro. Não posso negar, entretanto, que a entrega do Oscar tem um charme que me seduz. Todo o entorno da festa, com a entrada no tapete vermelho, as entrevistas (antes e depois) e, principalmente, a cerimônia de premiação, com as reações dos candidatos e os premiados.

Entre os concorrentes a melhor filme, só não vi Babel, mas meu favorito, de antemão é Pequena miss Sunshine, a respeito do qual escrevi, inclusive um post neste blog. Seria, aliás, meu filme preferido, mesmo se não estivesse concorrendo.

Melhor filme:
Babel
Os Infiltrados
Cartas de Iwo Jima
Pequena Miss Sunshine
A Rainha


Curiosamente, não vi nenhum dos filmes que obtiveram indicação para melhor ator. O pior é que apenas um deles, O último rei da Escócia, eu estou animado a ver. E isso se deve, justamente à presença de Forest Whitaker (O quarto do pânico, Traídos pelo desejo, Bird ), um ator do qual eu gosto muito.

Melhor ator:
Leonardo DiCaprio (Diamante de Sangue)
Ryan Gosling (Half Nelson)
Peter O'Toole (Venus)
Will Smith (À Procura da Felicidade)
Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia)


Entre as candidatas a melhor atriz, só não vi o desempenho de Judi Dench em Notas sobre um Escândalo. Minha preferida, de qualquer forma, é Helen Mirren, como já escrevi anteriormente. Não fosse por ela, Meryl Streep e Kate Winslet estariam, ambas, no páreo pela minha preferência. Mas Helen Mirren está absolutamente imbatível no papel da Rainha Elizabeth II.

Melhor atriz:
Penélope Cruz (Volver)
Judi Dench (Notas sobre um Escândalo)
Helen Mirren (A Rainha)
Meryl Streep (O Diabo Veste Prada)
Kate Winslet (Pecados Íntimos)

Enfim, o que gosto na cerimônia do Oscar é justamente assisti-la, tendo preferências pessoais. Sem chegar a torcer, gosto de ver algum dos meus preferidos premiados. Mesmo que eu não valorize tanto o prêmio.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2007

Bicho homem

Uma esquina movimentada. Um cruzamento entre duas grandes avenidas, no centro de uma grande cidade. Bastante gente esperando o semáforo. Hora do almoço. Bancários, gente do comércio, gente fazendo compras, gente passeando, um velho, um rapaz jovem.

O semáforo prestes a abrir. De repente, uma gritaria. O rapaz puxa rapidamente das mãos do velho um bolo de dinheiro. Não dá pra ver se é muito ou pouco dinheiro. Não dá pra perceber se são notas graúdas ou dinheiro trocado. O rapaz é mais ágil e se livra do velho. Corre em direção à garupa de uma moto. Seu companheiro o espera.

Parecia tudo resolvido. Não se sabe de onde, porém, o velho arranja fôlego para correr e agarrar o jovem. Segura em sua camiseta. O rapaz tenta se livrar. É mais forte, é mais ágil, mas o velhote é grudento. Não consegue se desvencilhar. O companheiro espera, aflito. Solidário.

Enfim, o velho consegue arrancá-lo da moto. Os dois se engalfinham. O velho agarrado no rapaz. Grudado. Como cola. A moto arranca. Some.

Ambos na faixa de pedestre. O rapaz só quer saber de se livrar do velho e correr. Não importa mais o dinheiro. O velhote só quer seu dinheiro. Não importa o destino do rapaz. Um transeunte decide agir. Mais jovem do que o velho. Não tão jovem quanto o rapaz. Solidário.

Embolam-se os três no chão e aí junta mais um. O rapaz leva uns sopapos, imobilizado. O semáforo abre, mas os carros permanecem parados. Atentos. Solidários.

Não sei o final da cena. Mudamos de rumo. Não é uma boa política, um estrangeiro se meter numa briga destas. Daqui a pouco a polícia chega. Resolve o assunto. Mas fica a imagem na mente e a mente cria.

Pode ser que o rapaz esteja passando fome, que esteja com o filho pequeno doente, sem assistência, sem dinheiro pros remédios. E pode ser que o velhote seja um grande filho da puta, cheio do dinheiro, conseguido através de negociatas sujas e desonestas. Pode ser dono de um grande latifúndio onde escraviza crianças.

Mas pode ser que o velho seja um pobretão aposentado e tenha saído do banco com o único dinheiro que lhe cabe todo mês. Um dinheiro contado, que mal dá pra duas semanas sofridas. E pode ser que o rapaz seja um traficante de drogas, espancador de mulheres. Pode ser o líder de uma gangue de skinheads.

Pode ser que os dois sejam sacanas. Pode ser que os dois estejam fodidos. Não dá pra saber.

O que deu pra perceber é que o ser humano, quando precisa, é capaz de resgatar seus instintos, como todo bicho. Atacando e se protegendo. Tentando defender o seu lado. Cuidando de sua pele.

E também é capaz de ser solidário.


Em tempo: Esta cena se passou em Buenos Aires, mas poderia ter se passado em qualquer cidade grande, como o Rio de Janeiro, São Paulo ou Campinas.

domingo, 18 de fevereiro de 2007

Tempo de samba

De tempos em tempos eu me preocupo com o futuro. Vejo surgirem novos modismos como o axé, o pagode, o funk, a lambada e sempre que isso acontece, parece que se esquecem do velho e tradicional samba. Fico vendo os velhos resistindo, os verdadeiros amantes das nossas raízes, tentando manter a chama acesa, mas fica aquele medo de a chama se apagar, findada a vela.

Minha esperança, portanto, sempre se renova quando eu vejo gente jovem preocupada em não deixar a peteca cair. E fazendo samba de qualidade, samba de raiz. Samba verdadeiro. É com prazer que eu vejo o sucesso de Tereza Cristina, sempre lotando as casas da Lapa como o Carioca da Gema ou o Estrela da Lapa. E com Tereza Cristina, o inseparável Grupo Semente. E à sua frente, empunhando o pandeiro, Pedro Miranda.

E é justamente o CD solo de Pedro Miranda o maior exemplo dessa luta pela sobrevivência do samba. Seu disco, Coisa com coisa, resgata vários estilos da nossa música mais verdadeira. Tem sambas de gente tradicional como Zé Ketti ou Heitor dos Prazeres e sambas de gente mais nova como Teresa Cristina. Tem até uma belísima valsa de Braguinha.

É, verdadeiramente um disco de resistência, desses que não vão vender nada, já que não vai encontrar espaço na mídia, sedenta pelo jabá. Mas é um disco necessário, que nos lava a alma. Como o são os discos de Pedro Paulo Malta & Alfredo Del-Penho, o de Ana Costa e o de Roberta Sá.

Parece até profecia de Nelson Sargento. O samba, agoniza, mas não morre. Alguém sempre lhe socorre. Ainda bem!


Melhor atriz

Há filmes que têm um excelente roteiro, mas que, contando com um elenco medíocre, não conseguem um bom resultado na tela. Há filmes em que os atores conseguem salvar um roteiro sem brilho. E há ainda, aqueles que são sustentados pelo trabalho de um só ator. É o que acontece com o filme A Rainha. É um roteiro quase bobo e um elenco bastante mediano. Insoso até. Acontece que A Rainha tem Helen Mirren. É sua salvação. Sua atuação, como sempre, é mais que exuberante.

Aliás, sua caracterização com a Rainha Elizabeth, nos faz pensar que trata-se da própria, que resolveu descer do trono pra fazer uma ponta no filme de Stephen Frears. Só que Helen Mirren faz muito mais que isso. Ela, realmente, segura o filme. Ela é o filme.

Eu já tinha achado exemplar sua atuação em As garotas do calendário, mas foi no seriado de TV inglês Prime Suspect que eu a vi pela primeira vez e fiquei encantado com seu trabalho.

Não sou muito ligado na premiação do Oscar. Considero o festival de Berlim e mesmo o Globo de Ouro, prêmios mais significativos. O Oscar não tem muito crédito de minha parte. Mas mesmo assim, será um dos maiores absurdos, se Helen Mirren não levar a estatueta esse ano. Um absurdo que nem mesmo a academia de cinema de Hollywood, com todo seu corporativismo, deve ser capaz de cometer.

Nossos vícios e culpas

O filme Pecados íntimos, de Todd Field, começa lento e demasiadamente recortado. As personagens e as cenas vão surgindo, aparentemente sem nexo e sem vínculos entre si. Aos poucos, entretanto, o filme vai mostrando a que veio. E veio pra mostrar o quanto cada um tem seus segredos, seus vícios e suas culpas. O quanto pode ser difícil, para cada um de nós, expiar a própria culpa. E o quanto é fácil apontar o dedo para o vício alheio.

Num elenco irregular, o destaque fica para o excelente trabalho de Kate Winslet, uma atriz de quem eu gosto cada vez mais. Sua atuação em Brilho eterno de uma mente sem lembranças ou Contos proibidos do Marquês de Sade compensam, com folga, aquela bobagem que foi Titanic. Uma atriz que, sem ter os atributos físicos cada vez mais exigidos pela indústria do cinema, consegue nos passar uma enorme carga de sensualidade.

O filme, acima de tudo, mostra que tanto é possível sonhar com um destino melhor, ou ao menos diferente daquele que nos foi traçado, quanto pode ser acertado prestar mais atenção na nossa própria vida e perceber o quanto ela é prazerosa e satisfatória. É um filme que trata, sobretudo, de como é difícil lidar com as insatisfações e o sonho da felicidade.

Carnaval

Minha mãe gostava muito de bailes de carnaval e vivia pedindo pro meu pai levá-la. Sua resposta típica era que baile de carnaval é pra se ir com a mulher dos outros.

Fui a muitos bailes de carnaval quando moleque, mas nunca me senti bem estando neles. Na verdade, sentia-me mal nas duas situações possíveis num lugar como aquele. Se eu ficasse do lado de fora da roda, na arquibancada do ginásio, por exemplo, achava ridículos os caras que estavam no meio da pista, dando voltas olímpicas no salão, com as mãos pra cima e marchando. Mais ridículos ainda, eu achava os que ficavam do lado de fora, olhando o pessoal dançando, quando eu estava no meio da pista. Enfim, nunca me senti à vontade nessas situações. Era um crítico de mim mesmo.

Nunca vi um desfile de escola de samba. Não um desfile de verdade, de uma escola de verdade. Pode ser que, um dia, ainda veja. Ver na TV não tenho paciência. Me parecem todos iguais, todos os anos, todas as escolas. O que eu já vi foram desfiles em cidades menores, como São Bernardo do Campo e Valinhos ou de escolas menores como em São Paulo. Não me empolguei.

Aliás, embora saiba reconhecer o valor do samba de São Paulo, a qualidade de um Geraldo Filme, um Paulo Vanzolini, um Adoniran, o samba paulista está muito longe de me comover como me comove o samba carioca. Nada em São Paulo é comparável a Cartola ou Nelson Cavaquinho. Nem é uma questão de opinião, pois esta, todo mundo pode ter a sua. É uma questão de gosto e emoção.

Por isso, trato o carnaval como um feriado comum, como um 21 de abril que caia na terça-feira. Aproveito o carnaval pra descansar e ir ao cinema. Foi o que eu fiz hoje. E foi uma folia.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

O Rio de Janeiro continua lindo (ao menos para alguns)

Este blog foi, mais uma vez, abandonado por causa de uma viagem de trabalho. Fui pra Macaé e pro Rio de Janeiro. Não há nada de muito interessante pra se fazer numa cidade em que a vida gira em torno do petróleo. Só me restou trabalhar.

Só cheguei ao Rio na quinta feira à noite e o máximo que deu pra fazer foi comer o delicioso risoto de camarão do Siri da Barra, com o qual eu vinha sonhando desde a segunda-feira. Esta é uma rede de restaurantes da qual eu só conhecia o da Ilha do Governador (Siri do Galeão). Há, entretanto, filiais também em Nova Iguaçu e em Vila Isabel. Fui ao Siri da Barra, pois o hotel em que me colocaram ficava na Barra da Tijuca. Indescritível este risoto. Por isso, não falarei mais nada sobre ele.

Na sexta feira, fui visitar clientes e percebi, que naquela cidade, institucionalizaram a sexta-feira de carnaval, já que, as empresas que visitei estavam trabalhando num regime de plantão, como se fosse feriado. Fui muito Mané, aliás, por ter marcado visitas em empresas do Rio neste dia.

No tempo em que eu era moleque, o carnaval começava no sábado e terminava na terça-feira gorda. A quarta-feira de cinzas era utilizada pra recobrar as energias e, por isso mesmo, a maioria das pessoas só voltava a trabalhar neste dia, à tarde. São poucas empresas, hoje em dia, pelo menos aqui, em São Paulo, que preservam esta prática. No Rio de Janeiro, são todas.

Gosto muito do Rio. Gosto da cidade e gosto das pessoas. Desde a primeira vez que fui pra lá eu o achei lindo. E o Rio continua lindo, principalmente quando é visto de cima. Principalmente quando é visto de longe. O Rio é lindo pra quem mora na Vieira Souto. O Rio é lindo pra quem vive na Urca, em Copacabana, em Ipanema, no Leblon e até na Barra. O Rio é lindo pra quem come risoto de camarão.

Mas a cara do Rio é outra pra quem está na Penha, pra quem mora em Bonsucesso, pra quem vive em Santa Cruz. O Rio é outro pra quem fica no sol da Avenida Brasil vendendo biscoitos Extra, uma falsificação dos tradicionais biscoitos Globo, aproveitando o engarrafamento de quem está fugindo da cidade, rumo a Angra, Búzios ou Parati. Em plena manhã de uma sexta-feira de carnaval.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2007

Buenos Aires

Muita gente vive me perguntando por que é que gostamos tanto de ir pra Buenos Aires nas férias. É pelo mesmo motivo que em todo feriado prolongado, a gente quer ir pra São Paulo, enquanto todo mundo quer ir pra praia ou montanha. As pessoas querem tranqüilidade e ar puro. Morando em Valinhos e trabalhando em Atibaia, o que não me falta, durante o ano todo, é silêncio e oxigênio. O que me faz falta são bons filmes, shows, teatro, bons restaurantes, coisas que não existem em Valinhos e que nem sempre em Campinas consigo encontrar.

Em Buenos Aires, além de conseguir encontrar tudo isso, contamos com uma situação de câmbio que é muito favorável para quem tem reais. Com 1 real, compramos 1,33 pesos argentinos. Com essa vantagem cambial, é possível se esbaldar em excelentes restaurantes, shows de música, lojas de CDs e livrarias. E pra quem gosta, há ainda a chance de comprar roupas de couro e roupas de grifes famosas por um preço muito inferior aos encontrados por aqui, mas essa já não é bem a nossa praia.

A geografia da cidade é muito fácil de entender e é praticamente impossível se perder em suas ruas e avenidas, já que existem inúmeros bons mapas distribuídos gratuitamente em hotéis e alguns restaurantes. Pode-se caminhar com tranqüilidade por suas ruas, mesmo à noite, embora a quantidade e os baixíssimos preços dos táxis sejam um convite a este tipo de transporte. Recebemos, entretanto, a dica de um motorista de táxi, de que o metrô é uma opção muito mais fácil e mais barata do que os táxis. Na nossa próxima visita, iremos experimentar.

Essa foi nossa terceira viagem a essa cidade e em cada uma delas, fomos aprendendo a descobrir mais segredos e principalmente a escapar dos roteiros e programas turísticos. O que me encanta é sentir-me como um cidadão comum, não importa em que cidade eu esteja. Por isso, gosto de evitar a sensação de me sentir e ser tratado como turista. Gosto de ir pra rua, fazer o que as pessoas fazem, comer o que comem, diariamente.

E pra completar tudo isso, há nosso gosto pelo idioma espanhol, que me parece um dos mais poéticos que existem. Sua sonoridade nos encanta. Assim como esta cidade.

Volveremos siempre.

Buenos Aires – A Música

Em Buenos Aires não toca só o tango. A cidade tem espaço para todas as modalidades musicais, sendo generosa com manifestações de outros países, apesar de extremamente orgulhosa de sua música, sobretudo o tango e a música folclórica.

Lá, há muito espaço para o jazz, o que criou a chance para o surgimento de artistas locais transitando nessa área, na forma pura ou como influência para uma música própria. Fuçando nas lojas de disco, lendo as contracapas, ouvindo os CDs, indo a shows, descobrimos muita gente interessante, como Roxana Amed e Pedro Aznar.





E por falar em disco, a relação cambial torna uma visita às lojas um grande perigo pra quem, como eu, não tem autocontrole dentro de um lugar como este. Um CD novo, por lá, sai em média 25 pesos, o que representa, portanto, pouco mais de 18 reais. Não foi só por isso, porém, que eu voltei pra casa com 40 CDs. É que em Buenos Aires é possível encontrar muita coisa difícil de se achar em São Paulo. E não falo somente da música argentina não. É possível comprar muitos discos de artistas de toda a América do Sul e de Cuba também. E não só os países de língua espanhola. O setor de discos de artistas brasileiros é sempre muito grande e variado nas lojas portenhas.

Mas, acima de tudo isso, há o tango. E indo várias vezes pra lá, a gente vai, aos poucos, descobrindo algo além dos tangos mais clássicos. Não que os tangos clássicos não tenham sua importância. Têm sim, é claro, mas há muito mais. Com o tempo, a gente descobre que além de Gardel e Piazzolla, há outros gigantes, tão ou até mais respeitados, como Aníbal Troilo e Homero Manzi.

E há shows de tango por toda a cidade. De todos os tipos e de todos os preços. Alguns absurdamente caros e outros inacreditavelmente baratos. Desde os super estereotipados, dirigidos ao turista mais desavisado até aqueles só pra iniciados no assunto. Em nossa primeira viagem, preocupado com o perigo de cair numa dessas arapucas armadas para turistas endinheirados, pedi ajuda a uma colega da filial de Buenos Aires da empresa em que trabalho e ela me fez uma reserva na Esquina Homero Manzi. O show foi magnífico, com uma pequena orquestra, um par de cantores e um trio de pares de bailarinos de excepcional qualidade. Tão bom, que na segunda viagem que fizemos pra lá, voltamos ao mesmo show, com o mesmo prazer da primeira vez.

Agora, nesta terceira viagem, resolvemos experimentar mais e fomos a 3 shows muito diferentes. O primeiro, foi no Café Homero, em que uma pianista e um rapaz tocando bandoneon eram a base segura para que um casal de bailarinos e uma cantora, parecida com Janis Joplin, desfilasse um rosário de tangos magníficos, quase nenhum muito conhecido. Pouquíssimos estrangeiros no local. O nome da cantora: Lucrecia Merico. Fabulosa!




O segundo show, fomos assistir no café Tortoni. Provavelmente o café é o mais tradicional e histórico da capital argentina e certamente um dos mais direcionados para os turistas. O show foi péssimo. Para uma platéia de umas 60 pessoas, toda de estrangeiros, a produção impecável se preocupou em mostrar muito mais malabarismo do que dança. Cantando apenas tangos ultra conhecidos, um cantor bastante competente arriscou-se até numa canção de Tom e Vinícius, pra adular a platéia brasileira, metade da assistência. De bom, somente os músicos (um piano, um baixo e um bandoneon) excelentes.

O terceiro show, foi na casa de tango Pigmalion. Certamente éramos os únicos estrangeiros e certamente os únicos não especialistas em tango. Fez parte do show o cantor Tito Reyes, remanescente de uma época mais tradicional, último cantor da legendária orquestra de Aníbal Troilo. Cantou de forma emocionante e contou muitas histórias interessantes. Um show bastante difícil pra quem não domina 100% a língua espanhola. Mas o ponto alto foi a apresentação de Nestor Marconi tocando bandoneon. Reconhecido internacionalmente, é, possivelmente, o artista de tango mais importante da atualidade. Indescritível sua forma de tocar.



Mas o que me alegra é perceber que o tango está mais ativo e atual do que eu imaginava e, assim como ocorre com o samba no Brasil, cada vez mais, há jovens músicos estudando e executando tango por toda a cidade. E uma das mais felizes surpresas foi encontrar, tocando nas ruas de San Telmo, num domingo de feira, a Orquestra Típica Imperial. Jovens moças e rapazes executando um tango vigoroso, ao mesmo tempo tradicional e moderno.


Buenos Aires – A Comida

Descobrimos um excelente site na Internet o Guiaoleo que nos ajudou muito a escolher entre as dezenas de bons restaurantes que há na cidade. É um fórum onde os clientes dão notas e fazem comentários sobre a comida, o serviço e o ambiente de muitos restaurantes de Buenos Aires.

O porteño janta muito tarde. Se você chegar a um restaurante às 8 horas da noite, vai pegar os garçons enxugando os copos. Se quiser jantar às 10 da noite, faça reserva, pois neste horário eles estarão lotados. Fomos, quase todos os dias, jantar entre 11 horas e meia noite.

Buenos Aires não tem só carne. Tem restaurantes de todos os gêneros, como São Paulo. E, mais do que em São Paulo, tem um bom número de restaurantes de comida espanhola, sobretudo as de orientação basca. Fomos em três, sendo que dois deles são fenomenais. Inãki e o Centro Vasco Francês são dois restaurantes esplêndidos. O primeiro, mais moderninho e o segundo, um salaozão bem convencional, ambos tratam com maestria os pescados e mariscos, como é tradição da culinária basca. Comemos camarões, lagostins e lulas em risotos inesquecíveis.

Tentamos a pizza e fomos justamente naquela que era a mais bem votada no guia. E isso só reforçou minha convicção de que só se deve comer pizza em São Paulo. Nem na Itália comi tão boas quanto as da capital paulista. A de Buenos Aires era péssima. Massa péssima (parecia bolacha) e recheio péssimo. Não vale a pena!

Buenos Aires não tem só carne. Mas acima de tudo, tem a carne. Sou um carnívoro inveterado e praticante. E a carne argentina é muito especial. Muito mais macia que a nossa. E isso se deve, sobretudo, às raças do gado de lá e de cá, como já explicou István Wessel:




O gado argentino é formado por raças européias, como a Aberdeen Angus e a Hereford. Por uma questão genética, essa carne tem uma marmorização maior, ou seja, possui finas camadas de gordura entremeadas na carne, o que lhe atribui maciez, e tem um contrafilé grandão, que vai gerar o célebre bife de chorizo.

As raças zebuínas, originárias da Índia, são maioria no gado brasileiro, "azebuado" por excelência. Os animais, mais rústicos, demoram mais para chegar ao abate. O resultado é uma carne mais dura e, por outro lado, saborosa, com a gordura externa.

Mais do que carne, os argentinos aproveitam deste boi todo tipo de partes e miúdos, que eles chamam de achuras. Nem tudo eu me animo a comer, mas gosto muito das mollejas (glândulas que se encontram em volta da traquéia) e, principalmente, os chinchulines (intestinos), meus preferidos.

Em Buenos Aires não há só os restaurantes luxuosos e grandes. Há também os “bodegones”, espécies de botecos, absolutamente desprovidos de cuidado estético e, em muitos casos, sem muita preocupação com a higiene. Mas em alguns destes restaurantes, se come uma comida esplendidamente deliciosa.
Em busca da melhor empanada da cidade, escolhemos os 5 lugares mais elogiados no guia e saímos em diligência. A empanada que elegemos foi servida num lugar que dava até medo de entrar. Uma mesona única, rústica, de madeira, cercada de bancos, para ser utilizada pelos primeiros 8 clientes que chegarem. O resto, come em pé. O serviço fica a cargo de um índio mal encarado, jeito de poucos amigos, que fez uma cara pior ainda, quando pedi um par de talheres pra Cecília comer sua empanada, que qualquer habitante daquele país sabe que deve ser comida com as mãos. Mas como é que ela poderia separar os pedacinhos de cebola, pimentão e batata que vinham junto com a carne do recheio? Meio a contragosto, forneceu-me um par de garfo e faca de plástico, desses de festa de aniversário, e pudemos saborear a melhor empanada da cidade, sem sombra de dúvidas. Depois, fui conversar com o índio, que tinha cara de mal, mas era boa praça, e que me explicou que aquelas empanadas eram do tipo salteña, da região de Salta, de onde ele vinha. Explicou que essas são as verdadeiras empanadas e que aquelas feitas em Buenos Aires não são autênticas, pois não têm sabor de nada.

E a melhor carne que comi, depois de ter almoçado em restaurantes de luxo e comido muita carne boa, foi no último dia, em um bodegón no bairro de San Telmo, em que deu muito nojo tocar no saleiro, absolutamente sujo e gosmento. Mas quando mordi o primeiro pedaço do meu bife de chorizo (imenso), decidi que poderia morrer ali mesmo, tão grande a satisfação que senti. Foi a melhor carne que comi na minha vida. E fiquei aliviado por não ter sido aquele, o primeiro restaurante da viagem, pois, nesse caso, teria sido o único. Todos os dias e todas as noites. Não teria tido comida basca, nem empanadas, nem shows de tango.

Foi a melhor carne e a menor conta!

Buenos Aires – Os Livros

Há um mito de que em Buenos Aires há mais livrarias do que no Brasil todo. Talvez seja exagero, talvez não. O que se sabe, é que, enquanto a média de leitura, por pessoa, no Brasil é de menos de 2 livros por ano, na Argentina é de 8. Quatro vezes mais!

Andando pela Avenida Corrientes, em cada quadra, na região central, há pelo menos 3 livrarias, de cada lado da avenida. E são de todo tipo. Desde as livrarias mais modernas, com vitrines de lançamentos, até as livrarias mais populares, com ofertas imperdíveis de livros clássicos, novos ou usados, a 5 pesos cada.

Com dois endereços na Rua Florida, a terceira unidade da livraria El Ateneo, na Av. Santa Fé, é a mais charmosa. Instalada num antigo teatro de ópera, suas infindáveis prateleiras de livros são um convite a que permaneçamos lá por muitas horas. Onde era o palco do teatro, um café aconchegante.

Aliás, ao entrar em qualquer café de Buenos Aires, tanto de manhã quanto ao cair da tarde, é muito comum ver suas mesas cheias de gente lendo, enquanto tomam uma xícara de chá, café, cerveja ou vinho.

Nessas 3 viagens, compramos muitos livros em espanhol, de escritores de vários países da América Latina. A maioria custou muito barato. São livros de Borges, Vargas Llosa, Garcia Marques, Cortazar, Ernesto Sabato e tantos outros, que vão nos encher a vida de prazer e fazer melhorar nosso domínio da língua espanhola, para que sejamos cada vez mais felizes nas visitas a Buenos Aires.

Buenos Aires – Os Táxis

Os táxis em Buenos Aires são um assunto à parte. Todos com a inacreditável combinação das cores preto e amarelo, a maioria dos carros estão caindo aos pedaços. São milhares de carros percorrendo, constantemente, a cidade em qualquer horário, com motoristas, quase todos, loucos.

Numa época de grande crise econômica, o governo argentino liberou uma quantidade de concessões para dirigir táxis muito maior que a média da maioria das cidades no mundo. A conseqüência foi que, para se proteger do desemprego, um número muito grande de pessoas resolveu encarar essa solução. O resultado é um monte de gente sem a menor aptidão para conduzir automóveis, trabalhando como taxistas. Além disso, por causa do desemprego, é possível encontrar todo tipo de profissional dirigindo esses táxis. Isso garante uma variedade de conversas muito enriquecedora.

Brasileiros x Argentinos

É do professor Pablo Alabarces a frase: “os brasileiros amam odiar os argentinos, enquanto os argentinos odeiam amar os brasileiros”.

De fato, se tirarmos essa rivalidade infantil por causa do futebol, o que eu cada vez mais tenho percebido é que os argentinos têm muito mais boa vontade e simpatia conosco do que o contrário. Na verdade, eles sentem muita admiração pelo Brasil e por isso, procuram se informar muito sobre nossa música e nossa política. Qualquer motorista de táxi conhece fatos sobre o presidente Lula enquanto é raro algum brasileiro que saiba o nome do presidente Argentino.

No caso da música, nas lojas de discos, as estantes reservadas aos de artistas brasileiros são muito grandes e variadas e o que mais surpreende é que não são só os artistas óbvios que estão presentes em suas prateleiras. Pode-se encontrar discos de Egberto Gismonti e Hermeto Paschoal em quantidade maior do que muita loja do Brasil. A maioria dos discos é de artistas importantes da MPB, como Chico Buarque e Caetano Veloso. Não vi nenhum disco de dupla sertaneja ou de grupo de pagode, o que prova que, em termos de música brasileira, eles têm um bom gosto.

Desde Carmem Miranda, os argentinos têm adoração pela nossa música e isso tem feito com que muitos artistas de lá se interessem em mesclar nossas canções ao seu repertório. Um exemplo disso é um ótimo CD duplo de Pedro Aznar, chamado Aznar Canta Brasil, em que ele interpreta versões de músicas de Milton Nascimento, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, Egberto Gismonti, Lenine, entre outros.

E até se atreve a cantar em português. E o pior, é que fica bom.




Buenos Aires – Futebol

Regra número 1 para uma boa convivência em Buenos Aires: nunca converse sobre futebol.